No Blog do Não
Para além das banalidades:
«Mais: o “autonomismo” tem-se reflectido também na compreensão
da vida intra-uterina: sendo desejada a gravidez, fala-se de bebé; caso
contrário, recusa-se a expressão e, no limite e nos primeiros tempos, diz-se que
não passa de um agregado de células. Como se a objectividade do estatuto,
ainda que conflitual na esfera pública, pudesse depender da pura subjectividade.
Estamos, pois, numa “sociedade de vivência(s)”[...], em que o horizonte tradicional
de procura de fundamentantes razões é abandonado, numa “idade de
incerteza”» , pg. 14
e ainda (op. cit., loc. cit):
Como assinala Francesco D’Agostino [...], não raro assiste-se a uma
“redução” de uma questão ética a psicológica, tratando o aborto em termos de
uma “dinâmica auto-referencial” e não numa “dinâmica relacional”[...]. Esta última,
verdadeiramente, capta o essencial do problema: a existência de um outro,
ou seja, do filho, cuja vida se deve respeitar. O eixo é, pois, o da relacionalidade [...]
e o da alteridade, devendo recusar-se o poder fáustico e o império da
vontade, advogados pelo “autonomismo”.
Prof. João Loureiro, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
sexta-feira, fevereiro 02, 2007
Ontem, o acólito lembrou os fiéis, principalmente as fiéis, que hoje era dia de Nossa Senhora das Candeias. A origem desta festa é uma procissão pagã, romana, em honra de Ceres chorosa pelo sequestro de Proserpina, com vestais e matronas compadecidas e archotes.
Encontrei no google ditados metereológicos:
- Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir.
- Se a Senhora das Candeias chora, está o inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o inverno meio dentro e meio fora.
Aqui está bom tempo, a invernia vem aí.
Encontrei no google ditados metereológicos:
- Se a Senhora das Candeias rir, está o inverno para vir.
- Se a Senhora das Candeias chora, está o inverno fora.
- Se a Senhora das Candeias ri e chora, está o inverno meio dentro e meio fora.
Aqui está bom tempo, a invernia vem aí.
Colóquios em obras
- Era preciso aqui uma coisa, assim aquilo lá de baixo já passava e depois era só pôr aqui um igual, mas isso já se arranjava com aquele que ali está, se não fosse aquilo.
- Uma coisa dessas, mas sem ser de metal por causa daquilo. O que estava ainda era a que tinha vindo?
- Acho que sim.
- Só se aproveitasse uma daquelas ali, como aquela para aqui, era só desbastá-la e era capaz de já passar.
- E ali não faz falta?
- Aguenta-se bem.
- É pena é já não haver com os tais três e meio.
- Deve haver, haver deve haver. Há aquelas, iguais às das lá de cima mas têm aquelas coisas de lado, não entram, senão adaptava-se aqui.
- Aposto que na América há.
- O pior é o nome. Como é que eles chamam a isto lá?
- Não sei, mas explicava.
- E na Rua da Prata?
- Talvez, mas não acredito. Isto era ver se na América ainda fabricam, mesmo que já não sejam bem bem iguais.
- Era preciso aqui uma coisa, assim aquilo lá de baixo já passava e depois era só pôr aqui um igual, mas isso já se arranjava com aquele que ali está, se não fosse aquilo.
- Uma coisa dessas, mas sem ser de metal por causa daquilo. O que estava ainda era a que tinha vindo?
- Acho que sim.
- Só se aproveitasse uma daquelas ali, como aquela para aqui, era só desbastá-la e era capaz de já passar.
- E ali não faz falta?
- Aguenta-se bem.
- É pena é já não haver com os tais três e meio.
- Deve haver, haver deve haver. Há aquelas, iguais às das lá de cima mas têm aquelas coisas de lado, não entram, senão adaptava-se aqui.
- Aposto que na América há.
- O pior é o nome. Como é que eles chamam a isto lá?
- Não sei, mas explicava.
- E na Rua da Prata?
- Talvez, mas não acredito. Isto era ver se na América ainda fabricam, mesmo que já não sejam bem bem iguais.
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
1º de Fevereiro de 1908
São já 99 os anos que passam sobre o assassinato d'El-Rei Dom Carlos I e do Príncipe Dom Luís Filipe.
É um dia de luto para os monárquicos portugueses e deveria ser, ao menos, de meditação para todos os outros: foi em nome de uma ilusão absurda, criminosamente cultivada, que caíram, sacrificados, El-Rei e o Príncipe Real. O sangue desse crime continua, hoje ainda, sobre nós e os frutos dessa ignomínia são esta vil, apagada tristeza que, sem grandeza, não é trágica; que nem sequer é ridícula: é este apagado não ser.
São já 99 os anos que passam sobre o assassinato d'El-Rei Dom Carlos I e do Príncipe Dom Luís Filipe.
É um dia de luto para os monárquicos portugueses e deveria ser, ao menos, de meditação para todos os outros: foi em nome de uma ilusão absurda, criminosamente cultivada, que caíram, sacrificados, El-Rei e o Príncipe Real. O sangue desse crime continua, hoje ainda, sobre nós e os frutos dessa ignomínia são esta vil, apagada tristeza que, sem grandeza, não é trágica; que nem sequer é ridícula: é este apagado não ser.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
Parece-me que há um erro no que diz, um grande erro: não seríamos todos nós, cidadãos comuns, quem estaria sujeito à inversão do ónus da prova, mas quem, e apenas quem, exercesse cargos públicos. Será um dos ossos do ofício da coisa pública, como já acontece no Reino Unido, a pátria do rule of the law que invoca para rejeitar a proposta. Referiu-se a esse regime britânico o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa - que não esqueceu que, a apontar no mesmo sentido, existe já uma directiva comunitária.
Coisas enternecedoras - e todas elas vindas de Paris!
Os RG, Renseignements Généraux, os serviços de informações gerais (as alegrias que a república francesa me dá são infindáveis!) teriam recebido ordens para investigar o património imobiliário de Madame Royal, a candidata socialista ao trono do Eliseu. Teriam sido as informações destes amáveis serviços que forçaram a candidata socialista a declarar que sim, que pagava imposto sobre a fortuna (é coisa que nunca deixa de me espantar, a aptidão dos socialistas para fazerem fortuna e, acima de tudo, o conservarem-na com tanto empenho e eficácia).
A outra notícia que veio da repúblique da Gália foi a do uso de testes de ADN em alguns suspeitos habituais para determinar quem, há dias, tinha roubado a lambretta do filho do ministro de la république, Sarkozy. Uma diligência que faz ternura, de facto: é a fraternité aplicada ao rebento ministerial, com algum esquecimento da égalité, já que parece nunca ter sido usado método tão científico para detectar os autores dos outros milhares de roubos de duas rodas. A notícia não especificava se os acusados tinham ficado em liberté.
Os RG, Renseignements Généraux, os serviços de informações gerais (as alegrias que a república francesa me dá são infindáveis!) teriam recebido ordens para investigar o património imobiliário de Madame Royal, a candidata socialista ao trono do Eliseu. Teriam sido as informações destes amáveis serviços que forçaram a candidata socialista a declarar que sim, que pagava imposto sobre a fortuna (é coisa que nunca deixa de me espantar, a aptidão dos socialistas para fazerem fortuna e, acima de tudo, o conservarem-na com tanto empenho e eficácia).
A outra notícia que veio da repúblique da Gália foi a do uso de testes de ADN em alguns suspeitos habituais para determinar quem, há dias, tinha roubado a lambretta do filho do ministro de la république, Sarkozy. Uma diligência que faz ternura, de facto: é a fraternité aplicada ao rebento ministerial, com algum esquecimento da égalité, já que parece nunca ter sido usado método tão científico para detectar os autores dos outros milhares de roubos de duas rodas. A notícia não especificava se os acusados tinham ficado em liberté.
terça-feira, janeiro 30, 2007
segunda-feira, janeiro 29, 2007

Depois de saber tudo sobre Masson, descobri ontem que Miss Pearls era bibliotecária. Percebi o porquê de um blog aparentemente tão - uhm, como dizer? - sensato e recatado, emanar uma carga erótica tão... tão intensa, tão Cancioneiro Geral, uma licenciosidade delicada e perturbantemente gótico-manuelina. Fiquei a saber, mas ainda não me recompus verdadeiramente.
Em labirintos e arabescos repousava de alguns rectos intentos a que, por falta de engenho, não alcancei furtar-me, quando vi que aqui se publicava o nome do autor deste blog. Fui numa carreira ao google ver quem era. Lá estava: MARTINS, JOSÉ - Nasceu em meados do século passado [séc. XIX], em Patos, segundo informa Átila Almeida.
Tal como supusera, mais coisa menos coisa.
Curiosidade satisfeita, volto para onde estava.
Tal como supusera, mais coisa menos coisa.
Curiosidade satisfeita, volto para onde estava.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Esta minha assiduidade aqui, no blog, radica, creio, no medo de existir que, segundo José Gil, compartilho com os demais portugueses: não quero que o meu algum cansaço do Impensável se inscreva, fique registado pela omissão, e obrigo-me a escrever ainda mais um post.
Vou ter de combater esta compulsão timorata.
Vou ter de combater esta compulsão timorata.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
O que mais gostei hoje nos blogs:
"(...) alguém que tão abnegadamente se eregeu em ombudsman blogosférico da imprensa (...)"
Eregeu é um achado. Significará, creio, erigir perto ou nas costas do mar Egeu, ou, fig: erigir argumentos, argumentar com os métodos dos sofistas das proximidades do Egeu.
P.S. Mesquinho? Seja, mas tenho para mim que o eregeu não é lapso.
"(...) alguém que tão abnegadamente se eregeu em ombudsman blogosférico da imprensa (...)"
Eregeu é um achado. Significará, creio, erigir perto ou nas costas do mar Egeu, ou, fig: erigir argumentos, argumentar com os métodos dos sofistas das proximidades do Egeu.
P.S. Mesquinho? Seja, mas tenho para mim que o eregeu não é lapso.
domingo, janeiro 21, 2007
Cheguei há 10 minutos do depois de jantar em casa de amigos. Noite muito divertida, estive com gente que não via há muito e que gostei de rever.
