sábado, abril 22, 2006

Os festejos dos 80 anos da Rainha Isabel II, o apoio que lhe demonstram os seus súbditos creio que causam algum mal-estar aos franceses. No outro dia comentava um deles que a popularidade da actual soberana poderia contribuir para a queda da monarquia, já que o actual Príncipe de Gales não é tão - aparentemente e agora - tão popular.

Isto é dito por quem teve de escolher, ainda há bem pouco tempo, entre Chirac e Le Pen e não prognosticou então, o fim da republique française.

sexta-feira, abril 21, 2006

E a Rainha faz anos.
80 merecidos anos.
Muitos parabéns!
Estava a o uvir o "Let it be" e a ler. Passei os olhos pelo monitor, li que Sócrates Fawlty Torres considera o relatório da OCDE "futurologia".
Se ele continuar assim, acabo por gostar dele, talvez me converta e acabe por perceber que "my name is Manuel, call me Manuel."

quinta-feira, abril 20, 2006

Para ler com atenção: At the same time the fiscal deficit remains at an unsustainably high level. To consolidate the budget and regain a higher growth path, a number of structural measures need to be taken. This chapter reviews four challenges: i) putting public finances on a sustainable path; ii) improving the performance of the education system; iii) modernizing the economy by enhancing tertiary education, training and innovation; and iv) creating a more dynamic business environment through structural reforms in product and labour markets.
O resto...
Um amigo emigrante/emigrado apostrofa furiosamente os portugueses porque, num aeroporto de Londres ouve, entre as vozes, o ajuste de uma "bacalhoada com todos". É do pouco que escreve em português no mail que me enviou hoje: talvez por zanga à pátria, é em francês que prognostica a miséria a este povo "qui mange beaucoup et parle trop".
Acho excessiva tal zanga por causa de um bacalhau com todos, se bem que considere que a bulimia nacional, essa atávica verocidade de gente pobre se tem agravado à media que gastamos mais: não deixámos verdadeiramente de ser pobres, a pobreza, ao invés de desaparecer, entumeceu.

quarta-feira, abril 19, 2006

Lembro-me de cá por casa se achar um absurdo o "Abril em Portugal", unanimemente considerado um mês áspero e desagradável. A mim, fazia-me um pouco de confusão tal má vontade. Hoje, instalado na sapiência da meia idade (ai ai), mais, obrigado, agora mesmo, a ir buscar um casaco, dou razão aos protestos familiares.

19 de Abril: vi depois que, pela data, 1506, os acontecimentos do Rossio não podiam ter sido o que apressadamente tinha suposto pelas leituras em viés: o primeiro auto-de-fé.
Não podia ser: ao tempo ainda reinava D. Manuel I, não havia inquisição que chegou por volta de 1540.
Mas deixo o post sem emenda.

segunda-feira, abril 17, 2006

Julgo que não me corre nas veias sangue judeu.
Dos judeus em Portugal sei o que li - pouco - em Herculano e outra tanto em Saraiva e o que quem lê história de Portugal vai encontrando, mas nunca tive grande curiosidade pelo tema, talvez pela minha assumida vocação de evitar assuntos desagradáveis,tais são chacinas e autos-de-fé.
Simpatia, a que qualquer pessoa sente, uma simpatia longínqua e compadecida.
Há uns anos, porém, soube dos judeus de Belmonte e os quatro séculos de persistência espantaram-me - eu que me dedico a ser do contra, mas de desânimo fácil - e comoveram-me. Não o suficiente para, como se diz hoje, me ir documentar - e já tinha lido o essencial - mas para olhar com admiração redobrada as vicissitudes daquela pobre gente tão desgraçada.
Mais ainda, foi essa pobre gente o combustível da Inquisição, instrumento ao serviço do estatismo português e da sua monstruosa capacidade de produção de hipocrisia e criação de realidades "legais" de que tudo é exemplo a conversão forçada dos judeus e o estatuto de cristãos-novos.
Por isso, fiquei feliz quando li na Rua da Judiaria a ideia de lembrar o 19 de Abril de 1506.
Não são pedidos de desculpas, revisionismos, reaberturas de processos ou acusações extemporâneas ... é apenas mera e boa decência, lembrar a morte de portugueses inocentes assassinados pelo estado.
Não vou ao Rossio apenas porque não estou em Lisboa.
Tempinho desagradável, este, de vento frio.
Depois das férias - a Páscoa hoje é, para a grande maioria, um pretexto para férias - aproveito a segunda-feira a meio vapor para pôr alguns assuntos em dia e adiantar outros, de modo que, quando voltar esta gente toda, tenha a possibilidade de me escapar daqui ou meramente das actividades quotidianas e ir habitar os recônditos lugares que construímos - cf., infra, Poema de Vitorino Nemésio.

