terça-feira, julho 03, 2007

Estes posts, de há uns meses a esta parte, são um agregado de indignações bem intencionadas e, de algum modo, espontâneas, que ficariam bem em quadras populares mas que num blog o transformam numa coisa sumamente desagradável.

segunda-feira, julho 02, 2007

Os doentes oncológicos esperam, em média, 3 meses por uma necessária intervenção cirúrgica, sendo certo que um dia pode significar a diferença entre a vida e a morte.
A notícia releva do mais autêntico terror.
Enquanto isto, uma menina de, digamos, 19 anos, perfeitamente saudável, quer ter (tem?) o direito de, grátis e num prazo mínimo, sem incómodos ou perguntas, abortar por causa daquele esquecimento ou azar, uma maçada que quer resolver já, consumindo para tal, num país onde há um preocupante défice demográfico, meios humanos e técnicos escassos . Não virá longe o dia em que alguma doente oncológica se veja na necessidade de fingir querer abortar para salvar a sua vida.

Entretanto, num serviço público, passaria a ser aberta a correspondência dirigida aos funcionários (via 31daArmada que, muito bem, cita a legislação penal aplicável a tais desmandos). O PSD fala de autoritarismo. Vontade de complicar: como se vê, é um mero crime. Um crime de pulhas, mas um mero crime. O autoritarismo é outra coisa.

Ah! Li recentemente umas coisas muito indignadas pelo facto da CIA, durante a Guerra Fria, ter aberto alguma correspondência. A coisa era, como aqui, ilegal e criminosa e era feita às escondidas. Por cá, nem sequer existe a noção de que tais actos são baixezas e fazem-se, às claras. Espero as mesmas indignações além, claro, da esperada acção do Ministério Público, em conformidade com a notícia-confissão do crime publicada.

Enfim, duas notícias com um denominador comum: a absoluta falta de vergonha e de decência: que gentalha, que abjecta escumalha!

domingo, julho 01, 2007

No Corta-fitas, parabéns a Mario Soares por isto.
É bondade do Corta-fitas: não há, no que Soares disse, a enunciação de nenhum dos princípios por que se devem reger os estados democráticas, mas casuísticas considerações estreitamente utilitárias se não mera esperteza saloia: "São coisas desagradáveis porque fazem mossa no Governo e são fáceis de contestar. [...]"
Na volta pelos blogs encontro no «Da literatura» um post estranho, este, em que é esquecida a diferença entre empresas ou organizaçoes privadas, pertença de particulares, onde decorreriam as brejeirices e a função pública e instalações públicas, organização e propriedade com fins públicos que todos nós pagamos através dos impostos, e não são propriedade privada de ministros, ou directores-gerais ou seja quem for...
Assim se pensa em Portugal, comparando-se o incomparável.

sábado, junho 30, 2007

Assim vai o mundo: tendo-me dito uma menina do meu tempo - não a via há eras! - que, por uma sua filha, era avó há dez dias, lhe dei os parabéns mas me faleceu a coragem e não fiz as perguntas costumeiras sobre casamentos, entre elas quem o seu genro fosse, no medo que o não houvesse.
Agora, regressado a casa, fui ali ao Sapo ver. Lá estão o casamento - local e data - e o genro, a minha pusilanimidade foi em vão (creio, no entanto, que percebeu os motivos da minha contenção e que não deixou de a apreciar, adepta que sempre foi de dificuldades).
Coisas de que gosto: de luar. Da lua cheia que ilumina os campos e do luar doméstico, entrado pela janela e que ilumina salas, quartos.

quinta-feira, junho 28, 2007

Aquela do Alberto Acácio Martins, das questões planetárias além de soez é de um atrevimento inaudito de ignorante: nós, portugueses, sabemos muito bem o que são as questões planetárias pela simples e boa razão de termos sido nós que as inventámos: Afonso de Albuquerque queria, para resolver um problema português, desviar o curso do Nilo o que era, convenha-se, planetário em suficiência para assustar - como assustou - os Martins do tempo.
O problema não é a falta de paciência e discernimento do povo português para se pronunciar sobre os problemas do mundo - que ajudou a moldar - mas outro, bem mais infeliz: o da distância - galáctica - que separa Afonso de Albuquerque - que se ocupava de problemas portugueses - do sr. Sousa, actual primeiro-ministro e colegas que sonha «resolver os problemas planetários»
Depois da queda, a expulsão, ao instituir a distância - e nela o universo humano - instilou a necessidade da viagem, reconstituição dos passos - e não há outros, ainda hoje, senão esses - no abismo transposto então.

segunda-feira, junho 25, 2007

Quase inacreditável a quantidade de «Brunos» entre os autores de blogs. Sem ser velho, velho, sou do tempo em que Bruno só - ou quase só - o Sampaio, um republicano de há 100 anos.
O Pinto de Sousa quer-nos calados para não prejudicar a presidência europeia de Portugal (e dele...) O inglês técnico não lhe deve chegar para saber que, durante os piores dias da II Guerra Mundial, na Grã-Bretanha então sozinha e assolada pela barbárie nazi-comunista (as bombas que caíam em Londres contavam com matéria-prima soviética para as tornar mais letais), nunca deixou de haver discussão política acesa e que Churchill teve mesmo de enfrentar, no Parlamento, uma moção de censura.
Enfim...
Aturar esta gente e os argumentos criadais é cansativo, repito.
A Loja das Meias vai fechar. A Baixa - exceptue-se, em parte, o Chiado - está decrépita: houve mudanças de hábitos e aparecimento de outros sítios, com certeza, mas tais mudanças ocorreram em todo o mundo e das capitais europeias apenas a Baixa de Lisboa desertificou tão lugubremente.
Não se pode deixar de apontar como uma das principais causas desse triste destino a inacreditável lei do arrendamento, única no mundo também no que diz respeito à parte comercial.
Depois das saloias boas intenções em «proteger a actividade comercial» aí está a realidade.

sábado, junho 23, 2007

Em resumo, J lamentou que as pessoas conhecidas fossem muito pouco cultas. Assenti que algumas o eram, mas cá para mim pensei que bem queria lá eu saber se leram este ou aquele se não tiverem manières de table e que me sinto muito feliz por se poder conversar longa e pausadamente - ou com algum entusiasmo - sobre alguns assuntos tidos como fúteis, tais a falta de representantes em Portugal de algumas coisas quase indispensáveis, desde ideias, humour, vestimentas, a colónias usáveis.

quinta-feira, junho 21, 2007

Começo de Verão. Que não seja tórrido, sufocante e inclemente, que seja um bom e sensato verão atlântico.

quarta-feira, junho 20, 2007

Parece, segundo notícia do Expresso, que o Sr. Sousa, primeiro-ministro actualmente em exercício, terá apresentado queixa contra o Sr. Dr. António Balbino Caldeira na questão do título de engenheiro que o outro gosta tanto de ostentar.

