quarta-feira, março 15, 2006

Berlim, "Bonjour tristesse", Siza Vieira

Com este tempo sorridente, o ar perfumado, a luz, o pipilar e o chilreio dos passarinhos, creio que começou a estação das neuras, das depressões primaveris.

Nos idos de Março.
Na noite Anne Queffelec toca as Gymnopedies de Satie.
Descubro que as árvores que tenho aqui à frente são ameixoeiras.
Descobri no Dias com árvores

terça-feira, março 14, 2006

Vou ao Bomba, e clico aventureiramente no segundo link (Jorge Asís). Em terreno desconhecido, penso. Não! Logo encontro Mujica Lainez, um autor que gostei muito de ler e que li sem que ninguém - mesmo por recensão ou interposto artigo ou crónica - me tenha recomendado. Vi o livro, numa livraria soturna, em Badajoz, onde tinha ido comprar charutos, e comprei o "Escarabajo".
Hoje, pelo Technorati, vi que o Viagem tinha linkado este blog. Fui ver de que tratava e acabei por o ler todo. Escrito em 1976, apercebemo-nos por ele de um país que esquecemos, o Portugal de há 30 anos, de antes dos fundos comunitários.
O narrador é quintessencialmente português, metido consigo e de falas difíceis malgrado as suas boas intenções. Conta à distância, quase impessoal, mesmo quando se queixa dos seus cansaços e maleitas. A prosa, se não é contemporânea da viagem, conserva uma simplicidade agradável.
Ferido pelo pitoresco não morri, mas vacilei: "The butcher's shop have a rustic, rose-embowered veranda, a truly musical-comedy shop"
Isto foi ontem, adormeci a ler coisas destas.

segunda-feira, março 13, 2006

Maravilhas do progresso
Vi e decidi comprar na quarta-feira à noite, foi posto no correio, em Inglaterra, na sexta-feira e hoje chegou cá a casa o livro que encomendei e que daqui e pouco irei ler com alguma gula.
Há desilusões, contudo: a "Padeia", de Jaeger, encomendada na "amazon.uk" em Janeiro não chegou ainda e dizem-me que só lá para fins de Abril: não há royal air mail que me valha!
Acabou o Espectro! E acabou porque, segundo os seus autores, CCS e VPV, não dispunham de "tempo para o fazer como ele deveria ser feito". Assim, como era feito, era o blog mais visitado da "blogosfera" portuguesa!Enfim... eram livres de não darem qualquer explicação. Quiseram dar: impunha-se uma mais convincente e irrespondível ("não nos apetece"; "estamos fartos"; "chega").
Espero que o remorso comece o seu bom trabalho e os transforme de novo em bloguistas compulsivos.

domingo, março 12, 2006

Agradável este prenúncio de primavera, a tarde já com cores de saloia sadia*.
É só para dizer que o quadro da minha bagagem de volta à monotonia europeia é de Nadine Le Prince, uma pintora que não conhecia - mas que me parece muito ciosa dos seus copyright. Pinta murais em tromp d'oeil e, também, décoration d'intérieur.

* Ainda fui criado na crença "XIX siècle", aqui mantida pelo tardo naturalismo da pintura portuguesa do séc. XX, de que o povo gozava de uma saúde de ferro e que tinha umas cores que só Malhoa, só ele verdadeiramente sabia captar. A crença ainda subsiste já que, ainda há pouco tempo, a filha pequena de uma amiga minha, de saúde de ferro e condizentes boas cores, era apodada, um pouco depreciativamente, de "Maria Papoila" pelo resto da família. A mãe tentava, em vão, convencer-nos de que a criança passava a vida com anginas, mas sem qualquer sucesso.

sábado, março 11, 2006


Nao caio no erro de tentar explicar o inexplicável e se Charlotte persiste em querer ver neste bloguinho longínquas indias, que fazer senão obedecer-lhe e agir em conformidade confessando que assim é, que lá estive, que este blog foi escrito enquanto via as bátegas fortes da monção a fustigar as árvores em frente à casa ou quando me refugiava do calor na sala obscurecida, a olhar para a velha ventoínha do tecto, avariada desde 1935...
Lá estive, de facto. Regresso agora (via Port Said) como se pode verificar pela observação da malle des indes. Trago alguns presentes.

quinta-feira, março 09, 2006

Ouvi há bocado, pela primeira vez, "o Presidente da República, Cavaco Silva" e confesso que senti um calafrio.
Depois, agora mesmo, vi-o: lá estava ele, ufano. Bem, compreende-se que esteja, é normal e humano estar orgulhoso e bem disposto. É como há uns tempos: ficavam assim quando eram feitos regedores, a honra do cargo arredondava-os, impavam e se bem que este não tenha sido feito regedor é presidente, que é, afinal, quase a mesma coisa.

quarta-feira, março 08, 2006















Eu gosto da Dorothy Parker. Uma das frases dela: "I'm never going to be famous. My name will never be writ large on the roster of Those Who Do Things. I don't do any thing. Not one single thing. I used to bite my nails, but I don't even do that any more."

segunda-feira, março 06, 2006

A propósito de generosidade, também ontem, George Clooney num tom de quem dá lições generosas falava nos "presentes" de Hollywood ao "povo". Sem contestar que houve filmes que fizeram a propaganda de temas importantes, lembro o que Hitchcock disse a Cary Grant numa ocasião em que este se confessou preocupado com uma cena: "Não esteja nervoso, isto é só um divertimento. Se eu quisesse ocupar-me de coisas sérias teria ido para medicina!".
Dizia hoje o primeiro-ministro, a propósito da defunta "constituição europeia" que dela se podia retirar muito, para que se não perdesse o trabalho de gente generosa. Por "gente generosa" o Eng. Sócrates entende uma mão-cheia de políticos pouco escrupulosos e burocratas autoritários que, sem que ninguém lhes houvesse encomendado tal sermão e usando métodos próximo do ditatorial, resolveram dar tal presente à Europa. E Sócrates quer-nos pôr, a nós, no papel de mal-agradecidos (no caso, pobres e...) a quem "fica mal" não aceitar o presente. Felizmente, já Churchill notava que os grandes povos são ingratos.
Mais, nos tempos que correm, em que se a democracia está submetida a um enorme desgaste, têm o dever de o serem.

sábado, março 04, 2006

Detesto casas estanques, mas as corrente de ar desta casa, hoje, eram pesadas e lamentosas. Encontrei refúgio num canto de cadeirão e ali estive, quase o dia todo, a salvo, mas desanimado.
Resolvi sair agora, é a opção pelo ar livre.
Lembrei-me logo deste poema, ao lê-lo agora. É do "Campo de Flores" de João de Deus, e está no "Livro da Capa Verde": lia-o na infantil e muito me afligia lê-lo.
Miséria

Era já noite cerrada,
Diz o filho: "Oh minha mãe,
Debaixo d'aquella arcada
Passava-se a noite bem!"

