quarta-feira, junho 08, 2005

Um pouco piegas, convenho, o post de há bocado. Cabe a todos, a pieguice, tal como o fundo do poço.
Detesto calor. Madrugada e manhã agitadas, com uma petite innondation. A casa foi tomada por uma horda de canalizadores e pedreiros. Refugiei-me numa sala e de lá faço pequenas saídas para soletrar algumas palavras de incentivo que, penso, se devem dizer nestas ocasiões: "então, está díficil?", e uns tímidos e meditativos "muito bem, muito bem". A minha empregada? Não sabem ainda se será possível evitar dois dias sem água - fria, da quente já fui desapossado. Valha o calor para alguma coisa. No ar, pela janela - voltada a Norte - que tenho semiaberta chega o aroma de pimentos assados. Será para acompanhar sardinhas? Lembro-me que a minha cozinha está quase desfeita, vou almoçar fora? A minha empregada? Detesto calor. Sexta-feira tenho empregada? Não sei se ela vem, há feriados que ela despreza, outros, quase desconhecidos, que preza, nunca sei. Insulta jocosamente os pedreiros e canalizadores, mero jogo, "ai o que vocês fizeram, que sujam tudo, então isto era preciso?" Ou não ouve a resposta ou se empenha em escutar uma explicação técnica. Acaba é por não se interessar suficientemente pelo meu bem-estar, não vem aqui dizer-me se posso almoçar em casa, não queria sair, detesto calor, sei que pretextará que não me ouviu chamar. Há gente que vive dentro de obras, anos a fio, amigos meus, creio que são dependentes da poeira e do movimento. Que tudo isto acaba por distrair, este movimento de gente e coisas.

terça-feira, junho 07, 2005

Para jantar esta noite
De manhã cedo já eu estava à espera. Há muito tempo que o não via, tinha-lhe falado ao telefone, anos atrás, mas tinha sido impossível um encontro. Passeava no jardim em frente, para atenuar o desgaste da espera quando percebi que era ele que estava a meu lado. Abatido, mas já convalescente da fractura, mantinha o ar pensativo e optimista de sempre. Cumprimentou-me afavelmente, mas percebi que se guardava para o estudo da situação. Conduzi-o, e ao assistente que o acompanhava, para dentro da casa. Lembrava-se ainda de tudo e, sem esforço nem auxílio, chegou lá. Perguntou-me o que tinha eu escolhido, lamentou o sistema, que considerou de mau, por pouco flexível, deu algumas imperceptíveis instruções ao assistente, que as anotou, e dirigiu-se ao outro lado da casa, onde a cena se repetiu "Isto amanhã não pode estar aqui" disse-me, no final, em ar de despedida. Foi assim que fiquei a saber que aceitara. Pensei, levado pelo entusiasmo, solicitar-lhe o número do telemóvel, mas não tive coragem. O assistente voltou mais tarde, está a preparar as coisas e amanhã estará ele aqui, às oito em ponto. Pelo que pude compreender, são três dias. Três dias que porão fim a anos de preocupações e desgostos.Oiço, agora, o martelar, ali ao lado, e regozijo-me enquanto o meu cérebro zune.
Amanhã começará a mudar-se a canalização cá de casa.
Vai fechar a Byblos... não sei se foi a primeira livraria portuguesa na internet mas foi nela que comprei os meus primeiros livros em português on line.
Foi a crise, dizem os responsavéis num mail simpatico e triste em que anunciam o fim da livraria.
Tenho pena e saudades - já, mesmo que ainda faça uma última encomenda.

segunda-feira, junho 06, 2005

E ia-me esquecendo...
Faz hoje anos que se deu a ofensiva orquestrada pelo complexo militar-industrial capitalista anglo-saxónico contra o status quo franco-alemão.
D- day. Milhares de soldados norte-americanos, britânicos e dos domínios do Imperio Britânico, do Canadá à Nova Zelândia deram as suas vidas, há 61 anos nas praias da Normandia.
A ler "Now for the British revolution" de Anthony Browne na Spectator (conteúdo de acesso grátis).
Aviso: pode ser considerado insuportavelmente inglês (mas prefiro o insuportável inglês ao insuportavelmente francês).
Dei por encerrado, por medo de ser apodado de miserabilista. A questão do miserabilismo português é que, ao lado do que tão justamente criticado enquanto atitude da classe média, há miséria real, gente a viver miseravelmente com meia dúzia de tostões. E ao lado dessa, muita mais a viver muito mal nesta "terra museu em que se vive ainda,/ com porcos pela rua, em casas celtiberas" (Sena). Tudo isso complica muito o achar sensato e "normal" que por meia dúzia de anos se tenha pensões vitalícias que um alemão não desdenharia, acumuláveis com outras benesses desta gigantesca "Casa da India" em que se tornou parte do país e onde, à porta, espera ainda muita gente - se bem que já sem o garrido e o pitoresco de outrora no vestir e no gritar por qualquer coisinha - as migalhas europeias do bolo que lá dentro alguns repartem. São mais do que soíam, os que lá estão dentro, é verdade, mas ainda são poucos.
Em suma, o problema com estes nichos de previlégios, num país que é de invejas e ressentimentos, é que dificulta qualquer sentido de "togetherness", da intimidade, do empenho que deve existir de todos com o destino da res publica,
Com situações destas, e explicadas destes modos de azedo mal-estar, a maioria dos portugueses sente o poder - e quem o exerce - como uma longínqua coisa, feita por poucos para alguns, um bando que se porta como em terra conquistada, e reage pelo ensimesmamento, pela descrença.
E tem razão: gente desta não leva ninguém a lado algum.
E dou por encerrado o assunto dos vencimentos e gorjetas dos políticos neste blog.