Esperemos que o Sr. Dr. Balbino Caldeira deixe os tribunais cabalmente esclarecidos quanto à justeza do que escreveu e saia severamente punida a atoleimada e fantasiosa vaidade.
Entretanto, é de não perder a leitura do post de hoje, 20 de Junho no Portugal Profundo. Leitura que deve ser demorada, meditada, para termos noção de como se pode ser enxovalhado neste Portugal do séc. XXI.

terça-feira, junho 19, 2007

«Mário Lino diz que opção 'Portela + 1' não é viável»
Pergunto-me como o sabe ele.... terá mandado estudar a questão ou é um mero palpite?
Enfim...
E tudo isto é tãooooooo cansativo.

Ontem estive a ler um pouco do Costigan "Retratos de Portugal" que só conhecia em segunda mão, por citações. Nada animador, nada animador - como, aliás, já sabia.
O único consolo que tiro desta literatura de viagens em Portugal - para saber mais e a sério sobre o assunto, leia-se Castelo-Branco Chaves - dizia eu que o único consolo que tirava destas leituras é a confirmação do que há muito tempo penso, que optámos por não viver no mundo, que dele nos apartámos sem pena há longo tempo e que as nossas mudanças não são tanto de regimes ou de governos quanto de géneros literários ou de autores. Agora, por exemplo, vivemos num burlesco sem génio, sem fôlego.

segunda-feira, junho 18, 2007

Entretanto, ainda o assunto aeroporto. JPP diz: «Se foi o Primeiro-ministro Sócrates "que pediu à CIP para avançar com estudo de alternativa à Ota", como disse o presidente da CIP sem desmentido governamental, por que razão andou ele próprio e o ministro Mário Lino a mentir-nos de há quatro meses para cá? Mentira é a palavra certa, mais má fé, mais dolo, tudo palavras certas para descrever o que aconteceu (e se calhar continua a acontecer agora mesmo) : o engano deliberado dos portugueses, a manipulação de todos nós.»

E mais:

«Sabem o que cada vez mais isto me parece, a sensação com que já fiquei depois da história do "diploma"? É que é tudo muito parecido com o estilo das "jotas", uma indiferença face à honestidade e à verdade, uma política feita de trapalhices e trapacices, um vale tudo para manter o poder, ganhar uns pontinhos, esmagar um adversário, um autoritarismo com os fracos e subserviência para com os fortes, um parecer mais que ser. A todo o custo. »

Também acho...
Passei o fim-de-semana longe de blogs e informação em geral e só agora me apercebo que é já uma divulgada verdade o Senhor Dr. António Balbino Caldeira ter sido mesmo incomodado como arguido por causa da complexa licenciatura do primeiro-ministro em exercício.

Coisas de país pobre e sem princípios, bem sei, mas às vezes esquece-se a gente onde vive.
Liberdade: the real thing e as compradas na loja dos trezentos

Acabo de ler o Portugal Profundo e, por ele, saber que o seu autor foi constituído arguido (!!!!!!) no assunto "dossier Sócrates". Tal dossier, nunca é demais (re)lembrar está relacionado com o Sr. Sousa, actual primeiro-ministro, que usou em "sites" oficiais e deixou que figurasse no Diário da República um título - o de engenheiro - a que, claramente e inequivocamente não tem qualquer direito; e que, sobre a licenciatura em si - um assunto sem história ou controvérsia para milhares de licenciados portugueses - não conseguiu produzir - salvo erro - dois documentos que condissessem na atestação dos termos da mesma (o certificado existente na Câmara Municipal da Covilhã, igualmente diferente de quaisquer outros, não deveria, por si só, ter desencadeado um inquérito?)

Que o autor deste blog se lembre, todas as afirmações a propósito desse assunto contidas no Portugal Profundo foram feitas com sólidos suportes documentais e elaboradas a partir deles - como tenho visto pouco neste país.

Por isso, estranho - e ainda ponho a hipóteses de se tratar de alguma brincadeira de mau gosto - que o autor do blog Portugal profundo tenha sido constituído arguido!

Enquanto isto, enquanto há, neste país, gente que é incomodada pela inconveniência de dizer verdades pouco abonatórias para a vaidade e prosápia dos Sousas destes pobres mundos, noutros países, na Grã-Bretanha, por exemplo, saem, ano após ano, sem que os seus autores sejam acusados de qualquer crime, livros onde se afirma, entre outras coisas espantosas, que a actual Soberana britânica teve affaires extra-matrimoniais mais se acrescentando que os seus filhos mais novos, Duque de York e Conde de Wessex não o são de seu Marido, o Principe Consorte (o que, no Reino Unido, teria até repercussões constitucionais na ordem da sucessão ao Trono Britânico!...
Lá, porém, no pasa nada e os sites e os livros continuam... é a liberdade a sério, the real thing e, claro, a consciência tranquila dos alvos de tais dislates, uma força tão imensa quanto calmante.
Aqui, é a liberdade de pechisbeque - a condizer com o resto.
Haverá, nesta lamentável episódio do aeroporto de Lisboa, uma virtude: a de ilustrar que o bom povo português, durante anos entusiasta do keynesianismo do betão, percebeu (finalmente!!!) as limitações daquela política e o efémero dos seus resultados.
Alguns dos grandes empresários portugueses têm medo de serem prejudicados pelo goveno por causa de opiniões e acções perfeitamente legítimas e, pelo seu lado, o governo socialista parece não estranhar tal medo! Pouco se poderá dizer de pior deste lameiro onde viemos parar e a principal preocupação dos portugueses será - ou devia ser - descobrir como sair dele.

Por lameiro, é interesssante verificar o medo ou ódio do governo e um pouco do regime - que apenas formalmente ainda é uma democracia , à diferença de opiniões. Ora, se faz favor de verificarem os senhores leitores por si próprios.

sábado, junho 16, 2007

E, de novo, o Doutor Vasco Pulido Valente, no «Público» de hoje, sábado:

«O medo move a CIP como o último empregado do último serviço do mais miserável ministério. O santo medo do patrão que faz de Portugal este país pacífico e ordeiro que o mundo admira.»

sexta-feira, junho 15, 2007

Doutor Vasco Pulido Valente, no «Público» de hoje:

«Porque ou este adiamento é de facto uma pura e aviltante manobra do Governo, que exibe sem vergonha o seu desprezo pelos portugueses, como pretendem os maledicentes; ou o episódio demonstra a total incapacidade do país para se governar a si próprio. Seja como for, o triste caso do "novo aeroporto de Lisboa" revela um Portugal irresponsável e mesquinho, que não merece respeito ou inspira esperança. »

Itálicos deste acabrunhado leitor.

quinta-feira, junho 14, 2007

"No talho da sua rua, se alguém insultar o patrão o que lhe acontece?"
frase da autoria da tal dren.
"Insultar o patrão"!...
Ontem, dia 13, tudo funcionou aqui a meio gás por ser feriado em Lisboa. Houve correio, todavia, e chegou a última encomenda que fiz na Amazon, de modo que estive, à tarde, a ler o «Fathers and Sons» do Alexander Waugh. Os Waugh são uma autêntica guilda de escritores e literatos -em pouco mais de 100 anos publicaram perto de 180 livros... - e o livro, que conta parte das suas histórias, podia bem chamar-se Waugh, Waugh, Waugh, Waugh & Waugh, Literary Inc.
O pai de Evelyn era ridicule e possidoneco, o que me faz pensar que, filho de um pai assim, não terá sido descabida a observação de sua primeira sogra, Lady Burghclere, quando explicou ao autor de Brideshead, seu breve genro, que ele não era, como de boa-fé até então se julgara, um gentleman - situação maçadora que persiste em alguns dos seus narradores.

