sexta-feira, abril 29, 2005
Não sei quem, muito aflito por ter sido detido, no próximo oriente, por uso de drogas. Não discuto a aflição do envolvido ou de sua família, mas a atitude alarmista dos media, tanto mais injustificada quanto toda a gente sabe da bondade da lei nos países muçulmanos quando comparada com a crueldade da ordem penal do capitalismo globalista e totalitário, maxime o europeu e o norte-americano. Problema seria se o acusado tivesse caído nas malhas da justiça britânica... Descansemos, pois, o nosso compatriota não podia, dentro da sua desventura, estar em melhor sítio.
quinta-feira, abril 28, 2005
QUE VERGONHA, RAPAZES!
Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?
Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?
quarta-feira, abril 27, 2005
Novos Links
Linkaram o Impensável, que, muito grato, agradece, o Abencerragem, o Apostrofe, o Makjeite, o Pobreza Franciscana e o Ma Schamba.
Ainda uma vez, muito obrigado.
Linkaram o Impensável, que, muito grato, agradece, o Abencerragem, o Apostrofe, o Makjeite, o Pobreza Franciscana e o Ma Schamba.
Ainda uma vez, muito obrigado.
Passeios de madrugada: sudeste de Inglaterra, Wilde (já não sei como, de Hastings a ele) Paris, Eça e Wilde, uma citação deste: "Illusion is the first of all pleasures" que me levou a Tchekov, ao Tio Vânia, à condescendência como prodigalidade, no caso, a vida na cidade que o seu "sacrifício" - e de sua sobrinha - permite aos outros, mas como ilusão, equívoco. E de novo Eça, "A Cidade" enquanto ilusão, melhor, falácia arquitectural das cosmogonias do século XIX - estou com sono.
Ontem reli - uma vez mais - parte da correspondência entre ele, sozinho numa terrivelmente quente Paris e sua Mulher, na praia, numa praiazinha bretã.
Ontem reli - uma vez mais - parte da correspondência entre ele, sozinho numa terrivelmente quente Paris e sua Mulher, na praia, numa praiazinha bretã.
terça-feira, abril 26, 2005
Portugal será, em 2020, o país mais pobre da UE, isto dito por por uma daquelas comissões que trabalham com afincos nórdicos e certeiros.
Não me admiro. Caminhamos com afinco para a pobreza, de que, aliás, nunca chegámos a sair (legislações irreais, provincianismo optimista, etc não se traduzem em aumento do PIB). O que verdadeiramente perdemos - tirando os ganhos gerais do avanço do mundo que aqui também de reflectem - foi a noção de que somos pobres: foi a perda dessa lúcida verdade que nos (lhes) fez pensar vir aí a riqueza, nada mais. Em nome desse esquecimento tragicómico enfarpelou-se o país de "homem novo" "de sucesso" e outras possidonices de igual falta de gosto.
Isto tudo, encerra um pedido: sabido que fingir não adianta, voltemos aos hábitos antigos, ao nosso antiquíssimo, genuíno e agradável vagar, à nossa paz, ao nosso tédio de ver o mar de que voltámos. Olhem, quando tiverem de ir ao Porto, ou de lá vierem a Lisboa, evitem a auto-estrada, levem os filhos - eles que faltem à escola - e parem em Alcobaça e na Batalha. Mostrem-lhes os mosteiros, comprem uma lembrança e continuem sem pressas.
Ah! E se a ida ao estrangeiro, digamos, à tão familiar NY, se tornar inevitável, levem farnel e pandeiretas, arranchem à entrada do MOMA ou do MET e verão como se divertem baratinho.
Não me admiro. Caminhamos com afinco para a pobreza, de que, aliás, nunca chegámos a sair (legislações irreais, provincianismo optimista, etc não se traduzem em aumento do PIB). O que verdadeiramente perdemos - tirando os ganhos gerais do avanço do mundo que aqui também de reflectem - foi a noção de que somos pobres: foi a perda dessa lúcida verdade que nos (lhes) fez pensar vir aí a riqueza, nada mais. Em nome desse esquecimento tragicómico enfarpelou-se o país de "homem novo" "de sucesso" e outras possidonices de igual falta de gosto.
Isto tudo, encerra um pedido: sabido que fingir não adianta, voltemos aos hábitos antigos, ao nosso antiquíssimo, genuíno e agradável vagar, à nossa paz, ao nosso tédio de ver o mar de que voltámos. Olhem, quando tiverem de ir ao Porto, ou de lá vierem a Lisboa, evitem a auto-estrada, levem os filhos - eles que faltem à escola - e parem em Alcobaça e na Batalha. Mostrem-lhes os mosteiros, comprem uma lembrança e continuem sem pressas.
Ah! E se a ida ao estrangeiro, digamos, à tão familiar NY, se tornar inevitável, levem farnel e pandeiretas, arranchem à entrada do MOMA ou do MET e verão como se divertem baratinho.
Despojos da leitura do TLS da semana passada:
"Further afield, the Portuguese took his classical name - Lusitania - from Lusus, a son of Bacchus, whose name means «play» or «game»"
Unfair play, bad game, I say.
Adiante. Sobre os contos de John Berger, um, named Lisboa. Lá se lê: "Lisboa is a city that has a relationship with the visible world like no other city. It plays a game. Its squares and streets are paved with patterns of white and coloured stones, as if, instead of being roads, they were ceilings"
A necessidade de dizer coisas...
Ah! Agradáveis estes frios a tocarem o extemporâneo. Ir para o quarto, vestir o pijama, enfiar na cama, ainda não é o ritual fácil e de inconsequente violação que desfeia o ir dormir durante o tempo quente. Regozijo-me com a necessidade de ponderação. Um cobertor posto à pressa, escorrega, arrasta os outros, o frio entra, é preciso compor tudo, de novo, por entre o sono. Sei que agora toda a gente dorme em quartos perfeitamente aquecidos, com édredons comprados em NY ou London, que tudo isto é antigo, velho e saudosista. Pois é.
