Tarde áspera, em trazer o vento algumas flores se pressente a rudeza do começo da primavera, a severidade da cria, a brutalidade do recém-chegado.
Eu, por mim, "...oiço passar o vento, /E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
quinta-feira, fevereiro 24, 2005
Por mais que se queira, não se escapa ao barulho em volta mas, instalado já na minha nova qualidade de pré-socrático em que as recentes eleições transformaram tudo o que até agora fui, volto ao meu agradável dia-a-dia de desterrado.
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”
Hoje ri muito com esta - que me há-de servir para muitos jantares - e aconselho a leitura do artigo inteiro: As late as 1904, when King Lear was staged for the first time in Paris, Kent’s lines at the height of the storm, “The tyranny of the open night’s too rough / For nature to endure” became “Il n’est pas possible de rester plus longtemps dehors.”
quarta-feira, fevereiro 23, 2005
terça-feira, fevereiro 22, 2005
O correspondente da TV5 explicava, anteontem, aos seus espectadores que a a votação no PS não correspondia a qualquer opção ideológica enm reflectia uma realidade sociológica. Tratava-se apenas de substituir um primeiro-ministro que não parecia fiável por um outro, tecnocrata mais competente para tomar as decisões que tirem o país da crise.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.
Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.
Isto tudo, dito em bom francês (o que é agrádavel, à falta de bom português) parece-me evidente (apenas tenho algumas dúvidas quanto à competência e coragem). Estranho, por isso, alguns júbilos (não me refiro àqueles que resolveram já, por via eleitoral, problemas de emprego e férias no estrangeiro), mas de gente inteligente.
Entretanto, registei que um entrevistado de rua considerava o próximo primeiro ministro "distante" ou "frio": é que o actual desejo "regenerativo" (ou seja, de uma nova reinauguração dos tempos - mais uma...)contém, também, embutido, o de que seja "um tempo de toda a gente" de que o passado de vida alegre de Santana Lopes o afastava, tanto quanto, antes dele, a pose de estado de Barroso, pecado grave no país da vulgaridade sisuda e do compadrio da inveja.
Ontem, noite agradável, com Moody Blues e Eliot.
segunda-feira, fevereiro 21, 2005
Ontem, numa reportagem de rua, vi alguém feliz com a vitória do P.S. porque assim voltará o emprego - não era cargo, era emprego. A magia é isto: a transformação fanástica - fácil e a nós externa - do real.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.
Em Portugal, as eleições, ou algumas delas, são manifestações mágico-sebastianistas, tão mais poderosas quanto o soberano usurpador é mau ou fraco.
sábado, fevereiro 19, 2005
Neste bom tempo há já alguma coisa de árido e de desagradavelmente grátis: não o podemos tomar como recompensa dos dias invernosos, da chuva e das ventanias e esta bonança sem tempestade cansa e entedia. O frio mesmo tem abrandado e toda esta superabundante amenidade não contribui para dissipar o spleen.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.
Tenho saudades de uma boa noite de chuva. Tenho-as até, daqueles dias de aguaceiros monótonos e tristes que nos acinzentam a alma.
Este blog tem-se ressentido de tanto azul, deste clima celestial, desta amoralidade e está uma enfadonha coisa, o que não me admira: sinto-me enfadonho, gloomy.
sexta-feira, fevereiro 18, 2005
Vi ontem, na Sic, o Doutor Medina Carreira.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.
Os dados são aqueles, as questões a discutir são aquelas, mas estamos tão longe disso...
Numa única coisa discordo do DR. Medina Carreira: não é previsível que surja o homem providencial, ou a elite providencial que ponha "isto" no bom caminho. Eu, que me surpreendo, por vezes, a cultivar uma espécie de determinismo optimista - vexante confissão para um conservador - creio hoje que tal homem, tal elite podem não aparecer. Tal optimismo, tal esperança parecem-me mesmo, perigosos e de mau agoiro.
O nosso destino pode bem ser o do aniversariante de Campos: o de sermos póstumos, sobreviventes de nós mesmos.
De péssimo humor, retiro-me para o fim de semana.
quarta-feira, fevereiro 16, 2005
A visitar: Fundação Eça de Queiroz.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.