terça-feira, junho 12, 2007

Posição (oficial) deste blog sobre a questão do aeroporto: fui ao Google ver bem, bem, onde fica Alcochete e achei o sítio bom, mas mantenham a Portela, tão da nossa tradição quanto a digna Santa Apolónia.
Inutilidades: acordar bem-disposto (se para verificar que a esta hora já o contentamento todo se erodiu. Antes começar o dia com aquele péssimo humor asténico que nos faz ruir, silenciosamente, ainda de roupão, sobre o sofá mais próximo e esperar de barba por fazer e num abjecto jejum que o mundo nos caia em cima ou, pelo menos, que sejamos atingidos por pequenas avalanchas de infelicidade - que, a seu modo, não deixam de ser reconfortantes).

segunda-feira, junho 11, 2007

Ah, este dia 11 de Junho era, noutros tempos, o do fim das aulas; começavam, à tarde depois das aulas, as férias grandes!
(Que só acabavam em Outubro)
Saudades!
Fui ao Portugal dos pequeninos e lá estava a petição. Fui ver. Sim, já tinha assinado. Resolvi dar uma vista de olhos. De amigos meus, pouquíssima gente! Os nomes meus conhecidos estão lá, mas são quase sempre dos filhos deles, gente que, às vezes, só vi no dia do baptizado (e a alegria de saber que cresceram sãozinhos é a única recompensa para a falta dos nomes dos pais - a alguns dos quais tinha enviado o link da petição...).
Mas faltam, a gente da minha idade não está lá. Já enviei mails a protestar pelo amolecimento cerebral que, suspeito, não é o verdadeiro culpado - inclino-me mais para a preguiça e o mero não querer ser desagradável para e com quem quer que seja. Eu sei, eu sei, não ser desagradável, nunca.
Mas um regicida em Santa Engrácia?

domingo, junho 10, 2007

Camões na praia (Pedrouços? Algés?) em meados do século XIX com um grupo de ninfas suas conhecidas (é possível reconhecer Europa e Calypso. Mais afastada, à esquerda: Eurinomia?)

sábado, junho 09, 2007

A ler e reler: o artigo do Doutor Vasco Pulido Valente, hoje, no Público.

Uma amostra, com todas as devidas vénias:

«Queridos leitores do PÚBLICO,
Um bando de
facciosos, para não dizer de loucos,
resolveu agora convencer o país de que o nosso querido primeiro-ministro se inclina excessivamente para o autoritarismo e já criou por aí um clima pouco democrático. Nada mais falso e aberrante. Se o sr. primeiro-ministro decidiu, por exemplo, transferir para si próprio a tutela directa dos serviços de segurança (SIS, SIRP e SIED) e das polícias, não foi para aumentar o seu poder. De maneira nenhuma, foi por meras razões de "funcionalidade"; uma medida patriótica, destinada exclusivamente a garantir a segurança do cidadão e a poupar dinheiro ao contribuinte. Se a canzoada, que não pára de ladrar às pernas de um tão patriótico benemérito, não percebeu esta evidência, tanto pior para ela.»
Agradeço, muito obrigado e grato, ao Réprobo - que leio sempre com muito gosto - o ter-se lembrado, por antinomia, do Impensavel, no que a pensativos blogs toca.

quinta-feira, junho 07, 2007

Antídoto para canículas e outras agruras: do Tamil - veTTi, sem valor + veru, sem uso, inútil; Vetiveria zizanioides; Vétiver.

quarta-feira, junho 06, 2007

6 de Junho 1944 - 6 de Junho 2007

Desembarque das tropas aliadas Norte-americanas e Britânicas na Normandia

Não esquecer!

segunda-feira, junho 04, 2007

A.J. (antes do jantar): esta da suspensão do mandato quando alguém eleito é constituído arguido é a prova de que alguns dos mais elementares princípios do estado de direito - o da presunção da inocência é um deles - ainda não foram digeridos aqui (aliás, o Código de processo Penal atropela-o, artigo sim artigo não sem que ninguém se escandalize).
Tenho escrito pouco aqui: a questão é que pus o portátil num daqueles guéridons pequenos ao lado do cadeirão e não dá muito jeito escrever debruçado.

Leio "Uma vida com Karol" de Stalinao Dziwisk. Num tempo em que a mediocridade da triste e esmagadora maioria dos leaders mundiais é tão acabrunhante que alívio ler sobre um grande homem!

sexta-feira, junho 01, 2007

Claes Oldenburg, Spoonbridge and Cherry, 1985-1988

Em Junho, de novo!
(Exclamação previsível. Veja-se aqui, aqui e aqui)

quinta-feira, maio 31, 2007

O Arrastão - que já visitei duas ou mesmo três vezes (!) este semestre - insurge-se contra um (in)concebível programa de televisão holandês. Fá-lo com uma frase de efeito digna de suscitar a inveja do defunto Sr. Conde de Abranhos (sim, essa mesma, a do coração).
O show em si é, além de chocante, popularucho (com concorrência de donatários) mas creio que há equivalentes em formato «Canal Arte» para gente arejada, requintada, sofisticada, culta, sensibilíssima, moderníssima, produzidos na Holanda ou em qualquer outro local também moderníssimo, com muito laicismo, muito aborto e muita eutanásia.
Mas, não era expectável? Não é a situação descrita uma decorrência da cultura da morte que o Papa João Paulo II denunciou?

quarta-feira, maio 30, 2007

A greve geral não me incomodou: houve pão, correio, o habitual. Já o tempo está desagradável.

Enquanto isto, os pobres venezuelanos ficaram sem o principal canal de televisão. A argumentação para tal facto ainda é jurídica (o decurso do prazo da concessão). Estou, calmamente, à espera do primeiro acto que nem a mais servil e torpe interpretação da lei permita classificar como legal e se possa começar a falar de ditadura.
Será então muito interessante ver quem defende Chavez. Haverá quem, não duvido; alguns deles pertencerão àquela falange que afirma, quando são lembrados do terror soviético - e já perante a impossibilidade de o desmentirem -, que aquilo não era o verdadeiro socialismo. Convirá confrontá-los, depois, com o regime ditatorial chavista em construção e indagar se é desta vez que estamos perante o produto original e autêntico.

terça-feira, maio 29, 2007

O Almocreve fez anos, 4. Acabrunhado pelos acontecimentos, não dei fé. Ficam aqui, agora, os muitos parabéns.
Bem sei que elogio em boca própria é vituperio, mas devo dizer que me espanta o aborrecido e baço que está este meu blog: um convite ao bocejo, ao velho e fiel bocejo de província, bom, manso, dormitado com vagar em escritórios de tremidos e torcidos.