O poema em que tinha pensado para hoje era o Neutral Tones do Thomas Hardy, apenas por falar de dias de inverno. Gosto muito da terrífica terceira estrofe.
NEUTRAL TONES
We stood by a pond that winter day,
And the sun was white, as though chidden of God,
And a few leaves lay on the starving sod,
-They had fallen from an ash, and were gray.
Your eyes on me were as eyes that rove
Over tedious riddles solved years ago;
And some words played between us to and fro -
On which lost the more by our love.
The smile on your mouth was the deadest thing
Alive enough to have strength to die;
And a grin of bitterness swept thereby
Like an ominous bird a-wing….
Since then, keen lessons that love deceives,
And wrings with wrong, have shaped to me
Your face, and the God-curst sun, and a tree,
And a pond edged with grayish leaves.
O poema em que tinha pensado para hoje era o Neutral Tones do Thomas Hardy, apenas por falar de dias de inverno. Gosto muito da terrífica terceira estrofe.
NEUTRAL TONES
We stood by a pond that winter day,
And the sun was white, as though chidden of God,
And a few leaves lay on the starving sod,
-They had fallen from an ash, and were gray.
Your eyes on me were as eyes that rove
Over tedious riddles solved years ago;
And some words played between us to and fro -
On which lost the more by our love.
The smile on your mouth was the deadest thing
Alive enough to have strength to die;
And a grin of bitterness swept thereby
Like an ominous bird a-wing….
Since then, keen lessons that love deceives,
And wrings with wrong, have shaped to me
Your face, and the God-curst sun, and a tree,
And a pond edged with grayish leaves.
sábado, janeiro 20, 2007
A Associação Sindical [sic] de Juízes Portugueses elaborou, a propósito do caso de Torres Novas, um comunicado tão inexplicável quanto ela própria.
Chamou-me nele a atenção esta frase, logo no início - não, não é sobre o problema da "legitimação" embora seja suculento - mas refiro-me ao esclarecimento sobre a admissibilidade de critica:
« Numa sociedade democrática e plural, tendo em conta que a transparência e a crítica são valores inerentes à legitimação democrática dos tribunais, é admissível que as decisões judiciais sejam sujeitas ao escrutínio dos cidadãos, assumindo aí a comunicação social uma função importante. »
É só para dizer que numa democracia não é apenas admissível o escrutínio, pelos cidadãos, das decisões judicias mas absolutamente imprescindível.
Afinal, não são eles o Povo em nome do qual se administra Justiça?
Ou o Povo será, meramente, a entidade patronal?
Chamou-me nele a atenção esta frase, logo no início - não, não é sobre o problema da "legitimação" embora seja suculento - mas refiro-me ao esclarecimento sobre a admissibilidade de critica:
« Numa sociedade democrática e plural, tendo em conta que a transparência e a crítica são valores inerentes à legitimação democrática dos tribunais, é admissível que as decisões judiciais sejam sujeitas ao escrutínio dos cidadãos, assumindo aí a comunicação social uma função importante. »
É só para dizer que numa democracia não é apenas admissível o escrutínio, pelos cidadãos, das decisões judicias mas absolutamente imprescindível.
Afinal, não são eles o Povo em nome do qual se administra Justiça?
Ou o Povo será, meramente, a entidade patronal?
Foi no Bomba que li o artigo de VPV sobre o referendo. Concordo com muita coisa ( ou não fora ele um dos meus maîtres à penser), mas não partilho o medo de que o referendo enfraqueça a representação. VPV sabe bem o que é a representação em Portugal e disse-no-lo elequentemente depois de ter renunciado ao mandato. Ao que lhe foi concedido para nos representar - antes, creio, de ter havido qualquer referendo.
Se não considerasse que a vida humana começa na concepção e que é, em si, um valor absoluto, teria imenso a discutir e a ponderar. Pensando como penso, resta-me aborrecer e votar "não" - aquilo em que acredito não é discutível.
Quem parece que também votaria não - se considerasse a vida humana absoluta - seria o Dr. House. Os estranhos sintomas de um seu paciente, concebido por inseminação artificial, deviam-se, segundo o seu diagnóstico, a algo que lhe aconteceu quando tinha, quando era 12 células: uma delas foi substituída pela de um outro óvulo, de um gémeo seu. O paciente sofria das consequências do quimerismo.
O que nos acontece quando somos 12 células influencia a nossa vida futura... há entre essa dúzia de células que podem e o que somos muitos anos depois um ininterruptus continuum, uma identidade de destino, de singularidade que nenhum dramático obstáculo, nenhum terrível acontecimento perturba (nem sequer o começo do pulsar desse estranho artefacto onde, quisemos pensar, nasciam os nossos afectos).
Quem parece que também votaria não - se considerasse a vida humana absoluta - seria o Dr. House. Os estranhos sintomas de um seu paciente, concebido por inseminação artificial, deviam-se, segundo o seu diagnóstico, a algo que lhe aconteceu quando tinha, quando era 12 células: uma delas foi substituída pela de um outro óvulo, de um gémeo seu. O paciente sofria das consequências do quimerismo.
O que nos acontece quando somos 12 células influencia a nossa vida futura... há entre essa dúzia de células que podem e o que somos muitos anos depois um ininterruptus continuum, uma identidade de destino, de singularidade que nenhum dramático obstáculo, nenhum terrível acontecimento perturba (nem sequer o começo do pulsar desse estranho artefacto onde, quisemos pensar, nasciam os nossos afectos).
sexta-feira, janeiro 19, 2007
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Episódio de anglofilite não infecciosa: vontade de me meter num avião - ou no velho e decrépito Sud - e ir estar uns dias a Inglaterra, a Londres (books, shirts, some grooming things, colognes) e, depois, a Hastings ou Torquay e voltar aqui, smoothly.
Sei, porém, de antemão, que a preguiça tem a batalha ganha. Tem? Tem. Tem!? Não, mas tem.
Sei, porém, de antemão, que a preguiça tem a batalha ganha. Tem? Tem. Tem!? Não, mas tem.
quarta-feira, janeiro 17, 2007
Tenho de me deixar de noitadas, sejam elas para os mais benfazejos fins: o certo é que já não tenho vinte anos e a alucinação ronda, de perto, muy loca:
According to media reports coming out of Latin America, President Chavez is considering a proposal that would establish him as the high priest of his own form of evangelical Christianity, convert his cabinet members into bishops of a lower rank, and submit church activities to the civil and military power of his government
Logo, depois de almoço, hora de sensatez e bonomia, venho ver se este post e o resto (links, etc) ainda aqui estão. Se, antes de almoço, não tiver lido ou ouvido referência a isto nos telejornais, nos teletextos e nos blogs e este post - incluídas estas reservas - se mantiver aqui, resta-me pegar no telefone e marcar a consulta.
According to media reports coming out of Latin America, President Chavez is considering a proposal that would establish him as the high priest of his own form of evangelical Christianity, convert his cabinet members into bishops of a lower rank, and submit church activities to the civil and military power of his government
Logo, depois de almoço, hora de sensatez e bonomia, venho ver se este post e o resto (links, etc) ainda aqui estão. Se, antes de almoço, não tiver lido ou ouvido referência a isto nos telejornais, nos teletextos e nos blogs e este post - incluídas estas reservas - se mantiver aqui, resta-me pegar no telefone e marcar a consulta.
Enfim, alguém inteligente e sensato: «PGR não tem solução para violação segredo justiça: (...) o Procurador-Geral da República diz que nada pode fazer para acabar com as violações do Segredo de Justiça. (...) Pinto Monteiro, admitiu hoje que "seja qual for a lei", o segredo de Justiça será sempre violado.»
Mas há solução: desde logo acabar com o segredo de justiça, inexistente nas grandes democracias (não confundir com segredo da investigação policial...). Este segredo de justiça que é quase justiça em segredo - e este processo penal - que o pacto está longe de remediar - é um produto de burocratas estatizantes desejosos de uma burocracia estatizante de um tal jaez que deixaria invejoso o mais minucioso funcionário dos Habsburgos - embora a administração austríaca tivesse servido, de facto, para alguma coisa de útil e de bom (evitou guerras e derramamento de sangue) e este segredo para nada sirva.
Mas há solução: desde logo acabar com o segredo de justiça, inexistente nas grandes democracias (não confundir com segredo da investigação policial...). Este segredo de justiça que é quase justiça em segredo - e este processo penal - que o pacto está longe de remediar - é um produto de burocratas estatizantes desejosos de uma burocracia estatizante de um tal jaez que deixaria invejoso o mais minucioso funcionário dos Habsburgos - embora a administração austríaca tivesse servido, de facto, para alguma coisa de útil e de bom (evitou guerras e derramamento de sangue) e este segredo para nada sirva.
terça-feira, janeiro 16, 2007
segunda-feira, janeiro 15, 2007
Que desonestidade, que estupidez é tudo o que rodeia o ridículo concurso dos grandes portugueses! O boçal expediente de não divulgarem o resultado da votação feita, apenas confirma o que toda a gente já sabe: que Salazar ganhou - e muito porque os votantes detestam desonestidades e espertezas saloias. A coisa ganha ainda outra suplementar graça triste: a de ficarmos a saber que os métodos do regime do Prof. Salazar persistem na televisão - e no país... - que o seu regime criou - e que estão longe de morrer.
domingo, janeiro 14, 2007
Sobrevivi aos dois jantares. No ao café do de sexta e a tempo inteiro no de ontem,estava um outro bloguista que, por mais novo, compreendeu que as ditas de cada noite revertiam a meu favor (sim, sou egoísta).
No jantar de sexta ouvi, deliciado, a reprodução de uma conversa com um edil a quem foi explicado, melhor, exigido, que não houvesse alcatroamento ou melhoria de espécie nenhuma nos caminhos de terra até à entrada da quinta. Houve quem explicasse os melhores argumentos a usar contra o gosto pelas benfeitorias dos nossos autarcas e relataram-se casos de sucesso contra algumas arremetidas de boas intenções.
No de ontem - que ainda não agradeci, telefono depois de escrever isto - houve a descrição de uma prova cega de manteigas que terá durado algumas horas.
Com isto, acabei por não ter que gastar as ditas que tinha conseguido encontrar.