domingo, junho 05, 2005

Caro 1º Ministro,
Vi-o há pouco na televisão, de barba por fazer, com uns modos muito sacudidos, diga-se mesmo, desabridos, como quem responde às impertinências de um criado, a falar de ética e lei tudo isto a propósito da situação de alguns dos seus (nossos) ministros.
Lembrei-me então de contar a V. Exia., uma história verídica acontecida em Londres há uns tempos, isto para ver se V. Exia entende melhor o que está em causa. Foi assim:
seis executivos de um banco privado inglês resolveram jantar fora, a um dos mais caros e exclusivos restaurantes de Londres. O jantar foi, ao que se diz, muito agradável e a conta a condizer com a raridade de alguns Bordeaux preciosos. Para abreviar a coisa: custou o jantar aproximidademente 14000 contos (sic), (70 400 euros - idem, sic) como se soube pela indiscrição de um criado. O conselho de administração do Banco resolveu, ao saber, prescindir de imediato dos serviços dos convivas seus trabalhadores, porquanto a época era de crise, e o comportamento dos extravagantes era pouco consentâneo com algumas medidas de restrição de crédito aos clientes do banco e poderia ainda ser mal entendido pelos depositantes que tinham obtido magros resultados das suas aplicações financeiras.
Concordo que o asssunto levanta problemas delicados de liberdade, mas não deixei de estimar a reacção imediata (e educada) do banco.
V. Exia, não está a perceber ao que vêm os problemas delicados relacionados com a liberdade de cada um? É isso mesmo: o jantar não foi pago com o cartão de crédito do banco. Os 70 000 euros, os 14 00 contos saíram, integralmente, do bolso de cada um dos "gourmets".
Percebe agora, Caro 1º Ministro?
Leia tudo - ou parte - aqui

P.S. Li agora que Freitas do Amaral se solidariza com os seus colegas de gabinete e acha que tudo é legal. Pois é, ninguém diz o contrário. O problema não se resolve ou contém nesse estreito positivismo, como muito bem compreendeu a direcção do Barclays... Os alegres comensais também não cometeram nenhuma ilegalidade... Enfim, o Barclays é o Barclays, um grande banco europeu, passe a publicidade, e o nosso governo é o governo de um pequeno e cada vez mais pobre país.
No post anterior fala-se de gentlemen, eis aqui uma definição do Cardeal Newman.

sábado, junho 04, 2005

Vai por aí um burburinho que não compreendo com os ordenados e pensões dos ministros.
Sendo certo que não perfilho a tese de que os princípios não têm de vir depois do dinheiro, a realidade não é essa: primeiro o pé de meia, depois os escrúpulos.
E poderia ser de outro modo, num país pobre? Esta gente com fomes ancestrais - mesmo quando eram fomes "remediadas" - criou "isto", este estado de coisas para, se não enriquecer, ao menos poder copiar os tiques de "aisance" que vêem lá por fora. Daqueles dinheiros não podem eles prescindir sem prejudicarem planos meticulosos de há anos: a "segunda residência", o arranjo da leira que herdaram dos pais, a ajuda aos filhos, etc, etc.
Querem o quê? Que se comportem como gentlemen? Não o são. E não o sendo não se lhes peça o que não podem dar. Eles que fiquem com as pensões... eu só peço que as apliquem na educação dos filhos. Assim, daqui a três ou quatro gerações somos capazes de ter alguém que não venha falar de lei quando a questão é de mera vergonha na cara. Ou de panache.

quinta-feira, junho 02, 2005

"I once employed an old Dorset labourer, a tall, slim, aristocratic figure, with an elegant, refined nose to match; he bore the well-known name of an ancient and distinguished Dorset family, and I have no doubt was well descended. He was decidedly a canny, not to say crafty, man. I gave him a holiday at Whitsuntide to visit his old home, but he overran the time agreed upon and returned some days late. Before I could begin the rebuke I proposed to administer, he produced a charming photograph of a ruined abbey near his old locality, and handed it to me as a present. «I thought upon you, master, while I was away, and knowing as you was fond of ancient things I've brought you this picture.» I was completely disarmed, and the rebuke had to be postponed «sine die»".

Do "Grain and Chaff from an English Manor" de que falei ontem.

quarta-feira, junho 01, 2005

Tenho lido com muito gosto e notável proveito para a minha abalada boa disposição, "Grain and Chaff from an English Manor" de Arthur H. Savory, um "Harrow's boy" que escreve em 1920 sobre a vida da sua aldeia. Humour o suficiente para distrair do circunspecto e sisudo ar que o governo tomou na esperança de nos fazer engolir a pílula dos aumentos e passar em claro o facto de ter descaradamente mentido aquando das eleições (sim, mais do que o habitual e por todos já esperado - e descontado).

David Marshall, "June Landscape"

Em Junho, de novo.

terça-feira, maio 31, 2005

"A primrose by a river's brim
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more,"

Wordsworth, "Peter Bell" 1798

segunda-feira, maio 30, 2005

E foi o não. Pena que parte dele o seja em nome de um modelo social e económico caduco. No entanto, a parcela que foi protesto contra a arrogância, a falta de respeito pelo querer dos eleitores chega para me dar uma agradável boa disposição nesta Segunda-Feira enublada.

sábado, maio 28, 2005

Vou ler, com alguma volúpia, o artigo de Cadilhe sobre a função pública e a paternidade cavaquiana do seu triste estado. As evidências mais comezinhas, tomam, em Portugal, o aspecto de revelações assombrosas. Qual era a dúvida? Afinal, Cavaco não é social-democrata (e populista)? E não foi, toda a sua vida, funcionário público?
"L'Europe retient son souffle" escrevia um jornal francês. Nota-se que houve aqui um esforço de contenção para não escrever, o Mundo, a Galáxia, o Universo.

Entretanto, Gerhard Schroeder e Zapatero, dois grandes estadistas, apelam ao "oui" que esse outro gigante da história europeia, Chirac, parece não conseguir assegurar. Segundo eles, o "oui" propiciaria a felicidade da cornucópia da abundância, aquela mesma que era suposto ter derrramado sobre os europeus post-Maastrichtianos todas as benesses. Por enquanto, lembrava alguém, há o desemprego e modelos caducos na França e na Alemanha.

sexta-feira, maio 27, 2005

Com as subidas de ivas e outros impostos e apesar de todo o falatório sobre o assunto, o déficit baixará umas ridículas poucas décimas: Much ado about nothing.
A seguir com algum interesse o ar profundo e de caso sério afivelado pelo primeiro-ministro. A mim, que serei sempre um desejeitado aprendiz nestas andanças das coisas graves da pátria, parece-me uma reedição do Conselheiro Pacheco e preparo-me para me divertir um pouco (inconsciências...).

