segunda-feira, agosto 29, 2005

Voltei ontem. Péssimo humor. Deveria ter respeitado a decisão, tomada o ano passado, de não voltar a passar quase um mês num sítio de que gosto mas que me maça e seca ao terceiro dia em quantidades e qualidades que não imaginava possíveis.
Aprender e remoer esta lição, eis a minha única boa intenção da "rentrée", a minha única ocupação do Setembro que aí vem. De todo ele.

domingo, agosto 07, 2005


Regates, Monet.

Logo esperam-me as actividades das vésperas das idas: fazer malas, ter tudo pronto, a vontade de ir acondicionada em papel de seda e metida numa velha gentlemen's hat box, para usar amanhã, segunda-feira.

sábado, agosto 06, 2005

Notícias da uma. Emigração para o Reino Unido e Irlanda. Custa-me a crer: nenhum dos dois países tem códigos de trabalho que se comparem com o nosso na defesa dos direitos dos trabalhadores. Será que os emigrantes estão informados? E em Inglaterra, então, vítima das medidas de Thatcher (e que Blair não revogou)?! Alguém os avise!

sexta-feira, agosto 05, 2005

Se me ocorresse mandar certificar-me como produto fumado - o que, todavia, não farei - mereceria sê-lo quanto o merece legitimamente o salmão ou o arenque. Fumado e indignado, numa indignação sem nome, engolfado numa névoa escura e malcheirosa que foi, até há poucas horas, verde seiva e sombra fresca, espero por melhores dias.

Este governo prossegue, afincadamente, a incapacidade e incompetência dos outros no que respeita aos incêndios e bem fez o primeiro-ministro em sair para o Quénia, para gozar férias.

P.S. Acabo de ler que "António Costa classificou de «extrema gravidade» a actual situação dos fogos em Portugal Continental". Registo a afirmação e a atitude dos aindas primeiro-ministro e presidente da república.
De um passeio à beira mar: refém, poderoso Neptuno? Se refém, sofre de um caso severo de síndrome de Estocolmo, já que me parece inseparável e cúmplice dos seus supostos raptores.
De resto, partilho da opinião.

quinta-feira, agosto 04, 2005

35º C
Processo de cafrealização quase terminado, estou perto da pensée sauvage
(daqui a pouco devem começar a tornar-se inteligíveis alguns aspectos mais curiosos da vida nacional).

segunda-feira, agosto 01, 2005

Efeméride: as viagens para a praia, anos a fio, neste dia. Quando de combóio, mudança em Alfarelos.
A citação de Emerson no Impensavel faíscou aqui e relembrou-nos aquela magnífica passagem de Bloom.
Eu lembrei-me do Emerson - que por estes lados portugueses se lê pouco -através de uma das cartas de Proust, que era um admirador dele.
Os portugueses estão pessimistas quanto à sua situação económica e outro inquérito revela que julgam justificado esse pessimismo.Creio, de facto, que o keynesianismo da trolha já não enstusiasma ninguém e que as "grandes obras" não apenas não suscitam a adesão ingénua de outros tempos quanto é cada vez maior o número daqueles que, por razões várias, as questionam. Entretanto, neste país deprimido, pessimista e abatido, cheio de desempregados sem esperança, o Primeiro-Ministro resolveu ir passear três semanas para o Quénia.
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.

Alberto Caeiro

domingo, julho 31, 2005

Creio que já tinha falado de Churchill e da sua opção de resistir e lutar.
Hoje interrogar-nos-iamos ainda sobre os perigos dessa luta: podia-se lutar contra o nazismo mantendo-se a democracia? A opção pela guerra representava quantas mortes em ataques alemães que uma negociação evitaria? E etc, etc.

O interessante - embora dado habitual - é que os mais preocupados com a democracia e a sua preservação foram, geralmente, partidários activos das ditaduras do leste europeu , defenderam tais regimes e consideravam-nos, até, "avanços" em direcção ao futuro.
E pensam que a gente não tem memória.
O après-dîner acabou, saíram agora, e passei por "aqui" a caminho da cama.
Da leitura de interrogações - e doutas, algumas - sobre o comportamento da polícia londrina fica-me cada vez mais a sensação de que a certeza (agora pacifica - e rectrospectiva) de Churchill sobre a atitude a tomar por alturas da 2ª Guerra Mundial seria hoje uma incerta, rude, primária e atoleimada certeza de gente inculta, conflituosa e bulhenta. Tudo, mas tudo, menos a óbvia única coisa a fazer que hoje nos parece ter sido.
(Não era, no entanto, a "única" coisa a fazer, podiam ter capitulado, ou negociado com os nazis e os seus então aliados comunistas.)

sexta-feira, julho 29, 2005

Quase a bonança: partiram os barulhos, tudo está quase pronto e no silêncio das coisas já feitas.
Mas, "para depois das férias" ficaram algumas pequenas coisas para fazer que, estou quase certo, se transformarão, a seu tempo, em pequeninos entraves desagradáveis.

quinta-feira, julho 28, 2005

Martelos pneumáticos por todo o lado. Serve de consolo o estar fresco e a esperança de que o pior já tenha passado (frase audaz, já que ainda há pouco furaram inadvertidamente um tubo e uma pequena cascata cor de ferrugem escorreu pela parede acabada de pintar).

