quarta-feira, dezembro 31, 2003

Tenciono passar de ano em casa, sossegado.
O "kit" de passagem de ano é composto de 1 ou 2 livros, 1 garrafa de champagne decente, 12 passas de uva, uma pêndula que já marcou a passagem de dois séculos, 1 telemóvel desligado e 1 pequeno banco de onde pularei, com o pé direito, para 2004 (há tempos atrás, numa época de maior indolência, substituí o salto do banco pelo levantar do pé esquerdo à  meia-noite, mantendo o direito em terra. É eficaz, mas abandonei tal hábito, por pouco "sportif"). Costumo temperar esta actividade física (salto, uvas, libações) com três ou quatro resoluções "ano novo, vida nova" algumas tocantemente pueris e que esqueço, de imediato, sem o menor escrúpulo.
Passado o ano, isto é, à  meia-noite e cinco, poderei, auspiciosamente, retomar a leitura do Churchill, do Gilbert, ou de Mme. de Sévigné que tenho estado a ler, ou dar uma volta pelos blogs, adormecer, ver o Big Brother, ou mudar de ideias e sair - ou fingir que vou, afinal, sair. Em suma: fazer o que rigorosamente mais me apetecer.
Bom Ano!

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Tinha-me prometido não falar dos "grandes assuntos" e dou por mim a dedicar algum do meu tempo e espaço do blog ao caso Casa Pia. É que nele e por ele veio ao de cima alguma coisa do pior que em nós, portugueses, existe e persiste: primeiro, o desleixo e o deixa andar, as meias-medidas, a indiferença; depois, a reacção das boas almas - algumas delas dificilmente isentas da culpa da omissão - a ostentação de delicadeza de sentimentos - recente; ainda, a falta de rigor, o amadorismo da investigação privilegiando o testemunho, a falta de meios adivinhada, a efabulação infantil que sonha horrores e perversões além das imediatas e visíveis - uma espécie primária de esconjuro - os rigorismos, os exageros justicialistas, anversos e reversos do mesmo subdesenvolvimento.
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".

Foi, enfim, deduzida a acusação no processo Casa Pia.
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...

Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Ainda ontem, passei pelo De direita. Deseja que a defesa seja isenta. Quem deve ser isento são os juizes, não a defesa. E as "tropelias" desta já motivaram decisões do Tribunal Constitucional que poderão mitigar a sorte de muito desgraçado alheio ao processo Casa Pia, metido, sem saber porquê e sem que de nada tenha sido acusado, nas enxovias que são ainda as nossas prisões.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
O Crítico e o Sex in Lisbon adicionaram o Impensavel à sua lista de blogs.
O Impensável agradece.

domingo, dezembro 28, 2003

Uma pequena volta pelos blogs, neste fim de tarde de domingo.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.

sábado, dezembro 27, 2003

Escrevo sobre o cinzento sereno. Por entre as árvores, ali em frente no jardim, traços breves e fuscos de pequenos vôos. Depois, as casas pequenas. A meio caminho do horizonte, de vez em quando, o ladrar de um cão. Se alguém passasse, o ruí­do dos passos, a janela com luz onde escrevo. Este dia é estas coisas poucas mas é alto o muro que constroem.

sexta-feira, dezembro 26, 2003

Hoje, na taberninha, e deste diminuitivo participa o afecto quanto o rigor descritivo, na taberninha onde todos os dias tomo café e compro pão bem feito - reinava um silêncio quase taciturno e lustral - assim talvez fosse depois dos grandes festins solisticiais e dos episódios de mania dionisí­aca.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

A noite cai.
Bom Natal.
Que dia tão bonito, calmo e tão azul.
Na taberninha onde fui comprar cigarros e tomar café - hoje fecha cedo, daqui a pouco - estão à porta a ver este começo de tarde.


terça-feira, dezembro 23, 2003

De regresso.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.


O descanso absoluto não existe, tomem-se as precauções que se tomarem. Vejo-me obrigado a sair para ir fazer compras, compras de Natal, ao hipermercado de prov­íncia que frequento. Confesso que a experiência acaba por não ser penosa. A ferocidade com que aquela gente afogueada e ávida enche os carrinhos tem um fulgor de rapina, de repartição de despojos que remete para o sangrento prazer do saque.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.

