segunda-feira, junho 05, 2006

domingo, junho 04, 2006

Amanhã é domingo

Pão com pingo
Galo francês
Pica na rês
A rês é mansa
Vai para França
Se ela voltar
Torna a ficar
O burro é de barro
Pica no jarro
O jarro é fino
Pica no sino
O sino é de ouro
Pica no touro
O touro é bravo
Pica no fidalgo
O fidalgo é valente
Mete três homens
Na cova de um dente.

sexta-feira, junho 02, 2006

O club de futebol do burgo - uma invenção infecta dos medíocres políticos locais - pede hoje, no jornal da terra, uma contribuição financeira já que, tudo leva a crer, está falido ou perto. A prosa usada é um magnífico exemplo daquele simulacro de bom-senso, bons propósitos e seriedade que oculta a miséria caótica em que vivemos. Li e reli, deliciado, já que não tenciono dar um só ceitil, tostão, ou cêntimo e a única coisa que intensamente desejei foi prolongar no tempo aquele prazer omissivo, indefinidamente não dando, gozando com abundância o sintoma daquele prazer, aquele "alguma coisa que antes de tudo não cessa de se escrever do Real", e "que volta sempre ao mesmo lugar" (Lacan)
E estou nisto desde que a empregada me trouxe os jornais, sem escrúpulos, apenas tomei um café e a vitamina C.


Liv Ulman é Miss Junho.

quarta-feira, maio 31, 2006

terça-feira, maio 30, 2006

Os dados estão à vista de toda a gente. Refiro-me aos mostrados e explicados por Medina Carreira, um dos poucos portugueses que parece saber ainda o valor da realidade e do dizer-se a verdade sobre ela.
O programa de ontem, do "Pros e Contras" foi , em si mesmo, um bom exemplo do nosso drama: A apresentadora parecia acima de tudo interessada na revisão da constituição e em possíveis recados do Eng. Belmiro ao Governo. O senhor da Galp que ficou ao lado do Dr. Medina Carreira veio falar da "excelência" e dos optimismos e ficou, claro está, calado, quando lhe foi lembrado que o crescimento de 0,6 foi o que conseguimos com todas essas virtudes...
Mas alguém realmente perigoso é o estimável Dr. Silva Lopes: é bem intencionado, honesto e parece sensato, com os seus gradualismos ficando, por vezes, o Dr. Medina Carreira com o papel de louco exaltado. E afinal... é devido ao "bom senso" dos Drs. Silva Lopes deste país que estamos como estamos... é devido a esses cuidados que diariamente a nossa situação se agrava...
No final, entre alguns prognósticos espectaculares, dramáticos, de guerras civis e outras palermices, a nota de realidade foi dada, de novo pelo Dr. Medina Carreira que apenas falou do nosso mais óbvio e pacífico futuro: a pobreza, apagada, calma e vil.
Uma amável leitora deste blog (que redundância!) situou a ida de Bergotte à exposição no 5º volume da RTP Recherche Temps Perdu), a páginas 177 da edição da Relógio de Água (a traduzida por Pedro Tamen). Na minha edição, a da Livros do Brasil, a páginas 174. Aproveite-se e leia-se.
Mas o episódio não era, afinal, aquilo que tinha referido. Aquele de eu que falava é uma descrição de um quadro, ou meramente de uma cor, ou de uma textura que, pareceu-me quando li, exige de nós uma fusão entre os olhos da corpo e os do espírito, da alma (como Santa Teresa de Ávila distinguia), a um ver que se transmuta em visão, em luz sobre este mundo (e sobre nós nele) no limite do suportável por uma pobre mente ocidental.
Vou continuar a procurar.

segunda-feira, maio 29, 2006

Li Monsieur Proust até bastante tarde. As despesas que este fazia - e que horrorizavam e preocupavam a sua empregada - pôde fazê-las porque sua Mãe tudo fez para que ele tivesse rendimentos suficientes para viver e escrever sem os constrangimentos das faltas de dinheiro. Proust foi, nesse sentido, um escritor planeado (com a minúcia que hoje em dia se guarda para os atletas olímpicos ou estrelas de cinema). E, também, toda as suas excentricidades foram, afinal, medidas ponderadas de gestão: sendo a sua obra o único fim importante, tudo o mais, conveniências sociais, horários, tudo foi moldado para que a sua obra pudesse ser terminada.

Céleste Albaret fala, de quando em vez, da saída de Proust para rever um quadro de Vermeer, saída que este, creio, utilizou na sua obra. Mas, nascidas dessa ida ou de outra, anterior, aconselho a todos que leiam ou releiam essas considerações sobre a textura de uma parede de um muro que, foram, creio, das coisas mais assombrosas que alguma vez li. Está no último volume da RTL, no "Tempo Reencontrado"*.

* Não está. Está na Prisioneira ou na Fugitiva (já folheei a Prisioneira e não encontro, creio que o capítulo sobre a morte de Bergotte está na Fugitiva que não sei onde pus....). E não é uma parede de um muro: é o "petit pan de mur jaune"; podem ler mais aqui.

domingo, maio 28, 2006

Deliciei-me com a etimologia de Charlotte e, porque estou cada vez mais ingrato, ao invés de agradecer e por aí ficar, sempre direi que o dito no Bomba sobre a lavagem dos lenços de assoar de Monsieur Proust é uma memória falsa, como tive ontem o prazer de descobrir!
O que aconteceu foi que Céleste, a Albaret, encarregada, uma vez, de comprar lenços para Proust, comprou, por mais baratos, uns menos bons do que aqueles que o Escritor usava, na campónia esperança que este não percebesse e assim poupasse uns cêntimos. Proust, claro está, deu pela diferença. Céleste lavou e relavou os lenços e após uma segunda tentativa de o fazer usá-los, disseminando-os na pilha dos lenços, tentativa gorada pela meticulosidade das mucosas do grande escritor, ainda persistiu, com mais lavagens, etc., uma terceira vez. Proust, sem esgotar a sua bonomia, viu-se obrigado a cortar com uma tesoura de unhas um desses lenços à frente de Céleste, para que esta compreendesse quão vãs seriam as possibilidades de ludibriar o Escritor.
Sobre isto, construiu a memória benfazeja da Ilustre Bloguista uma história de piedosa devoção albaresca. Não, minha senhora, tudo não passou de uma tentiva desastrada de encobrimento de uma sovinice (ainda que por interposto pecúlio).

