terça-feira, março 29, 2005

Insónia. Passeios ingleses pela net: a batalha de Hastings, mapas da dita, testemunhos de quem vive perto do campo onde se travou, dezenas de sites de trivialidades locais, típicas de países alfabetizados.
Parabéns indesculpavelmente atrasados ao Contra a Corrente por mais um aniversário.
Embora a falta seja indesculpável, não se deixa de enviar, lampeiro, um pedido de desculpas...

segunda-feira, março 28, 2005

Neblina. Depois de três meses de impossível nitidez descanso os olhos, os nervos, a alma, na tarde que se dissolve.

quarta-feira, março 23, 2005

Boa Páscoa!
Para distinguir o essencial do secundário deste tempo volto a recomendar Marguerite Yourcenar, "Sequência de Páscoa" (cito de memória).

terça-feira, março 22, 2005

A propósito do "Medo de Existir" de Gil, leia-se Pascoaes "O bom senso nacional conciliou o culto divino e o maléfico. Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal.(...) Este bom senso deriva do nosso carácter espiritual e sensual. E eis a nossa comédia que se opõe, retemperando-o, ao trágico aspecto da nossa alma, dominada pelo Medo misterioso... Ao Medo, que é também o Demónio, prestamos um culto corruptor. No seu altar fantástico retine o cobre da nossa esmola..."
Linkaram este blog o Berra Boi, o Demonpoet, o Ávido e o Reflections, Reflections. A todos o Impensavel agradece, muito oobrigado.
From Invisible, Hidden Corners of the Earth... thank you for the quote.

segunda-feira, março 21, 2005

Folheei o "Portugal hoje, O medo de existir" de José Gil que tinha encomendado há mais de um mês e recebi hoje.
Entre observações sagazes, generalizações do provincianismo de Paris e arredores sobre o provincianismo de Lisboa e arredores (algumas delas, válidas para quaisquer outros arredores, a gente fica a pensar no porquê da sua atribuição a Portugal).
Mas lerei com atenção.

sábado, março 19, 2005

Algumas gotas de chuva e o artigo de VPV sobre a direita em Portugal. É, de facto, difícil ser conservador. E - isto é um supôr - volvendo ao século XIX parlamentar, não creio que lá haja nada de particularmente inspirador.

sexta-feira, março 18, 2005

O vento virou para noroeste e o dia, que estava de um cinza denso e opressivo tornou-se mais alegre.
No regresso a casa o silêncio incompleto e intacto de tudo estar como tinha deixado quando saí.
Logo, não, amanhã, telefono a saber de melhoras, como quem não quer a coisa.
A empregada telefonou há bocado a dizer que amanhã (hoje, sexta) não pode vir, que está com gripe, "que não se tem de pé". A voz pareceu-me deliberadamente débil, estudada para desencorajar qualquer tentativa entusiastica de a animar - "não nos devemos deixar ir a baixo por nadas. E até amanhã há-de melhorar! Cá a espero, não venha é tão cedo". Pode ser que sim, que esteja de facto engripada, mas não ponho de lado a possibilidade de uma ida ao noroeste brasileiro. De um modo ou outro, amanhã, roupa da cama para mudar. Uma seca!

quinta-feira, março 17, 2005

Ontem, uns senhores muito irritados a propósito das declarações do Doutor Victor Constâncio sobre as Scuts (acho que se escreve assim). Não percebo a irritação: ele é socialista e socialista é a maioria tão abundantemente eleita. E os socialistas sobem impostos. Esperavam outra coisa?

