sábado, julho 01, 2006

Nao vi o jogo (não tenho paciência) mas assisti aos penalties. Emocionante!
Tivera sido com a França, teria abandonado a fleuma e mandado celebrar um Solene Te Deum.

Depois, passados momentos começou a ululância nas ruas, agravada agora com a dos «populares na TV» e é já muito à contre-coeur que escrevo este post-confissão de um momento de euforia.

sexta-feira, junho 30, 2006

quinta-feira, junho 29, 2006

Os meus "favoritos" desorganizaram-se, melhor, organizaram-se alfabeticamente ao invés de cronologicamente, como até agora estavam. Perdi metade do meu mundo e, principalmente, os meus preciosos links finlandeses, que lá estão agora por "assunto" - desconhecido - e que não encontro, por mais que tente *. Idem para os da Frisia (encontrei apenas este que atribuo ao sono da altura).
Apesar de não parecer, estou apaticamente furioso.

* Não, não estavam arrumados nas "pastas próprias" e com o nome do respectivo"assunto" "Links da Finlândia" ou "Alojamento em Tornio"... Estavam "a granel".
Inquietude? Ponha-se-lhe motivos náuticos, muito azul, areia, mar, talvez um farol e logo o tormento se desfaz, a desdita cessa, sossega e se aquieta o bloguista.

"...............................................
- Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíçaras te hei-de dar?
"Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar".
- Renego de ti, demônio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou eu ao mar.
........................................."

Nau Catrineta

segunda-feira, junho 26, 2006

Confidenciou-me a minha fiel empregada Felisbela que de vez em quando pensava na família Sampaio. Como estariam a senhora, o sr. presidente, os meninos? Isto ainda há poucos dias. Lá a sosseguei, "pas de nouvelles, bonnes nouvelles". Mas hoje, lido o Diário da República pude dar-lhe notícias frescas: a menina Verinha, disse-lhe, já tem emprego, Felisbela, é adjunta do Senhor Ministro da Presidência, desde Abril, vem hoje a nomeação. "Ah - disse ela - ainda bem. No Ministério da Presidência? Aquilo foi pelo paizinho ter sido presidente". E eu: deve ter sido, Felisbela, deve ter sido. E ia acrescentar que lá fora isto seria um escândalo, quando me lembrei que os choques emocionais da Felisbela acabam sempre por se repercutir cruel e vivamente nos meus pobres palato e estômago (nem sempre por esta ordem) e calei-me, que isto, em questões de gamela, não brinco.
Ah, aqui entre nós, o pormenor terno: a nomeaçãozinha foi publicada com efeitos retroactivos. Estou em crer que o Sr. Dr. Sampaio até foi capaz de se ter emocionado com essa atençãozinha, sabe-se lá se até chorou! Se eu, que nem conheço a Verinha, tive vontade de chorar...

sexta-feira, junho 23, 2006

Às onze e meia estava livre e resolvi apanhar um táxi e passar pelo «hiper», antes de voltar. À entrada, depois de pagar - como os americanos, já fora do táxi - ouvi um "pstpst, ó senhor" e lá estavam as duas, bem dispostas e sorridentes. Fingiam-se escandalizadas com o meu overdress - que consistia, afinal, num lenço no bolso do casaco - e para me envergonharem, diziam, tinham tirado fotografias com o telemóvel, para enviarem ao geral dos amigos. Defendi-me mostrando o traje de trabalho, enrolado debaixo do braço. Lá sossegaram... e entre risos perguntamo-nos pelas maleitas, que estão em altura sim, e despedimo-nos com os "apareça" habituais. Já na secção do leite, percebi quão agradável aquele encontro, risonho, amigo. A alquimia da felicidade de que falava o Rimbaud é isto. E se acham "isto" o meu momento "Caras Verão" não me importo. Nada melhor que gente bem humorada. Prontos.
Ouvi o primeiro-ministro falar sobre a situação em Timor e pasmei: sei que não é fácil dizer seja o que seja, dada a gravidade e melindre da situação, mas tantos lugares comuns, tanta vacuídade, tanto Sir Humphrey de terceira categoria não seria possível evitar?

quinta-feira, junho 22, 2006

A actividade económica descresce, as perspectivas são o que são, mas os empréstimos para a compra de casa aumentam. Quando li a notícia senti-me verdadeiramente assustado: esta gente enlouqueceu, perdeu a noção das coisas e a voracidade é tanta que quando tiverem consumido todo o cimento disponível irão cravar o dente aguçado no incauto mais próximo. Sim, será o canibalismo.

quarta-feira, junho 21, 2006

Dos charmes do reino britânico às desgraças da república portuguesa: o custo do trabalho aumentou 4 e tal % este ano e a actividade económica teve uma ligeira queda. Quando o crescimento devia estar nos 3 ou 4%... Enfim...
A coisa em si, a pobreza pátria, nao teria qualquer mal não fora a mania da grandeza desta classe média que a 3ª república gerou. Se voltasse a velha moda da pobreza e do low profile e dos jantares em tascas a condizerem já a coisa se remediava. Era como observava o Beckford sobre nós: não há grandes fortunas, dizia, mas como não há amantes caras, nem corridas de cavalos, nem nada do que faz a vida cara nas outras capitais, vivem as pessoas passavelmente.

Yes, is Ascot Day.
E Ascot, meus caros, é uma instituição louvável e rara: aristocrática e, por isso, alegre e bem-humorada, sorrindo com bonomia e wit de si própria, coloca-se, pelo extremo excesso, na categoria raríssima das coisas improváveis e impossíveis em que a Rainha Branca acreditava - e com razão - ainda antes do pequeno-almoço.

terça-feira, junho 20, 2006

Arrumações. Num dos livros a guardar no equivalente aos "Reservados" de uma qualquer biblioteca antiga, receitas de rissols ou, aportuguesando como o faziam naquela época, rissoles. No fim do século dezanove, o rissol, estou em crer, ainda era uma inovação em Portugal, ou se não já uma novidade, conservava-se longe do vulgo. O pobre rissol não descera ainda a longa escada da degradação, de que se imaginava, porventura, a salvo, quando, novinho, participava em piqueniques alegres, em grandes cestos ingleses sobre plaids de boa lã. Mal ele sabia, o pobre, que, estava condenado, a participar na prostituição da sanduíche em snack-tascas país fora depois de uma arrastada existência por festejos pobretes e nem ao menos alegretes. Não foi venturosa a história do pobre rissol, que quando pequeno eu cheguei a conhecer, conservando ainda um subtil laivo de estrangeirismo e de recheio muito cremoso e amarelo, feliz de salsa e limão.
Pobre rissol, pobres rissoles...

segunda-feira, junho 19, 2006

Insónias e ceias: ceio sentado à mesa na casa de jantar e acabo com doce e fruta. Agora mesmo. A noite tenho-a passado em indagações sobre a abnegação, suas condições (o direito de, a legitimidade de negar) e onde acaba aquela e começa a condescendência, ou melhor, onde começa o desprezo sereno (no Tio Vânia, por exemplo).

sábado, junho 17, 2006

A sonata de Franck para este M. Proust que revisitei agora em Junho, como as "Quatro Estações" para os Miseráveis, há tantos anos.

sexta-feira, junho 16, 2006

"Le 20 juin, à Drouot, va être dispersée la collection de Pierre Berès, nonagénaire alerte et discret qu'admirateurs et détracteurs s'accordent à présenter comme «le plus grand libraire du monde»".