sexta-feira, maio 26, 2006

Ainda o abalo

Na "votação" uma forma de inquérito no Sapo, à declaraçao de Welsh sobre a necessidade do "grande abano" 85,1% dos "votantes" declaram que é necessário um não pequeno abano salvador... 10,2% ficam-se pelo talvez e 4,7% discordam dessa necessidade. O que valem estas "consultas" a gente sabe. Mas 85%? Creio que tenho razão: o governo está a governar com medos e cuidados que já não são necessários há anos. Bem sei que seria necessário o sacrifício de parte da classe média, dos seus previlégios, e que chegada a altura... mas mesmo assim, não sei se não seria possível dar o pulo para os tempos de hoje. Nem ninguém sabe ou saberá, enquanto nao surgir a coragem de propor um país radicalmente diferente - aquilo que está a ser feito no resto do mundo, a começar por aqui ao lado, em Espanha, e que aqui ainda é mera especulação de café, ou de blog.

Portugal precisa de um «grande abalo»

diz Welsh, segundo as notícias do Sapo:

"Portugal é visto no estrangeiro como um país em contínua degradação e declínio no que respeita ao mais variados indicadores económicos, necessitando de um «grande abalo». O retrato negro é traçado pelo guru da gestão norte-americano, Jack Welch.
«Ele (Jack Welch) diz que é humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, com uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos», disse Mira Amaral.
A educação, formação profissional, inovação, investigação, desenvolvimento tecnológico e níveis de exportação foram alguns dos exemplos apontados. «Se compararmos o crescimento com o dos países da Europa do Leste, com a Irlanda ou Espanha , eu ficaria embaraçado com o desempenho económico português», afirmou."

O resto... são diversões fúteis

The "Circle Theatre" de Hopper (1936) que pode ser visto enquanto se escuta "Quiet City" de Copland (de 1940, a partir da música que tinha composto para a peça de Irwin Shaw com o mesmo nome).

quinta-feira, maio 25, 2006

Ora, coff, coff, peço a atenção das minhas Senhoras e Senhores Leitores:

"Aujourd'hui j'ai compris que toute la recherche de M Proust, tout son grand sacrifice à son oeuvre, cela a été de se mettre hors du temp pour le retrouver. Quand il n'y a plus de temps, c'est le silence. Il lui fallait ce silence pour n'entrendre que les voix qu'il voulait entrendre, celles qui sont dans ses livres."

Quem fala assim é Céleste Albaret, a empregada doméstica de Proust. Que cada leitor retire da caixa de suspiros de resignação um ou mais enquanto medita sobre o actual momento da literatura portuguesa, crítica da mesma, frases e dichotes de autores, etc, etc.

quarta-feira, maio 24, 2006

Há anos que andava para comprar o livro de Céleste Albaret. Há dias assisti a esta conversa e, milagre de internet, encomendei naquele mesmo momento, juntamente com um outro de Berlin. Recebi-os hoje, neste dia tépido e perfumado, Maio perfeito.

Ah, do livro já li umas páginas. Já nao me lembro, quando li sobre este "Monsieur Proust", se foi escrito ou meramente ditado e sujeito a arranjos posteriores. A terem existido, tais arranjos não toldaram a voz de Albaret, já que apenas quem viveu o que conta conta assim. Acreditei, por isso, no que li e o estudo daqueles mecanismos de defesa contra o quotidiano, através da imposição - melhor diria proclamação - do seu próprio ciclo circadiano àquela orbe -o seu apartamento, à pequena população dele - que manancial de exercícios de negociação com o destino!
Vim aqui, já sonolento, fechar o computador e acabei por ler alguns posts de alguns blogs. Estou alheado do que se discute em Portugal, descubro, e não tenho interesse em informar-me.
Tenho saudades kitsch do Portugal rural e etnográfico que ainda conheci e que só encontro em alguns livros com uma forma rara e já desconhecida de se encurvarem nas estantes (nesse escorregar ameno, não no que se lê neles) e noutras coisas miúdas, no ser de noite, mais escuro, a terra onde vivo tremeluzia pequenina, lá no cimo e, de volta, a escuridão onde as aldeias dormiam o serem assim desde Júlio Diniz.
E é disto que gosto, do mesmo modo que volto aos Cadernos de Malte ou aos Buddenbrook ou... de preferência a qualquer coisa de que se fale agora.
Suspiro convicto.

terça-feira, maio 23, 2006

Nem um protesto, nem um insulto! Que afronta!
Eu confesso: comecei este blog para mim, como exercício, como disciplina - não tenho nada de interessante a dizer a ninguém e, se o tivesse, não o diria. No entanto, com tanto mecanismo de medição, com tanta competição, em breve me interessei pelo número de leitores e dei por mim a magicar promoções de supermercado. As promoções não pagaram, como se diz agora, mas a minha mancheia de leitores alegrava-me e bastava-me. Eis senão quando fui de novo tomado pela mania do sucesso e resolvi seguir o caminho torpe da transgressão, transformando este blog, até agora pacato, num - e digamo-lo sem mais - num "blog com gajas nuas" que, deveria ofender, em vários pontos, o Código Pacheco-Hays . E após a introdução audaciosa do nu, sentei-me e esperei a enchente esperada, conforme o que lera.
E, meus leitores, nada! Nem uma indignação, nem um insulto, nem enchente! Ó minha mancheia de leitores, alguns mães, outros pais de família, a que indiferença nos conduziu a perversidade que campeia! Mas não pode ser! Têm de tomar uma posição, obrigar-me a apagar o post de ontem, aquele enganoso "jardim medieval, tarde de Maio" que mais não é que uma enorme pouca vergonha! Revoltem-se, caros leitores, e digam bem alto da vossa revolta até que eu capitule e seja forçado a retirar o afrontoso post dito "medieval".

sábado, maio 20, 2006

Há uma altura em que um pobre homem de meia idade, esquecido dos seus sonhos de Rebeccas de Mornay's de 4 divórcios aos 50 e 7 edições da biografia aos 100 (onde constaria de modo lisonjeiro "as a cheer lover and a gentleman") se decide a aceitar a vida tal qual ela é! Procura uma rapariga de aspecto fresco, simples, e com um sereno e lhano encanto ("Any girl can be glamorous. All she have to do is stand still and look stupid"she said), que se divirta com coisas comuns, que se entretenha com os seus pequeninos segredos e... e é uma tal dificuldade que quase se desanima!

sexta-feira, maio 19, 2006

Detesto incongruências, eis uma das minhas limitações. Por isso, a descida vertiginosa dos índices de Portugal entre os países da UE aquieta-me, sossega-me: da pergunta sem resposta (*) do Abrupto (a do inquérito) ao... ao resto, tudo condiz, afinal.

