domingo, fevereiro 11, 2007

Voltei agora de votar. No referendo de 1998, encontrei ao entrar duas Irmãs Dororeias que, decerto, disseram não. Desta vez, quase no mesmo sítio, encontrei duas meninas que poucas vezes o terão dito.

sábado, fevereiro 10, 2007

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

JPP vem alertar e prevenir as massas - sempre, sempre, ignorantes, sempre a precisarem de esclarecimentos, de quem as ilumine, de quem lhes aclare o sentido de um texto, de quem, em suma, lhes indique o caminho - sobre o artigo do «Avante!» do longínquo ano de 1937.
Lê-se nesse artigo - conforme texto no Office Lounge, via Insurgente que "o aborto é um acto inteiramente anormal e perigoso".
Não vejo, contudo, no resto do artigo - onde se escancara a porta ao relativismo - qualquer argumento no sentido de relativizar a afirmação sobre a anormalidade do aborto mas, apenas, a admissão de causas sociais e económicas que excluiriam a sua ilicitude.
Isto é, nada há que afaste ou diminua o aborto como acto anormal - sem aspas, que se trata de afirmação do «Avante!», onde o que é normal tinha - tem - necessariamente, o sentido da história.
Medite-se sem simplicidades.


Protestos em bairros sociais do Porto
Moradores contra aumentos das rendas


Não admira... Portugal deve ser o único país - arrisco escrever do mundo - em que as rendas sociais sobem bastante mais do que as da habitação normal. Um inquilino de um apartamento dos anos 40 da Rua Castilho - daqueles com 14 divisões - e que o tenha herdado antes de 80 - tem um aumento de 3% contra os 10% ou 20% - mas que podem ser 150% ou 200% - da habitação social... (e o valor da renda em si também tem enormíssimas probabilidades de ser inferior à renda de um apartamento num bairro social do Porto).

O interessante é pensar bem nos motivos que favorecem estas nossas originalidades. Estão relacionados com o subdesenvolvimento, está bem, está bem, mas pensem bem, reflictam. É ainda mais do que isso.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Sobre os novos humoristas: lia tanto encómio que resolvi ver. E pasmei: os momentos mais felizes contêm-se, em qualidade de texto e representação, no expectável de uma récita de finalistas do 11º ano de qualquer* escola secundária que decalcasse - desleixadamente - alguma britcom.
E era sobre aquilo que se escrevia, se pronunciava a palavra génio?
Houve tempo que Portugal era um país de província. Creio que se tornou num país de arrebalde, pior, de subúrbio, um pais póvoa-de-santa-iria**.
Mas estará tudo doido?
Ou terei eu tido uma congestão e ninguém me disse nada?

* ou de uma das melhorzinhas
** com todo o respeito pelos habitantes da laboriosa povoação, etc.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

(Creio que, em Portugal, depois da questão do aborto acabará por vir à tona a da "legislação" sobre a adopção de crianças por homossexuais.
Creio que não é necessária qualquer legislação ou permissão ou proibição: o que norteia a questão é o superior interesse da criança - e não o dos adoptantes - e parece-me pacífico que ter uma mãe e um pai, que poder chamar mãe a uma mãe e pai a um pai, está mais perto do superior interesse da criança do que qualquer outra situação. E há milhares de casais nessa situação à espera de poderem adoptar uma criança.)
O Conselho Superior de Magistratura abriu um inquérito ao Juiz Desembargador Dr. Rui Rangel por este ter considerado a decisão aplicada no caso de Torrres Novas "cega brutalmente injusta e desproporcional", violando assim, eventualmente, o dever de reserva.
Bem... cega, a justiça deve ser... Mas quanto ao resto, se tivesse afirmado ser a decisão brutalmente justa e proporcionadíssima também seria alvo de um inquérito disciplinar? É que o dever de reserva seria sempre violado, dissesse o que dissesse. E tantos outros magistrados se pronunciaram sobre o caso...
Antes de adormecer - ainda há pouco! - tinha passado por aqui e aqui (Dupond & Dupont?) e agora acordo estremunhado a) sem saber se Mme. de Grignan era, também, jansenista, o que não deixa de me aborrecer por não saber onde pus as Cartas; b) contente com a justeza da observação de Nancy Mitford numa carta a Waugh sobre a tristeza do narrador em Brideshead que, julgo, me dá razão quando penso que o livro está às avessas; c) a perguntar-me se será o chocolate quente que me provoca estes pesadelos com os jardins de Sissinghurst (que tomo por um roman à clé que adormeço a ler).
Tenho de substituir o chocolate por chá de tília. Ou hibernar, se hibernar for actividade isenta de maus sonhos.

