Tenciono passar de ano em casa, sossegado.
O "kit" de passagem de ano é composto de 1 ou 2 livros, 1 garrafa de champagne decente, 12 passas de uva, uma pêndula que já marcou a passagem de dois séculos, 1 telemóvel desligado e 1 pequeno banco de onde pularei, com o pé direito, para 2004 (há tempos atrás, numa época de maior indolência, substituí o salto do banco pelo levantar do pé esquerdo à meia-noite, mantendo o direito em terra. É eficaz, mas abandonei tal hábito, por pouco "sportif"). Costumo temperar esta actividade física (salto, uvas, libações) com três ou quatro resoluções "ano novo, vida nova" algumas tocantemente pueris e que esqueço, de imediato, sem o menor escrúpulo.
Passado o ano, isto é, à meia-noite e cinco, poderei, auspiciosamente, retomar a leitura do Churchill, do Gilbert, ou de Mme. de Sévigné que tenho estado a ler, ou dar uma volta pelos blogs, adormecer, ver o Big Brother, ou mudar de ideias e sair - ou fingir que vou, afinal, sair. Em suma: fazer o que rigorosamente mais me apetecer.
Bom Ano!
quarta-feira, dezembro 31, 2003
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Tinha-me prometido não falar dos "grandes assuntos" e dou por mim a dedicar algum do meu tempo e espaço do blog ao caso Casa Pia. É que nele e por ele veio ao de cima alguma coisa do pior que em nós, portugueses, existe e persiste: primeiro, o desleixo e o deixa andar, as meias-medidas, a indiferença; depois, a reacção das boas almas - algumas delas dificilmente isentas da culpa da omissão - a ostentação de delicadeza de sentimentos - recente; ainda, a falta de rigor, o amadorismo da investigação privilegiando o testemunho, a falta de meios adivinhada, a efabulação infantil que sonha horrores e perversões além das imediatas e visíveis - uma espécie primária de esconjuro - os rigorismos, os exageros justicialistas, anversos e reversos do mesmo subdesenvolvimento.
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".
Foi, enfim, deduzida a acusação no processo Casa Pia.
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...
Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...
Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Ainda ontem, passei pelo De direita. Deseja que a defesa seja isenta. Quem deve ser isento são os juizes, não a defesa. E as "tropelias" desta já motivaram decisões do Tribunal Constitucional que poderão mitigar a sorte de muito desgraçado alheio ao processo Casa Pia, metido, sem saber porquê e sem que de nada tenha sido acusado, nas enxovias que são ainda as nossas prisões.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
domingo, dezembro 28, 2003
Uma pequena volta pelos blogs, neste fim de tarde de domingo.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.
sábado, dezembro 27, 2003
Escrevo sobre o cinzento sereno. Por entre as árvores, ali em frente no jardim, traços breves e fuscos de pequenos vôos. Depois, as casas pequenas. A meio caminho do horizonte, de vez em quando, o ladrar de um cão. Se alguém passasse, o ruído dos passos, a janela com luz onde escrevo. Este dia é estas coisas poucas mas é alto o muro que constroem.
sexta-feira, dezembro 26, 2003
Hoje, na taberninha, e deste diminuitivo participa o afecto quanto o rigor descritivo, na taberninha onde todos os dias tomo café e compro pão bem feito - reinava um silêncio quase taciturno e lustral - assim talvez fosse depois dos grandes festins solisticiais e dos episódios de mania dionisíaca.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.
quarta-feira, dezembro 24, 2003
terça-feira, dezembro 23, 2003
De regresso.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.
O descanso absoluto não existe, tomem-se as precauções que se tomarem. Vejo-me obrigado a sair para ir fazer compras, compras de Natal, ao hipermercado de província que frequento. Confesso que a experiência acaba por não ser penosa. A ferocidade com que aquela gente afogueada e ávida enche os carrinhos tem um fulgor de rapina, de repartição de despojos que remete para o sangrento prazer do saque.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.
Adenda ao post anterior: relacionar a degradação dos imóveis com a lei do arrendamento para habitação não é um erro, mas é incompleto: o arrendamento comercial encontra-se nas mesmas condições de iniquidade.