"Further afield, the Portuguese took his classical name - Lusitania - from Lusus, a son of Bacchus, whose name means «play» or «game»"
Unfair play, bad game, I say.
Adiante. Sobre os contos de John Berger, um, named Lisboa. Lá se lê: "Lisboa is a city that has a relationship with the visible world like no other city. It plays a game. Its squares and streets are paved with patterns of white and coloured stones, as if, instead of being roads, they were ceilings"
A necessidade de dizer coisas...
Ah! Agradáveis estes frios a tocarem o extemporâneo. Ir para o quarto, vestir o pijama, enfiar na cama, ainda não é o ritual fácil e de inconsequente violação que desfeia o ir dormir durante o tempo quente. Regozijo-me com a necessidade de ponderação. Um cobertor posto à pressa, escorrega, arrasta os outros, o frio entra, é preciso compor tudo, de novo, por entre o sono. Sei que agora toda a gente dorme em quartos perfeitamente aquecidos, com édredons comprados em NY ou London, que tudo isto é antigo, velho e saudosista. Pois é.
sexta-feira, abril 22, 2005
Da mesma autora, sobre Lisboa: “seria injusto comparar Lisboa, no pequeno Portugal, com Gdynia ou Génova, Haifa ou Roterdão, em termos de instalações portuárias. Nem seria correcto comparar os cafés lisboetas, agora sobrelotados, com os da velha Amsterdão ou de Viena; os seus restaurantes, com os de Veneza; os preços dos seus hotéis com os de Lausanne ou Barcelona; as suas lojas com as de Praga ou de Paris”
Desagradável, não é? E Annemarie, chegada a Lisboa vinda dos Estados Unidos - isto é, na rota inversa dos refugiados - gostou da cidade e das gentes, as comparações não pretendem amesquinhar são meramente ilustrativas...
Desagradável, não é? E Annemarie, chegada a Lisboa vinda dos Estados Unidos - isto é, na rota inversa dos refugiados - gostou da cidade e das gentes, as comparações não pretendem amesquinhar são meramente ilustrativas...
quinta-feira, abril 21, 2005
Visões de Lisboa dos anos 40 - e do regime de então - alguma coisa fora de vulgar, de Annemarie Schawarzenbach, vislumbradas numa publicação do Centro Interuniversitário de Estudos Germanísticos, Coimbra. A tradução é de Maria Antónia Amarante e a introdução de Gonçalo Vilas-Boas.
Dizia ela que "Portugal, um país litoral adormecido, separado da Europa por um renque de colinas relativamente modestas, cobertas de oliveiras e vinhas, e dos destinos de Espanha pela força de uma tradição nacional, transitou da monarquia dos Braganças para a República, e vive agora sob o regime democrático, mau grado autoritário e prudente, de Salazar, que não se pode designar por «ditador» mas antes «alguém que, democraticamente impede a ditadura»".
Mais informes sobre a autora aqui (e em inglês)
Dizia ela que "Portugal, um país litoral adormecido, separado da Europa por um renque de colinas relativamente modestas, cobertas de oliveiras e vinhas, e dos destinos de Espanha pela força de uma tradição nacional, transitou da monarquia dos Braganças para a República, e vive agora sob o regime democrático, mau grado autoritário e prudente, de Salazar, que não se pode designar por «ditador» mas antes «alguém que, democraticamente impede a ditadura»".
Mais informes sobre a autora aqui (e em inglês)
terça-feira, abril 19, 2005
Gostei de ouvir o pouco do que ouvi da homilia do Cardeal Ratzinger.
A ditadura do relativismo, o apogeu do fragmento, a glorificação do estilhaço original eis algo a que estar atento
O Cardeal Ratzinger não é o meu candidato preferido para São Pedro - "torço" pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa - mas foi uma bela homília que tentei já encontrar na íntegra aqui.
A ditadura do relativismo, o apogeu do fragmento, a glorificação do estilhaço original eis algo a que estar atento
O Cardeal Ratzinger não é o meu candidato preferido para São Pedro - "torço" pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa - mas foi uma bela homília que tentei já encontrar na íntegra aqui.
domingo, abril 17, 2005
Conhecido entre nós - e muito estimado - é Pablo Neruda.
Merecidamente, se atendermos às alturas da sua poesia.
Um excerto de um pico poético, neste domingo:
"Stalin alza, limpia, construye, fortifica
preserva, mira, protege, alimenta,
pero también castiga.
Y esto es cuanto quería deciros, camaradas:
hace falta el castigo"
Faz falta o castigo, hace falta el castigo...
Merecidamente, se atendermos às alturas da sua poesia.
Um excerto de um pico poético, neste domingo:
"Stalin alza, limpia, construye, fortifica
preserva, mira, protege, alimenta,
pero también castiga.
Y esto es cuanto quería deciros, camaradas:
hace falta el castigo"
Faz falta o castigo, hace falta el castigo...
sexta-feira, abril 15, 2005
"Se o menino fosse ajuizadinho..." imagino que, se o fosse, as bençãos do céu desceriam sobre mim, a coroar de prazeres inefáveis os usufruidos aqui na terra e de que o gozo de pessoal doméstico adequado não era o menor. Mas nunca fui ajuizadinho nem conheço realmente bem alguém que o seja na minha roda de amigos. Os mais próximos de merecerem o epíteto desenvolveram com a idade comportamentos estranhos, tiques, birras e monomanias quase assustadoras que exibem sem rebuço: peregrinações a pé anuais a lugares santos, leitura compulsiva de má literatura, boas intenções, francesismo, eis algumas delas. E, por isso, nunca cheguei bem a saber, senão por difuso contraste, o que era o menino atilado que a antiga empregada lastimava eu não fosse. Há pouco, porém, vi um: é o nosso primeiro-ministro. Atilado, bem-comportado. Fiquei convicto. Mas surge a dúvida: de que serve ser atilado, aos quarenta anos, idade em que as empregadas velhas desapareceram ou, a existirem, sejamos francos e crus, delas já não necessitamos para obtermos o bolo de canela a caminho da praia? Agora que já não são necessárias para nos assegurarem um lugar razoável na pole position das corridas de triciclos nas matinées infantis do Casino?