Que há? Stendhal comentado pelo punho de Proust, ou provas suas revistas por aquele M. Beyle "sur les avis de monsieur de Balzac" e muito mais. Leiam.
Creio que os autores destes blogs (1 e 2) estarão na assistência, disfarçados de classe média baixa portuguesa a águas.

quinta-feira, junho 15, 2006

Num passeio calmo e alfabético passei pelo Abrupto e li o post sobre o Francis. Só falta a conclusão: não foi apenas a preguiça que os brasileiros importaram de Goa. Daqui levaram eles o cepticismo, cinismo esquizofrénico e provincianismo - que lá brotaram tropicalmente, com violência e desmesura - como é bem visível até nos melhores deles, como Francis, sem dúvida, foi.
"Portugal conta pouco para se falar do Brasil"? Não creio. Tem que se levar em conta o imenso esforço omissivo, bojudo como uma bilha minhota, que atravanca a mente daquela gente de coisas não ditas nem escritas, numa omissão pesada e perversa que tem a exuberância - diria o estigma - de um toucado de Carmen Miranda. E no que vem ao de cima sobre Portugal, nota-se um asco seco e duro (a par com um respeito que atinge o respeitinho reverente por algumas instituições daqui - a Universidade de Coimbra, por exemplo - que se descobre radicar fundo, tal qual a devoção camponese que é) um asco rude e ressentido, dizia, e tão luso, afinal, que apenas faz realçar a verdadeira comicidade da situação: só portugueses depreciam assim Portugal.
Mas "contar pouco" Portugal??? Não, malgré eux-mêmes...
Aqui, em Portugal é que o Brasil conta escandalosamente pouco, império metido entre impérios, entre a Índia, o Oriente todo com que perpetuamento nos incensamos e a África que sonhámos ainda há pouco como futuro.
Apenas para dizer que estou em casa, que não saí nem vou sair, mas aproveito os feriados para... para ficar em casa, já que nos outros dias a gente simplesmente está, não fica. Mas sempre direi que ou se fica ou se foge, "sair para" é um triste destino.

terça-feira, junho 13, 2006

Santo António de Lisboa
Trezena

Irmãos caríssimos. Apresentemos a Jesus as nossas súplicas, a fim de que, por intercessão de Santo António, infunda sobre nós a Sua misericórdia.

1. Ó glorioso Santo António que recebeste de Deus o poder de ressuscitar os mortos, acorda o meu coração da preguiça e faz desabrochar uma vida de verdadeira fé.
Glória ao Pai …
2. Ó sábio Santo António que pela tua Sabedoria foste luz por toda a Igreja e por todo o mundo, iluminai a minha inteligência abrindo-a à verdade de Deus.
Glória ao Pai …
3. Ó Santo António rico de piedade que amparas logo os que te invocam, auxilia-me nas necessidades actuais.
Glória ao Pai …
4. Ó generoso Santo António que respondeste ao chamamento de Deus, consagrando a Tua vida ao serviço do Evangelho, faz que possa escutar docilmente a voz do Senhor.
Glória ao Pai …
5. Ó Santo António, modelo de Santidade não permitas que a minha existência fique manchada pelo pecado e ajuda-me a viver com modéstia e sobriedade.
Glória ao Pai …
6. Ó querido Santo António por cuja intercessão todos os doentes encontram saúde, orienta a minha alma, cura-a das culpas e dos hábitos maus.
Glória ao Pai …
7. Ó Santo António que te esforçaste por salvar a todos, conduz-me no mar da vida e dá-me a graça de chegar ao porto da salvação.
Glória ao Pai …
8. Ó Santo cheio de compaixão que ao longo da tua vida libertaste prisioneiros, que também eu seja liberto do pecado.
Glória ao Pai …
9. Ó Santo dos milagres não permitas que eu me afaste do Amor de Deus e me separe da unidade da Igreja.
Glória ao Pai …
10. Ó Santo António solidário com os pobres, que ajudas a encontrar o que se perde, permite que eu nunca perca a amizade com Deus, mas a conserve todos os dias da minha vida.
Glória ao Pai …
11. Ó querido Santo António que escutas todos os que por ti clamam, escuta com bondade também a minha oração e apresenta-a a Deus para que seja atendida.
Glória ao Pai …
12. Ó Santo António apóstolo incansável da Palavra de Deus, ajuda-me a dar testemunho da minha fé com a palavra e o exemplo.
Glória ao Pai …
13. Ó bem-amado Santo António do Paraíso onde te encontras olha para as minhas necessidades: a tua língua milagrosa fale a Deus por mim, derrame a sua consolação e seja atendido nos meus pedidos.
Glória ao Pai …
- Santo António, rogai por nós.-
E seremos dignos das promessas de Cristo.
Oremos: Deus Todo Poderoso e eterno, que em Santo António de Lisboa ofereceste ao Teu povo um insigne anunciador do Evangelho e um santo solidário com os pobres e os doentes, concede-nos, por sua intercessão, seguir os seus ensinamentos de vida cristã e experimentar, na provação, o auxílio da Tua misericórdia.
Por Cristo Nosso Senhor.

segunda-feira, junho 12, 2006


Em memória dos tempos bons das férias grandes, pego no meu balde, na minha pá, e vou para a praia. Se o tempo não estiver bom, fico por lá de qualquer maneira, a dar razão ao Abrupto

domingo, junho 11, 2006

Eu sabia que havia mais qualquer coisa com este dia 11... E havia! Desde a escola primária até ao fim do liceu era o dia em que começavam as Férias Grandes - que só acabavam a 7 e, depois a 1 de Outubro.
As férias, enormes, tinham fases diversas de campo e, mais tarde, de viagens, mas a mais divertida era a da praia, uma fase longa, que, muitas vezes, passava dos dois meses. Tenho muitas saudades dessas férias grandes e lentas.

