quinta-feira, março 15, 2007
quarta-feira, março 14, 2007
Os mercados de acções estão num torvelinho, entre outros motivos, pelos medos suscitados pelo atraso no pagamento das hipotecas nos USA, o que poderia levar à falência às empresas financeiras que emprestam sobre esse tipo de garantia. Por sua vez, a existir uma situação mais exposta (bom jargão...) dessas empresas, os bancos acabam por ser afectados, o que já sucedeu com alguns dos bancos suiços. Mas o post não pretende ilustrar a interdependência e a globalização. A propósito de saber se sim ou não o sector dos empréstimos sobre hipoteca necessita de medidas legislativas, os canais noticiosos destas coisas dos dinheiros foram ouvir a opinião de alguns senadores norte-americanos. E a gente fica mesmo com a impressão que o legislativo nos USA é aquilo que o poder legislativo deve ser e que os legisladores participam de modo efectivo dele, que não são os tristes funcionários que são aqui.
Quem, em Portugal, sobre uma questão semelhante iria entrevistar um deputado?
Ninguém, e com a razão de serem os nossos deputados (os representantes eleitos do povo...) funcionários tristes que devem tudo ao chefe do partido, a quem obedecem, e pouco aos eleitores.
A propósito, neste pormenor está um dos erros fatais da nossa democracia (itálicos por diferentes motivos).
Quem, em Portugal, sobre uma questão semelhante iria entrevistar um deputado?
Ninguém, e com a razão de serem os nossos deputados (os representantes eleitos do povo...) funcionários tristes que devem tudo ao chefe do partido, a quem obedecem, e pouco aos eleitores.
A propósito, neste pormenor está um dos erros fatais da nossa democracia (itálicos por diferentes motivos).
terça-feira, março 13, 2007
Num blog para mim quase desconhecido - mas não deve sê-lo para os connaisseurs - um relato de viagem a países longínquos. Cada vez mais saloio desconfiado, quase sempre que por esses blogs leio um roteiro de viagem, ou compêndio de impressões pitorescas e estados de alma viajante, fico com uma de duas sensações : é a primeira a de que o autor do relato não pagou a viagem do seu bolso - o que me é indiferente. A outra, que me incomoda ligeiramente, a de que acabei de contribuir, por interposto imposto, para que alguém se passeie enquanto eu suporto a mesmice do quotidiano.
Momento Judicial
O Ministério Público diz que Fátima Felgueiras recebeu dinheiro de empresários, através de cheques (que estão juntos ao processo). Não cabe aos arguidos o ónus da defesa. Esse ónus cabe à acusação e consiste em fazer a prova do que acusa - neste caso a acusação pública, que tem os recursos do Estado e teve, neste particular caso, anos para investigar. Esse ónus consistirá, aqui, na demonstração que os cheques dos empreiteiros foram creditados na conta da arguida, ou noutra a partir da qual as quantias a que dizem respeito chegaram à posse da arguida. Pelo que posso entender e deduzo do que leio, essa prova não está feita, parece haver elos que, a terem existido, faltam.
Interessante, mas não inesperado.
O Ministério Público diz que Fátima Felgueiras recebeu dinheiro de empresários, através de cheques (que estão juntos ao processo). Não cabe aos arguidos o ónus da defesa. Esse ónus cabe à acusação e consiste em fazer a prova do que acusa - neste caso a acusação pública, que tem os recursos do Estado e teve, neste particular caso, anos para investigar. Esse ónus consistirá, aqui, na demonstração que os cheques dos empreiteiros foram creditados na conta da arguida, ou noutra a partir da qual as quantias a que dizem respeito chegaram à posse da arguida. Pelo que posso entender e deduzo do que leio, essa prova não está feita, parece haver elos que, a terem existido, faltam.
Interessante, mas não inesperado.
Depois da vitamina C (1 gr.):
O Museu de Arte Antiga não tem dinheiro para pagar a água e a luz. Verifiquei, por esta noticiazinha, o pouco que conheço do meu país: pensava não só que essas questões mais comezinhas estavam resolvidas quanto que era apenas por desleixo meu que desconhecia a política de aquisições de obras por parte dos museus nacionais nestes últimos anos.
