quinta-feira, novembro 30, 2006

terça-feira, novembro 28, 2006

«Camarate não foi um acidente, Camarate foi um crime que a justiça portuguesa não foi capaz de julgar. Espero que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condene o Estado português ao pagamento simbólico de um euro, e que esse euro encerre uma severa condenação moral ao Estado português que não foi capaz de levar Camarate a julgamento»
Li agora. Quem assim fala é o Advogado Dr. Ricardo Sá Fernandes.
O Impensavel alegra-se com a notícia e espera que a condenação seja severa.
Não deve, no entanto, ser simbólica: deve ser pesada, embora o dinheiro para a pagar saia dos nossos bolsos. Mas mesmo assim...
Mais: dever-se-ia apurar os responsáveis por no processo nunca ter sido deduzida qualquer acusação, aos quais seria apontada a rua, para onde iriam, com penalizações de pensões, etc.
Enquanto a impunidade durar - e, eventualmente, compensar - pouco ou nada mudará.
Millet, "Bergère et son tropeau", esquisse

Curioso efeito da intempérie: a chuva, as humidades, o suão, tudo parece fazer reviver a minha empalidecida francofilia.

Il pleut, il pleut, Bergère
(ou L'Orage)

Il pleut, il pleut, bergère,
Presse tes blancs moutons,
Allons sous ma chaumière,
Bergère, vite, allons;
J'entends sur le feuillage,
L'eau qui tombe à grand bruit:
Voici, voici l'orage;
Voilà l'éclair qui luit.

Entends-tu le tonnerre ?
Il roule en approchant ;
Prends un abri, bergère,
A ma droite, en marchant.
Je vois notre cabane...
Et, tiens, voici venir
Ma mère et ma soeur Anne,
Qui vont l'étable ouvrir.

Bonsoir, bonsoir, ma mère ;
Ma soeur Anne, bonsoir ;
J'amène ma bergère
Près de vous pour ce soir.
Va te sécher, ma mie,
Auprès de nos tisons.
Soeur, fais-lui compagnie.
Entrez, petits moutons.

Soignons bien, ô ma mère,
Son tant joli troupeau ;
Donnez plus de litière
A son petit agneau.
C'est fait. Allons près d'elle.
Eh bien ! Donc te voilà !
En corset qu'elle est belle !
Ma mère voyez-la

Soupons, prends cette chaise
Tu seras près de moi ;
Ce flambeau de mélèze
Brûlera devant toi ;
Goûte de ce laitage ;
Mais tu ne mange pas ?
Tu te sens de l'orage.
Il a lassé tes pas.

Eh bien ! Voilà ta couche
Dors-y jusques au jour ;
Sur ton front pur, ma bouche
Prend un baiser d'amour.
Ne rougis pas, bergère,
Ma mère et moi, demain,
Nous irons chez ton père
Lui demander ta main.

Fabre d'Eglantine
(guilhotinado em 5 de Abril de 1794 ou, conforme os nomes
que inventou para crismar os meses novos, a 17 de Germinal
)

segunda-feira, novembro 27, 2006

domingo, novembro 26, 2006

Resto de post:........................................................................ «Imparcial como o destino» dizia Puchkine e é essa indiferença neutra - suprema ofensa - que, em Portugal, cria idades de ouro e pequenas tristezas nebulosas, fertéis, recompensadoras.
Antes isso que a desilusão nítida, imparcial, justa, estéril, muda. Antes esse infinito enquanto dure de Vinícius ao sapiencial desencanto de sabermos ser meramente assim: que o fim seja sempre triste, felizmente.

sábado, novembro 25, 2006


Dia Santo de guarda: há 161 anos, em 25 de Novembro de 1845, nascia
José Maria de Eça de Queiroz

sexta-feira, novembro 24, 2006

Que dia! Há muito tempo que não estava um tempo tão mau. Eu, preocupado com beiras, vigio, diligentemente, depois de ter avisado o Senhor João para estar de prevenção, que podia ter que vir cá de um momento para o outro. Até agora, nada, mas a ventania continua.
Eu gosto da fúria dos elementos, sofisticação de provinciano e, pacato, da mais-valia de conforto que é senti-la através do aroma das torradas e do chá mas, com tantas preocupações de ordem material (as malditas beiras - que nem sequer são beiras decentes, centenárias) não consigo concentrar-me na contemplação da natureza, de a desfrutar, como tudo se dizia - e sentia - deveras noutros tempos.