quinta-feira, maio 26, 2005

Não acredito, tenho de confessar, que da discussão saia sempre a "luz". A "luz" pode surgir da calma e do sereno assentimento (e de ambas as situações pode surgir de igual modo o negrume, mas adiante). Tenho de convir, porém, que se a serenidade tem em mim um admirador, não deixo de, cândida ingénua e romanticamente, considerar a discórdia, a confusão e mesmo a algazarra como alfobres previlegiados de ideias, de "vida", de "inovação". Fraquezas...
Por isso, ficarei deliciado com a vitória do não em França, se tal ocorrer, e anseio pela bagarre que se seguirá. E perante a pobreza da vida nacional (e da minha vida mental) sempre é um assunto que nos ajudará a combater o tédio do Verão.

terça-feira, maio 24, 2005

Caloraça, o governo-sonso-é-para-nosso-bem-etc, pó, secura, 33% de humidade, 21% de IVA, algum desalento. Penso, com alguma firmeza (a que possa restar dos dias frescos), em exilar-me lá para Vigo.
Post Eu-bem-dizia:
Vd. o que se escreveu aqui a 17 de Março:
"Ontem, uns senhores muito irritados a propósito das declarações do Doutor Victor Constâncio (...). Não percebo a irritação: ele é socialista e socialista é a maioria tão abundantemente eleita. E os socialistas sobem impostos. Esperavam outra coisa?"

segunda-feira, maio 23, 2005

Não sei a que propósito, lembrei-me de Tolentino. Fica o soneto célebre (ainda é?).

O colchão dentro do toucado
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-lhe o colchão, é forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada."

"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

domingo, maio 22, 2005

P.S. O tom inflamado também se aplica às coisas internacionais: as "considerações" de Mário Soares sobre o "não" ao tratado europeu soam a retórica de botica de província. Não se preocupem, repito, tudo está como sempre. Mas o Soares ainda o percebo: o Nobel da Paz - que, suspeito, ele almejava acima de tudo, nunca veio e, arredado dos areópagos internacionais de primeira plana (decorreu por estes dias uma reunião de laureados com o Nobel para reflectirem sobre o estado do mundo...) dá-lhe para estes arroubos de notabilidade de terra pequena.
Este país parece ansiar pela calma salazarista polvilhada de betão e eventos (expos, euros, etc) ... e não suportar outra coisa: pelos jornais, pelos blogs, por "aí", um clima de alarme, de iminência de catástrofe que não percebo senão pelo desespero da normalidade, que é, onde há vida, por vezes, um pouco tumultuosa. Mas é assim mesmo: há cem anos estávamos pior (já aqui o disse... e nunca estivemos muito melhor, afinal...), tenham calma, leiam, passeiem, tomem uns chás de tília, mas acalmem-se, é mesmo assim, não há muito a temer. E tentem falar - e escrever - mais baixo. Entretenham-se sem incomodar os outros.
Creio que os posts de ontem são um pouco repetitivos. As situações persistem, a gente repete-se. Triste fado.

sábado, maio 21, 2005

A Divina Guarda parece disposta a contribuir para a resolução do problema português distribuindo alguns milhões dos lotos europeus por cidadãos nacionais. Na eventualidade de estar a ser lido por um dos felizes contemplados, o conselho é: tudo lá fora, já - dentro da maior legalidade, claro. Mande vir na proporção do que precisar, nem um tostão a mais.
Esta gente não é de fiar, cuidado com a carteira.
O actual governo vai dificultar, como se esperava, a normalização do que resta do mercado do arrendamento. Qualquer funcionário do ministério pensa que sabe como é que os proprietários de imóveis devem gerir os seus interesses... Se alguém possuir apenas alguns milhões em imóveis é tratado pelo governo como um adolescente desagradavelmente expectante e palermamente exigente, a ser despachado com rudeza por um qualquer. É preciso ser milionário, - mas em cash ou em bens "lá fora" - para pôr os ministros e demais gentalha em guarda, para poder pegar no telefone e ordenar: "tenho muito gosto em tê-lo a almoçar comigo hoje. Apareça no hotel" Lembram-se?

sexta-feira, maio 20, 2005

Ouvi o Isaltino dizer aquilo do outro, do Mendes, e o tom, de uma genuína, antiga e, infelizmente já rara, má-criação portuguesa, de despique de merceeiros em chinelos de ourelo fez-me rir com gosto, como há muito tempo não ria.
Portugal moderno? O Portugal moderno do português de sucesso é isto, do mesmo modo que há perto de 200 anos a modernidade de então assentava mais sobre o Silva Carvalho, o homem imprescindível dado a arranjos de dinheiros, ou sobre a incompetência de Freire, ou no optimismo ingénuo de Silveira que no cosmopolitismo e educação mais vagamante europeia de parte da aristocracia liberal, preterida por D. Pedro IV nos negócios da governação.
Ainda, por razões várias, sofremos dessa fractura, entre a gente que sabe como é, ou o sabe apenas daquele modo, ou seja, que causava engulhos a um gentleman (o cunhado de Eça, o Conde de Resende, era inaproveitável para Governador civil por uma questão de mera decência) e a gente mais civilizada que olha, como se olhasse de fora, num olhar de estrangeirada tristeza, a miséria nacional, o reino ignóbil do necessário.
A questão reside, parece-me, na questão mesma do carácter do necessário, mas a questão, por espinhosa, tem sido evitada, com algum egoísmo, diga-se, pelos indígenas mais europeizados.

quinta-feira, maio 19, 2005

Quanto à "constituição" europeia, o autor deste blog diz não: pelo método seguido na sua elaboração e pelo seu conteúdo, um cruzamento de estado providência francês, com os tiques autoritários da mesma origem. Confessa-se, porém, que a leitura do documento foi apressada, a condizer com a sua feitura, aliás... e incompleta, mas nada do que tem ouvido e lido o fez mudar de opinião ou sequer levá-lo a pensar em tal.
Consulte-se o site fundado por JPP.

terça-feira, maio 17, 2005

O Almocreve das Petas faz hoje dois anos.
Os parabéns merecidos por tão provecta idade.
Está frio para o tempo, é verdade.
Eu não deixo de estimar e ainda há bocadinho estive com o aquecimento ligado enquanto lia "A guerra de sucessão" do Napier.
Dito isto com este ar de confidência indiferente que era o usado nas cartas de família para os despropósitos do tempo (mas não faltavam verdadeiros entusiastas da metereologia) retorno à leitura, depois de dar uma volta higiénica pelos blogs.

segunda-feira, maio 16, 2005

Dos jornais, e ainda em noite de Domingo, assuntos de 2ª Feira:

"O Avante!, órgão central do PCP, «reabilitou» nas duas últimas semanas o dirigente comunista mais polémico de sempre. Após um longo período de silêncio, Estaline voltou a estar em foco no semanário comunista a propósito do 60.º aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa"

Apetece dizer "Deixai os mortos enterrar os seus mortos..." mesmo que tal actividade tome foros de um delírio insano. Mas enquanto estes se ocupam de tais assuntos, a facção menos ingénua, trata de reescrever a história como se pode ver aqui.

