quinta-feira, novembro 02, 2006

Estou a ler "A queda de Roma e o Fim da Civilização" do Ward-Perkins e pensei neste novo mercado aberto pelos diversos revisionismos: o de nos sossegar sobre a justeza das nossas certezas de juventude: sim, a queda do Império Romano foi mesmo violenta, terrível, sim foi mesmo o fim da civilização, tal qual a Europa conhecia. Sim, como me tinham dito quando eu tinha não sei quantos poucos anos.
Serviço Público:
Veio alguém aqui parar, via google - não a hoje, mas a Outubro de há 3 anos, por causa e busca das queijadas de Pereira.
Ora vejamos, se veio em demanda da receita que pensa ser a original por julgar que é saudosismo o não lhe saberem agora ao que lhe sabiam em criança (se foi criança num decénio decente do século passado), tenho a solução: há uns tempos, depois da vendedora perceber que estava perante um guloso da velha guarda que objectava a todos os «que eram assim mesmo, sempre foram», e lhes opunha um não inexplicado mas veemente, veio a solução honesta e, creio, saudosa: «é o leite». Sim, ela acabou por confessar que o leite usado na feitura das queijadas de Pereira era dantes bom leite de ovelha e hoje é industrial e de vaca. E dessas antigas de que me lembro, já ninguém faz. «E é dessas que o senhor se lembra, é por isso; o resto é tudo como era». Pois é, o resto é igual.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Assunto resolvido.
Acabei por ser acordado, antes da hora a que tencionava levantar-me, pelas criancinhas que pediam os bolinhos. O meu amor às tradições vacilou.
O almoço foi agradável, conhecia toda a gente da minha mesa, a falta de novidade foi compensada pelo tom mais íntimo. Discutiram-se dietas e experiências com dietistas, dos mais conhecidos aos de vão de escada. Ouvi atentamente e alvitrei animadamente segundas opiniões aos casos mais renitentes mas, de vez em quando, o sono aparecia.
Espero que o próximo almoço seja um jantar.
O que vale é que Dia de Fiéis Defuntos é quando um homem quiser e por isso ninguém pode levar a mal que eu esteja com cara de enterro e profundamente magoado amanhã no almoço que me obriga a sair da cama a horas cretinas.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Magníficos, estes dias do verão de S. Martinho!
Tentei ilustrar com um canvas, mas este tempo, no mundo anglo-saxónico, o indian summer, parece ser domínio do kitsch bem intencionado. Ora, o verão de S. Martinho e estes dias violentamente tentadores de se deixar tudo e pormo-nos a caminho não podem ser domados a golpes de pincéis mergulhados nos amarelos, ocres, encarnados e fulvas sentimentais coisas afins.

domingo, outubro 29, 2006

Passeava pelos blogs quando me apercebi que esta domingueirice não é diferente da passeata pelos centros comerciais, impressão tão mais incómoda quanto alguns blogs se tornaram autênticos centros comerciais, no afã de ampliar e diversificar a oferta. Alguns outros, mais pacatos, não deixam de exibir, por estas horas tristes de domingo uma imagem solitária de montra de loja de província. O que une tudo é o ar comercial (eu não nutro pelo comércio o ódio ou o desprezo que erroneamente se costumam apelidar aristocráticos; o comércio possibilita a minha vida tal como a concebo) mas confesso que gostaria de ver alguns mais egoístas, menos preocupados com a clientela. Creio que já sofri a tentação e pensei em avivar os meus leitores - cada vez menos e mais ingratos - com algumas promoções de outono e tinha até matutado num lema «Já sabe, o post elegante é no impensavél, o blog que nunca pensou» mas prefiro continuar assim, sem abrir filiais, sem tentar expandir o negócio ou fazer campanhas publicitárias. Por teimosia e preguiça e uma inabilidade natural e tocante para fazer qualquer coisa interessante na qual, seguindo os conselhos de Wilde quanto à ignorância, não tenciono mexer.

sexta-feira, outubro 27, 2006

Do aborto ao abrupto

Do aborto já disse aqui considerar que a vida humana é inviolável e que começa com a concepção.
Mais terei dito, se a memória não falha, que da discussão logo ressalta que o aborto é visto, afinal, como aquilo que os seus defensores negam que deva ser: um método de contracepção. Num tempo em que há uma panóplia de métodos para evitar a gravidez, é o prémio da desresponsabilização e da mais leviana licença. Mais terei dito que tendo em consideração o leque de métodos para evitar uma gravidez indesejada, a discussão sobre o aborto pertence ao puro excesso onde hoje em dia se inscreve o rocaille hedonista reinante. Mas, já que concomitante a este cultivo luxuoso de direitos há, mais ou menos sincero, o das boas intenções, o aborto está condenado pelo mero avanço da consciência da sua ilicitude que, nestas questões do termo inicial da vida humana se situava, ainda há pouco mais de um século, nas primeiras semanas, senão meses, depois do nascimento do pimpolho: nesses tempos, era o infanticídio o alvo das apaixonadas controvérsias que hoje se repetem a propósito do aborto... - o mero avanço da medicina se encarregará de fazer com que a todos pareça hediondo que se faça a um feto de algumas semanas o que essas almas sensíveis pró-aborto considerariam um inqualificável crime quando feito, hoje em dia, a um recém-nascido, independente de todas "as condições socio- eocnómicas e culturais envolventes"

O cão de guardo do Abrupto provoca em mim os piores sentimentos que um cão de guarda pode provocar a um passeante descuidado. Desta vez insurgia-se contra uma notícia do Expresso sobre o "casal Sócrates". A notícia em si, era tudo o que JPP diz dela. O que já não é despicienda, todavia, é a questão das vidas privadas da figuras públicas. E até pela pequenina questão da despesa: imaginemos um primeiro-ministro com dez relações amorosas (reparar na discreta alusão multiculturalista). Nos tempos que correm, de ameaças terroristas, as senhoras - ou os senhoras, se o cargo fosse exercido por uma senhora devassa (reparar no discreto sexismo, aqui) - teriam de ser protegidos. E todo esse alforge de amores seria motivo de preocupação e despesa (pública) para os serviços secretos, como o foi, por exemplo a bastarda de Mitterrand, com direito a segurança e que os franceses pagaram durante anos, sem saberem, através dos seus impostos. Se alguém quer ter uma vida privada inviolável nao se candidate a cargos públicos. Sobre o artiguinho, neste caso e naquela ocasião e sob aquele pretexto, já se deixou escrito acima.
E depois de ter escolhido a tela do Fairfield, umas páginas de Eça final e esta Sonata nº 4 do Scriabin caem que nem ginjas no meu october interior.
Fairfied Porter, October Interior, 1963

