terça-feira, maio 08, 2007

Aqui pelos meus sítios, 30º C à sombra. O perigo da insolação espreita.
Pelo sim, pelo não, à cautela, andei todo o dia sombrio.

segunda-feira, maio 07, 2007

O cosmopolismo familar - do lado paterno é de origem húngara e do lado materno pertence a uma família de judeus de Salónica - ainda poderá alguma coisa perante a rasa monotonia e o culto da mediana necessários à sobrevivência a 30 anos de vida política francesa? Je m'en doute...
Mas poderá ter alguma graça ver o filho do aristocrata húngaro fugido para a Alemanha em 1944 para escapar aos exércitos comunistas e, depois, emigrado - não emigrante - em França, perdidos o castelo (queimado pelas tropas soviéticas) e os domínios da família, ver Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsao no palácio do Eliseu.

Um presidente da república senhor de Nagy-Bocsao... e meio-irmão de um banqueiro de Nova York, essa exclusivissima nova aristocracia, e tudo celebrado com alegria pelos aldeões do senhorio, lá na longínqua Hungria, é um compromisso feliz entre, uhmmm, uma ária campestre de Gluck, um ballet de Lully e uma peça de Cage.
Tem o seu chic.... Tem chic a valer, como diria Salcede. Estes franceses! Do goulash ao panache, acabam sempre por nec mergitur.

sábado, maio 05, 2007

Atente-se no que diz FNV, no Mar Salgado:

A Liga da Temperança ainda não conseguiu explicar por que motivo proibir o sr. Zé de abrir um bar só para fumadores ( ao lado de dezenas de outros que cumprirão a lei) desprotege os não-fumadores. E como não conseguem explicar, lá vão, entediados, dizendo que isto é uma discussão estúpida. Têm toda a razão: quando assumirem que o que se pretende é acabar com o hábito de fumar, a discussão termina.

Acrescentaria apenas que, parece-me, a finalidade da proibição não se detém no acabar com o hábito de fumar per se - mesmo considerando a existência de um genuíno gosto de proibir nascido das incomodidades tabágicas - mas preenche a necessidade de vexar, vergar e, de um modo geral , ir semeando interditos, ameaças, medos, tudo o que faça temer o uso, o gosto, o vício da liberdade.

sexta-feira, maio 04, 2007

Não posso dizer que me sinta mal, mas sinto-me, de uma forma cordata e sossegada, pessimamente. Os meus desesperos, medos e dispesias sempre tiveram este ar de crianças bem educadas - o que não contribui, todavia, para me atenuar os queixumes.

quarta-feira, maio 02, 2007

A lei do inquilinato em Portugal é importante para se aferir do vero pensamento de quem nos governa: é o nosso estado à solta, pesadão, medíocre, boçal, canhestro, nutrido de ressentimento igualitarista pombalino, inveja e ignorância.
A situação é esta: as rendas estão condicionadas na negociação ou aumento do seu valor desde a 1ª Guerra Mundial. Foram, depois, congeladas em Lisboa e Porto pelo governo salazarista, no 25 de Abril no país inteiro e só em 1981, timidamente, o governo da Aliança Democrática tentou modificar a situação. Melhorou alguma coisa: de catastrófica passou a péssima. Há meses, um decreto do governo do «engenheiro» Sousa pretendia modificar a situação: a lei cria verdadeiras situações de confisco, como não as imaginaria um qualquer secretário de Estado d'El-Rei D. João V, Rei Absoluto, sem títulos falsos e que não dependia do dinheiro da Europa. De facto, a nova lei é, no seu melhor, um embuste que, a troco de umas parcas actualizações pretende arrancar aos senhorios o dinheiro para obras, dinheiro que as rendas lhes não proporcionam, e enredá-los em processos perigosos que podiam acarretar a perda da propriedade. Os senhorios, que são tão empresários quanto aqueles que o governo gosta de apaparicar na esperança de uma esmola, fizeram as suas contas e não caíram no logro, mesmo sendo patente a inconstitucionalidade de algumas das normas mais descaradamente de ponta e mola. E, por isso, apenas mil e poucos processos de obras e actualização de renda foram solicitados. Seria hilariante se não desse vontade de chorar. Perante este fracasso, o secretario de estado Cabrita, desvaloriza a atitude dos senhorios (temos estadista!).
A leitura da referida lei - até no que meramente se prende com a qualidade literária - e a observaçõo das reacções do governo Sousa - dizem mais sobre o nosso actual subdesenvolvimento (tão sustentado, tão firme e, aliás, tão aplaudido) do que muitas centenas de páginas. É que o pensamento da coisa assenta numa verdade simples: «as casas daqui não podem sair, »eles» daqui não as podem levar, é aguentar e cara alegre» e, inchado com essa pristina certeza, o legislador obrou brutalidades de uma complicação tosca que reflectem uma absoluta - e inútil... - falta de principios quanto de agilidade e engenho.
Ora, soluções rombas não funcionam. Estas não funcionarão, não funcionaram já e a degradação continuará.
Seria de esperar que tivesse saído outra coisa?
Infelizmente, não.
Entretanto, chegará o dia em que os leitores dos jornais aos pequenos-almoços por essa Europa fora, incomodados com as constantes notícias das derrocadas, pressionarão para que alguém escreva, traduza em português e aqui dê recado para que se cumpra, uma daquelas leis com meia dúzia de linhas baseadas no respeito pela propriedade privada, livre inciativa e liberdade contratual que regem estas questões nos países do 1º mundo e nas suas grandes cidades, limpas, cuidadas e sem ruínas.

terça-feira, maio 01, 2007

Com esta mudança - temporária, ou mais para ficar - do clima torna-se necessário criar novos ditados populares. Hoje acordei com frio! Sei que há um ditado popular que menciona frios inesperados de Maio mas já não me lembro dele. Tentei este, que aqui deixo, obra aberta: "Até ao Camões não tires os camisolões", mas parece-me excessivo.

segunda-feira, abril 30, 2007

Fui parar aqui, ao Ladrões de Bicicletas, (via Arrastão - um blog que visito, religiosamente, uma vez por semestre) e li isto: "O fascismo foi um dos produtos da crise do capitalismo no período entre as duas guerras. Serviu a certas fracções da burguesia como arma de arremesso contra o movimento operário. Por isso quando os fascistas reivindicam «justiça social e combate ao capitalismo selvagem e à luta de classes». (...)» o que pretendem é invocar a ideia de que é preciso criar estruturas que esmaguem e/ou disciplinem as classes trabalhadoras e os seus movimentos autónomos."

É a tese oficial do marximo sobre os regimes - não comunistas - dos anos 30. É interessante, por não explicar absolutamente nada, por ser, na interpretação mais benévola, um subtil convite à preguiça. A uma falsa preguiça, no entanto, já que se torna necessário um violento esforço de contenção de toda e qualquer curiosidade intelectual.

Em contraste, este In praise of Idleness do Conde Russell, de 1932, todo ele convida a pensar muito, a pôr na sua leitura aquele tipo de esforço abençoado com que nos espreguiçamos num dia em que acordamos bem dispostos, de bem connosco e com o mundo.
Leia-se - claro que não traduzo: «In the new creed which controls the government of Russia, while there is much that is very different from the traditional teaching of the West, there are some things that are quite unchanged. The attitude of the governing classes, and especially of those who conduct educational propaganda, on the subject of the dignity of labor, is almost exactly that which the governing classes of the world have always preached to what were called the "honest poor." Industry, sobriety, willingness to work long hours for distant advantages, even submissiveness to authority, all these reappear; moreover authority still represents the will of the Ruler of the Universe, who, however, is now called by a new name, Dialectical Materialism.» (itálicos meus)

sexta-feira, abril 27, 2007

«Paulo Rangel fez no "25 de Abril" o único discurso que precisava de ser feito. O discurso essencial: o discurso sobre o perigo em que hoje manifestamente está a liberdade. Não admira que não tenha vindo do dr. Cavaco. Nem que Sócrates, com a sua insuportável arrogância, o tenha resolvido arrumar como "bota-abaixismo". Portugal sempre desprezou a liberdade. Nunca a pediu e não a reconhece. E, mesmo ao fim de trinta anos de um regime supostamente democrático, não a percebe bem.»

Do artigo intitulado "Uma dúvida séria" do Doutor Pulido Valente, hoje, no Público.

