domingo, dezembro 17, 2006

É com um imenso orgulho que o autor deste blog anuncia que foi um dos co-nomeados "Person of the Year" pela muito prestigiada revista Time, tornando-se, com tal nomeação, membro de um exclusivo club onde, entre outras personalidades, figuram os Papas João Paulo II e João XXIII, Wiston Churchill ou Lindbergh.
Agradeço, comovido.

P.S. A única ambição que dá frutos - desde logo o de nos pôr a salvo dos numerosos ridículos em que se enredam as ambições sensatas - é a absolutamente desmedida.
Não se sabe para onde vai dar aquela estrada de bermas mal cuidadas, por entre a mata.

sábado, dezembro 16, 2006

Edward Hopper, Gas , 1940

Era o ser de olhar duplo, contemplando
O reino a que pertence e o seu etéreo
Desdobramento anímico; e, por isso
Olhava as duas faces do Mistério.

Teixeira de Pascoaes, Marânus

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não devem deixar de ter o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.

E, corrigido, Cara Charlotte, parece menos uma má frase de um mau manual de instruções:

Emendo posts que releio. Às vezes são meros erros de dactilografia, outros por não estar bem assim, por me parecer - e estar - abstruso e emendo pela mera irritação de não querer aquilo. Outros posts, deveria apagá-los: as palavras, por escritas, não perdem o direito ao momentâneo, a serem coisas breves e desde logo semi-esquecidas.
Sem deve deve, sem deve deixar.
A contenção, feita da percepção de que há limites intransponíveis e transpô-los é abdicar o que cremos (sim, transitivo directo) e nos cimenta: há coisas que não se fazem, sítios onde se não vai, há coisas que não se podem ter.
É simples, nada de complicado.

Mudando de assunto: aquilo da "ERC" reguladora não sei quê, quem é aquela gente, quem os nomeou?

quinta-feira, dezembro 14, 2006

La douce France

Os franceses , 25% dos franceses, um quarto dos franceses, dizem-se de acordo com as ideias de Le Pen e o número de gauleses frontalmente em desacordo com a xenofobia e demais delírios daquele político desceu para 70%.
Faz ternura ver este progresso da Republique Française e tenho pena de não ter por aí um pedacinho de Marselhesa para honrar a façanha da republicana Frente Nacional.
Mas tudo isto, claro, que não é totalmente agradável, é obra dos USA, a quem devem ser atribuídas as responsabilidades habituais, como culpado de serviço.

«`All right,' said the Cat; and this time it vanished quite slowly, beginning with the end of the tail, and ending with the grin, which remained some time after the rest of it had gone. »

Um físico nuclear ilustrou uma partícula subatómica furtiva e o seu quê duvidosa com a careta do gato de Chishere que remained some time after the rest of it had gone. Interessante e subtil.
Alice foi um bom presente, e creio que se esqueceram de mim a seguir, li o livro várias vezes sem interferências, saboreando todo o non-sense.
A gravura é de Sir John Tenniel, o ilustrador das primeira edições de Alice

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Não sei se aquela coisa dos blogs está a funcionar bem mas foi por acaso que descobri - agora - que o Pé de meia e o Estudo Casos linkaram o Impensavel, que, muito obrigado, agradece.
Cara Charlotte, muito obrigado pela sua investigação, tão longe. Sempre me convenci que os pacifistas eram idiotas e vejo que a minha convicção estava - também - etimologicamente certa.
Tem razão quanto ao Miguel Esteves Cardoso, faz bem, é medicinal e eu, que não acho muito simpático em Portugal dizer bem de alguém (origina sempre maçadas para o elogiado) não resisti a um post de agradecimento. E a este.
Gostei de rever o Miguel Esteves Cardoso: está anafado (dos poucos que o estão mais do que eu), encanecido (também mais do que eu) e repara-se que nunca leu Eça com atenção - o que lamento. Além disto, continua inteligente, perspicaz, divertido e com aquele ar de felicidade tão raro de encontrar que suspeito que é verdadeiro.
Muito agradável o programa! E foi por indicação daqui, de um blog. Agradeço.