Por socialistas: o Dr. Mário Soares recebeu uma delegação do Herri Batasuma, o braço legal da ETA, organização terrorista. Houve protestos do partido popular europeu que, entre outras coisas, achou o acto pouco digno de um ex-presidente. Mas o Dr. Soares, quando era presidente , não resolveu visitar um foragido da justiça italiana, o ex-primeiro-ministro socialista Craxi, a meio de uma viagem oficial e usando para isso um avião ao serviço do estado português? As pessoas esquecem...
Apenas a mim tudo parece estar proíbido, mesmo o prazer triste de ler maus livros: confessei aqui ter passado os olhos pelo "Código Da Vinci" e logo o Vaticano, que até aqui tinha estado calado, achou ser chegada a altura de desaconselhar a leitura por o livro ser um "château de mésonges" li a notícia - poderia dizer, a admoestação - em francês. Percebi, de imediato, que a crítica me era dirigida e, escusada por tardia, apenas para me fazer sentir mal. Contrito, prometo não ler outros em iguais circunstâncias.
A reacção paterna do Vaticano se bem que algo assustadora, confirmou o que há tempos eu suspeitava: que tinha leitores - pelo menos um - na Cúria.
Muito agradeço, e sempre direi, Eminência, que "château de mésonges" é por demais majestoso para a obra a questão: pardieiro de vulgaridades seria mais adequado.

P.S.Para ralhos futuros lembro a Vª Eminência o uso do meu e-mail. Que não se alvoroce o mundo pelos meus pecadilhos, pelas minhas leviandades.

quarta-feira, março 16, 2005

De um bilhete de Proust e Paulo Morand:

"Tudo quanto posso dizer-lhe é que amanhã, sábado, irei provavelmente levantar-me, ou então depois de amanhã, domingo. Se eu me levantar amanhã, sábado, mandar-lhe-ei dizer que não poderei certamente levantar-me no domingo. Se amanhã, sábado, eu não me levantar (o que não quer dizer que não venha a fazê-lo, com certeza no domingo) ignoro se estarei em condições de me levantar no domingo..."

segunda-feira, março 14, 2005

Ontem tinha colocado aqui umas impressões sobre o "Código da Vinci" que resolvi ler para saber o que faz o sucesso, hoje em dia. Acabei por apagar.
Tão cedo não repetirei a graça de ler um best-seller.

Dia péssimo e irritante, o cinzento sem chuva torna-se desagradável. Aliás, além do tempo, todo o país está desagradável. Compreendo bem todos os que esperam a Páscoa para se precipitarem para fora "disto", mesmo com o regresso da recessão.

domingo, março 13, 2005

Linkaram este blog o "A vida é larga", o "Inoportunus" e o "Pé de Meia".
Muito obrigado, o Impensavel agradece.
De igual modo, se agradece, com igual reconhecimento, ao Posto de Escuta a referência de um post.

sexta-feira, março 11, 2005

Quarta-Feira estive em Lisboa para tratar de assuntos - fúteis, todos eles.
Saído do alfaiate, fui almoçar à Bénard. À saída, uma manifestação anti-Benetton. Subi e desci a ladeira com algum cansaço, entre o Silvas e a Fnac: as poses de dedicada acrobacia em frente às estantes levaram-me a algumas meditações sobre os limites, se não da curiosidade literária, do esqueleto humano; agora pratico com os
livros o que estabeleci para compras de supermercado: compro o que está à vista, à altura dos olhos.
Rumei para outras paragens a ver se a colónia já tinha chegado: que não, o "parfum" ainda não viera. Não é "parfum" nenhum, mas uma colónia,inglesa e sensata, empírica como a estética de Jane Austen (vd. último TLS), raios partam a possidonice que campeia em má e pretensiosa pronúncia. Depois daquela, precisava de um banho de sensibilidade e bom senso e resolvi que, com Abril à porta, se impunha escolher algumas camisas. Decidi-me por umas tantas, alegres e bem dispostas e o único momento desagradável foi o decidir se sem ou quem bolso e o formato do colarinho, em que hesito sempre para além do razoável.
A viagem para cá foi agradável, sobretudo rápida, e mergulhei até cair de sono na leitura dos "Diários" de Jorge de Sena. Ontem, fiquei todo o dia na contemplação feliz de, em princípio, nada ter para fazer em Lisboa nos próximos tempos.
Esqueci-me de ver se tinha já saído a edição do D. Quixote traduzida pelo Miguel Serras Pereira. A que tenho é a do Aquilino e as criticas que a ela fez Castelo Branco Chaves pareceram-me sempre certeiras.

terça-feira, março 08, 2005


Eis as "cerejeiras" de que tenho falado.