No jantar de sexta ouvi, deliciado, a reprodução de uma conversa com um edil a quem foi explicado, melhor, exigido, que não houvesse alcatroamento ou melhoria de espécie nenhuma nos caminhos de terra até à entrada da quinta. Houve quem explicasse os melhores argumentos a usar contra o gosto pelas benfeitorias dos nossos autarcas e relataram-se casos de sucesso contra algumas arremetidas de boas intenções.
No de ontem - que ainda não agradeci, telefono depois de escrever isto - houve a descrição de uma prova cega de manteigas que terá durado algumas horas.
Com isto, acabei por não ter que gastar as ditas que tinha conseguido encontrar.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
Entre 1997 e 2005, foram constituídas arguidas 37 mulheres, tendo havido condenação para 17. No entanto, não é possível distinguir quantas dessas mulheres eram grávidas que deram o seu consentimento ao aborto e quantas foram implicadas por participarem na sua prática (médicas, enfermeiras, parteiras). Também não é possível saber quantos casos são relativos à prática de aborto até às dez semanas e após as dez semanas.
Conviria saber, ainda, se alguma dessas 17 cumpriu efectiva pena de prisão.
Mas enfim, o problema não está aí, já que não se trata de de tirar mulheres da cadeia ou de impedir que para lá vão (que desconhecimento da prática dos tribunais, do mundo real, o dessa gente...), mas de permitir que à panóplia dos meios de contracepção se venha juntar o do aborto livre e sem justificações até às 10 semanas e que comunga do consumismo da nossa sociedade, na caso o consumismo de direitos (e a que se junta o culto neo-realista-rocaille e o retro das esquerdas mais modernas).
Conviria saber, ainda, se alguma dessas 17 cumpriu efectiva pena de prisão.
Mas enfim, o problema não está aí, já que não se trata de de tirar mulheres da cadeia ou de impedir que para lá vão (que desconhecimento da prática dos tribunais, do mundo real, o dessa gente...), mas de permitir que à panóplia dos meios de contracepção se venha juntar o do aborto livre e sem justificações até às 10 semanas e que comunga do consumismo da nossa sociedade, na caso o consumismo de direitos (e a que se junta o culto neo-realista-rocaille e o retro das esquerdas mais modernas).
quinta-feira, janeiro 11, 2007
A discussão à volta do aborto, mormente as reinvindicações dos partidários do sim, tem de chocante a exibição de boas - algumas o são - intenções onde elas deixam de contar: na morte. Assemelham-se aos pedidos para que a pena de morte, um escândalo em si, de per se, possa ser mais humana. Ela é sempre humana, a crueldade é humana e se para os cultores da contabilidade do sofrimento há uma diferença, um ganho sobre a guilhotina no ambiente asséptico de uma sala de injecção letal, para mim, incapaz de entender essas pias preocupações e esses ganhos, condenado a ver - verdadeiramente, condenei-me a ver (ao menos que veja isso) - o derramento de sangue na morte mais exangue e lívida, o escândalo mais cruamente se espraia por estes belos dias de Janeiro, bárbaros, atrozes, muito azuis.
quarta-feira, janeiro 10, 2007
Ele há males que vêm por bem, e os meus achaques catarrais já me afastaram de dois jantares. O bem não reside nesse afastamento em si, numa qualquer erupção de ascese; o bem consiste em me dar tempo para refazer o meu repertório de frases para jantar, na verdade gasto já há dois anos.
E hoje, estava eu nas saias de Elvira depois do lanche, quando a propósito de uma frase de Lourenço sobre o exagero de apoplexias em Eça me lembrei que, tal como Paul Johnson afirma que Picasso não sabia pintar mãos, pode a gente dizer que Eça não sabia matar as personagens. Não será um achado mas não fica mal com um daquelas coisas lugubremente gelatinosas e tièdes que em outras épocas seriam agradáveis chauds-froids.
E hoje, estava eu nas saias de Elvira depois do lanche, quando a propósito de uma frase de Lourenço sobre o exagero de apoplexias em Eça me lembrei que, tal como Paul Johnson afirma que Picasso não sabia pintar mãos, pode a gente dizer que Eça não sabia matar as personagens. Não será um achado mas não fica mal com um daquelas coisas lugubremente gelatinosas e tièdes que em outras épocas seriam agradáveis chauds-froids.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Creio que acontece a todos os passeadores o que sucedeu àquele: de repente, percebeu que não sabia onde estava, nunca tinha estado naquele sítio, que se perdera; sem que desse por isso, desviara-se do caminho; por mais livre que tivesse decidido que iriam ser os seus passos, não era por ali: estranhada a fealdade dos sítios, das casas, cogita que em vão são os dias de quem lá mora (tão longe que estão de tudo) e estuga o passo para voltar.
Que havia anos de já haver sável em Janeiro! Pelo que vi no google, é lá mais para os finais de Fevereiro. Lembro-me de ouvir dizer, todavia. E o que li no google era em rios mais a norte, talvez aqui, mais a sul, chegue mais cedo. Vou ver mais logo se tenho razão e encomendar já para mandar fazer de escabeche, ou daquele outro modo, quase carpaccio, em vinagre - e metia, também, vinho branco? Ou vinho branco e apenas um pouco de vinagre? Depois verei. - Fazia-se cá em casa dos dois modos mas noutros tempos em que não havia esta falta de pessoal, porém, sempre mais habitualmente o de escabeche. Se arranjar um sável decente, bom, mando fazer só de escabeche.
segunda-feira, janeiro 08, 2007
E a primeira alegria maldosa do ano tive-a agora mesmo, por intermédio do Crítico: foi a vaia - parece que monumental - a Saramago no celebérrimo Alla Scala. Alegremente vaiado, diz o Crítico.
Viva a alegria, Bravo! Bis! Bis!
Viva a alegria, Bravo! Bis! Bis!
domingo, janeiro 07, 2007
Da caixa de comentários do Futuro Presente:
«Espero sinceramente que a sua separata da Ética tenha chegado em melhor estado que a minha...
Posted by Je maintiendrai Domingo, Janeiro 07, 2007
A minha, dedicada e enviada pelo autor, chegou em óptimo estado!
Posted by jaime nogueira pinto Domingo, Janeiro 07, 2007 »
As dedicatórias dos autores preservam os livros - ou meras separatas - das brutalidades dos correios, eis uma valiosa lição a retirar do comentário-resposta de JNP àqueloutro, tão solicitamente interesssado, do Je maintiendrai.
Uma fonte de desgostos, estes correios, bem o sei.
«Espero sinceramente que a sua separata da Ética tenha chegado em melhor estado que a minha...
Posted by Je maintiendrai Domingo, Janeiro 07, 2007
A minha, dedicada e enviada pelo autor, chegou em óptimo estado!
Posted by jaime nogueira pinto Domingo, Janeiro 07, 2007 »
As dedicatórias dos autores preservam os livros - ou meras separatas - das brutalidades dos correios, eis uma valiosa lição a retirar do comentário-resposta de JNP àqueloutro, tão solicitamente interesssado, do Je maintiendrai.
Uma fonte de desgostos, estes correios, bem o sei.
Meus caros senhores leitores: aqui e ali, livros obrigatórios, a ler obrigatorimente, até aos menos autoritários a não perder.
Tudo bem intencionado, mas o melhor é fazermos rigorosamente o que nos apetece, como diz Pessoa, que também sabia de livros obrigatórios a ler obrigatoriamente:
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
...........................................
Tudo bem intencionado, mas o melhor é fazermos rigorosamente o que nos apetece, como diz Pessoa, que também sabia de livros obrigatórios a ler obrigatoriamente:
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
...........................................
sábado, janeiro 06, 2007
Há umas coisas que não fazem sentido: o aborto não é sempre um mal? É, todos o dizem, mesmo os partidários do sim: mesmo praticado que seja na melhor clínica, de um acto invasivo e com os riscos inerentes a qualquer acto cirúrgico. E não se gastam, todos os anos, milhões e milhões para encontrar métodos não invasivos que substituam alguns simples exames que representam bem menos perigos para a saúde do que o aborto?... Não percebo! Mesmo para os que crêem que o feto não é ainda vida humana, como é que se pode estar tão interessado em defender o que será sempre um mal, a realização de um acto perigoso e sempre traumático física e psicologicamente... Se me convencessem hoje de que o começo da vida se não dá na concepção, ainda assim eu acharia leviano que se defendesse o recurso ao aborto fora de indicações terapêuticas precisas e indispensáveis para a defesa da saúde das pacientes.
O que acharia normal que houvesse por aí era gente a pedir consultas de planeamento familiar e informação para combater ignorâncias, e toda uma panóplia de meios que não existem ou, se existem, são mal usados. Votei não no referendo anterior, como tenciono fazer agora, mas tenho uma ideia vaga que muito do que foi prometido então faltou. Mas a essas reivindicações sensatas do que falta, mesmo à correcção de práticas existentes, parece ganhar, no campo do sim, e até com algum gosto, a insistência num mal - porque é sempre um mal - e tudo isso nos coloca no campo do contra-intuitivo, da estranheza...
Francamente, não percebo. Ou antes, percebo, mas - em grande parte - como uma questão sobrevivente de outros tempos, um exemplo de uma malsã nostalgia, de celebração de uma desnecessária crueza, a que se sobrepõe uma doentia proposta nova de um hedonismo sem história, feito de um momentâneo de antemão sabidamente infértil.
O que acharia normal que houvesse por aí era gente a pedir consultas de planeamento familiar e informação para combater ignorâncias, e toda uma panóplia de meios que não existem ou, se existem, são mal usados. Votei não no referendo anterior, como tenciono fazer agora, mas tenho uma ideia vaga que muito do que foi prometido então faltou. Mas a essas reivindicações sensatas do que falta, mesmo à correcção de práticas existentes, parece ganhar, no campo do sim, e até com algum gosto, a insistência num mal - porque é sempre um mal - e tudo isso nos coloca no campo do contra-intuitivo, da estranheza...
Francamente, não percebo. Ou antes, percebo, mas - em grande parte - como uma questão sobrevivente de outros tempos, um exemplo de uma malsã nostalgia, de celebração de uma desnecessária crueza, a que se sobrepõe uma doentia proposta nova de um hedonismo sem história, feito de um momentâneo de antemão sabidamente infértil.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
«Quem se arrisca a enterrar dinheiro num país paralítico, com a Espanha e a "Europa" à porta?» pergunta VPV no Público de hoje.