terça-feira, dezembro 12, 2006

«Sabe ele o seu francês?» - Sabia. Aos oito anos já me impingiam livros em francês - sim, um deles o Petit Prince - e sabia canções francesas. Uma delas, o "Au clair de la lune", que se cantava, também, nas aulas de francês. Soube ontem que a cançãozinha tão doce é uma daquelas cançonetas francesas: sim, é uma canção licenciosa, cheia de duplos sentidos, de alçapões para a inocência! Por um momento - em nome da honestidade declaro que brevíssimo -fiquei indignado, senti-me roubado na candura dos meus gorjeios diligentes e com accent caprichado. Depois, a indignação foi evoluíndo, tornou-se difusa, inebriante e ri com gosto, por essa partida pregada à francofilia lusa.
Max Ernst, Ein Mond ist guter Dinge, 1970, serigrafia

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Refrigério

Depois do espectáculo dos «double standards» quanto a ditadores, foi com alegria que vi apupado por estudantes o presidente do Irão, em nome de exigência de democracia. Sabendo que as consequências de tais protestos num regime daquele jaez se poderão traduzir em medidas fortemente desagradáveis para os manifestantes (ao contrário dos que se manifestam a favor do fundamentalismo muçulmano nas capitais ocidentais, que nada têm a temer) é bom saber que a democracia pode ser desejada por esse mundo fora e que há quem se disponha a pagar um preço por isso.
Resolvi pôr-me a caminho do Chile. Não para assistir ao enterro do antigo ditador, mas para ver como está aquela gente. Democracia, têm. Liberdade de expressão, idem - li vários jornais de opiniões diferentes e divergentes. Crescimento económico, também, e num grau que, confesso, me deixou um pouco invejoso ou, pelo menos, entristecido por aqui não ser asssim. Santiago do Chile pareceu-me uma cidade moderna, próspera, cosmopolita, elegante, com aquele ar de quem está bem na vida e que a mim, nado em Lisboa, me fez pensar na cidade suja e avelhentada, quase maltrapilha, que é hoje a capital portuguesa.
Depois deste primeiro olhar sobre o Chile espreitei os blogs chilenos: muitos e diversos. Conclui que os chilenos não estão mal.
Fui ainda ao site da Amnistia Internacional. E aí, fiquei estupefacto: aquela organização, reconhecendo que o Chile não tem problemas de direitos humanos de maior aconselhava, no entanto e energicamente, o governo da democracia chilena a incentivar os demais direitos para além dos já existentes e que são os comuns das democracias. Pareceu-me que se imiscuia em assuntos internos de um povo soberano, mas enfim... A preocupação principal era com uma greve de fome de quatro condenados por terrorismo e que tinham sido alimentados à força num hospital. Ah, e indignava-se muito por o Supremo Tribunal do Chile democrático ter considerado que as investigações devem ter prazos... Bem, mas não fora aquele indisfarçável e inimitável ar de prosperidade que tinha acabado de ver à direita e à esquerda no Chile pensaria que me tinha enganado no relatório. Mas não, era mesmo à democracia chilena que eram dirigidos aqueles remoques.
Resolvi ir ver o que diriam então de Cuba... Ah, lá estava, 72 presos de consciência, ou seja, presos políticos, e que sim, que havia problemas com a liberdade de expressão em Cuba. Parece que a AI não considera que Cuba seja uma ditadura e que manter um regime ditatorial não é, por si só, um crime nojento contra os direitos humanos. E para que não haja muitas perguntas é adiantado que "the embargo by the USA against Cuba continued to contribute to a climate in which fundamental rights were denied". Assim mesmo. Fiquei elucidado.
Depois disto, esperavam-me ainda as declarações do juiz Garzón que afirmou que os processos contra Pinochet não seriam encerrados. Tinha aprendido que a responsabilidade criminal terminava com a morte. Mas não, segundo Garzón. Já que assim pensa, o melhor, no entanto, é começar por casa: à esquerda e á direita e já que a morte não é obstáculo, não faltam motivos para inquéritos. É evidente que isso pode não ser muito conveniente, mas onde estão em causa princípios... Querendo continuar a fazer justiça no estrangeiro tem Cuba. Estão ainda todos vivos, ou quase. Quer nomes? Basta ler o diário oficial da ditadura cubana.