quinta-feira, outubro 26, 2006

O Impensável enverga o seu melhor ar de paisagem de beira da estrada e agradece ao Miniscente a referência amável feita.
Formigas para cá e para lá na minha máquina de café. Também a mim este tempo faz sono.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Às 5 da manhã de hoje estava a ver a chuva. Excessiva, batida pelo vento quase morno, tinha pouco de europeia. As noites de chuva decentes são acompanhadas de frio cortante e ventos gélidos e cruéis e os cansados viajantes lobrigam ao longe, por entre as grossas bategas, um portão de quinta. Com a tocha, tentam decifrar, pelas armas ou pelo monograma do escudo sobre o portão, a quem pertence aquela casa onde esperam encontrar abrigo. A gravura francesa do séc XIX repete muito este tema que ilustrava coisas dos Dumas e dos outros menores.

terça-feira, outubro 24, 2006

Vantagens do affaire Equador e mais coisas que me aconteceram desde ontem: por causa do Equador, África etc, encontrei o meu «Impressions d'Afrique» de Raymond Roussel. Reli umas páginas, li o meu nome escrito numa letra que já não tenho, a dos meus dezoito anos, que foram há muito. É uma edição da Livres de Poche, comprada ou na Bertrand ou na Buchholz, com aquelas palavras do Cocteau. Nessa altura lia surrealismo, algumas coisas da Internacional Situacionista e lanchava amiúde na ci-devant Caravela whiskies quádrupulos (os empregados eram meus amigos ou irmãos de amigas, ou amigos de amigos) e panquecas. A generosidade do serviço obrigou-me a apurar um modo de cumprimentar estilizado, de facto subrepticiamente acrobático - e se era um entrar constante de gente a cumprimentar! - o que acabei por conseguir o qual foi, com o andar razoavelmente de bicicleta, um dos poucos achievements da minha vida. A par com estas lembranças rassurantes lamentei-me, ao ver uma fotografia de Roussell (que inveja daquele Rolls visitado por um Papa - e pensei nos outros dois, recostados a pensarem na missão), ao ver uma fotografia de Roussel, dizia, da falta que me faz um carré de poche num tom castanho escuro, quase negro, e resolvi, ainda ontem, que iria amanhã a Lisboa fazer compras, pelo menos essa compra. Mas, hoje, agora, que faltam parcas horas para o começo da execução dessa decisão hesito, hesito por preguiça - que ontem, já quase a dormir, descobri não apenas que tem base fisiológica quanto serve, afinal, para nos preservar da mesmice. Tivesse eu ondas mu (sim, sic) a funcionar como deve ser e não teria um blog. As ondas mu, umas das muitas ondas cerebrais, deixam de ser produzidas quando fazemos um gesto voluntário (abrir e fechar a mão, por exemplo). Mas - eis o importante! -, também cessam quando meramente vemos alguém fazê-lo, alguém fazer um movimento voluntário!... Poupa-nos à repetição do trabalho feito, avisa-nos da presença de uma voluntas nas cercanias. Evita-nos a condição de condenados à repetição, ao já feito. Eis o que não soube evitar, quando sucumbi à moda dos blogs. Outra coisa, agora, se não for a Lisboa, que lenço ponho?
Ainda o assunto MST:
Vejam-se aqui as similitudes.
O Blasfémias, por sua vez, apresenta - o que eu tinha conjecturado - uma terceira fonte ou, talvez, o caminho para uma primeira, comum e origem de todas três elencadas.
Menos explicável, no entanto, são as semelhanças entre os começos dos dois livros...
Enfim, estamos longe daquele amigo de Eça que tinha um tal horror aos plágios que dizia: «como diz X, - e citava o nome - "estou triste"!».
Devo advertir os meus leitores de que não li nenhum dos livros pelo que o que digo - e estas existências monótonas, como a minha é, são tão propícias ao dizer - é baseado no que vou lendo aqui e ali, onde vou, cosido com as paredes dos sites, farejar o escândalo, com medo de ser incluído no rol dos destinatários das pauladas do Dr. Sousa Tavares.
Recebi agora um mail com aquele assunto do Miguel Sousa Tavares. Muito desgradável, quase inconcebível. A gente nem sabe o que há-de pensar.
Quanto a mim, espero que seja verdade!
(Assim o tédio, cansado de buscar em mim qualidades sobre as quais agir, se vê coagido a aguçar os meus defeitos).

sexta-feira, outubro 20, 2006

Paisagens

Num pálido desmaio a luz do dia afrouxa

E põe, na face triste, um véu de seda roxa...

Nuvens, a escorrer sangue, esvoaçam, no poente.

E num ermo, que o outono adora eternamente,

Vê-se velhinha casa, em ruínas de tristeza,

Onde o espectro do vento, às horas mortas, reza

E o luar se condensa em vultos de segredo...

Almas da solidão, sombras que fazem medo,

Vidas que o sol antigo, um outro sol, doirou,

Fumo ainda a subir dum lar que se apagou.

Teixeira de Pascoaes

quinta-feira, outubro 19, 2006

Roubo das Jóias da Coroa Portuguesa
Para que a culpa não morra solteira e alguns burocratas pretensiosos sejam responsabilizados pela sua leviandade, para que o dinheiro não vá na voragem... e que as peças sejam substituídas por réplicas (ao menos isso).
Assine aqui

Krapps ouve, numa noite futura, gravações feitas por si em épocas diferentes da sua vida.
O que fazer connosco, com as sobras?
Ou, apressadamente, nada fazer,: 'Perhaps my best years are gone.
When there was a chance of happiness. But I wouldn't want them back.
Not with the fire in me now. No, I wouldn't want them back.'
Uma série de questões que não deixarão de encantar os nossos
leitores nestas tardes de chuva. As torradinhas com manteiga
e sobre elas marmelade, e eis-nos prontos para Beckett
e perguntas circundantes.
Pode ler mais aqui, e aqui.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Everlasting Voices

O SWEET everlasting Voices be still;

Go to the guards of the heavenly fold

And bid them wander obeying your will

Flame under flame, till Time be no more;

Have you not heard that our hearts are old,

That you call in birds, in wind on the hill,

In shaken boughs, in tide on the shore?

