terça-feira, janeiro 31, 2006

Ler posts de "vpv", melhor ainda, com o tempo começar a lê-los de viés, a correr, desatentamente, eis um inesperado luxo.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Registo: por esquecimento o aquecimento da casa de jantar não foi ligado e usar os talheres revelou-se uma tarefa de alguma penosidade.

domingo, janeiro 29, 2006

Dei uma passeata curta pelos blogs e num ápice vi-me no meio de discussões azedadas, acusações, recriminações, tudo isto dominado, aqui e ali, por umas indiferenças altaneiras. O quadro é aterrorizador e provocou-me a mesma sensação de confinamento que senti ao ler algumas memórias de há um século atrás.
Parece que aqui também nevou.
O frio continua.

sábado, janeiro 28, 2006

Ontem, lembrei-me várias vezes de Mozart mas não ouvi Mozart e acabei por não vir aqui "postar" sobre Mozart, nem que fosse um mero retrato dele.`
A omissão acaba por ser, a contrario sensu, uma homenagem à mediocridade. No caso presente, à minha.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

O Dr. Sampaio no discurso que proferiu na abertura do ano judicial disse, entre outras coisas, que é «inaceitável que um arguido não seja, desde o primeiro momento, confrontado com os factos de que é acusado,como tem acontecido, à vista de todos, demasiadas vezes»
Muito bem, diz o Impensável, mas porque não alterar de imediato o Código de Processo Penal? O que fez o presidente para que acabasse tal vergonhoso estado de coisas?
Depois, considerando «igualmente inaceitável que lhe não sejam explicitadas as razões efectivas que podem determinar a sua prisão preventiva, para as poder contraditar e sobre elas produzir prova». Aqui há gato escondido com rabo de fora e felpudo. Não compete ao arguido produzir prova... Cabe à acusação. Uhm... E que tal acabar com a prisão preventiva no que ela tem, entre nós, de terceiro mundismo? E, mais uma vez, porque razão esteve calado o Sr. Presidente? Não era de admitir que num país sem tradições de respeito pela dignidade humana, ademais depois de quase 50 anos da ditadura da II república, o código de processo penal, produto de esquerda, fosse interpretado pelos juizes do modo menos favorável para os cidadãos?
Porque não dizer que a prisão preventiva, sem acusação formulada, não existe sequer nas democracias avançadas como é o caso do Reino Unido?
Resolveu falar agora. Podia - e devia - tê-lo feito há muito mais tempo.
Este discurso, por tardio, não lhe faz honra.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Aproveitei a tarde para começar a resolver alguns assuntos desagradáveis. Com surpresa minha, a tarefa em si não demorou nem foi penosa. Tratava-se de começar, apenas.
Já perto das hora de jantar, vi Durão Barroso a debitar palermices sobre a necessidade das nossas "reformas estruturais". Ele finge esquecer-se que tais reformas não foram encetadas por um esquecimento, mas porque exigem sacrifícios à classe média em geral, a que decide eleições e, mais particularmente, àquela parte dela que conta com um lugar à mesa orçamental e dos fundos comunitários. Creio que a coisa só será feita quando, devidamente instruído por quem se fartar de nos pagar este estado de coisas, um qualquer funcionário comunitário pegar pelo bracinho o 1º ministro português da altura (a "coisa" não será para já) e lhe explicar - sem muita subtileza, não vá ele não perceber - o que é necessário fazer. Nessa altura acabarão as discussões estudantis e adolescentes sobre o "nosso rumo", a "nossa posição no mundo", o "nosso destino" que agora alimentam os nossos ócios e começará o tempo rude do 1º emprego.

terça-feira, janeiro 24, 2006

O Procurador-Geral da República disse no Parlamento que o Ministério Públivco poderá conviver com a nova lei-quadro da investigação cirminal. Sem entrar na discussão da bondade da lei conviria que alguém dissesse ao Sr. Procurador-Geral (e aos sindicatos) que, o que mais faltaria seria o Parlamento (ou seja, o Povo Português...) encontrar-se condicionado às opiniões e modos de ver dos senhores funcionários do Ministério Público e seus sindicatos.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Um investigador (de quê?) inglês chegou à conclusão de que hoje é o dia mais deprimente do ano inteiro tendo em conta o tempo decorrido desde o Natal, o recomeço do trabalho, o tempo frio, etc, etc.
Não vejo motivos para duvidar.

domingo, janeiro 22, 2006

Ontem comecei a ler as Memorias da Maria Filomena Mónica que acabei há pouco, já depois de ter ido votar - reservo a minha abstenção monárquica para uma possível 2ª volta. O livro, tendo embora alguns dos defeitos que lhe vi apontados (algumas transcrições dos diários são demasiado longas, por exemplo, e aqui e ali há alguma pose narrativa mais irritante), lê-se bem. Falta sense of humour, talvez, e alguns episódios pitorescos que contentassem o voyeurismo vigente - que não deixa de ter matéria para se alimentar, aliás - mas mesmo como está, lê-se bem, repito, e as reacções exageradas que suscitou parecem-me um pouco provincianas. Dado a autora se ter doutorado numa universidade com prestígio mundial, não será de excluir alguma lusitana inveja como motivadora das indignações mais exaltadas.
Tinha acabado de pousar o livro quando telefonou uma amiga minha em missão de policiamento ortodoxo lembrando-me as malfeitorias a que ficaríamos sujeitos se, com a minhas liberdades poéticas, contribuísse para eleger um mau presidente da república. Desiludida com a minha resposta ("o mal está feito") decidiu que eu fora vítima de más companhias. Ri, desmenti e considerei a opção, das más companhias e minha, muito natural, sendo a dela a desnaturada.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Céu limpo e puro lá fora e aqui, maçadorias burocráticas a que não se consegue ser imune e me acabrunham, deixar que tudo isso se escoe para segunda-feira e agora sair para a tarde.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

A lua minguante é ainda bastante para aquele gato, lá em baixo no jardim, comemorar Janeiro. Adormeci a ouvir o gato, os gatos. É bom poder protestar apenas porque há um gato, gatos, que miam os seus males de amor lá em baixo no jardim. Se hoje se repetir tenciono pôr lá a aparelhagem do ipod com uns blues que lhes digam pois é, rapazes, amar não é fácil, é preciso saber sofrer em silêncio, num silêncio perfeito como os gestos que usam, esses saltos preguiçosos, lentos, que balbuciam o espaço.

