Os papéis de Cioran iam ser vendidos hoje em leilão, impedido "in extremis" por uma ordem judicial.
Alguém dizia que Cioran era um filosofo da adolescência. É fácil entender que tanto absoluto brilhantismo em prosa de tão alta qualidade mace qualquer um dado às maturidades de serviço, dos que guindam à genialidade segundo o roteiro...
De um dos cadernos que seriam hoje leiloados: "Kandinsky soutenait que le jaune est la couleur de la vie. C'est bien possible et, dans ce cas, on comprend mieux pourquoi cette couleur fait si mal aux yeux."
sexta-feira, dezembro 09, 2005
quinta-feira, dezembro 08, 2005
Instalo-me nesta nitidez de ouro, azul, árvore ao longe que veio da outra estampa velha, veramente, mas dá a estas tardes o seu quê de meditativo e sentimental - estampa inglesa do Raj - e não tenho vindo por aqui, preguiço numa esplanada ínfima, um trejeito de corredor, de um café pequeno. Tudo isto parece implausível, bem sei, mas é lá que tenho estado a resolver a questão da estampa, do sol imóvel que dá sempre nos ramos altos da árvore.
domingo, dezembro 04, 2005
Não me esqueça, também, a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, dos poucos políticos que, acredito, teriam feito com que tudo hoje fosse diferente - e para melhor.
Lembro-me de ter vindo de Lisboa nesse dia, da notícia ao jantar, das reacções de incredulidade e desgosto de todos - e desses todos, os muitos que já não existem.
Lembro-me de ter vindo de Lisboa nesse dia, da notícia ao jantar, das reacções de incredulidade e desgosto de todos - e desses todos, os muitos que já não existem.
sábado, dezembro 03, 2005
Ontem decidi dar um passeio higiénico ao fim da tarde. A segunda paragem foi numa das duas livrarias da terra. "Que havia livros novos, aí nessa prateleira ao fundo, ainda estão por arrumar, é ir vendo, se faz favor" e eu vi as "Memórias da Marquesa de Rio Maior" que há anos tencionava ler. Comprei logo e era meu intuito vir para casa lê-las, o que teria feito, não fora entrar num dos poucos cafezinhos e lá encontrar duas amigas. A uma achei-a pálida e disse-lho, atribuindo aquela brancura à mistura de sangues flamengos, inglês e francês e à outra com ar cansado. Em resposta, consideraram que eu, sim, estava pálido e cansativo de secante que me tornara. Decidiram as senhoras que o remedeio das minhas inconveniências não se faria sem um convite de penitência para jantar, que me pareceu adequado e lá fui eu com as duas que, bem dispostas, me desculparam os desconchavos. Chovia quando saímos, levei cada uma a casa, passei pela minha e parti para casa de outros amigos, seroar. Depois de me censurarem não ter levado as senhoras a quem, por distracção "cortara" a noite, lá estive, com alguma indolência. O irmão da dona da casa, bloguista ilustre, analisava a noite de Lisboa, tal como a tinha conhecido há 12 ou 13 anos e com alguma má lingua de permeio, que todos acolitávamos com o entusiasmo que o tédio inspira. A propósito de antiguidades, lembrámos expressões e frases que hoje em dia correm o risco de se tornarem de difícil compreensão, isto a propósito do verdadeiro martírio que para algumas senhoras constituía o destinar (caíram-me no goto as palavras de outros tempos e hoje, logo ao acordar, me senti neurasténico - uma palavra das gerações mais acima aqui em casa - e já aqui não dispensei o "seroar" (creio que vou iniciar um rubrica no blog com palavras e expressões em vias de extinção, mas não me prometo nada, irritado por acabar de me lembrar que a ideia não é nova, teve-a não sei quem em França, uns tempos atrás).
Enfim, passava das 4 quando entrei em casa e me resolvi a dar uma vista de olhos pelas "Memórias", divertidas e inteligentes (uma das fontes para a história do nosso séc. XIX) . Eram oito da manhã quando, finalmente, me deitei.
Enfim, passava das 4 quando entrei em casa e me resolvi a dar uma vista de olhos pelas "Memórias", divertidas e inteligentes (uma das fontes para a história do nosso séc. XIX) . Eram oito da manhã quando, finalmente, me deitei.