segunda-feira, julho 25, 2005

Seca extrema e incêndios.
Hoje, o céu está nublado, talvez chova um pouco. Num telejornal, entrevista com a proprietária de um café de praia, sobre os prejuízos cuasados pelo "mau" tempo. Noutro lado, era com optimismo que se prometiam melhorias, isto é, o regresso da seca e da canícula.
Que fazer desta gente apalermada que redige notícias? Que consistência de mau sorvete a daqueles cérebros!
Com gentalha assim não admira que o Dr. Soares seja a novidade da season.
O comissário espanhol Almunia fala da possibilidade de um processo de pobreza acelerada em Portugal. Depois da apreensão inicial, quase se simpatiza com a ideia, tanto mais que a pobreza purificada no crisol da perda faz ainda parte das nossas alquimias salvíficas que, ao contrário do resto do mundo, se não apoiam em felicidades e fins felizes por medo de tudo isso ser uma estafante coisa. A paralisia da miséria ancilosou-nos, moldou-nos o esqueleto à miséria e, por isso, tudo o resto nos dói.

domingo, julho 24, 2005

Domingo nublado. Choverá? Há dois meses que não cai uma gota de água.
Neura finis patrie a propósito do 24 de Julho e dias seguintes

sábado, julho 23, 2005

Ainda à volta da nova lei do arrendamento.
Cada vez mais será uma lei "fútil", já que grande parte dos actuais inquilinos são pessoas de idade. A gente mais nova foi empurrada para a compra de casa, com recurso a crédito. Políticas de habitação pouco terão a ver com a lei do arrendamento: a política de habitação está nas mãos dos bancos, do mercado e da crua lei das obrigações: quando as prestações deixarem de ser cumpridas, executa-se a hipoteca e... rua.
As famílias portuguesas estão sobreendividadas e os juros estão em mínimos históricos. Ou seja, se agora já há muitas situações de incumprimento dos empréstimos mais haverá quando os juros subirem, como não deixará de acontecer.
Nessa altura, talvez estejam reunidas as condições para que o governo se resolva a defrontar-se com a realidade e pense, então, numa lei do arrendamento a sério.
Ah!, parece que vão tentar obrigar arrendamento compulsivo, ou criar dificuldades a quem não queria gerir os seus bens de acordo com a vontade governamental. É muito desta gente.

Vou voltar para o meu sábado.

sexta-feira, julho 22, 2005

O governo sobrante resolveu dar largas ao kitsch das boas intenções na nova lei do arrendamento preparando-se para prover a todas as precisões dos inquilinos (mesmo as daqueles que têm confortáveis rendimentos e pagam algumas rendas-esmolas de poucas dezenas de euros por apartamentos imensos no centro de Lisboa). Ouvia isto enquanto à minha frente deparava com a notícia de que os leilões dos apartamentos executados pelos bancos aos proprietários por falta de pagamento eram uma boa oportunidade de comprar casa não muito cara. Os antigos donos, se ninguém os acolher, ficam na rua e a lei não os contempla com qualquer boa intenção legislativo-subsidiária. São apenas pobres e sem casa e estarão contemplados na rubrica "desemprego", realidade com que a gente que passa as tardes departamentais a brincar às legislações não sabe lidar.

O governo restante também está muito preocupado com a fuga de capitais. Diga-se, o que a notícia omitia, fuga ilícita de capitais ao fisco. Mas todos nós, nunca é demais dizê-lo, podemos fazer circular os nossos capitais, gordos ou magros sejam eles, através da compra de fundos internacionais, em bancos portugueses ou estrangeiros. Em todo o caso, longe das mãos desta gente (parece-me boa ideia).

quinta-feira, julho 21, 2005

quarta-feira, julho 20, 2005

Não fizeram nada, salvo algum helicóptero que tenham comprado ou outra bugiganga qualquer, não fizeram nada, sequer as medidas fáceis, populistas e populares de pôr o exército a patrulhar matas e pinhais. Nada! Depois é isto, esta tristeza desoladora e árida, esta ardente certidão de incompetência.

E eu, que podia estar nalgum lugar civilizado e fresco estou aqui, sei lá se "a ver". Como "eles" não faço nada. Mas o meu desejo absurdo de sofrer não afecta mais ninguém. É um fraco consolo, bem sei.

terça-feira, julho 19, 2005

O ser este blog oficialmente errático nestes tempos de calor e férias, não quer dizer que seja escasso.
No silêncio da tarde quente* lia as "Novelas do Minho" de Camilo e achei que devia deixar anotado no blog esta leitura, que me quero lembrar dela depois.

* os calores dos Junhos e Julhos dos meus tempos de criança eram silenciosos, calmos, no sossego das janelas semircerradas detinham-se as coisas todas naquelas horas.
Em férias, sem compromissos, os do blog incluídos.

sábado, julho 16, 2005

Brahma

If the red slayer think he slays,
Or if the slain think he is slain,
They know not well the subtle ways
I keep, and pass, and turn again.

Far or forgot to me is near;
Shadow and sunlight are the same;
The vanished gods to me appear;
And one to me are shame and fame.

They reckon ill who leave me out;
When me they fly, I am the wings;
I am the doubter and the doubt,
And I the hymn the Brahmin sings.

The strong gods pine for my abode,
And pine in vain the sacred Seven;
But thou, meek lover of the good!
Fine me and turn thy back on heaven.

Ralph Waldo Emerson

quarta-feira, julho 13, 2005

Muito opinativo, este blog. Calor e opiniões são coisas que juntas vão mal. Vou refrescar.
O Instituto da Inteligência diz, segundo o que ouvi num telejornal, que o jeito para a matematica depende de factores cognitivos e de personalidade que são geneticamente determinados. Será. Conviria que se soubesse se os resultados do antigo 5º ano do liceu eram semelhantes aos do actual 9º ano. É que, ou eram e caso resolvido, os portugueses são burros, ou não eram e, nesse caso querem fazer de nós estúpidos.
Em afirmações deste jaez o que me parece existir é uma ligeireza terceiro-mundista e um abuso da nossa paciência muito condenáveis.