terça-feira, janeiro 17, 2006

O Dr. Souto Moura não foi ao parlamento porque teria umas reuniões. O Dr. Souto Moura é um funcionário, presumo que sindicalizado, e os deputados são os representantes do povo português. O Dr. Souto Moura, porém, sabe que tem total imunidade perpétua - e impunidade, de facto, já que a pusilanimidade reina - como se vê, enquanto os deputados têm apenas uma temporária impunidade funcional e a sua situação depende da boa vontade dos bonzos do partiudo. Outra fosse a lei eleitoral, outros seriam os deputados. E sabendo-se eles fortes do apoio dos seus constituintes, outra seria a sua força e ao sr. procurador geral não lhe passaria pela cabeça adiar o dia de prestar contas aos representates do povo português em nome de umas reuniões.
Enfim...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Afinal parece que não vai acontecer mesmo nada.
Aqui não acontece nada, nunca.
É o destino que existe apenas, mas puro, étereo, não chega bem a acontecer-se.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Pelos vistos, parece que ninguém terá sido obrigado a ouvir os telefonemas, apenas registaram. Enfim... poupou-se uma mão cheia de gente a essa tarefa tediosa.
Parece que não se encontra, todavia, despacho de juiz que autorize tal registo. Minudências.
O facto de haver registos de 80 000 horas de telefonemas entre titulares de altos cargos políticos, ou seja, uma prática digna de qualquer perversa ditadura policial, não parece ser motivo para que seja pedida e demissão do procurador geral.
Também acho, era um aborrecimento.
O procurador geral foi chamado a Belém, parece que os telefones privados do presidente da república e de dezenas de outros titulares de órgãos de soberania teriam sido colocados sobre escuta pelo ministério público. Ia indignar-me quando ouvi o Dr. Cluny, que, creio, é presidente de um sindicato de "magistrados do ministério público" dizer que não, não senhor, que é mentira. O espantoso é que sobre estas questões, não laborais, se peça opinião a sindicalistas e que o presidente do sindicato se considere em condições de dizer que é mentira. Como sabe ele que é mentira?
É uma república de mau vaudeville, esta já trintona 3ª República.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Marquês de Fronteira conta, com deleite, nas suas Memórias e para ilustrar o provincianismo de um seu companheiro de viagem, que este se esquivara em Paris a entrar, com ele Marquês, na mesma carruagem, pois decerto logo se saberia da sua chegada juntos e isso poderia prejudicá-lo aos olhos do governo português. Como se fosse em Lisboa em que a chegada de qualquer é notícia, acrescenta o Marquês. E, de facto, consegue fazer-nos sentir o ridículo da situação e o enorme desconhecimento do mundo que era o de muitos portugueses.
De quando em vez lembro-me deste medo cuidadoso do que se pensaria em Lisboa daquela chegada em tal companhia à capital francesa (hoje melhor seria dizer a Londres ou a Nova York; ou a ambas; ou, além destas, também a Paris) quando me deparo com preocupações que com aquela de há 180 anos partilham o descabido.
Aconteceu agora esta lembrança das Memórias de D. José Trazimundo a propósito de Maria Filomena Mónica.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Um blog da Constança Cunha e Sá! Enfim, nem tudo é mau, CCS faz parte das minhas devoções nacionais - devoções de céptico sejam elas - e, também, das mais pessoais: gosto da CCS, tem dégagé e bom ar, coisas que não são, não são, repito, tão encontráveis quanto se possa pensar.
Passa para os meus links e para os meus hábitos de leituras de blogs.
É o que me acontece com o Prof. Cavaco, acho dele isto que Churchill achava já não sei de quem. Há defeitos, vícios estimáveis e qualidades insuportáveis ou perto disso, é verdade.
Há bocado vi as reacções às declarações de Santana Lopes (eu gosto daquele ar de alma sensível, de estóico desengano que ele, Santana, faz; não sendo nada convincente é, por isso, um bom motivo para se ficar divertido, adivinhar quem se comove e comparar com o outro ar, o do Sócrates que se especializou no "tem de ser, tem de ser" dos grandes destinos) e dei por mim a pensar: eu tenho muitos defeitos e poucas qualidades e todos à uma pouco estimáveis, mas o que fiz, apesar disso, para merecer aquela gente televisão dentro?
Volto para Judt e para este começo de constipação a que me dedico quase profissionalmente, desde há dois dias.
«He has all the virtues I dislike and none of the vices I admire»

Sir William Churchill

terça-feira, janeiro 10, 2006

Explico: o meu computador não é andarilho e está num gabinete virado a Norte. O Sol, por seu lado, está a Sul. Ganha o Sol, o azul, a tarde boa.

domingo, janeiro 08, 2006

A preguiça, uma injustificada falta de tempo, outras desculpas habituais que me dispenso de referir têm impedido que agradeça como deveria as referências a este blog.
Hoje começo a corrigir essa falta, agradecendo ao lida insana as referências amáveis.
Sábado dedicado ao "faça-você-mesmo". O faça consistiu em pendurar um espelho - sim, o espelho é pesado e grande. A coisa meteu meditações sobre buchas, diâmetros de brocas, berbequins ( vêm sem instruções de como fazer e as deles mesmos são totalmente irrelevantes para tudo o que ultrapasse o modo de, em caso de avaria, fazer valer os seus direitos em Glasgow), modos de aplicação da modalidade martelo, e de um modo geral sobre todos os assuntos sobre os quais eu deveria ter pedido conselho, se eu pudesse admitir pedir conselho sobre berbequins e tudo o mais, de um modo geral, na secção de bricolage.
Creio, no entanto, que não cheguei a correr perigo de vida e mantive o equilíbrio em cima do escadote e o sangue frio quando a broca (uma magnífica 6mm em aço-crómio) descreveu um vigoroso movimento oscilatório e, diria mesmo, rebelde. Tudo dominado com prontidão, prossegui, sem sobressaltos e a sede da minha preocupação transferiu-se do manejo em si para considerações de segurança: os camarões italianos que acompanhavam os espelho seriam os adequados? Eis o problema. Eu sei que Itália fez a renascença, mas sobre a fase actual, o fim do post II guerra - sim, continuo a ler - tenho as maiores apreensões. Substituí os camarões por outros, mais fortes, mas agora à noite, têm-me assaltado dúvidas sobre as buchas: italianas, elegantes, serão forçosamente escorregadias?
É que se tudo aquilo desaba, além da humilhação e prejuízo imediatos, acrescem sete anos de azar.
Não posso, porém, acrescentar ao orgulho - legítimo, diga-se (e nada disse sobre o processo de medição para centrar, calculos para o local dos camarões, o que tudo tem que se lhe diga) - mas não posso, dizia, acrescentar ao orgulho da missão cumprida, a completa tranquilidade.
Assim é a natureza humana...