(*) Não, não é algo de somenos: um pedido, anunciado de forma solene, do Presidente da República feito a um dos mais importantes funcionários do Estado sobre um assunto concreto e de imediato exequível não pode ficar - como já ficou - sem resposta clara e célere.

quarta-feira, maio 17, 2006

Hoje ando na ronda dos blogs.
Parece que, tal como o Almocreve, também o Crítico faz três anos.
Muitos parabéns, sinceros e sem presente, que não sei qual pudera oferecer senão o que tenho para dar e que é o ser dele, Crítico, leitor errático, incompetente e fiel.
O Almocreve das Petas faz três anos, data importante.
O Impensável dá os seus parabéns, deseja longa vida e, num acesso impensado de generosidade, aqui deixa o seu presente.
Uma afta! Francamente, não fora aquelas amêndoas do sorvete e diria que era da prosa da Agustina: os aforismos, para aqueles males de boca, são piores de que os frutos secos, diz o povo, que nunca ninguém de mais aquilatada ciência quis opiniar.
Deste alguma coisa que é nada, ou menos ainda, mera suspeita, se faz a vox populi e muito romance em épocas de míngua.

terça-feira, maio 16, 2006


Para aqui, para Bergen, respirar o bom ar do mar das sagas.

Boa Ideia

Fazer as malas e partir para a Escandinávia; por lá ficar, à fresca, até fins de Setembro.

Não, não tenho ainda (em nome de quê nos tuteiam?) mas gosto desta. But is it art? Não sei, mas é a minha terra, Lisboa, e gosto daqueles telhados.

segunda-feira, maio 15, 2006

"[....] na verdade, nada me surpreendeu mais que o modo livre e desembaraçado como os rurais portugueses mantêm uma conversa, e a pureza da língua em que exprimem as suas ideias, se bem que poucos saibam ler ou escrever - ao passo que os camponeses de Inglaterra, cuja educação é, de um modo geral, muito superior são grosseiros e obtusos na conversa, por vezes a raiar a brutalidade, e absurdamente ingramáticos na linguagem - embora a língua inglesa seja, em globo, de estrutura mais simples que a portuguesa."

"George Borrow em Portugal" (1835), Livros Horizonte, Lisboa, 2006

sexta-feira, maio 12, 2006

Fui a ares, estes dias, para S. Sebastião da Pedreira, termo da cidade de Lisboa. De lá regressei hoje, cansado de tanto sobressaltado sossego. Aqui, onde ele é natural e perfeito (cheio de sons pitorescos) não tem graça nem chiste o cantar do galo que lá me encantava. Estou quase Calisto, e, anjo fora, não se me dava de cair, também, um pouco.

segunda-feira, maio 08, 2006

Tentei encontrar o meu exemplar dos Buddenbrook e a tarefa revelou-se surpreendentemente fácil. A data da compra, muitos anos atrás, em Maio. Aguentei o golpe, lembrei-me de que era um adolescente muito adolescente na altura e, benigno e sensato, felicitei-me com sinceridade por Thomas Bunddenbrook e Tony (e Sesemi) fazerem parte das minhas amizades há tanto tempo e desde tão cedo.
Neste finale, as senhoras da família interrogam-se sobre o seu destino e sobre se algum dia se reencontrarão com os seus mortos queridos.

" -Havemos de reencontrá-los - disse Friederike, há horas em que essa ideia não consola, valha-me Deus! Horas em que se duvida da justiça, da bondade... de tudo. A vida - sabem ? - quebra muita coisa em nós e destrói muitas crenças... Um reencontro... Oxalá seja verdade...
Nesse momento, porém, Sesemi Weichbrodt levantou-se junto da mesa tão alto quanto pôde. Pôs-se nas pontas dos pés; esticou o pescoço; deu palmadinhas na tábua. A toca tremia-lhe na cabeça.
-É verdade! - disse ela com todo o vigor de que dispunha, fitando as demais com olhares de desafio.
Erguia-se ali, vencedora da boa luta que, toda a vida travara contra as dúvidas da sua razão professoral, corcunda, minúscula e trémula de convicção, pequena profetiza vingadora e entusiasta."

Thomas Mann, Os Buddenbrook ed. «Livros do Brasil»

domingo, maio 07, 2006

Lembrei-me agora de Sesemi Weichbrodt, dos Buddenbrook, a que sempre tinha sabido, a que se vira obrigada a saber, a ter a certeza absoluta.
Não sei porque motivo me lembrei dela hoje, embora me lembre dela às vezes, penates lá de onde vive em mim a memória do que li.

sábado, maio 06, 2006

Muito vento, hoje. Vento deste tempo - e assim será até ao fim do Verão - de noroeste.
O som do vento é diferente do das ventanias de Inverno, ouvem-se, viçosas, as folhas das árvores.

sexta-feira, maio 05, 2006

Recebi hoje a "Queirosiana" da Fundação Eça de Queiroz e Associação de Amigos de Eça.
Leio, com interesse, "Untaming the screw: Sex, Sewers and Obscenity in A Cidade e as Serras" de Kathryn Bishop-Sánchez (a coisa não é o que parece).
Entretanto, pelo mail, um pedido da Amazon.us para classificar o desempenho da vendedora do disco que comprei, uma longínqua firma do Oregon. Dei 5, excelente: demorou pouco e chegou tudo como deve ser. Que mais podia querer?
Antes de voltar à Queirosiana, um pequeno lamento: como é irritante esta necessidade provinciana do up to date e como é ainda mais irritante percebermos que o último escândalo artístico de que demos fé já cresceu tanto que frequenta a academia... (descoberta ao ler "But is it art?", de Cynthia Freeland, comprado por erro, mas que se revelou divertido). O escândalo que referi era o de Hirst, do "The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living" que, queira-se ou não, é já do longínquo ano de 1991!

quinta-feira, maio 04, 2006

"A larga maioria dos portugueses residentes no continente não se interessa pelo país, declara-se infeliz e é pessimista quanto ao futuro" diz um estudo da TNS - que nao sei o que é.
Perante tal manifestação de bom gosto e bom senso, fiquei eu menos pessimista.

quarta-feira, maio 03, 2006

Morreu a semana passada o autor destes versos:

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
É minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na tua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

Guilherme de Brito

terça-feira, maio 02, 2006

EPIGRAMS
by John Donne

AN OBSCURE WRITER

Philo with twelve years' study hath been grieved
To be understood ; when will he be believed?


