quinta-feira, dezembro 22, 2005

Aquela deselegância de Soares no final do "debate" com Cavaco revelou quanto ele, Soares, deve à "Lisboa em camisa" em que nasceu e pouco ao vasto mundo a que julga pertencer. Aliás, nesse "vasto mundo" vi-o a ser malcriado com uma senhora que, aliás, prontamente o pôs no seu devido lugar de deputado, entre os muitos outros, do Parlamento europeu. Lembre-se quem quiser desse episódio, ilustrativo do prestígio do homem "lá fora"...
Um assunto, porém, deveria ser objecto de algum pedido de esclarecimento: é normal que os chefes de estado de democracias oiçam de políticos estrangeiros considerações que se presumem pouco abonatórias - pelo tom usado - sobre os respectivos primeiros ministros? E, ademais, em alturas de difíceis negociações em que os países dos "mes amis" podiam ter interesses divergentes e mesmo antagónicas da portuguesa?
Eu gostava de saber...

O facto de Cavaco estar convencido de que alguém bem informado sobre um assunto terá de forçosamente chegar a acordo com outrém se este for igualmente elucidado sobre todos os aspectos da questão e possuir igual discernimento é interessante. Tem valido alguns sorrisos a Cavaco. Creio que um dele foi de Vasco Pulido Valente, meu confessado «maître à penser» e ouvi falar de outro (sorriso) de Álvaro Barreto. Estranhei ambos. O problema não é -ou foi - simples: afinal era isso mesmo em que cria o Iluminismo. Não era da discussão que nascia a luz? Era! Que não fosse assim, podiam pretendê-lo os românticos, os marxistas, os... mas acabados os "ismos" de oitocentos e os seus sucessores de novecentos, não está por aí a aspiração a "novos iluminismos"?

Isto tudo por ter visto o "debate". No fim senti-me feliz por não ir votar em ninguém...

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Before the ice is in the pools,
Before the skaters go,
Or any cheek at nightfall
Is tarnished by the snow,
Before the fields have finished,
Before the Christmas tree,
Wonder upon wonder
Will arrive to me!

Emily Dickinson

sábado, dezembro 17, 2005

Entre leituras diversas, televisão, preguiça e cogitações passei a noite de ontem em claro. A noite esteve muito fria e, quando amanheceu, o azul e rosa gélidos magníficos e quase insuportáveis. Fechei as janelas e adormeci, enfim.
Das leituras fez parte o "A year in the merde" de Stephen Clarke suficientemente divertido para ocupar parte de uma noite sem sono. De igual modo, não dei por mal empregue o mail em que agradeci - desnecessariamante, aliás - o envio do último livro de Judt que encomendei: continha expressões tais como "Dears Ladies", Merry Christmas" e outro salamaleques politicamente incorrectos, em quantidade suficiente para estragar o weekend à "Hi there! Ann".

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Vi ontem uma entrevista com o Dr. Paulo Pedroso. Verifiquei, com alguma satisfação, que continuo a simpatizar pouco com ele e, por isso, posso atribuir a minha convicção de sempre sobre a sua completa inocência apenas a alguma sensatez e espírito lógico.
O Dr. Paulo Pedroso quer pedir contas e uma indemnização a quem tão grotescamente o prendeu. Isso são direitos do Dr. Paulo Pedroso e apenas espero que se faça pagar bem e que alguém seja responsabilizado (eu sei que não será, mas fica bem pôr aqui, dá ideia de um país do 1º mundo). Mas, o Dr. Paulo Pedros foi preso quando era deputado. O Dr. Paulo Pedroso é um político. O Dr. Paulo Pedroso deve ter ouvido e lido as declarações, entre outras, do Dr. Pires de Lima, anterior Bastonário da Ordem dos Advogados, que classificava o actual código de processo penal como digno de um país do 5º mundo. O Dr. Paulo Pedroso tem o dever, porque sentiu na pele, e correndo embora o risco de ser tomado apenas como vingativo, de contribuir para que tal diploma seja revogado o mais depressa possível.
Isso é um dever do dr. Paulo Pedroso agora que sabe, como afirmou , o que é estar tranquilamente em casa e ver-se, de repente, em pleno processo de Kafka. É obrigação dele, é seu dever, lutar para que isso não aconteça a outrém.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Cheguei uma vez, já não sei por quais portas e travessas, a um blog - bom - onde se falava de começos de livros e não se falava deste, o meu preferido.
É assim:

"Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people's hats off - then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me."