Para quê, então, aquela exibição tão veemente de virtude? Por meia dúzia de votos? Pfff....
Para quê, então, aquela exibição tão veemente de virtude? Por meia dúzia de votos? Pfff....
terça-feira, abril 12, 2005
segunda-feira, abril 11, 2005
A correspondência entre Eça e sua Mulher.
Em 1892 falava-se do déficit... e, tal como agora, cria-se em homens providenciais, na altura Oliveira Martins. Certo é que ainda não chegámos ao dia-a-dia providencial, à habitualidade providencial (que não é o viver habitualmente de Salazar mas não lhe é completamente estranho), ao esquecimento mesmo dessa desgraçada necessidade do providencial.
Em 1892 falava-se do déficit... e, tal como agora, cria-se em homens providenciais, na altura Oliveira Martins. Certo é que ainda não chegámos ao dia-a-dia providencial, à habitualidade providencial (que não é o viver habitualmente de Salazar mas não lhe é completamente estranho), ao esquecimento mesmo dessa desgraçada necessidade do providencial.
domingo, abril 10, 2005
Interessante ver a cerimónia real através de canais franceses: já não é a nostalgia da monarquia de que já não sei quem dizia sofrerem os franceses: é pura inveja.
A Duquesa da Cornualha foi apodada de "plebeia" (routuriere). Descendente de, entre outros, Henrique IV, rei de França, afiro por esta os problemas magnos da auto-estima gaulesa. Proporções preocupantes!
A Duquesa da Cornualha foi apodada de "plebeia" (routuriere). Descendente de, entre outros, Henrique IV, rei de França, afiro por esta os problemas magnos da auto-estima gaulesa. Proporções preocupantes!
quarta-feira, abril 06, 2005
Gloomy.
Recebi hoje, pelo correio, a Ilíada e, péssimo hábito, já a folheei. Logo à noite lerei o prefácio, se não sair.
Dei uma volta pelos blogs: estupendos - tanto quanto ingénuos - os "posts" do Joaquinzinhos sobre a burocracia. Eu radicaria a burocracia portuguesa em duas linhas de tradições, ambas nobres: a que se filia na aversão pelo novo e por qualquer forma de desassossego e de perturbação da amenidade quotidiana e a outra, relativa à liturgia do estado português, estado de cerimónia e cerimonioso, conselheiral, bem instalado, e, se não já rico e imperial, demoradamente saudoso dos tempos aúreos em que, à sobremesa, ou mais tarde, pela fresca, despachava pretensões da Índia ou aspirações do Grão-Pará, redigidas por suplicantes (era a fórmula, elegante, filial) acompanhadas por empenhos trasmitidos em visitas que se faziam, retribuiam e comentavam, e constituiam, por si só, uma actividade, uma distracção salutar. A que vem agora essa gente, com pressa e sem modos, que exige, que reclama? Que espere! Também compreendo.
Recebi hoje, pelo correio, a Ilíada e, péssimo hábito, já a folheei. Logo à noite lerei o prefácio, se não sair.
Dei uma volta pelos blogs: estupendos - tanto quanto ingénuos - os "posts" do Joaquinzinhos sobre a burocracia. Eu radicaria a burocracia portuguesa em duas linhas de tradições, ambas nobres: a que se filia na aversão pelo novo e por qualquer forma de desassossego e de perturbação da amenidade quotidiana e a outra, relativa à liturgia do estado português, estado de cerimónia e cerimonioso, conselheiral, bem instalado, e, se não já rico e imperial, demoradamente saudoso dos tempos aúreos em que, à sobremesa, ou mais tarde, pela fresca, despachava pretensões da Índia ou aspirações do Grão-Pará, redigidas por suplicantes (era a fórmula, elegante, filial) acompanhadas por empenhos trasmitidos em visitas que se faziam, retribuiam e comentavam, e constituiam, por si só, uma actividade, uma distracção salutar. A que vem agora essa gente, com pressa e sem modos, que exige, que reclama? Que espere! Também compreendo.
terça-feira, abril 05, 2005
segunda-feira, abril 04, 2005
O artigo de ontem (creio...) de Vasco Pulido Valente, no Público, sobre João Paulo II tem o brilhantismo habitual. Convirá, no entanto, lembrar que, neste caso, não houve reforma senão da memória e o Papa, que nasceu num país com um passado mártir, que viveu pessoalmente a barbárie nazi, primeiro, e, depois, a comunista, sentia o perigo deste tempo cosmético de agora, construído sobre o esquecimento da proximidade da barbárie, isto é, sobre o olvido da natureza humana.
domingo, abril 03, 2005
sábado, abril 02, 2005
Lembro-me, muito vagamente já, da morte de Paulo VI, um Papa que admirava e via sozinho, perto da morte, frágil, numa dolorosa incerteza sobre o destino da Igreja e do mundo. A sua morte, esperada, foi, no entanto, pelo menos para mim, jovem desatento, uma surpresa. E surpresa e choque para todos foi a morte do seu sucessor, João Paulo I.