O sweet everlasting Voices be still.

Yeats

terça-feira, outubro 17, 2006

Confesso: «corre que corre» é uma expressão lembrada de um livro que lia quando tinha oito anos. Mas, à porta do grande ciclo dos mortos, não é inoportuno lembrar essa criança desaparecida.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Verosimilhança de quietude, com o fluir lentíssimo deste tempo de outono.
O post anterior foi escrito antes da chuva, que despertou em mim afãs de bicho diligente e zelador da sua toca e por aqui andei corre que corre, a fechar janelas, a ver bem se estão fechadas como deve ser, se está tudo bem. Enquanto ia de uma para outra, pensava onde pus os livros. Não todos, mas os que leio por estas alturas e que direi depois.
O que direi depois parece-me que ficou bem, coloquial e afável, como se espera quando o barómetro deixa de ser fiável e temos que ser nós a acolher alguma previsibilidade, mas tenho algumas dúvidas se conseguirei deixar o silêncio deste outubro.
O silêncio já não como hobby - como o era para Dame Edith Sitwell - mas esforçada tentativa de verosimilhança.

sábado, outubro 14, 2006

O Anarcoconservador já faz 3 anos!
Os muitos impensáveis parabéns e..... uhm... que presente dar a um anarca, mesmo conservador? Não creio que outra coisa que não uma bomba, mas destas, que qualquer leitor de Burke sabe serem mais temíveis do que as outras, de que esta.

quinta-feira, outubro 12, 2006

«grand nez, petit panache»

Le panache, le panache de Cyrano é, diz Rostand (discurso de recepção na Academia): «l’esprit de la bravoure. Oui, c’est le courage dominant à ce point la situation – qu’il en trouve le mot. Toutes les répliques du Cid ont du panache, beaucoup de traits du grand Corneille sont d’énormes mots d’esprit. Le vent d’Espagne nous apporta cette plume ; mais elle a pris dans l’air de France, une légèreté du meilleur goût. Plaisanter en face du danger, c’est la suprême politesse, un délicat refus de se prendre au tragique ; le panache est alors la pudeur de l’héroïsme, comme un sourire par lequel on s’excuse d’être sublime. Certes, les héro sans panache sont plus désintéressés que les autres, car le panache, c’est souvent, dans un sacrifice qu’on fait, une consolation d’attitude qu’on se donne. Un peu frivole peut-être, un peu théâtral sans doute, le panache n’est qu’une grâce ; mais cette grâce est si difficile à conserver jusque devant la mort, cette grâce suppose tant de force (l’esprit qui voltige n’est-il pas la plus belle victoire su la carcasse qui tremble ?) que, tout de même, c’est une grâce que je nous souhaite.»
Mas disse-o melhor aqui.

Pas de panache, ces jours...

terça-feira, outubro 10, 2006


Odilon Redon, Les yeux clos, 1890
Eurydice
Why do they weep for those in the silent Tomb,
Dropping their tears like grain? Her heart, that honeycomb
Thick Darkness, like a bear devours...
See, all the gold is gone!
The cell of the honeycomb is six-sided... But there, in five cells of the senses,
Is stored all their gold...
Where is it now? Only the wind of the Tomb can know.
But I feared not that stilled and chilling breath
Among the dust...
Love is not changed by Death,
And nothing is lost and all in the end is harvest.
Dame Edith Sitwell

segunda-feira, outubro 09, 2006

Quelque découverte que l'on ait faite dans le pays de l'amour-propre, il y reste encore bien des terres inconnues.

François, Duc de La Rochefoucault

sexta-feira, outubro 06, 2006

É da Cecília Meirelles, que morria do que no mundo havia.

Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.
Morro do que vivi.
Morro comigo, apenas:
com lembranças amadas,
porém desesperadas.
Morro cheia de assombro
por não sentir em mim
nem princípio nem fim.
Morro: e a circunferência
fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

quinta-feira, outubro 05, 2006

5 de Outubro

Passados que são 96 anos de república quase um terço dos portugueses não se opunha a ser súbdito do Rei de Espanha.


Pourvu que ça dure...

quarta-feira, outubro 04, 2006

segunda-feira, outubro 02, 2006

What Is Life?

Resembles Life what once was held of Light,
Too ample in itself for human sight?
An absolute Self - an element ungrounded -
All, that we see, all colours of all shade
By encroach of darkness made ?
Is very life by consciousness unbounded ?
And all the thoughts, pains, joys of mortal breath,
A war-embrace of wrestling Life and Death ?

Coleridge

sexta-feira, setembro 29, 2006

quarta-feira, setembro 27, 2006

Agradeço os parabéns e o Hopper ao Anarcoconservador.

A Charlotte, agradeço os parabéns, o toast e a citação de Beckett sobre Proust

terça-feira, setembro 26, 2006

Minuciosa formiga

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora não querer.

Alexandre O’Neill

sábado, setembro 23, 2006


«Autumn 1877» de Wisnlow Homer.
O deste ano começou às quatro da manhã de hoje.

sexta-feira, setembro 22, 2006


anos de impensável...
Muito tempo, muito tempo!
Agradeço ao meus amáveis leitores a persistência, porque, como já deverão ter notado, isto não dá mostras de melhoras.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Tenho de convir que

O dr. Fernando Rosas, uma das minhas queridas antipatias de estimação, foi oportuno ao lembrar o escândalo do envelope (que motivou uma intervenção especial do então presidente da república) e que, apesar do pedido de celeridade feita pelo Dr. Sampaio, não está concluído, esgotados embora todos os prazos legais.