E tornar-se sócio da Associação dos Amigos de Eça que a apoia, e introduzir alguma saudável incoerência neste país evitando que a Fundação feche portas - o que, como se perceberá, sendo muito condizente connosco, não deixa de ser muito triste.
domingo, fevereiro 13, 2005
Antes de ir para a cama: o "post" de há pouco é ilustrativo de uma "loucura mansa" que por vezes me toma. Fico quedo, mas com optimismos malsãos: a ideia de subscrições nacionais "patrióticas" para comprar quadros ultrapassa, em delírio, as idênticas do séc. XIX que promoveram a compra de navios de guerra destinados, julga-se, a retirar à Inglaterra o domínio dos mares... Comprou-se, para isso, e daquele modo, o Adamastor, um cruzador melancólico.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.
E eu, que querem, já me imaginava nas Janelas Verdes, a ver um Canaletto... E um Guardi (já que se estava com a mão na algibeira e na massa...).
Com o sono veio, porém, a lucidez.
sábado, fevereiro 12, 2005
Li aqui que a colecção que pertenceu a António Champalimaud vai sair de Portugal. Lamento muito, principalmente o Canaletto pintor de que gosto e de quem, conforme a notícia, não há qualquer tela nos museus portugueses.
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?
Que fazer? Nada do que estão a pensar... Nem arrolamentos, nem confiscos. Apenas se poderia pedir aos herdeiros que dessem a Portugal o direito de preferência na venda que será feita. Ninguém perderia com isso, salvo o comprador estrangeiro que licitasse mais alto a obra. Mas esse perderia apenas uma oportunidade, não dinheiro.
E o dinheiro, de onde viria? Creio que se poderia criar um fundo para tal, aberto às contribuições de todos. É assim, julgo, que se faz lá fora.
Alguém interessado?
Eu sei, eu sei, é um assunto de somenos.
É?
sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Com a noite, ontem, apareceu o spleen e, para o dissipar, mergulhei numa leitura mêcanica da correspondência de Eça, que estava ali, à mão de semear, e fui pela madrugada dentro. Acabei por recuperar a boa disposição, que veio sob a forma de uma honesta e firme sonolência, depois de muito rir com a confissão de Eça a sua Mulher de que estava bem mais preocupado com os seus negócios do que com os do país, então (1890), como agora, em estado pouco recomendável. Um pouco à frente, encontrei o relato das conversas entre El-Rei D. Carlos e Oliveira Martins em que ambos admitem a sua impotência perante a choldra. É bom reler estas coisas, para vermos que não piorámos, afinal, tanto. Não que sirva de verdadeiro consolo, mas faz-nos estar de guarda, e lembra-nos que esta gente é perigosíssima e que todos os cuidados são poucos (incluindo aqueles a ter com a carteira).
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Hoje acordei muito bem disposto e de bem comigo e foi feliz e contente que me resolvi a encarar o mundo. Banho tomado, bebia o meu café matinal enquanto espreitava o Bloomberg e a CNBC quando li a notícia: o Príncipe de Gales vai casar-se. Congratulei-me: gosto do Prícipe Carlos, partilho algumas das suas preocupações quanto à arquitectura actual e à agricultura biológica e invejo-lhe benignamente o impecável gosto para coletes; e também simpatizo com a futura Duquesa da Cornualha que me parece quintessencialmente britânica e continua a fumar desalmadamente, indiferente ao ditatorialmente correcto.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.
Gostaria, ainda, de saber alguma coisa dos bastidores: que discussões houve na Igreja Anglicana e como chegaram à posição de neutralidade perante o casamento, reacções de políticos, de constitucionalistas, consultas que foram feitas, etc, etc. Afinal, é uma decisão difícil, tomada numa democracia "a sério" num país de primeiro mundo "a sério" e seria interessante ver como tudo funciona.
quarta-feira, fevereiro 09, 2005
Quarta-feira de Cinzas. Entre o anúncio da vida que volta (há minúsculos rebentos na cerejeira em frente da janela) a proclamação da brevidade da contingência, da vaidade, do culto do acessório. O Vanitas vanitatum et omnia vanitas do Ecclesiastes não é uma sentença condenatória mas um convite ao essencial que está em nós, mas para além de tudo e do que sabemos mais facilmente amar - ritos diários, apegos, os hábitos (mesmo o de ser "deste" modo) onde nos incrustamos.