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
A história é conhecida: durante decénios - a “coisa” começou com a 1ª república - o estado dedicou-se a brincar com os imóveis dos outros com o resultado que está à vista: as cidades estão cheias de prédios a cair, alguns caem mesmo e, pior ainda, em sítios por onde passam membros do governo, colegas deles de governos estrangeiros e turistas(os nacionais não contam). Em suma: a coisa dá um terrível mau aspecto, é capaz de já ter provocado graçolas em Bruxelas, e o governo, brioso, parece ter resolvido atamancar a situação, para pôr “isto” mais moderno e com um ar de 1º Mundo.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.
segunda-feira, dezembro 22, 2003
Pensadamente, desejo a todos um Santo Natal e Ano Novo Feliz.
A imagem fazia parte dos cartões que se usavam para pôr os nomes nos presentes, nos inícios dos anos sessenta (62-63), e que alguém tinha trazido de Londres. Restam alguns que guardei juntamente com outros artefactos natalícios da mesma origem.
À direita da imagem , o "From e o To" que cortei foram as primeiras palavras que soube em inglês.
domingo, dezembro 21, 2003
Foi do modo como a notícia foi dada, ou vem do treino em processo penal que adquirimos nestes últimos meses, não passou despercebida a contradição contida no despacho que manda prender um presumido inocente para que este não continue a actividade criminosa. Convirá lembrar, além do mais, que se trata de presumir a actividade criminosa de quem não foi, até hoje, acusado de qualquer crime.
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo político - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo político - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
Sem sono, passei a noite de livro em livro. Aqui passei também o meu tempo e reparo que devo ter estado mais de uma hora à procura da fotografia de um fogão a lenha na net; desdobrei-me em esforços: do Brasil a Inglaterra, passando pelos "forneau à bois" franceses. Não encontrei, tentei cá em casa e, surpreendemente, passados dez minutos tinha o que queria, o fogão na cimalha do post. Antes de desligar o computador já é dia. Vou dormir agora, a estas horas, e logo será o acordar, já a meio da tarde, ou se tiver sorte, com a noite a cair. De vez em quando, resvalo pela noite, alheio a qualquer preocupação de horas. Das primeiras vezes, a partir das seis impunha-me uma, "mesmo sendo amanhã domingo", no bom-senso cordato e indignado que perpassa a passos miúdos até no que aqui escrevo. Quando acordava, domingo à tarde, mentia-me uma mentira tristonha, vagamente moralizante, como acabam por ser todas: ah! estou engripado, fiz bem em estar na cama, frases destas, apercebendo-me, ainda mais vexado, que a collage com os textos da banalidade, o desejo balsâmico dela, me tornava num ser mais estranho que um mero noctívago que passou a noite em claro a ler...
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.
Por teimosia "gourmet" e "gourmande" de meu Pai manteve-se até tarde o fogão a lenha. Por concessão à modernidade e creio que ao pessoal, somou-se a esse fogão "a sério", um outro, eléctrico, marca Leão, com um design optimista e sorridente que passou anos de quase inteiro ócio. Quando me desfiz dele, há dois anos, levado pelas exigências das novas receitas, tive pena. A ele devo algumas boas lembranças. A grande alegria que me deu, porém, foi há muitos anos: um choque espectacular e formidável que quase finava uma cozinheira velha com quem eu antipatizava. Lembro-me do alarido e de, passado o perigo, ir espreitá-la à copa, onde recolhera. Já convalescente, mas ainda combalida, embrulhada num cobertor de papa que exigira lhe trouxessem por julgar a lã bom remédio para os choques eléctricos, bebia chá, assistida pelas "de fora" que a acalentavam assegurando-lhe que tivera sorte em não ter ido desta para melhor.
Mas era no outro, no fogão a lenha, preto, com muitos amarelos que no dia de Natal, logo de manhazinha, estavam os presentes que o Menino Jesus, ajudado pelo Pai Natal lá pusera. Os meus e os das empregadas(os presentes das outras pessoas tinham vindo, por uma deferência do Pai Natal, pela chaminé do fogão da sala). Tudo isto se passava muito cedo, já que o fogão precisava de horas para aquecer. Nunca me deu um prazer comparável ao choque da cozinheira mas, discreto e com uma maldade vagarosa de outras eras, foi ao longo de anos responsável por pequenas queimadelas e aflições que arrancavam sussuradas pragas e aiaiais vivazes. O fogão a lenha, o fogão, por justa antonomásia, não chegou aos meus dez anos. Hoje, se o afã da modernidade o não levara, podia dedicar-me à "cuisine lente".
sábado, dezembro 20, 2003
De pernas para o ar
Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"
O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...
Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"
O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...
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