P.S. Ponho de lado a hipótese de uma mutação genética.

terça-feira, julho 12, 2005

70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática
70% das criancinhas chumbam a matemática

segunda-feira, julho 11, 2005

Desde as oito da manhã que vivo entre betume, massa, ladrilhos. Nas dúvidas, chamam-me para ir decidir. As decisões têm custos mas, como me lembrou o empreiteiro, "não há gosto sem desgosto" e o que é preciso é o "sr. dr. olhar e gostar" que depois se farão "os ajustes" - de preço, claro está. Atordoado pelo barulho, calor e obras, convenho, tristonho. Tal qual o país.

domingo, julho 10, 2005

Eis um sítio que há anos congemino visitar, por me parecer muito agradável para umas férias. Por pura inércia e preguiça tenho adiado essa visita e uma possivel alteração dos meus hábitos de férias (outra vez aquela praia délabré pela falta de gosto e ganância onde me aborreço até à vertigem barbitúrica).
Caloraça impossível, lá fora. O ar condicionado torna o dia suportável, mas espero que a temperatura baixe, que este ano seja normal, que acabe esta enfiada de verões excepcionalmente quentes.

Os britânicos comemoram o 60º aniversário do fim da II Guerra Mundial. Parece-me que, aqueles, ao menos aqueles, continuam vigilantes e com pouca vontade de soçobrar perante as dificuldades ou os esquecimentos ingénuos e catastróficos de que falava ontem Vasco Pulido Valente.

sexta-feira, julho 08, 2005

Hoje, uma "calma resoluta" - Spectator - reinava em Londres.
O contraste com o tom ofegante e histérico e quase desapontado da repórter portuguesa era confrangedor. O lugar daqueles "jornalistas" não é em Londres, é entre a gritaria da populaça, as correrias ao acaso e os palavrões das "forças da ordem" que se ouvem em qualquer reportagem de desgraças nacionais, nos incêncios que ninguém consegue parar ou em crimes diversos.
É isto tipo de coisas que me maça: a Al-Qaeda consegue vexar-me em minha casa.

quinta-feira, julho 07, 2005

Os atentados de hoje em Londres não fazem caducar a pergunta feita no Spectator e que aqui se trancreveu ontem. A preocupação que a motiva, a da liberdade, faz parte dos grandes valores da Europa que se tornaram universais e as acções cobardes desta manhã em nada modificarão tal.
Espero que os responsáveis sejam julgados e o facto de que terão um julgamento justo, com latos meio de defesa, é a resposta serena e esmagadora que a Grã-Bretanha e a democracia darão a todos fanáticos.

quarta-feira, julho 06, 2005

As perguntas que em Portugal não se põem, nunca se puseram e que desespero algum dia se venham a pôr e se pense sobre elas:

"And then, as the mother of all considerations, there is this: why should someone in this free country, and who is not apparently committing a crime, be forced to prove his or her identity? Too many forget that ID cards would alter the whole balance of the largely unwritten (and largely unwriteable) contract between the individual and the state."
Peter Oborne, The Spectator

Creio que em Portugal se pode ser presidente da republica ou juiz do supremo ou deputado ou... sem ter sido jamais atormentado por esta e outras perguntinhas pequenas.
Entre Londres e Paris não havia hesitação possível, hurrah por Londres, a cosmopolita, a tolerante Londres, a sensata Londres, a heróica Londres, a elegante e alegre Londres.

Em Paris a decepção foi grande. - Animem-se rapazes! Ó, pst, era mais uma rodada de lacan com gelo para aqueles senhores, pago eu, em nome dos velhos tempos.
Que sono a esta hora, quase humilhante para um noctívago!
De qualquer modo é apenas para explicar que me lembrei de Ruskin por ser ele um dos destinatários de Proust, que foi tradutor dele em francês. Nunca consegui obter essa tradução e, por isso, as minhas leituras de Ruskin são lacunares. E faz-me muita falta ler Ruskin a sério, por causa de umas "coisas" do Eça.
Será que tomo um cafezinho fraco?

terça-feira, julho 05, 2005



John Ruskin, A Courtyard at Abbeyville

Diz Ruskin desta sua fotografia : "in 1858 (by my own setting of the camera), in the courtyard of one of the prettiest yet remaining fragments of fifteenth-century domestic buildings in Abbeyville. The natural vine leaves consent in grace and glow with the life of the old wood carving; and thought the modern white procelain image ill replaces the revoluition-deposed Madonna, and only pedestals of saints, and canopies, are left on the propping beams of the gateway - and though the casque, and cooper's tools, and gardener's spade and ladder are little in accord in what was once stately in the gate and graceful in the winding stair - the declining shadows of the past mingle with the hardship of the present day in no unkindly sadness; and the little angle of courtyard, if tenderly painted in the depression of its fate, has enough still to occupy as much of our best thought as maybe modestly claimed for his picture by any master not of the highest order."
A gente não pode estar a par de tudo, juvenil afã, mas convenho em que me senti vexado por só agora ter sabido da publicação de uma recolha de "Lettres" de Proust, pela Plon.

segunda-feira, julho 04, 2005

Tempo magnífico (23ºC, vento noroeste). O FTSE sobe, o euro desce, boas notícias. Ao invés, as economias da França e da Alemanha não "descolam", o desemprego continua, o que, como dizia alguém, não se deverá a qualquer desregulamentação...

Tenho muitas saudades do mar, não da praia ou de "ir de férias" mas do mar em si, da água glauca. Água glauca, assim mesmo.