Ontem, acabei por preterir São Francisco em favor da História de Portugal do O.M. Adormeci tarde, no reinado de D. Sancho I, mas fiz uma incursão ao sarau em casa do Marquês de Marialva, no tempo de D. Maria I e que Eça usa para atazanar o Pinheiro Chagas. Aconselho a leitura - do O.M e da polémica de Eça.

segunda-feira, março 07, 2005

As cerejeiras - não são, em boa verdade, cerejeiras, mas parentas próximas - estão em flor. O efeito é bonito, embora quase um pouco kitsch, fazendo lembrar algumas capas mais optimistas das edições paulistas, os ramos carregados de branco recortados no céu muito azul.
Vou aproveitar a tarde para continuar a ler uma Vida de S. Francisco de Assis que comprei há uns tempos.

domingo, março 06, 2005

Tornei-me desajeitado na arte de passar a salvo (digo isto por dizer) as tarde descampadas e ermas dos domingos de província, perco-me em macambúzias contagens de coisas perdidas. Mas perder coisas é tão natural, que é, convenço-me, um bom modo, afinal, de passar tardes de domingo.

Elizabeth Bishop:

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

sexta-feira, março 04, 2005

Le coeur dans la main, Le goût du malheur (da suite para piano de Poulenc) e, quando a tarde caía, verde e dourada, Bach. O livro era o de ontem à tarde mas, já no seu lugar, relembreio-o, um modo de folhear. Esgotei nestas lentidões a irritação pelas obras no supermercado tornado, por via delas, terra ignota (e por isso, inóspita).

terça-feira, março 01, 2005

O que sentimos

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos.
Claro, o inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.

Ricardo Reis
- Ainda fica?
- Não, não, creio que vou para casa.
- Ah, ainda bem que também vem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Tarde áspera, em trazer o vento algumas flores se pressente a rudeza do começo da primavera, a severidade da cria, a brutalidade do recém-chegado.
Eu, por mim, "...oiço passar o vento, /E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."

sexta-feira, fevereiro 25, 2005



Sexta-feira, dia de limpezas, lavo os olhos neste Cézanne
(pertença do MOMA, Nova York.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Por mais que se queira, não se escapa ao barulho em volta mas, instalado já na minha nova qualidade de pré-socrático em que as recentes eleições transformaram tudo o que até agora fui, volto ao meu agradável dia-a-dia de desterrado.
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Acabo de saber que Sócrates foi um entusiasta da realização do campeonato da bola "Euro 2004". Relembro a entrevista de Medina Carreira e preparo-me para o pior.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Aí também está a trovejar?
O correspondente da TV5 explicava, anteontem, aos seus espectadores que a a votação no PS não correspondia a qualquer opção ideológica enm reflectia uma realidade sociológica. Tratava-se apenas de substituir um primeiro-ministro que não parecia fiável por um outro, tecnocrata mais competente para tomar as decisões que tirem o país da crise.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.

Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Ontem, numa reportagem de rua, vi alguém feliz com a vitória do P.S. porque assim voltará o emprego - não era cargo, era emprego. A magia é isto: a transformação fanástica - fácil e a nós externa - do real.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.

sábado, fevereiro 19, 2005

Neste bom tempo há já alguma coisa de árido e de desagradavelmente grátis: não o podemos tomar como recompensa dos dias invernosos, da chuva e das ventanias e esta bonança sem tempestade cansa e entedia. O frio mesmo tem abrandado e toda esta superabundante amenidade não contribui para dissipar o spleen.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Vi ontem, na Sic, o Doutor Medina Carreira.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

A visitar: Fundação Eça de Queiroz.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.

domingo, fevereiro 13, 2005

Antes de ir para a cama: o "post" de há pouco é ilustrativo de uma "loucura mansa" que por vezes me toma. Fico quedo, mas com optimismos malsãos: a ideia de subscrições nacionais "patrióticas" para comprar quadros ultrapassa, em delírio, as idênticas do séc. XIX que promoveram a compra de navios de guerra destinados, julga-se, a retirar à Inglaterra o domínio dos mares... Comprou-se, para isso, e daquele modo, o Adamastor, um cruzador melancólico.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.