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Outra coisa que mudou: dantes ouvia com atenção o Dr. Constâncio. Hoje não tenho paciência para escutar alguém que se atribuiu um ordenado muito superior ao "seu colega" dos USA. Eu sei que ele não é menos competente mas, de um certo modo, é menos credível e a sua voracidade - e de toda aquela gente que o rodeia - parece-me obscena.
Comparado com isto, as desastradas idas do primeiro-ministro para destinos de semi luxo nas férias de Natal, (pagas do seu bolso, aliás), parecem-me apenas o que são: um exemplo de novo-riquismo de mau gosto.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Os pareceres e relatórios do Tribunal de Contas eram, até agora, e para mim, Zé da Esquina, peças fiáveis para aquilatar da conformidade dos procedimentos da administração com a lei. Adivinhava-se uma cultura de rigor e quase se podia desenhar o perfil dos autores desses relatórios, legalistas, exigentes, honestos, daquela gente a quem o não cumprimento das normas, mesmo justificado por aflições substanciais, deveras aflige.
E eram rigosamente apartidários - ou pareciam-no.
Hoje, o Dr. Oliveira Martins deu uma machada nesse imagem que, creio, eu compartilhava com muitos portugueses.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Lembrete: telefonar amanhã à D. Conceição do banco a ver se ela me compra acções da Iberdrola.
E se eu não estropiasse poemas citando-os mal?
"It seemed always afternoon" e não "where it is always afternoon"
O melhor é ler o poema do Tennyson, que encontram aqui.
Levantei-me tarde - encarar a manhã, particularmente estas muito bonitas de Janeiro exige de mim uma disciplina dos sentidos que não está ao meu dispor nesta altura - levantei-me tarde, passei os olhos pelos teletextos com as notícias do dia (a mais interessante é ter cessado em França o estado de emergência. Corrijo: a mais importante é a gente verificar estar um país europeu várias semanas consecutivas em estado de emergência por motivos de ordem pública...) Bem, depois almocei meditando nestas coisas francesas e fui passear, tarde fora. Que beleza de tarde! Lembro-me que Eça parece atribuir à amenidade do clima a nossa incapacidade de perceber o trágico, a nossa opção pelo drama manso. E de facto...
Pobres dias tão bonitos e inocentes das verborreias que inspiram...
Mas todos temos piores momentos, fica o post anterior como exemplo de um deles.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Estes dias de Janeiro, de absoluto azul e frios, principados perfeitos "where it is always afternoon", possuem a contundência salvífica de verdades reveladas.

sábado, dezembro 31, 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Esta noite, um sem abrigo de 22 anos morreu de frio, em Roma. Não foi um acidente, um acaso. Eis um escândalo (eu queria crer que a extrema miséria era do passado, dos filmes neo-realistas e que na Europa da UE, em Itália, não havia gente a morrer de miséria aos vinte e dois anos, que as redes protectoras - públicas ou privadas -estavam lá.
Não estão.
Hoje de manhã recebi o "Postwar - A History of Europe since 1945" do Tony Judt que já estive a ler aos pedacinhos, segundo o meu velho e péssimo hábito. Aconselho, desde logo por desconhecer algo que se aproxime em fôlego ao contido nestas 800 e muitas páginas.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

O regresso do frio é, também, o da dormência. Entre o ar condicionado a sussurrar nos 23º C e a braseira, arrasto um olhar semicerrado para o azul lá de fora. O "homo ludens" de Huizinga há muito que escorregou até ao chão. Readormeço. Eis o meu dia.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Já não sei dizer como, ontem o nome de Margaret Thatcher e a questão do cheque inglês da UE cruzaram-se com umas declarações quaisquer de Cavaco sobre um secretário de estado (mais um...) não sei bem para quê e a reacção de Soares a não sei àquele quê e o PS a bradar por golpes de estado e lembrei-me que Thatcher tirou a Grã-Bretanha das mãos dos sindicatos e mudou a face do país que ao tempo em que tomou posse estava mal e hoje está bem (Blair nada mudou de fundamental do que Thatcher fez, lembrava VPV) e que enquanto isso o nosso país na mesma, essencialmente, isto é, mal. E por cá andavam, enquanto Thatcher talhava a nova Inglaterra, Cavacos e Soares, oh luminárias!, que gostam agora de fingir-se diferentes entre si, não o sendo: entre outras coisas, ambos gostam imensamente de um estado grande e gastador que nós, desgraçados, paguemos e ambos fizeram os possíveis para que isso se mantivesse. Isto são os nossos "estadistas".
Eu sei, dá vontade de chorar, dá vontade de morrer, como Herculano tinha ao contemplar a qualidades dos nossos políticos (melhores do que as actuais, todavia).

terça-feira, dezembro 27, 2005

António Alonso é o nome de um juiz civil espanhol. Creio que não será um magistrado, mas o equivalente ao Conservador do Registo Civil. Discordando da nova lei que permite o casamento entre homossexuais, apresentou a sua demissão para não ter de celebrar um, alegando impossibilidade moral.
Não está em causa agora o "casamento" entre homossexuais, mas o mero facto de alguém apresentar a sua demissão por uma questão moral, por uma questão de princípio moral.
É ali ao lado, em Espanha.