Umbrella
Moma, NY
Telefonou-me a minha empregada a dizer que "assim ficava em casa" se eu não me importasse - piedade tocante para me fazer crer que dissera eu outra coisa mais de acordo com as necessidades da minha comodidada e tal teria sido levado em conta e talvez mesmo pesado numa decisão que não fosse a de se pôr a salvo deste temporal desfeito. Disse-lhe que sim, que com certeza, que fazia muito bem. E percebo-a, de facto, isto está medonho. Mas e se os médicos e os... e os... e os... pensasssem do mesmo modo? Vai ser esta a linha do meu discurso - que pretendo subtil, conquanto firme -, segunda-feira, assim que ela chegue - se o tempo já estiver melhorzinho e ela se resolver, finalmente, a sair de casa.

P.S. Um parente meu, apanhado num "haviam" e afectuosa mas prontamente denunciado por mim, destinatário do mail que o continha, apresentou as suas imediatas e enfiadas desculpas. Ontem, tendo aparecido para tomar café, deixou cair, com ar casual, "a propósito do outro dia" que Camilo e Machado de Assis tinham caído no mesmo erro.
Dei-lhe os parabéns pela companhia ilustre.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Sempre pensei isso, que
"Life is never fair...And perhaps it is a good thing for most of us that it is not."
Oscar Wilde in “An Ideal Husband”
E muita da minha actividade consiste no cultivo e gestão de circunstâncias atenuantes, para o caso - não esperado - de um acesso de fair play divino.

terça-feira, novembro 21, 2006


Robert Rauschenberg
De uma passeata pelos blogs e universos adjacentes ficou-me a impressão que a palavra «ochlocracy» vai entrar na moda. Diria mesmo que vai manter, em aportuguesamentos que dela se farão, aquela sequência estranha de consoantes "chl" que parece pertencer a uma happy few loção do século XIX, enquanto o português "ocl" nos remete para aflições em vísceras infectas e urgências sobrelotadas. Desmancha-prazeres que sou, é só para dizer que «ochlocracy» em português se escreve mesmo oclocracia. Fica feiote mas é assim mesmo.
Entretanto, como estamos ainda nos tempos heróicos do uso da palavra, uma citação de Mencken sobre a oclocracia ou, como dirão os blogs portugueses, ochlocracy (ou ochlocracia):

«The practical politician, as every connoisseur of ochlocracy knows, is not a man who seeks to inoculate the innumerable caravan of voters with new ideas; he is a man who seeks to search out and prick into energy the basic ideas that are already in them, and to turn the resultant effervescence of emotion to his own uses.
in "The American Credo" de Mencken

segunda-feira, novembro 20, 2006

Fui ver o Almocreve e encontrei a prosa de Vasco Pulido Valente de quem tinha procurado, momentos antes, em vão, o "Glória" para oferecer em acção civilizadora (do meu exemplar, é escusado dizer, não me desfaço).
Mas era só para dizer que, desde a leitura gloriosa, a tragédia de Vieira de Castro me parece poder ter sido uma das fontes do "Alves & Cia", de Eça.
Alves, o Alves, apesar de Godofredo, ao contrário de Vieira de Castro, compreendeu. Compreendeu que a época era a da vitória definitiva da pacatez, da impossibilidade da aplicação de códigos de honra ultrapassados fora dos dramas representados e dos folhetins de capa e espada lidos e apreciados, uns e outros despedidas já tardias dos tempos da heroicidade romântica em questões de ménage - e, no geral, em todas as questões. O Godofredo Alves que sacrifica à pax doméstica e ao conforto moderno e a eles acaba por oferecer os pontos de honra - para não falar de sa petite doute - é o que Vieira não soube ser: um vitorioso. Um vitorioso sensato.