Herman Melville, "Moby Dick"

terça-feira, dezembro 13, 2005



Isto é Balthus, não sei como se chama a tela. O quadro podia pertencer a um livro de horas, ilustrar as tarefas da tarde, os cuidados com o fogão. Lá fora a tarde é branca (é fosca/branca a luz que entra pela janela). Aqui, as tardes deste Dezembro não são assim.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Mas depois do chá - frugal e rápido - não voltei a pegar no livro do Amis. Ouvi o trio para piano, violino e violoncelo de Schubert, opus 100, e que primeiro ouvi quando fui ver o Barry Lyndon num dia que, lembro-me bem, foi feliz. Nessa altura anotava numa agenda idas ao cinema, exames, horas de estudo, façanhas de bar, saídas nocturnas, factos e boas intenções. Se encontrar essa agenda, de um castanho feio, poderei saber com exactidão de que dia se tratou, o que não é trabalho demasiado quando o assunto é a felicidade.

domingo, dezembro 11, 2005

Há qualquer coisa na prosa de Martin Amis que me irrita. Ainda não percebi bem o quê. Talvez o algum tom détaché que, mais que são pudor, é uma espécie de puritanismo que nos é estranho - ou, pelo menos, me é estranho. Continuarei em investigações after tea.

sábado, dezembro 10, 2005

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Os papéis de Cioran iam ser vendidos hoje em leilão, impedido "in extremis" por uma ordem judicial.
Alguém dizia que Cioran era um filosofo da adolescência. É fácil entender que tanto absoluto brilhantismo em prosa de tão alta qualidade mace qualquer um dado às maturidades de serviço, dos que guindam à genialidade segundo o roteiro...

De um dos cadernos que seriam hoje leiloados: "Kandinsky soutenait que le jaune est la couleur de la vie. C'est bien possible et, dans ce cas, on comprend mieux pourquoi cette couleur fait si mal aux yeux."

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Que dizer?Muito obrigado Charlotte. Grato Impensavel




Instalo-me nesta nitidez de ouro, azul, árvore ao longe que veio da outra estampa velha, veramente, mas dá a estas tardes o seu quê de meditativo e sentimental - estampa inglesa do Raj - e não tenho vindo por aqui, preguiço numa esplanada ínfima, um trejeito de corredor, de um café pequeno. Tudo isto parece implausível, bem sei, mas é lá que tenho estado a resolver a questão da estampa, do sol imóvel que dá sempre nos ramos altos da árvore.

domingo, dezembro 04, 2005

Não me esqueça, também, a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dos poucos políticos que, acredito, teriam feito com que tudo hoje fosse diferente - e para melhor.
Lembro-me de ter vindo de Lisboa nesse dia, da notícia ao jantar, das reacções de incredulidade e desgosto de todos - e desses todos, os muitos que já não existem.
E passaram-se-me os aniversários do nascimento de Eça (25) e o dos setenta anos da morte de Fernando Pessoa (30). Nada abonatório para este blog e para mim, estes esquecimentos.