quarta-feira, setembro 20, 2006

- É, é o Brancusi, em 1925 no atelier dele. Fotografia do Steichen, sim. Uhm? Empoleirado num escadote, com certeza. Mas o que eu estava a dizer é que o Impensavel está um bocado seca.
- Está uma coisa soturna e o streap-tease não ajuda.
- As confidências?
- As confidências, os queixumes, tudo aquilo. Lá em casa já ninguém lê.
- Estive com ele no almoço da tua prima. Achei-o tristonho.
- Ele foi?
- Foi?
- Ao almoço.
- Foi.
- Ora essa, triste porquê?
- As coisas da Escandinávia. Parece que não lhe chegou... É a melancolia das latitudes.
- ?
- Aquela coisa do Gould, do pianista. O Norte e não sei o quê...
- Sagas? A Wallhala?
- Não... é mais brancos e buréis, frio.
- E vai no Verão?
- Fiquei com a impressão que no próximo, ao Canadá, não percebi bem. Não faz muito sentido. Agora, que ia a Londres, no princípio do mês. Olha, disse-lhe que também talvez fosse.
- E ele?
- Que sim.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Uma boa notícia nunca vem só: além do aniversário de Charlotte, a esquerda sofreu uma derrota histórica na Suécia!
Os maometanos continuam a exigir perdão depois do Santo Padre ter lamentado a interpretação (nem podia lamentar outra coisa senão isso). Esta exigência dos muçulmanos parece-me puro capricho e gosto por humilhar, embalados que vão com a vitória alcançada com o assunto das caricaturas.
Espero sinceramente que o Vaticano não ceda.
Pergunta em noite de insónia:

Mas afinal o que trouxe de bom e de novo o islamismo?
"Entre as religiões, o islão deve ser comparado ao bolchevismo e não ao cristianismo ou ao budismo. O cristianismo e o budismo são antes de tudo religiões pessoais, com doutrinas místicas e o amor da contemplação. O islão e o bolchevismo têm uma finalidade prática, social, material e o seu único objectivo é estender a sua dominação sobre o mundo"
Lord Bertrand Russell, lógico, filósofo pacifista, Prémio Nobel 1950

domingo, setembro 17, 2006

O ruído de uma civilização no seu fim - refiro-me ao Islão - aliado às estridências de uma esquerda senil não são suficientes para estragarem a suavidade deste domingo.

P.S. Se tudo isto não ocasionasse muitas vítimas, podíamo-nos rir um pouco da estranha aliança entre o relativismo europeu e norte-americano e o absolutismo islâmico.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Depois de ter lido o discurso de Sua Santidade o Papa Bento XVI vi um senhor na televisão, muito douto, a explicar que o Santo Padre citou o Corão a despropósito e mais não sei o quê. Fiquei com a sensação de que é preciso ser muito, muito culto, um erudito, para falar sobre o Islão sem ofender os muçulmanos que, ao contrário dos cristãos, são muito ciosos da sua crença e zangam-se - coisa que os cristãos não têm o direito de fazer (nem a necessária paciência).
Da próxima vez que ocorrer uma lapidação ou amputação, o que devo fazer de correcto face ao entendimento do Corão? Possso indignar-me, achar que tudo aquilo é uma terrrível selvajaria ou devo calar-me em respeito às especiais susceptibilidades dos maometanos, tentando compreender as vantagens da suposta desumanidade e admitir que a minha indignação que me parece tão natural é, afinal, toda ela feita de ignorância?
Espero que, nessa ocasião - que, como cristão, tenho a esperança que não chegue - os eruditos do islão expliquem como interpretar correctamente tais actos de que o meu cristianismo obnubila o significado ou me alegrem, afirmando claramente que apedrejar alguém até à morte ou até «meramente» amputar são medonhas coisas.

Leiam o discurso papal. E se tudo o que o Ocidente é de bom, da Magna Carta aos antibióticos, da democracia à genética - passatempo de monges -, digamos, apenas foi possível por ter entendido Deus do modo como o fez e o Santo Padre magistralmente explicou?
...mas convinha primeiro ler o discurso todo.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Ontem, com grande gosto e genuína saudade vi e senti chover - saudades curiosas, por extraordinarimente específicas do chover daqui, já que chuva foi coisa que não faltou nas minhas férias.
Aproveitei e adiantei a Paglia. Reli depois, já na cama, umas páginas do Comendador de Camilo. Hoje, dia sossegado, com saída para compras pacatas. É hoje que é o House? entre a Fox e a 4 (é a 4?) acabo por perder tudo. E tudo é as donas de casa, o da mafia e o house. Nunca sei os nomes.

P.S. Ah, o Sexual Personae lido em castelhano, que salero ganha!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Bons momentos: aqui com FJV e aqui com vários post (destaque para João Miranda e os seus erros americanos e o Mundo de Mário).

terça-feira, setembro 12, 2006

Aquietam-se os sentidos, de novo é necessário o bom senso do sentir, ouvir velhos conselheiros da nossa mortal natureza; alija-se da pele o torpor tenso, do olhar a rapidez do monótono esplendor. É preciso, ao invés, agora, perscutar os bosques onde as ninfas (sabe-se isso, onde as ninfas se escondem) por entre a folhagem e a sombra se escondem.
É o Outono, é o Outono, Exceeding Glad Shall He [We] Be!
Rejoice!
Rejoice!

domingo, setembro 10, 2006

Renoir, O almoço dos remadores
Durante muito tempo associei este quadro - e um outro, muito idêntico - aos contos fluviais de Maupassant. Com o tempo, essa associação desfez-se (mas porquê, «com o tempo»? Tsc, tsc...) mas continuo a pensar nestes festejos aquáticos como domingueiras coisas de Verão.

sábado, setembro 09, 2006

Tomei ontem a 1ª dose, não da vacina da gripe, mas a da ligeireza: tinha tido os primeiros sintomas há dias, quando achei já não sei o quê muito interessante e mais não sei o quê muito bem achado e duas ditas já não sei de quem muito inteligentes e já não sei quem muito espirituoso e não ri quando, a crer em crónicas de jornais, artigos de fundo, blogs de fundo, confessionais et coetera, Portugal estaria necessariamente povoado por génios universais, deste novo tipo displicente, que parecem os seus membros tão geniais que nem dão por isso.
Esta 1ª dose terapêutica consistiu no «Lágrimas e suspiros» do Ingmar Bergman - um realizador inteligente e pouco dado a facilidades - vista ontem, às quatro da manhã (ignorando os meus próprios protestos).
Verifico, agora, que aquela dose de verdade sem complacências e desonestidades medíocres começou a fazer efeito e já hoje voltei a achar tudo mais comezinho e a rir dos problemas e achados (alguns dos meus, alguns outros alheios).

sexta-feira, setembro 08, 2006

Ninguém fala de Paul Valéry...

