domingo, junho 11, 2006

Eu sabia que havia mais qualquer coisa com este dia 11... E havia! Desde a escola primária até ao fim do liceu era o dia em que começavam as Férias Grandes - que só acabavam a 7 e, depois a 1 de Outubro.
As férias, enormes, tinham fases diversas de campo e, mais tarde, de viagens, mas a mais divertida era a da praia, uma fase longa, que, muitas vezes, passava dos dois meses. Tenho muitas saudades dessas férias grandes e lentas.

Ontem li 2 ou 3 sonetos de Camões e alimentei o patrioteirismo (sic) com a descoberta de que a os mot d'esprit da Duquesa de Guermantes (compósita figura que Proust quis a personificação da requintadíssima sociedade da Paris da segunda metade do século) e mesmo alguns dos seus achados estético-mundanos -os sapatos encarnados - foram contributo de Mme. Strauss que, sobre ter sido viúva de Bizet, era filha de uma senhora Rodrigues-Henriques, de uma família de judeus portugueses refugiados em Bordeaux.

P.S. Para acabar o affaire Proust-Albaret: Esta queimou manuscritos, mas, como ela própria explica, por ordem expressa de Monsieur Proust. Que se esperava? Que tivesse desobedecido? A honra da Albarét parece-me salva.

sábado, junho 10, 2006


Grão tempo há já que soube da Ventura
a vida que me tinha destinada;
que a longa experiência da passada
me dava claro indício da futura.
Amor fero, cruel, Fortuna dura,
bem tendes vossa força exprimentada:
assolai, destrui, não fique nada;
vingai-vos desta vida, que inda dura.
Soube Amor da Ventura que a não tinha;
e, por que mais sentisse a falta dela,
de imagens impossíveis me mantinha.
Mas vós, Senhora, pois que minha estrela
não foi melhor, vivei nesta alma minha,
que não tem a Fortuna poder nela
Luís Vaz de Camões

sexta-feira, junho 09, 2006

O apartamento de uma amiga foi assaltado por uma quadrilha búlgara, um audacioso quinteto de tocadores de banjo balcânico, uma inverosímil mas teimosa coisa de Hergé. Tal qual nos livros de Tintin, o roubo foi audacioso.
A minha amiga está desolée, e quer tirar disto tudo, que não é nada, uma lição para a vida. Desanconselhei-a, terminantemente, de fazer tal: não levaram as jóias boas e filosofar a partir ou à conta de bijouterie parece-me contraproducente e pouco digno.

quinta-feira, junho 08, 2006

Poucos dias antes de morrer, Eça escrevia da Suiça a sua Mulher, Dona EmÍlia de Castro, lastimando-se da falta de dinheiro.

Eça era - ou é - o maior escritor português, um dos grandes génios literários do mundo, popular e lido em Portugal e traduzido ainda em vida em várias línguas, entre as quais o inglês.

Cem anos depois, Miguel Sousa Tavares, que não é nada disso, como o próprio, com elegância, reconheceu, ganhou, com um único livro, mais de um milhão de euros.

Vasco Pulido Valente tem razão: não só se lê em Portugal como, acrescento eu, já se lê demais.

Isto a propósito do tal plano.

terça-feira, junho 06, 2006

E de novo o aniversário!
Faz hoje 62 anos que os norte-americanos, britânicos e canadianos invadiram a Normandia para libertarem a Europa da barbárie nazi.
Além do papel militar, os USA criaram o plano Marshall que permitiu a reconstrução europeia.

Honra àqueles países e aos milhares dos seus cidadãos e súbditos que morreram para devolver a liberdade à Europa.

