sábado, janeiro 06, 2007

Há umas coisas que não fazem sentido: o aborto não é sempre um mal? É, todos o dizem, mesmo os partidários do sim: mesmo praticado que seja na melhor clínica, de um acto invasivo e com os riscos inerentes a qualquer acto cirúrgico. E não se gastam, todos os anos, milhões e milhões para encontrar métodos não invasivos que substituam alguns simples exames que representam bem menos perigos para a saúde do que o aborto?... Não percebo! Mesmo para os que crêem que o feto não é ainda vida humana, como é que se pode estar tão interessado em defender o que será sempre um mal, a realização de um acto perigoso e sempre traumático física e psicologicamente... Se me convencessem hoje de que o começo da vida se não dá na concepção, ainda assim eu acharia leviano que se defendesse o recurso ao aborto fora de indicações terapêuticas precisas e indispensáveis para a defesa da saúde das pacientes.
O que acharia normal que houvesse por aí era gente a pedir consultas de planeamento familiar e informação para combater ignorâncias, e toda uma panóplia de meios que não existem ou, se existem, são mal usados. Votei não no referendo anterior, como tenciono fazer agora, mas tenho uma ideia vaga que muito do que foi prometido então faltou. Mas a essas reivindicações sensatas do que falta, mesmo à correcção de práticas existentes, parece ganhar, no campo do sim, e até com algum gosto, a insistência num mal - porque é sempre um mal - e tudo isso nos coloca no campo do contra-intuitivo, da estranheza...
Francamente, não percebo. Ou antes, percebo, mas - em grande parte - como uma questão sobrevivente de outros tempos, um exemplo de uma malsã nostalgia, de celebração de uma desnecessária crueza, a que se sobrepõe uma doentia proposta nova de um hedonismo sem história, feito de um momentâneo de antemão sabidamente infértil.

O momento do nosso patrocionador

sexta-feira, janeiro 05, 2007

«Quem se arrisca a enterrar dinheiro num país paralítico, com a Espanha e a "Europa" à porta?» pergunta VPV no Público de hoje.
(Eu, muito modestamente e a pensar nos de cá, já tinha lembrando que há fundos de acções estrangeiras ao dispor de qualquer um... de acções de empresas a salvo das ideias do governo luso e da nossa pequenez em geral)
O achado porém, é o país paralítico. Não que seja de uma originalidade ou comicidades estonteantes, não é sequer uma dita ou apodo muito original, mas proferido agora e aqui, em contraponto aos dislates optimistas e esbracejantes do governo, acerta o alvo com a precisão de um dardo inteligente.
País paralítico, país entrevadinho. Define-nos bem.
"Uma democracia adulta também o é pela forma". Concordo, mas não ouvi eu, atónito como já disse por aqui, o Dr. Sampaio, ainda em funções ou apenas saído delas, dissertar em entrevista, sobre os méritos e deméritos de diversos chefes de estados estrangeiros nossos amigos que tinha conhecido no exercício das suas funções??? Assim o fez e ainda me lembro que considerava como a mais "profissional" a Rainha da Holanda, superior, por isso, à da Dinamarca e...
Mais senhor presidente do que isto...
E lá se foi um post... apagado sem glória.
Já agora, o livro do Judt não é do ano passado. Li-o em Novembro ou Dezembro de 2005. É uma bom livro e lembro-me de o ter defendido perante alguém que me lembrava ser um livro feito a partir de outros, um livro em segunda mão, com pouca ou nenhum trabalho de consulta de arquivos. É um facto que o próprio autor reconhece. Já que parece que aqui está toda a gente a lê-lo agora, lembro isso das fontes, embora o livro seja muitíssimo capaz de cumprir a sua missão de traçar as linhas essenciais da Europa dos últimos 60 anos. Mas, sobre Portugal, por exemplo, não lhes parece que faltam uns nomes lá na bibliografia?

Mas, como as tristezas não pagam dívidas, aderi à publicidade nos blogs.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Coisas tristes:

O Abrupto resolveu elencar as coisas boas, as más e as péssimas, estas últimas com direito a ícone, um cão de fila pop art em posição de ataque, o que tudo me parece de gosto muito duvidoso, mas enfim... Entre as coisas péssimas JPP põe lado a lado a entidade reguladora para a comunicação social, a política comunicacional governativa e... os "truques na blogosfera portuguesa para incrementar visitas e ligações artificialmente" !!!!
Se não fora a dor de garganta - estou melhorzinho mas não ainda bom - ficaria de boca aberta, não o tempo de uma larga tarde de Verão, como Eça, mas por toda esta soalheira tarde de Inverno. Temendo pela minha garganta, por uma questão de saúde, apenas ri. Com gosto. Muito.
Nos últimos dias do ano passado suscitou grande alvoroço um parecer de uma associação sindical de juizes sobre o crime de maus tratos previsto no artº 152º do Código Penal por nesse parecer constar que tal crime não está previsto actualmente no que aos casais homossexuais diz respeito, nem o deverá estar, em lei a fazer, pelo menos enquanto extensão da protecção dada aos conjûges. Parece-me sensato e pacífico, se é que ainda sei ler.

(O que a mim faz mais confusão, é a existência de um sindicato ou associação sindical de titulares de órgãos de soberania. É, contudo, uma mera associação particular com o mesmo estatuto que teria uma associação de bloguistas no que à actividade legislativa diz respeito e que pertence, em democracia, ao parlamento e não está dependente dos desejos e entendimentos de entidades privadas.)

Quanto à substância da coisa: o regime que pune os maus tratos aplica-se não apenas a cônjuges ou a quem viva em união de facto, mas a quem se aproveite de relações de proximidade e intimidade domésticas, propícias ao realçar de um ascendente físico, emocional ou económico sobre outrém, para o maltratar e amargurar, contando depois com circunstâncias de inferioridade da vítima para ficar impune: era habitual que as queixas (já em si representando uma magríssima percentagem da totalidade das agressões) fossem, a maior parte das vezes, retiradas. E, por esse motivo, o legislador transformou tais actos em crimes e crimes públicos: não dependem de queixa para ser instaurado o respectivo processo nem o perdão impede aquele de prosseguir. Aqui, como em tudo, há um inconveniente: o de a vítima perder controlo sobre sua intimidade já que tudo pode começar por um telefonema de um vizinho e, por isso, deve-se interpretar este estatuto de crime público como transitório - mas agora necessário - , num país onde a violência dentro de portas é uma triste e grave realidade.
E os homossexuais? Creio que a sua situação caberá em qualquer preceito que, no futuro, venha a proteger quem partilhe o mesmo tecto, ou viva em economia comum, não curando aqui das questões de técnica jurídica a resolver na altura. Escusado é que essa protecção resulte da imitação de uma realidade histórica heterossexual, que seja obtida através do esvazimento das palavras - no caso, cônjuge.
O importante é, afinal, que ninguém sofra e seja humilhado por actos criminosos de quem abusa da sua posição fazendo que haja quem, em sua casa, não tenha abrigo.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

