Esta coisa que surgiu agora, isto dos sobreiros, vê-se logo que não há corrupção nenhuma. Voyons... mil casas em Benavente e ainda dois hotéis ? Esta Brandoa bucólica de classe média não precisa de se impor pela corrupção: é uma ideia de mau gosto, impõe-se por si às imaginações betuminosas de autarcas e directores de serviços que, todos a acham boa, moderna, europeia e acham soberbo ir para lá, "pra Benavente, pró golf".
Os Espirito Santos não precisaram de gastar um tostão.
sexta-feira, maio 13, 2005
Com estes pedaços já escassos de frio de Maio faço casulos para sonos espessos de inverno e, apressado, adormeço; o livro que leio tomba com o estrondo de ainda uma vez falhar equilibrá-lo sobre os outros, na mesinha-de-cabeceira. Sorrio benévolo da aselhice destes gestos de mundo acordado e durmo sem escrúpulos a noite apócrifa.
quarta-feira, maio 11, 2005
Por acasos vários tenho lido sobre o dia-a-dia na Grã-Bretanha durante a guerra. Aquela gente comemora com orgulho, em memórias e testemunhos, os tempos terríveis. Lembram a união do povo perante o perigo, as acções corajosas, os actos heróicos e, duas linhas abaixo, os pequenos egoísmos, as más vontades - para receber as crianças evacuadas de áreas expostas a bombardeamentos, por exemplo, ou para colaborar em actividades essenciais -, aquilo a que um francês chamaria a "miséria humana" e que eles relatam como vulgares peripécias com que aligeiram os seus textos. Quanto a lamentos não existem, todo o entusiasmo narrativo é posto no contar como se resolveram os problemas ou como conviveram com eles. O tom é de algum desapego, contido, mas é daí que nasce um incrível - por sólido e tocante - sentimentalismo, sem a deliquescência continental.
Gente assim é difícil de vencer.
Gente assim é difícil de vencer.
terça-feira, maio 10, 2005
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo irado,
Que do contentamento são espias.
Luís de Camões
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo irado,
Que do contentamento são espias.
Luís de Camões
segunda-feira, maio 09, 2005
domingo, maio 08, 2005
Hoje, nos noticiários da uma da tarde das estações de televisão internacionais, o assunto era as celebrações do Dia da Vitória, da vitória dos aliados sobre os nazis, do fim da 2ª Guerra Mundial
Em Portugal, os telejornais tiveram como notícia de abertura questões de futebol, asssunto que ocupou os primeiros seis ou sete minutos do noticiário.
Não me espantei: está a condizer com o resto.
Em Portugal, os telejornais tiveram como notícia de abertura questões de futebol, asssunto que ocupou os primeiros seis ou sete minutos do noticiário.
Não me espantei: está a condizer com o resto.
sexta-feira, maio 06, 2005
O Abrupto... Tenho de confessar que, por vezes, je le trouve presque agaçant. Mas leio-o, não para saber de recados políticos subliminares - que nem entenderei - mas as outras coisas, os vulcões, a astronomia, os livros descobertos, as coisas simples que ele lá põe de manhã. E leio com gosto isso porque percebe a gente que ele gosta daquilo, das lavas, das órbitas distantes, dos livros descobertos em alfarrabistas com um entusiasmo infantil que o embaraça (e ele sabe disso e joga com isso inteligentemente, mesmo quando se perde, por vezes, em narcismos menos infantis, tentando com que tudo reverta a favor de uma casualidade bem intencionada). Ah, lê-se bem.
Bom aniversário!
Bom aniversário!
Novenas de Maio
"[...]
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura. . .
E sou desgraçado!
Águas do rio! Águas dos montes!
Cantigas d'água pelos montes,
Que sois como amas a cantar.. .
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo êsses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de côr!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vêzes.
Assim como êles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instância do padre dizia (e chorava):
"Não tenho nenhum.
[...]"
"António"
António Nobre
"[...]
A tia Delfina, velhinha tão pura,
Dormia a meu lado
E sempre rezava por minha ventura. . .
E sou desgraçado!
Águas do rio! Águas dos montes!
Cantigas d'água pelos montes,
Que sois como amas a cantar.. .
E eu ia às novenas, em tardes de Maio,
Pedir ao Senhor:
E, ouvindo êsses cantos, tremia em desmaio,
Mudava de côr!
Passam na rua os estudantes
A vadrulhar...
E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
A mailos Franceses,
Quando ia ao confesso, à ermida da serra,
Levava-me, às vêzes.
Assim como êles era eu dantes!
Meus camaradas! estudantes!
Deixai o Poeta trabalhar.
Santinho como ia, santinho voltava:
Pecados? Nem um!
E a instância do padre dizia (e chorava):
"Não tenho nenhum.
[...]"
"António"
António Nobre
quinta-feira, maio 05, 2005
Soube agora, pelo Rua da Judiaria que hoje se comemora o Dia de Lembrança dos Mártires e Heróis do Holocausto, do Holocausto que ocorreu na Europa.
A todos os Mártires e Heróis a minha homenagem.
A Aristides de Sousa Mendes, herói português nesses tempos terríveis, uma particular e respeitosa homenagem.
A todos os Mártires e Heróis a minha homenagem.
A Aristides de Sousa Mendes, herói português nesses tempos terríveis, uma particular e respeitosa homenagem.
