terça-feira, dezembro 12, 2006

«Sabe ele o seu francês?» - Sabia. Aos oito anos já me impingiam livros em francês - sim, um deles o Petit Prince - e sabia canções francesas. Uma delas, o "Au clair de la lune", que se cantava, também, nas aulas de francês. Soube ontem que a cançãozinha tão doce é uma daquelas cançonetas francesas: sim, é uma canção licenciosa, cheia de duplos sentidos, de alçapões para a inocência! Por um momento - em nome da honestidade declaro que brevíssimo -fiquei indignado, senti-me roubado na candura dos meus gorjeios diligentes e com accent caprichado. Depois, a indignação foi evoluíndo, tornou-se difusa, inebriante e ri com gosto, por essa partida pregada à francofilia lusa.
Max Ernst, Ein Mond ist guter Dinge, 1970, serigrafia

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Refrigério

Depois do espectáculo dos «double standards» quanto a ditadores, foi com alegria que vi apupado por estudantes o presidente do Irão, em nome de exigência de democracia. Sabendo que as consequências de tais protestos num regime daquele jaez se poderão traduzir em medidas fortemente desagradáveis para os manifestantes (ao contrário dos que se manifestam a favor do fundamentalismo muçulmano nas capitais ocidentais, que nada têm a temer) é bom saber que a democracia pode ser desejada por esse mundo fora e que há quem se disponha a pagar um preço por isso.
Resolvi pôr-me a caminho do Chile. Não para assistir ao enterro do antigo ditador, mas para ver como está aquela gente. Democracia, têm. Liberdade de expressão, idem - li vários jornais de opiniões diferentes e divergentes. Crescimento económico, também, e num grau que, confesso, me deixou um pouco invejoso ou, pelo menos, entristecido por aqui não ser asssim. Santiago do Chile pareceu-me uma cidade moderna, próspera, cosmopolita, elegante, com aquele ar de quem está bem na vida e que a mim, nado em Lisboa, me fez pensar na cidade suja e avelhentada, quase maltrapilha, que é hoje a capital portuguesa.
Depois deste primeiro olhar sobre o Chile espreitei os blogs chilenos: muitos e diversos. Conclui que os chilenos não estão mal.
Fui ainda ao site da Amnistia Internacional. E aí, fiquei estupefacto: aquela organização, reconhecendo que o Chile não tem problemas de direitos humanos de maior aconselhava, no entanto e energicamente, o governo da democracia chilena a incentivar os demais direitos para além dos já existentes e que são os comuns das democracias. Pareceu-me que se imiscuia em assuntos internos de um povo soberano, mas enfim... A preocupação principal era com uma greve de fome de quatro condenados por terrorismo e que tinham sido alimentados à força num hospital. Ah, e indignava-se muito por o Supremo Tribunal do Chile democrático ter considerado que as investigações devem ter prazos... Bem, mas não fora aquele indisfarçável e inimitável ar de prosperidade que tinha acabado de ver à direita e à esquerda no Chile pensaria que me tinha enganado no relatório. Mas não, era mesmo à democracia chilena que eram dirigidos aqueles remoques.
Resolvi ir ver o que diriam então de Cuba... Ah, lá estava, 72 presos de consciência, ou seja, presos políticos, e que sim, que havia problemas com a liberdade de expressão em Cuba. Parece que a AI não considera que Cuba seja uma ditadura e que manter um regime ditatorial não é, por si só, um crime nojento contra os direitos humanos. E para que não haja muitas perguntas é adiantado que "the embargo by the USA against Cuba continued to contribute to a climate in which fundamental rights were denied". Assim mesmo. Fiquei elucidado.
Depois disto, esperavam-me ainda as declarações do juiz Garzón que afirmou que os processos contra Pinochet não seriam encerrados. Tinha aprendido que a responsabilidade criminal terminava com a morte. Mas não, segundo Garzón. Já que assim pensa, o melhor, no entanto, é começar por casa: à esquerda e á direita e já que a morte não é obstáculo, não faltam motivos para inquéritos. É evidente que isso pode não ser muito conveniente, mas onde estão em causa princípios... Querendo continuar a fazer justiça no estrangeiro tem Cuba. Estão ainda todos vivos, ou quase. Quer nomes? Basta ler o diário oficial da ditadura cubana.

domingo, dezembro 10, 2006

Há horas, hoje à tarde, tinha lido um artigo que levantava a hipótese de todos os recentes acidentes clínicos de Pinochet serem um expediente para se livrar da justiça. Não eram, morreu. Talvez com o fito único de contrariar esta análise arguta, mas morreu.
Eu detesto ditadores e ditaduras e lamento que Pinochet não tenha prestado contas ao seu povo.
O que logo me irritou quando soube da morte, devo confessar, é que muitos daqueles que nos próximos dias lamentarão que Pinochet tenha morrido sem ter comparecido perante um tribunal, sejam os mesmos que se permitirão, sem qualquer pejo, com aquela desonestidade intelectual que lhes é tão peculiar quanto a impunidade em que se julgam investidos, chorar a morte doutro ditador, o octagenário e sanguinário Castro que, ao contrário de Pinochet, não se afastou do poder para permitir a transição para a democracia, é responsável por milhares de mortes, prisões e torturas, instrumentos ainda agora habituais num regime tão cruel que até o stalinista Saramago se sentiu no dever de se demarcar daquele horror, do que é feito diariamente àquele Povo oprimido, dividido, postrado na pobreza, enquanto os chilenos vivem numa democracia cada dia mais forte e constituem o mais rico país da América do Sul.