Só mais este outro epigrama dele, só mais este:

ANTIQUARY

If in his study he hath so much care
To hang all old strange things, let his wife beware.

segunda-feira, maio 01, 2006

domingo, abril 30, 2006

Bem sei que fiquei de falar do Alves & Cia. mas não agora.
Em frente à casa o jardim deserto. Ninguém, nem vivalma!
Do jardim, pela janela aberta da sala, chega um aroma de florinhas do campo e de rosas trepadeiras. Tenho de disciplinar aquele pobre jardim, se quero conservar nele alguma coisa, mas jardins são metáforas subtis de difícil apreensão. De qualquer modo, este ano já não faço nada...

sábado, abril 29, 2006

Por uma questão de feitio ou de afinidade, gosto de obras menores. Gostei do Sua Alteza Real de Mann que lembrei agora mesmo, a propósito de bons propósitos de dias positivos e outras boas intenções e do "Alves & Cia" do Eça. Lembro-me de um velho amigo de família me ter dito, ia eu pelo meus dezasseis tenros anos, que gostava de todo o Eça mas não do Alves, que era o livro sujo do escritor. Eu, que lera o Padre Amaro e o Primo Basilio, pasmei o melhor que pude e prometi-me disfarçadamente a leitura do livro. O que fiz...
Mas digo depois como foi e o que achei, mais logo.

sexta-feira, abril 28, 2006

Foi num jantar de correspondentes estrangeiros em Lisboa. Disseram eles que o destaque do futebol na vida portuguesa é único em toda a Europa; que, em Inglaterra, nem sequer há um jornal desportivo; que seria impensável que as eleições para a presidência de um clube fossem notícias de abertura de telejornais.... que, em suma, todo o circo à volta da bola é, afinal, marca de um bom e sólido subdesenvolvimento.
Também me queria a mim parecer que sim.

Golden Afternoon de Balthus

quinta-feira, abril 27, 2006

Estas tardes, douradas e suspensas, estão desertas de quem nelas dormite o calor, de quem nelas adormeça até à hora do lanche e acorde estremunhado pela surpresa de ser já tão tarde.
A vida mudou.
O quadro de Balthus, Golden Afternoon, virá para aqui, ilustrar, quando conseguir que o ftp funcione.

quarta-feira, abril 26, 2006

27º C em Abril! Como pode este país progredir - ou pensar a gente coisas positivas e sérias - com estas temperaturas de Casa Grande & Senzala, esta brisa mole de índicas lonjuras, estas pausas de aguada?
O meu antídoto pessoal para este estado de coisas é uma colónia britânica, de citrus e revigorantes manhãs frias que nos enche de energia de tão bom jaez que, não nos fazendo cirandar de um lado para o outro, em correrias, a fazer coisas sem sentido, nos provê, todavia, de uma curiosidade simpática pelas pessoas diligentes que passam por nós a caminho das suas ocupações.
This is not the charming or uplifting frivolity of Feydeau's farces or Oscar Wilde's comedies; it is the frivolity of real decadence, bespeaking a profound failure of nerve bound to have disastrous consequences for the country's quality of life. The newspapers portrayed frivolity without gaiety and earnestness without seriousness—a most unattractive combination.

Theodore Dalrymple
Chegam-me notícias do discurso assistencialista do Prof. Cavaco. É como dizia VPV, a classe média não é suicida (e é egoísta, conta com o Estado para a alimentar a ela e às adjacências necessárias para a manter em sossego).

terça-feira, abril 25, 2006

Que calor! Será que se vai manter ou Maio será fresco, como por vezes acontece, quase frio?
Seria bom que não tivéssemos um verão muito quente.
E será desta que me decido a um verão sententrional, aventurando-me até Bergen, ou à Bretanha e Ilhas do Canal, onde quase tenho medo que a minha chegada, de tantas vezes adiada provoque falatório, como temia, em situação semelhante, Lady Bracknell?

segunda-feira, abril 24, 2006

Eu escrevi "este blog acredita"? Este blog sou eu! Por este caminho, qualquer dia estou a dar entrevistas e jogo futebol: "o impensavel quer o bem do club e tem um grande carinho pela massa associativa. O Impensavel não marcou porque não pôde". Os jogadores de futebol é que falam na terceira pessoa, esses e as altezas, reais ou meramente sereníssimas, mas um golpe de estado é perigoso neste tempos de nervosismo.
Enfim...

domingo, abril 23, 2006

Queria ter 10 euros por cada pessoa que falou no acórdão do Supremo - o da palmada - sem o ter lido na íntegra...

Quanto ao mais: este blog acredita numa palmada dada a tempo - e até menos tempestivamente - nas criancinhas, principalmente nas relapsas. E os anjinhos também pensam o mesmo: instados com bons modos meia dúzia de vezes a não estragarem ou a não berrarem, ou a não qualquer outra coisa que estejam a praticar, as mais das vezes prosseguem. Prosseguem com afã e indiferença pelos outros. Pelo contrário, uma palmada bem assente, seca, sintética e enxuta, numa palavra, eloquente - não se diga que não se expõe as criancinhas à acção da retórica - opera maravilhas: param - e se souberem que essa palmada pode ser seguida de outra, nos mesmos moldes, caso haja manifestações sonoras e demais costumeiros artifícios - param convincentemente.