Ontem estive a ver fotografias. Actividade muito de evitar nesta crise de meia idade. Que seres eram aqueles que me antecederam? Como me tornei seu sucessor se não consigo engendrar qualquer plausível solução de continuidade -ou sequer de contiguidade?

sábado, julho 02, 2005

Noutros tempos por esta altura já a casa estava fechada, os movéis cobertos de panos brancos tudo pronto para suportar as grandes calmas do Verão e eu na praia entregue à construção de castelos de areia, consumo de sorvetes na Cassata, ali na esplanada, idas ao jardim e corridas de triciclo nas matinées infantis.O regresso aqui era só para fins de Setembro poucos dias antes da escola começar e quando já se ansiava por aulas (sic).

sexta-feira, julho 01, 2005

Creio que não me estou a esquecer de nenhuma regra de boa educação (nem das numerosas excepções aos princípios gerais) e que o dono da casa que venha à porta receber uma visita lhe deve dar a precedência na entrada.
É o que não faz Blair com Barroso: Blair vem à porta recebê-lo, cumprimenta-o para as câmaras dos fotógrafos e volta a entrar, deixando na rua um triste e embaraçado Barroso.
Eu não simpatizo por aí além com Blair (embora seja o menos mau que há por essa Europa), mas rio com gosto da cara de Barroso (a situação não é inédita).
Claro está que Barroso, tratado abaixo de cão, deveria simplesmente manter-se na rua e não entrar sem que o seu anfitrião caísse em si, voltasse a sair, e lhe desse a precedência devida na entrada do 10, Downing Street. Eu sei que isto é um "minus" mas é revelador sobre ambos.

quinta-feira, junho 30, 2005

Estava-me a lembrar, a propósito do deficit, que já houve quem, no passado, se tivesse preocupado com o assunto. Em Agosto de 1867 criou-se uma comissão para "melhorar as condições economicas do paiz e extinguir ou atenuar o deficit do orçamento do Estado". Deve estar lá tudo, nas actas, é só ir ler.

quarta-feira, junho 29, 2005

A lei do BI passou no Parlamento na Grã-Bretanha, por escassa margem (votos contra dos conservadores e, honra lhes seja feita, de muitos tabalhistas). Mas, infelizmente, passou.

Enquanto em nome de preocupações securitárias aprovava o BI, Albion iniciava as comemorações dos 200 anos da vitória na Batalha de Trafalgar (21 de Outubro de 1805) que, entre outras, teve como consequência impedir a França de se tornar numa grande potência mundial.
O maior navio que participa nas comemorações é, todavia, francês: a grandiloquência da impotência.
Intraduzível é a discussão que se trava na Grã-Bretanha sobre o bilhete de identidade - documento que por lá não existe (ocorre pensar como viverão...) e o governo de Blair quer introduzir. Dizem os que se opõem à proposta que o BI constitui uma intolerável intromissão do governo, do estado, na privacidade de cada um. Como se traduz isto para português, para Portugal?

terça-feira, junho 28, 2005

Sand Dunes

Sea waves are green and wet,
But up from where they die,
Rise others vaster yet,And those are brown and dry.
They are the sea made land
To come at the fisher town,
And bury in solid sand
The men she could not drown.
She may know cove and cape,
But she does not know mankind
If by any change of shape,
She hopes to cut off mind.
Men left her a ship to sink:
They can leave her a hut as well;
And be but more free to think
For the one more cast-off shell.

Robert Frost

segunda-feira, junho 27, 2005

"Nunca se é demasiado velho para se ser insultado"

Agatha Christie
(de quem continuo a ler a autobiografia).

sexta-feira, junho 24, 2005

Por conselho daqui fui parar aqui que, creio, não conhecia (parabéns, a propósito). E lá, encontrei excertos de Beckford o que me fez lembrar do meu exemplar, desaparecido há eras. Por isso, o apelo fica aqui: a quem souber onde está o meu exemplar do "Diário" do Beckford: agradeço que comova o possuidor no sentido de mo devolver (que frase!).

quinta-feira, junho 23, 2005

Começa a soprar um vento franco, de noroeste. Abro as janelas.
O Anarconservador estranha que o Bach não refresque: não, caro JAC, não refresca nem é levinho, ou "cool". Nem de almas plácidas é refrigério, antes desassossega e inquieta intentos de beatitudes: a nostalgia da morte dizia Cioran ouvir em Bach.
Para calor desusado e legítimo alívio dele tente por aqui, embora o caminho não seja isento de escolhos.

quarta-feira, junho 22, 2005

Sentado à sombra e pela fresca assisto ao escandaloso e piegas paternalismo do Dr. Sampaio que adverte os ingénuos sobre os "embustes" dos empréstimos bancários. O arrepio de frio provocado por aquelas prelecções uso-o para poupar no ar condicionado.
É um dia por conta do 3º mundo.
Com este calor (mais de 25ºC a esta hora da noite, não bole uma folha, o que é isto?), com este calor, fico em casa.

terça-feira, junho 21, 2005

Primeiro dia de Verão, férias grandes mentais.
Entre leituras para adormecer perguntava-me esta madrugada sobre o destino que teriam levado as pessoas agradáveis, meramente agradáveis, sem outros atributos, e que são muito raras nos dias de hoje.

segunda-feira, junho 20, 2005

A verdade é esta: não está um calor sufocante e terrível, mas já está suficientemente quente para continuar aqui a ouvir falar de coisas secantes, rodeado de rotina gasta e baça.
O melhor é estar já em férias, erigir em gesso uma presença discreta, meio-sorriso solícito para não ofender ninguém, nenhuns dos que gostam ou precisam destes tempos, mas não estar já aqui a sério.