Ontem li 2 ou 3 sonetos de Camões e alimentei o patrioteirismo (sic) com a descoberta de que a os mot d'esprit da Duquesa de Guermantes (compósita figura que Proust quis a personificação da requintadíssima sociedade da Paris da segunda metade do século) e mesmo alguns dos seus achados estético-mundanos -os sapatos encarnados - foram contributo de Mme. Strauss que, sobre ter sido viúva de Bizet, era filha de uma senhora Rodrigues-Henriques, de uma família de judeus portugueses refugiados em Bordeaux.

P.S. Para acabar o affaire Proust-Albaret: Esta queimou manuscritos, mas, como ela própria explica, por ordem expressa de Monsieur Proust. Que se esperava? Que tivesse desobedecido? A honra da Albarét parece-me salva.

sábado, junho 10, 2006


Grão tempo há já que soube da Ventura
a vida que me tinha destinada;
que a longa experiência da passada
me dava claro indício da futura.
Amor fero, cruel, Fortuna dura,
bem tendes vossa força exprimentada:
assolai, destrui, não fique nada;
vingai-vos desta vida, que inda dura.
Soube Amor da Ventura que a não tinha;
e, por que mais sentisse a falta dela,
de imagens impossíveis me mantinha.
Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
não foi melhor, vivei nesta alma minha,
que não tem a Fortuna poder nela
Luís Vaz de Camões

sexta-feira, junho 09, 2006

O apartamento de uma amiga foi assaltado por uma quadrilha búlgara, um audacioso quinteto de tocadores de banjo balcânico, uma inverosímil mas teimosa coisa de Hergé. Tal qual nos livros de Tintin, o roubo foi audacioso.
A minha amiga está desolée, e quer tirar disto tudo, que não é nada, uma lição para a vida. Desanconselhei-a, terminantemente, de fazer tal: não levaram as jóias boas e filosofar a partir ou à conta de bijouterie parece-me contraproducente e pouco digno.

quinta-feira, junho 08, 2006

Poucos dias antes de morrer, Eça escrevia da Suiça a sua Mulher, Dona EmÍlia de Castro, lastimando-se da falta de dinheiro.

Eça era - ou é - o maior escritor português, um dos grandes génios literários do mundo, popular e lido em Portugal e traduzido ainda em vida em várias línguas, entre as quais o inglês.

Cem anos depois, Miguel Sousa Tavares, que não é nada disso, como o próprio, com elegância, reconheceu, ganhou, com um único livro, mais de um milhão de euros.

Vasco Pulido Valente tem razão: não só se lê em Portugal como, acrescento eu, já se lê demais.

Isto a propósito do tal plano.

terça-feira, junho 06, 2006

E de novo o aniversário!
Faz hoje 62 anos que os norte-americanos, britânicos e canadianos invadiram a Normandia para libertarem a Europa da barbárie nazi.
Além do papel militar, os USA criaram o plano Marshall que permitiu a reconstrução europeia.

Honra àqueles países e aos milhares dos seus cidadãos e súbditos que morreram para devolver a liberdade à Europa.

Aqui pode saber mais sobre o DIA D.

segunda-feira, junho 05, 2006

O processo de designação e escolha de deputados está tão perto do de simples funcionários que do que li da declaração presidencial que acompanha o veto, me parece, creio, que o âmago da questão não é tocado.E é uma questão simples: escolher os representantes do povo, de cada um de nós, é, afinal, assegurar a soberania do povo. Em nome de quê pode essa liberdade de escolha ser coarctada? Qualquer limitação é um atentado aos fundamentos mais elementares e profundos da democracia.
A enormidade da coisa tornava-se evidente se existissem listas nominais, em que pudéssemos escolher esta e não aquele, aquele e não aqueloutra.
Lei da paridade

Cavaco Silva 1-Então eu não tinha razão a respeito do Cavaco? 0

domingo, junho 04, 2006

Amanhã é domingo

Pão com pingo
Galo francês
Pica na rês
A rês é mansa
Vai para França
Se ela voltar
Torna a ficar
O burro é de barro
Pica no jarro
O jarro é fino
Pica no sino
O sino é de ouro
Pica no touro
O touro é bravo
Pica no fidalgo
O fidalgo é valente
Mete três homens
Na cova de um dente.

sexta-feira, junho 02, 2006

O club de futebol do burgo - uma invenção infecta dos medíocres políticos locais - pede hoje, no jornal da terra, uma contribuição financeira já que, tudo leva a crer, está falido ou perto. A prosa usada é um magnífico exemplo daquele simulacro de bom-senso, bons propósitos e seriedade que oculta a miséria caótica em que vivemos. Li e reli, deliciado, já que não tenciono dar um só ceitil, tostão, ou cêntimo e a única coisa que intensamente desejei foi prolongar no tempo aquele prazer omissivo, indefinidamente não dando, gozando com abundância o sintoma daquele prazer, aquele "alguma coisa que antes de tudo não cessa de se escrever do Real", e "que volta sempre ao mesmo lugar" (Lacan)
E estou nisto desde que a empregada me trouxe os jornais, sem escrúpulos, apenas tomei um café e a vitamina C.


Liv Ulman é Miss Junho.

