sábado, setembro 27, 2003

Voltando a Eça
Exiguidadade, dizia. Duas e diferentes: a do leitor, obrigado desde logo à inverosimilhança, à implausibilidade jacíntica ( a sua fortuna pessoal, quase impossível no Portugal de então, os "gadjets" do 202, os seus paradoxos), de onde, no entanto, tem de partir, exiguidade aumentada pela abundância de referências, de "locais" de interpretação que, também, abundantemente, se anulam - O Zé Fernandes do excurso ao Sacré Coeur, e o que sobe as serras no burro de Sancho Pança, o Zé Fernandes intérprete dos nossos pasmos, na busca de razoabilidade e o Zé Fernandes das paixões infames...

E exiguidade de Jacinto, que é de outra natureza, uma exiguidade da distância consciente entre o eu e o mundo", de Denkraum, enquanto "acto fundador da civilização humana" (Aby Warburg e a História como memória (António Guerreiro, Revista História das Ideias, Vol. 23, 2002 pgs. 389 e sgs) e de que Jacinto inteiramente prescinde de refundar em si, com o seu utilitarismo (Suma potência x Suma ciência = Suma felicidade)
Essa distância fundadora é, de facto, inexistente ou exígua num Jacinto que se confunde, se dissolve na cidade: "E depois (acrescentava), só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um aconchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana murchando, cheia de lumes e de armas..." (itálicos do bloguista)
A solidariedade - e a fraternidade - jacintiana com seu semelhante citadino é forjada, porém, na solidariedade de produção de conhecimento, de significado: "Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de Armazens servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima de fios de telegrafos, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de de uma humanidade fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sobre a ilusão do gozo - o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver".

Em oposição, as serras - e a natureza - não serão tanto a "natureza" fisicamente falando, quanto um locus, ou um objecto não epistemológico, não diferenciado , que não podemos interrogar - "Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores" - e que, ao não nos questionar, nos priva de identidade, nos hostiliza: Jacinto "estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal"

E onde está Zé Fernandes?

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