Les pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.
Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus !
Dieux !... tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus !
Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,
Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n'était que vos pas.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mas eu interesso-me por estas coisas? As Farc aqui, o governo, a gaffe, o outro que disse? Não.
Disso, quase apenas pela geografia do difícil arquipélago da boa e da má fé, dos ilhéus minúsculos que obrigam a rota a ser aquela ou soçobrar-se e pela condenaçao de qualquer partir, de qualquer ida, a uma supérflua coisa inquinada pela certeza.
A resposta do menino do pcp às questões levantadas na Assembleia da República sobre a presença de criminosos da Farc em Portugal é um notável exemplo de desonestidade e um exemplo ainda mais notável de honestidade.

Espero que tal honestidade reapareça no dia 11 de Setembro, tanto a propósito do ataque a NY quanto à deposição do grande democrata* Salvador Allende, o presidente chileno que recebia uns dinheiros do KGB.

* este itálico é "cotovelada & ahã? ahã?" mas fica.
O PCP convidou para a sua festa, que está na moda tratar de um modo que roça o sentimental kitsch, uma organização tenebrosa, de nome FARC que, entre outros crimes (tráfico de drogas em grande escala, coacção, maus tratos, assassinatos, etc.) mantém em sequestro, desde 2002, Ingrid Bettencourt, uma candidata à presidência da Colômbia na altura, para não falar de centenas de outros reféns menos conhecidos. De tudo isto, dos ataques homicidas das FARC contra a população civil e indefesa, têm conhecimento os responsáveis do PCP e o simpático Jerónimo e tudo isso não foi suficiente para evitarem o convite. Aliás, porque evitariam? E fazem-no com a cumplicidade de toda essa gentalha que anda por aí, a indignar-se.
Não esqueçamos isso e, já agora, atentemos na resposta do governo de Sócrates ao representante da Bolívia, o Embaixador daquele país e do seu governo democrático que protestou pela presença em Portugal dos assassinos e terroristas da FARC, classificada como tal pela UE.
Quando perguntei por Chestov, passei a ter direito a uma escolta amável e competente. "Malhereusemente, pas encore sur internet". De facto. Pensei, na altura, o estranho de ter sido ali que me lembrava, afinal, de comprar Chestov. Hoje reli sobre a onda de calor de há dois anos e das centenas de cádaveres que ficaram por reclamar nas morgues de Paris, e revi a minha breve guia, si rive gauche, seguramente tão laica quanto frequentadora da Av. Montaigne que, neste tempos, se volta para a analytical philosophy e textures de branco linho.

terça-feira, setembro 05, 2006



A propósito do calor, leia-se Júlio Dinis - que escreve admiravelmente e muito me permito recomendar a quem não o leu.
Este calor aqui descrito não é o de hoje e ontem, fora do seu tempo, excessivo e malsão. É um calor solisticial de Junho ou Julho, leal e franco.
Mas leia-se:

"Era meio dia, um meio dia de verão ardente, asfixiante, calcinador, a hora em que tudo repousa, em que as aves se escondem na folhagem, as plantas inclinam as sumidades, desfalecidas de seiva, e os ribeiros quase nem murmuram, de débeis e exaustos que vão.
Nem uma ténue viração fazia sussurrar as alamedas e os soutos nos vales ou os pinheiros dos montes.
Apenas pelas sarças volteavam, como em danças caprichosas, enxames de insectos alados, sendo o seu zumbido importuno, ou o cantar longínquo dos galos, os únicos sons a interromperem o silêncio daquela hora.
Os caminhos e os campos estavam desertos; povoadas e fumegantes as cozinhas, onde a família do lavrador se reúne para a refeição principal do dia.
Mas quem estendesse a vista pelo extenso lanço de estrada a macadame, que corta em linha recta a povoação, e onde, naquele momento, o sol batia em cheio sem ser impedido por a menor folha de árvore, ou beira de telhado, descobriria o vulto de um cavaleiro, caminhando a trote e envolto na densa nuvem de poeira, levantada pelos pés da cavalgadura.
Este cavaleiro era João Semana.
Trajava com toda singeleza o velho cirurgião. Um fato completo de linho cru, botas amarelas de solidez de construção, à prova de todo o tempo, chapéu de palha, de abas descomunais, tudo abrigado daquele sol canicular por uma enorme umbela de paninho vermelho, rival em dimensões de uma tenda de campanha, eis o vestido característico do nosso homem.
As rédeas flutuavam à solta, sinal evidente da distracção do cavaleiro e dos admiráveis instintos e superior discrição da alimária, que mostrava conhecer a palmos o caminho de casa e para ela se dirigia mais apressada que de costume.
Causava dó olhar para a fisionomia de João da Semana naquela ocasião. As faces de vermelhas, que naturalmente eram, quase se lhe haviam feito negras; o suor corria-lhe, como lágrimas pelas faces abaixo.
Mas o heróico octogenário não desanimava. Sorvia filosoficamente a sua pitada, assoava-se com ruído, e soltando depois um desses ahs, bem guturais - eloquentíssima expressão das delícias que o olfacto pode proporcionar a um mortal - dava mostras de consolado.
De caminho, ia João Semana lançando um olhar de comiseração para os milhos dos campos adjacentes à estrada, algum do qual o calor e a escassez das águas tinha definhado; e ao contemplá-lo parecia mais sentir por ele, do que por si, a insuportável temperatura daquele ambiente.
João Semana era também proprietário rural, e portanto, apaixonado pela lavoura, conhecedor das leis de cultura, e experiente prognosticador do futuro das novidades agrícolas; por isso, examinando com profunda curiosidade o aspecto dos campos, cujos donos pela maior parte conhecia, quase chegara a esquecer-se de que um ardentíssimo sol lhe dardejava sobre a cabeça raios ameaçadores, tentando em vão exercer naquela robusta constituição a sua influência maligna.
A égua é que não se esquecia assim facilmente disso, e, cada vez mais rápida, procurava furtar-se a tão incómodo calor, e ao seu inevitável cortejo de moscas, que a traziam impacientemente, não obstante os folhudos ramos de carvalho, com os quais João Semana lhe enfeitara o pescoço.
Depois de cinco minutos mais de trote acelerado, tomou o pobre animal, com manifesta ansiedade e sem esperar sinal do cavaleiro, por uma rua estreita, que abrindo-se ao lado esquerdo da estrada, seguia, sob espesso toldo de verdura por entre duas quintas fronteiras.
Era um oásis, depois do deserto."