sábado, fevereiro 12, 2005

Li aqui que a colecção que pertenceu a António Champalimaud vai sair de Portugal. Lamento muito, principalmente o Canaletto pintor de que gosto e de quem, conforme a notícia, não há qualquer tela nos museus portugueses.
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Com a noite, ontem, apareceu o spleen e, para o dissipar, mergulhei numa leitura mêcanica da correspondência de Eça, que estava ali, à mão de semear, e fui pela madrugada dentro. Acabei por recuperar a boa disposição, que veio sob a forma de uma honesta e firme sonolência, depois de muito rir com a confissão de Eça a sua Mulher de que estava bem mais preocupado com os seus negócios do que com os do país, então (1890), como agora, em estado pouco recomendável. Um pouco à frente, encontrei o relato das conversas entre El-Rei D. Carlos e Oliveira Martins em que ambos admitem a sua impotência perante a choldra. É bom reler estas coisas, para vermos que não piorámos, afinal, tanto. Não que sirva de verdadeiro consolo, mas faz-nos estar de guarda, e lembra-nos que esta gente é perigosíssima e que todos os cuidados são poucos (incluindo aqueles a ter com a carteira).

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

O Tasca da cultura linkou o Impensavel que, muito obrigado, agradece.
Hoje acordei muito bem disposto e de bem comigo e foi feliz e contente que me resolvi a encarar o mundo. Banho tomado, bebia o meu café matinal enquanto espreitava o Bloomberg e a CNBC quando li a notícia: o Príncipe de Gales vai casar-se. Congratulei-me: gosto do Prícipe Carlos, partilho algumas das suas preocupações quanto à arquitectura actual e à agricultura biológica e invejo-lhe benignamente o impecável gosto para coletes; e também simpatizo com a futura Duquesa da Cornualha que me parece quintessencialmente britânica e continua a fumar desalmadamente, indiferente ao ditatorialmente correcto.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Quarta-feira de Cinzas. Entre o anúncio da vida que volta (há minúsculos rebentos na cerejeira em frente da janela) a proclamação da brevidade da contingência, da vaidade, do culto do acessório. O Vanitas vanitatum et omnia vanitas do Ecclesiastes não é uma sentença condenatória mas um convite ao essencial que está em nós, mas para além de tudo e do que sabemos mais facilmente amar - ritos diários, apegos, os hábitos (mesmo o de ser "deste" modo) onde nos incrustamos.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005


Pablo Picasso, Arlequin, 1923
Charlotte e JAC, tornados em albergues de micróbios, lamentam-se. O Impensável estima, a ambos, as melhoras e lembra-lhes Álvaro de Campos:

"Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Doi-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina"

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Maria Filomena Mónica adverte sempre que o séc. XIX que vemos através de Eça não era tão sombrio como este o pintou. MFM diz isto um pouco por ser verdade, outro tanto por fidelidade à sua paixão por Fontes Pereira de Melo. Hoje li o artigo de Vasco Pulido Valente - que creio, será uma das luzes a que daqui a um século se verá e julgará o Portugal de hoje e pergunto-me por quem se poderá retrospectivamnete apaixonar uma bisneta de MFM para que sinta sempre a necessidade de dizer a quem se prepare para ler então VPV: "mas tenha algum cuidado, eles não eram assim tão maus, não era «tão assim» como ele diz".