A verdade é esta: apesar do meu pessimismo congénito, que as minhas lucubrações de anos apenas agravaram, resolvi fazer obras em casa. Para quê sujeitar-me a essa devastação ruinosa? Creio que pelo dever, o dever de preservar e transmitir o que recebi e que acabou por sair vencedor da minha crença sobre a inutilidade daninha da generalidade dos actos humanos. Mas vem isto à colação para dizer que acordei hoje, ainda não eram sete da manhã com o barulho do reboco a ser picado. Levantei-me e, em roupão, fui espreitar. E, minhas senhoras e meus senhores, que magnífica manhã, suave, amiga, perfumada! Voltei reconciliado com o não sei quê de bonomia que conservo, apesar de tudo, uma crença difusa e ingénua na bondade que pode existir nalguns momentos raros.
Mudei de quarto, para outro mais longe do barulho reconfortante da reparação e continuei o sono, um sono denso e feliz que há tempos não sentia.
Agora estou aqui, na tarde tão agradável de Maio, a ganhar coragem para ir lá fora dizer ao Sr. Paulo que barulho àquela hora, nunca mais.
Mudei de quarto, para outro mais longe do barulho reconfortante da reparação e continuei o sono, um sono denso e feliz que há tempos não sentia.
Agora estou aqui, na tarde tão agradável de Maio, a ganhar coragem para ir lá fora dizer ao Sr. Paulo que barulho àquela hora, nunca mais.
quarta-feira, maio 04, 2005
Chirac disse ontem na televisão que a constituição europeia era essencialmente de inspiração francesa.
Já se sabia, mas ouvir, preto no branco, tal coisa por estes dias em que se comemora o sexagéssimo aniversário do fim da Segunga Guerra Mundial, onde a França foi desastrosamente e vergonhosamente derrotada, sem luta nem glória, leva a que se pense bem na bondade destas coisas "essencialmente francesas" para o futuro da Europa.
Já se sabia, mas ouvir, preto no branco, tal coisa por estes dias em que se comemora o sexagéssimo aniversário do fim da Segunga Guerra Mundial, onde a França foi desastrosamente e vergonhosamente derrotada, sem luta nem glória, leva a que se pense bem na bondade destas coisas "essencialmente francesas" para o futuro da Europa.
segunda-feira, maio 02, 2005
domingo, maio 01, 2005
O Senhor Presidente da República parece querer "tratar do assunto" do cidadão português detido por fumar hashish num país muçulmano. Não sei o que move o Senhor presidente. Motivos humanitários? O Islão é tolerante e sábio e não acredito que por aquelas paragens, a não ser por motivos políticos, alguém esteja preso quatro anos sem julgamento, como a lei portuguesa limpidamente permite - e acontece aqui - sem que se sintam as expeditas lágrimas do Dr. Sampaio.
Perante situações mais caseiras, parece desfalecer a boa vontade presidencial. O Sr. Presidente faz-me lembrar a criada do narrador do RTP* que compadecida ao ler a descrição do sofrimento provocado por uma doença, não o reconhecia quando sofrido por quem lhe estava próximo e padecia dos mesmos males que - descritos em letra de forma - despertavam ainda há pouco a sua comiseração.
E com isto, eis-nos em Maio.
*RTL é abreviatura do En Recherche du temps perdu
Perante situações mais caseiras, parece desfalecer a boa vontade presidencial. O Sr. Presidente faz-me lembrar a criada do narrador do RTP* que compadecida ao ler a descrição do sofrimento provocado por uma doença, não o reconhecia quando sofrido por quem lhe estava próximo e padecia dos mesmos males que - descritos em letra de forma - despertavam ainda há pouco a sua comiseração.
E com isto, eis-nos em Maio.
*RTL é abreviatura do En Recherche du temps perdu
sexta-feira, abril 29, 2005
Não sei quem, muito aflito por ter sido detido, no próximo oriente, por uso de drogas. Não discuto a aflição do envolvido ou de sua família, mas a atitude alarmista dos media, tanto mais injustificada quanto toda a gente sabe da bondade da lei nos países muçulmanos quando comparada com a crueldade da ordem penal do capitalismo globalista e totalitário, maxime o europeu e o norte-americano. Problema seria se o acusado tivesse caído nas malhas da justiça britânica... Descansemos, pois, o nosso compatriota não podia, dentro da sua desventura, estar em melhor sítio.
quinta-feira, abril 28, 2005
QUE VERGONHA, RAPAZES!
Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?
Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?
quarta-feira, abril 27, 2005
Novos Links
Linkaram o Impensável, que, muito grato, agradece, o Abencerragem, o Apostrofe, o Makjeite, o Pobreza Franciscana e o Ma Schamba.
Ainda uma vez, muito obrigado.
Linkaram o Impensável, que, muito grato, agradece, o Abencerragem, o Apostrofe, o Makjeite, o Pobreza Franciscana e o Ma Schamba.
Ainda uma vez, muito obrigado.
Passeios de madrugada: sudeste de Inglaterra, Wilde (já não sei como, de Hastings a ele) Paris, Eça e Wilde, uma citação deste: "Illusion is the first of all pleasures" que me levou a Tchekov, ao Tio Vânia, à condescendência como prodigalidade, no caso, a vida na cidade que o seu "sacrifício" - e de sua sobrinha - permite aos outros, mas como ilusão, equívoco. E de novo Eça, "A Cidade" enquanto ilusão, melhor, falácia arquitectural das cosmogonias do século XIX - estou com sono.
Ontem reli - uma vez mais - parte da correspondência entre ele, sozinho numa terrivelmente quente Paris e sua Mulher, na praia, numa praiazinha bretã.
Ontem reli - uma vez mais - parte da correspondência entre ele, sozinho numa terrivelmente quente Paris e sua Mulher, na praia, numa praiazinha bretã.
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