sexta-feira, fevereiro 16, 2007

E já repararam que continuamos a crescer muito pouco e a afastarmo-nos da média europeia? Não repararam? Pois continuamos. Não estamos a viver melhor.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Já repararam que o desemprego em Portugal subiu bastante em 2006? Não? Mas subiu!
Your Ladyship,
Reconhecidamente, agradeço a avassaladora simpatia: o «problema» não era a poesia de O'Neill, mas os micro-segundos em que, lido aquele título, o tal, eu e mais alguns desgraçados, desatenta e angustiadamente, criam que o Bomba, que o Bomba pudesse, horroresco referens! estar prestes a uhm, coff, coff, a desaparecer , mudando - brrrr - para sempre as nossas vidas, para pior, para muito pior.
Com o que,
I have the honour to be
Milady,
Your most humble, obedient servant
Impensado

quarta-feira, fevereiro 14, 2007



I´m an ordinary man

ah, aquela coisa, ontem - foi ontem? - da má língua, do Salazar e não sei quê mais : tão... tão de menos. Acabei por ter dó daquela gente, deve ser muito desagradável ser assim.
Cara Charlotte,

Saberá quanto estimo lê-la e quanto o seu blog se tornou parte dos meus rituais diários. Saberá, ainda, que detesto mudanças, consistam elas em piorias ou melhorias, começos ou fins, tanto de males quanto de bens. Convenha em que todos temos acções menos felizes, que provocam, mesmo à nossa revelia, mal-estar aos outros. Enfim, e indo directa e cruamente ao assunto: aquele título «fim de missão» tem de acabar! Esqueço-me sempre da justificação que já deu a outros desgraçados por ele apavorados, mas é um sobressalto escusado, diria mesmo, uma peripécia - no sentido grego do termo - que subverte a minha felicidade, feita de uma frágil inércia, sempre que deparo com tal título numa das minhas visitas diárias ao Bomba.
Ficaria muito feliz - e creio que falo em nome de muitos - se pudesse mudar o nome.
Antecipadamente grato e muito agradecido,
Leitor assíduo,
Impensado
Já agora.... e eu, onde ouvi falar do Dunne pela primeira vez? Num ensaio sobre Borges? Numa coisa do Eliot? E onde li o que tenho a impressão que li dele? Uma coisa sei: não foi nestes tempos de facilidade googliana: foi noutros, em que se precisava telefonar (começava logo por nunca vir nada na enciclopédia, dizia-se mal da enciclopédia, era a única consolação), sair de casa, ir a casa de amigos, depois de alguns nãos, palpites, lembrarmo-nos de quem, com certeza, tinha ou sabia de quem tivesse ou soubesse... Uma vez, lembro-me (seja-me permitida esta nota de pitoresco septuagenário), que depois dum ror de tempo a correr Ceca e Meca e olivais de Santarém por um livro de que precisava absolutamente, ter-me sentado num sofá em casa de uma amiga de quem ia, creio, despedir-me para sempre, vencido - e dignamente pronto a morrer de desânimo - quando olhei em frente, para a estante, e lá, lá onde eu nunca supusera que pudesse existir tal (era uma coisa de direito), ver a obra que procurava. E vinha isto... ah sim sobre as facilidades de agora. Ninguém imagina como era, ninguém.
Se não viesse aqui agora, logo, quando acordasse, esquecia-me: a Agatha Christie leu o Dunne, o J. W., leu, pelo menos, «An Experiment with Time». Não estou a ver um livro dela onde use as teorias de Dunne, mas o certo é que tem uma boa organização dos tempos e alguns alibis apenas parecem sólidos porque os enquadramos - nós, leitores - em sequências que, de facto, não existem.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Tenho uma leitura - que é, quase sempre, uma releitura - para dormir. A destes dias tem sido a «Autobiografia» de Agatha Christie, que li pela primeira vez há uns dois anos. É inteligente, bem-humorada e bem escrita. Ontem, li uma descrição de um grupo de viajantes anglo-católicas e da sua leader e guia, uma temível Miss, pelas ruínas bíblicas de Babilónia. Christie transcreve algumas das espantosas afirmações que aquela profere sobre as pobres senhoras do seu grupo e não há dúvida: aquele modo de falar firme, insuportável, eficiente é o discurso de uma vítima plausível, de alguém que podia, com verosimilhança, ser liquidada por qualquer uma das desgraçada excursionistas, por qualquer daquelas poors things ameaçadas de total exaustão, quanto por uma questão de mera sensatez textual. Mas as velhas senhoras continuaram a viagem sem homicídios, no Iraque de há 70 anos, e não deixamos - eu não deixei - de sentir-me defraudado.
Um bom dia de Inverno, triste, chuvoso.

Ontem, estava a ver o "prós & contras" e, embora discordando do assunto das custas (valendo a minha discordância o pouco que vale, creio que a regra da responsabilidade individual pelas custas apenas é aplicável quando, pela mera existência de diversos requerentes/recorrentes haja a possibilidade, ainda que longínqua, da prolação de decisões diferentes, ou então que uma única decisão os possa afectar de modos diferentes, sendo certo que sempre serão diversas partes - sempre dois ou mais assistentes ou arguidos - o que, aqui no caso, manifestamente, se não verifica) bem, embora discordando, pareceu-me que a ideia que o Senhor Conselheiro Sá Nogueira quis transmitir foi a necessidade de cada um de nós não emitir, sobre questões graves, opiniões grátis, um apelo à seriedade na discussão dos assuntos já que as nossas acções têm - sempre - custos.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O Anarcoconservador está zangado com o país. É uma das condições do ser português, esse desânimo, esse desgosto.
Eu estou triste e pessimista, embora já esperasse o que aconteceu, e por questões de higiene não quis ver as reacções aos resultados. Guardo a minha fúria para depois, para quando a vida começar a ser preterida pela morte, para quando mulheres com doenças graves tiverem que esperar mais tempo por um diagnóstico e por uma operação do que uma menina perfeitamente saudável que ficou grávida (porque estava com os copos?) e se dirige ao SNS - que nós pagamos... -para exigir o seu direito a rapidamente matar o seu filho.
Quando isto acontecer... Bem, quando isto acontecer temos que começar a assistir ou ajudar os mais velhos na sua morte, para haver vagas, digo, em nome da inexigibilidade de sofrimento, da dignidade, etc, etc. Marque-se já o referendo, a morte tem sempre pressa.
Dia soalheiro e tremor de terra - que eu não senti.
Preguicei num depois de almoço contemplativo.
Eu sabia. As rapariguinhas - as de há pouco, ainda teens, ou nos verdes vintes - tinham o ar de quem se ia vingar da vida desagradável, dos tédios do shopping, impondo aqui as coisas lá de fora, as que julgam ser-lhes destinadas. Por outro lado, a interpretação restritíssima da lei e a doce omissão, por parte dos sucessivos governos, de regulamentação sobre a matéria, levou para o sim parte da classe média, que se sentia tutelada e menorizada pela letra e, sobretudo, pela prática dos preceitos legais.
O que estava mal - e estava e não podia continuar como era - podia (e devia) ter sido modificado de outro modo. Como é hábito entre nós, o bom-senso não imperou - como não tinha imperado antes, entre os conservadores - onde me incluo - que quiseram a imobilidade impossível (e supérflua), mesmo que bem intencionada - e,por tudo isto, foi o gosto pelos lances dramáticos, sempre falhos de sensatez, os possidonismos da moda green-gauche, da esquerda-Lisnave-souvenir e a agenda oportunista de um governo medíocre o que ditou o ritmo e a amplitude da mudança.