A cega, que todo o dia
Tinha levado a andar,
A taes palavras do guia
Sentiu-se reanimar.

Mas saltam dois cães de gado,
Que eram como dois leões:
Tinha-os à porta o morgado
Para o guardar dos ladrões.

Tornam os pobres à estrada,
E aonde haviam de ir dar?
Ao palácio da tapada
Onde el-rei ia caçar.

À ceguinha meia morta
Torna o filho: "Oh minha mãe,
Ali no vão de uma porta
Passava-se a noite bem!"

- Se os cães deixarem... (diz ella,
A triste n'um riso amargo),
Com effeito a sentinela:
- "Quem vem lá?... Passe de largo!"

Então ceguinha e filhinho,
Vendo a sua esperança vã,
Deitaram-se no caminho
Até romper a manhã!...

João de Deus

quinta-feira, março 02, 2006

Ganso

O caso do 24 horas - Sabia que quando verdadeiramente incomodasse, não uma ou outra pessoa, mas o estado das coisas - de que tantos dependem -, a liberdade de imprensa por si, ou as suas condições (a protecção das fontes, no caso) seriam postas de lado sem hesitações e na parte que se mostrar necessária ao "bom senso".

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Ouvi em dois noticiários Fernando Lopes queixar-se da ministra da cultura: que não deixa, a ministra, de ser muito estimável, mas que de cinema pouco sabe, o cinema não são só imagens, isto é tudo muito paroquial, muito paroquial. Espero que a ministra saiba resistir a esta lamúria - feita num tom de grande deste mundo a quem o abnegado amor à pátria leva a incomodar-se por questões menores - e que não escorregue com algum subsídio da paróquia a favor de tão universal paroquiano - se for esse o caso. Fernando Lopes, a quem não faltarão convites para realizar filmes lá fora, no vasto mundo, que faça o sacrifício - hoje em dia pequeno, dadas a facilidade das viagens e a comodidade das comunicações - e aceite trabalhar lá fora (itália? Suécia? Estados Unidos?). Prometo aplaudir a obra-prima, ir aplaudir o insígne criador em Cannes, Berlim, Veneza, Hollywood, onde o seu talento receberá o prémio merecido. Prometo ver e rever no cinema, comprar o DVD, ler entrevistas, comprar jornais para ler as críticas.
Dinheiro dos meus impostos é que não estou interessado em dar, que há outras obras da paróquia a fazer e enquanto Fernando Lopes tem todo o vasto mundo expectante, nós, paroquianos, não temos outro remédio senão viver aqui, com as obras da paróquia a arrastarem-se por falta de dinheiro.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Afinal não veio tempestade: choveu tristemente, no sábado - que foi, por isso, um bom sábado de inverno, frio e chuvoso, dos que se passam em casa entre leituras preguiçosas, chá, zapping e tudo o que se tinha para fazer adiado para sábado que vem.

sábado, fevereiro 25, 2006


Durante quase dois meses não consegui pôr imagens no blog. Não foram dois meses seguidos, isto é, não pensava todos os dias e de uma foram consistente "na treta que é não poder enviar imagens para o blog". Pensava apenas de vez em quando, ao modo de um remorso incerto e deixava invadir-me por uma tristeza vaga e conformada que, por isso, não me incomodava demasiado (se tenho de ser português, que seja para estas coisas boas de ser português). Há uns dias disse de mim para mim que precisava resolver "aquela maçada, dá um jeitão, punha lá um desenho e já estava o post feito". Comecei a tentar: ver a firewall, ver a configuração do ftp, ver... delineei o problema, resolvi-o "em tese" (uma desastrosa antecipação que nos tira a força adjuvante da curiosidade) e há pouco lá cheguei a Calecut.
Agora tenciono pôr-me aqui à sombra e viver dos rendimentos do empreendimento.
Lá fora a tempestade espreita (vide pintura, também do Homer, Coming Storm - e à mão de semear).
Mas estou em terra.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Leio no Sapo que "Portugal é um dos países da União Europeia onde os cidadãos se revelam mais pessimistas com a vida que têm actualmente, sendo apenas ultrapassados pelos húngaros".

Pessimismo injustificado! Por exemplo: ainda há pouco saiu uma lei de arrendamento nova que tem uma fórmula muita avançada - embora complexa - para que o senhorio saiba a renda exacta que pode pedir ao inquilino, seja ele pessoa ou sociedade. Consta que, dos Estados Unidos ao Japão - onde a coisa é deixada ao critério do dono da casa e do inquilino - o mundo nos olha com espanto e inveja.
Pessimistas? Tsc, tsc... já é má vontade!

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O que a Comissão Europeia disse foi que as medidas adoptadas pelo governo português são insuficientes e que é preciso fazer mais cortes na despesa etomar mais medidas restritivas da despesa, mormente para o ano. Acontece, porém, que grande parte dessa despesa se destina por vias mais ou menos directas a manter uma grande parte da classe média a viver como tem vivido até aqui - e não quer deixar de viver: acima das suas possibilidades.
A coisa vai doer. Ou antes, não vai: aposto que o governo não vai atacar os problemas essenciais.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Li algures que o furor condecoratório do presidente laico e socialista Dr. Sampaio obrigou a firma que fabrica as grão-cruzes a admitir pessoal eventual.
Perante isto, não pude deixar de pensar que os laicistas querem retirar as cruzes das escolas para as usarem ao peito.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Muito obrigado, Charlotte.
Porém, fiquei sem post para hoje. É que eu ia mandar dizer
que Não tô
Não tô... não vou

E agora?
Se fizer bom tempo...