(Eu, muito modestamente e a pensar nos de cá, já tinha lembrando que há fundos de acções estrangeiras ao dispor de qualquer um... de acções de empresas a salvo das ideias do governo luso e da nossa pequenez em geral)
O achado porém, é o país paralítico. Não que seja de uma originalidade ou comicidades estonteantes, não é sequer uma dita ou apodo muito original, mas proferido agora e aqui, em contraponto aos dislates optimistas e esbracejantes do governo, acerta o alvo com a precisão de um dardo inteligente.
País paralítico, país entrevadinho. Define-nos bem.
(Eu, muito modestamente e a pensar nos de cá, já tinha lembrando que há fundos de acções estrangeiras ao dispor de qualquer um... de acções de empresas a salvo das ideias do governo luso e da nossa pequenez em geral)
O achado porém, é o país paralítico. Não que seja de uma originalidade ou comicidades estonteantes, não é sequer uma dita ou apodo muito original, mas proferido agora e aqui, em contraponto aos dislates optimistas e esbracejantes do governo, acerta o alvo com a precisão de um dardo inteligente.
País paralítico, país entrevadinho. Define-nos bem.
"Uma democracia adulta também o é pela forma". Concordo, mas não ouvi eu, atónito como já disse por aqui, o Dr. Sampaio, ainda em funções ou apenas saído delas, dissertar em entrevista, sobre os méritos e deméritos de diversos chefes de estados estrangeiros nossos amigos que tinha conhecido no exercício das suas funções??? Assim o fez e ainda me lembro que considerava como a mais "profissional" a Rainha da Holanda, superior, por isso, à da Dinamarca e...
Mais senhor presidente do que isto...
Mais senhor presidente do que isto...
E lá se foi um post... apagado sem glória.
Já agora, o livro do Judt não é do ano passado. Li-o em Novembro ou Dezembro de 2005. É uma bom livro e lembro-me de o ter defendido perante alguém que me lembrava ser um livro feito a partir de outros, um livro em segunda mão, com pouca ou nenhum trabalho de consulta de arquivos. É um facto que o próprio autor reconhece. Já que parece que aqui está toda a gente a lê-lo agora, lembro isso das fontes, embora o livro seja muitíssimo capaz de cumprir a sua missão de traçar as linhas essenciais da Europa dos últimos 60 anos. Mas, sobre Portugal, por exemplo, não lhes parece que faltam uns nomes lá na bibliografia?
Já agora, o livro do Judt não é do ano passado. Li-o em Novembro ou Dezembro de 2005. É uma bom livro e lembro-me de o ter defendido perante alguém que me lembrava ser um livro feito a partir de outros, um livro em segunda mão, com pouca ou nenhum trabalho de consulta de arquivos. É um facto que o próprio autor reconhece. Já que parece que aqui está toda a gente a lê-lo agora, lembro isso das fontes, embora o livro seja muitíssimo capaz de cumprir a sua missão de traçar as linhas essenciais da Europa dos últimos 60 anos. Mas, sobre Portugal, por exemplo, não lhes parece que faltam uns nomes lá na bibliografia?
quinta-feira, janeiro 04, 2007
Coisas tristes:
O Abrupto resolveu elencar as coisas boas, as más e as péssimas, estas últimas com direito a ícone, um cão de fila pop art em posição de ataque, o que tudo me parece de gosto muito duvidoso, mas enfim... Entre as coisas péssimas JPP põe lado a lado a entidade reguladora para a comunicação social, a política comunicacional governativa e... os "truques na blogosfera portuguesa para incrementar visitas e ligações artificialmente" !!!!
Se não fora a dor de garganta - estou melhorzinho mas não ainda bom - ficaria de boca aberta, não o tempo de uma larga tarde de Verão, como Eça, mas por toda esta soalheira tarde de Inverno. Temendo pela minha garganta, por uma questão de saúde, apenas ri. Com gosto. Muito.
O Abrupto resolveu elencar as coisas boas, as más e as péssimas, estas últimas com direito a ícone, um cão de fila pop art em posição de ataque, o que tudo me parece de gosto muito duvidoso, mas enfim... Entre as coisas péssimas JPP põe lado a lado a entidade reguladora para a comunicação social, a política comunicacional governativa e... os "truques na blogosfera portuguesa para incrementar visitas e ligações artificialmente" !!!!
Se não fora a dor de garganta - estou melhorzinho mas não ainda bom - ficaria de boca aberta, não o tempo de uma larga tarde de Verão, como Eça, mas por toda esta soalheira tarde de Inverno. Temendo pela minha garganta, por uma questão de saúde, apenas ri. Com gosto. Muito.
Nos últimos dias do ano passado suscitou grande alvoroço um parecer de uma associação sindical de juizes sobre o crime de maus tratos previsto no artº 152º do Código Penal por nesse parecer constar que tal crime não está previsto actualmente no que aos casais homossexuais diz respeito, nem o deverá estar, em lei a fazer, pelo menos enquanto extensão da protecção dada aos conjûges. Parece-me sensato e pacífico, se é que ainda sei ler.
(O que a mim faz mais confusão, é a existência de um sindicato ou associação sindical de titulares de órgãos de soberania. É, contudo, uma mera associação particular com o mesmo estatuto que teria uma associação de bloguistas no que à actividade legislativa diz respeito e que pertence, em democracia, ao parlamento e não está dependente dos desejos e entendimentos de entidades privadas.)
Quanto à substância da coisa: o regime que pune os maus tratos aplica-se não apenas a cônjuges ou a quem viva em união de facto, mas a quem se aproveite de relações de proximidade e intimidade domésticas, propícias ao realçar de um ascendente físico, emocional ou económico sobre outrém, para o maltratar e amargurar, contando depois com circunstâncias de inferioridade da vítima para ficar impune: era habitual que as queixas (já em si representando uma magríssima percentagem da totalidade das agressões) fossem, a maior parte das vezes, retiradas. E, por esse motivo, o legislador transformou tais actos em crimes e crimes públicos: não dependem de queixa para ser instaurado o respectivo processo nem o perdão impede aquele de prosseguir. Aqui, como em tudo, há um inconveniente: o de a vítima perder controlo sobre sua intimidade já que tudo pode começar por um telefonema de um vizinho e, por isso, deve-se interpretar este estatuto de crime público como transitório - mas agora necessário - , num país onde a violência dentro de portas é uma triste e grave realidade.
E os homossexuais? Creio que a sua situação caberá em qualquer preceito que, no futuro, venha a proteger quem partilhe o mesmo tecto, ou viva em economia comum, não curando aqui das questões de técnica jurídica a resolver na altura. Escusado é que essa protecção resulte da imitação de uma realidade histórica heterossexual, que seja obtida através do esvazimento das palavras - no caso, cônjuge.
O importante é, afinal, que ninguém sofra e seja humilhado por actos criminosos de quem abusa da sua posição fazendo que haja quem, em sua casa, não tenha abrigo.
(O que a mim faz mais confusão, é a existência de um sindicato ou associação sindical de titulares de órgãos de soberania. É, contudo, uma mera associação particular com o mesmo estatuto que teria uma associação de bloguistas no que à actividade legislativa diz respeito e que pertence, em democracia, ao parlamento e não está dependente dos desejos e entendimentos de entidades privadas.)
Quanto à substância da coisa: o regime que pune os maus tratos aplica-se não apenas a cônjuges ou a quem viva em união de facto, mas a quem se aproveite de relações de proximidade e intimidade domésticas, propícias ao realçar de um ascendente físico, emocional ou económico sobre outrém, para o maltratar e amargurar, contando depois com circunstâncias de inferioridade da vítima para ficar impune: era habitual que as queixas (já em si representando uma magríssima percentagem da totalidade das agressões) fossem, a maior parte das vezes, retiradas. E, por esse motivo, o legislador transformou tais actos em crimes e crimes públicos: não dependem de queixa para ser instaurado o respectivo processo nem o perdão impede aquele de prosseguir. Aqui, como em tudo, há um inconveniente: o de a vítima perder controlo sobre sua intimidade já que tudo pode começar por um telefonema de um vizinho e, por isso, deve-se interpretar este estatuto de crime público como transitório - mas agora necessário - , num país onde a violência dentro de portas é uma triste e grave realidade.
E os homossexuais? Creio que a sua situação caberá em qualquer preceito que, no futuro, venha a proteger quem partilhe o mesmo tecto, ou viva em economia comum, não curando aqui das questões de técnica jurídica a resolver na altura. Escusado é que essa protecção resulte da imitação de uma realidade histórica heterossexual, que seja obtida através do esvazimento das palavras - no caso, cônjuge.
O importante é, afinal, que ninguém sofra e seja humilhado por actos criminosos de quem abusa da sua posição fazendo que haja quem, em sua casa, não tenha abrigo.
quarta-feira, janeiro 03, 2007
"É estar a gente a vê-los, é estar a gente a vê-los"
É assim, assim é, infelizmente.
E não apenas os aí ditos: faltam os sensatos, pessoas que estimamos, que encontramos nas livrarias, pacatos, bem intencionados, discretos, que podem o que nós podemos, mas que também não querem pagar. E têm, de igual modo, empenhos, para vários hospitais em Paris ou Londres (com viagens e subsídio de estada pagas pela segurança social para um acompanhante) ou para o Hospital de Carrazeda de Ansiães, se necessário for.
E são esses, os que têm as mesmas sensatas prioridades que nós temos, são esses, afinal, que complicam tudo.
É assim, assim é, infelizmente.
E não apenas os aí ditos: faltam os sensatos, pessoas que estimamos, que encontramos nas livrarias, pacatos, bem intencionados, discretos, que podem o que nós podemos, mas que também não querem pagar. E têm, de igual modo, empenhos, para vários hospitais em Paris ou Londres (com viagens e subsídio de estada pagas pela segurança social para um acompanhante) ou para o Hospital de Carrazeda de Ansiães, se necessário for.
E são esses, os que têm as mesmas sensatas prioridades que nós temos, são esses, afinal, que complicam tudo.
Estes dias lindos e eu fechado em casa, transformado num iníquo vaso de secreções... Azar.