Não digam é que esta vitória é a entrada no séc. XXI: há 100 anos, já Portugal não condenava ninguém à morte há mais de 50... - fossem quais fossem os veros motivos da abolição, esta estava feita. Em França, na Grã-Bretanha, na Alemanha a pena de morte manteve-se até há vergonhosamente pouco tempo. Nesse capítulo não temos que importar "modernidade" seja de onde for.

domingo, fevereiro 11, 2007

Voltei agora de votar. No referendo de 1998, encontrei ao entrar duas Irmãs Dororeias que, decerto, disseram não. Desta vez, quase no mesmo sítio, encontrei duas meninas que poucas vezes o terão dito.

sábado, fevereiro 10, 2007

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

JPP vem alertar e prevenir as massas - sempre, sempre, ignorantes, sempre a precisarem de esclarecimentos, de quem as ilumine, de quem lhes aclare o sentido de um texto, de quem, em suma, lhes indique o caminho - sobre o artigo do «Avante!» do longínquo ano de 1937.
Lê-se nesse artigo - conforme texto no Office Lounge, via Insurgente que "o aborto é um acto inteiramente anormal e perigoso".
Não vejo, contudo, no resto do artigo - onde se escancara a porta ao relativismo - qualquer argumento no sentido de relativizar a afirmação sobre a anormalidade do aborto mas, apenas, a admissão de causas sociais e económicas que excluiriam a sua ilicitude.
Isto é, nada há que afaste ou diminua o aborto como acto anormal - sem aspas, que se trata de afirmação do «Avante!», onde o que é normal tinha - tem - necessariamente, o sentido da história.
Medite-se sem simplicidades.


Protestos em bairros sociais do Porto
Moradores contra aumentos das rendas


Não admira... Portugal deve ser o único país - arrisco escrever do mundo - em que as rendas sociais sobem bastante mais do que as da habitação normal. Um inquilino de um apartamento dos anos 40 da Rua Castilho - daqueles com 14 divisões - e que o tenha herdado antes de 80 - tem um aumento de 3% contra os 10% ou 20% - mas que podem ser 150% ou 200% - da habitação social... (e o valor da renda em si também tem enormíssimas probabilidades de ser inferior à renda de um apartamento num bairro social do Porto).

O interessante é pensar bem nos motivos que favorecem estas nossas originalidades. Estão relacionados com o subdesenvolvimento, está bem, está bem, mas pensem bem, reflictam. É ainda mais do que isso.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Sobre os novos humoristas: lia tanto encómio que resolvi ver. E pasmei: os momentos mais felizes contêm-se, em qualidade de texto e representação, no expectável de uma récita de finalistas do 11º ano de qualquer* escola secundária que decalcasse - desleixadamente - alguma britcom.
E era sobre aquilo que se escrevia, se pronunciava a palavra génio?
Houve tempo que Portugal era um país de província. Creio que se tornou num país de arrebalde, pior, de subúrbio, um pais póvoa-de-santa-iria**.
Mas estará tudo doido?
Ou terei eu tido uma congestão e ninguém me disse nada?

* ou de uma das melhorzinhas
** com todo o respeito pelos habitantes da laboriosa povoação, etc.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

(Creio que, em Portugal, depois da questão do aborto acabará por vir à tona a da "legislação" sobre a adopção de crianças por homossexuais.
Creio que não é necessária qualquer legislação ou permissão ou proibição: o que norteia a questão é o superior interesse da criança - e não o dos adoptantes - e parece-me pacífico que ter uma mãe e um pai, que poder chamar mãe a uma mãe e pai a um pai, está mais perto do superior interesse da criança do que qualquer outra situação. E há milhares de casais nessa situação à espera de poderem adoptar uma criança.)
O Conselho Superior de Magistratura abriu um inquérito ao Juiz Desembargador Dr. Rui Rangel por este ter considerado a decisão aplicada no caso de Torrres Novas "cega brutalmente injusta e desproporcional", violando assim, eventualmente, o dever de reserva.
Bem... cega, a justiça deve ser... Mas quanto ao resto, se tivesse afirmado ser a decisão brutalmente justa e proporcionadíssima também seria alvo de um inquérito disciplinar? É que o dever de reserva seria sempre violado, dissesse o que dissesse. E tantos outros magistrados se pronunciaram sobre o caso...
Antes de adormecer - ainda há pouco! - tinha passado por aqui e aqui (Dupond & Dupont?) e agora acordo estremunhado a) sem saber se Mme. de Grignan era, também, jansenista, o que não deixa de me aborrecer por não saber onde pus as Cartas; b) contente com a justeza da observação de Nancy Mitford numa carta a Waugh sobre a tristeza do narrador em Brideshead que, julgo, me dá razão quando penso que o livro está às avessas; c) a perguntar-me se será o chocolate quente que me provoca estes pesadelos com os jardins de Sissinghurst (que tomo por um roman à clé que adormeço a ler).
Tenho de substituir o chocolate por chá de tília. Ou hibernar, se hibernar for actividade isenta de maus sonhos.

Rembrandt, Paisagem tempestuosa
Chega-me notícia que o Dr. Constâncio se sente de facto incomodado com o valor tão elevado do seu ordenado. Ainda bem. E como ninguém é obrigado a receber o que não quer, falta apenas agir em conformidade. Poderá, por exemplo, ganhar apenas o que ganha o seu colega norte-americano.
Estou em crer, aliás, que já terá tratado do assunto e que apenas por modéstia não publicitou que o fez.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Para os mercados accionistas e financeiros do mundo inteiro, a notícia relevante do dia económico será o discurso de Ben Bernanke, de onde poderão sair algumas indicações sobre a evolução das taxas de juro do dólar.

Quem é Ben Bernanke? É o director do FED, o equivalente norte-americano de um banco central. Do Banco de Portugal, por exemplo. Às mais óbvias diferenças - não nos esqueçamos que hoje grande parte das atribuições do Banco de Portugal passaram para o Banco Central Europeu - acresce uma outra que já disse uma vez neste blog, por ter sido uma notícia que verdadeiramente me chocou e emparveceu: Ben Bernanke tem um ordenado inferior (em termos absolutos e relativos) ao Dr. Constâncio.
Isto não é uma denúncia populista, é notar a absoluta falta de escrúpulos - e a absoluta impunidade - com que o erário público português é assaltado para alimento deste devorismo. É notar, também, o que é espírito de serviço público nos Estados Unidos e aqui, e isso já é um problema maior, não um fait divers a alimentar indignações popularuchas. Espírito de serviço público e de controlo. Pelo que pude apurar, foram os próprios administradores do Banco de Portugal que se atribuíram tais ordenados. Ao invés, nos Estados Unidos os ordenados de grande parte dos alto funcionários são fixados pelo Congresso e não duvido que aqui se terá que caminhar para uma solução idêntica.
Entretanto, eu gostava de ouvir uma resposta. Não haverá ninguém que pergunte, pausadamente, educadamente, ao Dr. Constâncio se ele não tem vergonha do que ganha, se não sente pejo, se não se sente mal?
Tamino:

Zu Hülfe! zu Hülfe!
Sonst bin ich verloren!
Zu Hülfe! Zu Hülfe!
Sonst bin ich verloren!
Der listigen Schlange zum Opfer erkoren,
Barmherzigige Götter!
Schon nahet sie sich,
Schon nahet sie sich,
Ach, rettet mich, ach! rettet, rettet, schützet mich!
Ach schützet, schützet, rettet, rettet mich!
Rettet, schützet mich!