Por este andar, qualquer dia veremos como o heróico povo francês, liderado pelo diligente funcionário de Vichy, Mitterrand, libertou Londres do domínio nazi.

sábado, maio 14, 2005

Leio a "Guerra da Sucessão - D. Pedro e D. Miguel" de Napier. Alguns relatos de trapalhices e teimosias e eis-nos a pensar que "tal qual como hoje".

sexta-feira, maio 13, 2005

Esta coisa que surgiu agora, isto dos sobreiros, vê-se logo que não há corrupção nenhuma. Voyons... mil casas em Benavente e ainda dois hotéis ? Esta Brandoa bucólica de classe média não precisa de se impor pela corrupção: é uma ideia de mau gosto, impõe-se por si às imaginações betuminosas de autarcas e directores de serviços que, todos a acham boa, moderna, europeia e acham soberbo ir para lá, "pra Benavente, pró golf".
Os Espirito Santos não precisaram de gastar um tostão.
Com estes pedaços já escassos de frio de Maio faço casulos para sonos espessos de inverno e, apressado, adormeço; o livro que leio tomba com o estrondo de ainda uma vez falhar equilibrá-lo sobre os outros, na mesinha-de-cabeceira. Sorrio benévolo da aselhice destes gestos de mundo acordado e durmo sem escrúpulos a noite apócrifa.

quarta-feira, maio 11, 2005

Por acasos vários tenho lido sobre o dia-a-dia na Grã-Bretanha durante a guerra. Aquela gente comemora com orgulho, em memórias e testemunhos, os tempos terríveis. Lembram a união do povo perante o perigo, as acções corajosas, os actos heróicos e, duas linhas abaixo, os pequenos egoísmos, as más vontades - para receber as crianças evacuadas de áreas expostas a bombardeamentos, por exemplo, ou para colaborar em actividades essenciais -, aquilo a que um francês chamaria a "miséria humana" e que eles relatam como vulgares peripécias com que aligeiram os seus textos. Quanto a lamentos não existem, todo o entusiasmo narrativo é posto no contar como se resolveram os problemas ou como conviveram com eles. O tom é de algum desapego, contido, mas é daí que nasce um incrível - por sólido e tocante - sentimentalismo, sem a deliquescência continental.
Gente assim é difícil de vencer.

Aaron Bohrod "The Sweet Life"

Esta tela era para "ilustrar" um tédio lisboeta de Cesário... Intento falhado, mas fica o quadro.

terça-feira, maio 10, 2005

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo irado,
Que do contentamento são espias.

Luís de Camões

segunda-feira, maio 09, 2005

"People hardly ever make use of the freedom they have, for example, freedom of thought; instead they demand freedom of speech as a compensation."

Kierkegaard

domingo, maio 08, 2005

O Mar Salgado faz dois anos blogosféricos, isto é, um ror de tempo.
Os muito parabéns do Impensavel.
Hoje, nos noticiários da uma da tarde das estações de televisão internacionais, o assunto era as celebrações do Dia da Vitória, da vitória dos aliados sobre os nazis, do fim da 2ª Guerra Mundial
Em Portugal, os telejornais tiveram como notícia de abertura questões de futebol, asssunto que ocupou os primeiros seis ou sete minutos do noticiário.
Não me espantei: está a condizer com o resto.

sexta-feira, maio 06, 2005

O Abrupto... Tenho de confessar que, por vezes, je le trouve presque agaçant. Mas leio-o, não para saber de recados políticos subliminares - que nem entenderei - mas as outras coisas, os vulcões, a astronomia, os livros descobertos, as coisas simples que ele lá põe de manhã. E leio com gosto isso porque percebe a gente que ele gosta daquilo, das lavas, das órbitas distantes, dos livros descobertos em alfarrabistas com um entusiasmo infantil que o embaraça (e ele sabe disso e joga com isso inteligentemente, mesmo quando se perde, por vezes, em narcismos menos infantis, tentando com que tudo reverta a favor de uma casualidade bem intencionada). Ah, lê-se bem.
Bom aniversário!
Novenas de Maio

"[...]
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura. . .
E sou desgraçado!
Águas do rio! Águas dos montes!
Cantigas d'água pelos montes,
Que sois como amas a cantar.. .
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo êsses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de côr!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vêzes.
Assim como êles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instância do padre dizia (e chorava):
"Não tenho nenhum.
[...]"
"António"
António Nobre

quinta-feira, maio 05, 2005

Soube agora, pelo Rua da Judiaria que hoje se comemora o Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto, do Holocausto que ocorreu na Europa.

A todos os Mártires e Heróis a minha homenagem.