Admirador de Paulo VI, no que nele me parecia o sofrimento na dúvida e da solidão, no desgosto, no desgosto mesmo pela sorte de amigos próximos como Aldo Moro, admirador de tal Papa, senti como quase "grosseiras" as certezas e convicções de João Paulo II. Mas hoje, ao lamentar a sua falta de saúde, não o faço por meramente me ter habituado ao novo "estilo", por força do hábito adquirido pela longa duração do pontificado, mas pela radicalidade austera das certezas que nos veio lembrar, a nós católicos - e ao mundo - devemos ter e que nos ensinou como a filhos e que esperou de nós como irmãos e iguais, sempre iguais: o acidental da condição humana (a riqueza ou a pobreza, a saúde ou a doença...) em nada nos exime, não é o que nos define: mesmo no extremo limite da sua persistência não somos nunca apenas isso, a nossa responsabilidadade perante Deus e os outros homens mantêm-se intacta - sempre.
Admirador de Paulo VI, no que nele me parecia o sofrimento na dúvida e da solidão, no desgosto, no desgosto mesmo pela sorte de amigos próximos como Aldo Moro, admirador de tal Papa, senti como quase "grosseiras" as certezas e convicções de João Paulo II. Mas hoje, ao lamentar a sua falta de saúde, não o faço por meramente me ter habituado ao novo "estilo", por força do hábito adquirido pela longa duração do pontificado, mas pela radicalidade austera das certezas que nos veio lembrar, a nós católicos - e ao mundo - devemos ter e que nos ensinou como a filhos e que esperou de nós como irmãos e iguais, sempre iguais: o acidental da condição humana (a riqueza ou a pobreza, a saúde ou a doença...) em nada nos exime, não é o que nos define: mesmo no extremo limite da sua persistência não somos nunca apenas isso, a nossa responsabilidadade perante Deus e os outros homens mantêm-se intacta - sempre.
terça-feira, março 29, 2005
Parabéns indesculpavelmente atrasados ao Contra a Corrente por mais um aniversário.
Embora a falta seja indesculpável, não se deixa de enviar, lampeiro, um pedido de desculpas...
Embora a falta seja indesculpável, não se deixa de enviar, lampeiro, um pedido de desculpas...
segunda-feira, março 28, 2005
quarta-feira, março 23, 2005
terça-feira, março 22, 2005
A propósito do "Medo de Existir" de Gil, leia-se Pascoaes "O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico. Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.(...) Este bom senso deriva do nosso carácter espiritual e sensual. E eis a nossa comédia que se opõe, retemperando-o, ao trágico aspecto da nossa alma, dominada pelo Medo misterioso... Ao Medo, que é também o Demónio, prestamos um culto corruptor. No seu altar fantástico retine o cobre da nossa esmola..."
Linkaram este blog o Berra Boi, o Demonpoet, o Ávido e o Reflections, Reflections. A todos o Impensavel agradece, muito oobrigado.
segunda-feira, março 21, 2005
Folheei o "Portugal hoje, O medo de existir" de José Gil que tinha encomendado há mais de um mês e recebi hoje.
Entre observações sagazes, generalizações do provincianismo de Paris e arredores sobre o provincianismo de Lisboa e arredores (algumas delas, válidas para quaisquer outros arredores, a gente fica a pensar no porquê da sua atribuição a Portugal).
Mas lerei com atenção.
Entre observações sagazes, generalizações do provincianismo de Paris e arredores sobre o provincianismo de Lisboa e arredores (algumas delas, válidas para quaisquer outros arredores, a gente fica a pensar no porquê da sua atribuição a Portugal).
Mas lerei com atenção.
sábado, março 19, 2005
Algumas gotas de chuva e o artigo de VPV sobre a direita em Portugal. É, de facto, difícil ser conservador. E - isto é um supôr - volvendo ao século XIX parlamentar, não creio que lá haja nada de particularmente inspirador.
sexta-feira, março 18, 2005
A empregada telefonou há bocado a dizer que amanhã (hoje, sexta) não pode vir, que está com gripe, "que não se tem de pé". A voz pareceu-me deliberadamente débil, estudada para desencorajar qualquer tentativa entusiastica de a animar - "não nos devemos deixar ir a baixo por nadas. E até amanhã há-de melhorar! Cá a espero, não venha é tão cedo". Pode ser que sim, que esteja de facto engripada, mas não ponho de lado a possibilidade de uma ida ao noroeste brasileiro. De um modo ou outro, amanhã, roupa da cama para mudar. Uma seca!
quinta-feira, março 17, 2005
Ontem, uns senhores muito irritados a propósito das declarações do Doutor Victor Constâncio sobre as Scuts (acho que se escreve assim). Não percebo a irritação: ele é socialista e socialista é a maioria tão abundantemente eleita. E os socialistas sobem impostos. Esperavam outra coisa?
Por socialistas: o Dr. Mário Soares recebeu uma delegação do Herri Batasuma, o braço legal da ETA, organização terrorista. Houve protestos do partido popular europeu que, entre outras coisas, achou o acto pouco digno de um ex-presidente. Mas o Dr. Soares, quando era presidente , não resolveu visitar um foragido da justiça italiana, o ex-primeiro-ministro socialista Craxi, a meio de uma viagem oficial e usando para isso um avião ao serviço do estado português? As pessoas esquecem...
Por socialistas: o Dr. Mário Soares recebeu uma delegação do Herri Batasuma, o braço legal da ETA, organização terrorista. Houve protestos do partido popular europeu que, entre outras coisas, achou o acto pouco digno de um ex-presidente. Mas o Dr. Soares, quando era presidente , não resolveu visitar um foragido da justiça italiana, o ex-primeiro-ministro socialista Craxi, a meio de uma viagem oficial e usando para isso um avião ao serviço do estado português? As pessoas esquecem...