P.S. Sim, ficou mesmo sem emprego. Sim, aconteceu. Sim, aqui nem mortos se demitem. Sim, não há noção do que sejam coisas tais como questões de princípio. Excêntricidade? No lo creo. Em greve? Não, não, isso é cá. Lá demitem-se mesmo por estas coisas. Sim, sim, demissão. Sim? Ah, não, não, não creio que seja uma questão sindical. É mera vergonha na cara, hombredad, dizem; sim , sim, muito atrasada a Espanha. Não, não, o que me espanta é que alguém saiba retirar consequências do choque entre a lei e as suas convicções pessoais e esteja preparado para sofrer por isso, com prejuízo seu. Também concordo, muito excessivo. Sim, é o que eu dizia, o problema é a família, se não fosse a família, as crianças... o problema é a família. Egoísmo? Claro que é egoísmo. Sim? ah, logo vi. Então com certeza tem de seu.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Hoje é dia de Santo Estevão, primeiro mártir do Cristianismo - da nossa civilização ocidental.
Estevão, enquanto o apedrejavam, implorava a Jesus que não considerasse culpados os seus verdugos e neste gesto de responsabilidade, altruísmo e perdão encontramos alguns dos valores que fizeram a nossa civilização e compreendemos a justeza, a facilidade das palavras de Habermas: «Christianity, and nothing else, is the ultimate foundation of liberty, conscience, human rights, and democracy, the benchmarks of Western civilisation» "in" «A Time of Transition»

sábado, dezembro 24, 2005

Em a noite de Natal
Alegram-se os pequenitos;
Pois cabem que o bom Jesus
Costuma dar-lhes bonitos

Vão-se deitar os lindinhos
Mas nem dormem de contentes
E somente às dez horas
Adormecem inocentes

Perguntam logo à criada
Quando acorde de manhã
Se Jesus não lhes deu nada.

-Deu-lhes sim, muitos bonitos.
Queremo-nos já levantar
Respondem os pequenitos

Mário Sá-Carneiro










Noite de Natal

sexta-feira, dezembro 23, 2005

"In the afternoon they came unto a land
In which it seemed always afternoon
."

Ficam os canditados entre Dickinson e Tennyson, já que manda a honestidade que não os faça desaparecer.
O livro em que vi os versos de Tennyson, tinha-o encomendado há um mês e esperava-o só para Fevereiro. Foi uma boa surpresa e foi a minha leitura de final de tarde.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Aquela deselegância de Soares no final do "debate" com Cavaco revelou quanto ele, Soares, deve à "Lisboa em camisa" em que nasceu e pouco ao vasto mundo a que julga pertencer. Aliás, nesse "vasto mundo" vi-o a ser malcriado com uma senhora que, aliás, prontamente o pôs no seu devido lugar de deputado, entre os muitos outros, do Parlamento europeu. Lembre-se quem quiser desse episódio, ilustrativo do prestígio do homem "lá fora"...
Um assunto, porém, deveria ser objecto de algum pedido de esclarecimento: é normal que os chefes de estado de democracias oiçam de políticos estrangeiros considerações que se presumem pouco abonatórias - pelo tom usado - sobre os respectivos primeiros ministros? E, ademais, em alturas de difíceis negociações em que os países dos "mes amis" podiam ter interesses divergentes e mesmo antagónicas da portuguesa?
Eu gostava de saber...

O facto de Cavaco estar convencido de que alguém bem informado sobre um assunto terá de forçosamente chegar a acordo com outrém se este for igualmente elucidado sobre todos os aspectos da questão e possuir igual discernimento é interessante. Tem valido alguns sorrisos a Cavaco. Creio que um dele foi de Vasco Pulido Valente, meu confessado «maître à penser» e ouvi falar de outro (sorriso) de Álvaro Barreto. Estranhei ambos. O problema não é -ou foi - simples: afinal era isso mesmo em que cria o Iluminismo. Não era da discussão que nascia a luz? Era! Que não fosse assim, podiam pretendê-lo os românticos, os marxistas, os... mas acabados os "ismos" de oitocentos e os seus sucessores de novecentos, não está por aí a aspiração a "novos iluminismos"?

Isto tudo por ter visto o "debate". No fim senti-me feliz por não ir votar em ninguém...

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Before the ice is in the pools,
Before the skaters go,
Or any cheek at nightfall
Is tarnished by the snow,
Before the fields have finished,
Before the Christmas tree,
Wonder upon wonder
Will arrive to me!

Emily Dickinson

sábado, dezembro 17, 2005

Entre leituras diversas, televisão, preguiça e cogitações passei a noite de ontem em claro. A noite esteve muito fria e, quando amanheceu, o azul e rosa gélidos magníficos e quase insuportáveis. Fechei as janelas e adormeci, enfim.
Das leituras fez parte o "A year in the merde" de Stephen Clarke suficientemente divertido para ocupar parte de uma noite sem sono. De igual modo, não dei por mal empregue o mail em que agradeci - desnecessariamante, aliás - o envio do último livro de Judt que encomendei: continha expressões tais como "Dears Ladies", Merry Christmas" e outro salamaleques politicamente incorrectos, em quantidade suficiente para estragar o weekend à "Hi there! Ann".

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Vi ontem uma entrevista com o Dr. Paulo Pedroso. Verifiquei, com alguma satisfação, que continuo a simpatizar pouco com ele e, por isso, posso atribuir a minha convicção de sempre sobre a sua completa inocência apenas a alguma sensatez e espírito lógico.
O Dr. Paulo Pedroso quer pedir contas e uma indemnização a quem tão grotescamente o prendeu. Isso são direitos do Dr. Paulo Pedroso e apenas espero que se faça pagar bem e que alguém seja responsabilizado (eu sei que não será, mas fica bem pôr aqui, dá ideia de um país do 1º mundo). Mas, o Dr. Paulo Pedros foi preso quando era deputado. O Dr. Paulo Pedroso é um político. O Dr. Paulo Pedroso deve ter ouvido e lido as declarações, entre outras, do Dr. Pires de Lima, anterior Bastonário da Ordem dos Advogados, que classificava o actual código de processo penal como digno de um país do 5º mundo. O Dr. Paulo Pedroso tem o dever, porque sentiu na pele, e correndo embora o risco de ser tomado apenas como vingativo, de contribuir para que tal diploma seja revogado o mais depressa possível.
Isso é um dever do dr. Paulo Pedroso agora que sabe, como afirmou , o que é estar tranquilamente em casa e ver-se, de repente, em pleno processo de Kafka. É obrigação dele, é seu dever, lutar para que isso não aconteça a outrém.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Cheguei uma vez, já não sei por quais portas e travessas, a um blog - bom - onde se falava de começos de livros e não se falava deste, o meu preferido.
É assim:

"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me."