P.S. O "debate" de ontem foi pouco divertido. Essencialmente tratou-se de ouvir "murmúrios na multidão em forma de hamburguer para dois violões"

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

O Epicurtas linkou este blog.
O Impensavel agradece, muito obrigado.
Leio no Público, no "Dicionário de Campanha" de JPP o verbete Educação e formação profissional que, segundo o autor, primam pela ausência. Tem razão. O mais triste é que podem estar ausentes sem que, aparentemente, a gente estranhe ou se incomode. Eu não estranho: para mim, é já uma certeza que Portugal falhou, no essencial, a aproximação à Europa. A aversão ao risco é uma evidência e o sistema de ensino forma gente acomodada e que, acima de tudo, dependa "disto" assim como está. Que tudo tenha um ar mais "europeu e modernaço" é um facto. Mas é uma espuma ténue, à superfície. Portugal continua arcaico, pesado, dominado por inércias rurais: idolatra-se o estado, dele se espera, afinal, tudo - e neste tudo, o emprego (ou o subsídio, para os mais "arrojados"). E nisto, neste esperar pela benesse, pela arrumação nalgum "lugar que vai abrir agora" há, pelo menos, alguma sinceridade. Mas dispensa a "formação profissional".
Que espantosa tarde! Olhei - pela primeira vez, este ano - para a cerejeira, mas nada: o silêncio é total, tudo se passa ainda longe de nós.
Releio o post anterior e suspeito-me de amolecimento cerebral. Preciso ir arejar. Mas onde??? Viajar tornou-se um tique quase insuportável, não há ninguém que não tenha acabado de chegar não sei de onde e pronto a contar-nos as suas "impressões", quer queiramos quer não. É uma praga que, espero bem, a crise económica atenue.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Recebi, com uma antecedência enorme, o meu novo cartão de crédito 2005/2007.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Fevereiro, Março e Abril, a minha "Lord Emsworth's season" - se é possível destacar algo que se pareça com uma season do meu insípido e monótono quotidiano.
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."

terça-feira, fevereiro 01, 2005

De tempos a tempos, faço uma visita ao Barnabé e hoje, nem de propósito: encontrei um post assinado por joaomacdonald em que se interroga por que o motivo a "direita" (aspas minhas) "não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país (...) da monarquia".
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.

Há 97 anos, no dia 1 de Fevereiro de 1908, foram assassinados El-Rei D. Carlos e o Príncipe Real, D. Luís Filipe.
O Rei D. Carlos I era um artista e um homem de ciência, culto e cosmopolita.

Os políticos de então, esses, eram mais ou menos como os de hoje.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Ontem vi as imagens das eleições no Iraque e, embora partilhe algumas das reservas do Doutor Pulido Valente sobre a exportação da democracia, pareceu-me um enorme êxito. O silêncio das esquerdas reforçou a minha ideia. As esquerdas parecem alimentarem-se da desilusão e do desastre. Ontem, o repasto foi pobre.
Numa destas noites frias de Janeiro andava eu pela net quando encontrei o anúncio de pequeno livro, uma recolha de perto de 100 cartas escritas durante e depois da II Guerra Mundial por uma senhora de Hastings, Inglaterra, a umas suas distantes parentes canadianas. Encomendei, chegou passados dois dias. A história que rodeia a publicação do livro é, em si mesma, "nética": a possuidora das cartas quis saber se havia parentes próximos da autora, em Inglaterra, e recorreu a um "site" da cidade de onde tinham sido expedidas. Uma interessada em "coisas da II Guerra" solicitou acesso às cartas e acabou por obter licença para as publicar. As cartas estão publicadas "a seco": não há qualquer estudo biográfico de quem as escreve. Consistem elas em agradecimentos calorosos e com algum humor dos pacotes de géneros enviados do Canadá para a autora e duas amigas com quem partilhava a casa. A correspondência prolonga-se por mais de 10 anos e ficamos a saber, muito sucintamente, de doenças e da morte dessas suas companheiras e da fragilidade física e mental, cada vez maior, da agradecida autora. A última carta não faz já qualquer sentido e somos informados, numa nota, que morreu pouco depois de a ter escrito.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.

Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Parece que já esquecemos tudo e que a fina película que nos separa da mais atroz barbárie foi calcada bem fundo pelas boas intenções e pelo "progresso da civilização". Não foi. Está à flor da pele, da nossa pele, pequena ruga disfarçada por uma ténue membrana cosmética.
Isto, a propósito de Auschwitz.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

A noite desce

A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.