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Charlotte e JAC, tornados em albergues de micróbios, lamentam-se. O Impensável estima, a ambos, as melhoras e lembra-lhes Álvaro de Campos:
"Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Doi-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina"
"Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos com a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Doi-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina"
sexta-feira, fevereiro 04, 2005
Maria Filomena Mónica adverte sempre que o séc. XIX que vemos através de Eça não era tão sombrio como este o pintou. MFM diz isto um pouco por ser verdade, outro tanto por fidelidade à sua paixão por Fontes Pereira de Melo. Hoje li o artigo de Vasco Pulido Valente - que creio, será uma das luzes a que daqui a um século se verá e julgará o Portugal de hoje e pergunto-me por quem se poderá retrospectivamnete apaixonar uma bisneta de MFM para que sinta sempre a necessidade de dizer a quem se prepare para ler então VPV: "mas tenha algum cuidado, eles não eram assim tão maus, não era «tão assim» como ele diz".
P.S. O "debate" de ontem foi pouco divertido. Essencialmente tratou-se de ouvir "murmúrios na multidão em forma de hamburguer para dois violões"
P.S. O "debate" de ontem foi pouco divertido. Essencialmente tratou-se de ouvir "murmúrios na multidão em forma de hamburguer para dois violões"
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Leio no Público, no "Dicionário de Campanha" de JPP o verbete Educação e formação profissional que, segundo o autor, primam pela ausência. Tem razão. O mais triste é que podem estar ausentes sem que, aparentemente, a gente estranhe ou se incomode. Eu não estranho: para mim, é já uma certeza que Portugal falhou, no essencial, a aproximação à Europa. A aversão ao risco é uma evidência e o sistema de ensino forma gente acomodada e que, acima de tudo, dependa "disto" assim como está. Que tudo tenha um ar mais "europeu e modernaço" é um facto. Mas é uma espuma ténue, à superfície. Portugal continua arcaico, pesado, dominado por inércias rurais: idolatra-se o estado, dele se espera, afinal, tudo - e neste tudo, o emprego (ou o subsídio, para os mais "arrojados"). E nisto, neste esperar pela benesse, pela arrumação nalgum "lugar que vai abrir agora" há, pelo menos, alguma sinceridade. Mas dispensa a "formação profissional".
Releio o post anterior e suspeito-me de amolecimento cerebral. Preciso ir arejar. Mas onde??? Viajar tornou-se um tique quase insuportável, não há ninguém que não tenha acabado de chegar não sei de onde e pronto a contar-nos as suas "impressões", quer queiramos quer não. É uma praga que, espero bem, a crise económica atenue.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Recebi, com uma antecedência enorme, o meu novo cartão de crédito 2005/2007.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Fevereiro, Março e Abril, a minha "Lord Emsworth's season" - se é possível destacar algo que se pareça com uma season do meu insípido e monótono quotidiano.
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
terça-feira, fevereiro 01, 2005
De tempos a tempos, faço uma visita ao Barnabé e hoje, nem de propósito: encontrei um post assinado por joaomacdonald em que se interroga por que o motivo a "direita" (aspas minhas) "não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país (...) da monarquia".
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
segunda-feira, janeiro 31, 2005
Ontem vi as imagens das eleições no Iraque e, embora partilhe algumas das reservas do Doutor Pulido Valente sobre a exportação da democracia, pareceu-me um enorme êxito. O silêncio das esquerdas reforçou a minha ideia. As esquerdas parecem alimentarem-se da desilusão e do desastre. Ontem, o repasto foi pobre.