As Pupilas do Senhor Reitor

domingo, setembro 03, 2006

Estes calores medonhos que têm assombrado os setembros dos últimos anos, retirando-lhes a subtileza macia que contrasta e sublinha* os laivos do mosto, deixam-me prostrado de indignação. Por isso, só hoje achei forças para blogar, sendo certo que cheguei aqui no sábado. O estado de estupor provocado por tanta e tão boa pintura também contribuiu para que me quedasse pelo folhear dos guias e catálogos das exposições, num estar manso de menino bem-comportado. Acabei por não ler o Chestov e comprei no Thyssen a tradução castelhana do Sexual Personae de Paglia que tenho lido, divertido, com el Amor brujo a acompanhar.

* É mesmo assim, não retiro nem uma palavra: contrasta e sublinha.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Mas é isso que vou ler na viagem: Chestov sobre Kierkegaard. E depois, chegado, mergulhar nos vitorianos. Depois da visão da Virgem com crianças de Cranach. Sim, e também aqui.

sábado, agosto 26, 2006

Este datar minucioso que as inovações electrónicas permitem torna-se, para quem não navega nas rotas felizes dos melhores dos mundos, um motivo de certeira humilhação. Assim, sei com todo o rigor, o último dia em que ri com gosto e motivo (já que muitas vezes rio, frouxamente, a despropósito): foi a 7 de Agosto. E sei a hora: 17, 27 hora europeia central de verão. Está na fotografia. Na fotografia que tentava, com seriedadezinha, quando ela (yes, há uma agradável ela nesta petite histoire), quando ela (aproveitemos... ), - por achar muito séria ou ridicule a postura? Impossivel saber, hélas! - me pregou um tremendo susto, com um "BUUUU" si charmant, si délicieux... e ambos rimos, rimos de gargalhada, rimos com rapidez e gosto.
7 de Agosto! Ao tempo que foi! Hunft!
Entre procuras na net, folheares de livros, dissipares de dúvidas sobre se era mesmo frio depois de jantar, alguns espilros esclarecedores e alguns olhares à televisão se passou a noite. Já outonal, ou quase.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Voltei, como se volta das deambulações que a mais elementar prudência deveria ter bastado para evitar: alquebrado e sorumbático.

Oiço, com música de Finzi, o

Our birth is but a sleep and a forgetting:
The Soul that rises with us, our life's Star,
Hath had elsewhere its setting,
And cometh from afar:
Not in entire forgetfulness,
And not in utter nakedness,
But trailing clouds of glory do we come
From God, who is our home:
Heaven lies about us in our infancy!
Shades of the prison-house begin to close
Upon the growing Boy,
But He beholds the light, and whence it flows,
He sees it in his joy;
The Youth, who daily farther from the east
Must travel, still is Nature's Priest,
And by the vision splendid
Is on his way attended;
At length the Man perceives it die away,
And fade into the light of common day.

da Intimations of Immortality de Wordsworth

quinta-feira, agosto 24, 2006

Intermezzo II

"Plutão perde estatuto e sistema solar fica com oito planetas
A Assembleia-geral da União Astronómica Internacional (IAU) decidiu esta quinta-feira, em Praga, retirar a Plutão o seu estatuto de planeta, passando assim a oito o número oficial de planetas do sistema solar."

Agora foi Plutão... Para o Impensável, Plutão será sempre um digno e querido planeta, nada menos do que isso.

domingo, agosto 13, 2006

Intermezzo
Da capital do reino aqui foram oito horas calmas. As estações, algumas de duvidosa existência, eram antecedidas por alocuções, embora breves, não severamente lacónicas: poderiam ser aforismos, máximas morais, enunciações de problemas de filosofia política, falas de personagens de Bergman, enunciações ontológicas que as paragens do combóio apenas ilustravam. Acabei o ensaio sobre Fichte, de Berlin, dormitei e vi a paisagem que daria gosto a qualquer amador da natureza: "olha a frágua, olha o rio, olha a ravina, o lago, o penedo, a cascata, olha, olha!"

sábado, agosto 05, 2006


Esperemos, então, pelo Outono ou, sem ambições apressadas, por Setembro.
O vôo sobre os trigais é de 1891, de Harald Slott-Moller
Há bocadinho quis enviar uma sms de parabéns (o telefone não respondia) e não consegui. Percebi depois porquê: estavam todos a combinar tudo, ou quase, os programas desta noite. Resolutamente, estou sem sombra de que fazer senão estar aqui a ver de paisagens longínquas onde lave os neurónios e depois os possa pôr a corar a um sol pálido e incerto, para ganho das cores

sexta-feira, agosto 04, 2006

Uma borboleta gorda e, julgo, com ambições literárias de metáfora, busca um fim em volta do quebra-luz do candeeiro, que transformou numa espécie de poço da morte do avesso; voa atraída pelas luzes com uma ferocidade trepidante e barulhenta. Para ser mais preciso, com a veemência de que só as criaturas das letras são capazes no cumprimento de uma figura de estilo, mesmo da mais gasta. E eu, que pesquisava as minhas férias da net (deviam ter sido programadas há mais de dois meses, declarava um profissional do lazer), ao incómodo de antecipar sofrimentos de caminhadas de hotel em hotel a subornar recepcionistas para conseguir dormida em enxovias caras, tive de acrescentar o de inclinar-me para me proteger de uma colisão trágica com o insecto que me vazasse uma ou as duas, sim, as duas, vistas que esta é época de dramas pequenos e burgueses e todo o cuidado é, como se sabe, pouco.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Sonhei, num sono de tarde de estio, passear por chãos cobertos de carumas distantes, atentas e pensativas, diferentes das carumas felizes que Ruben A. - cito de memória - conhecia do Minho. Entre as sagas e as albas.

terça-feira, agosto 01, 2006

Malas abertas, as roupas que eram para ir espalhadas por cabides e costas de cadeiras, outras em cima das camas, papel de seda, azáfamas e agitações - contidamente alegres e tão desnecessárias, afinal - as coisas de praia (toalhas, roupões, chapéus...) as coisas de viagem.
Era assim, e que saudades tão grandes de tudo.

quinta-feira, julho 27, 2006

Diga-se o que se disser
o aportuguesamento do google (google.pt) é desvantajoso inconveniente e irritante.