Vou ser honesto: ainda não me recompus e os meu modos sofrem da flacidez moral que acomete quem viu soçobrar, num doloroso ápice, as poucas certezas que, incauto, julgava a salvo de ameaças graves. Hoje, nesta miserável situação, padeço de um mundo que me abandonou: não se pode mais falar, convictamente, da «indiferença hostil da natureza» mas de uma certeira e arbitrária maldade a que são alheios os desígnios altíssimos que, esses, não provocam senão desgraças inanimadas, aquáticas, minerais, onde se podem acolher - e espraiar - os nossos lamentos...
Mas isto, isto é medonho e perturbador! -Refiro-me, claro está, ao terrível episódio da lebre vienense, tão mais de estarrecer quanto nada mais distante da natureza de uma lebre do que não saber conviver com a timidez.

terça-feira, abril 24, 2007

The host, he says that all is well
And the fire - wood glow is bright;
The food has a warm and tempting smell, -
But on the window licks the night.

Pile on the logs... Give me your hands,
Friends! No, - it is not fright...
But hold me... somewhere I heard demands...
And on the window licks the night.

Hart Crane, Fear

segunda-feira, abril 23, 2007

Morreu Boris Yeltsine, o russo que desmantelou o regime comunista soviético, um dos mais sanguinários e atrozes jamais existentes. O comunismo, de que Yeltsin terá para sempre a honra de ter posto fim, oprimiu, matou e assassinou milhões e milhões de pessoas dentro e fora da antiga União Soviética: em nome dessa feroz ditadura, um pouco por todo o mundo se humilhou, caluniou, se silenciou e mentiu.
Boris Yeltsin acabou - creia-se de que uma vez para sempre - com o poder soviético
Paz à sua alma.
Ao contrário do que se proclama, não vejo, por estes tempos, brandos costumes, a menos que por tal se tome o mero desleixo. A regra, feita de hábito, parece-me ser a indiferença pelos outros, pelo sofrimento dos outros, com as excepções de uma mancheia de bons sentimentos inócuos que, sem compreender bem, se copiaram lá de fora e se exibem televisivamente ou em letra de forma, para inglês ver. O que domina aqui, no Portugal de hoje, é ainda, parece-me, essa rudeza desapiedada e lenta, com vagares campónios, que, no seu melhor - e quando traduzida em práticas de estado ou na lei - não vai além de um áspero e desabrido autoritarismo.

sexta-feira, abril 20, 2007

Que trovoada! Dizia a minha empregada que metia respeito: "Mete respeito, mete respeito!" Agora já passou e o dia clareia.
Mas vim aqui só para dizer que continua o espectáculo 3º mundista, melhor, pidesco e salazarista, pior, apenas pidesco, dos interrogatórios que se prolongam madrugada dentro. E nós convivemos com isto... E essa gente toda que para aí anda e se julga viajada e arejada e lida e julga opinar new yorker acha tudo muito natural. Há persistências... e nessa gente está, atávico, - como nos pides - o aproveitar a madrugada. Dantes, para ir à horta, ou à leira, ou para a ceifa, agora é para aplicar a justiça em nome do povo, por exemplo. Não lhes passa, por isso, pela cabeça que é pura barbárie este procedimento, proíbido - ou já nem sequer imaginável - em qualquer país civilizado (e praticante).
Como explicar-lhes que não se faz, que não é justo, que não é decente? Como tentar fazer-lhes perceber (gente à esquerda e à direita) que estas práticas decorrem de coisas que eles julgam abominar, decorre, afinal, da inquisição, da tortura, de mil crueldades subliminares, dessa crueldade dura e tão desmentida, que é a nossa?
É um cansaço, isto tudo.
Constança Cunha e Sá, no Público de 19:

«Acontece que os factos não desaparecem perante as conveniências de uns e o entendimento de outros tantos. Por muito "corajoso" e "determinado" que seja, o primeiro-ministro foi particularmente atingido por um caso que mostrou ao país o que o seu retrato oficial escondia. Por trás da imagem de Estado que ele habilidosamente construiu, durante estes dois anos de Governo, surge, agora, à vista de toda a gente, o Sócrates que ele sempre foi: um político sem espessura, educado nos meandros do aparelho e nos favores do partido, que se notabilizou, a dada altura, pelas qualidades cénicas que revelou. O facilitismo que se detecta no seu percurso académico conjuga-se mal com o "rigor" de que faz gala e com a "determinação" com que enfrenta os "interesses" estabelecidos e os grupos de "privilegiados". Não vale a pena escamotear a realidade. Muito menos alterar critérios noticiosos consoante a opinião política dos jornalistas. O facto (por demonstrar) de este Governo ter um "rumo" e "coragem" para o prosseguir não o exime do escrutínio público, nem pode ser visto como um impedimento à liberdade de informação.»

quinta-feira, abril 19, 2007

As bolsas internacionais estão a descer. A descida deve-se à preocupação surgida com a economia chinesa: parece que está a crescer a mais de 11%, o que poderia levar o governo de Pequim a subir as taxas de juro na tentavia de arrefecer a situação.
Em Portugal, onde, felizmente, e graças ao governo que nos rege, não há esses problemas de sobreaquecimento, a bolsa, pacata, subia.

O milionário Banco de Portugal - aquele que tem administradores (Victor Constâncio, entre eles)que ganham mais, bastante mais, que os seus congéneres norte-americanos - falava ontem em mudar a legislação laboral para que a nossa produtividade melhore. Não auferindo ordenados de escândalo, também já me ocorreu o mesmo e disse-o. Que a imprensa não use, com o mesmo destaque, as minhas opiniões grátis, eis o que diz muito sobre o espírito de esbanjamento e novo-riquismo que desenfreado, campeia, etc., etc., etc.

quarta-feira, abril 18, 2007

Na Sic Notícias, um comentador - reconheci-o, depois, como sendo Duarte Lima, deputado - achava que o país perde tempo a discutir coisas sem importância, tais as relacionadas com o caso do "Eng." Sócrates (como ele dizia).
Ora vejamos:
Há coisas muitíssimo mais importantes, de facto, e por isso, em qualquer país europeu que, em política, viva acima do, como dizer?, pueril realismo fantástico, o percurso académico - e de vida em geral - de um possível primeiro-ministro é investigado à lupa, a uma forte lente, antes que se apresente a eleições (às vezes, a eleições dentro do seu próprio partido, como é sabido de todos). Se chegar a ser incumbido de qualquer cargo político importante, qualquer discrepância está, há muito, investigada e esclarecida - ou ele ou ela nem pensará, sequer, em candidatar-se (a coisa é de tal modo que, actualmente, o que lá por fora se discute é, como também se sabe, a demasia de tais investigações e o grau de perfeição normalizada e politicamente correcta exigida ao político, mas adiante).
Aqui, porém, nada disso se faz. E no caso, o Sr. Sousa, por motivos que não compreendo, tem ajudado pouco a dissipar, com a prontidão e brevidade que seriam de esperar, as arreliadoras discrepâncias surgidas. Eu não tomaria a coisa como ilegítima curiosidade popular: não havendo aquela modernidade esquadrinhadora lá de fora, aqui tudo tem de ser bem visto depois. E quando em documentos entregues ao Parlamento surgem inexactidões e quando... e quando... - e têm sido tantas as curiosidades - é preciso verificar. E verificar bem, já que é lícito que qualquer um de nós pense, em tese, que quem se preocupa com coisa tão mesquinha e infantil qual seja, por exemplo, a exibição abusiva de um título, não seja a pessoa indicada para ser o primeiro-ministro de um país, ademais em tempos de crise*.

* A questão das qualidades humanas - e o carácter - têm sido tratados com certa ligeireza, denotando, afinal, como impera uma visão tecnocrática da política, como se os problemas que se deparam a um govermante possuam soluções imutáveis, alcançáveis por uma técnica, produzindo, por isso, os resultados desejados seja quem for que tome as medidas necessárias. Pode ser assim, em parte, no que se refere à economia (embora grande parte dos factos económicos seja sempre inesperado, inexplicável ou ambos), mas a política não é economia, é parte da... Ética.
Ao contrário do que se diz, achei as declarações da universidade independente bombásticas e muito, muito, elucidativas.

Ah, claro que a universidade já não vai fechar. A situação está resolvida por ali, acreditam. Eu, pelo que ouvi ao Eng. Gago, também acho que sim.
Se a empresa que explora a independente fosse cotada na bolsa - não sei se é, aliás - comprava acções.
É, também, o subdesenvolvimento e a falta de vergonha na cara que permitem isto.
"No meu modesto entendimento, Sócrates fez o que muita boa gente faz, por inúmeras razões. Tentou obter uma licenciatura já a meio da sua carreira política, sujeitou-se às condições em que, quando isso acontece, as pessoas comuns têm de se sujeitar."
Teresa de Sousa, no Público de hoje (itálicos meus).