A Aristides de Sousa Mendes, herói português nesses tempos terríveis, uma particular e respeitosa homenagem.
A verdade é esta: apesar do meu pessimismo congénito, que as minhas lucubrações de anos apenas agravaram, resolvi fazer obras em casa. Para quê sujeitar-me a essa devastação ruinosa? Creio que pelo dever, o dever de preservar e transmitir o que recebi e que acabou por sair vencedor da minha crença sobre a inutilidade daninha da generalidade dos actos humanos. Mas vem isto à colação para dizer que acordei hoje, ainda não eram sete da manhã com o barulho do reboco a ser picado. Levantei-me e, em roupão, fui espreitar. E, minhas senhoras e meus senhores, que magnífica manhã, suave, amiga, perfumada! Voltei reconciliado com o não sei quê de bonomia que conservo, apesar de tudo, uma crença difusa e ingénua na bondade que pode existir nalguns momentos raros.
Mudei de quarto, para outro mais longe do barulho reconfortante da reparação e continuei o sono, um sono denso e feliz que há tempos não sentia.
Agora estou aqui, na tarde tão agradável de Maio, a ganhar coragem para ir lá fora dizer ao Sr. Paulo que barulho àquela hora, nunca mais.

quarta-feira, maio 04, 2005

Chirac disse ontem na televisão que a constituição europeia era essencialmente de inspiração francesa.
Já se sabia, mas ouvir, preto no branco, tal coisa por estes dias em que se comemora o sexagéssimo aniversário do fim da Segunga Guerra Mundial, onde a França foi desastrosamente e vergonhosamente derrotada, sem luta nem glória, leva a que se pense bem na bondade destas coisas "essencialmente francesas" para o futuro da Europa.

domingo, maio 01, 2005

O Senhor Presidente da República parece querer "tratar do assunto" do cidadão português detido por fumar hashish num país muçulmano. Não sei o que move o Senhor presidente. Motivos humanitários? O Islão é tolerante e sábio e não acredito que por aquelas paragens, a não ser por motivos políticos, alguém esteja preso quatro anos sem julgamento, como a lei portuguesa limpidamente permite - e acontece aqui - sem que se sintam as expeditas lágrimas do Dr. Sampaio.
Perante situações mais caseiras, parece desfalecer a boa vontade presidencial. O Sr. Presidente faz-me lembrar a criada do narrador do RTP* que compadecida ao ler a descrição do sofrimento provocado por uma doença, não o reconhecia quando sofrido por quem lhe estava próximo e padecia dos mesmos males que - descritos em letra de forma - despertavam ainda há pouco a sua comiseração.

E com isto, eis-nos em Maio.

*RTL é abreviatura do En Recherche du temps perdu

sábado, abril 30, 2005

sexta-feira, abril 29, 2005

Não sei quem, muito aflito por ter sido detido, no próximo oriente, por uso de drogas. Não discuto a aflição do envolvido ou de sua família, mas a atitude alarmista dos media, tanto mais injustificada quanto toda a gente sabe da bondade da lei nos países muçulmanos quando comparada com a crueldade da ordem penal do capitalismo globalista e totalitário, maxime o europeu e o norte-americano. Problema seria se o acusado tivesse caído nas malhas da justiça britânica... Descansemos, pois, o nosso compatriota não podia, dentro da sua desventura, estar em melhor sítio.

quinta-feira, abril 28, 2005

QUE VERGONHA, RAPAZES!

Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)

Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?

quarta-feira, abril 27, 2005

Novos Links

Linkaram o Impensável, que, muito grato, agradece, o Abencerragem, o Apostrofe, o Makjeite, o Pobreza Franciscana e o Ma Schamba.
Ainda uma vez, muito obrigado.
Passeios de madrugada: sudeste de Inglaterra, Wilde (já não sei como, de Hastings a ele) Paris, Eça e Wilde, uma citação deste: "Illusion is the first of all pleasures" que me levou a Tchekov, ao Tio Vânia, à condescendência como prodigalidade, no caso, a vida na cidade que o seu "sacrifício" - e de sua sobrinha - permite aos outros, mas como ilusão, equívoco. E de novo Eça, "A Cidade" enquanto ilusão, melhor, falácia arquitectural das cosmogonias do século XIX - estou com sono.
Ontem reli - uma vez mais - parte da correspondência entre ele, sozinho numa terrivelmente quente Paris e sua Mulher, na praia, numa praiazinha bretã.

terça-feira, abril 26, 2005

Portugal será, em 2020, o país mais pobre da UE, isto dito por por uma daquelas comissões que trabalham com afincos nórdicos e certeiros.
Não me admiro. Caminhamos com afinco para a pobreza, de que, aliás, nunca chegámos a sair (legislações irreais, provincianismo optimista, etc não se traduzem em aumento do PIB). O que verdadeiramente perdemos - tirando os ganhos gerais do avanço do mundo que aqui também de reflectem - foi a noção de que somos pobres: foi a perda dessa lúcida verdade que nos (lhes) fez pensar vir aí a riqueza, nada mais. Em nome desse esquecimento tragicómico enfarpelou-se o país de "homem novo" "de sucesso" e outras possidonices de igual falta de gosto.
Isto tudo, encerra um pedido: sabido que fingir não adianta, voltemos aos hábitos antigos, ao nosso antiquíssimo, genuíno e agradável vagar, à nossa paz, ao nosso tédio de ver o mar de que voltámos. Olhem, quando tiverem de ir ao Porto, ou de lá vierem a Lisboa, evitem a auto-estrada, levem os filhos - eles que faltem à escola - e parem em Alcobaça e na Batalha. Mostrem-lhes os mosteiros, comprem uma lembrança e continuem sem pressas.
Ah! E se a ida ao estrangeiro, digamos, à tão familiar NY, se tornar inevitável, levem farnel e pandeiretas, arranchem à entrada do MOMA ou do MET e verão como se divertem baratinho.
Despojos da leitura do TLS da semana passada:

"Further afield, the Portuguese took his classical name - Lusitania - from Lusus, a son of Bacchus, whose name means «play» or «game»"

Unfair play, bad game, I say.

Adiante. Sobre os contos de John Berger, um, named Lisboa. Lá se lê: "Lisboa is a city that has a relationship with the visible world like no other city. It plays a game. Its squares and streets are paved with patterns of white and coloured stones, as if, instead of being roads, they were ceilings"

A necessidade de dizer coisas...