Isto, a propósito disto

sábado, abril 22, 2006

Se o que li tem a menor correspondência com a realidade e o Cardeal Martini afirmou mesmo que a legalização do aborto é um mal menor por fazer diminuir os praticados clandestinos (de facto, para o abortado, tê-lo sido legal ou clandestinamente faz uma diferença substancial...) fica provada a assistência do Espírito Santo nos Conclaves para a eleição papal, principalmente neste último, que não elegeu aquele Senhor Cardeal.
A insofismável grandeza e benefícios do sufrágio popular:

Desde as últimas eleições que Mário Soares tem estado calado.
Os festejos dos 80 anos da Rainha Isabel II, o apoio que lhe demonstram os seus súbditos creio que causam algum mal-estar aos franceses. No outro dia comentava um deles que a popularidade da actual soberana poderia contribuir para a queda da monarquia, já que o actual Príncipe de Gales não é tão - aparentemente e agora - tão popular.

Isto é dito por quem teve de escolher, ainda há bem pouco tempo, entre Chirac e Le Pen e não prognosticou então, o fim da republique française.

sexta-feira, abril 21, 2006

E a Rainha faz anos.
80 merecidos anos.
Muitos parabéns!
Estava a o uvir o "Let it be" e a ler. Passei os olhos pelo monitor, li que Sócrates Fawlty Torres considera o relatório da OCDE "futurologia".
Se ele continuar assim, acabo por gostar dele, talvez me converta e acabe por perceber que "my name is Manuel, call me Manuel."

quinta-feira, abril 20, 2006

Para ler com atenção: At the same time the fiscal deficit remains at an unsustainably high level. To consolidate the budget and regain a higher growth path, a number of structural measures need to be taken. This chapter reviews four challenges: i) putting public finances on a sustainable path; ii) improving the performance of the education system; iii) modernizing the economy by enhancing tertiary education, training and innovation; and iv) creating a more dynamic business environment through structural reforms in product and labour markets.
O resto...
Um amigo emigrante/emigrado apostrofa furiosamente os portugueses porque, num aeroporto de Londres ouve, entre as vozes, o ajuste de uma "bacalhoada com todos". É do pouco que escreve em português no mail que me enviou hoje: talvez por zanga à pátria, é em francês que prognostica a miséria a este povo "qui mange beaucoup et parle trop".
Acho excessiva tal zanga por causa de um bacalhau com todos, se bem que considere que a bulimia nacional, essa atávica verocidade de gente pobre se tem agravado à media que gastamos mais: não deixámos verdadeiramente de ser pobres, a pobreza, ao invés de desaparecer, entumeceu.

quarta-feira, abril 19, 2006

Lembro-me de cá por casa se achar um absurdo o "Abril em Portugal", unanimemente considerado um mês áspero e desagradável. A mim, fazia-me um pouco de confusão tal má vontade. Hoje, instalado na sapiência da meia idade (ai ai), mais, obrigado, agora mesmo, a ir buscar um casaco, dou razão aos protestos familiares.

19 de Abril: vi depois que, pela data, 1506, os acontecimentos do Rossio não podiam ter sido o que apressadamente tinha suposto pelas leituras em viés: o primeiro auto-de-fé.
Não podia ser: ao tempo ainda reinava D. Manuel I, não havia inquisição que chegou por volta de 1540.
Mas deixo o post sem emenda.

segunda-feira, abril 17, 2006

Julgo que não me corre nas veias sangue judeu.
Dos judeus em Portugal sei o que li - pouco - em Herculano e outra tanto em Saraiva e o que quem lê história de Portugal vai encontrando, mas nunca tive grande curiosidade pelo tema, talvez pela minha assumida vocação de evitar assuntos desagradáveis,tais são chacinas e autos-de-fé.
Simpatia, a que qualquer pessoa sente, uma simpatia longínqua e compadecida.
Há uns anos, porém, soube dos judeus de Belmonte e os quatro séculos de persistência espantaram-me - eu que me dedico a ser do contra, mas de desânimo fácil - e comoveram-me. Não o suficiente para, como se diz hoje, me ir documentar - e já tinha lido o essencial - mas para olhar com admiração redobrada as vicissitudes daquela pobre gente tão desgraçada.
Mais ainda, foi essa pobre gente o combustível da Inquisição, instrumento ao serviço do estatismo português e da sua monstruosa capacidade de produção de hipocrisia e criação de realidades "legais" de que tudo é exemplo a conversão forçada dos judeus e o estatuto de cristãos-novos.
Por isso, fiquei feliz quando li na Rua da Judiaria a ideia de lembrar o 19 de Abril de 1506.
Não são pedidos de desculpas, revisionismos, reaberturas de processos ou acusações extemporâneas ... é apenas mera e boa decência, lembrar a morte de portugueses inocentes assassinados pelo estado.
Não vou ao Rossio apenas porque não estou em Lisboa.
Tempinho desagradável, este, de vento frio.
Depois das férias - a Páscoa hoje é, para a grande maioria, um pretexto para férias - aproveito a segunda-feira a meio vapor para pôr alguns assuntos em dia e adiantar outros, de modo que, quando voltar esta gente toda, tenha a possibilidade de me escapar daqui ou meramente das actividades quotidianas e ir habitar os recônditos lugares que construímos - cf., infra, Poema de Vitorino Nemésio.

quinta-feira, abril 13, 2006

terça-feira, abril 11, 2006

Hagiografia introdutória, vulgo prefácio, e depois meia dúzia triste de páginas com uma linhas ralas nelas dependuradas por cordéis velhos de imagens e lêem isto e por isto se cumprimentam.
E Nemésio, isto só para falar de um deles, e Nemésio ninguém lê, ou menos do que o deviam.
Ora aí vai dele:

Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
In a fit of spleen (apesar do tempo doce e das férias)

segunda-feira, abril 10, 2006

O governo francês, presidido por Monsieur Villepin, capitulou, desta vez perante alguns adolescentes turbulentos que resolveram divertir-se nas ruas em vez de estarem nas aulas - que, não sei porquê, julgo maçadoras e sensaboronas. Todos os dias os alunos protestavam, trocavam cromos, ficheiros mp3, sms, atiravam algumas pedras à polícia e berravam alguns diminutivos e abreviaturas tão ao gosto gaulês. Alguns alunos do ensino básico também participaram e os seus bibes alegres e coloridos deram uma nota pitoresca aos protestos.
Perante a amplitude e gravidade das "manifs" é uma atitude sábia, esta de Villepin e constitui uma novidade na história de França: até aqui os chefes de governo francês usavam capitular perante o exército alemão. É a primeira vez que o fazem perante os seus próprios adolescentes, numa manifestação de invulgar patriotismo e de respeito pela história de França: "allons enfants de la patrie".