P.S. Todos os dias? Não vale intimidar!

sábado, fevereiro 18, 2006

"Aí... piorou
Nem tô... nem vou
..........................................
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou "

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou
Mas se por exemplo chover
Não vou
Diga a Maricotinha que eu
Mandei dizer que eu
Não tô
Não tô... não vou
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou
Mas se por exemplo chover
Não vou
Uma chuvinha, redinha, cotinha
Aí... piorou
Nem tô... nem vou
Se fizer bom tempo...

Dorival Caymmi

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Li esta no Abrupto: «A blogosfera é um lugar de fronteira, o Wild West, onde impera a "lei da selva" e o darwinismo social. Não é um local aprazível para os espíritos amáveis» e pasmei. Achava eu que os blogs eram o resultado uma actividade maioritariamente de adolescentes, donas de casa e alguns desocupados - ou ocupados - compulsivos palradores, como é o meu caso. E creio que assim é um pouco por esse vasto mundo fora. Em Portugal, todavia, a "blogosfera" é, parece, e segundo JPP, um assunto sério. De facto, temos de conceder: em Portugal, tudo oscila entre a pura farsa e o peso das coisas densas e pesadas (somos macambúzios, tememos o riso e temos a gravidade da gente pobre que espera a esmola)e logo essa característica propiciaria que a blogosfera portuguesa fosse um local pouco amável. E mais agrava tal clima de "cousa grave" a presença na blogosfera lusitana de tanta gente do mundo da política, do jornalismo, da cultura, até VPV meu maître à penser! Creio que isto será inédito e não sei a que atribuí-lo senão ao hábito português de cada um ter como profissão uma actividade de que não gosta e que opinar e criticar é a verdadeira vocação nacional - mas pouco exercida nos locais de trabalho: isso faz dos blogs sítios incríveis onde se "desabafa" e se "diz tudo" ("eu disse-lhe tudo" como os aspirantes a adúlteros de outrora)
E que se desabafem de modo caótico coisas sérias, é coisa que não pode agradar a JPP, ser disciplinado que não quer tanto desabafo e estado de alma a estorvar as linhas com que, do alto do abrupto delineia o futuro de Portugal e nos alerta para os perigos presentes. Compreende-se.
Mas, afinal, é esse palrar das gentes comuns grave além de maçador para as grandes almas? Excepto duas ou três pessoas que podem dizer o que pensam veramente em qualquer jornal e as vertem também nos seus blogs, o que se grita nos outros não passa, creio, o tom das controvérsias dos clubes literários das aldeias inglesas...

Tinha acabado de escrever isto e vi a troca de amabilidades entre o Abrupto e o Queijo Limiano, acusado de boateiro. Uhm. estou inclinado a dar razão ao último.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

De vez em quando passeio pelos blogs e lembro-me, nessa viagem que inicio por este meu, daquele gastrónomo que dizia haver mil e tal receitas de bacalhau que se podiam resumir a três.
Mas persisto, sem emenda.
Um dos meus heróis de pré-adolescente foi o General Gordon, que mal distinguia de uma personagem de Jules Verne. Hoje, a existência em demasia de consciências - dispensáveis, afinal, como afirmava Lord Bertrand Russell - tornariam Gordon e o seu sacrifício discutíveis,longe do "a uma só voz". Em nome de quê se pode - ou deve - prescindir do paternalismo que permitiu a quase unanimidade dos sentimentos de pesar pela morte do General?
A minha visita diária à Bomba trouxe-me Mae West. Parti em busca de.
Num outro qualquer sítio leio que West era uma "femme fatale". Nada mais errado. De Mae West seria de esperar risco, desafio e alguns maus conselhos, não o perigo sinistro das ciladas que matam.
Um deles, dos maus conselhos: «between two evils, I always pick the one I never tried before»

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Em dois dias deparei com duas asneiras. A primeira delas num texto publicitário destinado à classe média em que se escrevia "ascenção" por ascensão: a segunda consistiu em vários "intervimos" por interviemos num documentário com qualidade e que merecia mais atenção.
A questão que subjaz é a do nosso atraso.
Adormeço no cadeirão, profundamente, como um mineiro esgotado pela profundidade e sonho negrumes baços ou coisas enredadas e rígidas como as não produzia a indústria pesada búlgara nos idos de 50. Depois, por esta hora, desperto. Vou ler um bocado do "Portugal Contemporâneo" que encontrei há bocado naquela rima de livros ao pé da mesa de cabeceira que tantos engulhos provoca na empregada.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Penso na cor do mar pelo começo desta tarde, na baía, na barca que a ela aporta e o que naquela chegada teria de ser diferente, por ser a primeira.
Dizem-me que a poligamia está legalizada na Holanda. Não sendo de crer que sejam feitas discriminações em termos de orientações sexuais, temos que Hans pode ser casado com Thomas e Cokkie que, por sua vez, pode ter uma união lesbienne com Femke ao mesmo tempo que também é mulher de Ernst que, entre as suas 4 mulheres e três "maridos" conta Hilda, mulher, também, de...
Enfim, uma família feliz!

P.S. É de crer que venha a seguir, na agenda política, a legalização do incesto, esse tabú da sociedade capitalista e do ocidente decrépito. Acho que, ao menos neste ponto, poderá haver alguma justiça: os activistas poderão deixar de encontrar escapatória na lei e poderão ser obrigados a casar com as suas irmazinhas e vice-versa. Para não falar das mãezinhas e dos paizinhos deles. Ah, sim, justiça, enfim!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Que fazer àqueles empregados e meninas de loja que, com ar pesaroso ou prazenteiro, conforme os feitios, nos dizem que aquilo por que perguntámos já não existe por ter sido "descontinuado"?
Alguns e algumas acrescentam a isto um ar de leve desprezo que nos põe ao lado das coisas "so last year" que se apressaram a deitar fora. "Descontinuado" seria, ao que suponho, um miserável anglicismo, ou mais veramente, um cretinismo correcto, mas, suponho, o termo encerra, também, um eufemismo de mau gosto: não se diz que acabou, que já não há, e supõe-se a mera pausa ao invés do definitivo. O medo e o desconforto da morte é tamanho que a "cosmética pompa fúnebre" chegou aos objectos.
Guardo uma reserva de princípio, de método, perante o que se lê no Globo e no blog citado. Mas a ser verdade o que diz o bloguista Sandmonkey podemos todos rir - e chorar - pela ingenuidade e cobardias ocidentais.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Dá sempre gosto ler VPV mas em especial os posts sobre a questão das caricaturas de Maomé em que são desancados, de uma penada - e feliz - o Dr. Sampaio, e os Prof. Cavaco e Freitas do Amaral.
Não é mau feitio de VPV, eles é que por omissão e acção se puseram a jeito.
Enfim uma notícia, esta da compra da PT pela Sonae.
E terá o mérito de revelar até onde foram os governos na sua arquitectura de protecções. Vamos ver mais nítido.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Um eterno Janeiro não me assusta senão por me aborrecerem todas as eternidades, mas esta manhã de Fevereiro, este sol, este azul, o ameno que se pressente por detrás da aspereza do vento têm o encanto das coisas confiantemente pressentidas.