As constipações e gripes não eram sequer totalmente desagradáveis quando era pequeno, constituíam um bom momento de estudo sobre nós, propiciava os primeiros olhares sobre as entranhas e o nosso mal-estar e os interditos salvíficos geravam mudanças estranhas, o surgir de uma topologia própria: as salas, a casa de jantar adquiriam a natureza e o exotismo de longínquas paragens inacessíveis. Da cozinha e da copa, outro continente, vinham ecos de palavras de uma língua desaprendida e estranha que recaía sobre actos incompreensíveis.
Alguns rituais compensavam-nos dessa distância: o almoço e o jantar na cama, a empregada preferida que vinha contar histórias logo que pudesse, os livros que eram postos na mesinha de cabeceira para nos distraírmos e demais paleolíticas coisas.
Hoje tudo isso é quase já inconcebível.
As constipações e gripes não eram sequer totalmente desagradáveis quando era pequeno, constituíam um bom momento de estudo sobre nós, propiciava os primeiros olhares sobre as entranhas e o nosso mal-estar e os interditos salvíficos geravam mudanças estranhas, o surgir de uma topologia própria: as salas, a casa de jantar adquiriam a natureza e o exotismo de longínquas paragens inacessíveis. Da cozinha e da copa, outro continente, vinham ecos de palavras de uma língua desaprendida e estranha que recaía sobre actos incompreensíveis.
Alguns rituais compensavam-nos dessa distância: o almoço e o jantar na cama, a empregada preferida que vinha contar histórias logo que pudesse, os livros que eram postos na mesinha de cabeceira para nos distraírmos e demais paleolíticas coisas.
Hoje tudo isso é quase já inconcebível.
Um filme que vi em 2006: o Secrets & Lies. O que eu gostei deste filme! É uma elegante alegoria neo-clássica sobre liberdade enquanto questão de óptica, de ajuste da distância de leitura dos trompe d'oeil pouco deleitosos que aparecem lá ao fim das nossas histórias, da nossa história, onde se acumula a sujidade e a patine de pequenas e ternas mentiras - e em que acabamos por nos rever - e das supresas quando olhamos tudo de um outro local -em nós, de outro local em nós. Com humour. Não é de 2006? Eu sei, mas revi em 2006, quero lá saber se não é de 2006.
terça-feira, janeiro 02, 2007
Constipação horrenda, com tosses, alguns arrepios e espilros de uma violência devastadora! Não pude ir ao jantar de Ano Bom - que tanto prezo! - e tive que avisar que não podia ir a um outro, amanhã, em Lisboa. Um espilro assustador e sincero e a minha voz rouquejante convenceram, creio, a anfitriã da minha vera indisponibilidade e sincera pena por não ir já que, desde Wilde, os honestos resfriados, mesmo os mais terríveis - como é o caso - têm uma péssima fama de apressados e desajeitados pretextos: "Jack: Very well, then. My poor brother Ernest is carried off suddenly in Paris, by a severe chill. That gets rid of him."
domingo, dezembro 31, 2006
Não hoje ainda, mas o sol já se pôs e a madrugada será a do dia em que nos dizemos
Começa hoje o ano
Nada começa: tudo continua
Onde 'stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar:
Múrmura, em sombras, flui a água nua.
Vêm de longe,
Só nosso ver teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.
Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade
Precipício de Deus sobre o momento,
Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e vento e pensamento
Fernando Pessoa
in Poesia 1918-1930
Começa hoje o ano
Nada começa: tudo continua
Onde 'stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar:
Múrmura, em sombras, flui a água nua.
Vêm de longe,
Só nosso ver teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.
Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade
Precipício de Deus sobre o momento,
Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e vento e pensamento
Fernando Pessoa
in Poesia 1918-1930
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Tenho preguiça de ir buscar gelo e, por isso, a seco - mas não preciso levantar-me nem martelar o congestionado ice service do frigorífico - resolvi, substituída a bebida de fim de tarde pelo blogar, dizer o que acho foi o melhor e o pior deste ano por aqui. Melhor coisa que aconteceu: o Espectro e o ir embora foi a pior coisa, a par com a persistência por alguns desses blogs daquele estilo modernaço que consiste em ensanduichar uma observação erudita - e algumas daquelas observações eruditas são-no mesmo, ou pelo menos interessantes - entre alguns palavrões, profissões de fé em futebolismo e uma camada de interjeições «recreio de secundária» tardif para fazer coloquialismo blasé de banlieu.
Cansativo e muito aborrecido.
Cansativo e muito aborrecido.
quinta-feira, dezembro 28, 2006
Ah, sim, claro, apoiar gente valente!
(Já me tinha perguntado como teria reagido o regime iraniano àquele protesto corajoso - que me deixou tão reconfortado e optimista).
(Já me tinha perguntado como teria reagido o regime iraniano àquele protesto corajoso - que me deixou tão reconfortado e optimista).
Falei há dias sobre o processo penal em Inglaterra. Aqui, para quem quiser mais e melhor informação.
O inacreditável é que há quem chegue mesmo a acreditar que o nosso processo penal é mais justo do que o inglês... Problemas graves do nosso ensino do direito e do nosso atraso em geral.
Quanto aos outros defensores do nosso processo penal, menos ingénuos, fazem-me lembrar aqueles médicos que tecem loas ao nosso serviço de saúde e à excelência dos nossos hospitais (pelo menos de parte deles, ou de alguns serviços - a coisa tem diversos graus de sofisticação e é normal começar mesmo por desabafos quase confidênciais sobre o que se passa neste ou naquele serviço ou hospital que, segundo eles são péssimos...) e medicina portuguesa em geral: fica-se quase convencido da bondade da parte sã do sistema, até que, à mínima suspeita de alguma coisa menos corriqueira os sabemos, aos nossos informadores, lá fora, em Inglaterra, ou na Alemanha, em França, em Espanha ou nos USA - tudo menos cá.
O inacreditável é que há quem chegue mesmo a acreditar que o nosso processo penal é mais justo do que o inglês... Problemas graves do nosso ensino do direito e do nosso atraso em geral.
Quanto aos outros defensores do nosso processo penal, menos ingénuos, fazem-me lembrar aqueles médicos que tecem loas ao nosso serviço de saúde e à excelência dos nossos hospitais (pelo menos de parte deles, ou de alguns serviços - a coisa tem diversos graus de sofisticação e é normal começar mesmo por desabafos quase confidênciais sobre o que se passa neste ou naquele serviço ou hospital que, segundo eles são péssimos...) e medicina portuguesa em geral: fica-se quase convencido da bondade da parte sã do sistema, até que, à mínima suspeita de alguma coisa menos corriqueira os sabemos, aos nossos informadores, lá fora, em Inglaterra, ou na Alemanha, em França, em Espanha ou nos USA - tudo menos cá.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Fiquei em casa, li e dei uma volta pelos blogs. No Morel encontrei a entrevista com Miguel Esteves Cardoso. Ri-me com a questão da idade: o tom leve com que trata o peso do tempo faz da idade, melhor, da velhice, uma questão inteiramente para gente nova. Ri, mas acho perigoso: não estou interessado em sofrer a competição de hordas de adolescentes nas lamentações próprias da velhice que já quase começo a prezar e ajudam a gente a esquecer-se que coisa medonha é envelhecer, toda ela desvantagens e vexames! Miguel Esteves Cardoso, passado o estado de graça da convalescença da sua doença, perceberá que não está mais sábio, que essa piedosa mentira é, também, uma torpe mentira de gosto duvidoso, do quilate da dos saberes do povo simples. Todas as pessoas com alguma experência nesta coisa dos entas com quem tenho falado me confidenciaram que não se sentem mais sábias, nem mais felizes; pelo contrário, sentem-se mal, com dores de costas, problemas de visão, pouca paciência e frequentes ataques de pânico o que as ajuda a conservarem intactos o péssimo feitio e impecável bom gosto que sempre lhes conheci. É nelas que eu acredito, não no parvenu que, nestas coisas de idade, é Miguel Esteves Cardoso. A baby, digo eu - e sou mais novo.
Espilros, uma impressão na garganta, sem febre - mas o que significa não ter febre senão o poder escrever, daqui a pouco e referindo-me a este post: não tinha ainda febre, mesmo com acessos de espilros e a sentir já a garganta quando escrevi.
Estou a ficar com anginas, uma coisa já de outros tempos - a gente de agora tem amigdalites. Em compensação, o médico já não vem a casa e se viesse não esperaria encontrar à sua espera uma colher, embrulhada num guardanapo, num prato de sobremesa, no tabuleiro, tudo higiénico e branco. Servia a colher como espátula para observar a garganta suspeita.
Sem tudo isto, para quê ter anginas? Não posso deixar de me censurar este meu gosto pelo vão.
Estou a ficar com anginas, uma coisa já de outros tempos - a gente de agora tem amigdalites. Em compensação, o médico já não vem a casa e se viesse não esperaria encontrar à sua espera uma colher, embrulhada num guardanapo, num prato de sobremesa, no tabuleiro, tudo higiénico e branco. Servia a colher como espátula para observar a garganta suspeita.
Sem tudo isto, para quê ter anginas? Não posso deixar de me censurar este meu gosto pelo vão.
terça-feira, dezembro 26, 2006
Convalesço das festividades no silêncio quase perfeito deste depois de almoço.
Ontem, às pantomimas das crianças e adolescentes, responderam os adultos com a recriação da marcha do Rataplã na capoeira, usada no jardim-escola onde todos andámos. Não me saí mal, mas senti-me um pouco acabrunhado por ser o único a já não se lembrar de toda a letra. Depois de "à frente o galo" e "atrás a galinha" vinham os pintaínhos, sim, mas exactamente como? E o que se seguia? Confesso que trautreei atabalhoadamente algumas partes, mas desfilei, no meu lugar de 1º pintaínho, convicto e alegre pelas salas graves da histórica morada, como se escrevia em linguagem de guia turístico de antanho. Ouviram-se bravos e encores, alguns oriundos do sector mais circunspecto, e a justeza do reconhecimento do mérito artístico não deixou de ser tocante.