quarta-feira, abril 05, 2006

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

(Álvaro de Campos)

Assim seja.

terça-feira, abril 04, 2006

Se a minha preguiça não corroesse, anestésica e ácida, «as questões que por vezes me assaltam» até vestígios toleráveis de princípios, ser-me-ia impossível viver nesta exiguidade bucólica (junto da eira onde as galinhas vêm esgaravatar alimento) e pedir àquela divindade tão contida em sofrer, ladeada de jarrinhas de sempre-vivas, uma paisagem de meia dúzia de coisas plausíveis para onde olhe e ponha esperança.
Com estas conversas todas, resolvi ir à fonte, ao site de Margarida Rebelo Pinto e li algumas sinopses. Os narradores e narradoras estão desanimadotes com a vida e pensam um tudo nada arbitrariamente. Umas delas refere um com "ar de índio que sabe negociar a paz com paciência e alguma manha" e vá-se lá saber onde é que ela, a escritora, viu um índio a negociar daquele ou de outro modo ou, se viu, como podemos nós confirmar a justeza da imagem, não vale... Mas, acima de tudo, fiquei impressionado com a tristeza... que gente triste e desalentada, que soturno, que lua-de-londres! E apressado, aquilo é um corridinho triste.
Muito português de hoje, no entanto, essa tristeza afoita, o ar despachado, olha-depois-apanho-te-na-escala-em-Londres-não-me fujas-acredito-em-ti-acredito-para-Nova-York-sim-ainda-me-faltam-três-prestações, que é como se dizem estas coisas em prosa moderna, não deixa de ser do mais lídimo lamento e queixume lusos.
Não duvido que seja um êxito.

sábado, abril 01, 2006

Era tarde na noite, no recato do lar. A williamine, en liqueur, sobre a mesinha, preparava-me para entender a questão desta primavera, a "questão francesa": não podia, decentemente, continuar a afirmar, aos jantares, que aquilo era uma questão de nostalgia e de falta de Ritalin, uma falha prescritiva dos pediatras franceses. Prometia-me ler o CPE, ver mesmo no dicionário o significado preciso de «embauche», ler os discuros de Villepin, estudar a história da coisa, munido dos prints que fizera quando tive de admitir que estava vilmente de parti pris contra a criançada. E para remédio disso, resolvi avivar a a minha propensão para a neutralidade com sucessivos golinhos da eau-de-vie suiça. No recato do lar, nada havia a temer, e destrinçaria o assunto. E assim continuei, noite adentro, julgo. Julgo, porque não tenho a certeza: lembro-me quando o perigo surgiu, insinuado na pequena notícula de rodapé: lembro-me de encontrar a citação, de lhe abrir a porta, mas a partir daí é-me impossível reconstituir a jornada. Quando acordei, lá estava ela ainda, gasta, suixante-huitardiste, the french theory, lívida, poudrée, sob o aroma de um pomar japonês, zen, de pera williams. Nunca a salvo de Dionisos, como aprendeu Zé Fernandes, quase corri, como ele, para um grande banho lustral de filosofia analítica e sabão anglo-saxónicos.
Convalesço.

sexta-feira, março 31, 2006

O gene lusíada:
Ora esta! Esqueci-me de uma assembleia geral! É um bocado desagradável!
Bem... o que não tem remédio, remediado está!
Logo telefono a lamentar não ter estado, o que é verdade. Se não fora verdade, não seria lusitano o gene.

quinta-feira, março 30, 2006

Para quem vive sob um estado autoritário e abusador ( o português, sim) não deixa de ter algum encanto - abstraindo do sofrimento real das pessoas envolvidas - ver como esta gente (políticos, altos funcionários) fica reduzida à sua enorme insignificância perante a realidade e de como reagem pateticamente.
É a vida a sério, diga-se isso ao Ministro, não aquela em que se propõem desafios de futebol para resolver problemas magnos. Quer propôr um jogo?
E ele lá foi, apressado, fazer não sei o quê.
Como o Coelho de Alice.
A ilustração de Alice é de Sir John Tenniel que ilustrou a primeira edição dos livros de Carroll.
Li as "Alices" com sete anos, creio.
`Must a name mean something?' Alice asked doubtfully.
`Of course it must,' Humpty Dumpty said with a short laugh: `my name means the shape I am -- and a good handsome shape it is, too. With a name like yours, you might be any shape, almost.'
Prossigamos com o confessionalismo.
Lembro-me muito bem do Humpty Dumpty e de achar que aquele nome era, de facto, um nome de ovo, um nome dado por causa da forma de ovo e que era preciso ser mesmo uma menina para não perceber isso.
De igual modo, achava verosímil que o destino de alguns ovos - pelo menos em tempos distantes e noutros países - fosse o de se tornarem ovos adultos e não minúsculos pintainhos.
Creio, hoje em dia, que li a Alice muito desacompanhado.

quarta-feira, março 29, 2006

"(...).............Só nas trevas,
Se ilumina a expressão das criaturas,
Como um céu nocturno, Ó lua nova,
O teu perfil de prata que me lembra
O perfil de Virgílio a revelar-se
Na morta escuridão de dois mil anos.

É nas trevas que as almas aparecem.
E a sua face externa, dimanando
Este ar humano a arder em luz divina
Ou toldado de fumo enegrecido:
O relevo mais alto
Dum rosto que se anima, aquele traço
Que melhor o define, aquele modo
De olhar e de falar, aquele riso
Ou de anjo ou de demónio;
Este ar inconfundível e perpétuo
Que trouxemos do ventre maternal.
Fulgura na beleza amanhecente
E conserva acendida, entre as ruínas
Da trágica velhice,
A monótona lâmpada soturna,
Em melancólicos lampejos frios.
E inalterável paira sobre a face
Gelada dos cadáveres.. .
E dela se desprende; e, já liberto,
Em vulto de fantasma,
Fica, por todo o sempre, a divagar
Entre o luar e a noite, o Céu e a Terra."

Teixeira de Pascoaes, "Semelhança" em noite
de lua nova
Curiosidade entomológica:
Creio ter visto uma melga.
Em Março?

terça-feira, março 28, 2006

Facto curioso
Hoje recebi quatro cartas,uma da Grã-Bretanha que me prevenia de estar a findar a minha assinatura, outra do Brasil com o recibo de uma compra on line e duas de cá, contas correntes. Em que reside a curiosidade? Todas elas estavam cuidadosamente coladas, ferozmente, ciosamente coladas. Deve ser um modo de passar o tempo lá no emprego, fechar as cartas desinteressantes com muita cola.

