quinta-feira, janeiro 29, 2004

O Bomba Inteligente linkou o Impensavel nos seus blogs.

O Impensavel, velho frequentador do Bomba Inteligente, agradece, honrado, a "linkagem" que o faz sentir-se mais "em casa".

sábado, janeiro 24, 2004

A endorreia não é uma doença venérea.
A endorreia é um abuso, não de prazeres, mas de gerúndios - se bem que o prazer, mesmo o mais momentâneo, seja, em si, uma espécie de gerúndio, uma perífrase bem sucedida (que se não veja aqui uma adesão ao ideário barroco, ou ao "rocaille minimal" tão em voga).
Voltemos ao abuso do gerúndio. Refiro-me a frases destas, transcritas do magnífico "Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa" de Magnus Bergstrom e Neves Reis - "«os jornalistas vêm-se ocupando, ultimamente, de assuntos económicos» ou «os cientistas vêm meditando problemas transcendentes»". Acrescentam os autores: "Estas locuções absolutamente condenáveis - a minha edição é já antiga - ofendem a índole da nossa língua. Para as tornar correctas, basta escrevê-las: - Os jornalistas têm-se ocupado (...) de assuntos económico - Os cientistas modernos estão meditanto problemas transcendentes."
À atenção dos senhores bloguistas e público em geral.

Aproveita-se o ensejo para anunciar que na próxima semana este blog sofrerá intermitências por motivo de deslocação à capital do seu autor.
Do furor adjectivo, das impressões fugazes, do mais descabelado achismo cansados e fartos busque-se consolação em "posts" como o do Almocreve das Petas sobre os Painéis, de ontem, 23 de Janeiro. Alerta e corrrige de forma bem-educada, que acaba por constituir um desafio amável e de incentivo à leitura, e educativa - explana fundamentadamente e, no fim, oferece a bibliografiazinha... - completa, ou se não o está, muito perto de o estar.
Mais do que isto, só disponibilizar-se a emprestar os livros e mandar levá-los lá a casa...

Desecessário Post-scriptum mas, em Portugal, necessário, pelo usual que é o elogio conter uma zona de penumbra onde, por mal e bem entendidos, se aproveita para cortar nas casacas de terceiros: o post do Rua da Judiaria reúne os elementos necessários para ser excluído dos achismos e impressionimos que lastimava.
Encontrei um livro de poemas de Pessanha que já nem sabia que tinha.

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos

Camilo Pessanha

quarta-feira, janeiro 21, 2004

A propósito da National Gallery assisti, num documentário, a uma conversa interessante e elucidativa entre o seu director de então, Neil Macgregor - hoje director do British Museum - e Bernard Pivot do "Apostrophes" e do "Bouillon de Culture".
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...


Tinha prometido para ontem. Revelo hoje o nome do pintor, uma valiosa redescoberta da pintura: Thomas Jones.
Este quadro, de 1782, foi para mim uma surpresa magnífica, está em exibição na National Gallery Aconselho a visita para uma devida apreciação: a cor de fundo do blog atenua as os jogos de cores e de texturas. Aquele rectângulo/céu deve ser visto sobre branco.
Aqui poderá ver mais da obra deste pintor.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Encontrei! É o começo d'"O Comendador" das Novelas do Minho. A manhã frigidíssima é a do Dia de Reis do ano de 1832
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:

"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Tentava encontrar uma alba de D. Dinis - que é uma cantiga de amigo com temas dedicados ao nascer do dia ou passadas na alvorada - e lembrei-me de um livro do Camilo em que, em prosa, há uma genial alba, mas de escánio e maldizer: um abade, chamado de manhãzinha num gélido dia de Janeiro para ir baptizar uma criança e renitente no cumprimento dos seus deveres pastorais é posto fora da cama, à força de imprecações, pela sua criada e companhia de leito, uma boa e crente rapariga que se indigna com a calaceirice do eclesiástico.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.

Lá vai o tempo em que detestava entrevistas. Tinha a impressão que os entrevistados diziam sempre a mesma coisa, paráfrases do que haviam já dito noutras entrevistas e perante perguntas igualmente desinteressantes ou inóquas.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Com o sol-pôr volto para casa.
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.

Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.


Mer au matin

Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...

Constatin Cavafy.