Ontem, às pantomimas das crianças e adolescentes, responderam os adultos com a recriação da marcha do Rataplã na capoeira, usada no jardim-escola onde todos andámos. Não me saí mal, mas senti-me um pouco acabrunhado por ser o único a já não se lembrar de toda a letra. Depois de "à frente o galo" e "atrás a galinha" vinham os pintaínhos, sim, mas exactamente como? E o que se seguia? Confesso que trautreei atabalhoadamente algumas partes, mas desfilei, no meu lugar de 1º pintaínho, convicto e alegre pelas salas graves da histórica morada, como se escrevia em linguagem de guia turístico de antanho. Ouviram-se bravos e encores, alguns oriundos do sector mais circunspecto, e a justeza do reconhecimento do mérito artístico não deixou de ser tocante.
sábado, dezembro 23, 2006
Eu vivo aqui neste campo calmo, mas não descansado, à espera que estou sempre de receber uma carta do teor daquela que Casais Monteiro recebeu anos atrás de Fernando Pessoa e na qual JPP me dirá quem eu sou, onde nasci, o meu horóscopo, que pais e família me atribuiu e porquê, os meus defeitos de redacção, os meus vícios de raciocínio e limites que me contêm, ou o porquê do meu gosto pelo tempo frio; enfim e para abreviar, em que me explicará que, heterónimo dele eu e os outros todos somos, dos muito conseguidos aos que são meros apontamentos, aos brevíssimos esboços delineados em dois posts indecisos; em que me advertirá de que as minhas birras e algumas convicções, que me são, por vezes, tão duramente inexplicáveis, são discutíveis apenas enquanto meros recursos narrativos que afinal são; que, em suma, bloggers portugueses e alguns lá de fora, todos somos ele, nascidos de diferentes horas dos seus dias ou alturas da semana ou do mês, da posição em que se encontre, de onde se encoste para tomar uma nota, do que tenha acabado de ler, ou da necessidade de ilustrar um ponto mais difícil de um raciocínio.
Um dia receberei essa carta desagradável que, explicando tanto, explicará afinal a latere e pouco...
Uma coisa lhe agradeço, porém, desde já: que me tenha criado como um dos preferidíssimos de Charlotte, em tão boa companhia de tantos outros poucos happy few (s)eus.
Um dia receberei essa carta desagradável que, explicando tanto, explicará afinal a latere e pouco...
Uma coisa lhe agradeço, porém, desde já: que me tenha criado como um dos preferidíssimos de Charlotte, em tão boa companhia de tantos outros poucos happy few (s)eus.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Desilusão e previlégio
A desilusão veio de onde menos esperava: do Dr. Sousa Homem, lui-même, que deu para achar o nosso clima magnânimo!!!!... Está um frio de rachar, o quarto, quando acordei , estava frio apesar do aquecimento, a água do meu duche apenas tenuamente acima do morno e como houve esquecimento no aquecer do prato, tudo adquiriu um sabor gélido e hostil ao almoço. E de todo o lado ouvi queixumes semelhantes. Fica a gente a pensar no desnorte que por aí vai no uso dos adjectivos por quem tem obrigação de os não usar malevolamente.
A boa notícia - o previlégio - é que, tendo uns amigos meus ido para as suas terras beirãs passar o Natal, posso usar a minha colónia difícil que insistem, por ignorância pituitária, em achar com o aroma desagradável do mofo... Acabo por não usar, por me impedir de passar lá por casa (são os meus amigos geograficamente mais próximos) sem ouvir dichotes e protestos da dona da casa.
Pu-la hoje, abundantemente, para me compensar das agruras do duche, e têm-me ajudado a suportar o frio magnânimo - que, daqui a pouco tempo, se há-de transformar em ventania magnânima e, depois, em caloraça sahárica magnânima.
A desilusão veio de onde menos esperava: do Dr. Sousa Homem, lui-même, que deu para achar o nosso clima magnânimo!!!!... Está um frio de rachar, o quarto, quando acordei , estava frio apesar do aquecimento, a água do meu duche apenas tenuamente acima do morno e como houve esquecimento no aquecer do prato, tudo adquiriu um sabor gélido e hostil ao almoço. E de todo o lado ouvi queixumes semelhantes. Fica a gente a pensar no desnorte que por aí vai no uso dos adjectivos por quem tem obrigação de os não usar malevolamente.
A boa notícia - o previlégio - é que, tendo uns amigos meus ido para as suas terras beirãs passar o Natal, posso usar a minha colónia difícil que insistem, por ignorância pituitária, em achar com o aroma desagradável do mofo... Acabo por não usar, por me impedir de passar lá por casa (são os meus amigos geograficamente mais próximos) sem ouvir dichotes e protestos da dona da casa.
Pu-la hoje, abundantemente, para me compensar das agruras do duche, e têm-me ajudado a suportar o frio magnânimo - que, daqui a pouco tempo, se há-de transformar em ventania magnânima e, depois, em caloraça sahárica magnânima.
...e I de Ipswich
Depois de um mês e três semanas há um acusado no caso dos homicídios de Ipswich.
Vejamos como se passam lá as coisas: crime, investigação pela policia, detenção do suspeito (mas nem sempre é feita essa detenção) e, concluída a investigaçao, tudo desemboca na acusação.
Não há - leia-se cuidadosamente - não há, repete-se, "segredo de justiça" , como existe aqui, nem, aliás, nada de semelhante e entre a detenção pela polícia e a acusação não podem mediar mais do que 3 dias - sem certeza absoluta quanto a este prazo.
E aqui? Em Portugal, o arguido pode estar preso um ano sem ser acusado de crime algum e era entendimento e prática dos tribunais portugueses, até há 2 anos, o permitir estar o arguido preso esse ano sem saber porquê - situação que só cessou graças a um acórdão do Tribunal Constitucional proferido no âmbito do processo Casa Pia. Mas, apesar desse avanço, no nosso país pode-se ser preso antes do começo de qualquer actividade que se assemelhe a uma verdadeira investigação criminal...
Quanto ao Ministério Público quase não existe na Grã-Bretanha: a acusação é dirigida, na audiência, pelos advogados da Coroa, que recebem o caso da polícia e agem em igualdade com a defesa perante o Tribunal.
Compare-se com o que sucede cá.
Edificante, não é?
Depois de um mês e três semanas há um acusado no caso dos homicídios de Ipswich.
Vejamos como se passam lá as coisas: crime, investigação pela policia, detenção do suspeito (mas nem sempre é feita essa detenção) e, concluída a investigaçao, tudo desemboca na acusação.
Não há - leia-se cuidadosamente - não há, repete-se, "segredo de justiça" , como existe aqui, nem, aliás, nada de semelhante e entre a detenção pela polícia e a acusação não podem mediar mais do que 3 dias - sem certeza absoluta quanto a este prazo.
E aqui? Em Portugal, o arguido pode estar preso um ano sem ser acusado de crime algum e era entendimento e prática dos tribunais portugueses, até há 2 anos, o permitir estar o arguido preso esse ano sem saber porquê - situação que só cessou graças a um acórdão do Tribunal Constitucional proferido no âmbito do processo Casa Pia. Mas, apesar desse avanço, no nosso país pode-se ser preso antes do começo de qualquer actividade que se assemelhe a uma verdadeira investigação criminal...
Quanto ao Ministério Público quase não existe na Grã-Bretanha: a acusação é dirigida, na audiência, pelos advogados da Coroa, que recebem o caso da polícia e agem em igualdade com a defesa perante o Tribunal.
Compare-se com o que sucede cá.
Edificante, não é?
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Ontem, em casa de uma querida amiga de sempre, onde tinha ido levar o meu presente de Natal (e na loja, por dois ou três conselhos que eu pedira a quem simpaticamante se ocupava da minha compra, tinham adivinhado a destinatária do presente - a pequeneza encantadora de Lisboa), falava de livros e de uma livraria simpática onde tinha estado em Paris e me lembrara de lhe escrever um postal não enviado. Não tinha dito ainda o nome quando me perguntou: - Em frente da Brasserie Lipp? - Sim, exclamei eu, L' écume des pages! - Estive lá há uma semana, disse-me, lembrei-me de si, comprei um livro que lhe tenciono passar. Foi buscar o Journées de Lecture de Proust que a Fata Morgana editou Novembro passado.
Espirito natalício, tempo, divindades protectoras das velhas amizades.
Espirito natalício, tempo, divindades protectoras das velhas amizades.
terça-feira, dezembro 19, 2006
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Esta é que é a verdadezinha:
«Toute nation a le gouvernement qu'elle mérite »
Comte Joseph de Maîstre, "Considérations sur la France"
E vou para a cama, reler as Voyages do irmão dele, até dormir.
Tenho adormecido com os livros a escorregarem-me das mãos, não os apanho sequer, apenas apago desajeitadamente a luz do candeeiro da mesa de cabeceira
Ah, às senhoras e senhores leitores que quiserem ler o texto da petição sobre a tlebs e concordem: agradece-se que assinem a dita. É o link das causas, aí à direita, em cima.
«Toute nation a le gouvernement qu'elle mérite »
Comte Joseph de Maîstre, "Considérations sur la France"
E vou para a cama, reler as Voyages do irmão dele, até dormir.
Tenho adormecido com os livros a escorregarem-me das mãos, não os apanho sequer, apenas apago desajeitadamente a luz do candeeiro da mesa de cabeceira
Ah, às senhoras e senhores leitores que quiserem ler o texto da petição sobre a tlebs e concordem: agradece-se que assinem a dita. É o link das causas, aí à direita, em cima.
domingo, dezembro 17, 2006
É com um imenso orgulho que o autor deste blog anuncia que foi um dos co-nomeados "Person of the Year" pela muito prestigiada revista Time, tornando-se, com tal nomeação, membro de um exclusivo club onde, entre outras personalidades, figuram os Papas João Paulo II e João XXIII, Wiston Churchill ou Lindbergh.
Agradeço, comovido.
P.S. A única ambição que dá frutos - desde logo o de nos pôr a salvo dos numerosos ridículos em que se enredam as ambições sensatas - é a absolutamente desmedida.
Agradeço, comovido.
P.S. A única ambição que dá frutos - desde logo o de nos pôr a salvo dos numerosos ridículos em que se enredam as ambições sensatas - é a absolutamente desmedida.
sábado, dezembro 16, 2006
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não devem deixar de ter o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.
E, corrigido, Cara Charlotte, parece menos uma má frase de um mau manual de instruções:
Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não perdem o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.
Sem deve deve, sem deve deixar.
E, corrigido, Cara Charlotte, parece menos uma má frase de um mau manual de instruções:
Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não perdem o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.