"É estar a gente a vê-los, é estar a gente a vê-los"
É assim, assim é, infelizmente.
E não apenas os aí ditos: faltam os sensatos, pessoas que estimamos, que encontramos nas livrarias, pacatos, bem intencionados, discretos, que podem o que nós podemos, mas que também não querem pagar. E têm, de igual modo, empenhos, para vários hospitais em Paris ou Londres (com viagens e subsídio de estada pagas pela segurança social para um acompanhante) ou para o Hospital de Carrazeda de Ansiães, se necessário for.
E são esses, os que têm as mesmas sensatas prioridades que nós temos, são esses, afinal, que complicam tudo.
Estes dias lindos e eu fechado em casa, transformado num iníquo vaso de secreções... Azar.
As constipações e gripes não eram sequer totalmente desagradáveis quando era pequeno, constituíam um bom momento de estudo sobre nós, propiciava os primeiros olhares sobre as entranhas e o nosso mal-estar e os interditos salvíficos geravam mudanças estranhas, o surgir de uma topologia própria: as salas, a casa de jantar adquiriam a natureza e o exotismo de longínquas paragens inacessíveis. Da cozinha e da copa, outro continente, vinham ecos de palavras de uma língua desaprendida e estranha que recaía sobre actos incompreensíveis.
Alguns rituais compensavam-nos dessa distância: o almoço e o jantar na cama, a empregada preferida que vinha contar histórias logo que pudesse, os livros que eram postos na mesinha de cabeceira para nos distraírmos e demais paleolíticas coisas.
Hoje tudo isso é quase já inconcebível.
Um filme que vi em 2006: o Secrets & Lies. O que eu gostei deste filme! É uma elegante alegoria neo-clássica sobre liberdade enquanto questão de óptica, de ajuste da distância de leitura dos trompe d'oeil pouco deleitosos que aparecem lá ao fim das nossas histórias, da nossa história, onde se acumula a sujidade e a patine de pequenas e ternas mentiras - e em que acabamos por nos rever - e das supresas quando olhamos tudo de um outro local -em nós, de outro local em nós. Com humour. Não é de 2006? Eu sei, mas revi em 2006, quero lá saber se não é de 2006.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Do fundo do sofá onde me vim sentar para me sentir mal com mais comodidade, descubro que o fez anos. É com muito gosto que, entre dois acessos de tosse, procuro a compostura necessária para dar os meus parabéns.
Constipação horrenda, com tosses, alguns arrepios e espilros de uma violência devastadora! Não pude ir ao jantar de Ano Bom - que tanto prezo! - e tive que avisar que não podia ir a um outro, amanhã, em Lisboa. Um espilro assustador e sincero e a minha voz rouquejante convenceram, creio, a anfitriã da minha vera indisponibilidade e sincera pena por não ir já que, desde Wilde, os honestos resfriados, mesmo os mais terríveis - como é o caso - têm uma péssima fama de apressados e desajeitados pretextos: "Jack: Very well, then. My poor brother Ernest is carried off suddenly in Paris, by a severe chill. That gets rid of him."

domingo, dezembro 31, 2006

Não hoje ainda, mas o sol já se pôs e a madrugada será a do dia em que nos dizemos

Começa hoje o ano

Nada começa: tudo continua
Onde 'stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar:
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vêm de longe,
Só nosso ver teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
É abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e vento e pensamento

Fernando Pessoa

in Poesia 1918-1930

sábado, dezembro 30, 2006

Fui comprar e quando cheguei a casa vi, com alegria, que tinha sido desnecessária a saída, mas tenho sempre medo que me falte a companhia destas infelizes quão prestáveis e piedosas senhoras, sempre prontas a apoiarem-me nas ocasiões difíceis

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Tenho preguiça de ir buscar gelo e, por isso, a seco - mas não preciso levantar-me nem martelar o congestionado ice service do frigorífico - resolvi, substituída a bebida de fim de tarde pelo blogar, dizer o que acho foi o melhor e o pior deste ano por aqui. Melhor coisa que aconteceu: o Espectro e o ir embora foi a pior coisa, a par com a persistência por alguns desses blogs daquele estilo modernaço que consiste em ensanduichar uma observação erudita - e algumas daquelas observações eruditas são-no mesmo, ou pelo menos interessantes - entre alguns palavrões, profissões de fé em futebolismo e uma camada de interjeições «recreio de secundária» tardif para fazer coloquialismo blasé de banlieu.
Cansativo e muito aborrecido.
Noto em mim uma evolução desagradável: até agora, estava bem onde não estava.
Ultimamente, porém, nem isso.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Ah, sim, claro, apoiar gente valente!
(Já me tinha perguntado como teria reagido o regime iraniano àquele protesto corajoso - que me deixou tão reconfortado e optimista).
Falei há dias sobre o processo penal em Inglaterra. Aqui, para quem quiser mais e melhor informação.
O inacreditável é que há quem chegue mesmo a acreditar que o nosso processo penal é mais justo do que o inglês... Problemas graves do nosso ensino do direito e do nosso atraso em geral.
Quanto aos outros defensores do nosso processo penal, menos ingénuos, fazem-me lembrar aqueles médicos que tecem loas ao nosso serviço de saúde e à excelência dos nossos hospitais (pelo menos de parte deles, ou de alguns serviços - a coisa tem diversos graus de sofisticação e é normal começar mesmo por desabafos quase confidênciais sobre o que se passa neste ou naquele serviço ou hospital que, segundo eles são péssimos...) e medicina portuguesa em geral: fica-se quase convencido da bondade da parte sã do sistema, até que, à mínima suspeita de alguma coisa menos corriqueira os sabemos, aos nossos informadores, lá fora, em Inglaterra, ou na Alemanha, em França, em Espanha ou nos USA - tudo menos cá.
"Le principe de toute société est de se rendre justice à soi-même et aux autres. Si l'on doit aimer son prochain comme soi-même, il est au moins aussi juste de s'aimer comme son prochain."

Chamfort

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Fiquei em casa, li e dei uma volta pelos blogs. No Morel encontrei a entrevista com Miguel Esteves Cardoso. Ri-me com a questão da idade: o tom leve com que trata o peso do tempo faz da idade, melhor, da velhice, uma questão inteiramente para gente nova. Ri, mas acho perigoso: não estou interessado em sofrer a competição de hordas de adolescentes nas lamentações próprias da velhice que já quase começo a prezar e ajudam a gente a esquecer-se que coisa medonha é envelhecer, toda ela desvantagens e vexames! Miguel Esteves Cardoso, passado o estado de graça da convalescença da sua doença, perceberá que não está mais sábio, que essa piedosa mentira é, também, uma torpe mentira de gosto duvidoso, do quilate da dos saberes do povo simples. Todas as pessoas com alguma experência nesta coisa dos entas com quem tenho falado me confidenciaram que não se sentem mais sábias, nem mais felizes; pelo contrário, sentem-se mal, com dores de costas, problemas de visão, pouca paciência e frequentes ataques de pânico o que as ajuda a conservarem intactos o péssimo feitio e impecável bom gosto que sempre lhes conheci. É nelas que eu acredito, não no parvenu que, nestas coisas de idade, é Miguel Esteves Cardoso. A baby, digo eu - e sou mais novo.
Sem anginas, afinal.
Tarde soalheira. Hesito entre sair ou ficar a ler e sair só à noite, um pacato ir tomar café a casa de amigos.

O sol escondeu-se agora, o tempo mudou como previram os metereologistas.
Espilros, uma impressão na garganta, sem febre - mas o que significa não ter febre senão o poder escrever, daqui a pouco e referindo-me a este post: não tinha ainda febre, mesmo com acessos de espilros e a sentir já a garganta quando escrevi.
Estou a ficar com anginas, uma coisa já de outros tempos - a gente de agora tem amigdalites. Em compensação, o médico já não vem a casa e se viesse não esperaria encontrar à sua espera uma colher, embrulhada num guardanapo, num prato de sobremesa, no tabuleiro, tudo higiénico e branco. Servia a colher como espátula para observar a garganta suspeita.
Sem tudo isto, para quê ter anginas? Não posso deixar de me censurar este meu gosto pelo vão.

terça-feira, dezembro 26, 2006

Convalesço das festividades no silêncio quase perfeito deste depois de almoço.
Ontem, às pantomimas das crianças e adolescentes, responderam os adultos com a recriação da marcha do Rataplã na capoeira, usada no jardim-escola onde todos andámos. Não me saí mal, mas senti-me um pouco acabrunhado por ser o único a já não se lembrar de toda a letra. Depois de "à frente o galo" e "atrás a galinha" vinham os pintaínhos, sim, mas exactamente como? E o que se seguia? Confesso que trautreei atabalhoadamente algumas partes, mas desfilei, no meu lugar de 1º pintaínho, convicto e alegre pelas salas graves da histórica morada, como se escrevia em linguagem de guia turístico de antanho. Ouviram-se bravos e encores, alguns oriundos do sector mais circunspecto, e a justeza do reconhecimento do mérito artístico não deixou de ser tocante.

sábado, dezembro 23, 2006

A todos, muito pensadamente, um
Santo Natal do Menino Jesus!