segunda-feira, maio 28, 2007

Por momentos pensei que o feriado de hoje em Inglaterra fosse o do dia do Venerável Beda - um dos Santos da minha devoção e que sei ter o seu dia por esta altura - mas é o de Segunda-Feira de Pentecostes, dia que cá não é tão comemorado quanto nos restantes países europeus, pelos menos nos mais a norte. Aqui, em Portugal o dia passa sem se dar por ele e apenas nos Açores, onde a devoção do Espírito Santo é grande, é feriado nalgumas ilhas. Não percebo esta indiferença, porque é que é assim no continente e uma volta breve pela net não me elucidou sobre o assunto.
Não queria estar a dizer asneiras - mais do que as costumadas - e a ser injusto, mas parece-me que em Portugal se percebe mal o Espírito Santo e o nosso Deus verdadeiro é, como já dizia não sei quem, o Menino Jesus nas palhinhas, o do nosso Natal, doce, terno e salvo do frio pelos bafos da vaca e do burrinho e dos nossos ingénuos protestos pelo desconcerto do mundo, nascidos da nossa pena d'Ele, pena comovida, devota, verdadeira e sincera - até há pouco tempo, pelo menos. Mas, mesmo em alturas de mais atentas devoções, com os dias maiores e os calores esquecemos - e esquecíamos - um pouco o Menino Jesus (já para não falar de Deus-Pai...) e nem Santo António, S. João e S.Pedro nos salvam do paganismo solsticial.

quinta-feira, maio 24, 2007

Desopilantes, as vociferações - tão sentidas e eruditas - do Capitão Haddock!
Vou manter o quadradinho visível, faz-me bem ao fígado.

terça-feira, maio 22, 2007

Deparei com uma breve carta aberta ao actual primeiro-ministro subscrita por Francisco José Viegas*. Ainda não me recompus.... É uma carta que, se bem que não timorata constitui, toda ela, um apelo sentimental ao Sousa, a propósito do escandaloso e intolerável caso do professor afastado por ter gozado com os estudos do dito. Eu, no desconhecimento das subtilezas ora em uso em Lisboa, pensei, por momentos, que a missiva fosse um exercício de ironia, dado o tom suplicante - inexplicável numa democracia - onde não faltam apelos aos presumidos ou conhecidos bons fígados e benigna disposição do ofendido Sousa, nos termos em que noutros tempos se imprecava, prostrado, à Real Clemência que mais dispusesse um coração já de si disposto a perdoar, etc., etc.: era o formulário dos condenados, dos perseguidos, dos injustiçados o que faz - fazia, para mim - da breve carta um pastiche das súplicas dos desgraçados de outrora e, por isso, toda ela uma dura condenação do episódio. Preparava-me para me rir a contento quando, depois de um releitura, julguei perceber tratar-se de um pedido a sério!

Ora vejamos: o Sousa usou títulos académicos que não possuía e a que bem sabia não ter qualquer direito - e teve a desfaçatez de os usar no diário da república e no "site" do governo. Até hoje, que seja do meu conhecimento, não pediu desculpa por essa mentira - que lhe valeria sérias consequências num qualquer país do 1º mundo e que aqui meramente o constituiu - embora com uma intensidade que há muito se não via - em alvo de chacota geral, da mofa desta gente que, pobre e farta de tristezas (e sem os empregos que o Sousa lhe prometeu), gosta de se rir destes ridículos, filhos de tão lorpas toleimas.

Mas, por isso, não podemos ser nós que, por interposta carta* (já que as cartas abertas, por mais pessoais e singulares que sejam, sempre se constituem um efeito plural, congregador e representativo) lhe peçamos, seja o que for. O que é necessário é bem diverso: é que a verdadeira vítima deste lamentável episódio - o professor - use os tribunais para exigir que quem teve o atrevimento de fazer o que fez e todos os que, por acção e omissão em tal convieram e continuam a convir sofram as consequências. Todas. E como não se pode pôr de lado a atribuição de alguma indemnizaçao, arbitrada pelos nossos tribunais - ou pelos europeus - aproveito já para suplicar ao professor prejudicado - o único destinatário possível em matéria de pedidos de desculpas - para ser magnânimo: que não esqueça que tudo sai, afinal, dos nossos bolsos: por isso peço, não exija uma indemnização grande!

*É certo, porém, que FJV tem todo o direito de dirigir a quem quiser as cartas que entender e redigi-las nos moldes que deseje.

segunda-feira, maio 21, 2007

Relembro de tempos a tempos os meses terríveis que Jorge de Sena passou depois de vir aqui pela primeira vez depois do 25 de Abril - aqui, onde ninguém dos milhares de bem intencionados libertos pela revolução se lembrara de lhe oferecer um lugar que lhe permitisse o regresso... Depois dessa viagem, Sena esteve doente, de cama, exangue, doente de puro desgosto. Creio que tinha visto ainda mais claramente do que soía ver: creio que nos viu, que nos viu já sem as roupagens de mártires da ditadura, já à luz do dia da liberdade, que viu quem verdadeiramente éramos - e o que nos aprestávamos para ser - e que era isto que hoje somos.

domingo, maio 20, 2007


Ou, se não uma limonada, que o tempo mudou, um plaid para preguiçar num sofá a salvo das agruras repentinas de Maio?
Se quiser resistir a estas molezas de cashmira e se sentir fadado a fazer alguma coisa de útil, veja o que se passa aqui, no Voluntariado Nova Geração.
O Domingo, pelo menos por aqui, está desagradável. Não vasculhei a televisão, mas não creio que esteja irresistível. Livros novos? Há sempre alguns, por isso não sei a que atribuir este silêncio que vai pelos blogs sobre aquilo a que o Doutor Vasco Pulido Valente designa - e bem - por crime político. Refiro-me ao caso do professor a quem foi levantado um processo disciplinar por ter gozado com a licenciatura do Sousa.
Convirá que se leia o artigo e se medite neste triste e repugnante caso que é uma torpeza e um crime.
Convirá que esta infâmia tenha a resposta que merece. Para nosso bem.

Alguns blogs tratam a coisa como se fora um episódio engraçado e minimizam-no. Não é algo de menor: para já, um funcionario publico viu a sua vida afectada por se rir do que é risível e isto sem que, até agora, ninguém haja explicado à autora da graça que estamos em democracia. Quando souber que a Ministra da Educação agiu como lhe competia, pondo fim imediato à situação e punindo a autora do inconcebível acto prepotente também rirei. Até lá...

quarta-feira, maio 16, 2007

31º, 32º C previstos para amanhã.

Com esta temperatura não se pensa. Ou, pelo menos, não se pensa seriamente. E nada há a fazer (este mesmo fatalismo é próprio do sol forte).

Apresso-me a passar o award a alguns dos meus blogs pensativos:

Mar Salgado
Almocreve das Petas
João Pereira Coutinho
Pastoral Portuguesa
e, como seria de esperar,
Bomba Inteligente

terça-feira, maio 15, 2007

Caro JAC,

Muito obrigado pelo award - nunca pensei na minha vida receber um award e, menos ainda, um thinking award, eu que tanto quero conseguir «pensar sem pensamentos» como escrevia o outro.
Vir pedir o divórcio-birra, mais célere (e com menos consequências) do que a mudança do operador de telemóvel eis um bom achado, agora que tudo vai de vento em popa e não há motivo para uma discussão animada que nos salve dos ennuies du bonheur nesta abençoada obra do senhor engenheiro.