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Há pouco, quando chegava de passar um bocado de noite em casa de amigos, ouvi um crocitar roufenho na árvore do jardim para onde deita a porta da rua. Parei a ouvir e, comigo, um gato que passava. Por um momento, ficámos os três, coruja, gato e eu parados no jardim, gato e eu a olhar para a ramagem escura. Foi a coruja que pôs fim à situação, que era de impasse, lá foi a voar. O gato também seguiu o seu caminho e eu pus a chave à porta, um pouco vexado por ter sido o último.
segunda-feira, novembro 28, 2005
sábado, novembro 26, 2005
Ouvia no "Expresso da meia-noite" um senhor defender com unhas e dentes o segredo de justiça, isto a propósito das escutas não irem parar aonde não devem, etc.
Aqueles senhores todos estavam a praticar um jogo muito jogado em Portugal e que consiste em fazer dos outros parvos: a Inglaterra não tem nada que se pareça com segredo de justiça e não é um paraíso de criminosos, bem pelo contrário. Estes senhores são adeptos - como qualquer pessoa - do segredo da e na investigação, mas isso nada tem a ver com segredo de justiça... são coisas diferentes... totalmente diferentes. Enfim...
Por justiça, parece que os senhores juizes querem sentar-se à mesa com o governo e conversar. Os juizes portugueses não leram Tocqueville - não leram mesmo, esse ou outro qualquer grande teórico da democracia - e desconhecem o pensamento anglo-saxónico. Por isso, não entendem que o poder judicial não tem - nem deve ter - poder ou vontade (power or will). Os juizes têm substancialmente razão em muito do que dizem; não podem é querer negociar. Negociar o quê?
O frio e a chuva chegaram.
Aqueles senhores todos estavam a praticar um jogo muito jogado em Portugal e que consiste em fazer dos outros parvos: a Inglaterra não tem nada que se pareça com segredo de justiça e não é um paraíso de criminosos, bem pelo contrário. Estes senhores são adeptos - como qualquer pessoa - do segredo da e na investigação, mas isso nada tem a ver com segredo de justiça... são coisas diferentes... totalmente diferentes. Enfim...
Por justiça, parece que os senhores juizes querem sentar-se à mesa com o governo e conversar. Os juizes portugueses não leram Tocqueville - não leram mesmo, esse ou outro qualquer grande teórico da democracia - e desconhecem o pensamento anglo-saxónico. Por isso, não entendem que o poder judicial não tem - nem deve ter - poder ou vontade (power or will). Os juizes têm substancialmente razão em muito do que dizem; não podem é querer negociar. Negociar o quê?
O frio e a chuva chegaram.
sexta-feira, novembro 25, 2005
Anda toda a gente muito incomodada com a possível passagem por aeroportos europeus de aviões ao serviço de uma agência governamental norte americana, país aliado.Não percebo tal incómodo. Não é usual que aviões norte-americanos sobrevoem a Europa? Não o fizerem em 1942-45? Não o fizeram a caminho de Berlim aquando do bloqueio da cidade pelos comunistas? Parece que o incómodo vem de tais vôos serem ilegais - embora eu não saiba o motivo concreto por que o são. Mas não eram ilegais, por não haver decisão da ONU, os vôos a caminho da Jugoslávia, para que parasse o genocídio do Kosovo, que a imperícia franco-alemã permitira? Francamente não percebo...
quinta-feira, novembro 24, 2005
Afinal não fui só eu que achei as declarações de Freitas do Amaral sobre a Grã-Bretanha muito, muito fora de propósito.
Aliás, achei-as malcriadas, de uma má criação muito portuguesa, que congrega a boçalidade do ruralismo com a secura de lojista de cidade pequena (e tudo isto é uma cidade pequena...).
E estas coisas, vindas de Freitas do Amaral que confessava um dia a sua admiração pela Grã-Bretanha, pelas instituições inglesas que, salvo erro, dizia mesmo que lá gostaria de viver....
E depois isto, esta regateirice de gente do campo, tão longe da fleuma britânica.