Herman Melville, "Moby Dick"

terça-feira, dezembro 13, 2005



Isto é Balthus, não sei como se chama a tela. O quadro podia pertencer a um livro de horas, ilustrar as tarefas da tarde, os cuidados com o fogão. Lá fora a tarde é branca (é fosca/branca a luz que entra pela janela). Aqui, as tardes deste Dezembro não são assim.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Mas depois do chá - frugal e rápido - não voltei a pegar no livro do Amis. Ouvi o trio para piano, violino e violoncelo de Schubert, opus 100, e que primeiro ouvi quando fui ver o Barry Lyndon num dia que, lembro-me bem, foi feliz. Nessa altura anotava numa agenda idas ao cinema, exames, horas de estudo, façanhas de bar, saídas nocturnas, factos e boas intenções. Se encontrar essa agenda, de um castanho feio, poderei saber com exactidão de que dia se tratou, o que não é trabalho demasiado quando o assunto é a felicidade.

domingo, dezembro 11, 2005

Há qualquer coisa na prosa de Martin Amis que me irrita. Ainda não percebi bem o quê. Talvez o algum tom détaché que, mais que são pudor, é uma espécie de puritanismo que nos é estranho - ou, pelo menos, me é estranho. Continuarei em investigações after tea.

sábado, dezembro 10, 2005

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Os papéis de Cioran iam ser vendidos hoje em leilão, impedido "in extremis" por uma ordem judicial.
Alguém dizia que Cioran era um filosofo da adolescência. É fácil entender que tanto absoluto brilhantismo em prosa de tão alta qualidade mace qualquer um dado às maturidades de serviço, dos que guindam à genialidade segundo o roteiro...

De um dos cadernos que seriam hoje leiloados: "Kandinsky soutenait que le jaune est la couleur de la vie. C'est bien possible et, dans ce cas, on comprend mieux pourquoi cette couleur fait si mal aux yeux."

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Que dizer?Muito obrigado Charlotte. Grato Impensavel




Instalo-me nesta nitidez de ouro, azul, árvore ao longe que veio da outra estampa velha, veramente, mas dá a estas tardes o seu quê de meditativo e sentimental - estampa inglesa do Raj - e não tenho vindo por aqui, preguiço numa esplanada ínfima, um trejeito de corredor, de um café pequeno. Tudo isto parece implausível, bem sei, mas é lá que tenho estado a resolver a questão da estampa, do sol imóvel que dá sempre nos ramos altos da árvore.

domingo, dezembro 04, 2005

Não me esqueça, também, a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dos poucos políticos que, acredito, teriam feito com que tudo hoje fosse diferente - e para melhor.
Lembro-me de ter vindo de Lisboa nesse dia, da notícia ao jantar, das reacções de incredulidade e desgosto de todos - e desses todos, os muitos que já não existem.
E passaram-se-me os aniversários do nascimento de Eça (25) e o dos setenta anos da morte de Fernando Pessoa (30). Nada abonatório para este blog e para mim, estes esquecimentos.

sábado, dezembro 03, 2005

Ontem decidi dar um passeio higiénico ao fim da tarde. A segunda paragem foi numa das duas livrarias da terra. "Que havia livros novos, aí nessa prateleira ao fundo, ainda estão por arrumar, é ir vendo, se faz favor" e eu vi as "Memórias da Marquesa de Rio Maior" que há anos tencionava ler. Comprei logo e era meu intuito vir para casa lê-las, o que teria feito, não fora entrar num dos poucos cafezinhos e lá encontrar duas amigas. A uma achei-a pálida e disse-lho, atribuindo aquela brancura à mistura de sangues flamengos, inglês e francês e à outra com ar cansado. Em resposta, consideraram que eu, sim, estava pálido e cansativo de secante que me tornara. Decidiram as senhoras que o remedeio das minhas inconveniências não se faria sem um convite de penitência para jantar, que me pareceu adequado e lá fui eu com as duas que, bem dispostas, me desculparam os desconchavos. Chovia quando saímos, levei cada uma a casa, passei pela minha e parti para casa de outros amigos, seroar. Depois de me censurarem não ter levado as senhoras a quem, por distracção "cortara" a noite, lá estive, com alguma indolência. O irmão da dona da casa, bloguista ilustre, analisava a noite de Lisboa, tal como a tinha conhecido há 12 ou 13 anos e com alguma má lingua de permeio, que todos acolitávamos com o entusiasmo que o tédio inspira. A propósito de antiguidades, lembrámos expressões e frases que hoje em dia correm o risco de se tornarem de difícil compreensão, isto a propósito do verdadeiro martírio que para algumas senhoras constituía o destinar (caíram-me no goto as palavras de outros tempos e hoje, logo ao acordar, me senti neurasténico - uma palavra das gerações mais acima aqui em casa - e já aqui não dispensei o "seroar" (creio que vou iniciar um rubrica no blog com palavras e expressões em vias de extinção, mas não me prometo nada, irritado por acabar de me lembrar que a ideia não é nova, teve-a não sei quem em França, uns tempos atrás).
Enfim, passava das 4 quando entrei em casa e me resolvi a dar uma vista de olhos pelas "Memórias", divertidas e inteligentes (uma das fontes para a história do nosso séc. XIX) . Eram oito da manhã quando, finalmente, me deitei.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Há pouco, quando chegava de passar um bocado de noite em casa de amigos, ouvi um crocitar roufenho na árvore do jardim para onde deita a porta da rua. Parei a ouvir e, comigo, um gato que passava. Por um momento, ficámos os três, coruja, gato e eu parados no jardim, gato e eu a olhar para a ramagem escura. Foi a coruja que pôs fim à situação, que era de impasse, lá foi a voar. O gato também seguiu o seu caminho e eu pus a chave à porta, um pouco vexado por ter sido o último.