P.S. A tela do Spilliaert e a de Chirico, são amistosa e arbitrariamente simétricas. Por abritrariamente quero dizer que calhou assim.

Isto não é uma ilustração para o post anterior. Isto é Nuit de Léon Spilliaert e é um quadro de que gosto muito.
É num romance da Agustina: há um personagem dos anos vinte que, vestido de flanela branca numa praia do norte de Portugal, se crê, por interposto algibebe, uma personagem de Proust... Lembro-me de ter pasmado. Foi só trinta anos depois, em 1950, diz Vasco Pulido Valente, que o seu célebre Avô apresentou Aquilino Ribeiro - o grande escritor português da altura - à obra de Proust que aquele por completo desconhecia...
Proust em Portugal, nos anos 20?... Proust em Afife ou similares?

segunda-feira, março 27, 2006

Li ontem mais alguma da correspondência de Proust, da colectânea feita a partir da edição de Kolb.
Numa das cartas, a sua Mãe - ou a Mme Strauss - Proust dizia que tinha pegado num jornal e o lera sem se aperceber que era de dois anos antes. É a mesma coisa, dizia, acrescentando que o sucedido fazia-o convencer de que tinha razão sobre o que pensava em relação ao tempo.

domingo, março 26, 2006

Je hais les dimanches!

Tous les jours de la semaine
Sont vides et sonnent le creux
Bien pire que la semaine
Y a le dimanche prétentieux
Qui veut paraître rose
Et jouer les généreux
Le dimanche qui s'impose
Comme un jour bienheureux

Je hais les dimanches !
Je hais les dimanches !

Dans la rue y a la foule
Des millions de passants
Cette foule qui coule
D'un air indifférent
Cette foule qui marche
Comme à un enterrement
L'enterrement d'un dimanche
Qui est mort depuis longtemps.

Je hais les dimanches !
Je hais les dimanches !

Tu travailles toute la semaine et le dimanche aussi
C'est peut-être pour ça que je suis de parti-pris
Chéri, si simplement tu étais près de moi
Je serais prête à aimer tout ce que je n'aime pas.

Les dimanches de printemps
Tout flanqués de soleil
Qui effacent en brillant
Les soucis de la veille
Dimanche plein de ciel bleu
Et de rires d'enfants
De promenades d'amoureux
Aux timides serments

Et de fleurs aux branches
Et de fleurs aux branches

Et parmi la cohue
Des gens, qui, sans se presser,
Vont à travers les rues
Nous irions nous glisser
Tous deux, main dans la main
Sans chercher à savoir
Ce qu'il y aura demain
N'ayant pour tout espoir

Que d'autres dimanches
Que d'autres dimanches

Et tous les honnêtes gens
Que l'on dit bien-pensants
Et ceux qui ne le sont pas
Et qui veulent qu'on le croie
Et qui vont à l'église
Parce que c'est la coutume
Qui changent de chemise
Et mettent un beau costume
Ceux qui dorment vingt heures
Car rien ne les en empêche
Ceux qui se lèvent de bonne heure
Pour aller à la pêche
Ceux pour qui c'est le jour
D'aller au cimetière
Et ceux qui font l'amour
Parce qu'ils n'ont rien à faire
Envieraient notre bonheur
Tout comme j'envie le leur
D'avoir des dimanches
De croire aux dimanches
D'aimer les dimanches
Quand je hais les dimanches ...

Charles Aznavour

sexta-feira, março 24, 2006

Singin' in the Rain
I'm singin' in the rain,
Just singin' in the rain,
What a glorious feeling,
I'm happy again!
I'm laughing at clouds,
So dark, up above,
The sun's in my heart
And I'm ready for love.
Let the stormy clouds chase
Ev'ryone form the place,
Come on with the rain,
I've a smile on my face.
I'll walk down the lane
With a happy refrain,
And singin', just singin'
In the rain.

quinta-feira, março 23, 2006

Voltei de combóio. Santa Apolónia vazia entristece. O combóio, idem.
Antes, a seguir à reunião, tive ainda tempo para alguma quase enfastiada, tristonha dissipação.
Lisboa está desagradável, não há nada para fazer à tarde, a minha geração, creio, ainda não convalesceu do choque provocado pela falta de empregadas e não foi capaz de criar um modus vivendi que reproduzisse, se bem que em termos mais sensatos, concedo, a boa disposição do dia-a-dia de outros tempos, quando as pessoas mais azafamadas tinham tempo para irem lanchar, ou ao cinema ou meramente passar pelo Chiado e dar dois dedos de conversa.
Entretanto, quem sai à tarde, não encontra ninguém, o que é lastimável: calculo que lá estejam todos e todas a serem úteis - ou a pensar que são, os bem intencionados.
Que grande surpresa vão ter...

quarta-feira, março 22, 2006

«...a Justiça, particularmente a Justiça penal, é facilmente "levada ao engano" por arguidos ágeis de imaginação e de escrúpulos e com meios para pagar a advogados que espiolhem o CPP à cata de empecilhos capazes de fazer tropeçar o bicho.»
Isto é uma afirmação de um jornalista, no Jornal de notícias transcrita pela Grande Loja
Ora vejamos: em Portugal, até uma decisão que conta a tenra idade de dois anos, do Tribunal Constitucional, proferida no caso Casa Pia, e em sentido contrário, era considerado lícito e era prática corrente estar o arguido preso sem que se lhe dissesse porquê, podendo tal situação prolongar-se por um ano... Isto era o que se passava até "ontem", aqui onde vivemos sem que os senhores juizes (e os senhores legisladorees e os senhores do governo) se mostrassem incomodados com tal facto.
A decisão do Tribunal Constitucional que acabou com esta ignomínia foi possível porque os advogados recorreram e espiolharam a Constituição "à cata de empecilhos" e lá encontraram o que nenhum juiz até então encontrara: que quem é preso deve saber de que o acusam.
Seria interessante que as senhoras e senhores leitores deste blog se informassem das diferenças entre a o processo penal português e o dos países europeus - podendo-se começar já aqui pela vizinha Espanha - e que tirassem as conclusões devidas das - espantosas, assevero - diferenças.