Aqui pode saber mais sobre o DIA D.

segunda-feira, junho 05, 2006

O processo de designação e escolha de deputados está tão perto do de simples funcionários que do que li da declaração presidencial que acompanha o veto, me parece, creio, que o âmago da questão não é tocado.E é uma questão simples: escolher os representantes do povo, de cada um de nós, é, afinal, assegurar a soberania do povo. Em nome de quê pode essa liberdade de escolha ser coarctada? Qualquer limitação é um atentado aos fundamentos mais elementares e profundos da democracia.
A enormidade da coisa tornava-se evidente se existissem listas nominais, em que pudéssemos escolher esta e não aquele, aquele e não aqueloutra.
Lei da paridade

Cavaco Silva 1-Então eu não tinha razão a respeito do Cavaco? 0

domingo, junho 04, 2006

Amanhã é domingo

Pão com pingo
Galo francês
Pica na rês
A rês é mansa
Vai para França
Se ela voltar
Torna a ficar
O burro é de barro
Pica no jarro
O jarro é fino
Pica no sino
O sino é de ouro
Pica no touro
O touro é bravo
Pica no fidalgo
O fidalgo é valente
Mete três homens
Na cova de um dente.

sexta-feira, junho 02, 2006

O club de futebol do burgo - uma invenção infecta dos medíocres políticos locais - pede hoje, no jornal da terra, uma contribuição financeira já que, tudo leva a crer, está falido ou perto. A prosa usada é um magnífico exemplo daquele simulacro de bom-senso, bons propósitos e seriedade que oculta a miséria caótica em que vivemos. Li e reli, deliciado, já que não tenciono dar um só ceitil, tostão, ou cêntimo e a única coisa que intensamente desejei foi prolongar no tempo aquele prazer omissivo, indefinidamente não dando, gozando com abundância o sintoma daquele prazer, aquele "alguma coisa que antes de tudo não cessa de se escrever do Real", e "que volta sempre ao mesmo lugar" (Lacan)
E estou nisto desde que a empregada me trouxe os jornais, sem escrúpulos, apenas tomei um café e a vitamina C.


Liv Ulman é Miss Junho.

quarta-feira, maio 31, 2006

terça-feira, maio 30, 2006

Os dados estão à vista de toda a gente. Refiro-me aos mostrados e explicados por Medina Carreira, um dos poucos portugueses que parece saber ainda o valor da realidade e do dizer-se a verdade sobre ela.
O programa de ontem, do "Pros e Contras" foi , em si mesmo, um bom exemplo do nosso drama: A apresentadora parecia acima de tudo interessada na revisão da constituição e em possíveis recados do Eng. Belmiro ao Governo. O senhor da Galp que ficou ao lado do Dr. Medina Carreira veio falar da "excelência" e dos optimismos e ficou, claro está, calado, quando lhe foi lembrado que o crescimento de 0,6 foi o que conseguimos com todas essas virtudes...
Mas alguém realmente perigoso é o estimável Dr. Silva Lopes: é bem intencionado, honesto e parece sensato, com os seus gradualismos ficando, por vezes, o Dr. Medina Carreira com o papel de louco exaltado. E afinal... é devido ao "bom senso" dos Drs. Silva Lopes deste país que estamos como estamos... é devido a esses cuidados que diariamente a nossa situação se agrava...
No final, entre alguns prognósticos espectaculares, dramáticos, de guerras civis e outras palermices, a nota de realidade foi dada, de novo pelo Dr. Medina Carreira que apenas falou do nosso mais óbvio e pacífico futuro: a pobreza, apagada, calma e vil.
Uma amável leitora deste blog (que redundância!) situou a ida de Bergotte à exposição no 5º volume da RTP Recherche Temps Perdu), a páginas 177 da edição da Relógio de Água (a traduzida por Pedro Tamen). Na minha edição, a da Livros do Brasil, a páginas 174. Aproveite-se e leia-se.
Mas o episódio não era, afinal, aquilo que tinha referido. Aquele de eu que falava é uma descrição de um quadro, ou meramente de uma cor, ou de uma textura que, pareceu-me quando li, exige de nós uma fusão entre os olhos da corpo e os do espírito, da alma (como Santa Teresa de Ávila distinguia), a um ver que se transmuta em visão, em luz sobre este mundo (e sobre nós nele) no limite do suportável por uma pobre mente ocidental.
Vou continuar a procurar.

segunda-feira, maio 29, 2006

Li Monsieur Proust até bastante tarde. As despesas que este fazia - e que horrorizavam e preocupavam a sua empregada - pôde fazê-las porque sua Mãe tudo fez para que ele tivesse rendimentos suficientes para viver e escrever sem os constrangimentos das faltas de dinheiro. Proust foi, nesse sentido, um escritor planeado (com a minúcia que hoje em dia se guarda para os atletas olímpicos ou estrelas de cinema). E, também, toda as suas excentricidades foram, afinal, medidas ponderadas de gestão: sendo a sua obra o único fim importante, tudo o mais, conveniências sociais, horários, tudo foi moldado para que a sua obra pudesse ser terminada.