sábado, dezembro 03, 2005

Ontem decidi dar um passeio higiénico ao fim da tarde. A segunda paragem foi numa das duas livrarias da terra. "Que havia livros novos, aí nessa prateleira ao fundo, ainda estão por arrumar, é ir vendo, se faz favor" e eu vi as "Memórias da Marquesa de Rio Maior" que há anos tencionava ler. Comprei logo e era meu intuito vir para casa lê-las, o que teria feito, não fora entrar num dos poucos cafezinhos e lá encontrar duas amigas. A uma achei-a pálida e disse-lho, atribuindo aquela brancura à mistura de sangues flamengos, inglês e francês e à outra com ar cansado. Em resposta, consideraram que eu, sim, estava pálido e cansativo de secante que me tornara. Decidiram as senhoras que o remedeio das minhas inconveniências não se faria sem um convite de penitência para jantar, que me pareceu adequado e lá fui eu com as duas que, bem dispostas, me desculparam os desconchavos. Chovia quando saímos, levei cada uma a casa, passei pela minha e parti para casa de outros amigos, seroar. Depois de me censurarem não ter levado as senhoras a quem, por distracção "cortara" a noite, lá estive, com alguma indolência. O irmão da dona da casa, bloguista ilustre, analisava a noite de Lisboa, tal como a tinha conhecido há 12 ou 13 anos e com alguma má lingua de permeio, que todos acolitávamos com o entusiasmo que o tédio inspira. A propósito de antiguidades, lembrámos expressões e frases que hoje em dia correm o risco de se tornarem de difícil compreensão, isto a propósito do verdadeiro martírio que para algumas senhoras constituía o destinar (caíram-me no goto as palavras de outros tempos e hoje, logo ao acordar, me senti neurasténico - uma palavra das gerações mais acima aqui em casa - e já aqui não dispensei o "seroar" (creio que vou iniciar um rubrica no blog com palavras e expressões em vias de extinção, mas não me prometo nada, irritado por acabar de me lembrar que a ideia não é nova, teve-a não sei quem em França, uns tempos atrás).
Enfim, passava das 4 quando entrei em casa e me resolvi a dar uma vista de olhos pelas "Memórias", divertidas e inteligentes (uma das fontes para a história do nosso séc. XIX) . Eram oito da manhã quando, finalmente, me deitei.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Há pouco, quando chegava de passar um bocado de noite em casa de amigos, ouvi um crocitar roufenho na árvore do jardim para onde deita a porta da rua. Parei a ouvir e, comigo, um gato que passava. Por um momento, ficámos os três, coruja, gato e eu parados no jardim, gato e eu a olhar para a ramagem escura. Foi a coruja que pôs fim à situação, que era de impasse, lá foi a voar. O gato também seguiu o seu caminho e eu pus a chave à porta, um pouco vexado por ter sido o último.

segunda-feira, novembro 28, 2005

"Autobiography is only to be trusted when it reveals something disgraceful. A man who gives a good account of himself is probably lying, since any life when viewed from the inside is simply a series of defeats."
George Orwell (a propósito do "The Secret Life of Salvador Dali" por aquele mesmo)

sábado, novembro 26, 2005

Ouvia no "Expresso da meia-noite" um senhor defender com unhas e dentes o segredo de justiça, isto a propósito das escutas não irem parar aonde não devem, etc.
Aqueles senhores todos estavam a praticar um jogo muito jogado em Portugal e que consiste em fazer dos outros parvos: a Inglaterra não tem nada que se pareça com segredo de justiça e não é um paraíso de criminosos, bem pelo contrário. Estes senhores são adeptos - como qualquer pessoa - do segredo da e na investigação, mas isso nada tem a ver com segredo de justiça... são coisas diferentes... totalmente diferentes. Enfim...

Por justiça, parece que os senhores juizes querem sentar-se à mesa com o governo e conversar. Os juizes portugueses não leram Tocqueville - não leram mesmo, esse ou outro qualquer grande teórico da democracia - e desconhecem o pensamento anglo-saxónico. Por isso, não entendem que o poder judicial não tem - nem deve ter - poder ou vontade (power or will). Os juizes têm substancialmente razão em muito do que dizem; não podem é querer negociar. Negociar o quê?

O frio e a chuva chegaram.