En passant: são aqueles que querem "simplificar" o divórcio que exigem a complicação e burocratização das uniões de facto.
Não, não são loucos - embora gostem de o parecer.

segunda-feira, maio 14, 2007

A propósito dos livros das vida deles, uma coisa se fica a saber: não há fiados na Casa do pobre Fernando Pessoa (que não tem, também, ao que me parece, um site a funcionar - não consigo aceder ao www.casafernandopessoa.com )
Depois destas verificações, deu-me para estar para aqui a magicar quanto ganhará aquela gente que por lá anda e a gente que lá vai. Não é que tenha sido acometido de miserabilismo provinciano. O que eu tenho é medo que haja os habituais cosmopolitismos devoristas, daqueles que dão (e com diferenças de dezenas de milhares de euros a favor dos funcionários portugueses mesmo quando a comparação é com congéneres de países infinitamente mais ricos) ordenados de puro escândalo - facto que, claro está, é considerado de falta de gosto estar sempre a lembrar.

Fiquei a saber destas coisas dos livros pelo Abrupto e pelo Da Literatura. Neste último, verifico - com surpresa - que se atribui aos portugueses a ingenuidade de pensarem que as coisas das letras devem ser pro bono. Ora, se há coisa aqui geralmente bem sabida é de que as letras não somente não são grátis quanto, no geral, são muito bem remuneradas: de folhetim em folhetim se chega a S. Bento escrevia Eça, isto na altura em que naquele convento residia o poder. Mas, já em tempo do autor do Conde de Abranhos, em poemetos, novelas ou crónicas se chegava também às rendosas administrações que asseguravam, para além da mera celebridade, os pingues rendimentos, tal como agora acontece hoje (com grande diversificação de cargos, atentos os descobertos pelo oitocentismo e tal aperfeiçoamento deles que alguns, de tão perfeitamente delineados, chegam quase a parecer úteis, se não mesmo sensata a sua existência).

sábado, maio 12, 2007



A 10 de Maio de 1940, fez anteontem 67 anos, Sir Winston Churchill tornava-se Primeiro-Ministro.

quinta-feira, maio 10, 2007

Leve

Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

Alberto Caeiro

quarta-feira, maio 09, 2007

Lembro-me de um programa de televisão sobre crianças desaparecidas e do tom de desesperado e contido desalento com que o Pai de uma dessas crianças, a final, afirmava - cito de memória: "em Portugal a vida humana pouco vale". E antes desta frase terrível, tinha explicado que, embora se saiba, desde há muito, ser essencial para o sucesso de uma investigação que esta comece o mais depressa possível após a descoberta do desaparecimento, em Portugal a Polícia Judiciária estava fechada ao fim-de-semana e os casos que entravam à tarde de sexta-feira, ficavam para serem tratados quando entrasse de serviço o novo turno, segunda-feira de manhã. Isto não foi na longa noite fascista. Foi em 1991, mas a boa ou má consciência sobre estes casos ainda não estava na moda.

Fazem, por isso, muito bem os ingleses em enviarem o seus investigadores e detectives.
E boa sorte para a criança desaparecida.
A lembrar:

Dados da Comissão Europeia: Portugal vai continuar a afastar-se da média europeia e os maus tempos persistirão.
O governo ficou muito agastado com esta realidade - como é hábito, aliás - mas a zanga em nada contribui para alterar as coisas - que são o que são.

terça-feira, maio 08, 2007

Aqui pelos meus sítios, 30º C à sombra. O perigo da insolação espreita.
Pelo sim, pelo não, à cautela, andei todo o dia sombrio.

segunda-feira, maio 07, 2007

O cosmopolismo familar - do lado paterno é de origem húngara e do lado materno pertence a uma família de judeus de Salónica - ainda poderá alguma coisa perante a rasa monotonia e o culto da mediana necessários à sobrevivência a 30 anos de vida política francesa? Je m'en doute...
Mas poderá ter alguma graça ver o filho do aristocrata húngaro fugido para a Alemanha em 1944 para escapar aos exércitos comunistas e, depois, emigrado - não emigrante - em França, perdidos o castelo (queimado pelas tropas soviéticas) e os domínios da família, ver Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsao no palácio do Eliseu.

Um presidente da república senhor de Nagy-Bocsao... e meio-irmão de um banqueiro de Nova York, essa exclusivissima nova aristocracia, e tudo celebrado com alegria pelos aldeões do senhorio, lá na longínqua Hungria, é um compromisso feliz entre, uhmmm, uma ária campestre de Gluck, um ballet de Lully e uma peça de Cage.
Tem o seu chic.... Tem chic a valer, como diria Salcede. Estes franceses! Do goulash ao panache, acabam sempre por nec mergitur.

sábado, maio 05, 2007

Atente-se no que diz FNV, no Mar Salgado:

A Liga da Temperança ainda não conseguiu explicar por que motivo proibir o sr. Zé de abrir um bar só para fumadores ( ao lado de dezenas de outros que cumprirão a lei) desprotege os não-fumadores. E como não conseguem explicar, lá vão, entediados, dizendo que isto é uma discussão estúpida. Têm toda a razão: quando assumirem que o que se pretende é acabar com o hábito de fumar, a discussão termina.

Acrescentaria apenas que, parece-me, a finalidade da proibição não se detém no acabar com o hábito de fumar per se - mesmo considerando a existência de um genuíno gosto de proibir nascido das incomodidades tabágicas - mas preenche a necessidade de vexar, vergar e, de um modo geral , ir semeando interditos, ameaças, medos, tudo o que faça temer o uso, o gosto, o vício da liberdade.

sexta-feira, maio 04, 2007

Não posso dizer que me sinta mal, mas sinto-me, de uma forma cordata e sossegada, pessimamente. Os meus desesperos, medos e dispesias sempre tiveram este ar de crianças bem educadas - o que não contribui, todavia, para me atenuar os queixumes.