Die Zauberflöte

sábado, fevereiro 03, 2007

Por aqui, subdesenvolvimento e ignorância:

A política criminal nada tem a ver com a ética? A politica latu sensu nada tem a ver com a ética? A política é uma disciplina da ética!

Entretanto, na verde Suiça,

O Tribunal Federal da Suíça abriu a possibilidade de pessoas com graves doenças mentais serem ajudadas por médicos a porem termo à vida, conquanto tenha indeferido, em concreto, o pedido que deu origem à sentença.

Aqui e lá, a cultura da morte. Lembro-me de achar exagerado o termo quando o ouvi pela primeira vez dito por João Paulo II. Creio que apenas agora começo a perceber bem toda a extensão do problema, o perigo de que, enquanto civilização, abdiquemos a vida: tal como Jacinto, palpamos a caveira e respondemos ao tédio com o macabro - nem sequer já o macabro que dança - e exige de nós o conhecimento dos passos (ou do jogo) - mas outro, de imitação, que já não interroga, nada pede, que cultua uma morte de onde estaremos, afinal, ausentes, passivos, a morte manipulada, a morte bem-estar, a morte-spa.
A pretexto do referendo, uma imensa boçalidade impregna muitos blogs.
Gosto de uma boa bulha mas esta falta de modos - e de tolerância e de respeito e de... - está a passar os limites do suportável.
Voto no Não - fica dito mais uma vez - mas, dado que não tenho nada a dizer que por outros não seja mais bem dito, creio que não será um egoísmo se me dedicar a outros assuntos.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Charlotte transcreve o artigo de Vasco Pulido Valente sobre o referendo do aborto.
Poderia ser, e com poucos mutatis mutandis, um artigo sobre um referendo da pena de morte.
E eu votaria, de igual modo, não.

No Da literatura transcreve-se outro artigo, este de Ana Cristina Leonardo que, por sua vez transcreve um texto de um filósofo português, Pedro Madeira: «[...] é, de qualquer modo, falso que, se um ser tem potencialmente um direito, então tem, efectivamente, esse direito. Enquanto cidadão português, sou potencialmente presidente da República; o presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas; no entanto, daí não se segue que eu seja agora o Comandante Supremo das Forças Armadas»
Sim, mas... depende da natureza do direito. Aquele de que se fala no texto -a eleição -, desde logo exige o assentimento e colaboração de terceiros (assentimento e colaboração que, se não forem dados, não coarctam qualquer direito).
Já outros há que não dependem senão do decurso do tempo: a maioridade, por exemplo - e o direito regula os direitos do menor enquanto tal e os do menor enquanto futuro maior (regras para administrar o seu património, direito a saber como foram administrados bens que haja adquirido - por via de heranças, por exemplo).
Há direitos concedidos enquanto ainda se não é, para quando se for...
O direito conhece o tempo e as transformações que sofremos nele.
Sobre potencialidades.*

* Modifiquei este post, para correcção de vários lapsos e ideias (menos ideias do que lapsos)...
No Blog do Não

Para além das banalidades:

«Mais: o “autonomismo” tem-se reflectido também na compreensão
da vida intra-uterina: sendo desejada a gravidez, fala-se de bebé; caso
contrário, recusa-se a expressão e, no limite e nos primeiros tempos, diz-se que
não passa de um agregado de células. Como se a objectividade do estatuto,
ainda que conflitual na esfera pública, pudesse depender da pura subjectividade.
Estamos, pois, numa “sociedade de vivência(s)”[...], em que o horizonte tradicional
de procura de fundamentantes razões é abandonado, numa “idade de
incerteza”»
, pg. 14

e ainda (op. cit., loc. cit):


Como assinala Francesco D’Agostino [...], não raro assiste-se a uma
“redução” de uma questão ética a psicológica, tratando o aborto em termos de
uma “dinâmica auto-referencial” e não numa “dinâmica relacional”[...]. Esta última,
verdadeiramente, capta o essencial do problema: a existência de um outro,
ou seja, do filho, cuja vida se deve respeitar. O eixo é, pois, o da relacionalidade [...]
e o da alteridade, devendo recusar-se o poder fáustico e o império da
vontade, advogados pelo “autonomismo
”.

Prof. João Loureiro, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Ontem, o acólito lembrou os fiéis, principalmente as fiéis, que hoje era dia de Nossa Senhora das Candeias. A origem desta festa é uma procissão pagã, romana, em honra de Ceres chorosa pelo sequestro de Proserpina, com vestais e matronas compadecidas e archotes.

Encontrei no google ditados metereológicos:
- Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir.
- Se a Senhora das Candeias chora, está o inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o inverno meio dentro e meio fora.
Aqui está bom tempo, a invernia vem aí.
Colóquios em obras

- Era preciso aqui uma coisa, assim aquilo lá de baixo já passava e depois era só pôr aqui um igual, mas isso já se arranjava com aquele que ali está, se não fosse aquilo.
- Uma coisa dessas, mas sem ser de metal por causa daquilo. O que estava ainda era a que tinha vindo?
- Acho que sim.
- Só se aproveitasse uma daquelas ali, como aquela para aqui, era só desbastá-la e era capaz de já passar.
- E ali não faz falta?
- Aguenta-se bem.
- É pena é já não haver com os tais três e meio.
- Deve haver, haver deve haver. Há aquelas, iguais às das lá de cima mas têm aquelas coisas de lado, não entram, senão adaptava-se aqui.
- Aposto que na América há.
- O pior é o nome. Como é que eles chamam a isto lá?
- Não sei, mas explicava.
- E na Rua da Prata?
- Talvez, mas não acredito. Isto era ver se na América ainda fabricam, mesmo que já não sejam bem bem iguais.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

1º de Fevereiro de 1908

São já 99 os anos que passam sobre o assassinato d'El-Rei Dom Carlos I e do Príncipe Dom Luís Filipe.
É um dia de luto para os monárquicos portugueses e deveria ser, ao menos, de meditação para todos os outros: foi em nome de uma ilusão absurda, criminosamente cultivada, que caíram, sacrificados, El-Rei e o Príncipe Real. O sangue desse crime continua, hoje ainda, sobre nós e os frutos dessa ignomínia são esta vil, apagada tristeza que, sem grandeza, não é trágica; que nem sequer é ridícula: é este apagado não ser.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Parece-me que há um erro no que diz, um grande erro: não seríamos todos nós, cidadãos comuns, quem estaria sujeito à inversão do ónus da prova, mas quem, e apenas quem, exercesse cargos públicos. Será um dos ossos do ofício da coisa pública, como já acontece no Reino Unido, a pátria do rule of the law que invoca para rejeitar a proposta. Referiu-se a esse regime britânico o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa - que não esqueceu que, a apontar no mesmo sentido, existe já uma directiva comunitária.
Coisas enternecedoras - e todas elas vindas de Paris!