domingo, fevereiro 05, 2006

Que fique claro: os energúmenos têm os seus direitos, entre os quais os de exprimirem o que lhes vai lá por dentro. O que tem faltado é a indignação. O desinteresse com que se "deixa andar" é uma face daquela mesma moeda com que se tenta, agora, apaziguar os furores islâmicos.
Oiço as notícias destes desmandos contra os nórdicos (e já contra os franceses) e sinto a falta de qualquer coisa. Ao longo dos dias que já leva este episódio tenho sentido a falta de não sei bem o quê. Percebi agora: das manifestações de protesto. Muito caladas estão as esquerdas, os anti globalistas, os multiculturalistas, os... toda essa gente...
Dos media: "Dezenas de manifestantes em protesto pela publicação das caricaturas do profeta Maomé na imprensa europeia entraram nas embaixadas da Dinamarca e Noruega, saquearam-nas e lançaram-lhes fogo em seguida."
À atenção dos senhores multiculturalistas: gente de outras culturas, nomeadamente das do Próximo Oriente não consideram que todas as culturas se equivalam. Pelo contrário, acham a deles muito superior à nossa, que vêem como decadente e "frouxa".
A gente a ver estas coisas de gente furiosa por uns desenhos de Maomé - e, ia dizer ao modo da cultura europeia intolerante e sem sentido de humor - quando ontem, num intervalo de zapping vi uma Cruz, o símbolo da religião cristã (a tal que não contribuiu para a formação europeia, segundo a defunta constituição europeia), o símbolo do martírio de Cristo, nas mãos de um energúmeno que contava em linguagem de carroceiro, anedotas soezes e alarves no que deve ser o mais abjecto programa da televisão europeia, o ri-te não sei quê, da Sic.
E sabem? Dei por mim a pensar sei lá o quê e em vergonha na cara e sei lá que mais.
Constava do catálogo, preto no branco, que os pés do cadeirão eram quinane. Havia possibilidades de escolhas de outros pés, mas tudo apontava para o quinane. É isso: Queen Anne.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Li, de manhã, no teletexto da TV5, a notícia de que o director do France Soir, Jacques Lefranc tinha sido despedido por ter permitido a publicação das caricaturas de Maomé.
A razão invocada para pôr o homem na rua foi a de ser necessário dar "um sinal forte de respeito pelas crenças e convicções íntimas de cada indivíduo".
Logo pensei no que aconteceria se os católicos franceses exigissem, com igual falta de "fair play" - e pode existir, em matéria de religião? - igual respeito pelas suas convicções...
A bem-pensância (sic) europeia, que tem alimentado, com a sua benevolência pelo extremismo muçulmano, a possibilidade da existência de situações como esta, que venha agora explicar em que pé estamos. Quanto a mim, já os perdemos (o pé e o tino).
VPV diz mais aqui

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

No 1º de Fevereiro de 1908 foi assassinado El-Rei D. Carlos I e o Princípe Herdeiro, D. Luís Filipe.
O Monarca e a restante Família Real eram alvo de uma campanha de calúnias soezes, difícil de conceber hoje em dia.
À corja caluniadora pertencia gente grada das letras. Alguns penitenciaram-se da sua conduta vergonhosa e pediram, anos depois, desculpas à Rainha, Senhora Dona Amélia que as terá aceitado.
Quem não os desculpou foi o tempo: são hoje geralmente desconhecidos ou ignorados.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Ler posts de "vpv", melhor ainda, com o tempo começar a lê-los de viés, a correr, desatentamente, eis um inesperado luxo.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Registo: por esquecimento o aquecimento da casa de jantar não foi ligado e usar os talheres revelou-se uma tarefa de alguma penosidade.

domingo, janeiro 29, 2006

Dei uma passeata curta pelos blogs e num ápice vi-me no meio de discussões azedadas, acusações, recriminações, tudo isto dominado, aqui e ali, por umas indiferenças altaneiras. O quadro é aterrorizador e provocou-me a mesma sensação de confinamento que senti ao ler algumas memórias de há um século atrás.
Parece que aqui também nevou.
O frio continua.

sábado, janeiro 28, 2006

Ontem, lembrei-me várias vezes de Mozart mas não ouvi Mozart e acabei por não vir aqui "postar" sobre Mozart, nem que fosse um mero retrato dele.`
A omissão acaba por ser, a contrario sensu, uma homenagem à mediocridade. No caso presente, à minha.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