Alberto Caeiro.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

A gente vive a perfeita serenidade de um dia como o de hoje, límpido, azul, bom, contempla os tépidos suaves vagares da tarde à soleira da porta e vem-nos à memória o poema do ilustre estadista:

Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!

terça-feira, janeiro 25, 2005

Lembro-me de ler história do séc. XIX e dos inícios do séc. XX e interrogar-me (era novo e ingénuo) como era possível tamanha barafunda, tão completa balbúrdia. Acreditava que tudo - o atraso, em suma - se devia à pobreza, à falta de cultura (assim mesmo), ao afastamento dos grandes centros europeus, ao isolamento.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.

Acordei estremunhado, uma bochecha vincada pela lombada agreste de um péssimo romance histórico que comprei num acesso de idiotia e sobre o qual adormeci, vencido pela acção atulhada de pitoresco didáctico, e apercebi-me de que, além do mais, estava com calor. Vim até aqui, para consultar as informações locais de metereologia, e verifico estão 5ºC, temperatura normal para esta época. Creio que esta tão publicitada vaga de frio vai ser um enorme fiasco, dez graus negativos (prometia ontem um apresentador aparvalhado)... Todo esse frio está, simplemente, creio, acima das nossas posses.
Entusiasta do frio, melhor, dos confortos de que nos rodeamos para dele nos protegermos, aqui estou de braseira acesa, fogão da sala cheio de lenha, aquecedores vários, bolo de noz e chá fumegante, esperando.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Cumprido o dever cívido de hoje - leitura de VPC, MFM (que, mais uma vez fala da Fontes Pereira de Melo... sigo esta paixão já serôdia mas ainda escandalosa, há anos) e JBC inicio o fim-de-semana ao sol.
Linkaram este "blog" o Ávido e o Cegos, Mudos e Surdos.
O Impensavel agrade, muito obrigado.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
Que lindeza de dia! Que azul tão vasto e leve, que paz e serenidade, que bonomia divina.
Que pachorrenta divindade preside a estas horas?

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Há por essas prosas de agora, creio, mormente nas portuguesas, um tom de neutro lamento que devemos levar, como da leitura delas depois se infere, à conta de sábia e distante sapiência das coisas do mundo.Essa sensatez recolhida e mansa irrita-me, não acredito nela e preciso de pensar que é apenas mais uma moda, a da escrita de agora para vencer uma crescente irritação (pior é quando encontro esse tique - e canhestramente - no que escrevo). Hoje vou ler Maîstre. Ávido de sangue e raiva, eis como me puseram as boas intenções (mesmo que puramente convencionais) do alfandegário literato "nada a declarar".

A palavra do dia: curmudgeon.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Do programa da televisão de que vi um pouco (prós e contras?) se retira, através do dito por Soares, Freitas do Amaral, Adriano Moreira e, creio, Balsemão, que não é a altura oportuna para mudar a lei eleitoral. Certamente que agora, com a AR dissolvida não é, e creio que ninguém queria significar por "agora" "nesta precisa ocasião" mas em Portugal está-se sempre de acordo em que "agora" não é a altura oportuna. Foi assim com o escandaloso código de processo penal, foi assim com a (não) revisão do regime do arrendamento e assim será com tudo o que incomode e doa. Portugal foi o país europeu em que o PNB menos cresceu entre 1850 e 1913, época que, em grande parte, decorreu sob regimes parlamentares. Todos os outros países, nessa mesma época, duplicaram (alguns quase triplicaram) o rendimento per capita, mantendo-se o nosso quase na mesma (apenas + 45 dolares!). Não se pense, porém, que esse período foi mau. Pelo contrário, foi o do fontismo: construção dos caminhos de ferro, infra-estruras, etc, etc. O que aconteceu, é que, para além das obras públicas, teriam sido necessárias outras medidas e nunca foi o momento oportuno. Até hoje, como se vê...

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Utilidade de ter este blog mais de um ano: ir ver o que escrevi há um ano atrás...
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.

domingo, janeiro 16, 2005


Joe Dunne

Uma tarde bonita. O vento fez-me perceber que passou já aquele tempo de recolhimento da natureza (Rilke) que podemos percebemos de finais de Novembro a princípios de Janeiro.
Ainda não é a ante-primavera, também rilkeana, que aparece por vezes em Fevereiro, agreste, com rajadas de sueste e aguaceiros, mas o perfeito silêncio já lá vai.