Rembrandt, Paisagem tempestuosa
Chega-me notícia que o Dr. Constâncio se sente de facto incomodado com o valor tão elevado do seu ordenado. Ainda bem. E como ninguém é obrigado a receber o que não quer, falta apenas agir em conformidade. Poderá, por exemplo, ganhar apenas o que ganha o seu colega norte-americano.
Estou em crer, aliás, que já terá tratado do assunto e que apenas por modéstia não publicitou que o fez.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Para os mercados accionistas e financeiros do mundo inteiro, a notícia relevante do dia económico será o discurso de Ben Bernanke, de onde poderão sair algumas indicações sobre a evolução das taxas de juro do dólar.

Quem é Ben Bernanke? É o director do FED, o equivalente norte-americano de um banco central. Do Banco de Portugal, por exemplo. Às mais óbvias diferenças - não nos esqueçamos que hoje grande parte das atribuições do Banco de Portugal passaram para o Banco Central Europeu - acresce uma outra que já disse uma vez neste blog, por ter sido uma notícia que verdadeiramente me chocou e emparveceu: Ben Bernanke tem um ordenado inferior (em termos absolutos e relativos) ao Dr. Constâncio.
Isto não é uma denúncia populista, é notar a absoluta falta de escrúpulos - e a absoluta impunidade - com que o erário público português é assaltado para alimento deste devorismo. É notar, também, o que é espírito de serviço público nos Estados Unidos e aqui, e isso já é um problema maior, não um fait divers a alimentar indignações popularuchas. Espírito de serviço público e de controlo. Pelo que pude apurar, foram os próprios administradores do Banco de Portugal que se atribuíram tais ordenados. Ao invés, nos Estados Unidos os ordenados de grande parte dos alto funcionários são fixados pelo Congresso e não duvido que aqui se terá que caminhar para uma solução idêntica.
Entretanto, eu gostava de ouvir uma resposta. Não haverá ninguém que pergunte, pausadamente, educadamente, ao Dr. Constâncio se ele não tem vergonha do que ganha, se não sente pejo, se não se sente mal?
Tamino:

Zu Hülfe! zu Hülfe!
Sonst bin ich verloren!
Zu Hülfe! Zu Hülfe!
Sonst bin ich verloren!
Der listigen Schlange zum Opfer erkoren,
Barmherzigige Götter!
Schon nahet sie sich,
Schon nahet sie sich,
Ach, rettet mich, ach! rettet, rettet, schützet mich!
Ach schützet, schützet, rettet, rettet mich!
Rettet, schützet mich!

Die Zauberflöte

sábado, fevereiro 03, 2007

Por aqui, subdesenvolvimento e ignorância:

A política criminal nada tem a ver com a ética? A politica latu sensu nada tem a ver com a ética? A política é uma disciplina da ética!

Entretanto, na verde Suiça,

O Tribunal Federal da Suíça abriu a possibilidade de pessoas com graves doenças mentais serem ajudadas por médicos a porem termo à vida, conquanto tenha indeferido, em concreto, o pedido que deu origem à sentença.

Aqui e lá, a cultura da morte. Lembro-me de achar exagerado o termo quando o ouvi pela primeira vez dito por João Paulo II. Creio que apenas agora começo a perceber bem toda a extensão do problema, o perigo de que, enquanto civilização, abdiquemos a vida: tal como Jacinto, palpamos a caveira e respondemos ao tédio com o macabro - nem sequer já o macabro que dança - e exige de nós o conhecimento dos passos (ou do jogo) - mas outro, de imitação, que já não interroga, nada pede, que cultua uma morte de onde estaremos, afinal, ausentes, passivos, a morte manipulada, a morte bem-estar, a morte-spa.
A pretexto do referendo, uma imensa boçalidade impregna muitos blogs.
Gosto de uma boa bulha mas esta falta de modos - e de tolerância e de respeito e de... - está a passar os limites do suportável.
Voto no Não - fica dito mais uma vez - mas, dado que não tenho nada a dizer que por outros não seja mais bem dito, creio que não será um egoísmo se me dedicar a outros assuntos.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Charlotte transcreve o artigo de Vasco Pulido Valente sobre o referendo do aborto.
Poderia ser, e com poucos mutatis mutandis, um artigo sobre um referendo da pena de morte.
E eu votaria, de igual modo, não.