quarta-feira, maio 02, 2007

A lei do inquilinato em Portugal é importante para se aferir do vero pensamento de quem nos governa: é o nosso estado à solta, pesadão, medíocre, boçal, canhestro, nutrido de ressentimento igualitarista pombalino, inveja e ignorância.
A situação é esta: as rendas estão condicionadas na negociação ou aumento do seu valor desde a 1ª Guerra Mundial. Foram, depois, congeladas em Lisboa e Porto pelo governo salazarista, no 25 de Abril no país inteiro e só em 1981, timidamente, o governo da Aliança Democrática tentou modificar a situação. Melhorou alguma coisa: de catastrófica passou a péssima. Há meses, um decreto do governo do «engenheiro» Sousa pretendia modificar a situação: a lei cria verdadeiras situações de confisco, como não as imaginaria um qualquer secretário de Estado d'El-Rei D. João V, Rei Absoluto, sem títulos falsos e que não dependia do dinheiro da Europa. De facto, a nova lei é, no seu melhor, um embuste que, a troco de umas parcas actualizações pretende arrancar aos senhorios o dinheiro para obras, dinheiro que as rendas lhes não proporcionam, e enredá-los em processos perigosos que podiam acarretar a perda da propriedade. Os senhorios, que são tão empresários quanto aqueles que o governo gosta de apaparicar na esperança de uma esmola, fizeram as suas contas e não caíram no logro, mesmo sendo patente a inconstitucionalidade de algumas das normas mais descaradamente de ponta e mola. E, por isso, apenas mil e poucos processos de obras e actualização de renda foram solicitados. Seria hilariante se não desse vontade de chorar. Perante este fracasso, o secretario de estado Cabrita, desvaloriza a atitude dos senhorios (temos estadista!).
A leitura da referida lei - até no que meramente se prende com a qualidade literária - e a observaçõo das reacções do governo Sousa - dizem mais sobre o nosso actual subdesenvolvimento (tão sustentado, tão firme e, aliás, tão aplaudido) do que muitas centenas de páginas. É que o pensamento da coisa assenta numa verdade simples: «as casas daqui não podem sair, »eles» daqui não as podem levar, é aguentar e cara alegre» e, inchado com essa pristina certeza, o legislador obrou brutalidades de uma complicação tosca que reflectem uma absoluta - e inútil... - falta de principios quanto de agilidade e engenho.
Ora, soluções rombas não funcionam. Estas não funcionarão, não funcionaram já e a degradação continuará.
Seria de esperar que tivesse saído outra coisa?
Infelizmente, não.
Entretanto, chegará o dia em que os leitores dos jornais aos pequenos-almoços por essa Europa fora, incomodados com as constantes notícias das derrocadas, pressionarão para que alguém escreva, traduza em português e aqui dê recado para que se cumpra, uma daquelas leis com meia dúzia de linhas baseadas no respeito pela propriedade privada, livre inciativa e liberdade contratual que regem estas questões nos países do 1º mundo e nas suas grandes cidades, limpas, cuidadas e sem ruínas.

terça-feira, maio 01, 2007

Com esta mudança - temporária, ou mais para ficar - do clima torna-se necessário criar novos ditados populares. Hoje acordei com frio! Sei que há um ditado popular que menciona frios inesperados de Maio mas já não me lembro dele. Tentei este, que aqui deixo, obra aberta: "Até ao Camões não tires os camisolões", mas parece-me excessivo.

segunda-feira, abril 30, 2007

Fui parar aqui, ao Ladrões de Bicicletas, (via Arrastão - um blog que visito, religiosamente, uma vez por semestre) e li isto: "O fascismo foi um dos produtos da crise do capitalismo no período entre as duas guerras. Serviu a certas fracções da burguesia como arma de arremesso contra o movimento operário. Por isso quando os fascistas reivindicam «justiça social e combate ao capitalismo selvagem e à luta de classes». (...)» o que pretendem é invocar a ideia de que é preciso criar estruturas que esmaguem e/ou disciplinem as classes trabalhadoras e os seus movimentos autónomos."

É a tese oficial do marximo sobre os regimes - não comunistas - dos anos 30. É interessante, por não explicar absolutamente nada, por ser, na interpretação mais benévola, um subtil convite à preguiça. A uma falsa preguiça, no entanto, já que se torna necessário um violento esforço de contenção de toda e qualquer curiosidade intelectual.

Em contraste, este In praise of Idleness do Conde Russell, de 1932, todo ele convida a pensar muito, a pôr na sua leitura aquele tipo de esforço abençoado com que nos espreguiçamos num dia em que acordamos bem dispostos, de bem connosco e com o mundo.
Leia-se - claro que não traduzo: «In the new creed which controls the government of Russia, while there is much that is very different from the traditional teaching of the West, there are some things that are quite unchanged. The attitude of the governing classes, and especially of those who conduct educational propaganda, on the subject of the dignity of labor, is almost exactly that which the governing classes of the world have always preached to what were called the "honest poor." Industry, sobriety, willingness to work long hours for distant advantages, even submissiveness to authority, all these reappear; moreover authority still represents the will of the Ruler of the Universe, who, however, is now called by a new name, Dialectical Materialism.» (itálicos meus)

sexta-feira, abril 27, 2007

«Paulo Rangel fez no "25 de Abril" o único discurso que precisava de ser feito. O discurso essencial: o discurso sobre o perigo em que hoje manifestamente está a liberdade. Não admira que não tenha vindo do dr. Cavaco. Nem que Sócrates, com a sua insuportável arrogância, o tenha resolvido arrumar como "bota-abaixismo". Portugal sempre desprezou a liberdade. Nunca a pediu e não a reconhece. E, mesmo ao fim de trinta anos de um regime supostamente democrático, não a percebe bem.»

Do artigo intitulado "Uma dúvida séria" do Doutor Pulido Valente, hoje, no Público.

Vou ser honesto: ainda não me recompus e os meu modos sofrem da flacidez moral que acomete quem viu soçobrar, num doloroso ápice, as poucas certezas que, incauto, julgava a salvo de ameaças graves. Hoje, nesta miserável situação, padeço de um mundo que me abandonou: não se pode mais falar, convictamente, da «indiferença hostil da natureza» mas de uma certeira e arbitrária maldade a que são alheios os desígnios altíssimos que, esses, não provocam senão desgraças inanimadas, aquáticas, minerais, onde se podem acolher - e espraiar - os nossos lamentos...
Mas isto, isto é medonho e perturbador! -Refiro-me, claro está, ao terrível episódio da lebre vienense, tão mais de estarrecer quanto nada mais distante da natureza de uma lebre do que não saber conviver com a timidez.

terça-feira, abril 24, 2007

The host, he says that all is well
And the fire - wood glow is bright;
The food has a warm and tempting smell, -
But on the window licks the night.

Pile on the logs... Give me your hands,
Friends! No, - it is not fright...
But hold me... somewhere I heard demands...
And on the window licks the night.

Hart Crane, Fear

segunda-feira, abril 23, 2007

Morreu Boris Yeltsine, o russo que desmantelou o regime comunista soviético, um dos mais sanguinários e atrozes jamais existentes. O comunismo, de que Yeltsin terá para sempre a honra de ter posto fim, oprimiu, matou e assassinou milhões e milhões de pessoas dentro e fora da antiga União Soviética: em nome dessa feroz ditadura, um pouco por todo o mundo se humilhou, caluniou, se silenciou e mentiu.
Boris Yeltsin acabou - creia-se de que uma vez para sempre - com o poder soviético
Paz à sua alma.
Ao contrário do que se proclama, não vejo, por estes tempos, brandos costumes, a menos que por tal se tome o mero desleixo. A regra, feita de hábito, parece-me ser a indiferença pelos outros, pelo sofrimento dos outros, com as excepções de uma mancheia de bons sentimentos inócuos que, sem compreender bem, se copiaram lá de fora e se exibem televisivamente ou em letra de forma, para inglês ver. O que domina aqui, no Portugal de hoje, é ainda, parece-me, essa rudeza desapiedada e lenta, com vagares campónios, que, no seu melhor - e quando traduzida em práticas de estado ou na lei - não vai além de um áspero e desabrido autoritarismo.