quarta-feira, julho 26, 2006

O Primeiro Concurso de Verão do Impensasável fez um fiasco agradabilíssimo, já que, publicamente, apenas dois blogues quiseram entrar: um foi o sempre atento, sempre simpático e encantador Bomba Inteligente, o outro o blog amável de JAC.
Ao dois apresenta este blog os gratos cumprimentos mas, lastima-se desoladamente dizê-lo, ambos erraram.
A resposta era: R. Não! Não, a personagem interpretada por Cary Grant não se conduziu (naquele particular) como um gentleman já que nenhum gentleman carrega as suas próprias malas. E não se venha argumentar que não há sempre pessoal diponível. O filme é dos anos 30, havia pessoal. Tratava-se de um sportman dirão; mesmo assim, respondo eu, o transporte de bagagem não é um desporto.

terça-feira, julho 25, 2006

segunda-feira, julho 24, 2006


O Impensável lança esta semana o seu Primeiro Concurso de Verão, para desfastio e refresco dos seus leitores. Até às 23 horas de 3ª feira poderão as senhores e senhores frequentadores deste blog dissertar, num máximo de 3 linhas razoáveis, enviadas para o mail do Impensavel, sobre a seguinte questão que aqui se deixa: foi o comportamento de C. K. Dexter Haven, personagem interpretada por Cary Grant no Philadelphia Story, o de um «gentleman»?
Publicar-se-ão as justificações mais veementes - e promete-se um julgamento imparcial.

domingo, julho 23, 2006

Na madrugada de Domingo, antes de o sol nascer, das profundezas do meu ipod, inesperado, o"SLEEP is supposed to be" de Emily Dickinson, cantado pela Dawn Upshaw, aqui. Pode-se ouvir - preciso: faixa 17 para quem esteja apressado.


SLEEP is supposed to be,
By souls of sanity,
The shutting of the eye.

Sleep is the station grand
Down which on either hand
The hosts of witness stand!

Morn is supposed to be,
By people of degree,
The breaking of the day.

Morning has not occurred!
That shall aurora be
East of eternity;

One with the banner gay,
One in the red array,—
That is the break of day.

sexta-feira, julho 21, 2006

Ouff ... finalmente uma novidade digna desse nome e agradável!
Um post sobre a autonomia do MP suscitou um outro, amável, do Grande Loja do Queijo Limiano (GLQL) a quem agradeço, sensibilizado, a atenção prestada ao que escrevi.
Passo a esclarecer alguns pontos:
1 - Quando me refiro ao governo actual não me refiro a um qualquer governo em concreto, mas, no fundo, aos governos das democracias modernas. Não me refiro a este governo, com que,como é bom de ver, não simpatizo.
2 - Não digo que o MP vê nos políticos uma gente sinistra, mas sim que alguns defensores da autonomia do MP parecem ver, ou partem do pressuposto que são, aqui e lá fora;
3- Sou monárquico: não digo e seria impensável dizer que a legitimidade democrática se esgota no acto eleitoral, muito pelo contrário. Mas deve passar por muitos actos eleitorais;
4- Sobre figuras tristes recentes, parece-me que existiram de todos os lados... O actual Código de Processo Penal, considero-o uma ignomínia e como disse o Dr. Pires de Lima, próprio do Burkina Faso (pobre Burkikna Faso, era o Burkina Faso?). É, no entanto, um elucidatico monumento ao que ainda somos.
5 - A minha principal preocupação enquanto Zé da Esquina, mais do que geometrias de divisão de poderes (no Reino Unido o chefe do Judicial é membro do Governo e do Parlamento...) é saber a quem pedir contas. E não sei. E prestar contas - e pedi-las - e recebê-las são obrigações, são deveres que nada há que os possa ou deva elidir em democracia.

quinta-feira, julho 20, 2006

Passei por ali um pouco por acaso e li cheio de interesse, ora concordando, ora discordando (o que são os exageros de Eça? Camilo viu mais "verdade"? E Júlio Diniz - a quem Eça classificou como paisagista notável - também? - Creio que não. E o Ramalhete tem pouca vida? Claro que tem pouca vida, tinha de ter pouca vida! E...
Que agradável seria continuar a conversa!
A propósito de leituras no GLQL, onde é feita a exaltação da autonomia do Ministério Público em nome da eficácia, convirá lembrar que o "poder político" - nome pelo qual é moda designar entre nós o executivo, o governo - não é já o governo absolutista ou de uma ditadura, mas o governo legítimo de uma democracia, que responde perante a assembleia da república onde estão os representantes do povo português, por este eleitos, em eleições não contestadas por ninguém. No entanto, os membros do governo e os deputados parecem ser, para alguns dos defensores dessas autonomias, uma gente sinistra com queda para a actividade delituosa e com a ambição suprema de "pressionarem" o MP. Ao invés, o Ministério Público (que tem um sindicato), vítima desses assédios é constituído, parece, todo ele por canduras e dedicações abnegadas...Ora, a verdade é que qualquer ministro que ponha pé em ramo verde, hoje dia em dia em Portugal - sim em Portugal - é rápida e facilmente deposto, pelo que se não lobrigam os motivos dos medos dos defensores da autonomia do MP (que, em democracia é, afinal, repete-se, autonomia em relação a quê??? Ao Governo legítimo do País? À Assembleia da República?).
Em inglaterra, pátria da democracia como se passam as coisas? O M.P e as polícias dependem do governo, do Lord Chancellor que, of course, responde perante o Parlamento onde se sentam os representantes do povo britânico. Dediquem-se os meus leitores a documentarem-se. Dou pistas: não há autonomias do jaez da existente aqui...