Que não duvido que haja uma.
O Museu de Arte Antiga não tem dinheiro para pagar a água e a luz. Verifiquei, por esta noticiazinha, o pouco que conheço do meu país: pensava não só que essas questões mais comezinhas estavam resolvidas quanto que era apenas por desleixo meu que desconhecia a política de aquisições de obras por parte dos museus nacionais nestes últimos anos.
Que não duvido que haja uma.
segunda-feira, março 12, 2007
2ª feira...
Entre o artigo certeiro de Vasco Pulido Valente (há por aqui um pleonasmo qualquer) sobre a OPA da Sonae, a absoluta grosseria e extraordinária boçalidade a propósito de Agustina Bessa-Luís (tanta, que falar disso alguém, como eu o faço agora, é ainda, a seu modo, participar no que se denúncia), entre o lembrar-me de ter ficado a meditar, quando li que Portugal tinha estado amordaçado, que o grande segredo é, talvez, que o tenha estado em vão, isto é, desnecessariamente, já que nada tinha para dizer ou fazer, o ver que só agora - mas antes tarde do que nunca! - se vê gente incomodada com o cartão tudo em um, vendido como uma modernidade - que já vi muito gabada! - as policías a despachar com o primeiro-ministro, a situação económica sem melhora sensível, as reformas por fazer, entre tudo isto, estas coisas tão díspares entre si senão o serem relativas à nossa terra, seria difícil encontrar motivo para estar bem disposto se não fora ser o habitual da situação e não estivesse a ler o livro do Job.
Entre o artigo certeiro de Vasco Pulido Valente (há por aqui um pleonasmo qualquer) sobre a OPA da Sonae, a absoluta grosseria e extraordinária boçalidade a propósito de Agustina Bessa-Luís (tanta, que falar disso alguém, como eu o faço agora, é ainda, a seu modo, participar no que se denúncia), entre o lembrar-me de ter ficado a meditar, quando li que Portugal tinha estado amordaçado, que o grande segredo é, talvez, que o tenha estado em vão, isto é, desnecessariamente, já que nada tinha para dizer ou fazer, o ver que só agora - mas antes tarde do que nunca! - se vê gente incomodada com o cartão tudo em um, vendido como uma modernidade - que já vi muito gabada! - as policías a despachar com o primeiro-ministro, a situação económica sem melhora sensível, as reformas por fazer, entre tudo isto, estas coisas tão díspares entre si senão o serem relativas à nossa terra, seria difícil encontrar motivo para estar bem disposto se não fora ser o habitual da situação e não estivesse a ler o livro do Job.
7 O Senhor disse-lhe:«Donde vens tu?» Satã respondeu: «Venho de dar uma volta ao mundo e percorrê-lo todo.» 8 O Senhor disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Não há ninguém como ele na terra: homem íntegro, recto, que teme a Deus e se afasta do mal.» 9 Satã respondeu ao Senhor: «Porventura Job teme a Deus desinteressadamente? 10 Não rodeaste Tu com uma cerca protectora a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste o trabalho das suas mãos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. 11 Mas se estenderes a tua mão e tocares nos seus bens, verás que te amaldiçoará, mesmo na tua frente.» 12 Então, o Senhor disse a Satã: «Pois bem, tudo o que ele possui deixo-o em teu poder, mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.» E Satã saiu da presença do Senhor.
Job, I, 7-12
Job, I, 7-12
domingo, março 11, 2007
De correr mundo as terras e os humanos
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre.