terça-feira, março 21, 2006

Morreu, neste dia de Primavera, Fernando Gil.
Tinha lido dele, há pouco tempo, a admirável meditação sobre a má fé contida no "Impasses".
Fica aqui um excerto:

"O que é importante aqui, e que tem interesse para o que se segue, é que não se pode identificar a má fé com a mentira pura e simples ou o logro. O vigarista que nos burla não está de má fé: quer simplesmente, profissionalmente, vigarizar-nos, ao passo que a má fé é algo mais profundo, é uma estrutura dotada de uma constância apreciável e com conotações afectivas fortes. Este ponto importa: a má fé é passional. Designa o estado de consciência de um indivíduo, que certamente determina a sua relação com outros indivíduos, mas que, na sua essência é pré-relacional. A expressão "má fé" não descreve uma relação: descreve um estado da consciência. Para o homem de má fé, dada a paixão que o anima, a atitude do outro não pode nunca modificar a sua atitude em relação a ele , enquanto que o vigarista (cuja atitude é impecavelmente não passional) calcula a sua acção em função do nosso cepticismo ou da nossa credulidade."
Já me ocorreu pensar quando oiço ou leio algumas afirmações:" se ao menos fosses apenas vigarista"...
Há uma questão interessante e central na definição da má fé: quem está de má fé, acredita na sua interpretação o que distingue, sempre segundo Fernando Gil, a má fé da ironia ou do cinismo a distinguir daquela, já que: "quanto mais não seja porque os estados de má fé nunca exibem (ou apenas exibem de forma fruste e caricatural) as virtudes da ironia ou se dão ao luxo do cinismo."
Cézanne, Printemps

segunda-feira, março 20, 2006

NTAJ*

Dia razoável, mesmo contando com o bizarro episódio do ovo partido na secadora de roupa.

* nota trivial antes de jantar
"Este mundo já acabou" diz o Abrupto a propósito do ocorrido entre um general alemão e o oficial inglês que o aprisiona, em que o segundo acaba, em latim, a estrofe de Horácio que o primeiro, também no original, começara a recitar.
Este mundo de perdidas virtudes, em Portugal (e em muitos outros lados...) nunca começou. Lá fora, entre um inglês e um alemão, não sei se não se poderia repetir: creio que o General inglês Sir Michael Rose que chefiou as forças inrernacionais na Bosnia tem uma formação clássica de Oxford (e também da Sorbonne, onde terá ido desaprender...) e na Alemanha a coisa não está tão má como aqui.
Aqui, até na faculdade de letras seria difícil tal cena.
3 anos, faz o Contra a Corrente ! Como o tempo passa...
Muitos Parabéns!

domingo, março 19, 2006

Dediquei a tarde aos jornais locais e descobri estragos do laicismo: o jornal da minha paróquia declara-se, no seu estatuto editorial, totalmente independente perante quaisquer forças, sejam elas politícos ou... religiosas. Mais diz que se rege pelo respeito dos direitos dos cidadãos consagrados na Constituição da República.
Pasmei!
Se é independente, não o deve ser. O que se espera de um jornal propriedade de uma paróquia é que seja dependente desta. Quanto aos direitos dos citoyens, já foram estabelecidos há muito, muito antes do jacobinismo e da "nossa Constituição".
Isto não é maldade, ou rebeldia, estes furores de independência: é palermice e insuficiência.

sexta-feira, março 17, 2006

Nada como umas desordens em Paris para me levantar o moral.
Tenho andado meditabundo mas quando vi as rapaziadas francesas - a ululância fez-me lembrar os palestinos, esse fétiche da esquerda -, quando vi a ausência de "de Villepin" - essa ausência faz-me lembrar a de dirigentes capitulacionistas que se evolam no pó da catastrófe... - quando, enfim, se torna patente a desgraça a que o Estatismo conduziu o povo francês... parece que, com tudo isso, me sinto mais animado.
Ou, então, foi por ter chovido.
Nas jacqueries francesas, herança e persistência de ruralidade, a ululância, a incapacidade de ver no Parlamento (sic) a sede da cidadania e da Lei - as manifestações não têm sequer destino certo, ensaia-se a "recriação" do caos, de um cosmos enragé, a rua, o grito, a desordem - a velha desordem em que o romantismo se comprazia encontrar adubo para criatividades embotadas. Entretanto, na televisão, o dono francês de um quiosque parisiense incendiado pela multidão de energúmenos, declarava, com um ar cansado, querer emigrar. Há anos que não via uma declaração tão terrível de desalento e uma acusação tão acutilante a um modelo de governo, a um modo de ser.

quarta-feira, março 15, 2006

Berlim, "Bonjour tristesse", Siza Vieira

Com este tempo sorridente, o ar perfumado, a luz, o pipilar e o chilreio dos passarinhos, creio que começou a estação das neuras, das depressões primaveris.

Nos idos de Março.
Na noite Anne Queffelec toca as Gymnopedies de Satie.
Descubro que as árvores que tenho aqui à frente são ameixoeiras.
Descobri no Dias com árvores

terça-feira, março 14, 2006

Vou ao Bomba, e clico aventureiramente no segundo link (Jorge Asís). Em terreno desconhecido, penso. Não! Logo encontro Mujica Lainez, um autor que gostei muito de ler e que li sem que ninguém - mesmo por recensão ou interposto artigo ou crónica - me tenha recomendado. Vi o livro, numa livraria soturna, em Badajoz, onde tinha ido comprar charutos, e comprei o "Escarabajo".
Hoje, pelo Technorati, vi que o Viagem tinha linkado este blog. Fui ver de que tratava e acabei por o ler todo. Escrito em 1976, apercebemo-nos por ele de um país que esquecemos, o Portugal de há 30 anos, de antes dos fundos comunitários.
O narrador é quintessencialmente português, metido consigo e de falas difíceis malgrado as suas boas intenções. Conta à distância, quase impessoal, mesmo quando se queixa dos seus cansaços e maleitas. A prosa, se não é contemporânea da viagem, conserva uma simplicidade agradável.
Ferido pelo pitoresco não morri, mas vacilei: "The butcher's shop have a rustic, rose-embowered veranda, a truly musical-comedy shop"
Isto foi ontem, adormeci a ler coisas destas.