Ah! Agradáveis estes frios a tocarem o extemporâneo. Ir para o quarto, vestir o pijama, enfiar na cama, ainda não é o ritual fácil e de inconsequente violação que desfeia o ir dormir durante o tempo quente. Regozijo-me com a necessidade de ponderação. Um cobertor posto à pressa, escorrega, arrasta os outros, o frio entra, é preciso compor tudo, de novo, por entre o sono. Sei que agora toda a gente dorme em quartos perfeitamente aquecidos, com édredons comprados em NY ou London, que tudo isto é antigo, velho e saudosista. Pois é.

sexta-feira, abril 22, 2005

Da mesma autora, sobre Lisboa: “seria injusto comparar Lisboa, no pequeno Portugal, com Gdynia ou Génova, Haifa ou Roterdão, em termos de instalações portuárias. Nem seria correcto comparar os cafés lisboetas, agora sobrelotados, com os da velha Amsterdão ou de Viena; os seus restaurantes, com os de Veneza; os preços dos seus hotéis com os de Lausanne ou Barcelona; as suas lojas com as de Praga ou de Paris”

Desagradável, não é? E Annemarie, chegada a Lisboa vinda dos Estados Unidos - isto é, na rota inversa dos refugiados - gostou da cidade e das gentes, as comparações não pretendem amesquinhar são meramente ilustrativas...

quinta-feira, abril 21, 2005

Visões de Lisboa dos anos 40 - e do regime de então - alguma coisa fora de vulgar, de Annemarie Schawarzenbach, vislumbradas numa publicação do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos, Coimbra. A tradução é de Maria Antónia Amarante e a introdução de Gonçalo Vilas-Boas.
Dizia ela que "Portugal, um país litoral adormecido, separado da Europa por um renque de colinas relativamente modestas, cobertas de oliveiras e vinhas, e dos destinos de Espanha pela força de uma tradição nacional, transitou da monarquia dos Braganças para a República, e vive agora sob o regime democrático, mau grado autoritário e prudente, de Salazar, que não se pode designar por «ditador» mas antes «alguém que, democraticamente impede a ditadura»".

Mais informes sobre a autora aqui (e em inglês)

terça-feira, abril 19, 2005

Dizia há bocado o quanto gostei da homília do Cardeal Ratzinger e irei, com muito gosto, tentar informar-me melhor sobre o pensamento do Santo Padre Bento XVI.
Gostei de ouvir o pouco do que ouvi da homilia do Cardeal Ratzinger.
A ditadura do relativismo, o apogeu do fragmento, a glorificação do estilhaço original eis algo a que estar atento
O Cardeal Ratzinger não é o meu candidato preferido para São Pedro - "torço" pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa - mas foi uma bela homília que tentei já encontrar na íntegra aqui.

domingo, abril 17, 2005

Conhecido entre nós - e muito estimado - é Pablo Neruda.
Merecidamente, se atendermos às alturas da sua poesia.
Um excerto de um pico poético, neste domingo:

"Stalin alza, limpia, construye, fortifica
preserva, mira, protege, alimenta,
pero también castiga.
Y esto es cuanto quería deciros, camaradas:
hace falta el castigo"

Faz falta o castigo, hace falta el castigo...

sexta-feira, abril 15, 2005


Samuel Beckett nasceu a 13 de Abril de 1906.
Vá-se lá saber porquê, não estranho que seja pouco lembrado por aqui.
"Se o menino fosse ajuizadinho..." imagino que, se o fosse, as bençãos do céu desceriam sobre mim, a coroar de prazeres inefáveis os usufruidos aqui na terra e de que o gozo de pessoal doméstico adequado não era o menor. Mas nunca fui ajuizadinho nem conheço realmente bem alguém que o seja na minha roda de amigos. Os mais próximos de merecerem o epíteto desenvolveram com a idade comportamentos estranhos, tiques, birras e monomanias quase assustadoras que exibem sem rebuço: peregrinações a pé anuais a lugares santos, leitura compulsiva de má literatura, boas intenções, francesismo, eis algumas delas. E, por isso, nunca cheguei bem a saber, senão por difuso contraste, o que era o menino atilado que a antiga empregada lastimava eu não fosse. Há pouco, porém, vi um: é o nosso primeiro-ministro. Atilado, bem-comportado. Fiquei convicto. Mas surge a dúvida: de que serve ser atilado, aos quarenta anos, idade em que as empregadas velhas desapareceram ou, a existirem, sejamos francos e crus, delas já não necessitamos para obtermos o bolo de canela a caminho da praia? Agora que já não são necessárias para nos assegurarem um lugar razoável na pole position das corridas de triciclos nas matinées infantis do Casino?
Para quê, então, aquela exibição tão veemente de virtude? Por meia dúzia de votos? Pfff....

terça-feira, abril 12, 2005

Chuva? A partir de 5ªfeira, mas não em todo o país. Por agora, este tempo, meridional, excessivo. Detesto isto, esta falta de comedimento - e, mais ainda, as manifestações de júbilo da falange do "vivóverão", "vivápraia" e congéneres.

segunda-feira, abril 11, 2005

A correspondência entre Eça e sua Mulher.

Em 1892 falava-se do déficit... e, tal como agora, cria-se em homens providenciais, na altura Oliveira Martins. Certo é que ainda não chegámos ao dia-a-dia providencial, à habitualidade providencial (que não é o viver habitualmente de Salazar mas não lhe é completamente estranho), ao esquecimento mesmo dessa desgraçada necessidade do providencial.
O dia está aqui magnífico, muito suave, tépido, perfumado, azul. Os remorsos por não estar a desejar que chova eis o que me impede de desfrutar uma tarde preguiçosa e perfeita a ler correspondências.

domingo, abril 10, 2005

Interessante ver a cerimónia real através de canais franceses: já não é a nostalgia da monarquia de que já não sei quem dizia sofrerem os franceses: é pura inveja.

A Duquesa da Cornualha foi apodada de "plebeia" (routuriere). Descendente de, entre outros, Henrique IV, rei de França, afiro por esta os problemas magnos da auto-estima gaulesa. Proporções preocupantes!

quarta-feira, abril 06, 2005

Gloomy.

Recebi hoje, pelo correio, a Ilíada e, péssimo hábito, já a folheei. Logo à noite lerei o prefácio, se não sair.