domingo, dezembro 10, 2006

Há horas, hoje à tarde, tinha lido um artigo que levantava a hipótese de todos os recentes acidentes clínicos de Pinochet serem um expediente para se livrar da justiça. Não eram, morreu. Talvez com o fito único de contrariar esta análise arguta, mas morreu.
Eu detesto ditadores e ditaduras e lamento que Pinochet não tenha prestado contas ao seu povo.
O que logo me irritou quando soube da morte, devo confessar, é que muitos daqueles que nos próximos dias lamentarão que Pinochet tenha morrido sem ter comparecido perante um tribunal, sejam os mesmos que se permitirão, sem qualquer pejo, com aquela desonestidade intelectual que lhes é tão peculiar quanto a impunidade em que se julgam investidos, chorar a morte doutro ditador, o octagenário e sanguinário Castro que, ao contrário de Pinochet, não se afastou do poder para permitir a transição para a democracia, é responsável por milhares de mortes, prisões e torturas, instrumentos ainda agora habituais num regime tão cruel que até o stalinista Saramago se sentiu no dever de se demarcar daquele horror, do que é feito diariamente àquele Povo oprimido, dividido, postrado na pobreza, enquanto os chilenos vivem numa democracia cada dia mais forte e constituem o mais rico país da América do Sul.

E já agora, se bem que não seja muito vulgar formular desejos nestas ocasiões, que Castro, pelo menos Castro, ainda venha a ser julgado pelos seus crimes e os do seu regime.
Porque nao há boas e más vítimas.
A nitidez azul e fria, dourada, o frio branco, ao longe olivais e verde, montes e outeiros e o vale, lugarejos a brilharem ao sol, o silêncio muito sossegado - isto é conselheiral, como ensinava Eça que era - mas gosto de escrever assim a lindeza deste dia.

sábado, dezembro 09, 2006

Na RTP 2, Mel Ferrer e Stewart Granger batem-se em duelo no Scaramouche. Não me lembro já bem do filme, que se passa no início da revolução francesa. Dessas alturas ficou-me na memória o Scarlat Pimpernell, de 1934, e que devo ter visto na televisão quando tinha dez ou onze anos e seguido, talvez, da leitura do livro de Orczy, antes dos muitos Dumas. Sei que, nas ingenuidades de uma infância ingénua, me lastimei por já não se viverem tempos em que se pudesse ser espião em Paris ou noutra capital e se pudessem salvar senhoras e demais gente inocente das garras dos robespierres. Estava, infelizmente, muito enganado...
Os francesas foram apenas os primeiros: os revolucionários estrearam o genocídio na contemporaneidade, já que as pessoas eram executadas, não por actos que tivessem cometido mas por, meramente, pertencerem a uma classe social, classe de que se pretendia a extinção em nome do "avanço da civilização" e a estas mortes matutinas, logo ao raiar da razão, seguiram-se milhões e milhões de outras, até aos nosso dias. Tanto estas, da aristocracia francesa, no já longínquo século XVIII, quanto as dos milhões dos desgraçadas imolados ao sentido da história - lembro-me da revolução russa, do leninismo e do stalinismo em épocas mais recentes - tiveram as cumplicidades comissivas e omissivas necessárias e os apoios entusiásticos de pessoas de bem que se permitiam insultar os reaccionários Scarlat Pimpernell que não sabiam ler o futuro e simpatizavam pouco com carnificinas.
Não sei a quem ou a quê agradecer ter preferido sempre o reaccionário, destemido e sensato herói inglês às robesperrianas virtudes e clarividência jacobinas e marxistas; à pimpinela, que sempre foi usada para quebrar encantos e quebrantos e a aguçar os sentidos? A Merle Oberon, Lady Blakeney, a mulher de Pimpinela? Não sei, mas todos os dias agradeço o cepticismo.

Tem medo de, apesar das boas intenções modestas - as menos letais - não ser um bom Scarlet Pimpernell? Verifique aqui

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Nossa Senhora da Conceição
(Esta imagem é o timbre de umas armas onde aparece o Terreiro do Paço e, nele, a torre onde, creio, estava um dos Relógios Falantes de D. Francisco Manuel de Mello)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Pearl Harbour, 7 de Dezembro de 1941
Há 65 anos, sem prévia declaração de guerra, o Império Japonês atacou as bases navais norte-americanas no Hawai. Esse acto desencadeou a entrada na II Guerra Mundial dos Estados Unidos da América, ao lado da Grã-Bretanha. A República Francesa tinha-se rendido sem combate e a ex-URSS assinara um pacto de não-agressão com a Alemanha nazi que vigorou até Junho de 41, cinco meses antes deste ataque (o pacto entre os dois regimes totalitários e anti-democráticos teve, entre outras consequências, a de tornar ainda mais cruel o bombardeamento de Londres: a ex-URSS forneceu aos Alemães matérias-primas para a construção de aviões de combate e de bombas e outras munições).