Os RG, Renseignements Généraux, os serviços de informações gerais (as alegrias que a república francesa me dá são infindáveis!) teriam recebido ordens para investigar o património imobiliário de Madame Royal, a candidata socialista ao trono do Eliseu. Teriam sido as informações destes amáveis serviços que forçaram a candidata socialista a declarar que sim, que pagava imposto sobre a fortuna (é coisa que nunca deixa de me espantar, a aptidão dos socialistas para fazerem fortuna e, acima de tudo, o conservarem-na com tanto empenho e eficácia).

A outra notícia que veio da repúblique da Gália foi a do uso de testes de ADN em alguns suspeitos habituais para determinar quem, há dias, tinha roubado a lambretta do filho do ministro de la république, Sarkozy. Uma diligência que faz ternura, de facto: é a fraternité aplicada ao rebento ministerial, com algum esquecimento da égalité, já que parece nunca ter sido usado método tão científico para detectar os autores dos outros milhares de roubos de duas rodas. A notícia não especificava se os acusados tinham ficado em liberté.
A entrevista com Vasco Pulido Valente: um inexplicável luxo.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Se o aquecimento global se mantiver a este ritmo estou em crer que terei de instalar chauffage central...

segunda-feira, janeiro 29, 2007


Depois de saber tudo sobre Masson, descobri ontem que Miss Pearls era bibliotecária. Percebi o porquê de um blog aparentemente tão - uhm, como dizer? - sensato e recatado, emanar uma carga erótica tão... tão intensa, tão Cancioneiro Geral, uma licenciosidade delicada e perturbantemente gótico-manuelina. Fiquei a saber, mas ainda não me recompus verdadeiramente.
Em labirintos e arabescos repousava de alguns rectos intentos a que, por falta de engenho, não alcancei furtar-me, quando vi que aqui se publicava o nome do autor deste blog. Fui numa carreira ao google ver quem era. Lá estava: MARTINS, JOSÉ - Nasceu em meados do século passado [séc. XIX], em Patos, segundo informa Átila Almeida.
Tal como supusera, mais coisa menos coisa.
Curiosidade satisfeita, volto para onde estava.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

«...Tout le malheur des hommes vient d'une seule chose, qui est de ne pas savoir demeurer en repos, dans une chambre.»

Pascal, Pensées

terça-feira, janeiro 23, 2007

Esta minha assiduidade aqui, no blog, radica, creio, no medo de existir que, segundo José Gil, compartilho com os demais portugueses: não quero que o meu algum cansaço do Impensável se inscreva, fique registado pela omissão, e obrigo-me a escrever ainda mais um post.
Vou ter de combater esta compulsão timorata.


O tempo do patrocionador Bris

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O que mais gostei hoje nos blogs:

"(...) alguém que tão abnegadamente se eregeu em ombudsman blogosférico da imprensa (...)"

Eregeu é um achado. Significará, creio, erigir perto ou nas costas do mar Egeu, ou, fig: erigir argumentos, argumentar com os métodos dos sofistas das proximidades do Egeu.

P.S. Mesquinho? Seja, mas tenho para mim que o eregeu não é lapso.
Tempos bons para viver: quando as coisas não têm ainda nome e os animais falam.

domingo, janeiro 21, 2007

Cheguei há 10 minutos do depois de jantar em casa de amigos. Noite muito divertida, estive com gente que não via há muito e que gostei de rever.
O poema em que tinha pensado para hoje era o Neutral Tones do Thomas Hardy, apenas por falar de dias de inverno. Gosto muito da terrífica terceira estrofe.

NEUTRAL TONES

We stood by a pond that winter day,
And the sun was white, as though chidden of God,
And a few leaves lay on the starving sod,
-They had fallen from an ash, and were gray.

Your eyes on me were as eyes that rove
Over tedious riddles solved years ago;
And some words played between us to and fro -
On which lost the more by our love.

The smile on your mouth was the deadest thing
Alive enough to have strength to die;
And a grin of bitterness swept thereby
Like an ominous bird a-wing….

Since then, keen lessons that love deceives,
And wrings with wrong, have shaped to me
Your face, and the God-curst sun, and a tree,
And a pond edged with grayish leaves.

sábado, janeiro 20, 2007

Amanhã, domingo, há poema.
A Associação Sindical [sic] de Juízes Portugueses elaborou, a propósito do caso de Torres Novas, um comunicado tão inexplicável quanto ela própria.
Chamou-me nele a atenção esta frase, logo no início - não, não é sobre o problema da "legitimação" embora seja suculento - mas refiro-me ao esclarecimento sobre a admissibilidade de critica:

« Numa sociedade democrática e plural, tendo em conta que a transparência e a crítica são valores inerentes à legitimação democrática dos tribunais, é admissível que as decisões judiciais sejam sujeitas ao escrutínio dos cidadãos, assumindo aí a comunicação social uma função importante. »

É só para dizer que numa democracia não é apenas admissível o escrutínio, pelos cidadãos, das decisões judicias mas absolutamente imprescindível.
Afinal, não são eles o Povo em nome do qual se administra Justiça?
Ou o Povo será, meramente, a entidade patronal?
Foi no Bomba que li o artigo de VPV sobre o referendo. Concordo com muita coisa ( ou não fora ele um dos meus maîtres à penser), mas não partilho o medo de que o referendo enfraqueça a representação. VPV sabe bem o que é a representação em Portugal e disse-no-lo elequentemente depois de ter renunciado ao mandato. Ao que lhe foi concedido para nos representar - antes, creio, de ter havido qualquer referendo.
Se não considerasse que a vida humana começa na concepção e que é, em si, um valor absoluto, teria imenso a discutir e a ponderar. Pensando como penso, resta-me aborrecer e votar "não" - aquilo em que acredito não é discutível.
Quem parece que também votaria não - se considerasse a vida humana absoluta - seria o Dr. House. Os estranhos sintomas de um seu paciente, concebido por inseminação artificial, deviam-se, segundo o seu diagnóstico, a algo que lhe aconteceu quando tinha, quando era 12 células: uma delas foi substituída pela de um outro óvulo, de um gémeo seu. O paciente sofria das consequências do quimerismo.
O que nos acontece quando somos 12 células influencia a nossa vida futura... há entre essa dúzia de células que podem e o que somos muitos anos depois um ininterruptus continuum, uma identidade de destino, de singularidade que nenhum dramático obstáculo, nenhum terrível acontecimento perturba (nem sequer o começo do pulsar desse estranho artefacto onde, quisemos pensar, nasciam os nossos afectos).