Eu vivo aqui neste campo calmo, mas não descansado, à espera que estou sempre de receber uma carta do teor daquela que Casais Monteiro recebeu anos atrás de Fernando Pessoa e na qual JPP me dirá quem eu sou, onde nasci, o meu horóscopo, que pais e família me atribuiu e porquê, os meus defeitos de redacção, os meus vícios de raciocínio e limites que me contêm, ou o porquê do meu gosto pelo tempo frio; enfim e para abreviar, em que me explicará que, heterónimo dele eu e os outros todos somos, dos muito conseguidos aos que são meros apontamentos, aos brevíssimos esboços delineados em dois posts indecisos; em que me advertirá de que as minhas birras e algumas convicções, que me são, por vezes, tão duramente inexplicáveis, são discutíveis apenas enquanto meros recursos narrativos que afinal são; que, em suma, bloggers portugueses e alguns lá de fora, todos somos ele, nascidos de diferentes horas dos seus dias ou alturas da semana ou do mês, da posição em que se encontre, de onde se encoste para tomar uma nota, do que tenha acabado de ler, ou da necessidade de ilustrar um ponto mais difícil de um raciocínio.
Um dia receberei essa carta desagradável que, explicando tanto, explicará afinal a latere e pouco...
Uma coisa lhe agradeço, porém, desde já: que me tenha criado como um dos preferidíssimos de Charlotte, em tão boa companhia de tantos outros poucos happy few (s)eus.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Desilusão e previlégio

A desilusão veio de onde menos esperava: do Dr. Sousa Homem, lui-même, que deu para achar o nosso clima magnânimo!!!!... Está um frio de rachar, o quarto, quando acordei , estava frio apesar do aquecimento, a água do meu duche apenas tenuamente acima do morno e como houve esquecimento no aquecer do prato, tudo adquiriu um sabor gélido e hostil ao almoço. E de todo o lado ouvi queixumes semelhantes. Fica a gente a pensar no desnorte que por aí vai no uso dos adjectivos por quem tem obrigação de os não usar malevolamente.

A boa notícia - o previlégio - é que, tendo uns amigos meus ido para as suas terras beirãs passar o Natal, posso usar a minha colónia difícil que insistem, por ignorância pituitária, em achar com o aroma desagradável do mofo... Acabo por não usar, por me impedir de passar lá por casa (são os meus amigos geograficamente mais próximos) sem ouvir dichotes e protestos da dona da casa.
Pu-la hoje, abundantemente, para me compensar das agruras do duche, e têm-me ajudado a suportar o frio magnânimo - que, daqui a pouco tempo, se há-de transformar em ventania magnânima e, depois, em caloraça sahárica magnânima.
...e I de Ipswich

Depois de um mês e três semanas há um acusado no caso dos homicídios de Ipswich.
Vejamos como se passam lá as coisas: crime, investigação pela policia, detenção do suspeito (mas nem sempre é feita essa detenção) e, concluída a investigaçao, tudo desemboca na acusação.
Não há - leia-se cuidadosamente - não há, repete-se, "segredo de justiça" , como existe aqui, nem, aliás, nada de semelhante e entre a detenção pela polícia e a acusação não podem mediar mais do que 3 dias - sem certeza absoluta quanto a este prazo.
E aqui? Em Portugal, o arguido pode estar preso um ano sem ser acusado de crime algum e era entendimento e prática dos tribunais portugueses, até há 2 anos, o permitir estar o arguido preso esse ano sem saber porquê - situação que só cessou graças a um acórdão do Tribunal Constitucional proferido no âmbito do processo Casa Pia. Mas, apesar desse avanço, no nosso país pode-se ser preso antes do começo de qualquer actividade que se assemelhe a uma verdadeira investigação criminal...
Quanto ao Ministério Público quase não existe na Grã-Bretanha: a acusação é dirigida, na audiência, pelos advogados da Coroa, que recebem o caso da polícia e agem em igualdade com a defesa perante o Tribunal.
Compare-se com o que sucede cá.
Edificante, não é?

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ontem, em casa de uma querida amiga de sempre, onde tinha ido levar o meu presente de Natal (e na loja, por dois ou três conselhos que eu pedira a quem simpaticamante se ocupava da minha compra, tinham adivinhado a destinatária do presente - a pequeneza encantadora de Lisboa), falava de livros e de uma livraria simpática onde tinha estado em Paris e me lembrara de lhe escrever um postal não enviado. Não tinha dito ainda o nome quando me perguntou: - Em frente da Brasserie Lipp? - Sim, exclamei eu, L' écume des pages! - Estive lá há uma semana, disse-me, lembrei-me de si, comprei um livro que lhe tenciono passar. Foi buscar o Journées de Lecture de Proust que a Fata Morgana editou Novembro passado.

Espirito natalício, tempo, divindades protectoras das velhas amizades.

terça-feira, dezembro 19, 2006



Compras de Natal: ser-se arrancado às doçuras das meditações e conjecturas em frente ao fogão, tudo em forma de viagem autour de la chambre, para as cogitações emulsionadas de Savarin, postas em prosa aimable, bem sei, mas não fat free.


segunda-feira, dezembro 18, 2006

Li agora:

Imigrantes deixam Portugal
Cada vez há menos estrangeiros a procurar o País


Felizmente, não pude deixar de me dizer.
Não por xenofobia, mas por ter sincera pena daquela pobre gente.
Esta é que é a verdadezinha:

«Toute nation a le gouvernement qu'elle mérite »

Comte Joseph de Maîstre, "Considérations sur la France"

E vou para a cama, reler as Voyages do irmão dele, até dormir.
Tenho adormecido com os livros a escorregarem-me das mãos, não os apanho sequer, apenas apago desajeitadamente a luz do candeeiro da mesa de cabeceira


Ah, às senhoras e senhores leitores que quiserem ler o texto da petição sobre a tlebs e concordem: agradece-se que assinem a dita. É o link das causas, aí à direita, em cima.

domingo, dezembro 17, 2006

É com um imenso orgulho que o autor deste blog anuncia que foi um dos co-nomeados "Person of the Year" pela muito prestigiada revista Time, tornando-se, com tal nomeação, membro de um exclusivo club onde, entre outras personalidades, figuram os Papas João Paulo II e João XXIII, Wiston Churchill ou Lindbergh.
Agradeço, comovido.

P.S. A única ambição que dá frutos - desde logo o de nos pôr a salvo dos numerosos ridículos em que se enredam as ambições sensatas - é a absolutamente desmedida.
Não se sabe para onde vai dar aquela estrada de bermas mal cuidadas, por entre a mata.

sábado, dezembro 16, 2006

Edward Hopper, Gas , 1940

Era o ser de olhar duplo, contemplando
O reino a que pertence e o seu etéreo
Desdobramento anímico; e, por isso
Olhava as duas faces do Mistério.

Teixeira de Pascoaes, Marânus

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não devem deixar de ter o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.

E, corrigido, Cara Charlotte, parece menos uma má frase de um mau manual de instruções:

Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não perdem o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.
Sem deve deve, sem deve deixar.
A contenção, feita da percepção de que há limites intransponíveis e transpô-los é abdicar o que cremos (sim, transitivo directo) e nos cimenta: há coisas que não se fazem, sítios onde se não vai, há coisas que não se podem ter.
É simples, nada de complicado.