Nada como um bom choque para arrebitar. A questão é exactamente a de haver indícios de não se ter sujeitado às condições a que as pessoas comuns se sujeitam.... Tudo aconselhava, aliás, a que, uma vez no governo, o Sr. Sousa interrompesse "os estudos". Os colegas de Sousa também enviavam, naquela altura, os trabalhos ao Reitor e tratavam-no - mal o conhecendo - por "Meu Caro"?

Um dos males do subdesenvolvimento e da iliteracia é o da dificuldade da evidência.
Torna tudo tão cansativo...
Será uma daquelas depressões de Primavera?

terça-feira, abril 17, 2007

Pelo lado das coisas boas, a alguma lucidez que me permite verificar que desde há anos não tinha uma época tão vilmente inane. Do lado das coisas menos boas, ainda a lucidez e memória suficientes para me lembrar de que não houve, afinal, momentos muito melhores.
Leon Spilliaert
Retour du bain, 1908


segunda-feira, abril 16, 2007

E para não esquecer, também, que a paisagem de fundo em que decorrem as aventuras de Sócrates & Independente é esta : "Portugal comes bottom of the European economic growth league" (31 da Armada).
Para não perder o fio à meada:

"(...) Melhor ainda: toda a gente que falar ou escrever na rádio, na televisão e na imprensa, sindicalizada ou não, fica sujeita à autoridade dos polícias da Comissão de Carteira. Em última análise, a Comissão de Carteira, como antigamente a de Censura, determinará o que é lícito ler, ouvir e ler num Portugal ao gosto do dr. Santos Silva e do primeiro-ministro."

Doutor Vasco Pulido Valente, na sua coluna do Público

quinta-feira, abril 12, 2007

O Principal Sousa odeia a mesmice: nada nele é igual, não há documento que confira com outro. Invejo-lhe este culto do diverso, este aborrecimento da cópia, esta abominação da réplica. Com o primeiro-ministro há, apenas, manifestos de heteronomias, recusas de tentações identitárias/totalitárias: há o engenheiro - talvez naval - e o engenheiro técnico, o licenciado com 20 cadeiras e o licenciado com 25, o.... que dizer? Com Sousa o fragmentário, a afirmação da impossibiilidade da unidade, a pós-modernidade entra em S. Bento.
Que privilégio para todos nós, que lição ao mundo, que grande lição ao mundo!

Nota para a compreensão do comentário infra: estava aqui escrito previlégio por privilégio, uma calinada por falta de atenção minha e tão mais triste e tão quase inexplicável - passe a imodéstia - quanto ser verdade eu ter o hábito de reler o que escrevo e ser possuidor de uma antiga «4ª classe» exigente e bem feita, com muitos zeros erros em ditados difíceis, costumando, por isso, escandalizar-me com os dislates que vou lendo por aí. O meu único e triste e fraquíssimo consolo é poder atribuir o erro - e o ter passado em claro - ao muito disparate a que se está hoje diariamente exposto e não a um amolecimento cerebral, aos primeiros sintomas de senilidade.
Agradeço a correcção e peço as minhas desculpas aos senhores leitores deste blog, a quem prometo mais atenção nas revisões dos posts.
Sobre a entrevista: tinha-se poupado tempo se se limitassem a dizer: "entrevistámos o Sr. Sousa e verificámos que respondeu satisfatoriamente às nossas acutilantes questões".

De um amigo recebi, a propósito, este mail:

«Sobre a entrevista do Eng.... Sócrates desta noite só me resta mais uma vez, á "laia" de reflexão, fazer minhas as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen em carta a Jorge de Sena, de Maio de 1962 :

"Caríssimo Jorge,

[...] O Reino da Estupidez de tão magnifico título,apesar de todas as paginas óptimas que tem, parece-me demasiado cheio de questões que afinal talvez não mereçam ser postas na sua obra. Valerá a pena você gastar tanta inteligência para explicar aos parvos que são parvos? ...... "»

Antes de adormecer, quando já estou com muito sono, consigo ainda dizer-me que podia ler umas linhas. E para essas poucas linhas soltas tenho um montículo de livros na mesa de cabeceira. Um deles é uma recolha da correspondência trocada entre uma senhora inglesa e a sua prima canadiana que, durante a II Guerra e tempos atribulados e escassos que se seguiram, lhe enviava generosas encomendas de pequenas coisas que no Reino Unido estavam racionadas ou não havia ( sabonetes, lenços, passas de uvas, fiambre em lata, alguns produtos instântaneos; e presentes mais substanciais e fantastásticos: perús no Natal, via Royal Air Mail). As cartas são quase apenas o agradecimento bem humorado e sentido dessas encomendas. Acabei por ficar intrigado com a minha fidelidade àquele livro, àquele reler, mesmo que seja, as mais das vezes, de literais meia dúzia de linhas e sabendo que é por mera preguiça que repego ainda uma vez no livro, por lá estar, por ser o mais à mão e o fácil de segurar.

No outro dia, porém, descobri o que realmente e principalmente me seduz: a exiguidade do assunto aliada aos mágicos efeitos da repetição, a matéria prima sobre que se edificou tudo o que é na nossa civilização.

Antes de adormecer

Grande burburinho com um acórdão do Supremo. Bem, a lei (artº 484º do Cód. Civil) não deixa margem para dúvidas quanto à possibilidade da divulgação de um facto (i.e, de algo que aconteceu) poder constituir um ilícito (civil ou criminal). Para que o não seja terão que existir causas que afastem a ilicitude: ou o exercício de um direito ou o cumprimento de um dever. Numa sociedade onde não existe substancial amor pela verdade o Supremo considerou que o direito de expressão deve ceder perante o direito ao bom nome. A questão não é fácil*, embora no caso (futebóis) me pareça de grande generosidade a colocação do bom nome de um club acima do direito de expressão ou do dever de informar.

* Os comentadores - e em parte autores - do Código, Professores Doutores Antunes Varela e Pires de Lima, no seu Código Anotado, T 1, 2ª edição, pg. 421, referem como exemplo de um ilícito que cairia na previsão deste artigo a pessoa que publica no jornal que o Dr. X o não conseguiu curar, o que prejudicaria o bom nome do facultativo (todos podem errar, etc.).
Entre as ocasiões sociais que levam ao uso e tratamento pelos títulos, no caso o de engenheiro, estão, sem margem para dúvida, as perpetuadas em diplomas legais no Diário da República em que Pinto de Sousa é designado como tal.
Assim deve ser, de facto, e eu estranhar eis o que diz sobre a minha falta de usos de mundo, condenado a estar para aqui, nestas lonjuras rudes.

quarta-feira, abril 11, 2007

Agradável foi o resultado de uma pesquisa sobre o assunto Ota. Apenas 51% dos portugueses consideram necessário um novo aeroporto e, destes, apenas um quarto - creio - achava que o projecto ou pré-projecto governamental era adequado.
O que este estudo vem mostrar é que os portugueses estão cientes de que a política do betão - o que a Ota, essencialmente, é, não produz crescimento sustentado: os milhões dissipam-se depressa e, gastos, voltamos para onde estamos, para a cauda da Europa, enquanto países ainda há bem pouco tempo mais pobres que nós - e pouco dados à argamassa - se afastam rapidamente para posições mais confortáveis.
Um dos problemas dos políticos portugueses é verem-nos como já não somos, persistindo em tentar comprar os nossos votos através da lantejoula argumentativa, da desmesura e do gigantesco que, crêem, nos ofuscam. Que um aeroporto modesto, com a possibilidade de evoluir consoante o volume de passageiros seja o que, sensatamente, queremos não lhes entra nas cabeças.

terça-feira, abril 10, 2007

Um outro dado revelado pela investigação do RCP aponta para que um ano antes da conclusão da licenciatura, em Outubro de 1995, o então secretário de Estado adjunto do Ministério do Ambiente assumiu o título de Engenheiro no decreto de nomeação para o Governo de António Guterres publicado em Diário da República.

in Público de hoje.