segunda-feira, novembro 28, 2005

"Autobiography is only to be trusted when it reveals something disgraceful. A man who gives a good account of himself is probably lying, since any life when viewed from the inside is simply a series of defeats."
George Orwell (a propósito do "The Secret Life of Salvador Dali" por aquele mesmo)

sábado, novembro 26, 2005

Ouvia no "Expresso da meia-noite" um senhor defender com unhas e dentes o segredo de justiça, isto a propósito das escutas não irem parar aonde não devem, etc.
Aqueles senhores todos estavam a praticar um jogo muito jogado em Portugal e que consiste em fazer dos outros parvos: a Inglaterra não tem nada que se pareça com segredo de justiça e não é um paraíso de criminosos, bem pelo contrário. Estes senhores são adeptos - como qualquer pessoa - do segredo da e na investigação, mas isso nada tem a ver com segredo de justiça... são coisas diferentes... totalmente diferentes. Enfim...

Por justiça, parece que os senhores juizes querem sentar-se à mesa com o governo e conversar. Os juizes portugueses não leram Tocqueville - não leram mesmo, esse ou outro qualquer grande teórico da democracia - e desconhecem o pensamento anglo-saxónico. Por isso, não entendem que o poder judicial não tem - nem deve ter - poder ou vontade (power or will). Os juizes têm substancialmente razão em muito do que dizem; não podem é querer negociar. Negociar o quê?

O frio e a chuva chegaram.

sexta-feira, novembro 25, 2005

Anda toda a gente muito incomodada com a possível passagem por aeroportos europeus de aviões ao serviço de uma agência governamental norte americana, país aliado.Não percebo tal incómodo. Não é usual que aviões norte-americanos sobrevoem a Europa? Não o fizerem em 1942-45? Não o fizeram a caminho de Berlim aquando do bloqueio da cidade pelos comunistas? Parece que o incómodo vem de tais vôos serem ilegais - embora eu não saiba o motivo concreto por que o são. Mas não eram ilegais, por não haver decisão da ONU, os vôos a caminho da Jugoslávia, para que parasse o genocídio do Kosovo, que a imperícia franco-alemã permitira? Francamente não percebo...

quinta-feira, novembro 24, 2005

Afinal não fui só eu que achei as declarações de Freitas do Amaral sobre a Grã-Bretanha muito, muito fora de propósito.
Aliás, achei-as malcriadas, de uma má criação muito portuguesa, que congrega a boçalidade do ruralismo com a secura de lojista de cidade pequena (e tudo isto é uma cidade pequena...).
E estas coisas, vindas de Freitas do Amaral que confessava um dia a sua admiração pela Grã-Bretanha, pelas instituições inglesas que, salvo erro, dizia mesmo que lá gostaria de viver....
E depois isto, esta regateirice de gente do campo, tão longe da fleuma britânica.
Diz-se, porém, nos altos círculos, que no Foreign Office houve quem tremesse. Valha-nos e a ele, isso, essa tremura perturbada.
Nos últimos tempos, cada vez que vou a Lisboa tenho direito a uma celebridade. Depois de Pacheco e EPC, ontem, no Corte Ingles, restolhou à minha beira, apressada, "não me vejam, não me vejam" a Clara Ferreira Alves. Aparição lesta, o ar decidido, não podia deixar de ser ela mas tudo convidava a que se duvidasse se era mesmo ela. Gostei do efeito e, enquanto palpava disfarçadamente - porque todo eu embasbacava - a consistência da lambswool, senti-me mais perto das grandezas pensantes do mundo e ocorreram-me Proust, Beckett, a round table do Algonquin, toda a Viena de 1900 e alguma Oxford, Paris entre guerras, Bloom e a autora da Bíblia.
Pasmei perante tal sillage.

terça-feira, novembro 22, 2005

Dei-me conta de que me encontrava alguns Harold Bloom atrasado. Resolvi ver o que havia traduzido em francês e consultei a fnac.fr e a alapage.com - passe a publicidade. Em ambas, de Bloom, dois ou três livros.
Há alguns decénios atrás, este facto siginficaria que Bloom era um desconhecido. Hoje quer dizer que o a França se encontra isolada, tal como anunciava o Times no seu célebre título. Resta saber de que é feito esse nevoeiro que cobre hoje a França (Paris) e o Canal da Mancha.

domingo, novembro 20, 2005

Manter-se-à, para quarta-feira, a previsão do vento nordeste, a chegada do frio? Tenho saudades das noites gélidas e nítidas, quero reencontrar esses tempos de arestas finas e fiáveis geometrias.

sexta-feira, novembro 18, 2005

"Take care of the luxuries and the necessities will take care of themselves"
Dorothy Parker

quinta-feira, novembro 17, 2005

Reparei numa nova enchente do Impensavel e vou espreitar o Bomba, já que de há muito que a simpatia charlotteana amiúde provoca invasões neste blog. Mas não, desta vez não era. Acabei por vislumbrar que a corrrente de visitantes se originava d'A Natureza do Mal por um escrúpulo de indicar fontes tão de agradecer quanto, no caso, era dispensável.
Muito obrigado a Luís.
Uma vez, num autocarro, passei por um sítio de tal modo medonho que perguntei como se chamava, o que era. Era Sapadores, e desde aí, lá ponho a morar as pessoas que a minha ignorância instala nos confins do mundo. Lá morava, até hoje à tarde, Nella Maissa, que ouvia na emissora 2 , mas que nunca soube bem quem era. De lá saiu hoje, de Sapadores, única intérprete de Paul Hindemith no único disco dele encontrável na fnac - mas indisponível. Acabei por conseguir encontrar as "nobilissima visione" e foi a ouvi-las que a noite chegou.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Eu sou monárquico, não voto nas presidenciais e não me será difícil manter tal princípio. Pelo contrário, estranho que as pessoas se empenhem seja por Soares, seja por Cavaco, seja por Alegre. Esta estranheza, já muita gente a notou antes de mim e com mais pertinência: a falta de gente, o abandono da coisa pública, a plebeização da 3º república. Fica o Cavaco mais a condizer com a dita, talvez, sem mães a falar inglês, ars poetica, bibliotecas e fundações.

terça-feira, novembro 15, 2005

Um dia quase clandestino, passou sem dar por ele. Um dia nada positivo, também (diria aquela personagem de Thomas Mann): não fiz nada senão meditar, por uns instantes, no atribulado duplo nascimento de Dionisos.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Que injustiça para Nina Simone e que preocupações tão "alliance française"...
O que em Brel é ainda argumento e serenidade apaixonada é em Simone a certeza da pura perda: tudo está decidido, nada há a ganhar senão aquela última declaração de amor, aquela despedida feita de ofertas dilaceradas.
Gosto de ouvir Brel - de quem não gostei durante muito tempo e gosto de ouvir a versão de Simone.