Apenas a mim tudo parece estar proíbido, mesmo o prazer triste de ler maus livros: confessei aqui ter passado os olhos pelo "Código Da Vinci" e logo o Vaticano, que até aqui tinha estado calado, achou ser chegada a altura de desaconselhar a leitura por o livro ser um "château de mésonges" li a notícia - poderia dizer, a admoestação - em francês. Percebi, de imediato, que a crítica me era dirigida e, escusada por tardia, apenas para me fazer sentir mal. Contrito, prometo não ler outros em iguais circunstâncias.
A reacção paterna do Vaticano se bem que algo assustadora, confirmou o que há tempos eu suspeitava: que tinha leitores - pelo menos um - na Cúria.
Muito agradeço, e sempre direi, Eminência, que "château de mésonges" é por demais majestoso para a obra a questão: pardieiro de vulgaridades seria mais adequado.
P.S.Para ralhos futuros lembro a Vª Eminência o uso do meu e-mail. Que não se alvoroce o mundo pelos meus pecadilhos, pelas minhas leviandades.
A reacção paterna do Vaticano se bem que algo assustadora, confirmou o que há tempos eu suspeitava: que tinha leitores - pelo menos um - na Cúria.
Muito agradeço, e sempre direi, Eminência, que "château de mésonges" é por demais majestoso para a obra a questão: pardieiro de vulgaridades seria mais adequado.
P.S.Para ralhos futuros lembro a Vª Eminência o uso do meu e-mail. Que não se alvoroce o mundo pelos meus pecadilhos, pelas minhas leviandades.
quarta-feira, março 16, 2005
De um bilhete de Proust e Paulo Morand:
"Tudo quanto posso dizer-lhe é que amanhã, sábado, irei provavelmente levantar-me, ou então depois de amanhã, domingo. Se eu me levantar amanhã, sábado, mandar-lhe-ei dizer que não poderei certamente levantar-me no domingo. Se amanhã, sábado, eu não me levantar (o que não quer dizer que não venha a fazê-lo, com certeza no domingo) ignoro se estarei em condições de me levantar no domingo..."
"Tudo quanto posso dizer-lhe é que amanhã, sábado, irei provavelmente levantar-me, ou então depois de amanhã, domingo. Se eu me levantar amanhã, sábado, mandar-lhe-ei dizer que não poderei certamente levantar-me no domingo. Se amanhã, sábado, eu não me levantar (o que não quer dizer que não venha a fazê-lo, com certeza no domingo) ignoro se estarei em condições de me levantar no domingo..."
terça-feira, março 15, 2005
segunda-feira, março 14, 2005
Ontem tinha colocado aqui umas impressões sobre o "Código da Vinci" que resolvi ler para saber o que faz o sucesso, hoje em dia. Acabei por apagar.
Tão cedo não repetirei a graça de ler um best-seller.
Dia péssimo e irritante, o cinzento sem chuva torna-se desagradável. Aliás, além do tempo, todo o país está desagradável. Compreendo bem todos os que esperam a Páscoa para se precipitarem para fora "disto", mesmo com o regresso da recessão.
Tão cedo não repetirei a graça de ler um best-seller.
Dia péssimo e irritante, o cinzento sem chuva torna-se desagradável. Aliás, além do tempo, todo o país está desagradável. Compreendo bem todos os que esperam a Páscoa para se precipitarem para fora "disto", mesmo com o regresso da recessão.
domingo, março 13, 2005
Linkaram este blog o "A vida é larga", o "Inoportunus" e o "Pé de Meia".
Muito obrigado, o Impensavel agradece.
De igual modo, se agradece, com igual reconhecimento, ao Posto de Escuta a referência de um post.
Muito obrigado, o Impensavel agradece.
De igual modo, se agradece, com igual reconhecimento, ao Posto de Escuta a referência de um post.
sexta-feira, março 11, 2005
Quarta-Feira estive em Lisboa para tratar de assuntos - fúteis, todos eles.
Saído do alfaiate, fui almoçar à Bénard. À saída, uma manifestação anti-Benetton. Subi e desci a ladeira com algum cansaço, entre o Silvas e a Fnac: as poses de dedicada acrobacia em frente às estantes levaram-me a algumas meditações sobre os limites, se não da curiosidade literária, do esqueleto humano; agora pratico com os
livros o que estabeleci para compras de supermercado: compro o que está à vista, à altura dos olhos.
Rumei para outras paragens a ver se a colónia já tinha chegado: que não, o "parfum" ainda não viera. Não é "parfum" nenhum, mas uma colónia,inglesa e sensata, empírica como a estética de Jane Austen (vd. último TLS), raios partam a possidonice que campeia em má e pretensiosa pronúncia. Depois daquela, precisava de um banho de sensibilidade e bom senso e resolvi que, com Abril à porta, se impunha escolher algumas camisas. Decidi-me por umas tantas, alegres e bem dispostas e o único momento desagradável foi o decidir se sem ou quem bolso e o formato do colarinho, em que hesito sempre para além do razoável.
A viagem para cá foi agradável, sobretudo rápida, e mergulhei até cair de sono na leitura dos "Diários" de Jorge de Sena. Ontem, fiquei todo o dia na contemplação feliz de, em princípio, nada ter para fazer em Lisboa nos próximos tempos.
Esqueci-me de ver se tinha já saído a edição do D. Quixote traduzida pelo Miguel Serras Pereira. A que tenho é a do Aquilino e as criticas que a ela fez Castelo Branco Chaves pareceram-me sempre certeiras.
Saído do alfaiate, fui almoçar à Bénard. À saída, uma manifestação anti-Benetton. Subi e desci a ladeira com algum cansaço, entre o Silvas e a Fnac: as poses de dedicada acrobacia em frente às estantes levaram-me a algumas meditações sobre os limites, se não da curiosidade literária, do esqueleto humano; agora pratico com os
livros o que estabeleci para compras de supermercado: compro o que está à vista, à altura dos olhos.