quinta-feira, abril 13, 2006

terça-feira, abril 11, 2006

Hagiografia introdutória, vulgo prefácio, e depois meia dúzia triste de páginas com uma linhas ralas nelas dependuradas por cordéis velhos de imagens e lêem isto e por isto se cumprimentam.
E Nemésio, isto só para falar de um deles, e Nemésio ninguém lê, ou menos do que o deviam.
Ora aí vai dele:

Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
In a fit of spleen (apesar do tempo doce e das férias)

segunda-feira, abril 10, 2006

O governo francês, presidido por Monsieur Villepin, capitulou, desta vez perante alguns adolescentes turbulentos que resolveram divertir-se nas ruas em vez de estarem nas aulas - que, não sei porquê, julgo maçadoras e sensaboronas. Todos os dias os alunos protestavam, trocavam cromos, ficheiros mp3, sms, atiravam algumas pedras à polícia e berravam alguns diminutivos e abreviaturas tão ao gosto gaulês. Alguns alunos do ensino básico também participaram e os seus bibes alegres e coloridos deram uma nota pitoresca aos protestos.
Perante a amplitude e gravidade das "manifs" é uma atitude sábia, esta de Villepin e constitui uma novidade na história de França: até aqui os chefes de governo francês usavam capitular perante o exército alemão. É a primeira vez que o fazem perante os seus próprios adolescentes, numa manifestação de invulgar patriotismo e de respeito pela história de França: "allons enfants de la patrie".

quarta-feira, abril 05, 2006

Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela,
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas,
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto,
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos,
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

(Álvaro de Campos)

Assim seja.

terça-feira, abril 04, 2006

Se a minha preguiça não corroesse, anestésica e ácida, «as questões que por vezes me assaltam» até vestígios toleráveis de princípios, ser-me-ia impossível viver nesta exiguidade bucólica (junto da eira onde as galinhas vêm esgaravatar alimento) e pedir àquela divindade tão contida em sofrer, ladeada de jarrinhas de sempre-vivas, uma paisagem de meia dúzia de coisas plausíveis para onde olhe e ponha esperança.
Com estas conversas todas, resolvi ir à fonte, ao site de Margarida Rebelo Pinto e li algumas sinopses. Os narradores e narradoras estão desanimadotes com a vida e pensam um tudo nada arbitrariamente. Umas delas refere um com "ar de índio que sabe negociar a paz com paciência e alguma manha" e vá-se lá saber onde é que ela, a escritora, viu um índio a negociar daquele ou de outro modo ou, se viu, como podemos nós confirmar a justeza da imagem, não vale... Mas, acima de tudo, fiquei impressionado com a tristeza... que gente triste e desalentada, que soturno, que lua-de-londres! E apressado, aquilo é um corridinho triste.
Muito português de hoje, no entanto, essa tristeza afoita, o ar despachado, olha-depois-apanho-te-na-escala-em-Londres-não-me fujas-acredito-em-ti-acredito-para-Nova-York-sim-ainda-me-faltam-três-prestações, que é como se dizem estas coisas em prosa moderna, não deixa de ser do mais lídimo lamento e queixume lusos.
Não duvido que seja um êxito.

sábado, abril 01, 2006

Era tarde na noite, no recato do lar. A williamine, en liqueur, sobre a mesinha, preparava-me para entender a questão desta primavera, a "questão francesa": não podia, decentemente, continuar a afirmar, aos jantares, que aquilo era uma questão de nostalgia e de falta de Ritalin, uma falha prescritiva dos pediatras franceses. Prometia-me ler o CPE, ver mesmo no dicionário o significado preciso de «embauche», ler os discuros de Villepin, estudar a história da coisa, munido dos prints que fizera quando tive de admitir que estava vilmente de parti pris contra a criançada. E para remédio disso, resolvi avivar a a minha propensão para a neutralidade com sucessivos golinhos da eau-de-vie suiça. No recato do lar, nada havia a temer, e destrinçaria o assunto. E assim continuei, noite adentro, julgo. Julgo, porque não tenho a certeza: lembro-me quando o perigo surgiu, insinuado na pequena notícula de rodapé: lembro-me de encontrar a citação, de lhe abrir a porta, mas a partir daí é-me impossível reconstituir a jornada. Quando acordei, lá estava ela ainda, gasta, suixante-huitardiste, the french theory, lívida, poudrée, sob o aroma de um pomar japonês, zen, de pera williams. Nunca a salvo de Dionisos, como aprendeu Zé Fernandes, quase corri, como ele, para um grande banho lustral de filosofia analítica e sabão anglo-saxónicos.
Convalesço.