quarta-feira, maio 31, 2006

terça-feira, maio 30, 2006

Os dados estão à vista de toda a gente. Refiro-me aos mostrados e explicados por Medina Carreira, um dos poucos portugueses que parece saber ainda o valor da realidade e do dizer-se a verdade sobre ela.
O programa de ontem, do "Pros e Contras" foi , em si mesmo, um bom exemplo do nosso drama: A apresentadora parecia acima de tudo interessada na revisão da constituição e em possíveis recados do Eng. Belmiro ao Governo. O senhor da Galp que ficou ao lado do Dr. Medina Carreira veio falar da "excelência" e dos optimismos e ficou, claro está, calado, quando lhe foi lembrado que o crescimento de 0,6 foi o que conseguimos com todas essas virtudes...
Mas alguém realmente perigoso é o estimável Dr. Silva Lopes: é bem intencionado, honesto e parece sensato, com os seus gradualismos ficando, por vezes, o Dr. Medina Carreira com o papel de louco exaltado. E afinal... é devido ao "bom senso" dos Drs. Silva Lopes deste país que estamos como estamos... é devido a esses cuidados que diariamente a nossa situação se agrava...
No final, entre alguns prognósticos espectaculares, dramáticos, de guerras civis e outras palermices, a nota de realidade foi dada, de novo pelo Dr. Medina Carreira que apenas falou do nosso mais óbvio e pacífico futuro: a pobreza, apagada, calma e vil.
Uma amável leitora deste blog (que redundância!) situou a ida de Bergotte à exposição no 5º volume da RTP Recherche Temps Perdu), a páginas 177 da edição da Relógio de Água (a traduzida por Pedro Tamen). Na minha edição, a da Livros do Brasil, a páginas 174. Aproveite-se e leia-se.
Mas o episódio não era, afinal, aquilo que tinha referido. Aquele de eu que falava é uma descrição de um quadro, ou meramente de uma cor, ou de uma textura que, pareceu-me quando li, exige de nós uma fusão entre os olhos da corpo e os do espírito, da alma (como Santa Teresa de Ávila distinguia), a um ver que se transmuta em visão, em luz sobre este mundo (e sobre nós nele) no limite do suportável por uma pobre mente ocidental.
Vou continuar a procurar.

segunda-feira, maio 29, 2006

Li Monsieur Proust até bastante tarde. As despesas que este fazia - e que horrorizavam e preocupavam a sua empregada - pôde fazê-las porque sua Mãe tudo fez para que ele tivesse rendimentos suficientes para viver e escrever sem os constrangimentos das faltas de dinheiro. Proust foi, nesse sentido, um escritor planeado (com a minúcia que hoje em dia se guarda para os atletas olímpicos ou estrelas de cinema). E, também, toda as suas excentricidades foram, afinal, medidas ponderadas de gestão: sendo a sua obra o único fim importante, tudo o mais, conveniências sociais, horários, tudo foi moldado para que a sua obra pudesse ser terminada.

Céleste Albaret fala, de quando em vez, da saída de Proust para rever um quadro de Vermeer, saída que este, creio, utilizou na sua obra. Mas, nascidas dessa ida ou de outra, anterior, aconselho a todos que leiam ou releiam essas considerações sobre a textura de uma parede de um muro que, foram, creio, das coisas mais assombrosas que alguma vez li. Está no último volume da RTL, no "Tempo Reencontrado"*.

* Não está. Está na Prisioneira ou na Fugitiva (já folheei a Prisioneira e não encontro, creio que o capítulo sobre a morte de Bergotte está na Fugitiva que não sei onde pus....). E não é uma parede de um muro: é o "petit pan de mur jaune"; podem ler mais aqui.

domingo, maio 28, 2006

Deliciei-me com a etimologia de Charlotte e, porque estou cada vez mais ingrato, ao invés de agradecer e por aí ficar, sempre direi que o dito no Bomba sobre a lavagem dos lenços de assoar de Monsieur Proust é uma memória falsa, como tive ontem o prazer de descobrir!
O que aconteceu foi que Céleste, a Albaret, encarregada, uma vez, de comprar lenços para Proust, comprou, por mais baratos, uns menos bons do que aqueles que o Escritor usava, na campónia esperança que este não percebesse e assim poupasse uns cêntimos. Proust, claro está, deu pela diferença. Céleste lavou e relavou os lenços e após uma segunda tentativa de o fazer usá-los, disseminando-os na pilha dos lenços, tentativa gorada pela meticulosidade das mucosas do grande escritor, ainda persistiu, com mais lavagens, etc., uma terceira vez. Proust, sem esgotar a sua bonomia, viu-se obrigado a cortar com uma tesoura de unhas um desses lenços à frente de Céleste, para que esta compreendesse quão vãs seriam as possibilidades de ludibriar o Escritor.
Sobre isto, construiu a memória benfazeja da Ilustre Bloguista uma história de piedosa devoção albaresca. Não, minha senhora, tudo não passou de uma tentiva desastrada de encobrimento de uma sovinice (ainda que por interposto pecúlio).

sexta-feira, maio 26, 2006

Ainda o abalo

Na "votação" uma forma de inquérito no Sapo, à declaraçao de Welsh sobre a necessidade do "grande abano" 85,1% dos "votantes" declaram que é necessário um não pequeno abano salvador... 10,2% ficam-se pelo talvez e 4,7% discordam dessa necessidade. O que valem estas "consultas" a gente sabe. Mas 85%? Creio que tenho razão: o governo está a governar com medos e cuidados que já não são necessários há anos. Bem sei que seria necessário o sacrifício de parte da classe média, dos seus previlégios, e que chegada a altura... mas mesmo assim, não sei se não seria possível dar o pulo para os tempos de hoje. Nem ninguém sabe ou saberá, enquanto nao surgir a coragem de propor um país radicalmente diferente - aquilo que está a ser feito no resto do mundo, a começar por aqui ao lado, em Espanha, e que aqui ainda é mera especulação de café, ou de blog.

Portugal precisa de um «grande abalo»

diz Welsh, segundo as notícias do Sapo:

"Portugal é visto no estrangeiro como um país em contínua degradação e declínio no que respeita ao mais variados indicadores económicos, necessitando de um «grande abalo». O retrato negro é traçado pelo guru da gestão norte-americano, Jack Welch.
«Ele (Jack Welch) diz que é humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, com uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos», disse Mira Amaral.
A educação, formação profissional, inovação, investigação, desenvolvimento tecnológico e níveis de exportação foram alguns dos exemplos apontados. «Se compararmos o crescimento com o dos países da Europa do Leste, com a Irlanda ou Espanha , eu ficaria embaraçado com o desempenho económico português», afirmou."

O resto... são diversões fúteis

The "Circle Theatre" de Hopper (1936) que pode ser visto enquanto se escuta "Quiet City" de Copland (de 1940, a partir da música que tinha composto para a peça de Irwin Shaw com o mesmo nome).

quinta-feira, maio 25, 2006

Ora, coff, coff, peço a atenção das minhas Senhoras e Senhores Leitores:

"Aujourd'hui j'ai compris que toute la recherche de M Proust, tout son grand sacrifice à son oeuvre, cela a été de se mettre hors du temp pour le retrouver. Quand il n'y a plus de temps, c'est le silence. Il lui fallait ce silence pour n'entrendre que les voix qu'il voulait entrendre, celles qui sont dans ses livres."