Rumei para outras paragens a ver se a colónia já tinha chegado: que não, o "parfum" ainda não viera. Não é "parfum" nenhum, mas uma colónia,inglesa e sensata, empírica como a estética de Jane Austen (vd. último TLS), raios partam a possidonice que campeia em má e pretensiosa pronúncia. Depois daquela, precisava de um banho de sensibilidade e bom senso e resolvi que, com Abril à porta, se impunha escolher algumas camisas. Decidi-me por umas tantas, alegres e bem dispostas e o único momento desagradável foi o decidir se sem ou quem bolso e o formato do colarinho, em que hesito sempre para além do razoável.
A viagem para cá foi agradável, sobretudo rápida, e mergulhei até cair de sono na leitura dos "Diários" de Jorge de Sena. Ontem, fiquei todo o dia na contemplação feliz de, em princípio, nada ter para fazer em Lisboa nos próximos tempos.
Esqueci-me de ver se tinha já saído a edição do D. Quixote traduzida pelo Miguel Serras Pereira. A que tenho é a do Aquilino e as criticas que a ela fez Castelo Branco Chaves pareceram-me sempre certeiras.
terça-feira, março 08, 2005
Eis as "cerejeiras" de que tenho falado.
Ontem, acabei por preterir São Francisco em favor da História de Portugal do O.M. Adormeci tarde, no reinado de D. Sancho I, mas fiz uma incursão ao sarau em casa do Marquês de Marialva, no tempo de D. Maria I e que Eça usa para atazanar o Pinheiro Chagas. Aconselho a leitura - do O.M e da polémica de Eça.
segunda-feira, março 07, 2005
As cerejeiras - não são, em boa verdade, cerejeiras, mas parentas próximas - estão em flor. O efeito é bonito, embora quase um pouco kitsch, fazendo lembrar algumas capas mais optimistas das edições paulistas, os ramos carregados de branco recortados no céu muito azul.
Vou aproveitar a tarde para continuar a ler uma Vida de S. Francisco de Assis que comprei há uns tempos.
Vou aproveitar a tarde para continuar a ler uma Vida de S. Francisco de Assis que comprei há uns tempos.
domingo, março 06, 2005
Tornei-me desajeitado na arte de passar a salvo (digo isto por dizer) as tarde descampadas e ermas dos domingos de província, perco-me em macambúzias contagens de coisas perdidas. Mas perder coisas é tão natural, que é, convenço-me, um bom modo, afinal, de passar tardes de domingo.
Elizabeth Bishop:
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Elizabeth Bishop:
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
sexta-feira, março 04, 2005
Le coeur dans la main, Le goût du malheur (da suite para piano de Poulenc) e, quando a tarde caía, verde e dourada, Bach. O livro era o de ontem à tarde mas, já no seu lugar, relembreio-o, um modo de folhear. Esgotei nestas lentidões a irritação pelas obras no supermercado tornado, por via delas, terra ignota (e por isso, inóspita).
terça-feira, março 01, 2005
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Por mais que se queira, não se escapa ao barulho em volta mas, instalado já na minha nova qualidade de pré-socrático em que as recentes eleições transformaram tudo o que até agora fui, volto ao meu agradável dia-a-dia de desterrado.
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
terça-feira, fevereiro 22, 2005
O correspondente da TV5 explicava, anteontem, aos seus espectadores que a a votação no PS não correspondia a qualquer opção ideológica enm reflectia uma realidade sociológica. Tratava-se apenas de substituir um primeiro-ministro que não parecia fiável por um outro, tecnocrata mais competente para tomar as decisões que tirem o país da crise.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.
Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.
Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
Ontem, numa reportagem de rua, vi alguém feliz com a vitória do P.S. porque assim voltará o emprego - não era cargo, era emprego. A magia é isto: a transformação fanástica - fácil e a nós externa - do real.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.
sábado, fevereiro 19, 2005
Neste bom tempo há já alguma coisa de árido e de desagradavelmente grátis: não o podemos tomar como recompensa dos dias invernosos, da chuva e das ventanias e esta bonança sem tempestade cansa e entedia. O frio mesmo tem abrandado e toda esta superabundante amenidade não contribui para dissipar o spleen.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
Vi ontem, na Sic, o Doutor Medina Carreira.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
A visitar: Fundação Eça de Queiroz.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.
domingo, fevereiro 13, 2005
Antes de ir para a cama: o "post" de há pouco é ilustrativo de uma "loucura mansa" que por vezes me toma. Fico quedo, mas com optimismos malsãos: a ideia de subscrições nacionais "patrióticas" para comprar quadros ultrapassa, em delírio, as idênticas do séc. XIX que promoveram a compra de navios de guerra destinados, julga-se, a retirar à Inglaterra o domínio dos mares... Comprou-se, para isso, e daquele modo, o Adamastor, um cruzador melancólico.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.
sábado, fevereiro 12, 2005
Li aqui que a colecção que pertenceu a António Champalimaud vai sair de Portugal. Lamento muito, principalmente o Canaletto pintor de que gosto e de quem, conforme a notícia, não há qualquer tela nos museus portugueses.
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Com a noite, ontem, apareceu o spleen e, para o dissipar, mergulhei numa leitura mêcanica da correspondência de Eça, que estava ali, à mão de semear, e fui pela madrugada dentro. Acabei por recuperar a boa disposição, que veio sob a forma de uma honesta e firme sonolência, depois de muito rir com a confissão de Eça a sua Mulher de que estava bem mais preocupado com os seus negócios do que com os do país, então (1890), como agora, em estado pouco recomendável. Um pouco à frente, encontrei o relato das conversas entre El-Rei D. Carlos e Oliveira Martins em que ambos admitem a sua impotência perante a choldra. É bom reler estas coisas, para vermos que não piorámos, afinal, tanto. Não que sirva de verdadeiro consolo, mas faz-nos estar de guarda, e lembra-nos que esta gente é perigosíssima e que todos os cuidados são poucos (incluindo aqueles a ter com a carteira).