Adenda ao post anterior: relacionar a degradação dos imóveis com a lei do arrendamento para habitação não é um erro, mas é incompleto: o arrendamento comercial encontra-se nas mesmas condições de iniquidade.
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
A história é conhecida: durante decénios - a “coisa” começou com a 1ª república - o estado dedicou-se a brincar com os imóveis dos outros com o resultado que está à vista: as cidades estão cheias de prédios a cair, alguns caem mesmo e, pior ainda, em sítios por onde passam membros do governo, colegas deles de governos estrangeiros e turistas(os nacionais não contam). Em suma: a coisa dá um terrível mau aspecto, é capaz de já ter provocado graçolas em Bruxelas, e o governo, brioso, parece ter resolvido atamancar a situação, para pôr “isto” mais moderno e com um ar de 1º Mundo.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.


segunda-feira, dezembro 22, 2003

Os portugueses gastam três vezes mais dinheiro com telecomunicações do que com a educação.
Se o tempo gasto ao telefone for utilizado para dar vazão à ignorância pode-se dizer que são notavelmente sucintos.

Pensadamente, desejo a todos um Santo Natal e Ano Novo Feliz.

A imagem fazia parte dos cartões que se usavam para pôr os nomes nos presentes, nos inícios dos anos sessenta (62-63), e que alguém tinha trazido de Londres. Restam alguns que guardei juntamente com outros artefactos natalícios da mesma origem.
À direita da imagem , o "From e o To" que cortei foram as primeiras palavras que soube em inglês.

domingo, dezembro 21, 2003

Foi do modo como a notí­cia foi dada, ou vem do treino em processo penal que adquirimos nestes últimos meses, não passou despercebida a contradição contida no despacho que manda prender um presumido inocente para que este não continue a actividade criminosa. Convirá lembrar, além do mais, que se trata de presumir a actividade criminosa de quem não foi, até hoje, acusado de qualquer crime.
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo polí­tico - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
Sem sono, passei a noite de livro em livro. Aqui passei também o meu tempo e reparo que devo ter estado mais de uma hora à  procura da fotografia de um fogão a lenha na net; desdobrei-me em esforços: do Brasil a Inglaterra, passando pelos "forneau à  bois" franceses. Não encontrei, tentei cá em casa e, surpreendemente, passados dez minutos tinha o que queria, o fogão na cimalha do post. Antes de desligar o computador já é dia. Vou dormir agora, a estas horas, e logo será o acordar, já a meio da tarde, ou se tiver sorte, com a noite a cair. De vez em quando, resvalo pela noite, alheio a qualquer preocupação de horas. Das primeiras vezes, a partir das seis impunha-me uma, "mesmo sendo amanhã domingo", no bom-senso cordato e indignado que perpassa a passos miúdos até no que aqui escrevo. Quando acordava, domingo à tarde, mentia-me uma mentira tristonha, vagamente moralizante, como acabam por ser todas: ah! estou engripado, fiz bem em estar na cama, frases destas, apercebendo-me, ainda mais vexado, que a collage com os textos da banalidade, o desejo balsâmico dela, me tornava num ser mais estranho que um mero noctívago que passou a noite em claro a ler...
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.

Por teimosia "gourmet" e "gourmande" de meu Pai manteve-se até tarde o fogão a lenha. Por concessão à  modernidade e creio que ao pessoal, somou-se a esse fogão "a sério", um outro, eléctrico, marca Leão, com um design optimista e sorridente que passou anos de quase inteiro ócio. Quando me desfiz dele, há dois anos, levado pelas exigências das novas receitas, tive pena. A ele devo algumas boas lembranças. A grande alegria que me deu, porém, foi há muitos anos: um choque espectacular e formidável que quase finava uma cozinheira velha com quem eu antipatizava. Lembro-me do alarido e de, passado o perigo, ir espreitá-la à  copa, onde recolhera. Já convalescente, mas ainda combalida, embrulhada num cobertor de papa que exigira lhe trouxessem por julgar a lã bom remédio para os choques eléctricos, bebia chá, assistida pelas "de fora" que a acalentavam assegurando-lhe que tivera sorte em não ter ido desta para melhor.
Mas era no outro, no fogão a lenha, preto, com muitos amarelos que no dia de Natal, logo de manhazinha, estavam os presentes que o Menino Jesus, ajudado pelo Pai Natal lá pusera. Os meus e os das empregadas(os presentes das outras pessoas tinham vindo, por uma deferência do Pai Natal, pela chaminé do fogão da sala). Tudo isto se passava muito cedo, já que o fogão precisava de horas para aquecer. Nunca me deu um prazer comparável ao choque da cozinheira mas, discreto e com uma maldade vagarosa de outras eras, foi ao longo de anos responsável por pequenas queimadelas e aflições que arrancavam sussuradas pragas e aiaiais vivazes. O fogão a lenha, o fogão, por justa antonomásia, não chegou aos meus dez anos. Hoje, se o afã da modernidade o não levara, podia dedicar-me à "cuisine lente".

sábado, dezembro 20, 2003

De pernas para o ar

Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"

O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...