Mudando de assunto: aquilo da "ERC" reguladora não sei quê, quem é aquela gente, quem os nomeou?

quinta-feira, dezembro 14, 2006

La douce France

Os franceses , 25% dos franceses, um quarto dos franceses, dizem-se de acordo com as ideias de Le Pen e o número de gauleses frontalmente em desacordo com a xenofobia e demais delírios daquele político desceu para 70%.
Faz ternura ver este progresso da Republique Française e tenho pena de não ter por aí um pedacinho de Marselhesa para honrar a façanha da republicana Frente Nacional.
Mas tudo isto, claro, que não é totalmente agradável, é obra dos USA, a quem devem ser atribuídas as responsabilidades habituais, como culpado de serviço.

«`All right,' said the Cat; and this time it vanished quite slowly, beginning with the end of the tail, and ending with the grin, which remained some time after the rest of it had gone. »

Um físico nuclear ilustrou uma partícula subatómica furtiva e o seu quê duvidosa com a careta do gato de Chishere que remained some time after the rest of it had gone. Interessante e subtil.
Alice foi um bom presente, e creio que se esqueceram de mim a seguir, li o livro várias vezes sem interferências, saboreando todo o non-sense.
A gravura é de Sir John Tenniel, o ilustrador das primeira edições de Alice

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Não sei se aquela coisa dos blogs está a funcionar bem mas foi por acaso que descobri - agora - que o Pé de meia e o Estudo Casos linkaram o Impensavel, que, muito obrigado, agradece.
Cara Charlotte, muito obrigado pela sua investigação, tão longe. Sempre me convenci que os pacifistas eram idiotas e vejo que a minha convicção estava - também - etimologicamente certa.
Tem razão quanto ao Miguel Esteves Cardoso, faz bem, é medicinal e eu, que não acho muito simpático em Portugal dizer bem de alguém (origina sempre maçadas para o elogiado) não resisti a um post de agradecimento. E a este.
Gostei de rever o Miguel Esteves Cardoso: está anafado (dos poucos que o estão mais do que eu), encanecido (também mais do que eu) e repara-se que nunca leu Eça com atenção - o que lamento. Além disto, continua inteligente, perspicaz, divertido e com aquele ar de felicidade tão raro de encontrar que suspeito que é verdadeiro.
Muito agradável o programa! E foi por indicação daqui, de um blog. Agradeço.

terça-feira, dezembro 12, 2006

«Sabe ele o seu francês?» - Sabia. Aos oito anos já me impingiam livros em francês - sim, um deles o Petit Prince - e sabia canções francesas. Uma delas, o "Au clair de la lune", que se cantava, também, nas aulas de francês. Soube ontem que a cançãozinha tão doce é uma daquelas cançonetas francesas: sim, é uma canção licenciosa, cheia de duplos sentidos, de alçapões para a inocência! Por um momento - em nome da honestidade declaro que brevíssimo -fiquei indignado, senti-me roubado na candura dos meus gorjeios diligentes e com accent caprichado. Depois, a indignação foi evoluíndo, tornou-se difusa, inebriante e ri com gosto, por essa partida pregada à francofilia lusa.
Max Ernst, Ein Mond ist guter Dinge, 1970, serigrafia

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Refrigério

Depois do espectáculo dos «double standards» quanto a ditadores, foi com alegria que vi apupado por estudantes o presidente do Irão, em nome de exigência de democracia. Sabendo que as consequências de tais protestos num regime daquele jaez se poderão traduzir em medidas fortemente desagradáveis para os manifestantes (ao contrário dos que se manifestam a favor do fundamentalismo muçulmano nas capitais ocidentais, que nada têm a temer) é bom saber que a democracia pode ser desejada por esse mundo fora e que há quem se disponha a pagar um preço por isso.
Resolvi pôr-me a caminho do Chile. Não para assistir ao enterro do antigo ditador, mas para ver como está aquela gente. Democracia, têm. Liberdade de expressão, idem - li vários jornais de opiniões diferentes e divergentes. Crescimento económico, também, e num grau que, confesso, me deixou um pouco invejoso ou, pelo menos, entristecido por aqui não ser asssim. Santiago do Chile pareceu-me uma cidade moderna, próspera, cosmopolita, elegante, com aquele ar de quem está bem na vida e que a mim, nado em Lisboa, me fez pensar na cidade suja e avelhentada, quase maltrapilha, que é hoje a capital portuguesa.
Depois deste primeiro olhar sobre o Chile espreitei os blogs chilenos: muitos e diversos. Conclui que os chilenos não estão mal.
Fui ainda ao site da Amnistia Internacional. E aí, fiquei estupefacto: aquela organização, reconhecendo que o Chile não tem problemas de direitos humanos de maior aconselhava, no entanto e energicamente, o governo da democracia chilena a incentivar os demais direitos para além dos já existentes e que são os comuns das democracias. Pareceu-me que se imiscuia em assuntos internos de um povo soberano, mas enfim... A preocupação principal era com uma greve de fome de quatro condenados por terrorismo e que tinham sido alimentados à força num hospital. Ah, e indignava-se muito por o Supremo Tribunal do Chile democrático ter considerado que as investigações devem ter prazos... Bem, mas não fora aquele indisfarçável e inimitável ar de prosperidade que tinha acabado de ver à direita e à esquerda no Chile pensaria que me tinha enganado no relatório. Mas não, era mesmo à democracia chilena que eram dirigidos aqueles remoques.
Resolvi ir ver o que diriam então de Cuba... Ah, lá estava, 72 presos de consciência, ou seja, presos políticos, e que sim, que havia problemas com a liberdade de expressão em Cuba. Parece que a AI não considera que Cuba seja uma ditadura e que manter um regime ditatorial não é, por si só, um crime nojento contra os direitos humanos. E para que não haja muitas perguntas é adiantado que "the embargo by the USA against Cuba continued to contribute to a climate in which fundamental rights were denied". Assim mesmo. Fiquei elucidado.
Depois disto, esperavam-me ainda as declarações do juiz Garzón que afirmou que os processos contra Pinochet não seriam encerrados. Tinha aprendido que a responsabilidade criminal terminava com a morte. Mas não, segundo Garzón. Já que assim pensa, o melhor, no entanto, é começar por casa: à esquerda e á direita e já que a morte não é obstáculo, não faltam motivos para inquéritos. É evidente que isso pode não ser muito conveniente, mas onde estão em causa princípios... Querendo continuar a fazer justiça no estrangeiro tem Cuba. Estão ainda todos vivos, ou quase. Quer nomes? Basta ler o diário oficial da ditadura cubana.

domingo, dezembro 10, 2006

Há horas, hoje à tarde, tinha lido um artigo que levantava a hipótese de todos os recentes acidentes clínicos de Pinochet serem um expediente para se livrar da justiça. Não eram, morreu. Talvez com o fito único de contrariar esta análise arguta, mas morreu.
Eu detesto ditadores e ditaduras e lamento que Pinochet não tenha prestado contas ao seu povo.
O que logo me irritou quando soube da morte, devo confessar, é que muitos daqueles que nos próximos dias lamentarão que Pinochet tenha morrido sem ter comparecido perante um tribunal, sejam os mesmos que se permitirão, sem qualquer pejo, com aquela desonestidade intelectual que lhes é tão peculiar quanto a impunidade em que se julgam investidos, chorar a morte doutro ditador, o octagenário e sanguinário Castro que, ao contrário de Pinochet, não se afastou do poder para permitir a transição para a democracia, é responsável por milhares de mortes, prisões e torturas, instrumentos ainda agora habituais num regime tão cruel que até o stalinista Saramago se sentiu no dever de se demarcar daquele horror, do que é feito diariamente àquele Povo oprimido, dividido, postrado na pobreza, enquanto os chilenos vivem numa democracia cada dia mais forte e constituem o mais rico país da América do Sul.