Quem fala assim é Céleste Albaret, a empregada doméstica de Proust. Que cada leitor retire da caixa de suspiros de resignação um ou mais enquanto medita sobre o actual momento da literatura portuguesa, crítica da mesma, frases e dichotes de autores, etc, etc.

quarta-feira, maio 24, 2006

Há anos que andava para comprar o livro de Céleste Albaret. Há dias assisti a esta conversa e, milagre de internet, encomendei naquele mesmo momento, juntamente com um outro de Berlin. Recebi-os hoje, neste dia tépido e perfumado, Maio perfeito.

Ah, do livro já li umas páginas. Já nao me lembro, quando li sobre este "Monsieur Proust", se foi escrito ou meramente ditado e sujeito a arranjos posteriores. A terem existido, tais arranjos não toldaram a voz de Albaret, já que apenas quem viveu o que conta conta assim. Acreditei, por isso, no que li e o estudo daqueles mecanismos de defesa contra o quotidiano, através da imposição - melhor diria proclamação - do seu próprio ciclo circadiano àquela orbe -o seu apartamento, à pequena população dele - que manancial de exercícios de negociação com o destino!
Vim aqui, já sonolento, fechar o computador e acabei por ler alguns posts de alguns blogs. Estou alheado do que se discute em Portugal, descubro, e não tenho interesse em informar-me.
Tenho saudades kitsch do Portugal rural e etnográfico que ainda conheci e que só encontro em alguns livros com uma forma rara e já desconhecida de se encurvarem nas estantes (nesse escorregar ameno, não no que se lê neles) e noutras coisas miúdas, no ser de noite, mais escuro, a terra onde vivo tremeluzia pequenina, lá no cimo e, de volta, a escuridão onde as aldeias dormiam o serem assim desde Júlio Diniz.
E é disto que gosto, do mesmo modo que volto aos Cadernos de Malte ou aos Buddenbrook ou... de preferência a qualquer coisa de que se fale agora.
Suspiro convicto.

terça-feira, maio 23, 2006

Nem um protesto, nem um insulto! Que afronta!
Eu confesso: comecei este blog para mim, como exercício, como disciplina - não tenho nada de interessante a dizer a ninguém e, se o tivesse, não o diria. No entanto, com tanto mecanismo de medição, com tanta competição, em breve me interessei pelo número de leitores e dei por mim a magicar promoções de supermercado. As promoções não pagaram, como se diz agora, mas a minha mancheia de leitores alegrava-me e bastava-me. Eis senão quando fui de novo tomado pela mania do sucesso e resolvi seguir o caminho torpe da transgressão, transformando este blog, até agora pacato, num - e digamo-lo sem mais - num "blog com gajas nuas" que, deveria ofender, em vários pontos, o Código Pacheco-Hays . E após a introdução audaciosa do nu, sentei-me e esperei a enchente esperada, conforme o que lera.
E, meus leitores, nada! Nem uma indignação, nem um insulto, nem enchente! Ó minha mancheia de leitores, alguns mães, outros pais de família, a que indiferença nos conduziu a perversidade que campeia! Mas não pode ser! Têm de tomar uma posição, obrigar-me a apagar o post de ontem, aquele enganoso "jardim medieval, tarde de Maio" que mais não é que uma enorme pouca vergonha! Revoltem-se, caros leitores, e digam bem alto da vossa revolta até que eu capitule e seja forçado a retirar o afrontoso post dito "medieval".

sábado, maio 20, 2006

Há uma altura em que um pobre homem de meia idade, esquecido dos seus sonhos de Rebeccas de Mornay's de 4 divórcios aos 50 e 7 edições da biografia aos 100 (onde constaria de modo lisonjeiro "as a cheer lover and a gentleman") se decide a aceitar a vida tal qual ela é! Procura uma rapariga de aspecto fresco, simples, e com um sereno e lhano encanto ("Any girl can be glamorous. All she have to do is stand still and look stupid"she said), que se divirta com coisas comuns, que se entretenha com os seus pequeninos segredos e... e é uma tal dificuldade que quase se desanima!

sexta-feira, maio 19, 2006

Detesto incongruências, eis uma das minhas limitações. Por isso, a descida vertiginosa dos índices de Portugal entre os países da UE aquieta-me, sossega-me: da pergunta sem resposta (*) do Abrupto (a do inquérito) ao... ao resto, tudo condiz, afinal.

(*) Não, não é algo de somenos: um pedido, anunciado de forma solene, do Presidente da República feito a um dos mais importantes funcionários do Estado sobre um assunto concreto e de imediato exequível não pode ficar - como já ficou - sem resposta clara e célere.

quarta-feira, maio 17, 2006

Hoje ando na ronda dos blogs.
Parece que, tal como o Almocreve, também o Crítico faz três anos.
Muitos parabéns, sinceros e sem presente, que não sei qual pudera oferecer senão o que tenho para dar e que é o ser dele, Crítico, leitor errático, incompetente e fiel.
O Almocreve das Petas faz três anos, data importante.
O Impensável dá os seus parabéns, deseja longa vida e, num acesso impensado de generosidade, aqui deixa o seu presente.
Uma afta! Francamente, não fora aquelas amêndoas do sorvete e diria que era da prosa da Agustina: os aforismos, para aqueles males de boca, são piores de que os frutos secos, diz o povo, que nunca ninguém de mais aquilatada ciência quis opiniar.
Deste alguma coisa que é nada, ou menos ainda, mera suspeita, se faz a vox populi e muito romance em épocas de míngua.

terça-feira, maio 16, 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

"[....] na verdade, nada me surpreendeu mais que o modo livre e desembaraçado como os rurais portugueses mantêm uma conversa, e a pureza da língua em que exprimem as suas ideias, se bem que poucos saibam ler ou escrever - ao passo que os camponeses de Inglaterra, cuja educação é, de um modo geral, muito superior são grosseiros e obtusos na conversa, por vezes a raiar a brutalidade, e absurdamente ingramáticos na linguagem - embora a língua inglesa seja, em globo, de estrutura mais simples que a portuguesa."

"George Borrow em Portugal" (1835), Livros Horizonte, Lisboa, 2006

sexta-feira, maio 12, 2006

Fui a ares, estes dias, para S. Sebastião da Pedreira, termo da cidade de Lisboa. De lá regressei hoje, cansado de tanto sobressaltado sossego. Aqui, onde ele é natural e perfeito (cheio de sons pitorescos) não tem graça nem chiste o cantar do galo que lá me encantava. Estou quase Calisto, e, anjo fora, não se me dava de cair, também, um pouco.

segunda-feira, maio 08, 2006

Tentei encontrar o meu exemplar dos Buddenbrook e a tarefa revelou-se surpreendentemente fácil. A data da compra, muitos anos atrás, em Maio. Aguentei o golpe, lembrei-me de que era um adolescente muito adolescente na altura e, benigno e sensato, felicitei-me com sinceridade por Thomas Bunddenbrook e Tony (e Sesemi) fazerem parte das minhas amizades há tanto tempo e desde tão cedo.
Neste finale, as senhoras da família interrogam-se sobre o seu destino e sobre se algum dia se reencontrarão com os seus mortos queridos.