Jorge de Sena
in «Visão Perpétua»
(e transcrita aqui)
SB 3/10/1972
como paisagem que ante os olhos passa,
e às vezes percorrer umas e outros
nos breves intervalos entre duas viagens,
uma incerteza deixa que é diversa
da que se aprende no convívio longo:
quem se demora vê, sob as fachadas
ou as perspectivas de alta torre feitas
um gesto em que se mostra uma outra vida,
ou troca frases que desnudam crua
o que de interno ser sob as fachadas vive;
mas quem só passa e mal aos outros toca
com mais que olhares ou fugidias vozes,
mais adivinha o que não é paisagem
mas dia a dia tão diverso dela
ou pelo menos para além ansioso.
Mas, se num caso a vida se conhece
e noutro caso nos conhece a nós,
por ambos aprendemos que do mundo
se vive o que não passa, ou se não vive
o que passando é só terras e gentes -
-o conhecer, porém, não se conhece nunca.
Apenas resta a escolha: como descobrir
essa experiência inútil. Antes, pois,
correr do mundo as terras e os humanos
que consumir-se alguém ao lado deles sempre.
Jorge de Sena
in «Visão Perpétua»
(e transcrita aqui)
SB 3/10/1972
quinta-feira, março 08, 2007
terça-feira, março 06, 2007
Desculpem, mas ainda não percebi: o caro Blasfémias é salazarista ou liberal? É que, sendo certo que as leis de condicionamento industrial, entre muitas outras medidas próprias de um forte intervencionismo estatal, não são consentâneas com o liberalismo económico - ou político, no sentido clássico e europeu do termo - ou se é uma coisa ou se é outra.
Respostas ao Impensável.
Respostas ao Impensável.
Através do Blasfémias fiquei a saber com mais pormenor sobre a questão* dos títulos académicos e profissionais do primeiro-ministro ora em funções.
Estas gentes do Portugal profundo são uns maçadores, uns muito necessários maçadores que gostam de queimar pestanas para averiguarem de minudências e insignificâncias tão significativas quanto sejam a da justeza e legitimidade do uso de títulos académicos, tarefa dificultada pelos monstros ocultos e obscurantistas que vivem no labirinto burocrático que é hoje o ensino superior...
O autor deste blog tira o chapéu ao Autor do Portugal profundo.
Do exposto resulta: alguma hesitação quanto ao facto do actual primeiro-ministro ser licenciado - dúvida que não é possível existir num país civilizado. Mas a sê-lo - e por essa inquietante «Universidade Independente» - parece que, nos termos das disposições legais em vigor, não pode usar o título de engenheiro, por não estar inscrito na Ordem.
Mas, seja por isto ou por aquilo, fica a questão de saber como tratá-lo. Há sempre a hipótese sr. Sousa, um clássico, mas hoje em dia parece coisa de somenos e pouco moderna. Eu proponho, por me lembrar do Principal Sousa, um dos membros da regência durante a ausência no Brasil de El-Rei D. João VI, essa mesmíssima designação, já que «principal» é muito adequada para um primeiro-ministro: Principal Sousa é prático e parece-me eufónico: "o Principal Sousa ontem tergeversou". Fica muito bem.
* É uma questão. Pelo menos numa democracia a sério, sê-lo-ia. Um título académico representa trabalho e esforço. Ou se tem ou não se tem. Se não se tem, não se usa. Não constitui qualquer desdouro não ser licenciado neste país de doutoral. Em contrapartida, querer ter o que se não tem, que ridículo - e que injusto para quem obteve os seus títulos académicos com esforço, trabalho e sacrifícios.
Estas gentes do Portugal profundo são uns maçadores, uns muito necessários maçadores que gostam de queimar pestanas para averiguarem de minudências e insignificâncias tão significativas quanto sejam a da justeza e legitimidade do uso de títulos académicos, tarefa dificultada pelos monstros ocultos e obscurantistas que vivem no labirinto burocrático que é hoje o ensino superior...
O autor deste blog tira o chapéu ao Autor do Portugal profundo.
Do exposto resulta: alguma hesitação quanto ao facto do actual primeiro-ministro ser licenciado - dúvida que não é possível existir num país civilizado. Mas a sê-lo - e por essa inquietante «Universidade Independente» - parece que, nos termos das disposições legais em vigor, não pode usar o título de engenheiro, por não estar inscrito na Ordem.