sexta-feira, abril 20, 2007

Que trovoada! Dizia a minha empregada que metia respeito: "Mete respeito, mete respeito!" Agora já passou e o dia clareia.
Mas vim aqui só para dizer que continua o espectáculo 3º mundista, melhor, pidesco e salazarista, pior, apenas pidesco, dos interrogatórios que se prolongam madrugada dentro. E nós convivemos com isto... E essa gente toda que para aí anda e se julga viajada e arejada e lida e julga opinar new yorker acha tudo muito natural. Há persistências... e nessa gente está, atávico, - como nos pides - o aproveitar a madrugada. Dantes, para ir à horta, ou à leira, ou para a ceifa, agora é para aplicar a justiça em nome do povo, por exemplo. Não lhes passa, por isso, pela cabeça que é pura barbárie este procedimento, proíbido - ou já nem sequer imaginável - em qualquer país civilizado (e praticante).
Como explicar-lhes que não se faz, que não é justo, que não é decente? Como tentar fazer-lhes perceber (gente à esquerda e à direita) que estas práticas decorrem de coisas que eles julgam abominar, decorre, afinal, da inquisição, da tortura, de mil crueldades subliminares, dessa crueldade dura e tão desmentida, que é a nossa?
É um cansaço, isto tudo.
Constança Cunha e Sá, no Público de 19:

«Acontece que os factos não desaparecem perante as conveniências de uns e o entendimento de outros tantos. Por muito "corajoso" e "determinado" que seja, o primeiro-ministro foi particularmente atingido por um caso que mostrou ao país o que o seu retrato oficial escondia. Por trás da imagem de Estado que ele habilidosamente construiu, durante estes dois anos de Governo, surge, agora, à vista de toda a gente, o Sócrates que ele sempre foi: um político sem espessura, educado nos meandros do aparelho e nos favores do partido, que se notabilizou, a dada altura, pelas qualidades cénicas que revelou. O facilitismo que se detecta no seu percurso académico conjuga-se mal com o "rigor" de que faz gala e com a "determinação" com que enfrenta os "interesses" estabelecidos e os grupos de "privilegiados". Não vale a pena escamotear a realidade. Muito menos alterar critérios noticiosos consoante a opinião política dos jornalistas. O facto (por demonstrar) de este Governo ter um "rumo" e "coragem" para o prosseguir não o exime do escrutínio público, nem pode ser visto como um impedimento à liberdade de informação.»

quinta-feira, abril 19, 2007

As bolsas internacionais estão a descer. A descida deve-se à preocupação surgida com a economia chinesa: parece que está a crescer a mais de 11%, o que poderia levar o governo de Pequim a subir as taxas de juro na tentavia de arrefecer a situação.
Em Portugal, onde, felizmente, e graças ao governo que nos rege, não há esses problemas de sobreaquecimento, a bolsa, pacata, subia.

O milionário Banco de Portugal - aquele que tem administradores (Victor Constâncio, entre eles)que ganham mais, bastante mais, que os seus congéneres norte-americanos - falava ontem em mudar a legislação laboral para que a nossa produtividade melhore. Não auferindo ordenados de escândalo, também já me ocorreu o mesmo e disse-o. Que a imprensa não use, com o mesmo destaque, as minhas opiniões grátis, eis o que diz muito sobre o espírito de esbanjamento e novo-riquismo que desenfreado, campeia, etc., etc., etc.

quarta-feira, abril 18, 2007

Na Sic Notícias, um comentador - reconheci-o, depois, como sendo Duarte Lima, deputado - achava que o país perde tempo a discutir coisas sem importância, tais as relacionadas com o caso do "Eng." Sócrates (como ele dizia).
Ora vejamos:
Há coisas muitíssimo mais importantes, de facto, e por isso, em qualquer país europeu que, em política, viva acima do, como dizer?, pueril realismo fantástico, o percurso académico - e de vida em geral - de um possível primeiro-ministro é investigado à lupa, a uma forte lente, antes que se apresente a eleições (às vezes, a eleições dentro do seu próprio partido, como é sabido de todos). Se chegar a ser incumbido de qualquer cargo político importante, qualquer discrepância está, há muito, investigada e esclarecida - ou ele ou ela nem pensará, sequer, em candidatar-se (a coisa é de tal modo que, actualmente, o que lá por fora se discute é, como também se sabe, a demasia de tais investigações e o grau de perfeição normalizada e politicamente correcta exigida ao político, mas adiante).
Aqui, porém, nada disso se faz. E no caso, o Sr. Sousa, por motivos que não compreendo, tem ajudado pouco a dissipar, com a prontidão e brevidade que seriam de esperar, as arreliadoras discrepâncias surgidas. Eu não tomaria a coisa como ilegítima curiosidade popular: não havendo aquela modernidade esquadrinhadora lá de fora, aqui tudo tem de ser bem visto depois. E quando em documentos entregues ao Parlamento surgem inexactidões e quando... e quando... - e têm sido tantas as curiosidades - é preciso verificar. E verificar bem, já que é lícito que qualquer um de nós pense, em tese, que quem se preocupa com coisa tão mesquinha e infantil qual seja, por exemplo, a exibição abusiva de um título, não seja a pessoa indicada para ser o primeiro-ministro de um país, ademais em tempos de crise*.

* A questão das qualidades humanas - e o carácter - têm sido tratados com certa ligeireza, denotando, afinal, como impera uma visão tecnocrática da política, como se os problemas que se deparam a um govermante possuam soluções imutáveis, alcançáveis por uma técnica, produzindo, por isso, os resultados desejados seja quem for que tome as medidas necessárias. Pode ser assim, em parte, no que se refere à economia (embora grande parte dos factos económicos seja sempre inesperado, inexplicável ou ambos), mas a política não é economia, é parte da... Ética.
Ao contrário do que se diz, achei as declarações da universidade independente bombásticas e muito, muito, elucidativas.

Ah, claro que a universidade já não vai fechar. A situação está resolvida por ali, acreditam. Eu, pelo que ouvi ao Eng. Gago, também acho que sim.
Se a empresa que explora a independente fosse cotada na bolsa - não sei se é, aliás - comprava acções.
É, também, o subdesenvolvimento e a falta de vergonha na cara que permitem isto.
"No meu modesto entendimento, Sócrates fez o que muita boa gente faz, por inúmeras razões. Tentou obter uma licenciatura já a meio da sua carreira política, sujeitou-se às condições em que, quando isso acontece, as pessoas comuns têm de se sujeitar."
Teresa de Sousa, no Público de hoje (itálicos meus).

Nada como um bom choque para arrebitar. A questão é exactamente a de haver indícios de não se ter sujeitado às condições a que as pessoas comuns se sujeitam.... Tudo aconselhava, aliás, a que, uma vez no governo, o Sr. Sousa interrompesse "os estudos". Os colegas de Sousa também enviavam, naquela altura, os trabalhos ao Reitor e tratavam-no - mal o conhecendo - por "Meu Caro"?