Numa destas noites frias de Janeiro andava eu pela net quando encontrei o anúncio de pequeno livro, uma recolha de perto de 100 cartas escritas durante e depois da II Guerra Mundial por uma senhora de Hastings, Inglaterra, a umas suas distantes parentes canadianas. Encomendei, chegou passados dois dias. A história que rodeia a publicação do livro é, em si mesma, "nética": a possuidora das cartas quis saber se havia parentes próximos da autora, em Inglaterra, e recorreu a um "site" da cidade de onde tinham sido expedidas. Uma interessada em "coisas da II Guerra" solicitou acesso às cartas e acabou por obter licença para as publicar. As cartas estão publicadas "a seco": não há qualquer estudo biográfico de quem as escreve. Consistem elas em agradecimentos calorosos e com algum humor dos pacotes de géneros enviados do Canadá para a autora e duas amigas com quem partilhava a casa. A correspondência prolonga-se por mais de 10 anos e ficamos a saber, muito sucintamente, de doenças e da morte dessas suas companheiras e da fragilidade física e mental, cada vez maior, da agradecida autora. A última carta não faz já qualquer sentido e somos informados, numa nota, que morreu pouco depois de a ter escrito.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Parece que já esquecemos tudo e que a fina película que nos separa da mais atroz barbárie foi calcada bem fundo pelas boas intenções e pelo "progresso da civilização". Não foi. Está à flor da pele, da nossa pele, pequena ruga disfarçada por uma ténue membrana cosmética.
Isto, a propósito de Auschwitz.
Isto, a propósito de Auschwitz.
quinta-feira, janeiro 27, 2005
A noite desce
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
terça-feira, janeiro 25, 2005
Lembro-me de ler história do séc. XIX e dos inícios do séc. XX e interrogar-me (era novo e ingénuo) como era possível tamanha barafunda, tão completa balbúrdia. Acreditava que tudo - o atraso, em suma - se devia à pobreza, à falta de cultura (assim mesmo), ao afastamento dos grandes centros europeus, ao isolamento.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
Acordei estremunhado, uma bochecha vincada pela lombada agreste de um péssimo romance histórico que comprei num acesso de idiotia e sobre o qual adormeci, vencido pela acção atulhada de pitoresco didáctico, e apercebi-me de que, além do mais, estava com calor. Vim até aqui, para consultar as informações locais de metereologia, e verifico estão 5ºC, temperatura normal para esta época. Creio que esta tão publicitada vaga de frio vai ser um enorme fiasco, dez graus negativos (prometia ontem um apresentador aparvalhado)... Todo esse frio está, simplemente, creio, acima das nossas posses.
Entusiasta do frio, melhor, dos confortos de que nos rodeamos para dele nos protegermos, aqui estou de braseira acesa, fogão da sala cheio de lenha, aquecedores vários, bolo de noz e chá fumegante, esperando.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
quinta-feira, janeiro 20, 2005
"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Há por essas prosas de agora, creio, mormente nas portuguesas, um tom de neutro lamento que devemos levar, como da leitura delas depois se infere, à conta de sábia e distante sapiência das coisas do mundo.Essa sensatez recolhida e mansa irrita-me, não acredito nela e preciso de pensar que é apenas mais uma moda, a da escrita de agora para vencer uma crescente irritação (pior é quando encontro esse tique - e canhestramente - no que escrevo). Hoje vou ler Maîstre. Ávido de sangue e raiva, eis como me puseram as boas intenções (mesmo que puramente convencionais) do alfandegário literato "nada a declarar".
A palavra do dia: curmudgeon.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
terça-feira, janeiro 18, 2005
Do programa da televisão de que vi um pouco (prós e contras?) se retira, através do dito por Soares, Freitas do Amaral, Adriano Moreira e, creio, Balsemão, que não é a altura oportuna para mudar a lei eleitoral. Certamente que agora, com a AR dissolvida não é, e creio que ninguém queria significar por "agora" "nesta precisa ocasião" mas em Portugal está-se sempre de acordo em que "agora" não é a altura oportuna. Foi assim com o escandaloso código de processo penal, foi assim com a (não) revisão do regime do arrendamento e assim será com tudo o que incomode e doa. Portugal foi o país europeu em que o PNB menos cresceu entre 1850 e 1913, época que, em grande parte, decorreu sob regimes parlamentares. Todos os outros países, nessa mesma época, duplicaram (alguns quase triplicaram) o rendimento per capita, mantendo-se o nosso quase na mesma (apenas + 45 dolares!). Não se pense, porém, que esse período foi mau. Pelo contrário, foi o do fontismo: construção dos caminhos de ferro, infra-estruras, etc, etc. O que aconteceu, é que, para além das obras públicas, teriam sido necessárias outras medidas e nunca foi o momento oportuno. Até hoje, como se vê...
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Utilidade de ter este blog mais de um ano: ir ver o que escrevi há um ano atrás...