Dei uma volta pelos blogs: estupendos - tanto quanto ingénuos - os "posts" do Joaquinzinhos sobre a burocracia. Eu radicaria a burocracia portuguesa em duas linhas de tradições, ambas nobres: a que se filia na aversão pelo novo e por qualquer forma de desassossego e de perturbação da amenidade quotidiana e a outra, relativa à liturgia do estado português, estado de cerimónia e cerimonioso, conselheiral, bem instalado, e, se não já rico e imperial, demoradamente saudoso dos tempos aúreos em que, à sobremesa, ou mais tarde, pela fresca, despachava pretensões da Índia ou aspirações do Grão-Pará, redigidas por suplicantes (era a fórmula, elegante, filial) acompanhadas por empenhos trasmitidos em visitas que se faziam, retribuiam e comentavam, e constituiam, por si só, uma actividade, uma distracção salutar. A que vem agora essa gente, com pressa e sem modos, que exige, que reclama? Que espere! Também compreendo.

segunda-feira, abril 04, 2005

O artigo de ontem (creio...) de Vasco Pulido Valente, no Público, sobre João Paulo II tem o brilhantismo habitual. Convirá, no entanto, lembrar que, neste caso, não houve reforma senão da memória e o Papa, que nasceu num país com um passado mártir, que viveu pessoalmente a barbárie nazi, primeiro, e, depois, a comunista, sentia o perigo deste tempo cosmético de agora, construído sobre o esquecimento da proximidade da barbárie, isto é, sobre o olvido da natureza humana.

domingo, abril 03, 2005

"É incrível a frequência com que as circunstâncias nos obrigam a fazer aquilo que gostaríamos de fazer"

Agatha Christie
O Bomba Inteligente fez dois anos.
O Impensável apresenta os seus muitos parabéns.

sábado, abril 02, 2005

Lembro-me, muito vagamente já, da morte de Paulo VI, um Papa que admirava e via sozinho, perto da morte, frágil, numa dolorosa incerteza sobre o destino da Igreja e do mundo. A sua morte, esperada, foi, no entanto, pelo menos para mim, jovem desatento, uma surpresa. E surpresa e choque para todos foi a morte do seu sucessor, João Paulo I.
Admirador de Paulo VI, no que nele me parecia o sofrimento na dúvida e da solidão, no desgosto, no desgosto mesmo pela sorte de amigos próximos como Aldo Moro, admirador de tal Papa, senti como quase "grosseiras" as certezas e convicções de João Paulo II. Mas hoje, ao lamentar a sua falta de saúde, não o faço por meramente me ter habituado ao novo "estilo", por força do hábito adquirido pela longa duração do pontificado, mas pela radicalidade austera das certezas que nos veio lembrar, a nós católicos - e ao mundo - devemos ter e que nos ensinou como a filhos e que esperou de nós como irmãos e iguais, sempre iguais: o acidental da condição humana (a riqueza ou a pobreza, a saúde ou a doença...) em nada nos exime, não é o que nos define: mesmo no extremo limite da sua persistência não somos nunca apenas isso, a nossa responsabilidadade perante Deus e os outros homens mantêm-se intacta - sempre.

terça-feira, março 29, 2005

Insónia. Passeios ingleses pela net: a batalha de Hastings, mapas da dita, testemunhos de quem vive perto do campo onde se travou, dezenas de sites de trivialidades locais, típicas de países alfabetizados.
Parabéns indesculpavelmente atrasados ao Contra a Corrente por mais um aniversário.
Embora a falta seja indesculpável, não se deixa de enviar, lampeiro, um pedido de desculpas...

segunda-feira, março 28, 2005

Neblina. Depois de três meses de impossível nitidez descanso os olhos, os nervos, a alma, na tarde que se dissolve.

quarta-feira, março 23, 2005

Boa Páscoa!
Para distinguir o essencial do secundário deste tempo volto a recomendar Marguerite Yourcenar, "Sequência de Páscoa" (cito de memória).

terça-feira, março 22, 2005

A propósito do "Medo de Existir" de Gil, leia-se Pascoaes "O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico. Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.(...) Este bom senso deriva do nosso carácter espiritual e sensual. E eis a nossa comédia que se opõe, retemperando-o, ao trágico aspecto da nossa alma, dominada pelo Medo misterioso... Ao Medo, que é também o Demónio, prestamos um culto corruptor. No seu altar fantástico retine o cobre da nossa esmola..."
Linkaram este blog o Berra Boi, o Demonpoet, o Ávido e o Reflections, Reflections. A todos o Impensavel agradece, muito oobrigado.
From Invisible, Hidden Corners of the Earth... thank you for the quote.

segunda-feira, março 21, 2005

Folheei o "Portugal hoje, O medo de existir" de José Gil que tinha encomendado há mais de um mês e recebi hoje.
Entre observações sagazes, generalizações do provincianismo de Paris e arredores sobre o provincianismo de Lisboa e arredores (algumas delas, válidas para quaisquer outros arredores, a gente fica a pensar no porquê da sua atribuição a Portugal).
Mas lerei com atenção.

sábado, março 19, 2005

Algumas gotas de chuva e o artigo de VPV sobre a direita em Portugal. É, de facto, difícil ser conservador. E - isto é um supôr - volvendo ao século XIX parlamentar, não creio que lá haja nada de particularmente inspirador.

sexta-feira, março 18, 2005

O vento virou para noroeste e o dia, que estava de um cinza denso e opressivo tornou-se mais alegre.
No regresso a casa o silêncio incompleto e intacto de tudo estar como tinha deixado quando saí.
Logo, não, amanhã, telefono a saber de melhoras, como quem não quer a coisa.
A empregada telefonou há bocado a dizer que amanhã (hoje, sexta) não pode vir, que está com gripe, "que não se tem de pé". A voz pareceu-me deliberadamente débil, estudada para desencorajar qualquer tentativa entusiastica de a animar - "não nos devemos deixar ir a baixo por nadas. E até amanhã há-de melhorar! Cá a espero, não venha é tão cedo". Pode ser que sim, que esteja de facto engripada, mas não ponho de lado a possibilidade de uma ida ao noroeste brasileiro. De um modo ou outro, amanhã, roupa da cama para mudar. Uma seca!

quinta-feira, março 17, 2005

Ontem, uns senhores muito irritados a propósito das declarações do Doutor Victor Constâncio sobre as Scuts (acho que se escreve assim). Não percebo a irritação: ele é socialista e socialista é a maioria tão abundantemente eleita. E os socialistas sobem impostos. Esperavam outra coisa?