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Uma das coisas que me preocupa(va?) no TLEBS é a de me parecerem aquelas designações muito de quem não lê, mais ainda, de quem não gosta de ler, nem da língua portuguesa, a julgar pelo modo como a escrevem.
Serviço Público: muito agradável a manteiga fresca, feita em casa, nos scones tépidos. Pôr, depois, a geleia de chá.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

E não esquecer de assinar, concordando e querendo, a petição anti-TLEBS.
É a última semana.
O link está ai, à direita, nas causas.
Episódio de anglofilite não infecciosa: vontade de me meter num avião - ou no velho e decrépito Sud - e ir estar uns dias a Inglaterra, a Londres (books, shirts, some grooming things, colognes) e, depois, a Hastings ou Torquay e voltar aqui, smoothly.
Sei, porém, de antemão, que a preguiça tem a batalha ganha. Tem? Tem. Tem!? Não, mas tem.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tenho de me deixar de noitadas, sejam elas para os mais benfazejos fins: o certo é que já não tenho vinte anos e a alucinação ronda, de perto, muy loca:

According to media reports coming out of Latin America, President Chavez is considering a proposal that would establish him as the high priest of his own form of evangelical Christianity, convert his cabinet members into bishops of a lower rank, and submit church activities to the civil and military power of his government

Logo, depois de almoço, hora de sensatez e bonomia, venho ver se este post e o resto (links, etc) ainda aqui estão. Se, antes de almoço, não tiver lido ou ouvido referência a isto nos telejornais, nos teletextos e nos blogs e este post - incluídas estas reservas - se mantiver aqui, resta-me pegar no telefone e marcar a consulta.
Enfim, alguém inteligente e sensato: «PGR não tem solução para violação segredo justiça: (...) o Procurador-Geral da República diz que nada pode fazer para acabar com as violações do Segredo de Justiça. (...) Pinto Monteiro, admitiu hoje que "seja qual for a lei", o segredo de Justiça será sempre violado.»

Mas há solução: desde logo acabar com o segredo de justiça, inexistente nas grandes democracias (não confundir com segredo da investigação policial...). Este segredo de justiça que é quase justiça em segredo - e este processo penal - que o pacto está longe de remediar - é um produto de burocratas estatizantes desejosos de uma burocracia estatizante de um tal jaez que deixaria invejoso o mais minucioso funcionário dos Habsburgos - embora a administração austríaca tivesse servido, de facto, para alguma coisa de útil e de bom (evitou guerras e derramamento de sangue) e este segredo para nada sirva.

terça-feira, janeiro 16, 2007

A quem chegou aqui, ao Impensável, via google, com a pergunta "como ficar com anginas" : é favor deixar-se de fitas, não arranje desculpas!

Lucy Pratt, Cock and Hen amongst Blooms

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Que desonestidade, que estupidez é tudo o que rodeia o ridículo concurso dos grandes portugueses! O boçal expediente de não divulgarem o resultado da votação feita, apenas confirma o que toda a gente já sabe: que Salazar ganhou - e muito porque os votantes detestam desonestidades e espertezas saloias. A coisa ganha ainda outra suplementar graça triste: a de ficarmos a saber que os métodos do regime do Prof. Salazar persistem na televisão - e no país... - que o seu regime criou - e que estão longe de morrer.

domingo, janeiro 14, 2007

Sobrevivi aos dois jantares. No ao café do de sexta e a tempo inteiro no de ontem,estava um outro bloguista que, por mais novo, compreendeu que as ditas de cada noite revertiam a meu favor (sim, sou egoísta).
No jantar de sexta ouvi, deliciado, a reprodução de uma conversa com um edil a quem foi explicado, melhor, exigido, que não houvesse alcatroamento ou melhoria de espécie nenhuma nos caminhos de terra até à entrada da quinta. Houve quem explicasse os melhores argumentos a usar contra o gosto pelas benfeitorias dos nossos autarcas e relataram-se casos de sucesso contra algumas arremetidas de boas intenções.
No de ontem - que ainda não agradeci, telefono depois de escrever isto - houve a descrição de uma prova cega de manteigas que terá durado algumas horas.
Com isto, acabei por não ter que gastar as ditas que tinha conseguido encontrar.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

E... e esta sensaçao estranha de que esta discussão do aborto, por importante que seja, escamoteia a de outra morte: a nossa, a do nosso país.
Entre 1997 e 2005, foram constituídas arguidas 37 mulheres, tendo havido condenação para 17. No entanto, não é possível distinguir quantas dessas mulheres eram grávidas que deram o seu consentimento ao aborto e quantas foram implicadas por participarem na sua prática (médicas, enfermeiras, parteiras). Também não é possível saber quantos casos são relativos à prática de aborto até às dez semanas e após as dez semanas.

Conviria saber, ainda, se alguma dessas 17 cumpriu efectiva pena de prisão.
Mas enfim, o problema não está aí, já que não se trata de de tirar mulheres da cadeia ou de impedir que para lá vão (que desconhecimento da prática dos tribunais, do mundo real, o dessa gente...), mas de permitir que à panóplia dos meios de contracepção se venha juntar o do aborto livre e sem justificações até às 10 semanas e que comunga do consumismo da nossa sociedade, na caso o consumismo de direitos (e a que se junta o culto neo-realista-rocaille e o retro das esquerdas mais modernas).

quinta-feira, janeiro 11, 2007

A discussão à volta do aborto, mormente as reinvindicações dos partidários do sim, tem de chocante a exibição de boas - algumas o são - intenções onde elas deixam de contar: na morte. Assemelham-se aos pedidos para que a pena de morte, um escândalo em si, de per se, possa ser mais humana. Ela é sempre humana, a crueldade é humana e se para os cultores da contabilidade do sofrimento há uma diferença, um ganho sobre a guilhotina no ambiente asséptico de uma sala de injecção letal, para mim, incapaz de entender essas pias preocupações e esses ganhos, condenado a ver - verdadeiramente, condenei-me a ver (ao menos que veja isso) - o derramento de sangue na morte mais exangue e lívida, o escândalo mais cruamente se espraia por estes belos dias de Janeiro, bárbaros, atrozes, muito azuis.
Ruisdael

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Ele há males que vêm por bem, e os meus achaques catarrais já me afastaram de dois jantares. O bem não reside nesse afastamento em si, numa qualquer erupção de ascese; o bem consiste em me dar tempo para refazer o meu repertório de frases para jantar, na verdade gasto já há dois anos.
E hoje, estava eu nas saias de Elvira depois do lanche, quando a propósito de uma frase de Lourenço sobre o exagero de apoplexias em Eça me lembrei que, tal como Paul Johnson afirma que Picasso não sabia pintar mãos, pode a gente dizer que Eça não sabia matar as personagens. Não será um achado mas não fica mal com um daquelas coisas lugubremente gelatinosas e tièdes que em outras épocas seriam agradáveis chauds-froids.
O sável ainda vai demorar este ano (por incrível que pareça, por falta de água nos rios!); mas sim, pode aparecer por este época, raro, mas por vezes aparece. Deixei marcado e ficaram de me avisar quando soubessem que iam ter. Resta-me esperar.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Creio que acontece a todos os passeadores o que sucedeu àquele: de repente, percebeu que não sabia onde estava, nunca tinha estado naquele sítio, que se perdera; sem que desse por isso, desviara-se do caminho; por mais livre que tivesse decidido que iriam ser os seus passos, não era por ali: estranhada a fealdade dos sítios, das casas, cogita que em vão são os dias de quem lá mora (tão longe que estão de tudo) e estuga o passo para voltar.
Que havia anos de já haver sável em Janeiro! Pelo que vi no google, é lá mais para os finais de Fevereiro. Lembro-me de ouvir dizer, todavia. E o que li no google era em rios mais a norte, talvez aqui, mais a sul, chegue mais cedo. Vou ver mais logo se tenho razão e encomendar já para mandar fazer de escabeche, ou daquele outro modo, quase carpaccio, em vinagre - e metia, também, vinho branco? Ou vinho branco e apenas um pouco de vinagre? Depois verei. - Fazia-se cá em casa dos dois modos mas noutros tempos em que não havia esta falta de pessoal, porém, sempre mais habitualmente o de escabeche. Se arranjar um sável decente, bom, mando fazer só de escabeche.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

E a primeira alegria maldosa do ano tive-a agora mesmo, por intermédio do Crítico: foi a vaia - parece que monumental - a Saramago no celebérrimo Alla Scala. Alegremente vaiado, diz o Crítico.
Viva a alegria, Bravo! Bis! Bis!