" -Havemos de reencontrá-los - disse Friederike, há horas em que essa ideia não consola, valha-me Deus! Horas em que se duvida da justiça, da bondade... de tudo. A vida - sabem ? - quebra muita coisa em nós e destrói muitas crenças... Um reencontro... Oxalá seja verdade...
Nesse momento, porém, Sesemi Weichbrodt levantou-se junto da mesa tão alto quanto pôde. Pôs-se nas pontas dos pés; esticou o pescoço; deu palmadinhas na tábua. A toca tremia-lhe na cabeça.
-É verdade! - disse ela com todo o vigor de que dispunha, fitando as demais com olhares de desafio.
Erguia-se ali, vencedora da boa luta que, toda a vida travara contra as dúvidas da sua razão professoral, corcunda, minúscula e trémula de convicção, pequena profetiza vingadora e entusiasta."

Thomas Mann, Os Buddenbrook ed. «Livros do Brasil»

domingo, maio 07, 2006

Lembrei-me agora de Sesemi Weichbrodt, dos Buddenbrook, a que sempre tinha sabido, a que se vira obrigada a saber, a ter a certeza absoluta.
Não sei porque motivo me lembrei dela hoje, embora me lembre dela às vezes, penates lá de onde vive em mim a memória do que li.

sábado, maio 06, 2006

Muito vento, hoje. Vento deste tempo - e assim será até ao fim do Verão - de noroeste.
O som do vento é diferente do das ventanias de Inverno, ouvem-se, viçosas, as folhas das árvores.

sexta-feira, maio 05, 2006

Recebi hoje a "Queirosiana" da Fundação Eça de Queiroz e Associação de Amigos de Eça.
Leio, com interesse, "Untaming the screw: Sex, Sewers and Obscenity in A Cidade e as Serras" de Kathryn Bishop-Sánchez (a coisa não é o que parece).
Entretanto, pelo mail, um pedido da Amazon.us para classificar o desempenho da vendedora do disco que comprei, uma longínqua firma do Oregon. Dei 5, excelente: demorou pouco e chegou tudo como deve ser. Que mais podia querer?
Antes de voltar à Queirosiana, um pequeno lamento: como é irritante esta necessidade provinciana do up to date e como é ainda mais irritante percebermos que o último escândalo artístico de que demos fé já cresceu tanto que frequenta a academia... (descoberta ao ler "But is it art?", de Cynthia Freeland, comprado por erro, mas que se revelou divertido). O escândalo que referi era o de Hirst, do "The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living" que, queira-se ou não, é já do longínquo ano de 1991!

quinta-feira, maio 04, 2006

"A larga maioria dos portugueses residentes no continente não se interessa pelo país, declara-se infeliz e é pessimista quanto ao futuro" diz um estudo da TNS - que nao sei o que é.
Perante tal manifestação de bom gosto e bom senso, fiquei eu menos pessimista.

quarta-feira, maio 03, 2006

Morreu a semana passada o autor destes versos:

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

Guilherme de Brito

terça-feira, maio 02, 2006

EPIGRAMS
by John Donne

AN OBSCURE WRITER

Philo with twelve years' study hath been grieved
To be understood ; when will he be believed?


Só mais este outro epigrama dele, só mais este:

ANTIQUARY

If in his study he hath so much care
To hang all old strange things, let his wife beware.

segunda-feira, maio 01, 2006

domingo, abril 30, 2006

Bem sei que fiquei de falar do Alves & Cia. mas não agora.
Em frente à casa o jardim deserto. Ninguém, nem vivalma!
Do jardim, pela janela aberta da sala, chega um aroma de florinhas do campo e de rosas trepadeiras. Tenho de disciplinar aquele pobre jardim, se quero conservar nele alguma coisa, mas jardins são metáforas subtis de difícil apreensão. De qualquer modo, este ano já não faço nada...

sábado, abril 29, 2006

Por uma questão de feitio ou de afinidade, gosto de obras menores. Gostei do Sua Alteza Real de Mann que lembrei agora mesmo, a propósito de bons propósitos de dias positivos e outras boas intenções e do "Alves & Cia" do Eça. Lembro-me de um velho amigo de família me ter dito, ia eu pelo meus dezasseis tenros anos, que gostava de todo o Eça mas não do Alves, que era o livro sujo do escritor. Eu, que lera o Padre Amaro e o Primo Basilio, pasmei o melhor que pude e prometi-me disfarçadamente a leitura do livro. O que fiz...
Mas digo depois como foi e o que achei, mais logo.

sexta-feira, abril 28, 2006

Foi num jantar de correspondentes estrangeiros em Lisboa. Disseram eles que o destaque do futebol na vida portuguesa é único em toda a Europa; que, em Inglaterra, nem sequer há um jornal desportivo; que seria impensável que as eleições para a presidência de um clube fossem notícias de abertura de telejornais.... que, em suma, todo o circo à volta da bola é, afinal, marca de um bom e sólido subdesenvolvimento.
Também me queria a mim parecer que sim.

Golden Afternoon de Balthus

quinta-feira, abril 27, 2006

Estas tardes, douradas e suspensas, estão desertas de quem nelas dormite o calor, de quem nelas adormeça até à hora do lanche e acorde estremunhado pela surpresa de ser já tão tarde.
A vida mudou.
O quadro de Balthus, Golden Afternoon, virá para aqui, ilustrar, quando conseguir que o ftp funcione.

quarta-feira, abril 26, 2006

27º C em Abril! Como pode este país progredir - ou pensar a gente coisas positivas e sérias - com estas temperaturas de Casa Grande & Senzala, esta brisa mole de índicas lonjuras, estas pausas de aguada?
O meu antídoto pessoal para este estado de coisas é uma colónia britânica, de citrus e revigorantes manhãs frias que nos enche de energia de tão bom jaez que, não nos fazendo cirandar de um lado para o outro, em correrias, a fazer coisas sem sentido, nos provê, todavia, de uma curiosidade simpática pelas pessoas diligentes que passam por nós a caminho das suas ocupações.
This is not the charming or uplifting frivolity of Feydeau's farces or Oscar Wilde's comedies; it is the frivolity of real decadence, bespeaking a profound failure of nerve bound to have disastrous consequences for the country's quality of life. The newspapers portrayed frivolity without gaiety and earnestness without seriousness—a most unattractive combination.