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Hoje acordei muito bem disposto e de bem comigo e foi feliz e contente que me resolvi a encarar o mundo. Banho tomado, bebia o meu café matinal enquanto espreitava o Bloomberg e a CNBC quando li a notícia: o Príncipe de Gales vai casar-se. Congratulei-me: gosto do Prícipe Carlos, partilho algumas das suas preocupações quanto à arquitectura actual e à agricultura biológica e invejo-lhe benignamente o impecável gosto para coletes; e também simpatizo com a futura Duquesa da Cornualha que me parece quintessencialmente britânica e continua a fumar desalmadamente, indiferente ao ditatorialmente correcto.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Quarta-feira de Cinzas. Entre o anúncio da vida que volta (há minúsculos rebentos na cerejeira em frente da janela) a proclamação da brevidade da contingência, da vaidade, do culto do acessório. O Vanitas vanitatum et omnia vanitas do Ecclesiastes não é uma sentença condenatória mas um convite ao essencial que está em nós, mas para além de tudo e do que sabemos mais facilmente amar - ritos diários, apegos, os hábitos (mesmo o de ser "deste" modo) onde nos incrustamos.
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Charlotte e JAC, tornados em albergues de micróbios, lamentam-se. O Impensável estima, a ambos, as melhoras e lembra-lhes Álvaro de Campos:
"Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Doi-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina"
"Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Doi-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina"
sexta-feira, fevereiro 04, 2005
Maria Filomena Mónica adverte sempre que o séc. XIX que vemos através de Eça não era tão sombrio como este o pintou. MFM diz isto um pouco por ser verdade, outro tanto por fidelidade à sua paixão por Fontes Pereira de Melo. Hoje li o artigo de Vasco Pulido Valente - que creio, será uma das luzes a que daqui a um século se verá e julgará o Portugal de hoje e pergunto-me por quem se poderá retrospectivamnete apaixonar uma bisneta de MFM para que sinta sempre a necessidade de dizer a quem se prepare para ler então VPV: "mas tenha algum cuidado, eles não eram assim tão maus, não era «tão assim» como ele diz".
P.S. O "debate" de ontem foi pouco divertido. Essencialmente tratou-se de ouvir "murmúrios na multidão em forma de hamburguer para dois violões"
P.S. O "debate" de ontem foi pouco divertido. Essencialmente tratou-se de ouvir "murmúrios na multidão em forma de hamburguer para dois violões"
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Leio no Público, no "Dicionário de Campanha" de JPP o verbete Educação e formação profissional que, segundo o autor, primam pela ausência. Tem razão. O mais triste é que podem estar ausentes sem que, aparentemente, a gente estranhe ou se incomode. Eu não estranho: para mim, é já uma certeza que Portugal falhou, no essencial, a aproximação à Europa. A aversão ao risco é uma evidência e o sistema de ensino forma gente acomodada e que, acima de tudo, dependa "disto" assim como está. Que tudo tenha um ar mais "europeu e modernaço" é um facto. Mas é uma espuma ténue, à superfície. Portugal continua arcaico, pesado, dominado por inércias rurais: idolatra-se o estado, dele se espera, afinal, tudo - e neste tudo, o emprego (ou o subsídio, para os mais "arrojados"). E nisto, neste esperar pela benesse, pela arrumação nalgum "lugar que vai abrir agora" há, pelo menos, alguma sinceridade. Mas dispensa a "formação profissional".
Releio o post anterior e suspeito-me de amolecimento cerebral. Preciso ir arejar. Mas onde??? Viajar tornou-se um tique quase insuportável, não há ninguém que não tenha acabado de chegar não sei de onde e pronto a contar-nos as suas "impressões", quer queiramos quer não. É uma praga que, espero bem, a crise económica atenue.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Recebi, com uma antecedência enorme, o meu novo cartão de crédito 2005/2007.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Fevereiro, Março e Abril, a minha "Lord Emsworth's season" - se é possível destacar algo que se pareça com uma season do meu insípido e monótono quotidiano.
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
terça-feira, fevereiro 01, 2005
De tempos a tempos, faço uma visita ao Barnabé e hoje, nem de propósito: encontrei um post assinado por joaomacdonald em que se interroga por que o motivo a "direita" (aspas minhas) "não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país (...) da monarquia".
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
segunda-feira, janeiro 31, 2005
Ontem vi as imagens das eleições no Iraque e, embora partilhe algumas das reservas do Doutor Pulido Valente sobre a exportação da democracia, pareceu-me um enorme êxito. O silêncio das esquerdas reforçou a minha ideia. As esquerdas parecem alimentarem-se da desilusão e do desastre. Ontem, o repasto foi pobre.