[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]

Depois, nasceu este dia pela seguinte ordem: S. João da Cruz e esta caverna, perto de Roma.
O frio maduro e quieto da noite e aquele de há pouco, da madrugada, atravessado por uma inquieta brevidade de nascituro.

domingo, janeiro 18, 2004


Podia ter sido escrita em qualquer Domingo dos séculos XV ou XVI - se monótonos e melancólicos eram os domingos dessa altura, o que é duvidoso - esta

Esparça de Bernardim Ribeiro

Chegou a tanto meu mal
que nam sey estar sem ele,
e fugo d'ond'á y al
como se fugisse dele
Mas vêdo-me em tal estado,
que me vou craro matar,
nam quero mays que cuidar,
por ver s'emfado hum cuydado
que me nam pode enfadar.

sábado, janeiro 17, 2004

Hoje de madrugada, antes de dormir, lembrei-me desta alba de Torneol que Rodrigues Lapa considera uma das prodigiosas coisas do nosso antigo lirismo.
Quem a pode ler hoje? Todos nós.
Alba
de Nuno Fernandes Torneol

Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu

Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu

Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu

Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu

Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu

Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu

Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu

Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu

* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam

in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado

sexta-feira, janeiro 16, 2004

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Outra tarde madraça... é do tempo. Gosto do cinzento, dos dias chuvosos mas hoje, de repente, senti-me demasiado lagunar, aquático, e tomou-me um spleen anfíbio, uma aspiração irritante a terra fime e seca. E cá estou, na margem deste Janeiro, coberto de chuva e melancolia, e de péssimo humor.

Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.


Dos blogs

Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.

O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
A mensagem que o Presidente da República dirigiu à Assembleia da República teve de esperar a sua vez na ordem dos trabalhos para ser lida. Não fica mal à assembleia esta defesa das suas prerrogativas: também os soberanos ingleses batem à porta dos Comuns e esperam que lha abram.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
Durante anos as “cartas à redacção” foram para mim um completo mistério... quem era aquela gente que se dava ao trabalho de escrever para o jornal a propósito de “nadas-mortos”? Imaginava-os velhinhos reformados, ex-professores de liceu saudosos dos tempos de aulas e a quem um pequeno erro ainda confundia e mortificava (devo pertencer à última geração que associa precisão à escola...). Acreditava-os moradores de andares altos e sem elevador, habitantes de salinhas minúsculas com mesas grandes e tristes, onde, aberto, se encontrava o jornal a ler de fio a pavio e algumas revistas - a Historia francesa, ou alguma de filologia editada em Lausanne. A coroar esta arquitectura de conjunturas um erro, um erro inofensivo que, descoberto, seria corrigido por uma carta amável, escrita àquela mesa, mais tarde.
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!


quarta-feira, janeiro 14, 2004

Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."

Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).

"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.

terça-feira, janeiro 13, 2004

Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Eu bem não queria voltar tão cedo ao caso pio mas li o que Clara Ferreira Alves escreve hoje(?) aqui, num acesso de catastrofismo. Destaco: "Não falo da Acusação nem das equipas de especialistas que têm acompanhado o caso. Falo do sistema legislativo, judicial e judiciário português. Falo da Constituição, do Direito Penal, do Processo Penal, da Procuradoria, do Ministério Público, da investigação, dos polícias e juízes, das prisões. O sistema cairia aparatosamente. Seria o caos, a desordem, e da parte de um homem injusticiado, a sede de justiça e, talvez, de vingança. Ao ilibar ou não Carlos Cruz não estamos apenas a ilibar Carlos Cruz, estamos a dar cabo da famosa Justiça em Portugal. A tal que toda a gente diz que funciona."
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?

domingo, janeiro 11, 2004


"(...) Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia.
(...)
Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida (...)".

Fernão Mendes Pinto

Não sei quem lê hoje a "Peregrinação". Temo que pouca gente. Não é obra que satisfaça provincianismos de contenção: comove, diverte, põe-nos à prova, que não apenas pelo uso das vero e inverosimilhanças a que o narrador, um pobre homem, deita mão - até à pungência - para sempre nos ter com ele, a seu lado, mas por uma inteireza humana que não cabe no pouco ser que hoje soe usar-se na vida quanto na sintaxe ou no vocabulário.

sábado, janeiro 10, 2004

Monotonia...
Sempre a imagem das coisas que nos pesa...
As mesmas tintas da Alegria,
O mesmo claro escuro da Tristeza...
...................................................

Teixeira de Pascoaes
O meu hobby principal é esquecer. Tenho outros, uns menores - não gostar de alguma França, considerar que a mãe de Hemingway escrevia melhor do que o filho - outros maiores: detestar tutelas, ser monárquico, amar Eça de Queirós.
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.

