domingo, setembro 30, 2007


«..........................................
La vie est vaste, étant ivre d'absence,
Et l'amertume est douce, et l'esprit clair.
................................................»

Paul Valéry, Le Cemitière Maritime

sábado, setembro 29, 2007

Antes do almoço: oiço falar da psychologie e de uma psychologue num canal de televisão francês. Torna-se evidente tratar-se de um aspecto importante da vida religiosa actual - a psicologia e as psicólogas e os psicólogos - e não percebo porque se não diz isso mais aberta e francamente.
Algumas reacções pueris à eleição do Dr. Menezes.
Afinal, parece-me, ele está bem para o primeiro-ministro actual.
Ou não está?
Estive a ler e a tratar de umas papeladas e quando vim fechar o computador vi a notícia da eleição do Dr. Menezes. Sorri da alucinação e olhei de novo, de olhos esbugalhados, a conferir. Mas era verdade, lá estava! Inesperado. Fui ver ao Abrupto: sim, de facto.
Resolvi que tiraria o maior partido possível da questão e mudei para a pele do espectador enfastiado que, afinal, acha, se irá divertir com a representaçao do entremez e se acomoda à cadeira para ver.

Devo confessar que pouco sei do Dr. Menezes. Sei que é um daqueles autarcas do norte. Vi-o agora, em campanha, numas gritarias desgradáveis que me provocaram má impressão (em compensação, sei que foi ou é médico, o que, nos tempos que correm e depois das histórias do Pinto de Sousa convirão que é já saber muito).

Mas que queriam? Usando uma corruptela muito do gosto da minha empregada, a coisa - que é a oposição ao governo - não «sordia» (ela quer dizer surdia, de surdir, que significa render) nem desenvolvia - mesma fonte - como deveria.

Mais tarde:
Entretanto, fui informar-me sobre o nosso facultativo e da nova situação por esses blogs fora. Fiquei com a impressão que o Major Valentim poderá estar mais próximo de ser ministro do que eu pudera alguma vez supôr e isso, meus caros, é uma forte impressão a estas horas da noite.

sexta-feira, setembro 28, 2007

E já que percebemos todos, graças ao Dr. Pedro Santana Lopes, o estado de abjecção a que chegámos - os critérios editoriais praticados na Sic são apenas um sintoma - que tal começar a agir em conformidade?

Eu deixei de ver a Sic. Desagrada-me que me tratem malcriada e aviltantemente, que foi o que fizeram ao suporem que estaria mais interessado em ver um treinador de futebol chegar ao aeroporto do que me ouvir o Dr. Santana Lopes falar sobre a crise no maior partido da oposição.
Se todos falarmos esta linguagem, a do boicote - ia dizer, a da resistência - ou outra legal que igualmente os possa ferir no bolso, a coisa melhora.
Decididamente, em matéria de memórias começo a gastar das de João Távora.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Pedro Santana Lopes (parabéns!) foi demasiadamente bem educado, deveria ter-se levantado e saído, sem mais explicações.
Acho, também, que o país está louco. Mas de uma loucura de subúrbio, boçal e medíocre, sem grandeza nem graça. O discurso e trejeitos da jornalista, a que não faltava o seu côté ofendido, a invocação dos critérios editoriais, tudo dá uma medida do grau de plebeidade atingido.

O inacreditável comunicado da SIC sobre o assunto trata o ex-primeiro-ministro como, informalmente, eu o trato aqui, por Pedro Santana Lopes. Mas o que é admissível e natural num blog não o é num comunicado de uma estação de televisão referindo-se a um caso com grande repercussão, passado com um antigo primeiro-ministro. Creio que em nenhum outro país europeu se desceu tão baixo nos modos de tratamento. É que isto não é informalidade moderna, é a generalização do pior e mais grosseiro igualitarismo, sinal certo de uma sociedade empobrecida e bloqueada.
Lua cheia, ar tépido (uns fios de frio), deixo-me estar, entre um ensaio de Berlin, um gin espantoso (espantoso não é o gin em si, que é o habitual: espantoso é ter-me dado ao trabalho de ir arranjar um gin tonic por ter encontrado, fruto do acaso, do mais honesto acaso, uma tónica quando procurava uma água das pedras) e o "Summer Place: Love Theme" que durante anos se ouvia na praia (primórdios da música ambiente) quando era pequeno, de que me lembrei sempre e só há pouco tempo soube como se chamava, o que era. Um arzinho de nostalgia na noite de província e, por causa do Love Theme, lembrança de, nessas épocas remotas................... fui buscar um gelo e perdi o fio à meada (hei-de ter um frigorífico com máquina de gelo, assim que perder o amor a 6,5 cm de bancada de mármore).