Afinal é um caso vulgar de abuso que, filho da vaidade ou de outro qualquer malsão motivo, se traduz no uso de títulos que não podiam ser usados, a coberto do hábito de agir na mais absoluta impunidade.
Se fosse lá fora era demitido (aliás, demitia-se de motu proprio) e, depois de um estágio na Betty Ford Clinic (academic title addict) poderia voltar, daqui a uns anos.
Isto, claro, resolve, de vez, a questão de todos os que escreviam coisas como esta: "Cerca de três semanas depois, não vejo razão nenhuma para alterar a minha posição inicial. A comunicação social continua sem encontrar nada -- repito, nada -- que lhe permita inferir sem margem para dúvidas que José Sócrates não «agiu sempre de forma limpa, leal e legal".

Já disse à minha empregada - dado que não tem responsabilidades públicas - para escolher um título académico que lhe agrade. Ela riu-se e disse: «lá está o sr. dr...» Insisti que pensasse bem, mas ela é antiquada - embora da idade do Sousa - e não quer usar coisas a que não tem direito. Eu não desisto, por achar que ela tem cara de licenciada - ou mesmo mestrada - em engenharia doméstica.

segunda-feira, abril 09, 2007

Confesso: nesta crise o que por aqui tem sido expendido é mauzote. Mauzote, porque mauzinho, má conversa de café de província, por vezes com o dedo em riste, moralista num sentido estreito, com alguma maldade baça e falta de piedade, tudo impregnado de comezinho ou pouco certeiro intento. Pior que tudo isso, sem a boa e genuína gargalhada, alta, forte, alegre, contagiante que este episódio merece e nos deve como dividendo da miséria.
Mas deixei-me abater - foi o Inverno ou a leitura seca do Diário da República, ou qualquer outra das coisas desagradáveis que nos apoquentam - e só hoje, com as declarações do Senhor Ministro da Ciência sobre a exemplaridade do chefe do governo senti a força revigorante de uma boa e saudável gargalhada.
Cliquei no «Stabat Mater» de Rossini no Miss Pearls e o meu leitor de mp3 ou 4, ou seja lá o que for, prontamente classificou a ária nos «Blues»...

Quanto ao próximo episódio do folhetim do governo da sarjeta: será que o Sr. Sousa irá justificar na entrevista o motivo que o levou a ostentar um título que bem sabia não possuir e, por isso, usar?
Tirando o engenheiro, que não tem justificação possível, senão a vaidade, para quê utilizar uma entrevista para tentar explicar um vulgar título de licenciado - num país onde os há aos milhares? Parece-me algo de imensamente grotesco, mas adiante.
A vanitas do grande estadista - porque é um grande estadista, disso não há dúvidas - permitiu, no entanto, ver a gigantesca nebulosa de lama que amalgama interesses e influências entre chorudos tachos - era o nome, não era? - o negócio das faculdades e outros igualmente ligados aos favores estatais e como toda essa gente que come disso defende raivosamente a gamela com uivos e silêncios, conforme mais lhes convenha.

domingo, abril 08, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

A Semana Santa - o que resta dela - pouco propícia a ser preenchida por posts impensados.
"Nenhum partido da oposição parlamentar tenciona aproveitar as dúvidas que têm sido suscitadas pelo diploma de José Sócrates obtido na Universidade Independente"

Ora vamos lá a ver... aproveitar em que sentido? Obter uma ilegítima vantagem? Não se trata de tal: ninguém persegue o Sr. Sócrates por alguma infelicidade a que tivesse sido alheio. O que está em causa é, face ao publicado (leia-se, por todos, o Portugal Profundo), a existência de dúvidas - legítimas - sobre a licenciatura do actual primeiro-ministro.
Para além disso, e passando às certezas, já há uma, admitida na página oficial do Sócrates: desapareceu o título de engenheiro, que este não podia usar, mas que usou durante anos - e deixou que os outros usassem durante os mesmísimos anos.
O que está em causa é uma questão de carácter: mentiu o Sousa? E porque se enfeitou o Sousa com títulos a que não tem direito? O que diz isto sobre alguém de quem temos que ouvir declarações sobre os assuntos os mais importantes, declarações que podem levar-nos a tomar decisões que atingem as nossas vidas? Não é o uso de um título que se não tem um dos clássicos exemplos de vaidade e da mentirola a que levam as mais ridículas fraquezas e comezinhas misérias humanas ? Quem não se ri perante os falsos doutores & engenheiros, tão sinal , aliás, do nosso subdesenvolvimento?
E isto não é assunto para a oposição? Considerará esta que o carácter dos homens nada tem a ver com os seus actos?
Pois, ao contrário, creio que o actual primeiro-ministro deveria ser obrigado a explicar tudo muito bem explicado. A não ser... a não ser que tudo seja já indiferente. É possível, é bem possível que neste canto obscuro, onde imperam a boçalidade e o grotesco já nada valha a pena.
O Sócrates não é engenheiro e fez-se, até há dias passar por tal? Ele é que sabe e o que temos nós com isso?

terça-feira, abril 03, 2007

Detesto burocracia, detesto até à aversão física, à náusea. Admiro e desprezo gente arrumada e minuciosa. Desprezo porque sim, há melhores coisas a fazer do que manter a ordem nas gavetas - mas, por vezes, não há nada melhor para fazer e as minhas gavetas aproveitam-se disso para evitarem o caos. Admiro, porque sei que a minúcia e o rigor são necessários, são, por vezes, indispensáveis, contribuem para criar e preservar referências e valores que, por os sabermos , nos dão descanso e liberdade.
Por tudo isto - e corolários que omito por preguiça - quando há uns anos, vi a data, antevi o ror de horas que ia perder, os requerimentos que teria que fazer, mas chamei a atenção da funcionária: "A data da minha licenciatura está incorrecta, não me licenciei em Abril, mas em Outubro", ouvi-me dizer. Ela percebeu, também, o que a esperava e, em pura vertigem moral, balbuciou "se não for um Domingo, Sr. Dr... deixe estar". Aderi, trémulo, à sugestão e ambos nos precipitámos para o minúsculo calendário que ela segurava com as mãozinhas húmidas: a data que figurava como sendo a da minha licenciatura correspondia a um Domingo de Páscoa. Ela desanimou, mas creio que ainda disse que não tinha mal nenhum, que ia ver o que teria dado origem ao erro. Ouvi-me dizer, àquela Eva, com uma voz sumida e lúgubre: não pode ser, tem de ser a data certa!
A coisa acabou por não ser muito terrífica: algumas idas e vindas entre a Faculdade e a Reitoria (da Clássica, da Clássica...) e percebia-se o erro, fácil de explicar ao ver o Livro de Termos: um Out, de Outubro, escrito em arabesco saca-rolhas, fora tomado por um 4 estilizado, o que antecipava em alguns meses a licenciatura. De resto, tudo em ordem. A nova certidão de curso só estaria pronta daí a um mês e, para não atrasar o andamento do processo na Ordem, usei a que já tinha, mas advertindo, por escrito, do erro. Esqueci-me, no entanto, do canudo e quando o fui ver - era preciso "ir ver" antes de levar o selo - quando o fui ver às catacumbas da Reitoria lá estava o erro, com honras de pergaminho. Tive que ir pedir uma nova certidão e levar lá, e não sei se preencher mais papelada e porque me esqueci de o ir lá ver, dar a última e definitiva, necessária olhadela, nisto se passaram 6 ou 7 anos, creio (já agora, vi-o numa gaveta, cá em casa, no século passado; vou aproveitar esta Páscoa para o rever).
Quando contei algumas vezes estas história de burocracia (os passos que mais gosto são a sugestão da funcionária, a desilusão de ambos perante o Domingo de Páscoa e a necessidade de "ir ver" o canudo), quando contei isto e os meus escrúpulos pequenos tive a surpresa de ouvir de gente que pensaria longe de tais preocupações um "mas fez bem". Eu sei: há erros que devem ser corrigidos, por haver incertezas que não se podem manter. Por nós e pelos outros.
Que o Senhor Sócrates não o saiba eis o que me admira.
Quanto a mim, quero saber tudo, tintim por tintim.

Pé ante pé, um ano passou.

segunda-feira, abril 02, 2007

O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisas cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo, seco e cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão.