Céleste Albaret fala, de quando em vez, da saída de Proust para rever um quadro de Vermeer, saída que este, creio, utilizou na sua obra. Mas, nascidas dessa ida ou de outra, anterior, aconselho a todos que leiam ou releiam essas considerações sobre a textura de uma parede de um muro que, foram, creio, das coisas mais assombrosas que alguma vez li. Está no último volume da RTL, no "Tempo Reencontrado"*.

* Não está. Está na Prisioneira ou na Fugitiva (já folheei a Prisioneira e não encontro, creio que o capítulo sobre a morte de Bergotte está na Fugitiva que não sei onde pus....). E não é uma parede de um muro: é o "petit pan de mur jaune"; podem ler mais aqui.

domingo, maio 28, 2006

Deliciei-me com a etimologia de Charlotte e, porque estou cada vez mais ingrato, ao invés de agradecer e por aí ficar, sempre direi que o dito no Bomba sobre a lavagem dos lenços de assoar de Monsieur Proust é uma memória falsa, como tive ontem o prazer de descobrir!
O que aconteceu foi que Céleste, a Albaret, encarregada, uma vez, de comprar lenços para Proust, comprou, por mais baratos, uns menos bons do que aqueles que o Escritor usava, na campónia esperança que este não percebesse e assim poupasse uns cêntimos. Proust, claro está, deu pela diferença. Céleste lavou e relavou os lenços e após uma segunda tentativa de o fazer usá-los, disseminando-os na pilha dos lenços, tentativa gorada pela meticulosidade das mucosas do grande escritor, ainda persistiu, com mais lavagens, etc., uma terceira vez. Proust, sem esgotar a sua bonomia, viu-se obrigado a cortar com uma tesoura de unhas um desses lenços à frente de Céleste, para que esta compreendesse quão vãs seriam as possibilidades de ludibriar o Escritor.
Sobre isto, construiu a memória benfazeja da Ilustre Bloguista uma história de piedosa devoção albaresca. Não, minha senhora, tudo não passou de uma tentiva desastrada de encobrimento de uma sovinice (ainda que por interposto pecúlio).

sexta-feira, maio 26, 2006

Ainda o abalo

Na "votação" uma forma de inquérito no Sapo, à declaraçao de Welsh sobre a necessidade do "grande abano" 85,1% dos "votantes" declaram que é necessário um não pequeno abano salvador... 10,2% ficam-se pelo talvez e 4,7% discordam dessa necessidade. O que valem estas "consultas" a gente sabe. Mas 85%? Creio que tenho razão: o governo está a governar com medos e cuidados que já não são necessários há anos. Bem sei que seria necessário o sacrifício de parte da classe média, dos seus previlégios, e que chegada a altura... mas mesmo assim, não sei se não seria possível dar o pulo para os tempos de hoje. Nem ninguém sabe ou saberá, enquanto nao surgir a coragem de propor um país radicalmente diferente - aquilo que está a ser feito no resto do mundo, a começar por aqui ao lado, em Espanha, e que aqui ainda é mera especulação de café, ou de blog.

Portugal precisa de um «grande abalo»

diz Welsh, segundo as notícias do Sapo:

"Portugal é visto no estrangeiro como um país em contínua degradação e declínio no que respeita ao mais variados indicadores económicos, necessitando de um «grande abalo». O retrato negro é traçado pelo guru da gestão norte-americano, Jack Welch.
«Ele (Jack Welch) diz que é humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, com uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos», disse Mira Amaral.
A educação, formação profissional, inovação, investigação, desenvolvimento tecnológico e níveis de exportação foram alguns dos exemplos apontados. «Se compararmos o crescimento com o dos países da Europa do Leste, com a Irlanda ou Espanha , eu ficaria embaraçado com o desempenho económico português», afirmou."

O resto... são diversões fúteis