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
domingo, janeiro 16, 2005
Joe Dunne
Uma tarde bonita. O vento fez-me perceber que passou já aquele tempo de recolhimento da natureza (Rilke) que podemos percebemos de finais de Novembro a princípios de Janeiro.
Ainda não é a ante-primavera, também rilkeana, que aparece por vezes em Fevereiro, agreste, com rajadas de sueste e aguaceiros, mas o perfeito silêncio já lá vai.
Erramos sobre a nossa simplicidade ou sobre a nossa complicação e depois de o admitirmos um dia, depois da admissão desse erro inocente e grosseiro cometido há muito tempo - por inexperiência, imperícia, falta de destreza - mentimo-nos piedosamente um caminho de volta.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
quarta-feira, janeiro 12, 2005
Um brouhaha intenso, irredutível a qualquer sentido, melhor, a qualquer local - se a etimologia hebraica é a verdadeira, seria, ao menos, o ruído da esperança de uma diferença, (hoje uma esperança esquecida em nome do gosto mesmo do "estar aqui" atopicamente) - e espera-se que colaboremos tanto nele que o silêncio é visto como uma jactância, uma omissão premeditada, uma coreografia de reserva mental. Neste blog, além da mera preguiça, do puro desleixo, do deixa andar, não se renunciará ao silêncio. Grandiloquências de quarta-feira à tarde, antigos tempos de actividades circum-escolares, sei, mas fica dito.
terça-feira, janeiro 11, 2005
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
segunda-feira, janeiro 10, 2005
Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
domingo, janeiro 09, 2005
Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
A volta aos jornais: continuam as palermices francesas. É difícil para a França perceber que não passa de uma potência regional e sovina.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Leio uns artigos sobre o acordo ortográfico e penso no que deu a arrogância e novo riquismo de meia dúzia de "sábios" positivistas republicanos no início do século passado: uma língua com duas ortografias, como não sucede com nenhuma outra no mundo e, quase um século depois, dois países com altos índices de analfabetismo. Condiz com tudo o resto, sei, mas é triste.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
terça-feira, janeiro 04, 2005
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
segunda-feira, janeiro 03, 2005
A falta de confiança que os portugueses têm neles mesmos tem um estranho, perverso reverso: a confiança no estado e uma crença quase infantil no poder da lei para moldar a realidade ou, pelo menos, para a escamotear, para ir adiando a débacle e ir compondo o que já não tem arranjo.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
domingo, janeiro 02, 2005
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Na minha abrigada varanda, voltada a sul, nestes dias tépidos e soalheiros falta quem lá se sente a aquecer-se ao sol. Uma criada velha que lá remendasse uma pano quase sem préstimo e se lavantasse depois, lá pelas quatro e meia, por se irem aproximando as horas do lanche.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Com algum espanto noto assomos de indignação quanto às falhas do estado português na assistência aos portugueses no Sudoeste asiático.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Linkaram este blog o Olhos Azuis , o Monodia , o Vacalhum e o Batata Quente .
O Impensavel agradece, muito obrigado.
O Impensavel agradece, muito obrigado.
terça-feira, dezembro 28, 2004
segunda-feira, dezembro 27, 2004
Esta semana, entre Natal e Ano Bom, no côncavo do tempo, uso-a em nadas: abrir livros, folhear outros, andar aqui por casa de um lado para o outro, em conversas-paisagem com amigos que esmoem o festim e o tempo, à lareira ou à roda da braseira. (E é tudo o que faço). Depois, em Janeiro, já não é assim, a curvatura dos dias perde a perfeita serenidade, pressente-se o esgar escrupuloso e duro do início.
quinta-feira, dezembro 23, 2004
terça-feira, dezembro 21, 2004
Estava a começar a escrever um post para contar o que se passou comigo enquanto lia, ontem, já na cama, o "Vinte horas de liteira" - o que se passou foi ter-me esquecido do copo da água, o que me obrigou a percorrer um gélido corredor, uma entrada cavernosa e outro corredor onde o frio mais inclemente reinava, isto com algumas peripécias insignificantes pelo meio mas que tencionava contar - quando me apercebo da tão agradável menção que o Contra a Corrente quis fazer a este blog.
