sábado, setembro 09, 2006

Tomei ontem a 1ª dose, não da vacina da gripe, mas a da ligeireza: tinha tido os primeiros sintomas há dias, quando achei já não sei o quê muito interessante e mais não sei o quê muito bem achado e duas ditas já não sei de quem muito inteligentes e já não sei quem muito espirituoso e não ri quando, a crer em crónicas de jornais, artigos de fundo, blogs de fundo, confessionais et coetera, Portugal estaria necessariamente povoado por génios universais, deste novo tipo displicente, que parecem os seus membros tão geniais que nem dão por isso.
Esta 1ª dose terapêutica consistiu no «Lágrimas e suspiros» do Ingmar Bergman - um realizador inteligente e pouco dado a facilidades - vista ontem, às quatro da manhã (ignorando os meus próprios protestos).
Verifico, agora, que aquela dose de verdade sem complacências e desonestidades medíocres começou a fazer efeito e já hoje voltei a achar tudo mais comezinho e a rir dos problemas e achados (alguns dos meus, alguns outros alheios).

sexta-feira, setembro 08, 2006

Ninguém fala de Paul Valéry...

Les pas

Tes pas, enfants de mon silence,
Saintement, lentement placés,
Vers le lit de ma vigilance
Procèdent muets et glacés.
Personne pure, ombre divine,
Qu'ils sont doux, tes pas retenus !
Dieux !... tous les dons que je devine
Viennent à moi sur ces pieds nus !
Si, de tes lèvres avancées,
Tu prépares pour l'apaiser,
A l'habitant de mes pensées
La nourriture d'un baiser,
Ne hâte pas cet acte tendre,
Douceur d'être et de n'être pas,
Car j'ai vécu de vous attendre,
Et mon coeur n'était que vos pas.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Mas eu interesso-me por estas coisas? As Farc aqui, o governo, a gaffe, o outro que disse? Não.
Disso, quase apenas pela geografia do difícil arquipélago da boa e da má fé, dos ilhéus minúsculos que obrigam a rota a ser aquela ou soçobrar-se e pela condenaçao de qualquer partir, de qualquer ida, a uma supérflua coisa inquinada pela certeza.
A resposta do menino do pcp às questões levantadas na Assembleia da República sobre a presença de criminosos da Farc em Portugal é um notável exemplo de desonestidade e um exemplo ainda mais notável de honestidade.

Espero que tal honestidade reapareça no dia 11 de Setembro, tanto a propósito do ataque a NY quanto à deposição do grande democrata* Salvador Allende, o presidente chileno que recebia uns dinheiros do KGB.

* este itálico é "cotovelada & ahã? ahã?" mas fica.
O PCP convidou para a sua festa, que está na moda tratar de um modo que roça o sentimental kitsch, uma organização tenebrosa, de nome FARC que, entre outros crimes (tráfico de drogas em grande escala, coacção, maus tratos, assassinatos, etc.) mantém em sequestro, desde 2002, Ingrid Bettencourt, uma candidata à presidência da Colômbia na altura, para não falar de centenas de outros reféns menos conhecidos. De tudo isto, dos ataques homicidas das FARC contra a população civil e indefesa, têm conhecimento os responsáveis do PCP e o simpático Jerónimo e tudo isso não foi suficiente para evitarem o convite. Aliás, porque evitariam? E fazem-no com a cumplicidade de toda essa gentalha que anda por aí, a indignar-se.
Não esqueçamos isso e, já agora, atentemos na resposta do governo de Sócrates ao representante da Bolívia, o Embaixador daquele país e do seu governo democrático que protestou pela presença em Portugal dos assassinos e terroristas da FARC, classificada como tal pela UE.
Quando perguntei por Chestov, passei a ter direito a uma escolta amável e competente. "Malhereusemente, pas encore sur internet". De facto. Pensei, na altura, o estranho de ter sido ali que me lembrava, afinal, de comprar Chestov. Hoje reli sobre a onda de calor de há dois anos e das centenas de cádaveres que ficaram por reclamar nas morgues de Paris, e revi a minha breve guia, si rive gauche, seguramente tão laica quanto frequentadora da Av. Montaigne que, neste tempos, se volta para a analytical philosophy e textures de branco linho.

terça-feira, setembro 05, 2006



A propósito do calor, leia-se Júlio Dinis - que escreve admiravelmente e muito me permito recomendar a quem não o leu.
Este calor aqui descrito não é o de hoje e ontem, fora do seu tempo, excessivo e malsão. É um calor solisticial de Junho ou Julho, leal e franco.
Mas leia-se:

"Era meio dia, um meio dia de verão ardente, asfixiante, calcinador, a hora em que tudo repousa, em que as aves se escondem na folhagem, as plantas inclinam as sumidades, desfalecidas de seiva, e os ribeiros quase nem murmuram, de débeis e exaustos que vão.
Nem uma ténue viração fazia sussurrar as alamedas e os soutos nos vales ou os pinheiros dos montes.
Apenas pelas sarças volteavam, como em danças caprichosas, enxames de insectos alados, sendo o seu zumbido importuno, ou o cantar longínquo dos galos, os únicos sons a interromperem o silêncio daquela hora.
Os caminhos e os campos estavam desertos; povoadas e fumegantes as cozinhas, onde a família do lavrador se reúne para a refeição principal do dia.
Mas quem estendesse a vista pelo extenso lanço de estrada a macadame, que corta em linha recta a povoação, e onde, naquele momento, o sol batia em cheio sem ser impedido por a menor folha de árvore, ou beira de telhado, descobriria o vulto de um cavaleiro, caminhando a trote e envolto na densa nuvem de poeira, levantada pelos pés da cavalgadura.
Este cavaleiro era João Semana.
Trajava com toda singeleza o velho cirurgião. Um fato completo de linho cru, botas amarelas de solidez de construção, à prova de todo o tempo, chapéu de palha, de abas descomunais, tudo abrigado daquele sol canicular por uma enorme umbela de paninho vermelho, rival em dimensões de uma tenda de campanha, eis o vestido característico do nosso homem.
As rédeas flutuavam à solta, sinal evidente da distracção do cavaleiro e dos admiráveis instintos e superior discrição da alimária, que mostrava conhecer a palmos o caminho de casa e para ela se dirigia mais apressada que de costume.
Causava dó olhar para a fisionomia de João da Semana naquela ocasião. As faces de vermelhas, que naturalmente eram, quase se lhe haviam feito negras; o suor corria-lhe, como lágrimas pelas faces abaixo.
Mas o heróico octogenário não desanimava. Sorvia filosoficamente a sua pitada, assoava-se com ruído, e soltando depois um desses ahs, bem guturais - eloquentíssima expressão das delícias que o olfacto pode proporcionar a um mortal - dava mostras de consolado.
De caminho, ia João Semana lançando um olhar de comiseração para os milhos dos campos adjacentes à estrada, algum do qual o calor e a escassez das águas tinha definhado; e ao contemplá-lo parecia mais sentir por ele, do que por si, a insuportável temperatura daquele ambiente.
João Semana era também proprietário rural, e portanto, apaixonado pela lavoura, conhecedor das leis de cultura, e experiente prognosticador do futuro das novidades agrícolas; por isso, examinando com profunda curiosidade o aspecto dos campos, cujos donos pela maior parte conhecia, quase chegara a esquecer-se de que um ardentíssimo sol lhe dardejava sobre a cabeça raios ameaçadores, tentando em vão exercer naquela robusta constituição a sua influência maligna.
A égua é que não se esquecia assim facilmente disso, e, cada vez mais rápida, procurava furtar-se a tão incómodo calor, e ao seu inevitável cortejo de moscas, que a traziam impacientemente, não obstante os folhudos ramos de carvalho, com os quais João Semana lhe enfeitara o pescoço.
Depois de cinco minutos mais de trote acelerado, tomou o pobre animal, com manifesta ansiedade e sem esperar sinal do cavaleiro, por uma rua estreita, que abrindo-se ao lado esquerdo da estrada, seguia, sob espesso toldo de verdura por entre duas quintas fronteiras.
Era um oásis, depois do deserto."

As Pupilas do Senhor Reitor

domingo, setembro 03, 2006

Estes calores medonhos que têm assombrado os setembros dos últimos anos, retirando-lhes a subtileza macia que contrasta e sublinha* os laivos do mosto, deixam-me prostrado de indignação. Por isso, só hoje achei forças para blogar, sendo certo que cheguei aqui no sábado. O estado de estupor provocado por tanta e tão boa pintura também contribuiu para que me quedasse pelo folhear dos guias e catálogos das exposições, num estar manso de menino bem-comportado. Acabei por não ler o Chestov e comprei no Thyssen a tradução castelhana do Sexual Personae de Paglia que tenho lido, divertido, com el Amor brujo a acompanhar.