Por socialistas: o Dr. Mário Soares recebeu uma delegação do Herri Batasuma, o braço legal da ETA, organização terrorista. Houve protestos do partido popular europeu que, entre outras coisas, achou o acto pouco digno de um ex-presidente. Mas o Dr. Soares, quando era presidente , não resolveu visitar um foragido da justiça italiana, o ex-primeiro-ministro socialista Craxi, a meio de uma viagem oficial e usando para isso um avião ao serviço do estado português? As pessoas esquecem...
Apenas a mim tudo parece estar proíbido, mesmo o prazer triste de ler maus livros: confessei aqui ter passado os olhos pelo "Código Da Vinci" e logo o Vaticano, que até aqui tinha estado calado, achou ser chegada a altura de desaconselhar a leitura por o livro ser um "château de mésonges" li a notícia - poderia dizer, a admoestação - em francês. Percebi, de imediato, que a crítica me era dirigida e, escusada por tardia, apenas para me fazer sentir mal. Contrito, prometo não ler outros em iguais circunstâncias.
A reacção paterna do Vaticano se bem que algo assustadora, confirmou o que há tempos eu suspeitava: que tinha leitores - pelo menos um - na Cúria.
Muito agradeço, e sempre direi, Eminência, que "château de mésonges" é por demais majestoso para a obra a questão: pardieiro de vulgaridades seria mais adequado.

P.S.Para ralhos futuros lembro a Vª Eminência o uso do meu e-mail. Que não se alvoroce o mundo pelos meus pecadilhos, pelas minhas leviandades.

quarta-feira, março 16, 2005

De um bilhete de Proust e Paulo Morand:

"Tudo quanto posso dizer-lhe é que amanhã, sábado, irei provavelmente levantar-me, ou então depois de amanhã, domingo. Se eu me levantar amanhã, sábado, mandar-lhe-ei dizer que não poderei certamente levantar-me no domingo. Se amanhã, sábado, eu não me levantar (o que não quer dizer que não venha a fazê-lo, com certeza no domingo) ignoro se estarei em condições de me levantar no domingo..."

segunda-feira, março 14, 2005

Ontem tinha colocado aqui umas impressões sobre o "Código da Vinci" que resolvi ler para saber o que faz o sucesso, hoje em dia. Acabei por apagar.
Tão cedo não repetirei a graça de ler um best-seller.

Dia péssimo e irritante, o cinzento sem chuva torna-se desagradável. Aliás, além do tempo, todo o país está desagradável. Compreendo bem todos os que esperam a Páscoa para se precipitarem para fora "disto", mesmo com o regresso da recessão.

domingo, março 13, 2005

Linkaram este blog o "A vida é larga", o "Inoportunus" e o "Pé de Meia".
Muito obrigado, o Impensavel agradece.
De igual modo, se agradece, com igual reconhecimento, ao Posto de Escuta a referência de um post.

sexta-feira, março 11, 2005

Quarta-Feira estive em Lisboa para tratar de assuntos - fúteis, todos eles.
Saído do alfaiate, fui almoçar à Bénard. À saída, uma manifestação anti-Benetton. Subi e desci a ladeira com algum cansaço, entre o Silvas e a Fnac: as poses de dedicada acrobacia em frente às estantes levaram-me a algumas meditações sobre os limites, se não da curiosidade literária, do esqueleto humano; agora pratico com os
livros o que estabeleci para compras de supermercado: compro o que está à vista, à altura dos olhos.
Rumei para outras paragens a ver se a colónia já tinha chegado: que não, o "parfum" ainda não viera. Não é "parfum" nenhum, mas uma colónia,inglesa e sensata, empírica como a estética de Jane Austen (vd. último TLS), raios partam a possidonice que campeia em má e pretensiosa pronúncia. Depois daquela, precisava de um banho de sensibilidade e bom senso e resolvi que, com Abril à porta, se impunha escolher algumas camisas. Decidi-me por umas tantas, alegres e bem dispostas e o único momento desagradável foi o decidir se sem ou quem bolso e o formato do colarinho, em que hesito sempre para além do razoável.
A viagem para cá foi agradável, sobretudo rápida, e mergulhei até cair de sono na leitura dos "Diários" de Jorge de Sena. Ontem, fiquei todo o dia na contemplação feliz de, em princípio, nada ter para fazer em Lisboa nos próximos tempos.
Esqueci-me de ver se tinha já saído a edição do D. Quixote traduzida pelo Miguel Serras Pereira. A que tenho é a do Aquilino e as criticas que a ela fez Castelo Branco Chaves pareceram-me sempre certeiras.

terça-feira, março 08, 2005


Eis as "cerejeiras" de que tenho falado.

Ontem, acabei por preterir São Francisco em favor da História de Portugal do O.M. Adormeci tarde, no reinado de D. Sancho I, mas fiz uma incursão ao sarau em casa do Marquês de Marialva, no tempo de D. Maria I e que Eça usa para atazanar o Pinheiro Chagas. Aconselho a leitura - do O.M e da polémica de Eça.

segunda-feira, março 07, 2005

As cerejeiras - não são, em boa verdade, cerejeiras, mas parentas próximas - estão em flor. O efeito é bonito, embora quase um pouco kitsch, fazendo lembrar algumas capas mais optimistas das edições paulistas, os ramos carregados de branco recortados no céu muito azul.
Vou aproveitar a tarde para continuar a ler uma Vida de S. Francisco de Assis que comprei há uns tempos.

domingo, março 06, 2005

Tornei-me desajeitado na arte de passar a salvo (digo isto por dizer) as tarde descampadas e ermas dos domingos de província, perco-me em macambúzias contagens de coisas perdidas. Mas perder coisas é tão natural, que é, convenço-me, um bom modo, afinal, de passar tardes de domingo.

Elizabeth Bishop:

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

sexta-feira, março 04, 2005

Le coeur dans la main, Le goût du malheur (da suite para piano de Poulenc) e, quando a tarde caía, verde e dourada, Bach. O livro era o de ontem à tarde mas, já no seu lugar, relembreio-o, um modo de folhear. Esgotei nestas lentidões a irritação pelas obras no supermercado tornado, por via delas, terra ignota (e por isso, inóspita).

terça-feira, março 01, 2005

O que sentimos

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos.
Claro, o inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.

Ricardo Reis
- Ainda fica?
- Não, não, creio que vou para casa.
- Ah, ainda bem que também vem.