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
"A distinguish bishop, a priest and a peasant are in a great cathedral. In turn the priest and bishop approach the altar rail, beat their chests and declare, «I'm nothing, I'm nothing». The humble peasant, moved to imitate, shuffles to the altar and says the same thing. The bishop turns furiously and hisses the priest's ear, «Who the hell does he think he is?»"
No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.
No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.
segunda-feira, dezembro 20, 2004
sábado, dezembro 18, 2004
Gostaria de dizer que corei como um sentimental general inglês ao saber que esta Senhora gosta tanto deste blog e que com toda a simpatia e despacho o diz, que ficara eu com isso très ému - presque -, que...
Mas fiquei assim, assim é que foi que fiquei:
Mas fiquei assim, assim é que foi que fiquei:
quinta-feira, dezembro 16, 2004
quarta-feira, dezembro 15, 2004
Outro dia magnífico.
Acredito em Parménides:
"[...]
Não foi um mau destino que te enviou a viajar" E "aprender [...] o coração inabalável da realidade fidedigna" um convite que relembra em mim diligências antigas.
É do sol, do azul e da nitidez da aragem branda.
(O poema fui buscá-lo ao "Antes de Sócrates" de Trindade Santos)
Acredito em Parménides:
"[...]
Não foi um mau destino que te enviou a viajar" E "aprender [...] o coração inabalável da realidade fidedigna" um convite que relembra em mim diligências antigas.
É do sol, do azul e da nitidez da aragem branda.
(O poema fui buscá-lo ao "Antes de Sócrates" de Trindade Santos)
terça-feira, dezembro 14, 2004
Onde se finca o ponto fixo ao redor do qual giramos, edificamos, recuamos, avançamos, cedemos, damos, recebemos, tememos e ameaçamos?
Cioran - que, creio, estou a a parafrasear nesta tarde de Outono perfeito - crê na necessidade de renunciarmos ao apoio sobre qual construimos tudo, que abandonemos essa terra firma e vagueemos.
O mais que consigo nos melhores momentos - em dias como este - é sentir a dureza dessa terra, esse calo do que se é, e preferir a essa exiguidade da terra calcada a deriva para norte. Mas isso não é a ainda indiferença nem a renúncia, é um erro de método e que redunda em mero turismo ontológico.
Cioran - que, creio, estou a a parafrasear nesta tarde de Outono perfeito - crê na necessidade de renunciarmos ao apoio sobre qual construimos tudo, que abandonemos essa terra firma e vagueemos.
O mais que consigo nos melhores momentos - em dias como este - é sentir a dureza dessa terra, esse calo do que se é, e preferir a essa exiguidade da terra calcada a deriva para norte. Mas isso não é a ainda indiferença nem a renúncia, é um erro de método e que redunda em mero turismo ontológico.
segunda-feira, dezembro 13, 2004
Aproveito este breve surto de vontade para agradecer aos blogs que recentemente "linkaram" o Impensável:
O Boticário de província e o Nota bene.
Muito obrigado.
O Boticário de província e o Nota bene.
Muito obrigado.
E a influenza, a má influência que nos põe de cama e nos desorganiza metafísicas e universos - como bem sabia Pessoa -, quando os micróbios, netos dos miasmas, se lançam sobre nós.
E no fogão o fogo crepita. O fogo crepita no fogão é um desgraçado lugar comum muito abundante em descrições dos prazeres de Inverno ou dos do espírito, se meditarmos, lermos em frente ao, ou dessas actividades formos distraídos pelo mesmo.
O que me parece injusto para tão comum lugar liteterário é a trabalheira necessária para que o fogo crepite. Encomenda da lenha, implorar para que não esteja molhada, vigiar para que fique arrumada e, depois, o pior, ir à arrecadação buscar a lenha e trazê-la escada acima. O fogo crepita? Ora vejamos: um fogo laborioso crepita. Se os meus escrúpulos em pedir à empregada que traga para cima sacas generosas de lenha persistirem, vejo-me privado da contemplação do lugar comum e, no cair frio da tarde de Inverno, resta-me, de uso ameno e caseiro, o fumegante chá. A loira torrada, a torrada dourada, também já se foi, há muito. Há alguma coisa sobre lombadas pousadas de livros, livros esquecidos sobre uma mesa ou um sofá, mas sempre os achei pouco entusiasmantes.