Vitorino Nemésio in «Eu, Comovido a Oeste»

Mondrian, Grey Tree, 1911

Mondrian, Red Tree, 1908
Ah, minha Cara Senhora, que a indiferença comece por nós, pelas nossas dores, alegrias, pelas coisas que nos são queridas.
(Devo confessar-lhe que sou um indiferente incompetente, não consigo deixar de ter um interesse de atento e extremoso pai possidónio pelo destino das minhas intenções, acções e omissões, quero que elas estejam bem na vida e, se não caio na mais total e babosa abjecção paternal, é tudo por conta de um indesejado desleixo de sentimentos que, por temporadas, me vai amparando).
Mas, nunca por nunca seria convidado de Petrónio.

domingo, abril 01, 2007

A mentira do 1º de Abril é a do post infra: não estive um tempão a pensar em mentiras.
Aliás, o que é uma mentira, hoje em dia?
Estive horas a tentar encontrar uma boa mentira do 1º de Abril.
Exquisitu deu o nosso esquisito, o estranho, o que é incomum e, por isso, por ser estranho ao que o rebanho produz, desagradável e, em francês - e apesar da mesmice francesa - exquis, requintado.

quinta-feira, março 29, 2007

Ao contrário do que eu tinha julgado aqueles traços não têm uma função meramente estética ou publicitária: indicam características utilitárias daquelas coisas. A iliteracia dos símbolos tem-me salvo grátis do sobrepovoamento de significâncias inutéis - até ontem; ontem, tudo mudou: dvd+rw é mesmo diferente de dvd-rw (sim, o "-" não é um mero traço de separação mas, creio, um sinal de menos e o "+" não é meramente publicitário). Apenas o acaso fizera com que tivesse comprado vários deles sempre adequados. Pasmei e tremi.

terça-feira, março 27, 2007


Uma cena do Dr. House fez-me lembrar de um conto de Daudet, ou Maupassant, mas mais de Daudet e, de repente, lembrei-me da idade que tenho de ter para ver o Dr. House e lembrar-me de contos de Daudet e, confesso, esmoreci: comecei a matutar que preciso de fazer depressa qualquer coisa e desde sexta-feira passada que tento saber o quê. Lembrei-me do labirinto de Hampton Court, de me perder por lá uma tarde soalheira. Uma tarde inteira, levava um livro para ler. «Estive uma tarde inteira perdido no labirinto de Hampton Court, mas não dei o tempo por perdido: tinha levado um livro, aproveitei e li e até hoje tenho usado, em diversas ocasiões e com aproveitamento, os ensinamentos que dele retirei», diria. Seria a minha façanha. Precisaria, no entanto, ter ocasião para a contar, ocasião de tempo e lugar e obtê-la é difícil nestes tempos em que ninguém pára para escutar uma pequena história agradavelmente "daquela vez julguei-me perdido".

segunda-feira, março 26, 2007

O Miniscente publica hoje, amavelmente, a resposta ao questionário que teve a simpatia de me enviar. Agradeço, novamente, grato, o convite que me quis fazer.
41% ? Demasiado... mas esperável resultado - para mim, pelo menos, coff coff, desde que soube que tinham omitido o nome de Salazar da lista exemplificativa: serem tomados por parvos, a não ser que daí venha algum ganho, é coisa que os portugueses detestam. Isso esplica a desmesura. O resto da explicação foi dado já: protesto pelas dificuldades e mediocridade presentes, a história deserta, inóspita, sem heróis - ou pessoas comuns - que é ensinada, a burrice pcp - incrível aquela tirada final de odetismo - tudo coisas que Salazar (que toda a gente sabia, sem margem para qualquer dúvida, que era mesmo doutor e professor) preveria.
Diverti-me.
Estou a ver a RTP1. Fala-se sobre a boa perseguição do Marquês de Pombal à alta aristocracia que seria, segundo o Prof. Rosado Fernandes, ignorante. Não era. Ignorante, em termos de hoje, seria parte - mas não tão grande quanto se pensa - da aristocracia provinciana, ou a mediana aristocracia de Lisboa que era a de Pombal.

Ah, já agora, de todos os finalistas, apenas Salazar não era aristocrata. De Sousa Mendes a Camões, do Infante D. Henrique a Fernando Pessoa, todos o eram - e sabiam-no. Sim, Cunhal também era aristocrata, com costela dessa pequena aristocracia de província.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa fingiu não ter entendido que a questão do título académico do Sr. Sócrates não é o título ou a licenciatura em si, mas que o actual primeiro-ministro tenha usado - e permitido que usassem - e desde há muitos anos, algo a que não tinha direito.
E isso não é uma questão de somenos.

sábado, março 24, 2007

Acorda-se no sábado pacato e passados dez minutos é-se exposto à cruel realidade: a irrealidade portuguesa. Na televisão, uns patetas alegres pedem a hora europeia para Portugal, por motivos económicos. A par destes - eu diria, acima destes - há a falange tropical que pensa na praia, no Verão, às oito da noite e não pensa nas crianças e gentes em geral a levantarem-se de noite às oito da manhã no Inverno e a viverem com uma hora que não é a local...
O motivo económico é idiota e a Irlanda - nem falo da Grã-Bretanha - aí está para demonstrar que não é necessário viver desajustado da realidade para ter êxito económico.
A questão, porém, deve ser seguida com cuidado: é uma medida grátis, consagra uma insensatez e é apta para provocar um desnecessário mal-estar, isto é, tem todas as condições para obter adesões entusiásticas e ser transformada em decreto-lei.
Alerta, em nome do princípio da realidade: aprenda-se, ao menos, a viver com a geografia.

quinta-feira, março 22, 2007

O meu pasmo de hoje:
Uma juiz alemã não concedeu o imediato divórcio a uma mulher marroquina que vive na Alemanha, espancada pelo marido em território alemão, com o fundamento de que o Corão não condena esses comportamentos (o que é, aliás, falso).
O interessante deste episódio é ser uma ignomínia prismática, de todas as faces - e são muitas - a decisão constitui uma alarvidade.

quarta-feira, março 21, 2007

Notas depois do café: na Segunda-Feira vi o Dr. Francisco Balsemão no programa «Prós e Contras». A questão que pôs, a saber, em quê era diferente o serviço da RTP do prestado pelas outras estações televisões não teve resposta - nem podia ter! - Notou o antigo primeiro-ministro : como pode ser diferente se tem publicidade e, por isso, necessidade de manter e satisfazer audiências? E, em vista disto, como educar o povo, o desejo confesso do ministro Santos Siva (se se chama Santos Silva...)? Não "se educa o povo" com futebol nem com programas culturais emitidos de madrugada (e remetendo, v.g., um programa com as características do programa do Dr. Saraiva para a 2).
Do outro lado, todos os outros convidados mostravam, a quem quisesse ver, o que é um país estatista e pouco dado a reflectir sobre o poder do estado e a origem da sua legitimidade ou os seus limites. Todos os opositores do Dr. Francisco Balsemão sabem uma coisa: de facto, não necessitam de usar argumentos, de convencerem: a RTP é um utensílio necessário para o governo - principalmente estes, medíocres, que tanto merecemos - e de que nenhum prescindirá; e eles bem sabem que, por isso, não é, de facto, concebível em Portugal que desapareça ou que mude até se transformar num verdadeiro e efectivo serviço público - como, por exemplo, vejo a TV5 ser. Uma verdadeira discussão sobre o assunto é, por enquanto, inimaginável, neste país que incensa Pombal, um cruel ditador que encheu os bolsos à custa do erário público e que projecta o culto pelo estado no Prof. Salazar, um digno sacerdote do mesmo. Por tudo isto, as queixas do Dr. Balsemão são recebidas com a bonomia que guardamos para as excêntricidades mansas e a existência de outras televisões, tolerada em nome do que se passa lá fora, será sempre tratada, no fundo, como uma perturbação e uma ameaça que todos, do Dr. Morais Sarmento ao ministro socialista, se apressam a tentar reduzir.

No fim de tudo, e como ninguém disse nada de novo - o que não é, aliás, o pior dos defeitos - ficou daquilo o ter-se podido ver alguém civilizado na televisão. Muito agradável, de facto, rever o Dr. Balsemão.
Bouguereau, Le Printemps, 1886
Chegou hoje mesmo a Primavera: aqui a vemos, ainda combalida.
A caminho do duche: na "revista da imprensa" da RTP1 chama-se repetidamente a atenção para a inesperadíssima notícia da sucessão dentro da Sonae. Para mim, porém, não foi surpresa: muitas vezes pensei em quem poderia suceder ao Eng. Belmiro e tinha já alvitrado que seria o filho, isto por coisas que eu cá sei - entre as quais avultam as disposições do direito sucessório português.
Já a notícia sobre a votação dos "Grandes Portugueses" na 1ª página do DN (Salazar 22 000 votos à frente de D. Afonso Henriques e de Cunhal), passou em silêncio.
Nos alvores do dia: abandonei o castanho, por deprimente.
Tentei alterar a cor, o que consegui em parte, mas do em parte resultou um todo péssimo.
Abriguei-me nestes brancos zen e continuo a ver de templates. Se não encontrar, fica assim, este.