Erramos sobre a nossa simplicidade ou sobre a nossa complicação e depois de o admitirmos um dia, depois da admissão desse erro inocente e grosseiro cometido há muito tempo - por inexperiência, imperícia, falta de destreza - mentimo-nos piedosamente um caminho de volta.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Um brouhaha intenso, irredutível a qualquer sentido, melhor, a qualquer local - se a etimologia hebraica é a verdadeira, seria, ao menos, o ruído da esperança de uma diferença, (hoje uma esperança esquecida em nome do gosto mesmo do "estar aqui" atopicamente) - e espera-se que colaboremos tanto nele que o silêncio é visto como uma jactância, uma omissão premeditada, uma coreografia de reserva mental. Neste blog, além da mera preguiça, do puro desleixo, do deixa andar, não se renunciará ao silêncio. Grandiloquências de quarta-feira à tarde, antigos tempos de actividades circum-escolares, sei, mas fica dito.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...

Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.

domingo, janeiro 09, 2005

Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

O "Os músculos de um mar que já foi gente" linkou o Impensavel que agradece, muito obrigado.
A volta aos jornais: continuam as palermices francesas. É difícil para a França perceber que não passa de uma potência regional e sovina.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.

Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Leio uns artigos sobre o acordo ortográfico e penso no que deu a arrogância e novo riquismo de meia dúzia de "sábios" positivistas republicanos no início do século passado: uma língua com duas ortografias, como não sucede com nenhuma outra no mundo e, quase um século depois, dois países com altos índices de analfabetismo. Condiz com tudo o resto, sei, mas é triste.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost, The road not taken


segunda-feira, janeiro 03, 2005

A falta de confiança que os portugueses têm neles mesmos tem um estranho, perverso reverso: a confiança no estado e uma crença quase infantil no poder da lei para moldar a realidade ou, pelo menos, para a escamotear, para ir adiando a débacle e ir compondo o que já não tem arranjo.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.

domingo, janeiro 02, 2005

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Na minha abrigada varanda, voltada a sul, nestes dias tépidos e soalheiros falta quem lá se sente a aquecer-se ao sol. Uma criada velha que lá remendasse uma pano quase sem préstimo e se lavantasse depois, lá pelas quatro e meia, por se irem aproximando as horas do lanche.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Com algum espanto noto assomos de indignação quanto às falhas do estado português na assistência aos portugueses no Sudoeste asiático.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Linkaram este blog o Olhos Azuis , o Monodia , o Vacalhum e o Batata Quente .
O Impensavel agradece, muito obrigado.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Post em que vociferava apagado.
Não quero atulhar - macular - de ruídos inúteis este dia ermo.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Esta semana, entre Natal e Ano Bom, no côncavo do tempo, uso-a em nadas: abrir livros, folhear outros, andar aqui por casa de um lado para o outro, em conversas-paisagem com amigos que esmoem o festim e o tempo, à lareira ou à roda da braseira. (E é tudo o que faço). Depois, em Janeiro, já não é assim, a curvatura dos dias perde a perfeita serenidade, pressente-se o esgar escrupuloso e duro do início.

quinta-feira, dezembro 23, 2004



Christmas Gifts: Daylight and Dawn, Eric Gill, c. 1913,
Tate Gallery

Um Santo e Feliz Natal!


terça-feira, dezembro 21, 2004

O Inverno começou hoje.





Estava a começar a escrever um post para contar o que se passou comigo enquanto lia, ontem, já na cama, o "Vinte horas de liteira" - o que se passou foi ter-me esquecido do copo da água, o que me obrigou a percorrer um gélido corredor, uma entrada cavernosa e outro corredor onde o frio mais inclemente reinava, isto com algumas peripécias insignificantes pelo meio mas que tencionava contar - quando me apercebo da tão agradável menção que o Contra a Corrente quis fazer a este blog.
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
"A distinguish bishop, a priest and a peasant are in a great cathedral. In turn the priest and bishop approach the altar rail, beat their chests and declare, «I'm nothing, I'm nothing». The humble peasant, moved to imitate, shuffles to the altar and says the same thing. The bishop turns furiously and hisses the priest's ear, «Who the hell does he think he is?»"