Sobre a pronúncia dos "erres" (e um verbo offrir quase irreconhecível) leia-se, por todos, o que Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre Amália a cantar em inglês.

domingo, novembro 13, 2005

O meu gosto pelo "Ne me quittes pas" de Simone provocou protestos bem humorados aqui.
Sobrevivência de outras épocas, este meu gostar daquela canção, como explicá-lo? E tenho de dizer que, além dos maus "erres", aqueles verbos mal conjugados e cantados também não me incomodam nada? Simone não quer cantar num francês perfeito, mas ser uma americana que canta o "ne me quittes pas". E a súplica está lá, intacta.

sexta-feira, novembro 11, 2005

A menção ao Impensável, a propósito do "ne me quittes pas" de Simone, no Bomba Inteligente, provocou a habitual invasão das hostes charlottianas num tropel perscrutador e diligente. Já se foram embora mas fica a sugestão de papéis no chão e crianças perdidas que perdura por um tempo e me ocupa.

quarta-feira, novembro 09, 2005

My November Guest

My Sorrow, when she’s here with me,
Thinks these dark days of autumn rain
Are beautiful as days can be;
She loves the bare, the withered tree;
She walks the sodden pasture lane.

Her pleasure will not let me stay.
She talks and I am fain to list:
She’s glad the birds are gone away,
She’s glad her simple worsted gray
Is silver now with clinging mist.

The desolate, deserted trees,
The faded earth, the heavy sky,
The beauties she so truly sees,
She thinks I have no eye for these,
And vexes me for reason why.

Not yesterday I learned to know
The love of bare November days
Before the coming of the snow,
But it were vain to tell her so,
And they are better for her praise.

Robert Frost, "A Boy's Will"

segunda-feira, novembro 07, 2005

Antes de me ir deitar, oiço o "Ne me quittes pas" cantado num francês conceptual, muito bonito, aristocrático, distante e afectuoso, por Nina Simone
(conselho amável de irmão mais velho que já me apressei a agradecer por mail).

sexta-feira, novembro 04, 2005

Paris, uma ilusão decrépita rodeada por uma realidade que comunga do sórdido, como bem descreve Clara Ferreira Alves, e da ardência da fricção - passe o trocadilho - com as comunidades estrangeiras que não são já as aristocracia de sangue e das artes e letras mundais, mas gente comum. A França provinciana, xenófoba e, por isso, perigosa, aí está ela...

Por outro lado, há dias, os jornais alemães perguntavam se se viveria numa casa de loucos. A casa de loucos era, pasme-se, a Alemanha.

Perante isto, espero que os USA não tenham mudado a sua política externa e continuem a salvar a Europa, das suas sangrentas idiossincrasias de grande continente civilizado. Estou-me a referir à próxima, à que pode aí vir por um destes decénios.
Então é isto o que nunca seria, este rendilhado opaco e repetitivo? É então assim, isto?... Uhm... não creio que seja isto, isto é a toalha da mesa do lanche.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Eça, queixando-se da falta de gente com quem conversar no seu exílio na província inglesa, refere um dos seus poucos interlocutores, um médico, que considerava não viver em Londres um caso de cobardia moral.
Há pouco abri a correspondência de uma circunspecta lista de discussão onde se falava de problemas nacionais e, tomado por um sentimento intenso de puro asco a "isto tudo", pensei que tinha de sair daqui agora.
Vivo aqui por inércia e cobardia, nestes arrebaldes de Tunis.

sábado, outubro 29, 2005



"All I was doing was trying to get home from work"
Rosa Parks
(m. 24 de Outubro com 92 anos)

sexta-feira, outubro 28, 2005

(...)" a essência do espírito do tempo é precisamente a falta de memória."
Vasco Pulido Valente, público, hoje, a propósito da campanha de Mário Soares
Ontem (foi ontem?) vi na televisão uma notícia sobre os gastos do Rei de Espanha e do Presidente português. Este último recebe mais dinheiro do que Don Juan Carlos I. Já tinha registado na lista de anomalias lusas, ao lado do extravagante ordenado de Constâncio, superior ao de Greenspan, o presidente da Reserva Federal norte-Americana, quando me apercebi que o locutor continuava a falar do facto e entrava em comparações de estilos de vida entre o Rei de Espanha e os presidentes portugueses; falava-se, até, dos preços dos vestidos das Infantas de Espanha! Mas a que propósito? Será comparável a vida do soberano de um grande país europeu ao do presidente de uma republiqueta pobre e atrasada?
Haja noção do ridículo!

quinta-feira, outubro 27, 2005

E veio a chuva. Tinha saudades destes dias, aquosos e translúcidos.
Lembro-me de uma interjeição, entre o queixosa e o entusiasta espantada: "ai, o que chove meu Deus! Ai que Deus a dá", muito do agrado das empregadas. Pergunto-me agora se não seria também um discreto protesto, embora creia que o gosto de sair sobrelevasse aos inconveninentes de uma molha.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Ainda convalescente do artigo do Prof. Medina Carreira na Grande Loja enfrento este quase suão que prenuncia tempestade.
O artigo é para ler, estudar e digerir com muito cuidado.

terça-feira, outubro 25, 2005

Conspirei, cometi indignidades, humilhei-me, mas hoje à tarde o Canalizador cá estava, à hora exacta em que havia predito a sua aparição.
Excedendo-me em lisonjas e bajulações creio ter conseguido que volte daqui a mês e meio. E não menos, que não queria prometer para não faltar. Elogiei a gestão da agenda e, quase de rastos, uriah heepando, acompanhei-o à porta, pedindo desculpa por ir telefonando, a lembrar (embora sabendo que não é preciso, lembrar, bem sei que não é).

segunda-feira, outubro 24, 2005

E esta tarde, hein? E esta tarde? Que tarde divina de Outono!
(Saudades de subir o Chiado, por tardes destas).
Elaboro uma mnemónica da angústia, uma longa lenga-lenga de modos, de disposições que em mim vão sobrevivendo e resistem a qualquer tentativa de alívio, irredutíveis.
Com torradas e um mau chá - e nada mais desmoralizante do que um mau chá.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Quando as andorinhas partiam...