Manet, Sainte Adresse

domingo, junho 19, 2005

Requerimento
Exmo. Senhor Embaixador do Paquistão em Portugal
Impensado, cidadão da república portuguesa, tendo necessidade de, na próxima terça-feira, dia 21 de Junho, passar, pelas 16 horas, nas imediações do Martim Moniz, solicita a V. Exia. o informe se corre risco e, em caso afirmativo, lhe forneça o respectivo salvo-conduto.
Li há pouco, no Expresso, que funcionários de Belém terão contactado o Embaixador de Cabo Verde em Portugal para saberem se o Dr. Sampaio correria risco na sua visita à Cova da Moura.
Ou a notícia é desmentida, ou não. Não o sendo, deve haver demissões de funcionários do Palácio de Belém, ou, tendo o presidente em funções tido conhecimento de tais diligências e nelas consentido, deve o Dr. Sampaio pedir a sua demissão e desculpas formais ao país.
A mim, a coisa parece-me simples e linear.

sexta-feira, junho 17, 2005

18% de humidade, 37,8º C, sinto-me mergulhado numa má receita de bacalhau.
Daqui a algumas - poucas - horas entram casa dentro os pedreiros para abrirem os roços da instalação eléctrica necessária para suportar todas as loucuras a que aquiesci num momento de delírio, visão beatífica e esbanjamento. Pior de que tudo, tendo sido o acesso de prodigalidade temperado depois por grande cópia de pequenos arrependimentos, ficarei com os inconvenientes das meias medidas e, para sempre, afastado pela pequenez sensata de carácter, do luxo sóbrio, espesso e suave de que, por um momento, me julguei merecedor. Restarão bugigangas e escombros a atravancar-me todos os dias as manhãs.

quinta-feira, junho 16, 2005

O vento, ao cair da tarde, começa a soprar de Noroeste e arrefece o suficiente para não se ter medos de noites mal dormidas.
Continuo a ler, depois das seis, o "Grain and Chaff from an English Manor". Conseguirei obter o livro em papel? Detesto ler "on line".

quarta-feira, junho 15, 2005

E já agora (está mais quente, hoje, e mais seco), já agora um exemplo da célebre perfídia britânica: "What we can say objectively, however, is that the eurozone is now trailing far behind Britain and the US in terms of growth, and has roughly double our level of unemployment. If the best that can be claimed is that without the single currency the Continent would have been even deeper in the mire, that is not much of a commendation."
O Reino Unido não quer aumentar a sua contribuição para o orçamento europeu dando como razão que grande parte da despesa da UE advém dos subsídios concedidos à agricultura francesa. É verdade. Pensei no porquê disso e a resposta leva-nos à última revolução relevante dos últimos 10 000 anos, a revolução indústrial, que se deu em Inglaterra e daí foi exportada com maior ou menor êxito para o continente europeu. Em 1970, apenas 2,7% (+-) da população do Reino Unido se ocupava na agricultura enquanto em 1969, Pompidou falava da necessidade de modernizar e industrializar uma França que era, em muitas regiões e áreas, ainda rural. A diferença ter-se-à atenuado, mas mantêm-se. Creio que muito do que é a "filosofia francesa", as "denúncias" da sociedade moderna, enquanto geradora de "perversidades" de "simulacros de realidade" tem ainda alguma coisa do medo, da desconfiança camponesa por um mundo novo.

terça-feira, junho 14, 2005

Confirma-se: calor tremendo, saharico. Estarei de controlo remoto do AC em riste.

Nota: ah, a bondade disto, do poder estar aqui a escrever inanidades, a Liberdade das coisas pequenas sem o esvoaçar de desígnios.
O céu esteve escuro, pensei que chovia, mas foi breu de pouca dura. Ficou o cinza e o fresco, mas a seco. Tenho saudades de chuva e por ter encontrado um responso a Santa Bárbara coligido por Jaime Cortesão, lembrei-me das trovoadas que por esta altura atroavam montes e charnecas. Mais saudades.
Fica o responso.

"Santa Bárbara se alevantou,
Se vestiu e se calçou,
Suas santas mãos lavou,
E o caminho do Céu andou.
Lá no meio do caminho
A Jesus Cristo encontrou:
— Para onde vais, Bárbara?
— Eu não vou nem quero ir,
Mas ao Céu quero subir.
Vou arramar aquela trovoada
Que lá anda armada.
Arrama-a bem arramada
Lá pra serra do Marão,
No alto serro maninho,
Onde não há vinho nem pão,
Nem bafo de menino,
Nem berrar de cordeirinho:
Só há uma serpente
Com vinte e cinco filhas,
Que lhes dá água de trovão
E leite de maldição. Amém!"

sábado, junho 11, 2005

Não devem os republicanos e gauchistes limitarem-se a lutar pela completa laicização da nossa república apenas em relação a actos exteriores de culto das igrejas reconhecidas. Há escaninhos, comissuras, fendas do comportamento humano e dos actos dos poderes públicos onde o fenómeno religioso se acoita ou pode acoitar. A boa fé, por exemplo, a bona fides dos romanos, que por aí anda nos códigos civis, tem origem religiosa. Há que lutar pela sua completa erradicação do direito vigente (e da prática do estado): como muito bem dizia esse grande estadista, António Guterres, numa frase que é já património da cultural mundial "a moral repúblicana é a lei" e esta não pode ser permeável ao mundo obscuro e primevo das religiões. Vamos lá a lutar por esse nobre objectivo (a não ser... a não ser que isso já esteja feito, que a luta seja já inútil).
Parece que o Dr. Sampaio também acumula o salário de presidente da república com a pensãozinha da Ordem dos Advogados. Eu, que defendo que deveria estar sempre salvaguardada, por uma questão de decência e prestígio do país, a situação financeira dos antigos presidentes e primeiros-ministros -não fossemos encontrar um deles a vender a Cais - acho que não ficaria nada mal aos presidentes da república prescidirem de outros proventos de origem profissional enquanto exercessem aquele cargo. Mas tenho de compreender que somos pobres - e cada vez mais - e o dinheirito dá jeito, a vida está cara, e nunca se sabe o futuro, que essa é que é essa, e cautelas e caldos de galinha...
Vi há pouco uma reportagem do Trooping the Colour a cerimónia com que se comemora o aniversário dos soberanos britânicos e relembrei os dois ou três minutos que vi do 10 de Junho mas que chegaram para me aperceber do ar pífio daquilo tudo, desde o local das "cerimonias" à organização e às gentes. Corei de vergonha da comparação com a cerimónia britânica, confesso. Já Eça falava do ar lúgubre das festas republicanas francesas. Não conheceu ele as da república portuguesa*....