quarta-feira, setembro 26, 2007

A minha leitura antes de adormecer tem sido, nestes últimos dias, «Uma Casa em Portugal» de Richard Hewitt. É um livro amável e risonho, mas deixa-me sempre irritado. Não com o livro em si, mas com esta moda nova de levarmos o país a sério, pior, de acharmos que somos um país civilizado ou moderno e não o país muito atrasado que somos - e que se claramente se vê, a olho nu - como o viu, embora não o diga, o autor do livrinho - se não sofrermos da conjuntivite optimista provocada pelo pó de betão.
Os mais sofisticados e requintados olhares sobre Portugal não são - nem nunca foram - os do contentamento, mas os da angústia, desgosto, desespero ou mera pena pelo atraso em si do país e pelo medo das alucinadas tentativas de o superar: desde as reflexões ecianas sobre a recepção acrítica do futuro - e do utilitarismo oitecentista - enquanto avatar sebastianista, até ao hiper senso comum de Pulido Valente,como meio de análise e método de diagnóstico do delírio circunspecto (aqui tão cultivado, país de generalidades importadas).

Bom tempo, já outonal, ar tépido e dourado, etc.

terça-feira, setembro 25, 2007

In The Quiet Land
In the Quiet Land, no one can tell
if there's someone who's listening
for secrets they can sell.
The informers are paid in the blood of the land
and no one dares speak what the tyrants won't stand.
In the quiet land of Burma,
no one laughs and no one thinks out loud.
In the quiet land of Burma,
you can hear it in the silence of the crowd
In the Quiet Land, no one can say
when the soldiers are comingto carry them away.
The Chinese want a road; the French want the oil;
the Thais take the timber; and SLORC takes the spoils...
In the Quiet Land....
In the Quiet Land, no one can hear
what is silenced by murder
and covered up with fear.
But, despite what is forced, freedom's a sound
that liars can't fake and no shouting can drown.
Daw Aung San Suu Kyi

segunda-feira, setembro 24, 2007

Paula Rego em Madrid (80 telas, que não havia sítio em Portugal, diz ela, e eu concordo: nem sítio, nem disposição).
Viagem agradável em perspectiva.
Agradeço ao Bomba Inteligente e ao AnarcoConservador os parabéns pelos meus quatro anos de bloguices. Sim, gosto de Munch, bastante. Leia-se, sobre O Grito:

«I was out walking with two friends - the sun began to set - suddenly the sky turned blood red - I paused, feeling exhausted, and leaned on the fence - there was blood and tongues of fire above the blue-black fjord and the city - my friends walked on, and I stood there trembling with anxiety - and I sensed an endless scream passing through nature.»
O Descrédito e o Vaga Aberta linkaram o Impensável, que agradece, grato.

sábado, setembro 22, 2007

Comecei este blog Impensável faz hoje 4 anos. Continuo a gostar de escrever os posts. Algumas indignações (o desprezo pelas pessoas e os atropelos à liberdade que se dissimulam na nossa legislação penal, por exemplo), indignações conservadoras e libertárias; no resto, o tom menor, quotidiano, doméstico.
Amanhã, primeiro dia de Outono.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Ah, uma Magistrada! Convido à leitura da entrevista da Exma. Senhora Juiza Dra. D. Amália Morgado, extremamente esclarecedora do que é a prática judicial portuguesa, o dia-a-dia dos nossos tribunais.

Transcrevo, em baixo, parte da entrevista - de que soube via Blasfémias.
Convirá perceber que o comportamento desta Juiza é o que resulta, muito limpidamente, da letra da Lei.