O Dr. Sampaio no discurso que proferiu na abertura do ano judicial disse, entre outras coisas, que é «inaceitável que um arguido não seja, desde o primeiro momento, confrontado com os factos de que é acusado,como tem acontecido, à vista de todos, demasiadas vezes»
Muito bem, diz o Impensável, mas porque não alterar de imediato o Código de Processo Penal? O que fez o presidente para que acabasse tal vergonhoso estado de coisas?
Depois, considerando «igualmente inaceitável que lhe não sejam explicitadas as razões efectivas que podem determinar a sua prisão preventiva, para as poder contraditar e sobre elas produzir prova». Aqui há gato escondido com rabo de fora e felpudo. Não compete ao arguido produzir prova... Cabe à acusação. Uhm... E que tal acabar com a prisão preventiva no que ela tem, entre nós, de terceiro mundismo? E, mais uma vez, porque razão esteve calado o Sr. Presidente? Não era de admitir que num país sem tradições de respeito pela dignidade humana, ademais depois de quase 50 anos da ditadura da II república, o código de processo penal, produto de esquerda, fosse interpretado pelos juizes do modo menos favorável para os cidadãos?
Porque não dizer que a prisão preventiva, sem acusação formulada, não existe sequer nas democracias avançadas como é o caso do Reino Unido?
Resolveu falar agora. Podia - e devia - tê-lo feito há muito mais tempo.
Este discurso, por tardio, não lhe faz honra.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Aproveitei a tarde para começar a resolver alguns assuntos desagradáveis. Com surpresa minha, a tarefa em si não demorou nem foi penosa. Tratava-se de começar, apenas.
Já perto das hora de jantar, vi Durão Barroso a debitar palermices sobre a necessidade das nossas "reformas estruturais". Ele finge esquecer-se que tais reformas não foram encetadas por um esquecimento, mas porque exigem sacrifícios à classe média em geral, a que decide eleições e, mais particularmente, àquela parte dela que conta com um lugar à mesa orçamental e dos fundos comunitários. Creio que a coisa só será feita quando, devidamente instruído por quem se fartar de nos pagar este estado de coisas, um qualquer funcionário comunitário pegar pelo bracinho o 1º ministro português da altura (a "coisa" não será para já) e lhe explicar - sem muita subtileza, não vá ele não perceber - o que é necessário fazer. Nessa altura acabarão as discussões estudantis e adolescentes sobre o "nosso rumo", a "nossa posição no mundo", o "nosso destino" que agora alimentam os nossos ócios e começará o tempo rude do 1º emprego.

terça-feira, janeiro 24, 2006

O Procurador-Geral da República disse no Parlamento que o Ministério Públivco poderá conviver com a nova lei-quadro da investigação cirminal. Sem entrar na discussão da bondade da lei conviria que alguém dissesse ao Sr. Procurador-Geral (e aos sindicatos) que, o que mais faltaria seria o Parlamento (ou seja, o Povo Português...) encontrar-se condicionado às opiniões e modos de ver dos senhores funcionários do Ministério Público e seus sindicatos.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Um investigador (de quê?) inglês chegou à conclusão de que hoje é o dia mais deprimente do ano inteiro tendo em conta o tempo decorrido desde o Natal, o recomeço do trabalho, o tempo frio, etc, etc.
Não vejo motivos para duvidar.

domingo, janeiro 22, 2006

Ontem comecei a ler as Memorias da Maria Filomena Mónica que acabei há pouco, já depois de ter ido votar - reservo a minha abstenção monárquica para uma possível 2ª volta. O livro, tendo embora alguns dos defeitos que lhe vi apontados (algumas transcrições dos diários são demasiado longas, por exemplo, e aqui e ali há alguma pose narrativa mais irritante), lê-se bem. Falta sense of humour, talvez, e alguns episódios pitorescos que contentassem o voyeurismo vigente - que não deixa de ter matéria para se alimentar, aliás - mas mesmo como está, lê-se bem, repito, e as reacções exageradas que suscitou parecem-me um pouco provincianas. Dado a autora se ter doutorado numa universidade com prestígio mundial, não será de excluir alguma lusitana inveja como motivadora das indignações mais exaltadas.
Tinha acabado de pousar o livro quando telefonou uma amiga minha em missão de policiamento ortodoxo lembrando-me as malfeitorias a que ficaríamos sujeitos se, com a minhas liberdades poéticas, contribuísse para eleger um mau presidente da república. Desiludida com a minha resposta ("o mal está feito") decidiu que eu fora vítima de más companhias. Ri, desmenti e considerei a opção, das más companhias e minha, muito natural, sendo a dela a desnaturada.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Céu limpo e puro lá fora e aqui, maçadorias burocráticas a que não se consegue ser imune e me acabrunham, deixar que tudo isso se escoe para segunda-feira e agora sair para a tarde.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

A lua minguante é ainda bastante para aquele gato, lá em baixo no jardim, comemorar Janeiro. Adormeci a ouvir o gato, os gatos. É bom poder protestar apenas porque há um gato, gatos, que miam os seus males de amor lá em baixo no jardim. Se hoje se repetir tenciono pôr lá a aparelhagem do ipod com uns blues que lhes digam pois é, rapazes, amar não é fácil, é preciso saber sofrer em silêncio, num silêncio perfeito como os gestos que usam, esses saltos preguiçosos, lentos, que balbuciam o espaço.