Theodore Dalrymple
Chegam-me notícias do discurso assistencialista do Prof. Cavaco. É como dizia VPV, a classe média não é suicida (e é egoísta, conta com o Estado para a alimentar a ela e às adjacências necessárias para a manter em sossego).

terça-feira, abril 25, 2006

Que calor! Será que se vai manter ou Maio será fresco, como por vezes acontece, quase frio?
Seria bom que não tivéssemos um verão muito quente.
E será desta que me decido a um verão sententrional, aventurando-me até Bergen, ou à Bretanha e Ilhas do Canal, onde quase tenho medo que a minha chegada, de tantas vezes adiada provoque falatório, como temia, em situação semelhante, Lady Bracknell?

segunda-feira, abril 24, 2006

Eu escrevi "este blog acredita"? Este blog sou eu! Por este caminho, qualquer dia estou a dar entrevistas e jogo futebol: "o impensavel quer o bem do club e tem um grande carinho pela massa associativa. O Impensavel não marcou porque não pôde". Os jogadores de futebol é que falam na terceira pessoa, esses e as altezas, reais ou meramente sereníssimas, mas um golpe de estado é perigoso neste tempos de nervosismo.
Enfim...

domingo, abril 23, 2006

Queria ter 10 euros por cada pessoa que falou no acórdão do Supremo - o da palmada - sem o ter lido na íntegra...

Quanto ao mais: este blog acredita numa palmada dada a tempo - e até menos tempestivamente - nas criancinhas, principalmente nas relapsas. E os anjinhos também pensam o mesmo: instados com bons modos meia dúzia de vezes a não estragarem ou a não berrarem, ou a não qualquer outra coisa que estejam a praticar, as mais das vezes prosseguem. Prosseguem com afã e indiferença pelos outros. Pelo contrário, uma palmada bem assente, seca, sintética e enxuta, numa palavra, eloquente - não se diga que não se expõe as criancinhas à acção da retórica - opera maravilhas: param - e se souberem que essa palmada pode ser seguida de outra, nos mesmos moldes, caso haja manifestações sonoras e demais costumeiros artifícios - param convincentemente.

Isto, a propósito disto

sábado, abril 22, 2006

Se o que li tem a menor correspondência com a realidade e o Cardeal Martini afirmou mesmo que a legalização do aborto é um mal menor por fazer diminuir os praticados clandestinos (de facto, para o abortado, tê-lo sido legal ou clandestinamente faz uma diferença substancial...) fica provada a assistência do Espírito Santo nos Conclaves para a eleição papal, principalmente neste último, que não elegeu aquele Senhor Cardeal.
A insofismável grandeza e benefícios do sufrágio popular:

Desde as últimas eleições que Mário Soares tem estado calado.
Os festejos dos 80 anos da Rainha Isabel II, o apoio que lhe demonstram os seus súbditos creio que causam algum mal-estar aos franceses. No outro dia comentava um deles que a popularidade da actual soberana poderia contribuir para a queda da monarquia, já que o actual Príncipe de Gales não é tão - aparentemente e agora - tão popular.

Isto é dito por quem teve de escolher, ainda há bem pouco tempo, entre Chirac e Le Pen e não prognosticou então, o fim da republique française.

sexta-feira, abril 21, 2006

E a Rainha faz anos.
80 merecidos anos.
Muitos parabéns!
Estava a o uvir o "Let it be" e a ler. Passei os olhos pelo monitor, li que Sócrates Fawlty Torres considera o relatório da OCDE "futurologia".
Se ele continuar assim, acabo por gostar dele, talvez me converta e acabe por perceber que "my name is Manuel, call me Manuel."

quinta-feira, abril 20, 2006

Para ler com atenção: At the same time the fiscal deficit remains at an unsustainably high level. To consolidate the budget and regain a higher growth path, a number of structural measures need to be taken. This chapter reviews four challenges: i) putting public finances on a sustainable path; ii) improving the performance of the education system; iii) modernizing the economy by enhancing tertiary education, training and innovation; and iv) creating a more dynamic business environment through structural reforms in product and labour markets.
O resto...
Um amigo emigrante/emigrado apostrofa furiosamente os portugueses porque, num aeroporto de Londres ouve, entre as vozes, o ajuste de uma "bacalhoada com todos". É do pouco que escreve em português no mail que me enviou hoje: talvez por zanga à pátria, é em francês que prognostica a miséria a este povo "qui mange beaucoup et parle trop".
Acho excessiva tal zanga por causa de um bacalhau com todos, se bem que considere que a bulimia nacional, essa atávica verocidade de gente pobre se tem agravado à media que gastamos mais: não deixámos verdadeiramente de ser pobres, a pobreza, ao invés de desaparecer, entumeceu.

quarta-feira, abril 19, 2006

Lembro-me de cá por casa se achar um absurdo o "Abril em Portugal", unanimemente considerado um mês áspero e desagradável. A mim, fazia-me um pouco de confusão tal má vontade. Hoje, instalado na sapiência da meia idade (ai ai), mais, obrigado, agora mesmo, a ir buscar um casaco, dou razão aos protestos familiares.

19 de Abril: vi depois que, pela data, 1506, os acontecimentos do Rossio não podiam ter sido o que apressadamente tinha suposto pelas leituras em viés: o primeiro auto-de-fé.
Não podia ser: ao tempo ainda reinava D. Manuel I, não havia inquisição que chegou por volta de 1540.
Mas deixo o post sem emenda.