Joseph Cornell, Habitat Group for a Shooting Gallery, 1943

domingo, janeiro 07, 2007

Da caixa de comentários do Futuro Presente:

«Espero sinceramente que a sua separata da Ética tenha chegado em melhor estado que a minha...
Posted by Je maintiendrai Domingo, Janeiro 07, 2007

A minha, dedicada e enviada pelo autor, chegou em óptimo estado!
Posted by jaime nogueira pinto Domingo, Janeiro 07, 2007 »

As dedicatórias dos autores preservam os livros - ou meras separatas - das brutalidades dos correios, eis uma valiosa lição a retirar do comentário-resposta de JNP àqueloutro, tão solicitamente interesssado, do Je maintiendrai.
Uma fonte de desgostos, estes correios, bem o sei.
Meus caros senhores leitores: aqui e ali, livros obrigatórios, a ler obrigatorimente, até aos menos autoritários a não perder.
Tudo bem intencionado, mas o melhor é fazermos rigorosamente o que nos apetece, como diz Pessoa, que também sabia de livros obrigatórios a ler obrigatoriamente:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
...........................................

sábado, janeiro 06, 2007

Há umas coisas que não fazem sentido: o aborto não é sempre um mal? É, todos o dizem, mesmo os partidários do sim: mesmo praticado que seja na melhor clínica, de um acto invasivo e com os riscos inerentes a qualquer acto cirúrgico. E não se gastam, todos os anos, milhões e milhões para encontrar métodos não invasivos que substituam alguns simples exames que representam bem menos perigos para a saúde do que o aborto?... Não percebo! Mesmo para os que crêem que o feto não é ainda vida humana, como é que se pode estar tão interessado em defender o que será sempre um mal, a realização de um acto perigoso e sempre traumático física e psicologicamente... Se me convencessem hoje de que o começo da vida se não dá na concepção, ainda assim eu acharia leviano que se defendesse o recurso ao aborto fora de indicações terapêuticas precisas e indispensáveis para a defesa da saúde das pacientes.
O que acharia normal que houvesse por aí era gente a pedir consultas de planeamento familiar e informação para combater ignorâncias, e toda uma panóplia de meios que não existem ou, se existem, são mal usados. Votei não no referendo anterior, como tenciono fazer agora, mas tenho uma ideia vaga que muito do que foi prometido então faltou. Mas a essas reivindicações sensatas do que falta, mesmo à correcção de práticas existentes, parece ganhar, no campo do sim, e até com algum gosto, a insistência num mal - porque é sempre um mal - e tudo isso nos coloca no campo do contra-intuitivo, da estranheza...
Francamente, não percebo. Ou antes, percebo, mas - em grande parte - como uma questão sobrevivente de outros tempos, um exemplo de uma malsã nostalgia, de celebração de uma desnecessária crueza, a que se sobrepõe uma doentia proposta nova de um hedonismo sem história, feito de um momentâneo de antemão sabidamente infértil.

O momento do nosso patrocionador

sexta-feira, janeiro 05, 2007

«Quem se arrisca a enterrar dinheiro num país paralítico, com a Espanha e a "Europa" à porta?» pergunta VPV no Público de hoje.
(Eu, muito modestamente e a pensar nos de cá, já tinha lembrando que há fundos de acções estrangeiras ao dispor de qualquer um... de acções de empresas a salvo das ideias do governo luso e da nossa pequenez em geral)
O achado porém, é o país paralítico. Não que seja de uma originalidade ou comicidades estonteantes, não é sequer uma dita ou apodo muito original, mas proferido agora e aqui, em contraponto aos dislates optimistas e esbracejantes do governo, acerta o alvo com a precisão de um dardo inteligente.
País paralítico, país entrevadinho. Define-nos bem.
"Uma democracia adulta também o é pela forma". Concordo, mas não ouvi eu, atónito como já disse por aqui, o Dr. Sampaio, ainda em funções ou apenas saído delas, dissertar em entrevista, sobre os méritos e deméritos de diversos chefes de estados estrangeiros nossos amigos que tinha conhecido no exercício das suas funções??? Assim o fez e ainda me lembro que considerava como a mais "profissional" a Rainha da Holanda, superior, por isso, à da Dinamarca e...
Mais senhor presidente do que isto...
E lá se foi um post... apagado sem glória.
Já agora, o livro do Judt não é do ano passado. Li-o em Novembro ou Dezembro de 2005. É uma bom livro e lembro-me de o ter defendido perante alguém que me lembrava ser um livro feito a partir de outros, um livro em segunda mão, com pouca ou nenhum trabalho de consulta de arquivos. É um facto que o próprio autor reconhece. Já que parece que aqui está toda a gente a lê-lo agora, lembro isso das fontes, embora o livro seja muitíssimo capaz de cumprir a sua missão de traçar as linhas essenciais da Europa dos últimos 60 anos. Mas, sobre Portugal, por exemplo, não lhes parece que faltam uns nomes lá na bibliografia?

Mas, como as tristezas não pagam dívidas, aderi à publicidade nos blogs.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Coisas tristes:

O Abrupto resolveu elencar as coisas boas, as más e as péssimas, estas últimas com direito a ícone, um cão de fila pop art em posição de ataque, o que tudo me parece de gosto muito duvidoso, mas enfim... Entre as coisas péssimas JPP põe lado a lado a entidade reguladora para a comunicação social, a política comunicacional governativa e... os "truques na blogosfera portuguesa para incrementar visitas e ligações artificialmente" !!!!
Se não fora a dor de garganta - estou melhorzinho mas não ainda bom - ficaria de boca aberta, não o tempo de uma larga tarde de Verão, como Eça, mas por toda esta soalheira tarde de Inverno. Temendo pela minha garganta, por uma questão de saúde, apenas ri. Com gosto. Muito.
Nos últimos dias do ano passado suscitou grande alvoroço um parecer de uma associação sindical de juizes sobre o crime de maus tratos previsto no artº 152º do Código Penal por nesse parecer constar que tal crime não está previsto actualmente no que aos casais homossexuais diz respeito, nem o deverá estar, em lei a fazer, pelo menos enquanto extensão da protecção dada aos conjûges. Parece-me sensato e pacífico, se é que ainda sei ler.

(O que a mim faz mais confusão, é a existência de um sindicato ou associação sindical de titulares de órgãos de soberania. É, contudo, uma mera associação particular com o mesmo estatuto que teria uma associação de bloguistas no que à actividade legislativa diz respeito e que pertence, em democracia, ao parlamento e não está dependente dos desejos e entendimentos de entidades privadas.)