terça-feira, janeiro 17, 2006

O Dr. Souto Moura não foi ao parlamento porque teria umas reuniões. O Dr. Souto Moura é um funcionário, presumo que sindicalizado, e os deputados são os representantes do povo português. O Dr. Souto Moura, porém, sabe que tem total imunidade perpétua - e impunidade, de facto, já que a pusilanimidade reina - como se vê, enquanto os deputados têm apenas uma temporária impunidade funcional e a sua situação depende da boa vontade dos bonzos do partiudo. Outra fosse a lei eleitoral, outros seriam os deputados. E sabendo-se eles fortes do apoio dos seus constituintes, outra seria a sua força e ao sr. procurador geral não lhe passaria pela cabeça adiar o dia de prestar contas aos representates do povo português em nome de umas reuniões.
Enfim...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Afinal parece que não vai acontecer mesmo nada.
Aqui não acontece nada, nunca.
É o destino que existe apenas, mas puro, étereo, não chega bem a acontecer-se.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Pelos vistos, parece que ninguém terá sido obrigado a ouvir os telefonemas, apenas registaram. Enfim... poupou-se uma mão cheia de gente a essa tarefa tediosa.
Parece que não se encontra, todavia, despacho de juiz que autorize tal registo. Minudências.
O facto de haver registos de 80 000 horas de telefonemas entre titulares de altos cargos políticos, ou seja, uma prática digna de qualquer perversa ditadura policial, não parece ser motivo para que seja pedida e demissão do procurador geral.
Também acho, era um aborrecimento.
O procurador geral foi chamado a Belém, parece que os telefones privados do presidente da república e de dezenas de outros titulares de órgãos de soberania teriam sido colocados sobre escuta pelo ministério público. Ia indignar-me quando ouvi o Dr. Cluny, que, creio, é presidente de um sindicato de "magistrados do ministério público" dizer que não, não senhor, que é mentira. O espantoso é que sobre estas questões, não laborais, se peça opinião a sindicalistas e que o presidente do sindicato se considere em condições de dizer que é mentira. Como sabe ele que é mentira?
É uma república de mau vaudeville, esta já trintona 3ª República.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Marquês de Fronteira conta, com deleite, nas suas Memórias e para ilustrar o provincianismo de um seu companheiro de viagem, que este se esquivara em Paris a entrar, com ele Marquês, na mesma carruagem, pois decerto logo se saberia da sua chegada juntos e isso poderia prejudicá-lo aos olhos do governo português. Como se fosse em Lisboa em que a chegada de qualquer é notícia, acrescenta o Marquês. E, de facto, consegue fazer-nos sentir o ridículo da situação e o enorme desconhecimento do mundo que era o de muitos portugueses.
De quando em vez lembro-me deste medo cuidadoso do que se pensaria em Lisboa daquela chegada em tal companhia à capital francesa (hoje melhor seria dizer a Londres ou a Nova York; ou a ambas; ou, além destas, também a Paris) quando me deparo com preocupações que com aquela de há 180 anos partilham o descabido.
Aconteceu agora esta lembrança das Memórias de D. José Trazimundo a propósito de Maria Filomena Mónica.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Um blog da Constança Cunha e Sá! Enfim, nem tudo é mau, CCS faz parte das minhas devoções nacionais - devoções de céptico sejam elas - e, também, das mais pessoais: gosto da CCS, tem dégagé e bom ar, coisas que não são, não são, repito, tão encontráveis quanto se possa pensar.
Passa para os meus links e para os meus hábitos de leituras de blogs.
É o que me acontece com o Prof. Cavaco, acho dele isto que Churchill achava já não sei de quem. Há defeitos, vícios estimáveis e qualidades insuportáveis ou perto disso, é verdade.
Há bocado vi as reacções às declarações de Santana Lopes (eu gosto daquele ar de alma sensível, de estóico desengano que ele, Santana, faz; não sendo nada convincente é, por isso, um bom motivo para se ficar divertido, adivinhar quem se comove e comparar com o outro ar, o do Sócrates que se especializou no "tem de ser, tem de ser" dos grandes destinos) e dei por mim a pensar: eu tenho muitos defeitos e poucas qualidades e todos à uma pouco estimáveis, mas o que fiz, apesar disso, para merecer aquela gente televisão dentro?
Volto para Judt e para este começo de constipação a que me dedico quase profissionalmente, desde há dois dias.
«He has all the virtues I dislike and none of the vices I admire»

Sir William Churchill

terça-feira, janeiro 10, 2006

Explico: o meu computador não é andarilho e está num gabinete virado a Norte. O Sol, por seu lado, está a Sul. Ganha o Sol, o azul, a tarde boa.

domingo, janeiro 08, 2006

A preguiça, uma injustificada falta de tempo, outras desculpas habituais que me dispenso de referir têm impedido que agradeça como deveria as referências a este blog.
Hoje começo a corrigir essa falta, agradecendo ao lida insana as referências amáveis.
Sábado dedicado ao "faça-você-mesmo". O faça consistiu em pendurar um espelho - sim, o espelho é pesado e grande. A coisa meteu meditações sobre buchas, diâmetros de brocas, berbequins ( vêm sem instruções de como fazer e as deles mesmos são totalmente irrelevantes para tudo o que ultrapasse o modo de, em caso de avaria, fazer valer os seus direitos em Glasgow), modos de aplicação da modalidade martelo, e de um modo geral sobre todos os assuntos sobre os quais eu deveria ter pedido conselho, se eu pudesse admitir pedir conselho sobre berbequins e tudo o mais, de um modo geral, na secção de bricolage.
Creio, no entanto, que não cheguei a correr perigo de vida e mantive o equilíbrio em cima do escadote e o sangue frio quando a broca (uma magnífica 6mm em aço-crómio) descreveu um vigoroso movimento oscilatório e, diria mesmo, rebelde. Tudo dominado com prontidão, prossegui, sem sobressaltos e a sede da minha preocupação transferiu-se do manejo em si para considerações de segurança: os camarões italianos que acompanhavam os espelho seriam os adequados? Eis o problema. Eu sei que Itália fez a renascença, mas sobre a fase actual, o fim do post II guerra - sim, continuo a ler - tenho as maiores apreensões. Substituí os camarões por outros, mais fortes, mas agora à noite, têm-me assaltado dúvidas sobre as buchas: italianas, elegantes, serão forçosamente escorregadias?
É que se tudo aquilo desaba, além da humilhação e prejuízo imediatos, acrescem sete anos de azar.
Não posso, porém, acrescentar ao orgulho - legítimo, diga-se (e nada disse sobre o processo de medição para centrar, calculos para o local dos camarões, o que tudo tem que se lhe diga) - mas não posso, dizia, acrescentar ao orgulho da missão cumprida, a completa tranquilidade.
Assim é a natureza humana...