E já agora, se bem que não seja muito vulgar formular desejos nestas ocasiões, que Castro, pelo menos Castro, ainda venha a ser julgado pelos seus crimes e os do seu regime.
Porque nao há boas e más vítimas.
A nitidez azul e fria, dourada, o frio branco, ao longe olivais e verde, montes e outeiros e o vale, lugarejos a brilharem ao sol, o silêncio muito sossegado - isto é conselheiral, como ensinava Eça que era - mas gosto de escrever assim a lindeza deste dia.

sábado, dezembro 09, 2006

Na RTP 2, Mel Ferrer e Stewart Granger batem-se em duelo no Scaramouche. Não me lembro já bem do filme, que se passa no início da revolução francesa. Dessas alturas ficou-me na memória o Scarlat Pimpernell, de 1934, e que devo ter visto na televisão quando tinha dez ou onze anos e seguido, talvez, da leitura do livro de Orczy, antes dos muitos Dumas. Sei que, nas ingenuidades de uma infância ingénua, me lastimei por já não se viverem tempos em que se pudesse ser espião em Paris ou noutra capital e se pudessem salvar senhoras e demais gente inocente das garras dos robespierres. Estava, infelizmente, muito enganado...
Os francesas foram apenas os primeiros: os revolucionários estrearam o genocídio na contemporaneidade, já que as pessoas eram executadas, não por actos que tivessem cometido mas por, meramente, pertencerem a uma classe social, classe de que se pretendia a extinção em nome do "avanço da civilização" e a estas mortes matutinas, logo ao raiar da razão, seguiram-se milhões e milhões de outras, até aos nosso dias. Tanto estas, da aristocracia francesa, no já longínquo século XVIII, quanto as dos milhões dos desgraçadas imolados ao sentido da história - lembro-me da revolução russa, do leninismo e do stalinismo em épocas mais recentes - tiveram as cumplicidades comissivas e omissivas necessárias e os apoios entusiásticos de pessoas de bem que se permitiam insultar os reaccionários Scarlat Pimpernell que não sabiam ler o futuro e simpatizavam pouco com carnificinas.
Não sei a quem ou a quê agradecer ter preferido sempre o reaccionário, destemido e sensato herói inglês às robesperrianas virtudes e clarividência jacobinas e marxistas; à pimpinela, que sempre foi usada para quebrar encantos e quebrantos e a aguçar os sentidos? A Merle Oberon, Lady Blakeney, a mulher de Pimpinela? Não sei, mas todos os dias agradeço o cepticismo.

Tem medo de, apesar das boas intenções modestas - as menos letais - não ser um bom Scarlet Pimpernell? Verifique aqui

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Nossa Senhora da Conceição
(Esta imagem é o timbre de umas armas onde aparece o Terreiro do Paço e, nele, a torre onde, creio, estava um dos Relógios Falantes de D. Francisco Manuel de Mello)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Pearl Harbour, 7 de Dezembro de 1941
Há 65 anos, sem prévia declaração de guerra, o Império Japonês atacou as bases navais norte-americanas no Hawai. Esse acto desencadeou a entrada na II Guerra Mundial dos Estados Unidos da América, ao lado da Grã-Bretanha. A República Francesa tinha-se rendido sem combate e a ex-URSS assinara um pacto de não-agressão com a Alemanha nazi que vigorou até Junho de 41, cinco meses antes deste ataque (o pacto entre os dois regimes totalitários e anti-democráticos teve, entre outras consequências, a de tornar ainda mais cruel o bombardeamento de Londres: a ex-URSS forneceu aos Alemães matérias-primas para a construção de aviões de combate e de bombas e outras munições).

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Cara Charlotte, a mim assim me parecia, mesmo sem lobrigar ómega algum, mas quem sou eu para afrontar as subtilezas do grego de Péricles?
Muito obrigado!
Passei o fim de tarde entre Mme Chauchat - o google, onde procurei uma tela com um retrato imaginário, devolveu-me uma marca de metrelhadoras da I Guerra... - e Mme. Colombe. Pobre e amada (muito) Mme Chauchat comparada à femme Colombe. De novo, ainda, a ideia de que há um Jacinto na Montanha Mágica quando reli nas palavras de Mann que é preciso sofrer e morrer para viver.
Mas a divagação começou ainda antes: com o Caso Litvinenko, russo como Madame Chauchat, lá das distantes estepes onde a vontade e o bravio pulsam num imaculado excesso e o veneno mais insidioso e a crueldade sem tremor são o incompreendido coup de grâce para essa desmesura que, por medo, fingimos ser-nos já insuportável.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

4 de Dezembro de 1980

Depois da escolha que, em 1975, os portugueses fizeram de um Portugal europeu, era preciso que alguém o modernizasse. Essa tarefa consistia em tudo fazer para proporcionar a existência de uma sociedade civil que não dependesse do estado e, por isso, que este último, autoritário, intervencionista, burocrata, fosse reformado, reduzindo-se o seu papel na vida dos portugueses.
O homem para fazer isto era, sempre acreditei, Sá Carneiro e a AD, com o CDS de Amaro da Costa, foi o único projecto político que me entusiasmou.
Há 26 anos que um crime adiou esse país que sonhei. Com a morte de Sá Carneiro e sem que o estado ou o país tivesse sido, no essencial, reformado, temos isto, em que merecidamente estamos.
Onde, entre outras coisas, a morte de um Primeiro-Ministro fica ignóbil e gratuitamente impune.

domingo, dezembro 03, 2006

De passeio pelos blogs: ri com gosto com as reacções ao artigo de JPP. A referência ao elitismo caiu muito mal, por verdadeira que seja. Outra fonte de boa disposição foi o prémio do melhor blog e bloguista (uhm, tenho que tomar uma atitude quanto ao itálico em blog. O uso abundante do itálico provoca-me vertigens, mal de que sofro, convincentemente, desde a mais tenra idade). Apercebi-me, ainda, que está metade deste mundo (deste pequeno mundo dos blogs>) a atribuir, puerilmente, prémios à outra. Quer-me parecer que se trata, no fundo, de uma desculpa para poupanças. Não querem antes trocar presentes? Não?
Nos últimos tempos linkaram o Impensável estes blogs:
O melhor amigo, o Kehillah-or-ahayim, o Vox Impia, o alessandrab, o Nos cornos do bicho, o Small Brother o Mouramorta e o 31 da Armada.

Peço desculpa da demora aos que há mais tempo fizeram o link para o Impensável.
Agradeço, muito obrigado, a todos.

sábado, dezembro 02, 2006

A Charlotte, se e quando por aqui passar e se tiver tempo: o «idiótes» grego, actualmente, homem de espírito curto, ignorante (Priberam) é o idiôtaï, de idios, particular, que Péricles usava para designar quem se alheava da coisa pública - e se criava, por isso mesmo, um estatuto de menoridade?
Se assim é, que má vontade com as particularidades...
Que tarde é já!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