* Seria interessante ver qual seria a opinião de Eça sobre a república portuguesa... Mas Eça morreu 10 anos antes da proclamação daquela e a única relação entre Eça e a república é "oblíqua": sobre pretexto dos filhos de Eça não serem afectos ao regime, foi retirada a pensão concedida pelo Parlamento do tempo da monarquia à viúva do Escritor, Dona Emília de Castro. Uma medida republicana e muito a condizer com a natureza do regime de 1910.
Lido na homepage do sapo: "Meios não são suficientes para resolver tumultos em Carcavelos" Título enganador! Qual tumultos, qual quê: não se trata de agitação política ou de protesto! São roubos e agressões físicas perpetrados por hordas organizadas de rapazio delinquente sobre os frequentadores da praia, às portas de Lisboa. A técnica foi importada do Rio de Janeiro onde é praticada amiúde e tem nome próprio: arrastão. Enquanto isto, o Senhor Presidente da Republica laica distribuía comendas de antigas ordens religiosas feudais aos cidadãos de sucesso.
Nestes podia incluir os tumultuantes, que começam, desde tenra idade, a revelar forte sentido organizativo, capacidade de acção e a firme determinação tão raros entre nós.
Está mais fresca, hoje, a noite. Agradável.

sexta-feira, junho 10, 2005

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nua hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ua hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões, no seu dia.

quinta-feira, junho 09, 2005

Prossegue a invasão, barulheira, poeirada, e a vozearia, uma vozearia sussurada que respeitos atávicos inspiram.
Terei o limiar de tolerância muito baixo, já que dou graças veementes e sinceras por amanhã ser feriado e, podendo os trabalho serem interrompidos sem dano, do que já me assegurei, informei o empreiteiro que agora, só na quarta-feira que vem. Até lá, conto restabelecer-me.
Ficarei por aqui a apreciar o silêncio, se Deus quiser.

quarta-feira, junho 08, 2005

Um pouco piegas, convenho, o post de há bocado. Cabe a todos, a pieguice, tal como o fundo do poço.
Detesto calor. Madrugada e manhã agitadas, com uma petite innondation. A casa foi tomada por uma horda de canalizadores e pedreiros. Refugiei-me numa sala e de lá faço pequenas saídas para soletrar algumas palavras de incentivo que, penso, se devem dizer nestas ocasiões: "então, está díficil?", e uns tímidos e meditativos "muito bem, muito bem". A minha empregada? Não sabem ainda se será possível evitar dois dias sem água - fria, da quente já fui desapossado. Valha o calor para alguma coisa. No ar, pela janela - voltada a Norte - que tenho semiaberta chega o aroma de pimentos assados. Será para acompanhar sardinhas? Lembro-me que a minha cozinha está quase desfeita, vou almoçar fora? A minha empregada? Detesto calor. Sexta-feira tenho empregada? Não sei se ela vem, há feriados que ela despreza, outros, quase desconhecidos, que preza, nunca sei. Insulta jocosamente os pedreiros e canalizadores, mero jogo, "ai o que vocês fizeram, que sujam tudo, então isto era preciso?" Ou não ouve a resposta ou se empenha em escutar uma explicação técnica. Acaba é por não se interessar suficientemente pelo meu bem-estar, não vem aqui dizer-me se posso almoçar em casa, não queria sair, detesto calor, sei que pretextará que não me ouviu chamar. Há gente que vive dentro de obras, anos a fio, amigos meus, creio que são dependentes da poeira e do movimento. Que tudo isto acaba por distrair, este movimento de gente e coisas.

terça-feira, junho 07, 2005

Para jantar esta noite
De manhã cedo já eu estava à espera. Há muito tempo que o não via, tinha-lhe falado ao telefone, anos atrás, mas tinha sido impossível um encontro. Passeava no jardim em frente, para atenuar o desgaste da espera quando percebi que era ele que estava a meu lado. Abatido, mas já convalescente da fractura, mantinha o ar pensativo e optimista de sempre. Cumprimentou-me afavelmente, mas percebi que se guardava para o estudo da situação. Conduzi-o, e ao assistente que o acompanhava, para dentro da casa. Lembrava-se ainda de tudo e, sem esforço nem auxílio, chegou lá. Perguntou-me o que tinha eu escolhido, lamentou o sistema, que considerou de mau, por pouco flexível, deu algumas imperceptíveis instruções ao assistente, que as anotou, e dirigiu-se ao outro lado da casa, onde a cena se repetiu "Isto amanhã não pode estar aqui" disse-me, no final, em ar de despedida. Foi assim que fiquei a saber que aceitara. Pensei, levado pelo entusiasmo, solicitar-lhe o número do telemóvel, mas não tive coragem. O assistente voltou mais tarde, está a preparar as coisas e amanhã estará ele aqui, às oito em ponto. Pelo que pude compreender, são três dias. Três dias que porão fim a anos de preocupações e desgostos.Oiço, agora, o martelar, ali ao lado, e regozijo-me enquanto o meu cérebro zune.
Amanhã começará a mudar-se a canalização cá de casa.
Vai fechar a Byblos... não sei se foi a primeira livraria portuguesa na internet mas foi nela que comprei os meus primeiros livros em português on line.
Foi a crise, dizem os responsavéis num mail simpatico e triste em que anunciam o fim da livraria.
Tenho pena e saudades - já, mesmo que ainda faça uma última encomenda.