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Outra coisa que mudou: dantes ouvia com atenção o Dr. Constâncio. Hoje não tenho paciência para escutar alguém que se atribuiu um ordenado muito superior ao "seu colega" dos USA. Eu sei que ele não é menos competente mas, de um certo modo, é menos credível e a sua voracidade - e de toda aquela gente que o rodeia - parece-me obscena.
Comparado com isto, as desastradas idas do primeiro-ministro para destinos de semi luxo nas férias de Natal, (pagas do seu bolso, aliás), parecem-me apenas o que são: um exemplo de novo-riquismo de mau gosto.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Os pareceres e relatórios do Tribunal de Contas eram, até agora, e para mim, Zé da Esquina, peças fiáveis para aquilatar da conformidade dos procedimentos da administração com a lei. Adivinhava-se uma cultura de rigor e quase se podia desenhar o perfil dos autores desses relatórios, legalistas, exigentes, honestos, daquela gente a quem o não cumprimento das normas, mesmo justificado por aflições substanciais, deveras aflige.
E eram rigosamente apartidários - ou pareciam-no.
Hoje, o Dr. Oliveira Martins deu uma machada nesse imagem que, creio, eu compartilhava com muitos portugueses.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Lembrete: telefonar amanhã à D. Conceição do banco a ver se ela me compra acções da Iberdrola.
E se eu não estropiasse poemas citando-os mal?
"It seemed always afternoon" e não "where it is always afternoon"
O melhor é ler o poema do Tennyson, que encontram aqui.
Levantei-me tarde - encarar a manhã, particularmente estas muito bonitas de Janeiro exige de mim uma disciplina dos sentidos que não está ao meu dispor nesta altura - levantei-me tarde, passei os olhos pelos teletextos com as notícias do dia (a mais interessante é ter cessado em França o estado de emergência. Corrijo: a mais importante é a gente verificar estar um país europeu várias semanas consecutivas em estado de emergência por motivos de ordem pública...) Bem, depois almocei meditando nestas coisas francesas e fui passear, tarde fora. Que beleza de tarde! Lembro-me que Eça parece atribuir à amenidade do clima a nossa incapacidade de perceber o trágico, a nossa opção pelo drama manso. E de facto...
Pobres dias tão bonitos e inocentes das verborreias que inspiram...
Mas todos temos piores momentos, fica o post anterior como exemplo de um deles.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Estes dias de Janeiro, de absoluto azul e frios, principados perfeitos "where it is always afternoon", possuem a contundência salvífica de verdades reveladas.

sábado, dezembro 31, 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Esta noite, um sem abrigo de 22 anos morreu de frio, em Roma. Não foi um acidente, um acaso. Eis um escândalo (eu queria crer que a extrema miséria era do passado, dos filmes neo-realistas e que na Europa da UE, em Itália, não havia gente a morrer de miséria aos vinte e dois anos, que as redes protectoras - públicas ou privadas -estavam lá.
Não estão.
Hoje de manhã recebi o "Postwar - A History of Europe since 1945" do Tony Judt que já estive a ler aos pedacinhos, segundo o meu velho e péssimo hábito. Aconselho, desde logo por desconhecer algo que se aproxime em fôlego ao contido nestas 800 e muitas páginas.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

O regresso do frio é, também, o da dormência. Entre o ar condicionado a sussurrar nos 23º C e a braseira, arrasto um olhar semicerrado para o azul lá de fora. O "homo ludens" de Huizinga há muito que escorregou até ao chão. Readormeço. Eis o meu dia.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Já não sei dizer como, ontem o nome de Margaret Thatcher e a questão do cheque inglês da UE cruzaram-se com umas declarações quaisquer de Cavaco sobre um secretário de estado (mais um...) não sei bem para quê e a reacção de Soares a não sei àquele quê e o PS a bradar por golpes de estado e lembrei-me que Thatcher tirou a Grã-Bretanha das mãos dos sindicatos e mudou a face do país que ao tempo em que tomou posse estava mal e hoje está bem (Blair nada mudou de fundamental do que Thatcher fez, lembrava VPV) e que enquanto isso o nosso país na mesma, essencialmente, isto é, mal. E por cá andavam, enquanto Thatcher talhava a nova Inglaterra, Cavacos e Soares, oh luminárias!, que gostam agora de fingir-se diferentes entre si, não o sendo: entre outras coisas, ambos gostam imensamente de um estado grande e gastador que nós, desgraçados, paguemos e ambos fizeram os possíveis para que isso se mantivesse. Isto são os nossos "estadistas".
Eu sei, dá vontade de chorar, dá vontade de morrer, como Herculano tinha ao contemplar a qualidades dos nossos políticos (melhores do que as actuais, todavia).

terça-feira, dezembro 27, 2005

António Alonso é o nome de um juiz civil espanhol. Creio que não será um magistrado, mas o equivalente ao Conservador do Registo Civil. Discordando da nova lei que permite o casamento entre homossexuais, apresentou a sua demissão para não ter de celebrar um, alegando impossibilidade moral.
Não está em causa agora o "casamento" entre homossexuais, mas o mero facto de alguém apresentar a sua demissão por uma questão moral, por uma questão de princípio moral.
É ali ao lado, em Espanha.

P.S. Sim, ficou mesmo sem emprego. Sim, aconteceu. Sim, aqui nem mortos se demitem. Sim, não há noção do que sejam coisas tais como questões de princípio. Excêntricidade? No lo creo. Em greve? Não, não, isso é cá. Lá demitem-se mesmo por estas coisas. Sim, sim, demissão. Sim? Ah, não, não, não creio que seja uma questão sindical. É mera vergonha na cara, hombredad, dizem; sim , sim, muito atrasada a Espanha. Não, não, o que me espanta é que alguém saiba retirar consequências do choque entre a lei e as suas convicções pessoais e esteja preparado para sofrer por isso, com prejuízo seu. Também concordo, muito excessivo. Sim, é o que eu dizia, o problema é a família, se não fosse a família, as crianças... o problema é a família. Egoísmo? Claro que é egoísmo. Sim? ah, logo vi. Então com certeza tem de seu.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Hoje é dia de Santo Estevão, primeiro mártir do Cristianismo - da nossa civilização ocidental.
Estevão, enquanto o apedrejavam, implorava a Jesus que não considerasse culpados os seus verdugos e neste gesto de responsabilidade, altruísmo e perdão encontramos alguns dos valores que fizeram a nossa civilização e compreendemos a justeza, a facilidade das palavras de Habermas: «Christianity, and nothing else, is the ultimate foundation of liberty, conscience, human rights, and democracy, the benchmarks of Western civilisation» "in" «A Time of Transition»

sábado, dezembro 24, 2005

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois cabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos

Vão-se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus não lhes deu nada.

-Deu-lhes sim, muitos bonitos.
Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos

Mário Sá-Carneiro










Noite de Natal

sexta-feira, dezembro 23, 2005

"In the afternoon they came unto a land
In which it seemed always afternoon
."