E já agora, se bem que não seja muito vulgar formular desejos nestas ocasiões, que Castro, pelo menos Castro, ainda venha a ser julgado pelos seus crimes e os do seu regime.
Porque nao há boas e más vítimas.
A nitidez azul e fria, dourada, o frio branco, ao longe olivais e verde, montes e outeiros e o vale, lugarejos a brilharem ao sol, o silêncio muito sossegado - isto é conselheiral, como ensinava Eça que era - mas gosto de escrever assim a lindeza deste dia.

sábado, dezembro 09, 2006

Na RTP 2, Mel Ferrer e Stewart Granger batem-se em duelo no Scaramouche. Não me lembro já bem do filme, que se passa no início da revolução francesa. Dessas alturas ficou-me na memória o Scarlat Pimpernell, de 1934, e que devo ter visto na televisão quando tinha dez ou onze anos e seguido, talvez, da leitura do livro de Orczy, antes dos muitos Dumas. Sei que, nas ingenuidades de uma infância ingénua, me lastimei por já não se viverem tempos em que se pudesse ser espião em Paris ou noutra capital e se pudessem salvar senhoras e demais gente inocente das garras dos robespierres. Estava, infelizmente, muito enganado...
Os francesas foram apenas os primeiros: os revolucionários estrearam o genocídio na contemporaneidade, já que as pessoas eram executadas, não por actos que tivessem cometido mas por, meramente, pertencerem a uma classe social, classe de que se pretendia a extinção em nome do "avanço da civilização" e a estas mortes matutinas, logo ao raiar da razão, seguiram-se milhões e milhões de outras, até aos nosso dias. Tanto estas, da aristocracia francesa, no já longínquo século XVIII, quanto as dos milhões dos desgraçadas imolados ao sentido da história - lembro-me da revolução russa, do leninismo e do stalinismo em épocas mais recentes - tiveram as cumplicidades comissivas e omissivas necessárias e os apoios entusiásticos de pessoas de bem que se permitiam insultar os reaccionários Scarlat Pimpernell que não sabiam ler o futuro e simpatizavam pouco com carnificinas.
Não sei a quem ou a quê agradecer ter preferido sempre o reaccionário, destemido e sensato herói inglês às robesperrianas virtudes e clarividência jacobinas e marxistas; à pimpinela, que sempre foi usada para quebrar encantos e quebrantos e a aguçar os sentidos? A Merle Oberon, Lady Blakeney, a mulher de Pimpinela? Não sei, mas todos os dias agradeço o cepticismo.

Tem medo de, apesar das boas intenções modestas - as menos letais - não ser um bom Scarlet Pimpernell? Verifique aqui

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Nossa Senhora da Conceição
(Esta imagem é o timbre de umas armas onde aparece o Terreiro do Paço e, nele, a torre onde, creio, estava um dos Relógios Falantes de D. Francisco Manuel de Mello)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Pearl Harbour, 7 de Dezembro de 1941
Há 65 anos, sem prévia declaração de guerra, o Império Japonês atacou as bases navais norte-americanas no Hawai. Esse acto desencadeou a entrada na II Guerra Mundial dos Estados Unidos da América, ao lado da Grã-Bretanha. A República Francesa tinha-se rendido sem combate e a ex-URSS assinara um pacto de não-agressão com a Alemanha nazi que vigorou até Junho de 41, cinco meses antes deste ataque (o pacto entre os dois regimes totalitários e anti-democráticos teve, entre outras consequências, a de tornar ainda mais cruel o bombardeamento de Londres: a ex-URSS forneceu aos Alemães matérias-primas para a construção de aviões de combate e de bombas e outras munições).