domingo, novembro 19, 2006

Acordar muito agradável. O dia está bonito, entre o nebuloso e o solarengo. Resolvi levantar-me, tomar um café. Agora estou à camilha e leio alguns blogs. Comecei pelo Abrupto . He cares! Como aquele homem genuinamente se preocupa connosco, quanto quer que pensemos bem, quanto nos quer salvar da falácia, das más decisões, quanto nos dá bons conselhos! E quanto é genuína nele essa preocupação paternalista... Admoesta-nos num post em forma de "eu bem tinha dito" sobre Santana Lopes, já que o livro parece confirmar com firmeza as suspeitas da leviandade pensadora do ex-estadista. Ora, eu fui daqueles a ter pensado que, dado ninguém fazer as reformas necessárias e a modificar o essencial, um governo de Santana não apenas não seria mais gravoso que qualquer outro quanto poderia surpreender numa ou noutra medida - além de proporcionar algum divertimento. Não foi assim, houve - ou fizerem crer que houve - demasiada trapalhice.
Mas, e isto é o que conta, expurgado o governo do play-ministrismo, em termos de resultados finais, o país continua a empobrecer e a afastar-se da média europeia com Sócrates - que não tem coragem para reformas necessárias e é mentirozeco e ridículo.
Ou seja, a trapalhice, a cobardia e a ineficácia continuam, só que com catadura sisuda, e por isso, aceitáveis, por serem o habitual.
Quando formos ultrapassados pela República de Malta no ranking dos países da UE avisem-me.

sábado, novembro 18, 2006

Marcel Proust

10 de Julho 1871 - 18 de Novembro de 1922

No dizer de Eça de Queiróz: «Je suis poussif», este week-end, estes últimos tempos.
Falta de vento noroeste ou de um nordeste frio, enxuto, limpído?

sexta-feira, novembro 17, 2006

The hour of the soul

At the deep hour of the soul,
Deep hour - nocturnal...
(Gigantic stride of the soul,
Soul in night's hold.)

At that hour, soul, rule all
The worlds you will
To govern - palaces of soul,
Soul, rule them all.

Make rusty your lips, with snow
Powder your lashes
(Atlantic sigh of soul,
Soul in night's hold...)

Soul, with darkness kohl
The eyes where like Vega
You arise...Of sweetest fruit
Make bitter gall.

Make bitter, dark as coal.
Grow great: and rule.

Marina Tsvetaeva
8 August 1923

Tradução do russo de David McDuff

quinta-feira, novembro 16, 2006

quarta-feira, novembro 15, 2006

Os restos de um dia de chuva

(...) " Mas temo que a alusão às minhas páginas que leu contenha um mal-entendido. A lembrança [souvenir] a que dou tanta importância não é, de modo algum, o que se chama geralmente assim. A atitude de um dilettante que se contenta em encantar-se com a lembrança das coisas é a contrária da minha. Não que teoricamente, com premeditação, eu tenha constituído a esse respeito un sistema. Nada em mim de mais inconsciente. Mas assim como lendo Stendahl, Thomas Hardy, Balzac realcei, com o intelecto, os traços profundos dos seus instintos que eu gostaria de desenhar por isso nunca ter sido feito se esse tempo me fosse ainda concedido - do mesmo modo lendo-me a mim mesmo determinei imediatamente os traços constitutivos do meu inconsciente. [...] Posso dizer que a lembrança de Dostoïewski, Tolstoï (compreenda bem que quando cito estes grandes nomes não é para me igualar a eles! nem mesmo para deles me aproximar mil léguas!) o «ele deveria mais tarde lembrar-se sempre do momento em que tinha reparado nesta porta» é ainda qualquer coisa de extremamente contingente e acidental relativamente à «minha» lembrança, na qual, encontrando-se modificados todos os elementos materiais constitutivos da impressão anterior, a lembrança, do ponto de vista do inconsciente, toma a mesma generalidade, a mesma força de realidade superior que a lei em física, pela variação das ciscunstâncias . É um acto e não uma voluptuosidade passiva. De resto, a noção de prazer não existe para mim. Não que a minha vida seja desprovida de prazeres como se crê mas como não o procuro apenas acompanha o amor ardente que eu tenho pelas coisas e que talvez, com efeito, esteja um pouco sobreexcitado pela privação. Desculpe o meu estado de esgotamento que se traduz por um balbuciamento espiritual que eu devia evitar a uma inteligência como a sua " (...)

Marcel Proust, Carta a Jacques Copeau, 22 Maio 1913 in "Marcel Proust, Lettres", pg. 616
Paris, Plon 2004
Tradução impensável

terça-feira, novembro 14, 2006


E mandaram cá estes Chrisanthèmes que Renoir anotou tão bem.
Merci bien, veuillez agréer mes hommages les plus respectueux.