Quanto à substância da coisa: o regime que pune os maus tratos aplica-se não apenas a cônjuges ou a quem viva em união de facto, mas a quem se aproveite de relações de proximidade e intimidade domésticas, propícias ao realçar de um ascendente físico, emocional ou económico sobre outrém, para o maltratar e amargurar, contando depois com circunstâncias de inferioridade da vítima para ficar impune: era habitual que as queixas (já em si representando uma magríssima percentagem da totalidade das agressões) fossem, a maior parte das vezes, retiradas. E, por esse motivo, o legislador transformou tais actos em crimes e crimes públicos: não dependem de queixa para ser instaurado o respectivo processo nem o perdão impede aquele de prosseguir. Aqui, como em tudo, há um inconveniente: o de a vítima perder controlo sobre sua intimidade já que tudo pode começar por um telefonema de um vizinho e, por isso, deve-se interpretar este estatuto de crime público como transitório - mas agora necessário - , num país onde a violência dentro de portas é uma triste e grave realidade.
E os homossexuais? Creio que a sua situação caberá em qualquer preceito que, no futuro, venha a proteger quem partilhe o mesmo tecto, ou viva em economia comum, não curando aqui das questões de técnica jurídica a resolver na altura. Escusado é que essa protecção resulte da imitação de uma realidade histórica heterossexual, que seja obtida através do esvazimento das palavras - no caso, cônjuge.
O importante é, afinal, que ninguém sofra e seja humilhado por actos criminosos de quem abusa da sua posição fazendo que haja quem, em sua casa, não tenha abrigo.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

"É estar a gente a vê-los, é estar a gente a vê-los"
É assim, assim é, infelizmente.
E não apenas os aí ditos: faltam os sensatos, pessoas que estimamos, que encontramos nas livrarias, pacatos, bem intencionados, discretos, que podem o que nós podemos, mas que também não querem pagar. E têm, de igual modo, empenhos, para vários hospitais em Paris ou Londres (com viagens e subsídio de estada pagas pela segurança social para um acompanhante) ou para o Hospital de Carrazeda de Ansiães, se necessário for.
E são esses, os que têm as mesmas sensatas prioridades que nós temos, são esses, afinal, que complicam tudo.
Estes dias lindos e eu fechado em casa, transformado num iníquo vaso de secreções... Azar.
As constipações e gripes não eram sequer totalmente desagradáveis quando era pequeno, constituíam um bom momento de estudo sobre nós, propiciava os primeiros olhares sobre as entranhas e o nosso mal-estar e os interditos salvíficos geravam mudanças estranhas, o surgir de uma topologia própria: as salas, a casa de jantar adquiriam a natureza e o exotismo de longínquas paragens inacessíveis. Da cozinha e da copa, outro continente, vinham ecos de palavras de uma língua desaprendida e estranha que recaía sobre actos incompreensíveis.
Alguns rituais compensavam-nos dessa distância: o almoço e o jantar na cama, a empregada preferida que vinha contar histórias logo que pudesse, os livros que eram postos na mesinha de cabeceira para nos distraírmos e demais paleolíticas coisas.
Hoje tudo isso é quase já inconcebível.
Um filme que vi em 2006: o Secrets & Lies. O que eu gostei deste filme! É uma elegante alegoria neo-clássica sobre liberdade enquanto questão de óptica, de ajuste da distância de leitura dos trompe d'oeil pouco deleitosos que aparecem lá ao fim das nossas histórias, da nossa história, onde se acumula a sujidade e a patine de pequenas e ternas mentiras - e em que acabamos por nos rever - e das supresas quando olhamos tudo de um outro local -em nós, de outro local em nós. Com humour. Não é de 2006? Eu sei, mas revi em 2006, quero lá saber se não é de 2006.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Do fundo do sofá onde me vim sentar para me sentir mal com mais comodidade, descubro que o fez anos. É com muito gosto que, entre dois acessos de tosse, procuro a compostura necessária para dar os meus parabéns.
Constipação horrenda, com tosses, alguns arrepios e espilros de uma violência devastadora! Não pude ir ao jantar de Ano Bom - que tanto prezo! - e tive que avisar que não podia ir a um outro, amanhã, em Lisboa. Um espilro assustador e sincero e a minha voz rouquejante convenceram, creio, a anfitriã da minha vera indisponibilidade e sincera pena por não ir já que, desde Wilde, os honestos resfriados, mesmo os mais terríveis - como é o caso - têm uma péssima fama de apressados e desajeitados pretextos: "Jack: Very well, then. My poor brother Ernest is carried off suddenly in Paris, by a severe chill. That gets rid of him."

domingo, dezembro 31, 2006

Não hoje ainda, mas o sol já se pôs e a madrugada será a do dia em que nos dizemos

Começa hoje o ano

Nada começa: tudo continua
Onde 'stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar:
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso ver teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e vento e pensamento

Fernando Pessoa

in Poesia 1918-1930

sábado, dezembro 30, 2006

Fui comprar e quando cheguei a casa vi, com alegria, que tinha sido desnecessária a saída, mas tenho sempre medo que me falte a companhia destas infelizes quão prestáveis e piedosas senhoras, sempre prontas a apoiarem-me nas ocasiões difíceis

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Tenho preguiça de ir buscar gelo e, por isso, a seco - mas não preciso levantar-me nem martelar o congestionado ice service do frigorífico - resolvi, substituída a bebida de fim de tarde pelo blogar, dizer o que acho foi o melhor e o pior deste ano por aqui. Melhor coisa que aconteceu: o Espectro e o ir embora foi a pior coisa, a par com a persistência por alguns desses blogs daquele estilo modernaço que consiste em ensanduichar uma observação erudita - e algumas daquelas observações eruditas são-no mesmo, ou pelo menos interessantes - entre alguns palavrões, profissões de fé em futebolismo e uma camada de interjeições «recreio de secundária» tardif para fazer coloquialismo blasé de banlieu.
Cansativo e muito aborrecido.
Noto em mim uma evolução desagradável: até agora, estava bem onde não estava.
Ultimamente, porém, nem isso.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Ah, sim, claro, apoiar gente valente!
(Já me tinha perguntado como teria reagido o regime iraniano àquele protesto corajoso - que me deixou tão reconfortado e optimista).
Falei há dias sobre o processo penal em Inglaterra. Aqui, para quem quiser mais e melhor informação.
O inacreditável é que há quem chegue mesmo a acreditar que o nosso processo penal é mais justo do que o inglês... Problemas graves do nosso ensino do direito e do nosso atraso em geral.
Quanto aos outros defensores do nosso processo penal, menos ingénuos, fazem-me lembrar aqueles médicos que tecem loas ao nosso serviço de saúde e à excelência dos nossos hospitais (pelo menos de parte deles, ou de alguns serviços - a coisa tem diversos graus de sofisticação e é normal começar mesmo por desabafos quase confidênciais sobre o que se passa neste ou naquele serviço ou hospital que, segundo eles são péssimos...) e medicina portuguesa em geral: fica-se quase convencido da bondade da parte sã do sistema, até que, à mínima suspeita de alguma coisa menos corriqueira os sabemos, aos nossos informadores, lá fora, em Inglaterra, ou na Alemanha, em França, em Espanha ou nos USA - tudo menos cá.
"Le principe de toute société est de se rendre justice à soi-même et aux autres. Si l'on doit aimer son prochain comme soi-même, il est au moins aussi juste de s'aimer comme son prochain."