Boca talhada em milagrosas linhas,
A luz aumenta com o seu falar.

Esta manhã, um bando de andorinhas
Ia-se embora, atravessava o mar.

Chegou-lhes às alturas, pela aragem,
Um adeus suave que ela lhes dissera,

- E suspenderam todas a viagem,
Julgando que voltara a Primavera...

É dele, do Augusto Gil e aglomera vários temas candentes: ela, o Outono e a gripe das aves.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Li a notícia de que Cristiano Ronaldo fora detido sob suspeitas de violação e que está a ser interrogado pela Scotland Yard.
O jornalista que redigiu a notícia deve estar habituado à prática portuguesa e ao louvado código de processo penal já que, e convém esclarecer as coisas, em Inglaterra ninguém pode ser detido para interrogatórios. Quando a polícia detém alguém DEVE apresentar a acusação no espaço de poucas horas - longe do espaço de um ano que pode atingir em Portugal...
A polícia inglesa, o ministério público da Grã-Bretanha antes de acusar não pode fazer nada que não tenha o consentimento dos visados.
Por outro lado o juiz que ordena a caução de um acusado nada sabe do caso, ao contrário daqui. O Juíz (pôr letra grande, que a merece) apenas se preocupa em assegurar que aquele súbdito (pois é, não são cidadãos...) compareça na audiência de julgamento.
Perante leis tão estranhas, o Impensável - que espera que o jogador esteja inocente - o Impensável, dizia, pede ao Senhor Presidente da República para protestar energicamente junto da soberana daquele país com leis tão estranhas.

terça-feira, outubro 18, 2005

Suave surpresa que a tarde tenha este modo de há tanto tempo que era o de intróito confiante em lonjuras de tempos a vir, espaços, sítios.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Tenho passado o dia a ouvir disfarçadamente este. Com um arabesque de Débussy de permeio e uma olhadela pelos orientes de Delacroix sinto-me meditativo e árabe.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Não tenho a menor simpatia por Chavez e, por outro lado, tenho motivos para crer que o piloto português estará inocente e, por isso, muito lamento a sua situação.
Dito isto, não assiste a Portugal (nem aos portugueses) qualquer legitimidade para protestos. O código de processo penal venezuelano, produto de um governo conservador é muito mais humano e moderno que o nosso, deixa esta miséria, de que todavia tanta gente se orgulha, a anos-luz em questões de decência.
Quanto aos portugueses manifestantes, bem sei que são amigos do pobre piloto. Mas, em Portugal, ele poderia estar ainda preso sem sequer ter tido ainda conhecimento do motivo - como, durante anos entenderam os tribunais portugueses e os prazos para a prisão preventiva são, no nosso querido país, muitíssimo maiores do que lá.
Os jornalistas e comentadores das televisões pôem um ar indignado pela demora, como se não fossem os mesmo que, em casos recentes nacionais, vieram pregar a necessidade de esperar pelo andamento da justiça e de não interferir, etc., e de serenidade e de...
O embaixador da Venezuela, ao pôr os pontos nos "is" fê-lo em termos cordatos. Podia ter-se permitido ser bem mais vexatório para Portugal. Lembrar aquele diplomata duas que venezulanas estiveram um ano presas preventivamente em Portugal e vieram a ser depois inocentadas - creio que sem direito a qualquer indemnização, é de toda a justiça (não sei se os meus queridos leitores percebem que uma coisa dessas constituiria me qualquer país da europa europeu civilizada um incrível e intolerável escândalo. Aliás, tal situação nem seria possível ou sequer concebível).
Por tudo isto, calemo-nos, moderemos a nossa indignação de país atrasado, onde se coexiste serenamente com uma brutalidade e rudeza atávicas, e lembremo-nos de escrever ao nosso deputado para que o nosso vergonhoso código burocrata-comuna-estatista seja revogado.
Sem muito delonga.

quinta-feira, outubro 13, 2005

O Nobel da literatura foi atribuído a Harold Pinter.
O ilustre dramaturgo, escritor e poeta é, também, um distinto sportsman, chairman do Gaieties Cricket Club.

terça-feira, outubro 11, 2005

Começou a chover de repente; algum vento. As duas rapariguitas abriram os chapéus de chuva enquanto gritavam uma para a outra: -"É o tufão! É o tufão!"
E desataram a correr, quase convencidas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Creio que estou a sofrer de uma forma grave de amolecimento cerebral.
De notar:
1º Veio a chuva mas o calor continua.
2º Há uma mosca cá em casa que se passeia ao redor da minha atormentada cabeça.
3º Ontem, foi por um triz que não votei BE para a Junta de Freguesia.
Ontem, num sonho, uma grande damme perguntava a um seu convidado pelo destino de um amigo comum e, com ironia e algum desdém, adiantava julgá-lo "no caminho frugal da pobreza" (sic!!!), por culpa dele pressuposta. Quando acordei, eu que no sonho era um espectador desinteressado da conversa, pasmei do pedantismo do dito, da petulância, da falta de gosto e tanto que, depois do almoço pensei telefonar à autora inocente a defender o amigo ausente...
Mas era só um sonho! - ri com a minha distracção até me lembrar do velho dito de Freud: "num sonho somos todos os personagens".
Fiquei de péssimo humor todo o dia.

terça-feira, outubro 04, 2005