Nota: Encontei esta noite estas palavras (que não via há muito): esquadrinhar e ímpetos.

terça-feira, março 20, 2007

segunda-feira, março 19, 2007

Um dos blogs que, até agora, lia com gosto, o Portugal dos pequeninos, desiludiu-me hoje.
O erro é grave: escreve-se naquele blog que no CDS aquilo foi de "fdp para cima" [pudicas abreviaturas minhas, por causa das senhoras].
Acontece, porém, que não é assim: creio que foi de fdp para baixo.
Entrei na net e vejo que Zezinha Nogueira Pinto se diz* agredida por um deputado de Viseu, tudo por causa das eleições do CDS. Quero ver logo à noite se já ostenta qualquer sinal, discreto embora, da sua nova condição de mártir da vida democrática (uma écharpe escarlata presa por uma pequeno alfinete com a forma de uma palma em rubis - ou diamantes, para não parecer forçada a alusão - e um ar de doce quanto inconformada indignação tem chic, hão-de convir).

* o diz não é dúvida quanto à sinceridade da senhora queixosa, mas mera precaução para o que a aflição de uma senhora pode engendrar.
Mais uma vez se ouve o presidente do sindicato dos procuradores a dizer o que é ou não é admissível que o povo portugês faça...
Se é certo que todos nós partilhamos as apreensões de Vasco Pulido Valente sobre as reformas das polícias, certo é, também, que o importante, nisto de polícias, é saber como se efectiva a responsabilidade dos seus responsáveis. Ora, mais depressa se chama um ministro da Justiça ou do Interior a S. Bento - que digo! - com mais facilidade cai um primeiro-ministro do que se obtém contas de um procurador da república por qualquer dos seus actos. Se o anterior procurador geral até se julgava o titular de um órgão de soberania (!!!!!, sim, sic) e teve o atrevimento de tratar com displicência a Assembleia da República, mandando recado de que não parecia comparecer à chamada dos representantes por ter uma reunião com outros burocratas... prefiro que quem manda nas potícias possa ser retirado do seu cargo com alguma facilidade.

quinta-feira, março 15, 2007

Não sei se não me estarei a repetir, de um modo mais agudo e estridente, neste caso do Chiado e Baixa, mas eu gostava muito da Baixa e do Chiado. Quem não se lembra dos batidos de morango com creme da Ferrari? Um dos gostos de ir a Lisboa prendia-se com aqueles batidos magníficos que, com alguns bolos da Bénard e as panquecas da Caravela compunham a bataria das coisas boas do ir a Lisboa quando eu era pequeno. Também havia direito a escolher um ou dois livros na Bertrand e espiar - actividade por vezes com sucesso - as lojas de brinquedos. Uma delas, na rua Augusta (ou do Ouro?) era a minha preferida, embora a «Kermesse de Paris», no edifício do Avenida Palace, albergasse uma fábrica de armamento não desprezível...
Mais tarde, descobri-me leitor dos olisipógrafos o que faz com que a gente a gente veja em relevo os sítios sobre que leu, e subir o Chiado e passar pelo local onde foi o Marrare ou reconhecer na Casa Havaneza a que Eça frequentara foi um dos meus primeiros - e últimos - prazeres eruditos.
Todos estes sítios, lojas e ruas estavam cheios de gente, uma multidão ociosa e agradável. Parte dessa multidão era de gente que por um motivo ou outro se conhecia e se cumprimentava.
Hoje é o deserto.
Poderei dizer ainda uma vez que gostava mesmo, mesmo do Chiado?
O Chiado perdeu o ar abandonado de há uns anos atrás, mas está morto, como morta está toda a Baixa. Muito egoisticamente penso no que mais directamente me afecta, a perda da Baixa como ponto de encontro. Não foi só a incrível demora na reconstrução depois do fogo que finou a Baixa. A minha geração, a primeira sem ter empregadas, perdeu o hábito de sair. Quando os filhos cresceram - e já cresceram - a Baixa não voltou aos seus roteiros de tardes e o «sair» não foi reinventado em termos actuais. Pacóvia, bacocamente, faz-se a imitação néscia do estar até tarde no emprego - em vão, dados os nossos índices de produtividade - mas não se tenta imitar o encontro de fim de tarde que anima as grandes capitais europeias onde, realmente se produz - veja-se Madrid ou Londres.
Lisboa está menos civilizada, e aquele travo estranho que se sente no deserto Chiado é o da ausência do savoir vivre, é a vitória da vida de subúrbio, de arrebalde inóspito, e da longínqua lembrança do trabalho rural de sol a sol que -escondido e negado - levaram do interior os migrantes do post-25 de Abril.
Fui ontem, Quarta-feira, a Lisboa. Para cá e para lá, companhia agradável. Investiguei Chiado e adjacências.

quarta-feira, março 14, 2007

Os mercados de acções estão num torvelinho, entre outros motivos, pelos medos suscitados pelo atraso no pagamento das hipotecas nos USA, o que poderia levar à falência às empresas financeiras que emprestam sobre esse tipo de garantia. Por sua vez, a existir uma situação mais exposta (bom jargão...) dessas empresas, os bancos acabam por ser afectados, o que já sucedeu com alguns dos bancos suiços. Mas o post não pretende ilustrar a interdependência e a globalização. A propósito de saber se sim ou não o sector dos empréstimos sobre hipoteca necessita de medidas legislativas, os canais noticiosos destas coisas dos dinheiros foram ouvir a opinião de alguns senadores norte-americanos. E a gente fica mesmo com a impressão que o legislativo nos USA é aquilo que o poder legislativo deve ser e que os legisladores participam de modo efectivo dele, que não são os tristes funcionários que são aqui.
Quem, em Portugal, sobre uma questão semelhante iria entrevistar um deputado?
Ninguém, e com a razão de serem os nossos deputados (os representantes eleitos do povo...) funcionários tristes que devem tudo ao chefe do partido, a quem obedecem, e pouco aos eleitores.
A propósito, neste pormenor está um dos erros fatais da nossa democracia (itálicos por diferentes motivos).

terça-feira, março 13, 2007

Num blog para mim quase desconhecido - mas não deve sê-lo para os connaisseurs - um relato de viagem a países longínquos. Cada vez mais saloio desconfiado, quase sempre que por esses blogs leio um roteiro de viagem, ou compêndio de impressões pitorescas e estados de alma viajante, fico com uma de duas sensações : é a primeira a de que o autor do relato não pagou a viagem do seu bolso - o que me é indiferente. A outra, que me incomoda ligeiramente, a de que acabei de contribuir, por interposto imposto, para que alguém se passeie enquanto eu suporto a mesmice do quotidiano.
A leitura do jornal continua profíqua: o chefe da oposição a Mugabe foi preso e espancado na cadeia. Mugabe é o ditador comunista do Zimbabué, recebido pela União Europeia, Chirac à cabeça, com todas as honras.
Momento Judicial
O Ministério Público diz que Fátima Felgueiras recebeu dinheiro de empresários, através de cheques (que estão juntos ao processo). Não cabe aos arguidos o ónus da defesa. Esse ónus cabe à acusação e consiste em fazer a prova do que acusa - neste caso a acusação pública, que tem os recursos do Estado e teve, neste particular caso, anos para investigar. Esse ónus consistirá, aqui, na demonstração que os cheques dos empreiteiros foram creditados na conta da arguida, ou noutra a partir da qual as quantias a que dizem respeito chegaram à posse da arguida. Pelo que posso entender e deduzo do que leio, essa prova não está feita, parece haver elos que, a terem existido, faltam.
Interessante, mas não inesperado.
Eça de Queiroz escreve de Lisboa a sua Filha Maria e diz-lhe que, por se estar a levantar cedo, lhe parecem - e são - longos os dias. Nem mais e é sempre bom ter alguém que admiramos a corroborar as nossas próprias impressões.
Depois da vitamina C (1 gr.):
O Museu de Arte Antiga não tem dinheiro para pagar a água e a luz. Verifiquei, por esta noticiazinha, o pouco que conheço do meu país: pensava não só que essas questões mais comezinhas estavam resolvidas quanto que era apenas por desleixo meu que desconhecia a política de aquisições de obras por parte dos museus nacionais nestes últimos anos.
Que não duvido que haja uma.