E falta lembrar a manhã, a manhã do 1º de Dezembro.
A de 1640, não outras, da minha petite histoire, usadas em idas a Badajoz para compras de los puros.
Ainda ontem, descobri que, pela segunda vez, reproduzi no blog o início de Moby Dick. Não vejo, porém, inconveniente, várias vezes reli - por estas alturas do ano - aquela abertura e este ano não, por não ter encontrado o livro. Assim fica aqui no blog mais à mão, como devia ter estado o livro. Por onde andará?
Um outro livro que, durante anos, gostava de reler por estas alturas era "O Monte dos Vendavais". Descobri, depois, que Novembro era a altura errada para o ler, por ser tempo no geral muito quedo e igual, que lhe calhavam melhor as ventanias de Fevereiro, ainda invernosas, onde há já pressentimentos - ia fazer um calembourg com Précis de décomposition, ficaria pressentimentos de decomposição - por ser disso que, penso agora, o livro trata desde a primeira página: de decompor.
En passant: Cioran era um admirador de Emily Bronte.
Pessoa, Eça - deste, o nascimento - e Proust, também a morte em Novembro, e de que este ano me lembrei.
Depois de ter feito o post da morte de F.P., a notícia das festas e músicas e luminárias na Casa Fernando Pessoa não pôde deixar de me pôr a pensar o que fazem génios, a gente que eles alimentam (literalmente falando), tendo tido os próprios - no caso dos portugueses Pessoa e Eça - vidas de algum aperto financeiro. Hoje há famílias, algumas delas regularmente constituídas, com despesas ordeiras de colégios de meninos, empregada, prestações de casa, carro e viagens, que deles retiram muito passavelmente a quase totalidade ou todos os seus proventos.
Eu não tenho nada contra isso, é necessário que alguém - falo dos honestos - os estude e desbrave.
Mas folguedos nos aniversários dos dias das suas mortes é, parece-me, de uma total falta de gosto.
Ontem, 30, fazia também anos que tinha nascido Churchill: festejou o seu 61º aniversário no dia em que Pessoa morreu. Não referi o nascimento para não misturar num post o que a vida mistura: tudo. As palavras do post anterior são as últimas que escreveu o Poeta.

terça-feira, novembro 28, 2006

«Camarate não foi um acidente, Camarate foi um crime que a justiça portuguesa não foi capaz de julgar. Espero que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condene o Estado português ao pagamento simbólico de um euro, e que esse euro encerre uma severa condenação moral ao Estado português que não foi capaz de levar Camarate a julgamento»
Li agora. Quem assim fala é o Advogado Dr. Ricardo Sá Fernandes.
O Impensavel alegra-se com a notícia e espera que a condenação seja severa.
Não deve, no entanto, ser simbólica: deve ser pesada, embora o dinheiro para a pagar saia dos nossos bolsos. Mas mesmo assim...
Mais: dever-se-ia apurar os responsáveis por no processo nunca ter sido deduzida qualquer acusação, aos quais seria apontada a rua, para onde iriam, com penalizações de pensões, etc.
Enquanto a impunidade durar - e, eventualmente, compensar - pouco ou nada mudará.
Millet, "Bergère et son tropeau", esquisse

Curioso efeito da intempérie: a chuva, as humidades, o suão, tudo parece fazer reviver a minha empalidecida francofilia.

Il pleut, il pleut, Bergère
(ou L'Orage)

Il pleut, il pleut, bergère,
Presse tes blancs moutons,
Allons sous ma chaumière,
Bergère, vite, allons;
J'entends sur le feuillage,
L'eau qui tombe à grand bruit:
Voici, voici l'orage;
Voilà l'éclair qui luit.

Entends-tu le tonnerre ?
Il roule en approchant ;
Prends un abri, bergère,
A ma droite, en marchant.
Je vois notre cabane...
Et, tiens, voici venir
Ma mère et ma soeur Anne,
Qui vont l'étable ouvrir.

Bonsoir, bonsoir, ma mère ;
Ma soeur Anne, bonsoir ;
J'amène ma bergère
Près de vous pour ce soir.
Va te sécher, ma mie,
Auprès de nos tisons.
Soeur, fais-lui compagnie.
Entrez, petits moutons.

Soignons bien, ô ma mère,
Son tant joli troupeau ;
Donnez plus de litière
A son petit agneau.
C'est fait. Allons près d'elle.
Eh bien ! Donc te voilà !
En corset qu'elle est belle !
Ma mère voyez-la

Soupons, prends cette chaise
Tu seras près de moi ;
Ce flambeau de mélèze
Brûlera devant toi ;
Goûte de ce laitage ;
Mais tu ne mange pas ?
Tu te sens de l'orage.
Il a lassé tes pas.

Eh bien ! Voilà ta couche
Dors-y jusques au jour ;
Sur ton front pur, ma bouche
Prend un baiser d'amour.
Ne rougis pas, bergère,
Ma mère et moi, demain,
Nous irons chez ton père
Lui demander ta main.

Fabre d'Eglantine
(guilhotinado em 5 de Abril de 1794 ou, conforme os nomes
que inventou para crismar os meses novos, a 17 de Germinal
)

domingo, novembro 26, 2006

Resto de post:........................................................................ «Imparcial como o destino» dizia Puchkine e é essa indiferença neutra - suprema ofensa - que, em Portugal, cria idades de ouro e pequenas tristezas nebulosas, fertéis, recompensadoras.
Antes isso que a desilusão nítida, imparcial, justa, estéril, muda. Antes esse infinito enquanto dure de Vinícius ao sapiencial desencanto de sabermos ser meramente assim: que o fim seja sempre triste, felizmente.

sábado, novembro 25, 2006


Dia Santo de guarda: há 161 anos, em 25 de Novembro de 1845, nascia
José Maria de Eça de Queiroz

sexta-feira, novembro 24, 2006

Que dia! Há muito tempo que não estava um tempo tão mau. Eu, preocupado com beiras, vigio, diligentemente, depois de ter avisado o Senhor João para estar de prevenção, que podia ter que vir cá de um momento para o outro. Até agora, nada, mas a ventania continua.
Eu gosto da fúria dos elementos, sofisticação de provinciano e, pacato, da mais-valia de conforto que é senti-la através do aroma das torradas e do chá mas, com tantas preocupações de ordem material (as malditas beiras - que nem sequer são beiras decentes, centenárias) não consigo concentrar-me na contemplação da natureza, de a desfrutar, como tudo se dizia - e sentia - deveras noutros tempos.

Umbrella
Moma, NY
Telefonou-me a minha empregada a dizer que "assim ficava em casa" se eu não me importasse - piedade tocante para me fazer crer que dissera eu outra coisa mais de acordo com as necessidades da minha comodidada e tal teria sido levado em conta e talvez mesmo pesado numa decisão que não fosse a de se pôr a salvo deste temporal desfeito. Disse-lhe que sim, que com certeza, que fazia muito bem. E percebo-a, de facto, isto está medonho. Mas e se os médicos e os... e os... e os... pensasssem do mesmo modo? Vai ser esta a linha do meu discurso - que pretendo subtil, conquanto firme -, segunda-feira, assim que ela chegue - se o tempo já estiver melhorzinho e ela se resolver, finalmente, a sair de casa.

P.S. Um parente meu, apanhado num "haviam" e afectuosa mas prontamente denunciado por mim, destinatário do mail que o continha, apresentou as suas imediatas e enfiadas desculpas. Ontem, tendo aparecido para tomar café, deixou cair, com ar casual, "a propósito do outro dia" que Camilo e Machado de Assis tinham caído no mesmo erro.
Dei-lhe os parabéns pela companhia ilustre.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Sempre pensei isso, que
"Life is never fair...And perhaps it is a good thing for most of us that it is not."
Oscar Wilde in “An Ideal Husband”
E muita da minha actividade consiste no cultivo e gestão de circunstâncias atenuantes, para o caso - não esperado - de um acesso de fair play divino.

terça-feira, novembro 21, 2006


Robert Rauschenberg
De uma passeata pelos blogs e universos adjacentes ficou-me a impressão que a palavra «ochlocracy» vai entrar na moda. Diria mesmo que vai manter, em aportuguesamentos que dela se farão, aquela sequência estranha de consoantes "chl" que parece pertencer a uma happy few loção do século XIX, enquanto o português "ocl" nos remete para aflições em vísceras infectas e urgências sobrelotadas. Desmancha-prazeres que sou, é só para dizer que «ochlocracy» em português se escreve mesmo oclocracia. Fica feiote mas é assim mesmo.
Entretanto, como estamos ainda nos tempos heróicos do uso da palavra, uma citação de Mencken sobre a oclocracia ou, como dirão os blogs portugueses, ochlocracy (ou ochlocracia):