Um dos males do subdesenvolvimento e da iliteracia é o da dificuldade da evidência.
Torna tudo tão cansativo...
Será uma daquelas depressões de Primavera?

terça-feira, abril 17, 2007

Pelo lado das coisas boas, a alguma lucidez que me permite verificar que desde há anos não tinha uma época tão vilmente inane. Do lado das coisas menos boas, ainda a lucidez e memória suficientes para me lembrar de que não houve, afinal, momentos muito melhores.
Leon Spilliaert
Retour du bain, 1908


segunda-feira, abril 16, 2007

E para não esquecer, também, que a paisagem de fundo em que decorrem as aventuras de Sócrates & Independente é esta : "Portugal comes bottom of the European economic growth league" (31 da Armada).
Para não perder o fio à meada:

"(...) Melhor ainda: toda a gente que falar ou escrever na rádio, na televisão e na imprensa, sindicalizada ou não, fica sujeita à autoridade dos polícias da Comissão de Carteira. Em última análise, a Comissão de Carteira, como antigamente a de Censura, determinará o que é lícito ler, ouvir e ler num Portugal ao gosto do dr. Santos Silva e do primeiro-ministro."

Doutor Vasco Pulido Valente, na sua coluna do Público

quinta-feira, abril 12, 2007

O Principal Sousa odeia a mesmice: nada nele é igual, não há documento que confira com outro. Invejo-lhe este culto do diverso, este aborrecimento da cópia, esta abominação da réplica. Com o primeiro-ministro há, apenas, manifestos de heteronomias, recusas de tentações identitárias/totalitárias: há o engenheiro - talvez naval - e o engenheiro técnico, o licenciado com 20 cadeiras e o licenciado com 25, o.... que dizer? Com Sousa o fragmentário, a afirmação da impossibiilidade da unidade, a pós-modernidade entra em S. Bento.
Que privilégio para todos nós, que lição ao mundo, que grande lição ao mundo!

Nota para a compreensão do comentário infra: estava aqui escrito previlégio por privilégio, uma calinada por falta de atenção minha e tão mais triste e tão quase inexplicável - passe a imodéstia - quanto ser verdade eu ter o hábito de reler o que escrevo e ser possuidor de uma antiga «4ª classe» exigente e bem feita, com muitos zeros erros em ditados difíceis, costumando, por isso, escandalizar-me com os dislates que vou lendo por aí. O meu único e triste e fraquíssimo consolo é poder atribuir o erro - e o ter passado em claro - ao muito disparate a que se está hoje diariamente exposto e não a um amolecimento cerebral, aos primeiros sintomas de senilidade.
Agradeço a correcção e peço as minhas desculpas aos senhores leitores deste blog, a quem prometo mais atenção nas revisões dos posts.
Sobre a entrevista: tinha-se poupado tempo se se limitassem a dizer: "entrevistámos o Sr. Sousa e verificámos que respondeu satisfatoriamente às nossas acutilantes questões".

De um amigo recebi, a propósito, este mail:

«Sobre a entrevista do Eng.... Sócrates desta noite só me resta mais uma vez, á "laia" de reflexão, fazer minhas as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen em carta a Jorge de Sena, de Maio de 1962 :

"Caríssimo Jorge,

[...] O Reino da Estupidez de tão magnifico título,apesar de todas as paginas óptimas que tem, parece-me demasiado cheio de questões que afinal talvez não mereçam ser postas na sua obra. Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos? ...... "»

Antes de adormecer, quando já estou com muito sono, consigo ainda dizer-me que podia ler umas linhas. E para essas poucas linhas soltas tenho um montículo de livros na mesa de cabeceira. Um deles é uma recolha da correspondência trocada entre uma senhora inglesa e a sua prima canadiana que, durante a II Guerra e tempos atribulados e escassos que se seguiram, lhe enviava generosas encomendas de pequenas coisas que no Reino Unido estavam racionadas ou não havia ( sabonetes, lenços, passas de uvas, fiambre em lata, alguns produtos instântaneos; e presentes mais substanciais e fantastásticos: perús no Natal, via Royal Air Mail). As cartas são quase apenas o agradecimento bem humorado e sentido dessas encomendas. Acabei por ficar intrigado com a minha fidelidade àquele livro, àquele reler, mesmo que seja, as mais das vezes, de literais meia dúzia de linhas e sabendo que é por mera preguiça que repego ainda uma vez no livro, por lá estar, por ser o mais à mão e o fácil de segurar.

No outro dia, porém, descobri o que realmente e principalmente me seduz: a exiguidade do assunto aliada aos mágicos efeitos da repetição, a matéria prima sobre que se edificou tudo o que é na nossa civilização.

Antes de adormecer

Grande burburinho com um acórdão do Supremo. Bem, a lei (artº 484º do Cód. Civil) não deixa margem para dúvidas quanto à possibilidade da divulgação de um facto (i.e, de algo que aconteceu) poder constituir um ilícito (civil ou criminal). Para que o não seja terão que existir causas que afastem a ilicitude: ou o exercício de um direito ou o cumprimento de um dever. Numa sociedade onde não existe substancial amor pela verdade o Supremo considerou que o direito de expressão deve ceder perante o direito ao bom nome. A questão não é fácil*, embora no caso (futebóis) me pareça de grande generosidade a colocação do bom nome de um club acima do direito de expressão ou do dever de informar.

* Os comentadores - e em parte autores - do Código, Professores Doutores Antunes Varela e Pires de Lima, no seu Código Anotado, T 1, 2ª edição, pg. 421, referem como exemplo de um ilícito que cairia na previsão deste artigo a pessoa que publica no jornal que o Dr. X o não conseguiu curar, o que prejudicaria o bom nome do facultativo (todos podem errar, etc.).
Entre as ocasiões sociais que levam ao uso e tratamento pelos títulos, no caso o de engenheiro, estão, sem margem para dúvida, as perpetuadas em diplomas legais no Diário da República em que Pinto de Sousa é designado como tal.
Assim deve ser, de facto, e eu estranhar eis o que diz sobre a minha falta de usos de mundo, condenado a estar para aqui, nestas lonjuras rudes.

quarta-feira, abril 11, 2007

Agradável foi o resultado de uma pesquisa sobre o assunto Ota. Apenas 51% dos portugueses consideram necessário um novo aeroporto e, destes, apenas um quarto - creio - achava que o projecto ou pré-projecto governamental era adequado.
O que este estudo vem mostrar é que os portugueses estão cientes de que a política do betão - o que a Ota, essencialmente, é, não produz crescimento sustentado: os milhões dissipam-se depressa e, gastos, voltamos para onde estamos, para a cauda da Europa, enquanto países ainda há bem pouco tempo mais pobres que nós - e pouco dados à argamassa - se afastam rapidamente para posições mais confortáveis.
Um dos problemas dos políticos portugueses é verem-nos como já não somos, persistindo em tentar comprar os nossos votos através da lantejoula argumentativa, da desmesura e do gigantesco que, crêem, nos ofuscam. Que um aeroporto modesto, com a possibilidade de evoluir consoante o volume de passageiros seja o que, sensatamente, queremos não lhes entra nas cabeças.