segunda-feira, março 12, 2007

2ª feira...
Entre o artigo certeiro de Vasco Pulido Valente (há por aqui um pleonasmo qualquer) sobre a OPA da Sonae, a absoluta grosseria e extraordinária boçalidade a propósito de Agustina Bessa-Luís (tanta, que falar disso alguém, como eu o faço agora, é ainda, a seu modo, participar no que se denúncia), entre o lembrar-me de ter ficado a meditar, quando li que Portugal tinha estado amordaçado, que o grande segredo é, talvez, que o tenha estado em vão, isto é, desnecessariamente, já que nada tinha para dizer ou fazer, o ver que só agora - mas antes tarde do que nunca! - se vê gente incomodada com o cartão tudo em um, vendido como uma modernidade - que já vi muito gabada! - as policías a despachar com o primeiro-ministro, a situação económica sem melhora sensível, as reformas por fazer, entre tudo isto, estas coisas tão díspares entre si senão o serem relativas à nossa terra, seria difícil encontrar motivo para estar bem disposto se não fora ser o habitual da situação e não estivesse a ler o livro do Job.
7 O Senhor disse-lhe:«Donde vens tu?» Satã respondeu: «Venho de dar uma volta ao mundo e percorrê-lo todo.» 8 O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Não há ninguém como ele na terra: homem íntegro, recto, que teme a Deus e se afasta do mal.» 9 Satã respondeu ao Senhor: «Porventura Job teme a Deus desinteressadamente? 10 Não rodeaste Tu com uma cerca protectora a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste o trabalho das suas mãos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. 11 Mas se estenderes a tua mão e tocares nos seus bens, verás que te amaldiçoará, mesmo na tua frente.» 12 Então, o Senhor disse a Satã: «Pois bem, tudo o que ele possui deixo-o em teu poder, mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.» E Satã saiu da presença do Senhor.

Job, I, 7-12

domingo, março 11, 2007

Que dia tão bonito, muito azul, muito luminoso, muito tranquilo, um grande silêncio risonho e bom, muito pacífico, quedam-se nele as horas serenas.
Ao longe, as várzeas - deixem que as várzeas sejam ao longe, antes dos montes, não me contrariem - e até lá o rio, os vergéis.
De correr mundo as terras e os humanos
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre.

Jorge de Sena

in «Visão Perpétua»
(e transcrita aqui)
SB 3/10/1972

sexta-feira, março 09, 2007

terça-feira, março 06, 2007

Desculpem, mas ainda não percebi: o caro Blasfémias é salazarista ou liberal? É que, sendo certo que as leis de condicionamento industrial, entre muitas outras medidas próprias de um forte intervencionismo estatal, não são consentâneas com o liberalismo económico - ou político, no sentido clássico e europeu do termo - ou se é uma coisa ou se é outra.
Respostas ao Impensável.
Através do Blasfémias fiquei a saber com mais pormenor sobre a questão* dos títulos académicos e profissionais do primeiro-ministro ora em funções.

Estas gentes do Portugal profundo são uns maçadores, uns muito necessários maçadores que gostam de queimar pestanas para averiguarem de minudências e insignificâncias tão significativas quanto sejam a da justeza e legitimidade do uso de títulos académicos, tarefa dificultada pelos monstros ocultos e obscurantistas que vivem no labirinto burocrático que é hoje o ensino superior...
O autor deste blog tira o chapéu ao Autor do Portugal profundo.

Do exposto resulta: alguma hesitação quanto ao facto do actual primeiro-ministro ser licenciado - dúvida que não é possível existir num país civilizado. Mas a sê-lo - e por essa inquietante «Universidade Independente» - parece que, nos termos das disposições legais em vigor, não pode usar o título de engenheiro, por não estar inscrito na Ordem.
Mas, seja por isto ou por aquilo, fica a questão de saber como tratá-lo. Há sempre a hipótese sr. Sousa, um clássico, mas hoje em dia parece coisa de somenos e pouco moderna. Eu proponho, por me lembrar do Principal Sousa, um dos membros da regência durante a ausência no Brasil de El-Rei D. João VI, essa mesmíssima designação, já que «principal» é muito adequada para um primeiro-ministro: Principal Sousa é prático e parece-me eufónico: "o Principal Sousa ontem tergeversou". Fica muito bem.

* É uma questão. Pelo menos numa democracia a sério, sê-lo-ia. Um título académico representa trabalho e esforço. Ou se tem ou não se tem. Se não se tem, não se usa. Não constitui qualquer desdouro não ser licenciado neste país de doutoral. Em contrapartida, querer ter o que se não tem, que ridículo - e que injusto para quem obteve os seus títulos académicos com esforço, trabalho e sacrifícios.
Já é muito tarde, cabeceio de sono, e estou aqui ao frio. Vim apagar a luz e a televisão e fiquei a ver a inesperada paisagem e persisto em ver a paisagem, a minúscula paisagem: embrulhado no plaid a que deitei mão, contemplo a montanha verde e, no sopé, alguns arbustos de formas estranhas. A pequena montanha, perfeiramente triângular, é o sinal que assinala as subidas na bolsa e os arbustos a percentagem, 1,33%. Sim, é a montanha Ni, a hierática montanha por onde passa o pedregoso caminho, a vereda de Dukkha.

segunda-feira, março 05, 2007

De vez em quando lêem-se alusões com o seu quê de depreciativo ao modo de falar mais tradicional. É insinuado que as palavras usadas têm o seu quê de aleatório, como se fossem usadas para aborrecer e ser diferente. O que acontece, porém, é que se limitam a ser as palavras mais simples e correctas.
Agora que temos aí outra onda de falta de gosto podemos imaginar a conversa daqui a 50 anos: - «Pai, o professor e outros os meninos dizem contratualizar, o Pai diz contratar porquê? E o Pai também diz que recebeu a carta em vez de recepcionar! E quando uma coisa acaba, o Pai diz que acabou, não diz que foi descontinuada. Lá na escola já me disseram que o Pai deve ser muito pretensioso. É?»

quinta-feira, março 01, 2007



Aqui, onde quase sempre estou, vou fazer de conta que acabei de chegar a uhmm.... digamos, uma hacienda argentina, perto do mar. Acabei de telefonar, desliguei agora mesmo. Não tenho acesso a notícias, à net, aos blogs, mas está bem, é assim mesmo. Não vou ler o jornal, não vou tomar o gin tonic, não vou ver a paisagem. Fecho os olhos.
"....the innocent sleep,
Sleep that knits up the ravell’d sleave of care,
The death of each day’s life, sore labour’s bath,
Balm of hurt minds, great nature’s second course,
Chief nourisher in life’s feast."
Shakespeare, Macbeth



Não sei onde li, mas é assim: o Marquês de Soveral teve como inesperado companheiro de viagem de Lisboa para Paris um reputado tagarela maçador. Quase ainda no começo do caminho estava já farto da secante conversa. Resolveu propor, então, uma espécie de jogo: «Meu caro, vamos fingir que não nos falamos! Damo-nos bem, não estamos de relações cortadas, vamos só fingir que não nos falamos». Não sei já se, no caso, a ideia - que me parece um achado de génio - foi eficaz, mas eu creio no poder do faz de conta.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A amarga - e de que modo! - queda da bolsa na China e por toda a parte, o pânico no Japão, a cobardia investidora europeia e norte-americana, a bombástica ameaça persa, a inquietante linha de inflação indiana, tudo isto é de um imenso pitoresco! E, contudo, não o vemos: aconselho o retomar do olhar Gilbert & Sullivan e, de um modo geral, toda a capacidade de espanto e divertido terror que perdemos (em nome de numerosas e incríveis palermices) ao longo do nefasto século XX.
Por quem sois, caros leitores, a ideia de que o proletariado chinês se endivida para investir na bolsa - nem sempre sensatamente - e inflaciona o mercado de acções provocando o medo bom gestor do comité central do partido comunista é qualquer coisa de profundamente divertido que alguém deve musicar rapidamente e pôr em cena (esperemos, confiantes, ainda ter dinheiro para o bilhete...).

terça-feira, fevereiro 27, 2007


Henri de Toulouse-Lautrec, Seule, 1896

As notações das senhoras dos blogs - deste e deste - sobre os vestidos das actrizes na cerimónia dos Óscares fizeram lembrar-me deste Lautrec. Não sei se bem.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Dia muito bonito e bem cheiroso. Chegaram mais livros pelo correio. Um deles, a «Arte de Ser Pai», uma recolha das cartas de Eça a seus filhos. Creio que ficará lido hoje. Este Eça da correspondência familiar foi de onde resultou o Eça novo de Maria Filomena Mónica, desatulhado de muitos acrescentos abusivos de épocas posteriores - como bem notou Vasco Pulido Valente.
O livro, uma edição com já alguns anos, é prefaciado, comentado, anotado, por Beatriz Berrini, uma ilustre ecióloga brasileira.