Sem deve deve, sem deve deixar.
A contenção, feita da percepção de que há limites intransponíveis e transpô-los é abdicar o que cremos (sim, transitivo directo) e nos cimenta: há coisas que não se fazem, sítios onde se não vai, há coisas que não se podem ter.
É simples, nada de complicado.
Mudando de assunto: aquilo da "ERC" reguladora não sei quê, quem é aquela gente, quem os nomeou?
É simples, nada de complicado.
Mudando de assunto: aquilo da "ERC" reguladora não sei quê, quem é aquela gente, quem os nomeou?
quinta-feira, dezembro 14, 2006
La douce France
Os franceses , 25% dos franceses, um quarto dos franceses, dizem-se de acordo com as ideias de Le Pen e o número de gauleses frontalmente em desacordo com a xenofobia e demais delírios daquele político desceu para 70%.
Faz ternura ver este progresso da Republique Française e tenho pena de não ter por aí um pedacinho de Marselhesa para honrar a façanha da republicana Frente Nacional.
Mas tudo isto, claro, que não é totalmente agradável, é obra dos USA, a quem devem ser atribuídas as responsabilidades habituais, como culpado de serviço.
Os franceses , 25% dos franceses, um quarto dos franceses, dizem-se de acordo com as ideias de Le Pen e o número de gauleses frontalmente em desacordo com a xenofobia e demais delírios daquele político desceu para 70%.
Faz ternura ver este progresso da Republique Française e tenho pena de não ter por aí um pedacinho de Marselhesa para honrar a façanha da republicana Frente Nacional.
Mas tudo isto, claro, que não é totalmente agradável, é obra dos USA, a quem devem ser atribuídas as responsabilidades habituais, como culpado de serviço.

«`All right,' said the Cat; and this time it vanished quite slowly, beginning with the end of the tail, and ending with the grin, which remained some time after the rest of it had gone. »
Um físico nuclear ilustrou uma partícula subatómica furtiva e o seu quê duvidosa com a careta do gato de Chishere que remained some time after the rest of it had gone. Interessante e subtil.
Alice foi um bom presente, e creio que se esqueceram de mim a seguir, li o livro várias vezes sem interferências, saboreando todo o non-sense.
A gravura é de Sir John Tenniel, o ilustrador das primeira edições de Alice
quarta-feira, dezembro 13, 2006
Não sei se aquela coisa dos blogs está a funcionar bem mas foi por acaso que descobri - agora - que o Pé de meia e o Estudo Casos linkaram o Impensavel, que, muito obrigado, agradece.
Cara Charlotte, muito obrigado pela sua investigação, tão longe. Sempre me convenci que os pacifistas eram idiotas e vejo que a minha convicção estava - também - etimologicamente certa.
Tem razão quanto ao Miguel Esteves Cardoso, faz bem, é medicinal e eu, que não acho muito simpático em Portugal dizer bem de alguém (origina sempre maçadas para o elogiado) não resisti a um post de agradecimento. E a este.
Tem razão quanto ao Miguel Esteves Cardoso, faz bem, é medicinal e eu, que não acho muito simpático em Portugal dizer bem de alguém (origina sempre maçadas para o elogiado) não resisti a um post de agradecimento. E a este.
Gostei de rever o Miguel Esteves Cardoso: está anafado (dos poucos que o estão mais do que eu), encanecido (também mais do que eu) e repara-se que nunca leu Eça com atenção - o que lamento. Além disto, continua inteligente, perspicaz, divertido e com aquele ar de felicidade tão raro de encontrar que suspeito que é verdadeiro.
Muito agradável o programa! E foi por indicação daqui, de um blog. Agradeço.
Muito agradável o programa! E foi por indicação daqui, de um blog. Agradeço.
terça-feira, dezembro 12, 2006
«Sabe ele o seu francês?» - Sabia. Aos oito anos já me impingiam livros em francês - sim, um deles o Petit Prince - e sabia canções francesas. Uma delas, o "Au clair de la lune", que se cantava, também, nas aulas de francês. Soube ontem que a cançãozinha tão doce é uma daquelas cançonetas francesas: sim, é uma canção licenciosa, cheia de duplos sentidos, de alçapões para a inocência! Por um momento - em nome da honestidade declaro que brevíssimo -fiquei indignado, senti-me roubado na candura dos meus gorjeios diligentes e com accent caprichado. Depois, a indignação foi evoluíndo, tornou-se difusa, inebriante e ri com gosto, por essa partida pregada à francofilia lusa.
segunda-feira, dezembro 11, 2006
Refrigério
Depois do espectáculo dos «double standards» quanto a ditadores, foi com alegria que vi apupado por estudantes o presidente do Irão, em nome de exigência de democracia. Sabendo que as consequências de tais protestos num regime daquele jaez se poderão traduzir em medidas fortemente desagradáveis para os manifestantes (ao contrário dos que se manifestam a favor do fundamentalismo muçulmano nas capitais ocidentais, que nada têm a temer) é bom saber que a democracia pode ser desejada por esse mundo fora e que há quem se disponha a pagar um preço por isso.
Depois do espectáculo dos «double standards» quanto a ditadores, foi com alegria que vi apupado por estudantes o presidente do Irão, em nome de exigência de democracia. Sabendo que as consequências de tais protestos num regime daquele jaez se poderão traduzir em medidas fortemente desagradáveis para os manifestantes (ao contrário dos que se manifestam a favor do fundamentalismo muçulmano nas capitais ocidentais, que nada têm a temer) é bom saber que a democracia pode ser desejada por esse mundo fora e que há quem se disponha a pagar um preço por isso.
Resolvi pôr-me a caminho do Chile. Não para assistir ao enterro do antigo ditador, mas para ver como está aquela gente. Democracia, têm. Liberdade de expressão, idem - li vários jornais de opiniões diferentes e divergentes. Crescimento económico, também, e num grau que, confesso, me deixou um pouco invejoso ou, pelo menos, entristecido por aqui não ser asssim. Santiago do Chile pareceu-me uma cidade moderna, próspera, cosmopolita, elegante, com aquele ar de quem está bem na vida e que a mim, nado em Lisboa, me fez pensar na cidade suja e avelhentada, quase maltrapilha, que é hoje a capital portuguesa.
Depois deste primeiro olhar sobre o Chile espreitei os blogs chilenos: muitos e diversos. Conclui que os chilenos não estão mal.
Fui ainda ao site da Amnistia Internacional. E aí, fiquei estupefacto: aquela organização, reconhecendo que o Chile não tem problemas de direitos humanos de maior aconselhava, no entanto e energicamente, o governo da democracia chilena a incentivar os demais direitos para além dos já existentes e que são os comuns das democracias. Pareceu-me que se imiscuia em assuntos internos de um povo soberano, mas enfim... A preocupação principal era com uma greve de fome de quatro condenados por terrorismo e que tinham sido alimentados à força num hospital. Ah, e indignava-se muito por o Supremo Tribunal do Chile democrático ter considerado que as investigações devem ter prazos... Bem, mas não fora aquele indisfarçável e inimitável ar de prosperidade que tinha acabado de ver à direita e à esquerda no Chile pensaria que me tinha enganado no relatório. Mas não, era mesmo à democracia chilena que eram dirigidos aqueles remoques.
Resolvi ir ver o que diriam então de Cuba... Ah, lá estava, 72 presos de consciência, ou seja, presos políticos, e que sim, que havia problemas com a liberdade de expressão em Cuba. Parece que a AI não considera que Cuba seja uma ditadura e que manter um regime ditatorial não é, por si só, um crime nojento contra os direitos humanos. E para que não haja muitas perguntas é adiantado que "the embargo by the USA against Cuba continued to contribute to a climate in which fundamental rights were denied". Assim mesmo. Fiquei elucidado.
Depois disto, esperavam-me ainda as declarações do juiz Garzón que afirmou que os processos contra Pinochet não seriam encerrados. Tinha aprendido que a responsabilidade criminal terminava com a morte. Mas não, segundo Garzón. Já que assim pensa, o melhor, no entanto, é começar por casa: à esquerda e á direita e já que a morte não é obstáculo, não faltam motivos para inquéritos. É evidente que isso pode não ser muito conveniente, mas onde estão em causa princípios... Querendo continuar a fazer justiça no estrangeiro tem Cuba. Estão ainda todos vivos, ou quase. Quer nomes? Basta ler o diário oficial da ditadura cubana.
Depois deste primeiro olhar sobre o Chile espreitei os blogs chilenos: muitos e diversos. Conclui que os chilenos não estão mal.
Fui ainda ao site da Amnistia Internacional. E aí, fiquei estupefacto: aquela organização, reconhecendo que o Chile não tem problemas de direitos humanos de maior aconselhava, no entanto e energicamente, o governo da democracia chilena a incentivar os demais direitos para além dos já existentes e que são os comuns das democracias. Pareceu-me que se imiscuia em assuntos internos de um povo soberano, mas enfim... A preocupação principal era com uma greve de fome de quatro condenados por terrorismo e que tinham sido alimentados à força num hospital. Ah, e indignava-se muito por o Supremo Tribunal do Chile democrático ter considerado que as investigações devem ter prazos... Bem, mas não fora aquele indisfarçável e inimitável ar de prosperidade que tinha acabado de ver à direita e à esquerda no Chile pensaria que me tinha enganado no relatório. Mas não, era mesmo à democracia chilena que eram dirigidos aqueles remoques.
Resolvi ir ver o que diriam então de Cuba... Ah, lá estava, 72 presos de consciência, ou seja, presos políticos, e que sim, que havia problemas com a liberdade de expressão em Cuba. Parece que a AI não considera que Cuba seja uma ditadura e que manter um regime ditatorial não é, por si só, um crime nojento contra os direitos humanos. E para que não haja muitas perguntas é adiantado que "the embargo by the USA against Cuba continued to contribute to a climate in which fundamental rights were denied". Assim mesmo. Fiquei elucidado.