Mas, seja por isto ou por aquilo, fica a questão de saber como tratá-lo. Há sempre a hipótese sr. Sousa, um clássico, mas hoje em dia parece coisa de somenos e pouco moderna. Eu proponho, por me lembrar do Principal Sousa, um dos membros da regência durante a ausência no Brasil de El-Rei D. João VI, essa mesmíssima designação, já que «principal» é muito adequada para um primeiro-ministro: Principal Sousa é prático e parece-me eufónico: "o Principal Sousa ontem tergeversou". Fica muito bem.
* É uma questão. Pelo menos numa democracia a sério, sê-lo-ia. Um título académico representa trabalho e esforço. Ou se tem ou não se tem. Se não se tem, não se usa. Não constitui qualquer desdouro não ser licenciado neste país de doutoral. Em contrapartida, querer ter o que se não tem, que ridículo - e que injusto para quem obteve os seus títulos académicos com esforço, trabalho e sacrifícios.
Já é muito tarde, cabeceio de sono, e estou aqui ao frio. Vim apagar a luz e a televisão e fiquei a ver a inesperada paisagem e persisto em ver a paisagem, a minúscula paisagem: embrulhado no plaid a que deitei mão, contemplo a montanha verde e, no sopé, alguns arbustos de formas estranhas. A pequena montanha, perfeiramente triângular, é o sinal que assinala as subidas na bolsa e os arbustos a percentagem, 1,33%. Sim, é a montanha Ni, a hierática montanha por onde passa o pedregoso caminho, a vereda de Dukkha.
segunda-feira, março 05, 2007
De vez em quando lêem-se alusões com o seu quê de depreciativo ao modo de falar mais tradicional. É insinuado que as palavras usadas têm o seu quê de aleatório, como se fossem usadas para aborrecer e ser diferente. O que acontece, porém, é que se limitam a ser as palavras mais simples e correctas.
Agora que temos aí outra onda de falta de gosto podemos imaginar a conversa daqui a 50 anos: - «Pai, o professor e outros os meninos dizem contratualizar, o Pai diz contratar porquê? E o Pai também diz que recebeu a carta em vez de recepcionar! E quando uma coisa acaba, o Pai diz que acabou, não diz que foi descontinuada. Lá na escola já me disseram que o Pai deve ser muito pretensioso. É?»
Agora que temos aí outra onda de falta de gosto podemos imaginar a conversa daqui a 50 anos: - «Pai, o professor e outros os meninos dizem contratualizar, o Pai diz contratar porquê? E o Pai também diz que recebeu a carta em vez de recepcionar! E quando uma coisa acaba, o Pai diz que acabou, não diz que foi descontinuada. Lá na escola já me disseram que o Pai deve ser muito pretensioso. É?»
quinta-feira, março 01, 2007

Aqui, onde quase sempre estou, vou fazer de conta que acabei de chegar a uhmm.... digamos, uma hacienda argentina, perto do mar. Acabei de telefonar, desliguei agora mesmo. Não tenho acesso a notícias, à net, aos blogs, mas está bem, é assim mesmo. Não vou ler o jornal, não vou tomar o gin tonic, não vou ver a paisagem. Fecho os olhos.
"....the innocent sleep,
Sleep that knits up the ravell’d sleave of care,
The death of each day’s life, sore labour’s bath,
Balm of hurt minds, great nature’s second course,
Chief nourisher in life’s feast."
Shakespeare, Macbeth
Não sei onde li, mas é assim: o Marquês de Soveral teve como inesperado companheiro de viagem de Lisboa para Paris um reputado tagarela maçador. Quase ainda no começo do caminho estava já farto da secante conversa. Resolveu propor, então, uma espécie de jogo: «Meu caro, vamos fingir que não nos falamos! Damo-nos bem, não estamos de relações cortadas, vamos só fingir que não nos falamos». Não sei já se, no caso, a ideia - que me parece um achado de génio - foi eficaz, mas eu creio no poder do faz de conta.
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