segunda-feira, dezembro 13, 2004

E no fogão o fogo crepita. O fogo crepita no fogão é um desgraçado lugar comum muito abundante em descrições dos prazeres de Inverno ou dos do espírito, se meditarmos, lermos em frente ao, ou dessas actividades formos distraídos pelo mesmo.
O que me parece injusto para tão comum lugar liteterário é a trabalheira necessária para que o fogo crepite. Encomenda da lenha, implorar para que não esteja molhada, vigiar para que fique arrumada e, depois, o pior, ir à arrecadação buscar a lenha e trazê-la escada acima. O fogo crepita? Ora vejamos: um fogo laborioso crepita. Se os meus escrúpulos em pedir à empregada que traga para cima sacas generosas de lenha persistirem, vejo-me privado da contemplação do lugar comum e, no cair frio da tarde de Inverno, resta-me, de uso ameno e caseiro, o fumegante chá. A loira torrada, a torrada dourada, também já se foi, há muito. Há alguma coisa sobre lombadas pousadas de livros, livros esquecidos sobre uma mesa ou um sofá, mas sempre os achei pouco entusiasmantes.
O que não posso decentemente é pedir à empregada, a quem dou instruções para ter cuidado com os pesos, etc, etc, que traga as preciosas sacadas de lenha, para que esta crepite no começo do texto...
Impedido da contemplação e desfrute de lugares comuns que caros me eram, e brandos - o fogo crepita brando, interessante, este - eis um side effect estranho do paternalismo nas relações laborais.


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