Depois disto, esperavam-me ainda as declarações do juiz Garzón que afirmou que os processos contra Pinochet não seriam encerrados. Tinha aprendido que a responsabilidade criminal terminava com a morte. Mas não, segundo Garzón. Já que assim pensa, o melhor, no entanto, é começar por casa: à esquerda e á direita e já que a morte não é obstáculo, não faltam motivos para inquéritos. É evidente que isso pode não ser muito conveniente, mas onde estão em causa princípios... Querendo continuar a fazer justiça no estrangeiro tem Cuba. Estão ainda todos vivos, ou quase. Quer nomes? Basta ler o diário oficial da ditadura cubana.
domingo, dezembro 10, 2006
Há horas, hoje à tarde, tinha lido um artigo que levantava a hipótese de todos os recentes acidentes clínicos de Pinochet serem um expediente para se livrar da justiça. Não eram, morreu. Talvez com o fito único de contrariar esta análise arguta, mas morreu.
Eu detesto ditadores e ditaduras e lamento que Pinochet não tenha prestado contas ao seu povo.
O que logo me irritou quando soube da morte, devo confessar, é que muitos daqueles que nos próximos dias lamentarão que Pinochet tenha morrido sem ter comparecido perante um tribunal, sejam os mesmos que se permitirão, sem qualquer pejo, com aquela desonestidade intelectual que lhes é tão peculiar quanto a impunidade em que se julgam investidos, chorar a morte doutro ditador, o octagenário e sanguinário Castro que, ao contrário de Pinochet, não se afastou do poder para permitir a transição para a democracia, é responsável por milhares de mortes, prisões e torturas, instrumentos ainda agora habituais num regime tão cruel que até o stalinista Saramago se sentiu no dever de se demarcar daquele horror, do que é feito diariamente àquele Povo oprimido, dividido, postrado na pobreza, enquanto os chilenos vivem numa democracia cada dia mais forte e constituem o mais rico país da América do Sul.
E já agora, se bem que não seja muito vulgar formular desejos nestas ocasiões, que Castro, pelo menos Castro, ainda venha a ser julgado pelos seus crimes e os do seu regime.
Porque nao há boas e más vítimas.
Eu detesto ditadores e ditaduras e lamento que Pinochet não tenha prestado contas ao seu povo.
O que logo me irritou quando soube da morte, devo confessar, é que muitos daqueles que nos próximos dias lamentarão que Pinochet tenha morrido sem ter comparecido perante um tribunal, sejam os mesmos que se permitirão, sem qualquer pejo, com aquela desonestidade intelectual que lhes é tão peculiar quanto a impunidade em que se julgam investidos, chorar a morte doutro ditador, o octagenário e sanguinário Castro que, ao contrário de Pinochet, não se afastou do poder para permitir a transição para a democracia, é responsável por milhares de mortes, prisões e torturas, instrumentos ainda agora habituais num regime tão cruel que até o stalinista Saramago se sentiu no dever de se demarcar daquele horror, do que é feito diariamente àquele Povo oprimido, dividido, postrado na pobreza, enquanto os chilenos vivem numa democracia cada dia mais forte e constituem o mais rico país da América do Sul.
E já agora, se bem que não seja muito vulgar formular desejos nestas ocasiões, que Castro, pelo menos Castro, ainda venha a ser julgado pelos seus crimes e os do seu regime.
Porque nao há boas e más vítimas.
sábado, dezembro 09, 2006
Na RTP 2, Mel Ferrer e Stewart Granger batem-se em duelo no Scaramouche. Não me lembro já bem do filme, que se passa no início da revolução francesa. Dessas alturas ficou-me na memória o Scarlat Pimpernell, de 1934, e que devo ter visto na televisão quando tinha dez ou onze anos e seguido, talvez, da leitura do livro de Orczy, antes dos muitos Dumas. Sei que, nas ingenuidades de uma infância ingénua, me lastimei por já não se viverem tempos em que se pudesse ser espião em Paris ou noutra capital e se pudessem salvar senhoras e demais gente inocente das garras dos robespierres. Estava, infelizmente, muito enganado...
Os francesas foram apenas os primeiros: os revolucionários estrearam o genocídio na contemporaneidade, já que as pessoas eram executadas, não por actos que tivessem cometido mas por, meramente, pertencerem a uma classe social, classe de que se pretendia a extinção em nome do "avanço da civilização" e a estas mortes matutinas, logo ao raiar da razão, seguiram-se milhões e milhões de outras, até aos nosso dias. Tanto estas, da aristocracia francesa, no já longínquo século XVIII, quanto as dos milhões dos desgraçadas imolados ao sentido da história - lembro-me da revolução russa, do leninismo e do stalinismo em épocas mais recentes - tiveram as cumplicidades comissivas e omissivas necessárias e os apoios entusiásticos de pessoas de bem que se permitiam insultar os reaccionários Scarlat Pimpernell que não sabiam ler o futuro e simpatizavam pouco com carnificinas.
Não sei a quem ou a quê agradecer ter preferido sempre o reaccionário, destemido e sensato herói inglês às robesperrianas virtudes e clarividência jacobinas e marxistas; à pimpinela, que sempre foi usada para quebrar encantos e quebrantos e a aguçar os sentidos? A Merle Oberon, Lady Blakeney, a mulher de Pimpinela? Não sei, mas todos os dias agradeço o cepticismo.
Tem medo de, apesar das boas intenções modestas - as menos letais - não ser um bom Scarlet Pimpernell? Verifique aqui
Os francesas foram apenas os primeiros: os revolucionários estrearam o genocídio na contemporaneidade, já que as pessoas eram executadas, não por actos que tivessem cometido mas por, meramente, pertencerem a uma classe social, classe de que se pretendia a extinção em nome do "avanço da civilização" e a estas mortes matutinas, logo ao raiar da razão, seguiram-se milhões e milhões de outras, até aos nosso dias. Tanto estas, da aristocracia francesa, no já longínquo século XVIII, quanto as dos milhões dos desgraçadas imolados ao sentido da história - lembro-me da revolução russa, do leninismo e do stalinismo em épocas mais recentes - tiveram as cumplicidades comissivas e omissivas necessárias e os apoios entusiásticos de pessoas de bem que se permitiam insultar os reaccionários Scarlat Pimpernell que não sabiam ler o futuro e simpatizavam pouco com carnificinas.
Não sei a quem ou a quê agradecer ter preferido sempre o reaccionário, destemido e sensato herói inglês às robesperrianas virtudes e clarividência jacobinas e marxistas; à pimpinela, que sempre foi usada para quebrar encantos e quebrantos e a aguçar os sentidos? A Merle Oberon, Lady Blakeney, a mulher de Pimpinela? Não sei, mas todos os dias agradeço o cepticismo.
Tem medo de, apesar das boas intenções modestas - as menos letais - não ser um bom Scarlet Pimpernell? Verifique aqui
sexta-feira, dezembro 08, 2006
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Há 65 anos, sem prévia declaração de guerra, o Império Japonês atacou as bases navais norte-americanas no Hawai. Esse acto desencadeou a entrada na II Guerra Mundial dos Estados Unidos da América, ao lado da Grã-Bretanha. A República Francesa tinha-se rendido sem combate e a ex-URSS assinara um pacto de não-agressão com a Alemanha nazi que vigorou até Junho de 41, cinco meses antes deste ataque (o pacto entre os dois regimes totalitários e anti-democráticos teve, entre outras consequências, a de tornar ainda mais cruel o bombardeamento de Londres: a ex-URSS forneceu aos Alemães matérias-primas para a construção de aviões de combate e de bombas e outras munições).
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Cara Charlotte, a mim assim me parecia, mesmo sem lobrigar ómega algum, mas quem sou eu para afrontar as subtilezas do grego de Péricles?
Muito obrigado!
Muito obrigado!
Passei o fim de tarde entre Mme Chauchat - o google, onde procurei uma tela com um retrato imaginário, devolveu-me uma marca de metrelhadoras da I Guerra... - e Mme. Colombe. Pobre e amada (muito) Mme Chauchat comparada à femme Colombe. De novo, ainda, a ideia de que há um Jacinto na Montanha Mágica quando reli nas palavras de Mann que é preciso sofrer e morrer para viver.
Mas a divagação começou ainda antes: com o Caso Litvinenko, russo como Madame Chauchat, lá das distantes estepes onde a vontade e o bravio pulsam num imaculado excesso e o veneno mais insidioso e a crueldade sem tremor são o incompreendido coup de grâce para essa desmesura que, por medo, fingimos ser-nos já insuportável.
Mas a divagação começou ainda antes: com o Caso Litvinenko, russo como Madame Chauchat, lá das distantes estepes onde a vontade e o bravio pulsam num imaculado excesso e o veneno mais insidioso e a crueldade sem tremor são o incompreendido coup de grâce para essa desmesura que, por medo, fingimos ser-nos já insuportável.
segunda-feira, dezembro 04, 2006
4 de Dezembro de 1980
Depois da escolha que, em 1975, os portugueses fizeram de um Portugal europeu, era preciso que alguém o modernizasse. Essa tarefa consistia em tudo fazer para proporcionar a existência de uma sociedade civil que não dependesse do estado e, por isso, que este último, autoritário, intervencionista, burocrata, fosse reformado, reduzindo-se o seu papel na vida dos portugueses.
O homem para fazer isto era, sempre acreditei, Sá Carneiro e a AD, com o CDS de Amaro da Costa, foi o único projecto político que me entusiasmou.
Há 26 anos que um crime adiou esse país que sonhei. Com a morte de Sá Carneiro e sem que o estado ou o país tivesse sido, no essencial, reformado, temos isto, em que merecidamente estamos.
Onde, entre outras coisas, a morte de um Primeiro-Ministro fica ignóbil e gratuitamente impune.
Depois da escolha que, em 1975, os portugueses fizeram de um Portugal europeu, era preciso que alguém o modernizasse. Essa tarefa consistia em tudo fazer para proporcionar a existência de uma sociedade civil que não dependesse do estado e, por isso, que este último, autoritário, intervencionista, burocrata, fosse reformado, reduzindo-se o seu papel na vida dos portugueses.
O homem para fazer isto era, sempre acreditei, Sá Carneiro e a AD, com o CDS de Amaro da Costa, foi o único projecto político que me entusiasmou.
Há 26 anos que um crime adiou esse país que sonhei. Com a morte de Sá Carneiro e sem que o estado ou o país tivesse sido, no essencial, reformado, temos isto, em que merecidamente estamos.
Onde, entre outras coisas, a morte de um Primeiro-Ministro fica ignóbil e gratuitamente impune.
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