«The practical politician, as every connoisseur of ochlocracy knows, is not a man who seeks to inoculate the innumerable caravan of voters with new ideas; he is a man who seeks to search out and prick into energy the basic ideas that are already in them, and to turn the resultant effervescence of emotion to his own uses.
in "The American Credo" de Mencken

segunda-feira, novembro 20, 2006

Fui ver o Almocreve e encontrei a prosa de Vasco Pulido Valente de quem tinha procurado, momentos antes, em vão, o "Glória" para oferecer em acção civilizadora (do meu exemplar, é escusado dizer, não me desfaço).
Mas era só para dizer que, desde a leitura gloriosa, a tragédia de Vieira de Castro me parece poder ter sido uma das fontes do "Alves & Cia", de Eça.
Alves, o Alves, apesar de Godofredo, ao contrário de Vieira de Castro, compreendeu. Compreendeu que a época era a da vitória definitiva da pacatez, da impossibilidade da aplicação de códigos de honra ultrapassados fora dos dramas representados e dos folhetins de capa e espada lidos e apreciados, uns e outros despedidas já tardias dos tempos da heroicidade romântica em questões de ménage - e, no geral, em todas as questões. O Godofredo Alves que sacrifica à pax doméstica e ao conforto moderno e a eles acaba por oferecer os pontos de honra - para não falar de sa petite doute - é o que Vieira não soube ser: um vitorioso. Um vitorioso sensato.

domingo, novembro 19, 2006

Acordar muito agradável. O dia está bonito, entre o nebuloso e o solarengo. Resolvi levantar-me, tomar um café. Agora estou à camilha e leio alguns blogs. Comecei pelo Abrupto . He cares! Como aquele homem genuinamente se preocupa connosco, quanto quer que pensemos bem, quanto nos quer salvar da falácia, das más decisões, quanto nos dá bons conselhos! E quanto é genuína nele essa preocupação paternalista... Admoesta-nos num post em forma de "eu bem tinha dito" sobre Santana Lopes, já que o livro parece confirmar com firmeza as suspeitas da leviandade pensadora do ex-estadista. Ora, eu fui daqueles a ter pensado que, dado ninguém fazer as reformas necessárias e a modificar o essencial, um governo de Santana não apenas não seria mais gravoso que qualquer outro quanto poderia surpreender numa ou noutra medida - além de proporcionar algum divertimento. Não foi assim, houve - ou fizerem crer que houve - demasiada trapalhice.
Mas, e isto é o que conta, expurgado o governo do play-ministrismo, em termos de resultados finais, o país continua a empobrecer e a afastar-se da média europeia com Sócrates - que não tem coragem para reformas necessárias e é mentirozeco e ridículo.
Ou seja, a trapalhice, a cobardia e a ineficácia continuam, só que com catadura sisuda, e por isso, aceitáveis, por serem o habitual.
Quando formos ultrapassados pela República de Malta no ranking dos países da UE avisem-me.

sábado, novembro 18, 2006

Marcel Proust

10 de Julho 1871 - 18 de Novembro de 1922

No dizer de Eça de Queiróz: «Je suis poussif», este week-end, estes últimos tempos.
Falta de vento noroeste ou de um nordeste frio, enxuto, limpído?

sexta-feira, novembro 17, 2006

The hour of the soul

At the deep hour of the soul,
Deep hour - nocturnal...
(Gigantic stride of the soul,
Soul in night's hold.)

At that hour, soul, rule all
The worlds you will
To govern - palaces of soul,
Soul, rule them all.

Make rusty your lips, with snow
Powder your lashes
(Atlantic sigh of soul,
Soul in night's hold...)

Soul, with darkness kohl
The eyes where like Vega
You arise...Of sweetest fruit
Make bitter gall.

Make bitter, dark as coal.
Grow great: and rule.

Marina Tsvetaeva
8 August 1923

Tradução do russo de David McDuff

quarta-feira, novembro 15, 2006

Os restos de um dia de chuva

(...) " Mas temo que a alusão às minhas páginas que leu contenha um mal-entendido. A lembrança [souvenir] a que dou tanta importância não é, de modo algum, o que se chama geralmente assim. A atitude de um dilettante que se contenta em encantar-se com a lembrança das coisas é a contrária da minha. Não que teoricamente, com premeditação, eu tenha constituído a esse respeito un sistema. Nada em mim de mais inconsciente. Mas assim como lendo Stendahl, Thomas Hardy, Balzac realcei, com o intelecto, os traços profundos dos seus instintos que eu gostaria de desenhar por isso nunca ter sido feito se esse tempo me fosse ainda concedido - do mesmo modo lendo-me a mim mesmo determinei imediatamente os traços constitutivos do meu inconsciente. [...] Posso dizer que a lembrança de Dostoïewski, Tolstoï (compreenda bem que quando cito estes grandes nomes não é para me igualar a eles! nem mesmo para deles me aproximar mil léguas!) o «ele deveria mais tarde lembrar-se sempre do momento em que tinha reparado nesta porta» é ainda qualquer coisa de extremamente contingente e acidental relativamente à «minha» lembrança, na qual, encontrando-se modificados todos os elementos materiais constitutivos da impressão anterior, a lembrança, do ponto de vista do inconsciente, toma a mesma generalidade, a mesma força de realidade superior que a lei em física, pela variação das ciscunstâncias . É um acto e não uma voluptuosidade passiva. De resto, a noção de prazer não existe para mim. Não que a minha vida seja desprovida de prazeres como se crê mas como não o procuro apenas acompanha o amor ardente que eu tenho pelas coisas e que talvez, com efeito, esteja um pouco sobreexcitado pela privação. Desculpe o meu estado de esgotamento que se traduz por um balbuciamento espiritual que eu devia evitar a uma inteligência como a sua " (...)

Marcel Proust, Carta a Jacques Copeau, 22 Maio 1913 in "Marcel Proust, Lettres", pg. 616
Paris, Plon 2004
Tradução impensável

terça-feira, novembro 14, 2006


E mandaram cá estes Chrisanthèmes que Renoir anotou tão bem.
Merci bien, veuillez agréer mes hommages les plus respectueux.
O telefonema, nham nham, nham lembrar que tem consulta de dentista às 16 h 30 e nham nhsm. Argh, odeio aquela voz.
Precisava de uns chrysanthèmes aqui, uma exposição deles por inaugurar era útil ou, em substituição, a letra do J'arrive do Brel, mais.... je ne sais pas, não me decido e é tarde. Há exposições de chrisanthèmes no Tintin, mas encontrá-las é difícil.
Começa a fazer frio. Fica assim, sem chrysanthèmes - uma palavra complicada, parece de uma dictée - mas os chrisanthèmes também não são flores simples, está uma coisa para a outra.
Vou dormir, fica assim, despojado, monacal, medievo-minimal.

segunda-feira, novembro 13, 2006

O tempo todo foi já criado e, todo já existente, estas manhãs, as tardes calmas, são pura eternidade, não matéria ou pretexto para alegorias dela.

Com sinceridade o digo: é o que penso neste meu pequenino momento teen.