Numa destas noites frias de Janeiro andava eu pela net quando encontrei o anúncio de pequeno livro, uma recolha de perto de 100 cartas escritas durante e depois da II Guerra Mundial por uma senhora de Hastings, Inglaterra, a umas suas distantes parentes canadianas. Encomendei, chegou passados dois dias. A história que rodeia a publicação do livro é, em si mesma, "nética": a possuidora das cartas quis saber se havia parentes próximos da autora, em Inglaterra, e recorreu a um "site" da cidade de onde tinham sido expedidas. Uma interessada em "coisas da II Guerra" solicitou acesso às cartas e acabou por obter licença para as publicar. As cartas estão publicadas "a seco": não há qualquer estudo biográfico de quem as escreve. Consistem elas em agradecimentos calorosos e com algum humor dos pacotes de géneros enviados do Canadá para a autora e duas amigas com quem partilhava a casa. A correspondência prolonga-se por mais de 10 anos e ficamos a saber, muito sucintamente, de doenças e da morte dessas suas companheiras e da fragilidade física e mental, cada vez maior, da agradecida autora. A última carta não faz já qualquer sentido e somos informados, numa nota, que morreu pouco depois de a ter escrito.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Parece que já esquecemos tudo e que a fina película que nos separa da mais atroz barbárie foi calcada bem fundo pelas boas intenções e pelo "progresso da civilização". Não foi. Está à flor da pele, da nossa pele, pequena ruga disfarçada por uma ténue membrana cosmética.
Isto, a propósito de Auschwitz.
Isto, a propósito de Auschwitz.
quinta-feira, janeiro 27, 2005
A noite desce
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
terça-feira, janeiro 25, 2005
Lembro-me de ler história do séc. XIX e dos inícios do séc. XX e interrogar-me (era novo e ingénuo) como era possível tamanha barafunda, tão completa balbúrdia. Acreditava que tudo - o atraso, em suma - se devia à pobreza, à falta de cultura (assim mesmo), ao afastamento dos grandes centros europeus, ao isolamento.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
Acordei estremunhado, uma bochecha vincada pela lombada agreste de um péssimo romance histórico que comprei num acesso de idiotia e sobre o qual adormeci, vencido pela acção atulhada de pitoresco didáctico, e apercebi-me de que, além do mais, estava com calor. Vim até aqui, para consultar as informações locais de metereologia, e verifico estão 5ºC, temperatura normal para esta época. Creio que esta tão publicitada vaga de frio vai ser um enorme fiasco, dez graus negativos (prometia ontem um apresentador aparvalhado)... Todo esse frio está, simplemente, creio, acima das nossas posses.
Entusiasta do frio, melhor, dos confortos de que nos rodeamos para dele nos protegermos, aqui estou de braseira acesa, fogão da sala cheio de lenha, aquecedores vários, bolo de noz e chá fumegante, esperando.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
quinta-feira, janeiro 20, 2005
"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Há por essas prosas de agora, creio, mormente nas portuguesas, um tom de neutro lamento que devemos levar, como da leitura delas depois se infere, à conta de sábia e distante sapiência das coisas do mundo.Essa sensatez recolhida e mansa irrita-me, não acredito nela e preciso de pensar que é apenas mais uma moda, a da escrita de agora para vencer uma crescente irritação (pior é quando encontro esse tique - e canhestramente - no que escrevo). Hoje vou ler Maîstre. Ávido de sangue e raiva, eis como me puseram as boas intenções (mesmo que puramente convencionais) do alfandegário literato "nada a declarar".
A palavra do dia: curmudgeon.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
terça-feira, janeiro 18, 2005
Do programa da televisão de que vi um pouco (prós e contras?) se retira, através do dito por Soares, Freitas do Amaral, Adriano Moreira e, creio, Balsemão, que não é a altura oportuna para mudar a lei eleitoral. Certamente que agora, com a AR dissolvida não é, e creio que ninguém queria significar por "agora" "nesta precisa ocasião" mas em Portugal está-se sempre de acordo em que "agora" não é a altura oportuna. Foi assim com o escandaloso código de processo penal, foi assim com a (não) revisão do regime do arrendamento e assim será com tudo o que incomode e doa. Portugal foi o país europeu em que o PNB menos cresceu entre 1850 e 1913, época que, em grande parte, decorreu sob regimes parlamentares. Todos os outros países, nessa mesma época, duplicaram (alguns quase triplicaram) o rendimento per capita, mantendo-se o nosso quase na mesma (apenas + 45 dolares!). Não se pense, porém, que esse período foi mau. Pelo contrário, foi o do fontismo: construção dos caminhos de ferro, infra-estruras, etc, etc. O que aconteceu, é que, para além das obras públicas, teriam sido necessárias outras medidas e nunca foi o momento oportuno. Até hoje, como se vê...
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Utilidade de ter este blog mais de um ano: ir ver o que escrevi há um ano atrás...
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
domingo, janeiro 16, 2005
Joe Dunne
Uma tarde bonita. O vento fez-me perceber que passou já aquele tempo de recolhimento da natureza (Rilke) que podemos percebemos de finais de Novembro a princípios de Janeiro.
Ainda não é a ante-primavera, também rilkeana, que aparece por vezes em Fevereiro, agreste, com rajadas de sueste e aguaceiros, mas o perfeito silêncio já lá vai.
Erramos sobre a nossa simplicidade ou sobre a nossa complicação e depois de o admitirmos um dia, depois da admissão desse erro inocente e grosseiro cometido há muito tempo - por inexperiência, imperícia, falta de destreza - mentimo-nos piedosamente um caminho de volta.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
quarta-feira, janeiro 12, 2005
Um brouhaha intenso, irredutível a qualquer sentido, melhor, a qualquer local - se a etimologia hebraica é a verdadeira, seria, ao menos, o ruído da esperança de uma diferença, (hoje uma esperança esquecida em nome do gosto mesmo do "estar aqui" atopicamente) - e espera-se que colaboremos tanto nele que o silêncio é visto como uma jactância, uma omissão premeditada, uma coreografia de reserva mental. Neste blog, além da mera preguiça, do puro desleixo, do deixa andar, não se renunciará ao silêncio. Grandiloquências de quarta-feira à tarde, antigos tempos de actividades circum-escolares, sei, mas fica dito.
terça-feira, janeiro 11, 2005
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
segunda-feira, janeiro 10, 2005
Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
domingo, janeiro 09, 2005
Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
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