* É mesmo assim, não retiro nem uma palavra: contrasta e sublinha.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Mas é isso que vou ler na viagem: Chestov sobre Kierkegaard. E depois, chegado, mergulhar nos vitorianos. Depois da visão da Virgem com crianças de Cranach. Sim, e também aqui.

sábado, agosto 26, 2006

Este datar minucioso que as inovações electrónicas permitem torna-se, para quem não navega nas rotas felizes dos melhores dos mundos, um motivo de certeira humilhação. Assim, sei com todo o rigor, o último dia em que ri com gosto e motivo (já que muitas vezes rio, frouxamente, a despropósito): foi a 7 de Agosto. E sei a hora: 17, 27 hora europeia central de verão. Está na fotografia. Na fotografia que tentava, com seriedadezinha, quando ela (yes, há uma agradável ela nesta petite histoire), quando ela (aproveitemos... ), - por achar muito séria ou ridicule a postura? Impossivel saber, hélas! - me pregou um tremendo susto, com um "BUUUU" si charmant, si délicieux... e ambos rimos, rimos de gargalhada, rimos com rapidez e gosto.
7 de Agosto! Ao tempo que foi! Hunft!
Entre procuras na net, folheares de livros, dissipares de dúvidas sobre se era mesmo frio depois de jantar, alguns espilros esclarecedores e alguns olhares à televisão se passou a noite. Já outonal, ou quase.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Voltei, como se volta das deambulações que a mais elementar prudência deveria ter bastado para evitar: alquebrado e sorumbático.

Oiço, com música de Finzi, o

Our birth is but a sleep and a forgetting:
The Soul that rises with us, our life's Star,
Hath had elsewhere its setting,
And cometh from afar:
Not in entire forgetfulness,
And not in utter nakedness,
But trailing clouds of glory do we come
From God, who is our home:
Heaven lies about us in our infancy!
Shades of the prison-house begin to close
Upon the growing Boy,
But He beholds the light, and whence it flows,
He sees it in his joy;
The Youth, who daily farther from the east
Must travel, still is Nature's Priest,
And by the vision splendid
Is on his way attended;
At length the Man perceives it die away,
And fade into the light of common day.

da Intimations of Immortality de Wordsworth

quinta-feira, agosto 24, 2006

Intermezzo II

"Plutão perde estatuto e sistema solar fica com oito planetas
A Assembleia-geral da União Astronómica Internacional (IAU) decidiu esta quinta-feira, em Praga, retirar a Plutão o seu estatuto de planeta, passando assim a oito o número oficial de planetas do sistema solar."

Agora foi Plutão... Para o Impensável, Plutão será sempre um digno e querido planeta, nada menos do que isso.

domingo, agosto 13, 2006

Intermezzo
Da capital do reino aqui foram oito horas calmas. As estações, algumas de duvidosa existência, eram antecedidas por alocuções, embora breves, não severamente lacónicas: poderiam ser aforismos, máximas morais, enunciações de problemas de filosofia política, falas de personagens de Bergman, enunciações ontológicas que as paragens do combóio apenas ilustravam. Acabei o ensaio sobre Fichte, de Berlin, dormitei e vi a paisagem que daria gosto a qualquer amador da natureza: "olha a frágua, olha o rio, olha a ravina, o lago, o penedo, a cascata, olha, olha!"

sábado, agosto 05, 2006


Esperemos, então, pelo Outono ou, sem ambições apressadas, por Setembro.
O vôo sobre os trigais é de 1891, de Harald Slott-Moller
Há bocadinho quis enviar uma sms de parabéns (o telefone não respondia) e não consegui. Percebi depois porquê: estavam todos a combinar tudo, ou quase, os programas desta noite. Resolutamente, estou sem sombra de que fazer senão estar aqui a ver de paisagens longínquas onde lave os neurónios e depois os possa pôr a corar a um sol pálido e incerto, para ganho das cores

sexta-feira, agosto 04, 2006

Uma borboleta gorda e, julgo, com ambições literárias de metáfora, busca um fim em volta do quebra-luz do candeeiro, que transformou numa espécie de poço da morte do avesso; voa atraída pelas luzes com uma ferocidade trepidante e barulhenta. Para ser mais preciso, com a veemência de que só as criaturas das letras são capazes no cumprimento de uma figura de estilo, mesmo da mais gasta. E eu, que pesquisava as minhas férias da net (deviam ter sido programadas há mais de dois meses, declarava um profissional do lazer), ao incómodo de antecipar sofrimentos de caminhadas de hotel em hotel a subornar recepcionistas para conseguir dormida em enxovias caras, tive de acrescentar o de inclinar-me para me proteger de uma colisão trágica com o insecto que me vazasse uma ou as duas, sim, as duas, vistas que esta é época de dramas pequenos e burgueses e todo o cuidado é, como se sabe, pouco.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Sonhei, num sono de tarde de estio, passear por chãos cobertos de carumas distantes, atentas e pensativas, diferentes das carumas felizes que Ruben A. - cito de memória - conhecia do Minho. Entre as sagas e as albas.

terça-feira, agosto 01, 2006

Malas abertas, as roupas que eram para ir espalhadas por cabides e costas de cadeiras, outras em cima das camas, papel de seda, azáfamas e agitações - contidamente alegres e tão desnecessárias, afinal - as coisas de praia (toalhas, roupões, chapéus...) as coisas de viagem.
Era assim, e que saudades tão grandes de tudo.