Para quem não o conhece:

Navio

Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!

Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, janeiro 08, 2004



Blogar tornou-se um pretexto para arrumar livros.
Explico: visito um blog e vejo uma imagem, ou leio uma citação, ou alguém escreve sobre um assunto e lembro-me que "eu tinha para aí qualquer coisa sobre isso" ou que "o não sei quantos fala disso naquele livro". Hoje fui ao Crítico Musical e encontrei umas escadas. Lembrei-me do "Sea of Steps" do Evans e do local onde vira a fotografia: num "Colóquio Artes". Parti para o armário das revistas e quando lá cheguei descobri a edição do "Totem e Tabu", Payot, 1925, 2eme Edition, que erradamente ali pusera.
Já está no sítio certo, ao pé dos outros.
Por este andar, acabo por descobrir o Dicionario de Mitologia, Lisboa, Rua dos Algibebes, mil oitocentos e quarentas, que deixei de ver vai para um bom par de anos, apesar de alvíssaras prometidas.
Fica o sea of steps - mas não me parece a fotografia que queria. Naquela de que me lembro, é uma onda rasa que, num mar chão e calcário recolhe os primeiros e últimos passos. Esse Colóquio, porém, não o encontrei.
(Neste mar noto a dupla coluna - ou colunelo - que divide o plano da parede e onde parece inscrever-se uma marca de maré).

Foi há 23 anos, por uma chuvosa tarde de Janeiro - não sei se era chuvosa, verdadeiramente: chuvosa hoje, há dias teria sido soalheira, que seja esta em que escrevo: finjo que é o tempo, a chuva desta tarde, que me lembra essa outra, longe, em que saí­ de casa e fui ao cinema - ou apenas lanchar - e vi o primeiro volume do "Em busca do tempo perdido" e o resolvi comprar e ler. Tenho-me lembrado, desde que Janeiro começou, e o post com a tela de Whistler, o pintor com que Proust compôs o nome de Elstir e parte da pintura de Elstir assinala esse começo de leitura.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

As meninas são as Vivian Girls de Henry Darger, o autor do "The Realm of Unreal" e o título "They fool enemy officers into seeing Evans while two notice approach of severe thunder storm".
De Boétie, que com 16 - ou 18 - anos escreveu o seu "Discurso sobre a servidão voluntária", a estas crianças que enganam os guardas e não se submetem, o caminho não é longo. Todavia, tudo se deveu a um acaso. Procurava um surrealista norte-americano e reencontrei um autor de que apenas uma vez ou outra ouvira falar e de que já quase me esquecera.
"La liberté, les hommes la dédaignent uniquement, semble-t-il, parce que s'ils la désiraient, ils l'auraient; comme s'ils refusaient de faire cette précieuse acquisition parce qu'elle est trop aisée."
Discours de la servitude volontaire

Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.

terça-feira, janeiro 06, 2004

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Num intervalo: lia, ontem, nas "Memórias" os capítulos dedicados à agonia da França, à situação solitária em que ficou a Grã-Bretanha com a débacle gaulesa em 1940 e, sem querer, pensei em tempos mais recentes.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
"Divertiu-me ver um pelotão da Guarda de Granadeiros a montar um posto de metrelhadora com sacos de areia num dos quiosques do cais, parecido com os da minha infância. O tempo estava adorável. Tive uma óptima conversa com o general e apreciei imensamente o passeio."
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra

O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.


domingo, janeiro 04, 2004

Pelo jardim fora, vivalma. Esta gente vive em casas soturnas, pequenas e feias, e sai delas, numa carreira, para se ir meter em cafés - ou centros comerciais - ainda mais soturnos e feios; ou para as soturnas "segundas residências" pintalgadas de amarelo ou branco e verde com que em Portugal se inaugurou o kitsch campestre. Seja para onde for, escapa-lhes a lentidão do dia e, nestes dias soalheiros, o azul e a deriva das sombras.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.

sábado, janeiro 03, 2004

Nestes dias de sol descem devagar horas que já não lembro senão que era o vento nelas de nordeste e mais frias por entre os vidros.
Ao Churchill de Gilbert, sucederam nas tardes e nas madrugada de ontem e de hoje, as "Memórias da II Guerra Mundial".
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.

quinta-feira, janeiro 01, 2004



A ilustrar o Dia de Ano Bom, o céu de Janeiro das Horas do Duque de Berry.