Chamfort

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Fiquei em casa, li e dei uma volta pelos blogs. No Morel encontrei a entrevista com Miguel Esteves Cardoso. Ri-me com a questão da idade: o tom leve com que trata o peso do tempo faz da idade, melhor, da velhice, uma questão inteiramente para gente nova. Ri, mas acho perigoso: não estou interessado em sofrer a competição de hordas de adolescentes nas lamentações próprias da velhice que já quase começo a prezar e ajudam a gente a esquecer-se que coisa medonha é envelhecer, toda ela desvantagens e vexames! Miguel Esteves Cardoso, passado o estado de graça da convalescença da sua doença, perceberá que não está mais sábio, que essa piedosa mentira é, também, uma torpe mentira de gosto duvidoso, do quilate da dos saberes do povo simples. Todas as pessoas com alguma experência nesta coisa dos entas com quem tenho falado me confidenciaram que não se sentem mais sábias, nem mais felizes; pelo contrário, sentem-se mal, com dores de costas, problemas de visão, pouca paciência e frequentes ataques de pânico o que as ajuda a conservarem intactos o péssimo feitio e impecável bom gosto que sempre lhes conheci. É nelas que eu acredito, não no parvenu que, nestas coisas de idade, é Miguel Esteves Cardoso. A baby, digo eu - e sou mais novo.
Sem anginas, afinal.
Tarde soalheira. Hesito entre sair ou ficar a ler e sair só à noite, um pacato ir tomar café a casa de amigos.

O sol escondeu-se agora, o tempo mudou como previram os metereologistas.
Espilros, uma impressão na garganta, sem febre - mas o que significa não ter febre senão o poder escrever, daqui a pouco e referindo-me a este post: não tinha ainda febre, mesmo com acessos de espilros e a sentir já a garganta quando escrevi.
Estou a ficar com anginas, uma coisa já de outros tempos - a gente de agora tem amigdalites. Em compensação, o médico já não vem a casa e se viesse não esperaria encontrar à sua espera uma colher, embrulhada num guardanapo, num prato de sobremesa, no tabuleiro, tudo higiénico e branco. Servia a colher como espátula para observar a garganta suspeita.
Sem tudo isto, para quê ter anginas? Não posso deixar de me censurar este meu gosto pelo vão.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Convalesço das festividades no silêncio quase perfeito deste depois de almoço.
Ontem, às pantomimas das crianças e adolescentes, responderam os adultos com a recriação da marcha do Rataplã na capoeira, usada no jardim-escola onde todos andámos. Não me saí mal, mas senti-me um pouco acabrunhado por ser o único a já não se lembrar de toda a letra. Depois de "à frente o galo" e "atrás a galinha" vinham os pintaínhos, sim, mas exactamente como? E o que se seguia? Confesso que trautreei atabalhoadamente algumas partes, mas desfilei, no meu lugar de 1º pintaínho, convicto e alegre pelas salas graves da histórica morada, como se escrevia em linguagem de guia turístico de antanho. Ouviram-se bravos e encores, alguns oriundos do sector mais circunspecto, e a justeza do reconhecimento do mérito artístico não deixou de ser tocante.

sábado, dezembro 23, 2006

A todos, muito pensadamente, um
Santo Natal do Menino Jesus!

Eu vivo aqui neste campo calmo, mas não descansado, à espera que estou sempre de receber uma carta do teor daquela que Casais Monteiro recebeu anos atrás de Fernando Pessoa e na qual JPP me dirá quem eu sou, onde nasci, o meu horóscopo, que pais e família me atribuiu e porquê, os meus defeitos de redacção, os meus vícios de raciocínio e limites que me contêm, ou o porquê do meu gosto pelo tempo frio; enfim e para abreviar, em que me explicará que, heterónimo dele eu e os outros todos somos, dos muito conseguidos aos que são meros apontamentos, aos brevíssimos esboços delineados em dois posts indecisos; em que me advertirá de que as minhas birras e algumas convicções, que me são, por vezes, tão duramente inexplicáveis, são discutíveis apenas enquanto meros recursos narrativos que afinal são; que, em suma, bloggers portugueses e alguns lá de fora, todos somos ele, nascidos de diferentes horas dos seus dias ou alturas da semana ou do mês, da posição em que se encontre, de onde se encoste para tomar uma nota, do que tenha acabado de ler, ou da necessidade de ilustrar um ponto mais difícil de um raciocínio.
Um dia receberei essa carta desagradável que, explicando tanto, explicará afinal a latere e pouco...
Uma coisa lhe agradeço, porém, desde já: que me tenha criado como um dos preferidíssimos de Charlotte, em tão boa companhia de tantos outros poucos happy few (s)eus.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Desilusão e previlégio

A desilusão veio de onde menos esperava: do Dr. Sousa Homem, lui-même, que deu para achar o nosso clima magnânimo!!!!... Está um frio de rachar, o quarto, quando acordei , estava frio apesar do aquecimento, a água do meu duche apenas tenuamente acima do morno e como houve esquecimento no aquecer do prato, tudo adquiriu um sabor gélido e hostil ao almoço. E de todo o lado ouvi queixumes semelhantes. Fica a gente a pensar no desnorte que por aí vai no uso dos adjectivos por quem tem obrigação de os não usar malevolamente.

A boa notícia - o previlégio - é que, tendo uns amigos meus ido para as suas terras beirãs passar o Natal, posso usar a minha colónia difícil que insistem, por ignorância pituitária, em achar com o aroma desagradável do mofo... Acabo por não usar, por me impedir de passar lá por casa (são os meus amigos geograficamente mais próximos) sem ouvir dichotes e protestos da dona da casa.
Pu-la hoje, abundantemente, para me compensar das agruras do duche, e têm-me ajudado a suportar o frio magnânimo - que, daqui a pouco tempo, se há-de transformar em ventania magnânima e, depois, em caloraça sahárica magnânima.
...e I de Ipswich

Depois de um mês e três semanas há um acusado no caso dos homicídios de Ipswich.
Vejamos como se passam lá as coisas: crime, investigação pela policia, detenção do suspeito (mas nem sempre é feita essa detenção) e, concluída a investigaçao, tudo desemboca na acusação.
Não há - leia-se cuidadosamente - não há, repete-se, "segredo de justiça" , como existe aqui, nem, aliás, nada de semelhante e entre a detenção pela polícia e a acusação não podem mediar mais do que 3 dias - sem certeza absoluta quanto a este prazo.
E aqui? Em Portugal, o arguido pode estar preso um ano sem ser acusado de crime algum e era entendimento e prática dos tribunais portugueses, até há 2 anos, o permitir estar o arguido preso esse ano sem saber porquê - situação que só cessou graças a um acórdão do Tribunal Constitucional proferido no âmbito do processo Casa Pia. Mas, apesar desse avanço, no nosso país pode-se ser preso antes do começo de qualquer actividade que se assemelhe a uma verdadeira investigação criminal...
Quanto ao Ministério Público quase não existe na Grã-Bretanha: a acusação é dirigida, na audiência, pelos advogados da Coroa, que recebem o caso da polícia e agem em igualdade com a defesa perante o Tribunal.
Compare-se com o que sucede cá.
Edificante, não é?