Motivos naúticos: Rooms by the sea, Hopper

quarta-feira, julho 19, 2006

Dia de hoje, notas: silêncio - Bergman 1964; silêncio, problemas de sintaxe - fotografia, fotografia digital, as imagens insepultas, ressurreições e transmutações dificultadas.
Lido e sempre tido em conta: a comparação, figura pobre. "Comos" abundantes no livro de um jovem consagrado que folheei perto das lulas congeladas (a lula fica bem em qualquer quadro surrealista, não pude deixar de reparar). Gente que escreve pelos cotovelos, pas de silence pour - sur - eux. Eu estou igual, a meu modo. O francês ficou da Piaf ouvida ali por sugestão daqui.
Aqui (Bomba) e ali (Alexandre S e S) sem links por preguiça.

terça-feira, julho 18, 2006

Oiço falar na "crise do médio oriente" e pergunto-me se se perdeu de vez a noção do que seja um assunto de Verão, altura em que apenas se toleram moderadas turbulências financeiras, desprendimentos de icebergs ou outras curiosidades da natureza que se contenham num sussurro.
Dito isto, não se espere que este blog adira à moda de falar entusiasticamente do Líbano ou do Irão (senão a propósito de viagens ou tapetes).
Junto um outro blog brasileiro aos meus "favoritos" - o que não quer dizer que não visite outros blogs com muito gosto, que visito, mas tenho tido preguiça para fazer as actualizações.
O blog de Reinaldo de Azevedo, que recomendo, fará lembrar a paciência que é necessária para aturar a esquerda quando em forma de doença tropical.
Avistei, pelas 10 p.m., altura em que a temperatura começou a descer, parte do meu cérebro. Tinha-o já dado por perdido! Creio não haver danos, embora ainda seja cedo para poder ter certezas.

segunda-feira, julho 17, 2006

Não a indiferença mas a assombração deste calor provocou o esquecimento do aniversário e parabéns ao Miniscente. Feliz Ano IV e seguintes.
Não sou mesquinho: eis uma receita de "cucumber sandwich" e citação a propósito.

Comecemos pela última:

ALGERNON
[Picking up empty plate in horror.] Good heavens! Lane! Why are there no cucumber sandwiches? I ordered them specially.
LANE
[Gravely.] There were no cucumbers in the market this morning, sir. I went down twice.
ALGERNON
No cucumbers!
LANE
No, sir. Not even for ready money.
ALGERNON
That will do, Lane, thank you.
LANE
Thank you, sir. [Goes out.]
ALGERNON
I am greatly distressed, Aunt Augusta, about there being no cucumbers, not even for ready money.

Wilde, "The Importance of being"

Agora a receita, havendo cucumbers:

English Cucumber Sandwiches*
Ingredients:

Thin cucumber 1

Brown bread, sliced 1 loaf

Butter 1 stick

Salt and pepper to taste

Method:

Peel cucumber and slice in paper-thin rounds. Salt rounds lightly and place in strainer for 15 minutes to drain. Press to release water; pat dry with paper towels.

Spread sliced bread with softened butter. Put 2 layers of cucumber slices on bottom slice, salt and pepper to taste and top with another buttered slice. Press lightly with palm of hand. Cut all crusts off with a sharp knife. Cut sandwiches in half diagonally. Should you love the taste of mint, you can spread mint (pudina) chutney on both the slices.

* Não me parece nada boa e prefiro a cá de casa. Apenas pus aqui a receita para não ser acusado de favorecimento.
Petit four? Blargh! Sandwich de pepino (sim, aparadas, estas cucumber sandwich)! E no copo ao lado da espreguiçadeira, um Pimms (#1 - the best one).
Leia-se tudo em forma disto, enquanto durar o calor. Esqueçam os petit four.

domingo, julho 16, 2006

Pequenos apontamentos em forma de petit-four: o «digo» do post anterior está na acepção de revelar, de dar a conhecer. O calor tira (diga-se antes, retira) placidez às tardes de domingo. A melancolia é asténica e cautelosa, como qualquer outra alteração da visão. Os lanches de domingos são prejudicados pela canícula.

sábado, julho 15, 2006

Reúno os destroços e tento pôr-me a caminho daqui.
Digo isto com a tranquilidade de quem sabe não correr o risco de encontrar demasiados compatriotas e a mesa de 4 que tão inopinadamente apareceu promete conversas divertidas.

sexta-feira, julho 14, 2006

Momentos de especial fragilidade: cortei-me num dedo ao tentar retirar a cápsula do blister. Um corte minúsculo e irritante, quase invisível mas que provoca dor ou sensação assemelhada - é mais um ardor encanitante - em contacto com objectos de uso diário: folhas de papel, telecomando da televisão e ar condicionado, telemóvel, etc. Não, não sou herói, sim, sou piegas, não, não tenho vergonha de me portar como uma criança pequena, sim, é do calor, sinto-me miseravelmente.

quarta-feira, julho 12, 2006

Um pequeno esclarecimento: detesto o Verão, melhor, detesto calor. Acima dos 30ºC as minhas meninges, por mais espremidas que sejam, não produzam mais do que um lamento grotesco e bronco. Prevejo, por isso, intermitências neste blog.

terça-feira, julho 11, 2006

A uma cidadã indiana que teve a falta de gosto de pedir a nacionalidade portuguesa (mas isso é lá com ela) foi-lhe esta negada por um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa. O acórdão não poderia decidir de outro modo, face à lei existente.
Deve mudar é a lei de modo que, como lembrou a excêntrica senhora indiana, passe a definir, tal como na legislaçao dos USA - essa nação perversa - quais os conhecimentos necessários sobre cultura, história hábitos, etc., para obter a nacionalidade.
A essa saxónica clareza, prefere o legislador daqui a tradição lusa da discricionariedade autoritária e cultiva-se o vago, para que tudo fique a jeito de se resolver com um jeito e andemos todos bem cientes de quanto devemos estar agradecidos às autoridades.

segunda-feira, julho 10, 2006

Este é um post milenar, é o post 1000.
Nunca esperei chegar aqui, mesmo quando deixei de esperar.

domingo, julho 09, 2006

Motivos náuticos,
continuação.

The Paper Nautilus

For authorities whose hopes
are shaped by mercenaries?
Writers entrapped by
teatime fame and by
commuters' comforts? Not for these
the paper nautilus
constructs her thin glass shell.

Giving her perishable
souvenir of hope, a dull
white outside and smooth-
edged inner surface
glossy as the sea, the watchful
maker of it guards it
day and night; she scarcely

eats until the eggs are hatched.
Buried eight-fold in her eight
arms, for she is in
a sense a devil-
fish, her glass ram'shorn-cradled freight
is hid but is not crushed;
as Hercules, bitten

by a crab loyal to the hydra,
was hindered to succeed,
the intensively
watched eggs coming from
the shell free it when they are freed,--
leaving its wasp-nest flaws
of white on white, and close-

laid Ionic chiton-folds
like the lines in the mane of
a Parthenon horse,
round which the arms had
wound themselves as if they knew love
is the only fortress
strong enough to trust to.

Marianne Moore