No Da literatura transcreve-se outro artigo, este de Ana Cristina Leonardo que, por sua vez transcreve um texto de um filósofo português, Pedro Madeira: «[...] é, de qualquer modo, falso que, se um ser tem potencialmente um direito, então tem, efectivamente, esse direito. Enquanto cidadão português, sou potencialmente presidente da República; o presidente da República é o Comandante Supremo das Forças Armadas; no entanto, daí não se segue que eu seja agora o Comandante Supremo das Forças Armadas»
Sim, mas... depende da natureza do direito. Aquele de que se fala no texto -a eleição -, desde logo exige o assentimento e colaboração de terceiros (assentimento e colaboração que, se não forem dados, não coarctam qualquer direito).
Já outros há que não dependem senão do decurso do tempo: a maioridade, por exemplo - e o direito regula os direitos do menor enquanto tal e os do menor enquanto futuro maior (regras para administrar o seu património, direito a saber como foram administrados bens que haja adquirido - por via de heranças, por exemplo).
Há direitos concedidos enquanto ainda se não é, para quando se for...
O direito conhece o tempo e as transformações que sofremos nele.
Sobre potencialidades.*

* Modifiquei este post, para correcção de vários lapsos e ideias (menos ideias do que lapsos)...
No Blog do Não

Para além das banalidades:

«Mais: o “autonomismo” tem-se reflectido também na compreensão
da vida intra-uterina: sendo desejada a gravidez, fala-se de bebé; caso
contrário, recusa-se a expressão e, no limite e nos primeiros tempos, diz-se que
não passa de um agregado de células. Como se a objectividade do estatuto,
ainda que conflitual na esfera pública, pudesse depender da pura subjectividade.
Estamos, pois, numa “sociedade de vivência(s)”[...], em que o horizonte tradicional
de procura de fundamentantes razões é abandonado, numa “idade de
incerteza”»
, pg. 14

e ainda (op. cit., loc. cit):


Como assinala Francesco D’Agostino [...], não raro assiste-se a uma
“redução” de uma questão ética a psicológica, tratando o aborto em termos de
uma “dinâmica auto-referencial” e não numa “dinâmica relacional”[...]. Esta última,
verdadeiramente, capta o essencial do problema: a existência de um outro,
ou seja, do filho, cuja vida se deve respeitar. O eixo é, pois, o da relacionalidade [...]
e o da alteridade, devendo recusar-se o poder fáustico e o império da
vontade, advogados pelo “autonomismo
”.

Prof. João Loureiro, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Ontem, o acólito lembrou os fiéis, principalmente as fiéis, que hoje era dia de Nossa Senhora das Candeias. A origem desta festa é uma procissão pagã, romana, em honra de Ceres chorosa pelo sequestro de Proserpina, com vestais e matronas compadecidas e archotes.

Encontrei no google ditados metereológicos:
- Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir.
- Se a Senhora das Candeias chora, está o inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o inverno meio dentro e meio fora.
Aqui está bom tempo, a invernia vem aí.
Colóquios em obras

- Era preciso aqui uma coisa, assim aquilo lá de baixo já passava e depois era só pôr aqui um igual, mas isso já se arranjava com aquele que ali está, se não fosse aquilo.
- Uma coisa dessas, mas sem ser de metal por causa daquilo. O que estava ainda era a que tinha vindo?
- Acho que sim.
- Só se aproveitasse uma daquelas ali, como aquela para aqui, era só desbastá-la e era capaz de já passar.
- E ali não faz falta?
- Aguenta-se bem.
- É pena é já não haver com os tais três e meio.
- Deve haver, haver deve haver. Há aquelas, iguais às das lá de cima mas têm aquelas coisas de lado, não entram, senão adaptava-se aqui.
- Aposto que na América há.
- O pior é o nome. Como é que eles chamam a isto lá?
- Não sei, mas explicava.
- E na Rua da Prata?
- Talvez, mas não acredito. Isto era ver se na América ainda fabricam, mesmo que já não sejam bem bem iguais.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

1º de Fevereiro de 1908

São já 99 os anos que passam sobre o assassinato d'El-Rei Dom Carlos I e do Príncipe Dom Luís Filipe.
É um dia de luto para os monárquicos portugueses e deveria ser, ao menos, de meditação para todos os outros: foi em nome de uma ilusão absurda, criminosamente cultivada, que caíram, sacrificados, El-Rei e o Príncipe Real. O sangue desse crime continua, hoje ainda, sobre nós e os frutos dessa ignomínia são esta vil, apagada tristeza que, sem grandeza, não é trágica; que nem sequer é ridícula: é este apagado não ser.