No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Consegui tratar de tudo em Lisboa entre o meio-dia e as quatro da tarde. Espero que não ser obrigado a sair daqui senão depois do Ano Novo. Para estes dias ambiciono o sossego silencioso das conchas em volta.
Egoísmo pacato, mas egoísmo quand même bem sei.

sábado, dezembro 18, 2004

Gostaria de dizer que corei como um sentimental general inglês ao saber que esta Senhora gosta tanto deste blog e que com toda a simpatia e despacho o diz, que ficara eu com isso très ému - presque -, que...
Mas fiquei assim, assim é que foi que fiquei:



quinta-feira, dezembro 16, 2004

Valha-nos o azul imenso, quase abençoadamente demasiado
que, por baixo dele, aqui, tudo é de menos.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Outro dia magnífico.
Acredito em Parménides:
"[...]
Não foi um mau destino que te enviou a viajar" E "aprender [...] o coração inabalável da realidade fidedigna" um convite que relembra em mim diligências antigas.
É do sol, do azul e da nitidez da aragem branda.

(O poema fui buscá-lo ao "Antes de Sócrates" de Trindade Santos)

terça-feira, dezembro 14, 2004

Onde se finca o ponto fixo ao redor do qual giramos, edificamos, recuamos, avançamos, cedemos, damos, recebemos, tememos e ameaçamos?
Cioran - que, creio, estou a a parafrasear nesta tarde de Outono perfeito - crê na necessidade de renunciarmos ao apoio sobre qual construimos tudo, que abandonemos essa terra firma e vagueemos.
O mais que consigo nos melhores momentos - em dias como este - é sentir a dureza dessa terra, esse calo do que se é, e preferir a essa exiguidade da terra calcada a deriva para norte. Mas isso não é a ainda indiferença nem a renúncia, é um erro de método e que redunda em mero turismo ontológico.

Akseli Gallen-Kallela, 1905 Lake Keitel
National Gallery


segunda-feira, dezembro 13, 2004

Aproveito este breve surto de vontade para agradecer aos blogs que recentemente "linkaram" o Impensável:
O Boticário de província e o Nota bene.
Muito obrigado.
E a influenza, a má influência que nos põe de cama e nos desorganiza metafísicas e universos - como bem sabia Pessoa -, quando os micróbios, netos dos miasmas, se lançam sobre nós.
E no fogão o fogo crepita. O fogo crepita no fogão é um desgraçado lugar comum muito abundante em descrições dos prazeres de Inverno ou dos do espírito, se meditarmos, lermos em frente ao, ou dessas actividades formos distraídos pelo mesmo.
O que me parece injusto para tão comum lugar liteterário é a trabalheira necessária para que o fogo crepite. Encomenda da lenha, implorar para que não esteja molhada, vigiar para que fique arrumada e, depois, o pior, ir à arrecadação buscar a lenha e trazê-la escada acima. O fogo crepita? Ora vejamos: um fogo laborioso crepita. Se os meus escrúpulos em pedir à empregada que traga para cima sacas generosas de lenha persistirem, vejo-me privado da contemplação do lugar comum e, no cair frio da tarde de Inverno, resta-me, de uso ameno e caseiro, o fumegante chá. A loira torrada, a torrada dourada, também já se foi, há muito. Há alguma coisa sobre lombadas pousadas de livros, livros esquecidos sobre uma mesa ou um sofá, mas sempre os achei pouco entusiasmantes.
O que não posso decentemente é pedir à empregada, a quem dou instruções para ter cuidado com os pesos, etc, etc, que traga as preciosas sacadas de lenha, para que esta crepite no começo do texto...
Impedido da contemplação e desfrute de lugares comuns que caros me eram, e brandos - o fogo crepita brando, interessante, este - eis um side effect estranho do paternalismo nas relações laborais.