Ficam os canditados entre Dickinson e Tennyson, já que manda a honestidade que não os faça desaparecer.
O livro em que vi os versos de Tennyson, tinha-o encomendado há um mês e esperava-o só para Fevereiro. Foi uma boa surpresa e foi a minha leitura de final de tarde.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Aquela deselegância de Soares no final do "debate" com Cavaco revelou quanto ele, Soares, deve à "Lisboa em camisa" em que nasceu e pouco ao vasto mundo a que julga pertencer. Aliás, nesse "vasto mundo" vi-o a ser malcriado com uma senhora que, aliás, prontamente o pôs no seu devido lugar de deputado, entre os muitos outros, do Parlamento europeu. Lembre-se quem quiser desse episódio, ilustrativo do prestígio do homem "lá fora"...
Um assunto, porém, deveria ser objecto de algum pedido de esclarecimento: é normal que os chefes de estado de democracias oiçam de políticos estrangeiros considerações que se presumem pouco abonatórias - pelo tom usado - sobre os respectivos primeiros ministros? E, ademais, em alturas de difíceis negociações em que os países dos "mes amis" podiam ter interesses divergentes e mesmo antagónicas da portuguesa?
Eu gostava de saber...

O facto de Cavaco estar convencido de que alguém bem informado sobre um assunto terá de forçosamente chegar a acordo com outrém se este for igualmente elucidado sobre todos os aspectos da questão e possuir igual discernimento é interessante. Tem valido alguns sorrisos a Cavaco. Creio que um dele foi de Vasco Pulido Valente, meu confessado «maître à penser» e ouvi falar de outro (sorriso) de Álvaro Barreto. Estranhei ambos. O problema não é -ou foi - simples: afinal era isso mesmo em que cria o Iluminismo. Não era da discussão que nascia a luz? Era! Que não fosse assim, podiam pretendê-lo os românticos, os marxistas, os... mas acabados os "ismos" de oitocentos e os seus sucessores de novecentos, não está por aí a aspiração a "novos iluminismos"?

Isto tudo por ter visto o "debate". No fim senti-me feliz por não ir votar em ninguém...

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Before the ice is in the pools,
Before the skaters go,
Or any cheek at nightfall
Is tarnished by the snow,
Before the fields have finished,
Before the Christmas tree,
Wonder upon wonder
Will arrive to me!

Emily Dickinson

sábado, dezembro 17, 2005

Entre leituras diversas, televisão, preguiça e cogitações passei a noite de ontem em claro. A noite esteve muito fria e, quando amanheceu, o azul e rosa gélidos magníficos e quase insuportáveis. Fechei as janelas e adormeci, enfim.
Das leituras fez parte o "A year in the merde" de Stephen Clarke suficientemente divertido para ocupar parte de uma noite sem sono. De igual modo, não dei por mal empregue o mail em que agradeci - desnecessariamante, aliás - o envio do último livro de Judt que encomendei: continha expressões tais como "Dears Ladies", Merry Christmas" e outro salamaleques politicamente incorrectos, em quantidade suficiente para estragar o weekend à "Hi there! Ann".

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Vi ontem uma entrevista com o Dr. Paulo Pedroso. Verifiquei, com alguma satisfação, que continuo a simpatizar pouco com ele e, por isso, posso atribuir a minha convicção de sempre sobre a sua completa inocência apenas a alguma sensatez e espírito lógico.
O Dr. Paulo Pedroso quer pedir contas e uma indemnização a quem tão grotescamente o prendeu. Isso são direitos do Dr. Paulo Pedroso e apenas espero que se faça pagar bem e que alguém seja responsabilizado (eu sei que não será, mas fica bem pôr aqui, dá ideia de um país do 1º mundo). Mas, o Dr. Paulo Pedros foi preso quando era deputado. O Dr. Paulo Pedroso é um político. O Dr. Paulo Pedroso deve ter ouvido e lido as declarações, entre outras, do Dr. Pires de Lima, anterior Bastonário da Ordem dos Advogados, que classificava o actual código de processo penal como digno de um país do 5º mundo. O Dr. Paulo Pedroso tem o dever, porque sentiu na pele, e correndo embora o risco de ser tomado apenas como vingativo, de contribuir para que tal diploma seja revogado o mais depressa possível.
Isso é um dever do dr. Paulo Pedroso agora que sabe, como afirmou , o que é estar tranquilamente em casa e ver-se, de repente, em pleno processo de Kafka. É obrigação dele, é seu dever, lutar para que isso não aconteça a outrém.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Cheguei uma vez, já não sei por quais portas e travessas, a um blog - bom - onde se falava de começos de livros e não se falava deste, o meu preferido.
É assim:

"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me."

Herman Melville, "Moby Dick"

terça-feira, dezembro 13, 2005



Isto é Balthus, não sei como se chama a tela. O quadro podia pertencer a um livro de horas, ilustrar as tarefas da tarde, os cuidados com o fogão. Lá fora a tarde é branca (é fosca/branca a luz que entra pela janela). Aqui, as tardes deste Dezembro não são assim.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Mas depois do chá - frugal e rápido - não voltei a pegar no livro do Amis. Ouvi o trio para piano, violino e violoncelo de Schubert, opus 100, e que primeiro ouvi quando fui ver o Barry Lyndon num dia que, lembro-me bem, foi feliz. Nessa altura anotava numa agenda idas ao cinema, exames, horas de estudo, façanhas de bar, saídas nocturnas, factos e boas intenções. Se encontrar essa agenda, de um castanho feio, poderei saber com exactidão de que dia se tratou, o que não é trabalho demasiado quando o assunto é a felicidade.

domingo, dezembro 11, 2005

Há qualquer coisa na prosa de Martin Amis que me irrita. Ainda não percebi bem o quê. Talvez o algum tom détaché que, mais que são pudor, é uma espécie de puritanismo que nos é estranho - ou, pelo menos, me é estranho. Continuarei em investigações after tea.

sábado, dezembro 10, 2005

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Os papéis de Cioran iam ser vendidos hoje em leilão, impedido "in extremis" por uma ordem judicial.
Alguém dizia que Cioran era um filosofo da adolescência. É fácil entender que tanto absoluto brilhantismo em prosa de tão alta qualidade mace qualquer um dado às maturidades de serviço, dos que guindam à genialidade segundo o roteiro...

De um dos cadernos que seriam hoje leiloados: "Kandinsky soutenait que le jaune est la couleur de la vie. C'est bien possible et, dans ce cas, on comprend mieux pourquoi cette couleur fait si mal aux yeux."