segunda-feira, junho 06, 2005

E ia-me esquecendo...
Faz hoje anos que se deu a ofensiva orquestrada pelo complexo militar-industrial capitalista anglo-saxónico contra o status quo franco-alemão.
D- day. Milhares de soldados norte-americanos, britânicos e dos domínios do Imperio Britânico, do Canadá à Nova Zelândia deram as suas vidas, há 61 anos nas praias da Normandia.
A ler "Now for the British revolution" de Anthony Browne na Spectator (conteúdo de acesso grátis).
Aviso: pode ser considerado insuportavelmente inglês (mas prefiro o insuportável inglês ao insuportavelmente francês).
Dei por encerrado, por medo de ser apodado de miserabilista. A questão do miserabilismo português é que, ao lado do que tão justamente criticado enquanto atitude da classe média, há miséria real, gente a viver miseravelmente com meia dúzia de tostões. E ao lado dessa, muita mais a viver muito mal nesta "terra museu em que se vive ainda,/ com porcos pela rua, em casas celtiberas" (Sena). Tudo isso complica muito o achar sensato e "normal" que por meia dúzia de anos se tenha pensões vitalícias que um alemão não desdenharia, acumuláveis com outras benesses desta gigantesca "Casa da India" em que se tornou parte do país e onde, à porta, espera ainda muita gente - se bem que já sem o garrido e o pitoresco de outrora no vestir e no gritar por qualquer coisinha - as migalhas europeias do bolo que lá dentro alguns repartem. São mais do que soíam, os que lá estão dentro, é verdade, mas ainda são poucos.
Em suma, o problema com estes nichos de previlégios, num país que é de invejas e ressentimentos, é que dificulta qualquer sentido de "togetherness", da intimidade, do empenho que deve existir de todos com o destino da res publica,
Com situações destas, e explicadas destes modos de azedo mal-estar, a maioria dos portugueses sente o poder - e quem o exerce - como uma longínqua coisa, feita por poucos para alguns, um bando que se porta como em terra conquistada, e reage pelo ensimesmamento, pela descrença.
E tem razão: gente desta não leva ninguém a lado algum.
E dou por encerrado o assunto dos vencimentos e gorjetas dos políticos neste blog.

domingo, junho 05, 2005

Caro 1º Ministro,
Vi-o há pouco na televisão, de barba por fazer, com uns modos muito sacudidos, diga-se mesmo, desabridos, como quem responde às impertinências de um criado, a falar de ética e lei tudo isto a propósito da situação de alguns dos seus (nossos) ministros.
Lembrei-me então de contar a V. Exia., uma história verídica acontecida em Londres há uns tempos, isto para ver se V. Exia entende melhor o que está em causa. Foi assim:
seis executivos de um banco privado inglês resolveram jantar fora, a um dos mais caros e exclusivos restaurantes de Londres. O jantar foi, ao que se diz, muito agradável e a conta a condizer com a raridade de alguns Bordeaux preciosos. Para abreviar a coisa: custou o jantar aproximidademente 14000 contos (sic), (70 400 euros - idem, sic) como se soube pela indiscrição de um criado. O conselho de administração do Banco resolveu, ao saber, prescindir de imediato dos serviços dos convivas seus trabalhadores, porquanto a época era de crise, e o comportamento dos extravagantes era pouco consentâneo com algumas medidas de restrição de crédito aos clientes do banco e poderia ainda ser mal entendido pelos depositantes que tinham obtido magros resultados das suas aplicações financeiras.
Concordo que o asssunto levanta problemas delicados de liberdade, mas não deixei de estimar a reacção imediata (e educada) do banco.
V. Exia, não está a perceber ao que vêm os problemas delicados relacionados com a liberdade de cada um? É isso mesmo: o jantar não foi pago com o cartão de crédito do banco. Os 70 000 euros, os 14 00 contos saíram, integralmente, do bolso de cada um dos "gourmets".
Percebe agora, Caro 1º Ministro?
Leia tudo - ou parte - aqui

P.S. Li agora que Freitas do Amaral se solidariza com os seus colegas de gabinete e acha que tudo é legal. Pois é, ninguém diz o contrário. O problema não se resolve ou contém nesse estreito positivismo, como muito bem compreendeu a direcção do Barclays... Os alegres comensais também não cometeram nenhuma ilegalidade... Enfim, o Barclays é o Barclays, um grande banco europeu, passe a publicidade, e o nosso governo é o governo de um pequeno e cada vez mais pobre país.
No post anterior fala-se de gentlemen, eis aqui uma definição do Cardeal Newman.

sábado, junho 04, 2005

Vai por aí um burburinho que não compreendo com os ordenados e pensões dos ministros.
Sendo certo que não perfilho a tese de que os princípios não têm de vir depois do dinheiro, a realidade não é essa: primeiro o pé de meia, depois os escrúpulos.
E poderia ser de outro modo, num país pobre? Esta gente com fomes ancestrais - mesmo quando eram fomes "remediadas" - criou "isto", este estado de coisas para, se não enriquecer, ao menos poder copiar os tiques de "aisance" que vêem lá por fora. Daqueles dinheiros não podem eles prescindir sem prejudicarem planos meticulosos de há anos: a "segunda residência", o arranjo da leira que herdaram dos pais, a ajuda aos filhos, etc, etc.
Querem o quê? Que se comportem como gentlemen? Não o são. E não o sendo não se lhes peça o que não podem dar. Eles que fiquem com as pensões... eu só peço que as apliquem na educação dos filhos. Assim, daqui a três ou quatro gerações somos capazes de ter alguém que não venha falar de lei quando a questão é de mera vergonha na cara. Ou de panache.

quinta-feira, junho 02, 2005

"I once employed an old Dorset labourer, a tall, slim, aristocratic figure, with an elegant, refined nose to match; he bore the well-known name of an ancient and distinguished Dorset family, and I have no doubt was well descended. He was decidedly a canny, not to say crafty, man. I gave him a holiday at Whitsuntide to visit his old home, but he overran the time agreed upon and returned some days late. Before I could begin the rebuke I proposed to administer, he produced a charming photograph of a ruined abbey near his old locality, and handed it to me as a present. «I thought upon you, master, while I was away, and knowing as you was fond of ancient things I've brought you this picture.» I was completely disarmed, and the rebuke had to be postponed «sine die»".