segunda-feira, abril 17, 2006

Julgo que não me corre nas veias sangue judeu.
Dos judeus em Portugal sei o que li - pouco - em Herculano e outra tanto em Saraiva e o que quem lê história de Portugal vai encontrando, mas nunca tive grande curiosidade pelo tema, talvez pela minha assumida vocação de evitar assuntos desagradáveis,tais são chacinas e autos-de-fé.
Simpatia, a que qualquer pessoa sente, uma simpatia longínqua e compadecida.
Há uns anos, porém, soube dos judeus de Belmonte e os quatro séculos de persistência espantaram-me - eu que me dedico a ser do contra, mas de desânimo fácil - e comoveram-me. Não o suficiente para, como se diz hoje, me ir documentar - e já tinha lido o essencial - mas para olhar com admiração redobrada as vicissitudes daquela pobre gente tão desgraçada.
Mais ainda, foi essa pobre gente o combustível da Inquisição, instrumento ao serviço do estatismo português e da sua monstruosa capacidade de produção de hipocrisia e criação de realidades "legais" de que tudo é exemplo a conversão forçada dos judeus e o estatuto de cristãos-novos.
Por isso, fiquei feliz quando li na Rua da Judiaria a ideia de lembrar o 19 de Abril de 1506.
Não são pedidos de desculpas, revisionismos, reaberturas de processos ou acusações extemporâneas ... é apenas mera e boa decência, lembrar a morte de portugueses inocentes assassinados pelo estado.
Não vou ao Rossio apenas porque não estou em Lisboa.
Tempinho desagradável, este, de vento frio.
Depois das férias - a Páscoa hoje é, para a grande maioria, um pretexto para férias - aproveito a segunda-feira a meio vapor para pôr alguns assuntos em dia e adiantar outros, de modo que, quando voltar esta gente toda, tenha a possibilidade de me escapar daqui ou meramente das actividades quotidianas e ir habitar os recônditos lugares que construímos - cf., infra, Poema de Vitorino Nemésio.

terça-feira, abril 11, 2006

Hagiografia introdutória, vulgo prefácio, e depois meia dúzia triste de páginas com uma linhas ralas nelas dependuradas por cordéis velhos de imagens e lêem isto e por isto se cumprimentam.
E Nemésio, isto só para falar de um deles, e Nemésio ninguém lê, ou menos do que o deviam.
Ora aí vai dele:

Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
In a fit of spleen (apesar do tempo doce e das férias)

segunda-feira, abril 10, 2006

O governo francês, presidido por Monsieur Villepin, capitulou, desta vez perante alguns adolescentes turbulentos que resolveram divertir-se nas ruas em vez de estarem nas aulas - que, não sei porquê, julgo maçadoras e sensaboronas. Todos os dias os alunos protestavam, trocavam cromos, ficheiros mp3, sms, atiravam algumas pedras à polícia e berravam alguns diminutivos e abreviaturas tão ao gosto gaulês. Alguns alunos do ensino básico também participaram e os seus bibes alegres e coloridos deram uma nota pitoresca aos protestos.
Perante a amplitude e gravidade das "manifs" é uma atitude sábia, esta de Villepin e constitui uma novidade na história de França: até aqui os chefes de governo francês usavam capitular perante o exército alemão. É a primeira vez que o fazem perante os seus próprios adolescentes, numa manifestação de invulgar patriotismo e de respeito pela história de França: "allons enfants de la patrie".

quarta-feira, abril 05, 2006

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

(Álvaro de Campos)

Assim seja.

terça-feira, abril 04, 2006

Se a minha preguiça não corroesse, anestésica e ácida, «as questões que por vezes me assaltam» até vestígios toleráveis de princípios, ser-me-ia impossível viver nesta exiguidade bucólica (junto da eira onde as galinhas vêm esgaravatar alimento) e pedir àquela divindade tão contida em sofrer, ladeada de jarrinhas de sempre-vivas, uma paisagem de meia dúzia de coisas plausíveis para onde olhe e ponha esperança.
Com estas conversas todas, resolvi ir à fonte, ao site de Margarida Rebelo Pinto e li algumas sinopses. Os narradores e narradoras estão desanimadotes com a vida e pensam um tudo nada arbitrariamente. Umas delas refere um com "ar de índio que sabe negociar a paz com paciência e alguma manha" e vá-se lá saber onde é que ela, a escritora, viu um índio a negociar daquele ou de outro modo ou, se viu, como podemos nós confirmar a justeza da imagem, não vale... Mas, acima de tudo, fiquei impressionado com a tristeza... que gente triste e desalentada, que soturno, que lua-de-londres! E apressado, aquilo é um corridinho triste.
Muito português de hoje, no entanto, essa tristeza afoita, o ar despachado, olha-depois-apanho-te-na-escala-em-Londres-não-me fujas-acredito-em-ti-acredito-para-Nova-York-sim-ainda-me-faltam-três-prestações, que é como se dizem estas coisas em prosa moderna, não deixa de ser do mais lídimo lamento e queixume lusos.
Não duvido que seja um êxito.

sábado, abril 01, 2006

Era tarde na noite, no recato do lar. A williamine, en liqueur, sobre a mesinha, preparava-me para entender a questão desta primavera, a "questão francesa": não podia, decentemente, continuar a afirmar, aos jantares, que aquilo era uma questão de nostalgia e de falta de Ritalin, uma falha prescritiva dos pediatras franceses. Prometia-me ler o CPE, ver mesmo no dicionário o significado preciso de «embauche», ler os discuros de Villepin, estudar a história da coisa, munido dos prints que fizera quando tive de admitir que estava vilmente de parti pris contra a criançada. E para remédio disso, resolvi avivar a a minha propensão para a neutralidade com sucessivos golinhos da eau-de-vie suiça. No recato do lar, nada havia a temer, e destrinçaria o assunto. E assim continuei, noite adentro, julgo. Julgo, porque não tenho a certeza: lembro-me quando o perigo surgiu, insinuado na pequena notícula de rodapé: lembro-me de encontrar a citação, de lhe abrir a porta, mas a partir daí é-me impossível reconstituir a jornada. Quando acordei, lá estava ela ainda, gasta, suixante-huitardiste, the french theory, lívida, poudrée, sob o aroma de um pomar japonês, zen, de pera williams. Nunca a salvo de Dionisos, como aprendeu Zé Fernandes, quase corri, como ele, para um grande banho lustral de filosofia analítica e sabão anglo-saxónicos.
Convalesço.

sexta-feira, março 31, 2006

O gene lusíada:
Ora esta! Esqueci-me de uma assembleia geral! É um bocado desagradável!
Bem... o que não tem remédio, remediado está!
Logo telefono a lamentar não ter estado, o que é verdade. Se não fora verdade, não seria lusitano o gene.

quinta-feira, março 30, 2006

Para quem vive sob um estado autoritário e abusador ( o português, sim) não deixa de ter algum encanto - abstraindo do sofrimento real das pessoas envolvidas - ver como esta gente (políticos, altos funcionários) fica reduzida à sua enorme insignificância perante a realidade e de como reagem pateticamente.
É a vida a sério, diga-se isso ao Ministro, não aquela em que se propõem desafios de futebol para resolver problemas magnos. Quer propôr um jogo?
E ele lá foi, apressado, fazer não sei o quê.
Como o Coelho de Alice.