«Ainda me lembro da grande polémica que levantei porque me apareceu um processo para eu validar uma transcrição de escutas telefónicas. Eu perguntei onde estão as cassetes para eu ouvir e responderam-me "as cassetes? Estão na Polícia Judiciária, nunca vêm ao tribunal!" Mas como é que valido uma transcrição de escutas, sem ouvir a gravação? Isto foi, na altura, perturbador e levantou grande polémica. Contudo, eu, ao não aceitar essa prática, era severamente criticada e eu sofria grandes pressões.

Já me esquecia: estas declarações - que são uma denúncia de práticas institucionalizas à margem e contra a letra expressa da Lei - constituiriam, em qualquer país avançado - uma monarquia nórdica, por exemplo - motivo para um imenso escândalo, com discussão no Parlamente, pedidos de inquéritos e a sua realização, meditações públicas sobre a questão - que é a do funcionamento substancial da nossa democracia - etc etc.
Porque o mundo é coerente, aqui, seguramente, não haverá nada disso.
Lauren Harris, Clouds, Lake Superior, c. 1923

quinta-feira, setembro 20, 2007

O Senhor Doutor Vasco Pulido Valente é acusado de dizer boutades sobre Aquilino e apodado de direitista pelo Dr. Pedro Mexia. Elucidativo.
Para mim, a boutade, salvo o devido respeito, é o dito do Dr. Mexia.
O que o muito ilustre historiador disse sobre Aquilino é que este era um escritor medíocre. Pode ser uma posição dura, num país onde se vive da falta de arestas - e já com alguma aisance, nos tempos que correm - mas é uma posição entendível e seriamente sustentável e muito a ser meditada, principalmente quando quem a defende é alguém com a estatura intelectual do Doutor Vasco Pulido Valente.

P.S. Ah, o Doutor Pulido Valente não elogiou Clara Pinto Correia. O que fez foi elogiar, creio que a contragosto e confessando a sua imensa surpresa - se ainda me lembro - um livro de CPC, o Adeus Princesa. Um livro que o Doutor Pulido Valente considera um dos melhores romances escritos nos últimos tempos em Portugal.
Madeleine: procurador diz que não foram pedidos mais interrogatórios aos arguidos
O procurador-geral distrital de Évora confirmou hoje que não foram determinados novos interrogatórios aos arguidos do caso do desaparecimento de Madeleine McCann, por não terem sido apurados elementos de prova que os justifiquem.


Isto vem no Público, que é um dos bons jornais portugueses. Não devia vir: não faz sentido. Não pode ser pedido um novo interrogatório aos arguidos pelo simples motivo de que os arguidos apenas podem ser interrogados se quiserem (sic).
(Aliás, que o arguidos ou reús ou acusados sejam interrogados é a excepção, não a regra, em qualquer país civilizado... )

Se, em Portugal, são frequentes os interrogatórios de arguidos isto deve-se, muito simplesmente, ao medo do detido, arguido, inocente ou culpado, ficar preso preventivamente, a menos que fale, que «esclareça as dúvidas»...

Isto, na altura em que estou a ler as alterações ao código de processo penal. Impressionante o modo como se estipulam «novos interrogatórios», «continuações de interrogatórios», etc. Que desorganização e ineficácia, que atraso, que enorme distância dos países do 1º mundo adivinhará - bem - o historiador futuro nestas inovações...

Ah! Foi estipulado um prazo para a duração dos interrogatórios do arguido - os tais que deviam ser excepções e são aqui a regra. Com estas modificações o código português fica ainda bastante atrás, em humanidade, do código de processo da Venezuela - promulgado antes de Chavez, (claro, que antes de Chavez): aí se proíbem os interrogatórios depois das 19 horas, aqui em Portugal ainda permitidos.

É neste ponto que estamos...
(que cansativo isto tudo, este país!)

quarta-feira, setembro 19, 2007

- E a nossa palavrinha para hoje é "forestall"...
-...
- Não é este blog? Não é este blog?
- ...
- Houve uma confusão! Sigam-me, que vou encontrar o nosso blog! Tragam os livros! Bom dia!