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Cara Charlotte, a mim assim me parecia, mesmo sem lobrigar ómega algum, mas quem sou eu para afrontar as subtilezas do grego de Péricles?
Muito obrigado!
Passei o fim de tarde entre Mme Chauchat - o google, onde procurei uma tela com um retrato imaginário, devolveu-me uma marca de metrelhadoras da I Guerra... - e Mme. Colombe. Pobre e amada (muito) Mme Chauchat comparada à femme Colombe. De novo, ainda, a ideia de que há um Jacinto na Montanha Mágica quando reli nas palavras de Mann que é preciso sofrer e morrer para viver.
Mas a divagação começou ainda antes: com o Caso Litvinenko, russo como Madame Chauchat, lá das distantes estepes onde a vontade e o bravio pulsam num imaculado excesso e o veneno mais insidioso e a crueldade sem tremor são o incompreendido coup de grâce para essa desmesura que, por medo, fingimos ser-nos já insuportável.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

4 de Dezembro de 1980

Depois da escolha que, em 1975, os portugueses fizeram de um Portugal europeu, era preciso que alguém o modernizasse. Essa tarefa consistia em tudo fazer para proporcionar a existência de uma sociedade civil que não dependesse do estado e, por isso, que este último, autoritário, intervencionista, burocrata, fosse reformado, reduzindo-se o seu papel na vida dos portugueses.
O homem para fazer isto era, sempre acreditei, Sá Carneiro e a AD, com o CDS de Amaro da Costa, foi o único projecto político que me entusiasmou.
Há 26 anos que um crime adiou esse país que sonhei. Com a morte de Sá Carneiro e sem que o estado ou o país tivesse sido, no essencial, reformado, temos isto, em que merecidamente estamos.
Onde, entre outras coisas, a morte de um Primeiro-Ministro fica ignóbil e gratuitamente impune.

domingo, dezembro 03, 2006

De passeio pelos blogs: ri com gosto com as reacções ao artigo de JPP. A referência ao elitismo caiu muito mal, por verdadeira que seja. Outra fonte de boa disposição foi o prémio do melhor blog e bloguista (uhm, tenho que tomar uma atitude quanto ao itálico em blog. O uso abundante do itálico provoca-me vertigens, mal de que sofro, convincentemente, desde a mais tenra idade). Apercebi-me, ainda, que está metade deste mundo (deste pequeno mundo dos blogs>) a atribuir, puerilmente, prémios à outra. Quer-me parecer que se trata, no fundo, de uma desculpa para poupanças. Não querem antes trocar presentes? Não?
Nos últimos tempos linkaram o Impensável estes blogs:
O melhor amigo, o Kehillah-or-ahayim, o Vox Impia, o alessandrab, o Nos cornos do bicho, o Small Brother o Mouramorta e o 31 da Armada.

Peço desculpa da demora aos que há mais tempo fizeram o link para o Impensável.
Agradeço, muito obrigado, a todos.

sábado, dezembro 02, 2006

A Charlotte, se e quando por aqui passar e se tiver tempo: o «idiótes» grego, actualmente, homem de espírito curto, ignorante (Priberam) é o idiôtaï, de idios, particular, que Péricles usava para designar quem se alheava da coisa pública - e se criava, por isso mesmo, um estatuto de menoridade?
Se assim é, que má vontade com as particularidades...
Que tarde é já!

sexta-feira, dezembro 01, 2006

E falta lembrar a manhã, a manhã do 1º de Dezembro.
A de 1640, não outras, da minha petite histoire, usadas em idas a Badajoz para compras de los puros.
Ainda ontem, descobri que, pela segunda vez, reproduzi no blog o início de Moby Dick. Não vejo, porém, inconveniente, várias vezes reli - por estas alturas do ano - aquela abertura e este ano não, por não ter encontrado o livro. Assim fica aqui no blog mais à mão, como devia ter estado o livro. Por onde andará?
Um outro livro que, durante anos, gostava de reler por estas alturas era "O Monte dos Vendavais". Descobri, depois, que Novembro era a altura errada para o ler, por ser tempo no geral muito quedo e igual, que lhe calhavam melhor as ventanias de Fevereiro, ainda invernosas, onde há já pressentimentos - ia fazer um calembourg com Précis de décomposition, ficaria pressentimentos de decomposição - por ser disso que, penso agora, o livro trata desde a primeira página: de decompor.
En passant: Cioran era um admirador de Emily Bronte.
Pessoa, Eça - deste, o nascimento - e Proust, também a morte em Novembro, e de que este ano me lembrei.
Depois de ter feito o post da morte de F.P., a notícia das festas e músicas e luminárias na Casa Fernando Pessoa não pôde deixar de me pôr a pensar o que fazem génios, a gente que eles alimentam (literalmente falando), tendo tido os próprios - no caso dos portugueses Pessoa e Eça - vidas de algum aperto financeiro. Hoje há famílias, algumas delas regularmente constituídas, com despesas ordeiras de colégios de meninos, empregada, prestações de casa, carro e viagens, que deles retiram muito passavelmente a quase totalidade ou todos os seus proventos.
Eu não tenho nada contra isso, é necessário que alguém - falo dos honestos - os estude e desbrave.
Mas folguedos nos aniversários dos dias das suas mortes é, parece-me, de uma total falta de gosto.
Ontem, 30, fazia também anos que tinha nascido Churchill: festejou o seu 61º aniversário no dia em que Pessoa morreu. Não referi o nascimento para não misturar num post o que a vida mistura: tudo. As palavras do post anterior são as últimas que escreveu o Poeta.