domingo, fevereiro 25, 2007

O meu passeio higiénico acabou por desembocar na Travessa "Limpeza lar" de um hiper, onde gosto de observar a revolução dos descartavéis. Desde há alguns meses, porém, que não há novidades e creio que, mesmo numa época tão estimulante, dificilmente se reproduzirá tão cedo a novidade magnífica que foi o espanador descartável.
Além dos descartáveis, encontrei as crianças e os pais, detectáveis pelos urros e uivos que soltavam. Sim, Miss Pearls, nós não gostamos muito uns dos outros e, creio, pelo que me foi dado ouvir - principalmente ouvir - esse desamor começa em casa. Mães, mães e pais e bebés bem dispostos, deixe-se isso lá para fora, para as viagens, que os de cá preferem os hipers aos jardins e insultam-se entre si com vigor. E não estão mal por lá, desde que longe dos produtos de limpeza, onde gosto de meditar, sossegado.
O dia acabou por não ser péssimo, salvo as nódoas de café no tapete e o ter escrito pronúncio em vez de prenúncio... Bem sei que estava ainda debilitado e que é mais um lapso do que um erro, mas o certo é que passou na revisão e apenas dei pela coisa por, ao reler o texto, me lembrar subitamente de sedas moirées e sussuros de trattative, coisas que, sem escândalo, apenas se reúnem num núncio papal...

Fiquei em casa: li umas crónicas de Tinop e dei uma volta pelos blogs.

sábado, fevereiro 24, 2007

Acordei bem disposto. Se o acordar pode ser prenúncio do dia, quão erroneamente acordei...
Vejamos: ainda agradavelmente sonolento fui arranjar um café, que trouxe para sala e pus na mesa, em frente ao cadeirão. Senti o toque na manga do roupão. E depois, em câmera lenta, assisti ao déluge! O café parecia ter fortes ímpetos distributivos: depois de se derramar sobre o meu roupão atingiu o sofá, tapetes, outra mesa e, nela, toda a papelada que eu deixara cobardemente acumular dentro da taça que está ao meio. Salpicou livros: Berlin e Mann e, menos severamente, a Expiação do Ian McEwan. O pano da camilha - artefacto provinciano onde os provincianos vivem provincianamente no Inverno - é, claro está, branco sujo - e o café não o melhorou. Numa primeira reacção, depois da catástrofe, admirei o que pode fazer um cafezinho contido num xícara tão pequena (cheguei a pôr mesmo a hipótese de haver um fundo falso...): toda a sala me pareceu salpicada. Hesitei entre sentar-me e chorar - chorar longamente - ou ir buscar "coisas" para limpar aquilo. A lembrança de que o cadeirão - que mandei forrar o ano passado - tinha sido fumigado com um produto anti-nódoa e que havia algures um manual a consultar aquietou-me e deu-me ânimo: nada mais interessante do que um manual e um pouco de labor hermenêutico para nos dar a sensação de que a ordem vai regressar e que os nossos piores medos não têm razão de ser. Encontrei o manual - sintético, 1 folha - e parti para a cozinha, já mais animado, em busca de uma tijela que teria de encher de água rigorosamente morna e espuma de detergente (interroguei-me se da loiça se da roupa, mas parece que é indiferente, é mera espuma e gostei deste pormenor simpático)
Muitos vexames depois: creio que debelei a coisa. Descobri, entretanto, que o forro do cadeirão está puído nos braços, pior, apenas num braço! Atendendo à quantia verdadeiramente escandalosa que tive de desembolsar pelo tecido é um escândalo - não vale a pena consultar os preços das etiquetas: um bem elaborado código impede qualquer cálculo certeiro sobre o valor final: há alturas, tem que se ter atenção às larguras e há ajustes, acertos (que variam segundo o padrão do tecido...) e creio que ainda outras armadilhas. A coisa atinge alegremente somas alucinantes e quando dizemos que "nem pensar!" somos conduzidos para outro catálogo onde vemos um tecido muito mais barato, de que sensatamente gostamos, e tudo acaba por ficar mais caro, um pouco mais de 100 ou 200 euros do que aquele, caríssimo, que tínhamos visto primeiro e puseramos logo de parte. Foi a largura, foram os acertos?... Bem, mas este sofá foi forrado há tão pouco tempo, como pode estar puído, por pouco que seja??? Protestarei por telefone (ir à loja é uma péssima solução que nos mete em despesas inesperadas - acreditem).
Depois destas atribulações corri para o duche e resolvi experimentar, à saída, a minha colónia nova, reconfortantemente inglesa, usá-la terapeuticamente, como calmante e revigorante. Erro: de imediato fui imerso num intenso e apavorante cheiro a tintura de iodo e obturaçao dentária dos finais dos anos 60 do século passado que me trouxe à memória o meu problema com a minha dentista (em suma: ando a monte, fugitivo dos cuidados dentários) que não posso adiar mais: terei de me entregar em breve às selvajarias da estomatologia. Este pensamento tem-me envenenado o sábado, e não tenho sequer o meu sofá - ainda está molhado - para nele sofrer.

Se me acontece mais alguma coisa desagradável hoje creio que amuarei por todo um mês.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Miss Pearls em Madrid também reparou nas crianças a passear nos carrinhos com as mães ou os pais, que não vejo em Portugal sei lá há que tempos - falta de que já me queixei, nuns desses posts aí para trás.
E se fosse só isso... ainda hoje à tarde tinha pensado que em Portugal, nestes tempos, reina a rispidez, a estridência árida, a falta de modos tão mais majestática e desabrida quanto alicerçada numa genuína falta de afecto e cogitei sombriamente em como tudo isso se tem tornado invisível para nós, para mim, pelo menos: é preciso sair daqui para me dar conta do horror disto, da antipatia e da falta de amabilidade indígenas, desta gente zangada e taciturna que somos - ou parece-me a mim que que somos.

Regressar da alegria aristocrática de Espanha a esta sisudez grosseira é uma tarefa muito difícil, de grande rudeza e proponho mesmo que a lei passe a contemplar uma período de aclimatação para os torna-viagem.
Cara Miss Pearls, bom período de adaptação e atenção às nódoas negras.
Este país rescende a pobreza!
Agora é muito elogiada a probidade de Salazar, por ele não ter enriquecido... Ora, Salazar teve - e, em abundância, o que quis e verdadeiramente - lhe - interessava : poder ( e é esta a parte que, pobretes, percebemos mal).
E teve-o, teve todo o poder que quis, grande parte do tempo à revelia e, depois, contra o país ou grande parte dele.
De modo pouco probo (as eleições como na livre Inglaterra, e coisas semelhantes)
Não compreendo, aliás, que os defensores mais engenhosos de Salazar venham com esta questão de ele não ter amealhado uns tostões... Vejamos: Salazar, creio, nem sequer admitiria que o bom ou apenas regular exercício do seu cargo de presidente do conselho pudesse tê-lo enriquecido.
E a exercê-lo de modo reprovável, não havia polícia, tribunais, a legalidade?

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O post de ontem tem alguma semelhança com uma montra de loja de artigos religiosos, com aquela grande Vanitas, sub-género da natureza morta tão apreciado no barroco, mas era Quarta-Feira de Cinzas, início da Quaresma.

Precisava ir a Lisboa. Vou acabar por ficar por aqui, quase de certeza, na companhia desagradável da minha sinusite, em fase aguda. Impossível fazer outra coisa senão esperar a acalmia das minhas pobres mucosas e que não seja preciso pensar a sério, seja no que for: estou reduzido a uma parte ínfima do crânio: na maior parte dele - onde geralmente gosto de estar quando raciocino - pastam rebanhos vastos de micróbios.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Aqui e ali, nos blogs, publicidade a uma biografia de O'Neill. A minha provecta idade coloca-me naquele já reduzido grupo de gente ridícula que ainda acha a publicidade seguro indício da falta de qualidade do produto anunciado e difícilmente aceita que seja realmente, indiscutivelmente bom como e quanto afiançam; por isso, já decidi não comprar o livro, pelo menos nos próximos tempos.
A única coisa que me poderia demover deste intento seria o perceber que é ridículo apenas querer o que é realmente bom, os valores seguros mas, com o fim do tempo do entrudo, não fazer uso das verdades mais subtis parece-me uma boa renúncia quaresmal.