Do "Grain and Chaff from an English Manor" de que falei ontem.

quarta-feira, junho 01, 2005

Tenho lido com muito gosto e notável proveito para a minha abalada boa disposição, "Grain and Chaff from an English Manor" de Arthur H. Savory, um "Harrow's boy" que escreve em 1920 sobre a vida da sua aldeia. Humour o suficiente para distrair do circunspecto e sisudo ar que o governo tomou na esperança de nos fazer engolir a pílula dos aumentos e passar em claro o facto de ter descaradamente mentido aquando das eleições (sim, mais do que o habitual e por todos já esperado - e descontado).

David Marshall, "June Landscape"

Em Junho, de novo.

terça-feira, maio 31, 2005

"A primrose by a river's brim
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more,"

Wordsworth, "Peter Bell" 1798

segunda-feira, maio 30, 2005

E foi o não. Pena que parte dele o seja em nome de um modelo social e económico caduco. No entanto, a parcela que foi protesto contra a arrogância, a falta de respeito pelo querer dos eleitores chega para me dar uma agradável boa disposição nesta Segunda-Feira enublada.

sábado, maio 28, 2005

Vou ler, com alguma volúpia, o artigo de Cadilhe sobre a função pública e a paternidade cavaquiana do seu triste estado. As evidências mais comezinhas, tomam, em Portugal, o aspecto de revelações assombrosas. Qual era a dúvida? Afinal, Cavaco não é social-democrata (e populista)? E não foi, toda a sua vida, funcionário público?
"L'Europe retient son souffle" escrevia um jornal francês. Nota-se que houve aqui um esforço de contenção para não escrever, o Mundo, a Galáxia, o Universo.

Entretanto, Gerhard Schroeder e Zapatero, dois grandes estadistas, apelam ao "oui" que esse outro gigante da história europeia, Chirac, parece não conseguir assegurar. Segundo eles, o "oui" propiciaria a felicidade da cornucópia da abundância, aquela mesma que era suposto ter derrramado sobre os europeus post-Maastrichtianos todas as benesses. Por enquanto, lembrava alguém, há o desemprego e modelos caducos na França e na Alemanha.

sexta-feira, maio 27, 2005

Com as subidas de ivas e outros impostos e apesar de todo o falatório sobre o assunto, o déficit baixará umas ridículas poucas décimas: Much ado about nothing.
A seguir com algum interesse o ar profundo e de caso sério afivelado pelo primeiro-ministro. A mim, que serei sempre um desejeitado aprendiz nestas andanças das coisas graves da pátria, parece-me uma reedição do Conselheiro Pacheco e preparo-me para me divertir um pouco (inconsciências...).

quinta-feira, maio 26, 2005

Não acredito, tenho de confessar, que da discussão saia sempre a "luz". A "luz" pode surgir da calma e do sereno assentimento (e de ambas as situações pode surgir de igual modo o negrume, mas adiante). Tenho de convir, porém, que se a serenidade tem em mim um admirador, não deixo de, cândida ingénua e romanticamente, considerar a discórdia, a confusão e mesmo a algazarra como alfobres previlegiados de ideias, de "vida", de "inovação". Fraquezas...
Por isso, ficarei deliciado com a vitória do não em França, se tal ocorrer, e anseio pela bagarre que se seguirá. E perante a pobreza da vida nacional (e da minha vida mental) sempre é um assunto que nos ajudará a combater o tédio do Verão.

terça-feira, maio 24, 2005

Caloraça, o governo-sonso-é-para-nosso-bem-etc, pó, secura, 33% de humidade, 21% de IVA, algum desalento. Penso, com alguma firmeza (a que possa restar dos dias frescos), em exilar-me lá para Vigo.
Post Eu-bem-dizia:
Vd. o que se escreveu aqui a 17 de Março:
"Ontem, uns senhores muito irritados a propósito das declarações do Doutor Victor Constâncio (...). Não percebo a irritação: ele é socialista e socialista é a maioria tão abundantemente eleita. E os socialistas sobem impostos. Esperavam outra coisa?"

segunda-feira, maio 23, 2005

Não sei a que propósito, lembrei-me de Tolentino. Fica o soneto célebre (ainda é?).

O colchão dentro do toucado
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
"Sumiu-lhe o colchão, é forte pena;
Olhe não lhe fique a casa arruinada."

"Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado;
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado.

domingo, maio 22, 2005

P.S. O tom inflamado também se aplica às coisas internacionais: as "considerações" de Mário Soares sobre o "não" ao tratado europeu soam a retórica de botica de província. Não se preocupem, repito, tudo está como sempre. Mas o Soares ainda o percebo: o Nobel da Paz - que, suspeito, ele almejava acima de tudo, nunca veio e, arredado dos areópagos internacionais de primeira plana (decorreu por estes dias uma reunião de laureados com o Nobel para reflectirem sobre o estado do mundo...) dá-lhe para estes arroubos de notabilidade de terra pequena.