segunda-feira, março 07, 2005

As cerejeiras - não são, em boa verdade, cerejeiras, mas parentas próximas - estão em flor. O efeito é bonito, embora quase um pouco kitsch, fazendo lembrar algumas capas mais optimistas das edições paulistas, os ramos carregados de branco recortados no céu muito azul.
Vou aproveitar a tarde para continuar a ler uma Vida de S. Francisco de Assis que comprei há uns tempos.

domingo, março 06, 2005

Tornei-me desajeitado na arte de passar a salvo (digo isto por dizer) as tarde descampadas e ermas dos domingos de província, perco-me em macambúzias contagens de coisas perdidas. Mas perder coisas é tão natural, que é, convenço-me, um bom modo, afinal, de passar tardes de domingo.

Elizabeth Bishop:

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.


- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

sexta-feira, março 04, 2005

Le coeur dans la main, Le goût du malheur (da suite para piano de Poulenc) e, quando a tarde caía, verde e dourada, Bach. O livro era o de ontem à tarde mas, já no seu lugar, relembreio-o, um modo de folhear. Esgotei nestas lentidões a irritação pelas obras no supermercado tornado, por via delas, terra ignota (e por isso, inóspita).

terça-feira, março 01, 2005

O que sentimos

O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos.
Claro, o inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.

Ricardo Reis
- Ainda fica?
- Não, não, creio que vou para casa.
- Ah, ainda bem que também vem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Tarde áspera, em trazer o vento algumas flores se pressente a rudeza do começo da primavera, a severidade da cria, a brutalidade do recém-chegado.
Eu, por mim, "...oiço passar o vento, /E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."

sexta-feira, fevereiro 25, 2005



Sexta-feira, dia de limpezas, lavo os olhos neste Cézanne
(pertença do MOMA, Nova York.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Por mais que se queira, não se escapa ao barulho em volta mas, instalado já na minha nova qualidade de pré-socrático em que as recentes eleições transformaram tudo o que até agora fui, volto ao meu agradável dia-a-dia de desterrado.
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Acabo de saber que Sócrates foi um entusiasta da realização do campeonato da bola "Euro 2004". Relembro a entrevista de Medina Carreira e preparo-me para o pior.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Aí também está a trovejar?
O correspondente da TV5 explicava, anteontem, aos seus espectadores que a a votação no PS não correspondia a qualquer opção ideológica enm reflectia uma realidade sociológica. Tratava-se apenas de substituir um primeiro-ministro que não parecia fiável por um outro, tecnocrata mais competente para tomar as decisões que tirem o país da crise.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.

Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Ontem, numa reportagem de rua, vi alguém feliz com a vitória do P.S. porque assim voltará o emprego - não era cargo, era emprego. A magia é isto: a transformação fanástica - fácil e a nós externa - do real.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.

sábado, fevereiro 19, 2005

Neste bom tempo há já alguma coisa de árido e de desagradavelmente grátis: não o podemos tomar como recompensa dos dias invernosos, da chuva e das ventanias e esta bonança sem tempestade cansa e entedia. O frio mesmo tem abrandado e toda esta superabundante amenidade não contribui para dissipar o spleen.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Vi ontem, na Sic, o Doutor Medina Carreira.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

A visitar: Fundação Eça de Queiroz.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.

domingo, fevereiro 13, 2005

Antes de ir para a cama: o "post" de há pouco é ilustrativo de uma "loucura mansa" que por vezes me toma. Fico quedo, mas com optimismos malsãos: a ideia de subscrições nacionais "patrióticas" para comprar quadros ultrapassa, em delírio, as idênticas do séc. XIX que promoveram a compra de navios de guerra destinados, julga-se, a retirar à Inglaterra o domínio dos mares... Comprou-se, para isso, e daquele modo, o Adamastor, um cruzador melancólico.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.

sábado, fevereiro 12, 2005

Li aqui que a colecção que pertenceu a António Champalimaud vai sair de Portugal. Lamento muito, principalmente o Canaletto pintor de que gosto e de quem, conforme a notícia, não há qualquer tela nos museus portugueses.
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Com a noite, ontem, apareceu o spleen e, para o dissipar, mergulhei numa leitura mêcanica da correspondência de Eça, que estava ali, à mão de semear, e fui pela madrugada dentro. Acabei por recuperar a boa disposição, que veio sob a forma de uma honesta e firme sonolência, depois de muito rir com a confissão de Eça a sua Mulher de que estava bem mais preocupado com os seus negócios do que com os do país, então (1890), como agora, em estado pouco recomendável. Um pouco à frente, encontrei o relato das conversas entre El-Rei D. Carlos e Oliveira Martins em que ambos admitem a sua impotência perante a choldra. É bom reler estas coisas, para vermos que não piorámos, afinal, tanto. Não que sirva de verdadeiro consolo, mas faz-nos estar de guarda, e lembra-nos que esta gente é perigosíssima e que todos os cuidados são poucos (incluindo aqueles a ter com a carteira).

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

O Tasca da cultura linkou o Impensavel que, muito obrigado, agradece.
Hoje acordei muito bem disposto e de bem comigo e foi feliz e contente que me resolvi a encarar o mundo. Banho tomado, bebia o meu café matinal enquanto espreitava o Bloomberg e a CNBC quando li a notícia: o Príncipe de Gales vai casar-se. Congratulei-me: gosto do Prícipe Carlos, partilho algumas das suas preocupações quanto à arquitectura actual e à agricultura biológica e invejo-lhe benignamente o impecável gosto para coletes; e também simpatizo com a futura Duquesa da Cornualha que me parece quintessencialmente britânica e continua a fumar desalmadamente, indiferente ao ditatorialmente correcto.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.