Diz-se, porém, nos altos círculos, que no Foreign Office houve quem tremesse. Valha-nos e a ele, isso, essa tremura perturbada.
Aliás, achei-as malcriadas, de uma má criação muito portuguesa, que congrega a boçalidade do ruralismo com a secura de lojista de cidade pequena (e tudo isto é uma cidade pequena...).
E estas coisas, vindas de Freitas do Amaral que confessava um dia a sua admiração pela Grã-Bretanha, pelas instituições inglesas que, salvo erro, dizia mesmo que lá gostaria de viver....
E depois isto, esta regateirice de gente do campo, tão longe da fleuma britânica.
Diz-se, porém, nos altos círculos, que no Foreign Office houve quem tremesse. Valha-nos e a ele, isso, essa tremura perturbada.
Nos últimos tempos, cada vez que vou a Lisboa tenho direito a uma celebridade. Depois de Pacheco e EPC, ontem, no Corte Ingles, restolhou à minha beira, apressada, "não me vejam, não me vejam" a Clara Ferreira Alves. Aparição lesta, o ar decidido, não podia deixar de ser ela mas tudo convidava a que se duvidasse se era mesmo ela. Gostei do efeito e, enquanto palpava disfarçadamente - porque todo eu embasbacava - a consistência da lambswool, senti-me mais perto das grandezas pensantes do mundo e ocorreram-me Proust, Beckett, a round table do Algonquin, toda a Viena de 1900 e alguma Oxford, Paris entre guerras, Bloom e a autora da Bíblia.
Pasmei perante tal sillage.
Pasmei perante tal sillage.
terça-feira, novembro 22, 2005
Dei-me conta de que me encontrava alguns Harold Bloom atrasado. Resolvi ver o que havia traduzido em francês e consultei a fnac.fr e a alapage.com - passe a publicidade. Em ambas, de Bloom, dois ou três livros.
Há alguns decénios atrás, este facto siginficaria que Bloom era um desconhecido. Hoje quer dizer que o a França se encontra isolada, tal como anunciava o Times no seu célebre título. Resta saber de que é feito esse nevoeiro que cobre hoje a França (Paris) e o Canal da Mancha.
Há alguns decénios atrás, este facto siginficaria que Bloom era um desconhecido. Hoje quer dizer que o a França se encontra isolada, tal como anunciava o Times no seu célebre título. Resta saber de que é feito esse nevoeiro que cobre hoje a França (Paris) e o Canal da Mancha.
segunda-feira, novembro 21, 2005
domingo, novembro 20, 2005
sexta-feira, novembro 18, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
Reparei numa nova enchente do Impensavel e vou espreitar o Bomba, já que de há muito que a simpatia charlotteana amiúde provoca invasões neste blog. Mas não, desta vez não era. Acabei por vislumbrar que a corrrente de visitantes se originava d'A Natureza do Mal por um escrúpulo de indicar fontes tão de agradecer quanto, no caso, era dispensável.
Muito obrigado a Luís.
Muito obrigado a Luís.
Uma vez, num autocarro, passei por um sítio de tal modo medonho que perguntei como se chamava, o que era. Era Sapadores, e desde aí, lá ponho a morar as pessoas que a minha ignorância instala nos confins do mundo. Lá morava, até hoje à tarde, Nella Maissa, que ouvia na emissora 2 , mas que nunca soube bem quem era. De lá saiu hoje, de Sapadores, única intérprete de Paul Hindemith no único disco dele encontrável na fnac - mas indisponível. Acabei por conseguir encontrar as "nobilissima visione" e foi a ouvi-las que a noite chegou.
quarta-feira, novembro 16, 2005
Eu sou monárquico, não voto nas presidenciais e não me será difícil manter tal princípio. Pelo contrário, estranho que as pessoas se empenhem seja por Soares, seja por Cavaco, seja por Alegre. Esta estranheza, já muita gente a notou antes de mim e com mais pertinência: a falta de gente, o abandono da coisa pública, a plebeização da 3º república. Fica o Cavaco mais a condizer com a dita, talvez, sem mães a falar inglês, ars poetica, bibliotecas e fundações.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