E la nave va

quinta-feira, novembro 09, 2006

«Las revoluciones, tan incontinentes en su prisa, hipócritamente generosa, de proclamar derechos, han violado siempre, hollado y roto, el derecho fundamental del hombre, tan fundamental que es la definición misma de su sustancia: el derecho a la continuidad.»
Ortega y Gasset
Não tinha o Misantropo nos meus blogs logo ali à mão de semear.
Esquecimento? Preguiça? Fica o assunto resolvido.

quarta-feira, novembro 08, 2006

"Que os liberais acéfalos queiram acabar com a arte e cultura que não se pagam a si e que não tenham necessidade de ópera estatal, de boa música, de bailado, de cinema independente com ajuda pública, ou apoios para as artes visuais, etc, etc"

Eu, que sou conservador (mais, talvez, do que liberal; aliás, o que significa isso em Portugal?) vejo-me em palpos de aranha para saber a que título tenho de subsidiar as idas à opera, a um concerto ou a um bailado, de meia dúzia de senhores e senhoras da classe alta e média-alta, A, AB e B, como se diz agora - de Lisboa (e Porto) que não quer pagar o preço elevado desses espectáculos que nem sequer ou muito raramente saem - e podiam sair? - dessas cidades. Se o ilustre Crítico barafustasse sobre as maleitas do ensino de música, a falta de ensino de música a sério, que me parece ser o que o estado devia fazer e não faz, concordava. Mas subsididar espectáculos? Há um episódio inteligente do "Yes, Minister", a respeito das subvenções estatais à ópera que expõe os problemas muito pertinentes da questão (alguns relacionadas com esta maçada da democracia) num tom que não é totalmente boçal e saloio. Eu, se vivesse em Lisboa, também ia a S. Carlos, claro está - de que fui frequentador há uns anos largos e a preços ultra-subsidiados - mas sou português, o que significa que posso dizer uma coisa e, de imediato, o seu contrário e fazer ainda uma outra "não sim, mas talvez: olhem, afinal sempre vou" que é a formulação de um princípio da lógica nacional (o princípio do terceiro incluído*).
Ah, não percebo é o cinema independente. Independente de quê? Espero que do meu bolso... O melhor cinema que vi foi independente do meu bolso, desde John Ford a Howard Hanks, Lubitsch, a Hitchcock, a... É isso? É essa independência? Mas, além do meu bolso, esses eram, afinal, independentes de quem e de quê?

* Há quem fale a sério (?) em tal princípio, lá fora, em algumas faculdades. Quem quiser pode divertir-se aqui
Profilaxia do génio
O início de Moby Dick do post anterior pode ser usado também, com vantagem e ganho gerais, para evitar o derramamento indiscriminado da palavra "génio" nos blogs. Sempre que nos sintamos na tentação de achar aquele post daquele blog uma coisa genial, aproveitemos aquele litoral refrescante para arejar o discernimento.

terça-feira, novembro 07, 2006

O excesso de chuva substituiu-se aos nevoeiros das noites destes tempos muito quietos de Novembro. São esses, não estes, de temporal, que me fazem lembrar o mais belo começo de livro que já li. Todos os anos, durante aquela altura da vida em que gostamos de notar em nós a persistência dos hábitos, quando nada ainda está perdido por nada estar ainda definitivamente indagado ou resolvido, quando ainda há surpresas a esperar, de nós e dos outros, todos os anos, nos começos de Novembro reparava na lombada, que nesta altura do ano, pela tarde o sol ilumina, e pegava no primeiro volume, onde estes meus dias de agora,os destes cinzentos decénios sem redenção, desciam como uma ameaça sobre o sobrolho de um rapazola decidido a não se deixar abater. E lia, com a calma e lentidão de um pressentimento indesmentível, tal como se eu fora ele e encomendasse a minha alma a um deus paciente e vasto quanto um oceano:

"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upperhand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me."

Herman Melville, Moby Dick

segunda-feira, novembro 06, 2006

O Impensável, coitado, tem sobrevido nem sei como... e no Verão passado tinha quase decidido, pouco antes de chegar a Kristiansand, acabar com ele, cruenta decisão, postas as coisas assim, mas de puro bom senso escandinavo; infelizmente, no afã de aproveitar todo o tempo de paragem na reposição do teor de nicotina indispensável à manutenção dos feixes nervosos do pacato autor destas linhas, esqueci. E esquecida a decisão, continuei-o. Mas está baço e anquilosado (não aparece clara a relação entre o relato desta vontade enxantemática de acabar com o Impensável e o que se seguirá, e que vem a ser um agradecimento que queria o seu quê dúbio - se o sono me não condenasse à clareza - mas ela, a relaçao, lá há-de estar e a acharei). É tardíssimo e isto mete links, continuo: no outro dia fui ver os blogs e neste teciam-se elogios ao Pastoral Portuguesa e fui ver. E era bom, bem escrito (quanto a mim, demasiado bem escrito, a prosa é preciso, por vezes, que empape bem em conjunções e orações subordinadas para que ganhe texturas, poeiras, grânulos que sirvam de alimento às aves). Dizia? Ah, e vi a história de Alistair Crump e, à minha frente o que tinha? Um mail que imprimira dez minutos antes, de um amigo meu que nasceu, já se sabe, em Edimburgo! Nem na província de há 35 anos atrás, dizem, se aterrorizavam assim os incréus com tal correnteza de coincidências! O blog, dito isto, pu-lo na minha lista dos mais à mão.
Ontem - ou anteontem. E reparei ontem que este blog estava mencionado no Pastoral com o sacro e herético nome, de Ámen Pélvis. Com o tempo chuvoso, as comissuras espásticas da humidade, poupei o sorriso. Mas agradeço.

domingo, novembro 05, 2006

The little boy lost in the lonely fen,
Led by the wand'ring light,
Began to cry, but God ever nigh,
Appear'd like his father in white.

He kissed the child and by the hand led
And to his mother brought,
Who in sorrow pale, thro' the lonely dale,
Her little boy weeping sought.

William Blake 1757-1827

sexta-feira, novembro 03, 2006

Interior da Havaneza, Agosto de 2005
Soube agora que fechou a Havaneza, a minha tão amada Livraria Casa Havaneza da Figueira da Foz!
Que tristeza!
A Havaneza era um dos poucos sítios decentes deste país: assim vai acabando o que era bom e digno. Fica o que esta gentalha medonha sustenta e os lugares com a calma e aristocrática dignidade da Havaneza, feitos de tempo e memória, estão condenados.
Que tristeza, que amargura!

quinta-feira, novembro 02, 2006

Estou a ler "A queda de Roma e o Fim da Civilização" do Ward-Perkins e pensei neste novo mercado aberto pelos diversos revisionismos: o de nos sossegar sobre a justeza das nossas certezas de juventude: sim, a queda do Império Romano foi mesmo violenta, terrível, sim foi mesmo o fim da civilização, tal qual a Europa conhecia. Sim, como me tinham dito quando eu tinha não sei quantos poucos anos.
Serviço Público:
Veio alguém aqui parar, via google - não a hoje, mas a Outubro de há 3 anos, por causa e busca das queijadas de Pereira.
Ora vejamos, se veio em demanda da receita que pensa ser a original por julgar que é saudosismo o não lhe saberem agora ao que lhe sabiam em criança (se foi criança num decénio decente do século passado), tenho a solução: há uns tempos, depois da vendedora perceber que estava perante um guloso da velha guarda que objectava a todos os «que eram assim mesmo, sempre foram», e lhes opunha um não inexplicado mas veemente, veio a solução honesta e, creio, saudosa: «é o leite». Sim, ela acabou por confessar que o leite usado na feitura das queijadas de Pereira era dantes bom leite de ovelha e hoje é industrial e de vaca. E dessas antigas de que me lembro, já ninguém faz. «E é dessas que o senhor se lembra, é por isso; o resto é tudo como era». Pois é, o resto é igual.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Assunto resolvido.
Acabei por ser acordado, antes da hora a que tencionava levantar-me, pelas criancinhas que pediam os bolinhos. O meu amor às tradições vacilou.
O almoço foi agradável, conhecia toda a gente da minha mesa, a falta de novidade foi compensada pelo tom mais íntimo. Discutiram-se dietas e experiências com dietistas, dos mais conhecidos aos de vão de escada. Ouvi atentamente e alvitrei animadamente segundas opiniões aos casos mais renitentes mas, de vez em quando, o sono aparecia.
Espero que o próximo almoço seja um jantar.