O que não posso decentemente é pedir à empregada, a quem dou instruções para ter cuidado com os pesos, etc, etc, que traga as preciosas sacadas de lenha, para que esta crepite no começo do texto...
Impedido da contemplação e desfrute de lugares comuns que caros me eram, e brandos - o fogo crepita brando, interessante, este - eis um side effect estranho do paternalismo nas relações laborais.
O que me parece injusto para tão comum lugar liteterário é a trabalheira necessária para que o fogo crepite. Encomenda da lenha, implorar para que não esteja molhada, vigiar para que fique arrumada e, depois, o pior, ir à arrecadação buscar a lenha e trazê-la escada acima. O fogo crepita? Ora vejamos: um fogo laborioso crepita. Se os meus escrúpulos em pedir à empregada que traga para cima sacas generosas de lenha persistirem, vejo-me privado da contemplação do lugar comum e, no cair frio da tarde de Inverno, resta-me, de uso ameno e caseiro, o fumegante chá. A loira torrada, a torrada dourada, também já se foi, há muito. Há alguma coisa sobre lombadas pousadas de livros, livros esquecidos sobre uma mesa ou um sofá, mas sempre os achei pouco entusiasmantes.
O que não posso decentemente é pedir à empregada, a quem dou instruções para ter cuidado com os pesos, etc, etc, que traga as preciosas sacadas de lenha, para que esta crepite no começo do texto...
Impedido da contemplação e desfrute de lugares comuns que caros me eram, e brandos - o fogo crepita brando, interessante, este - eis um side effect estranho do paternalismo nas relações laborais.
sexta-feira, dezembro 10, 2004
O "blog" não está esquecido. É o frio (isto não é um protesto). Com este frio e alguns aquecedores avariados, sair à noite da sala é uma temeridade. E por lá fico, entre a contemplação das chamas no fogão e o livro que escolho para a noite.
O tempo, contudo, vai mudar. Ventos do Sul, algumas chuvas, os aquecedores foram já substituídos, o gabinete pequeno de onde escrevo tornar-se-à habitável e convidativa para a bavardage.
O tempo, contudo, vai mudar. Ventos do Sul, algumas chuvas, os aquecedores foram já substituídos, o gabinete pequeno de onde escrevo tornar-se-à habitável e convidativa para a bavardage.
terça-feira, dezembro 07, 2004
Fico ciente, mas já esperava isto, condiz com todo o resto. Mas, em compensação, são tãooo expressivos, tãoooo imaginativos, tãoooo de fazer qualquer pedagogo adejar de comoção. E, depois, Espanha, onde começa o mundo a sério, fica tão perto, podemos ir lá quando precisarmos de alguma coisa mais maçadoramente precisa.
P.S. Convirá notar que fora qualquer coisa que se traduza em botar cimento - e actividades conexas - este país é absolutamente incapaz de resolver qualquer problema, seja dos velhos, seja dos que vão aparecendo com os tempos novos de lá de fora (que aqui, como dizia Pessoa, o presente é antiquíssimo). O que se faz, verdadeiramente, e bem, é acostumarmo-nos a que seja assim, à habitualidade do desaire (paráfrase desagradável, esta).
P.S. Convirá notar que fora qualquer coisa que se traduza em botar cimento - e actividades conexas - este país é absolutamente incapaz de resolver qualquer problema, seja dos velhos, seja dos que vão aparecendo com os tempos novos de lá de fora (que aqui, como dizia Pessoa, o presente é antiquíssimo). O que se faz, verdadeiramente, e bem, é acostumarmo-nos a que seja assim, à habitualidade do desaire (paráfrase desagradável, esta).
segunda-feira, dezembro 06, 2004
sábado, dezembro 04, 2004
Releio o "Portugal Contemporâneo" do Oliveira Martins.
A tarde, de um cinza súbito, é o cenário cúmplice da leitura.
P.S. das 18:36: Não reiniciei o O.M. Tenho de confessar, eu, um defensor dos dias cinzentos, que me fez falta a tarde soalheira: imuniza um pouco contra a absorção do pessimismo de Oliveira Martins. Sem sol, fiquei por aqui, numa versão de passeio triste cibernético.
A tarde, de um cinza súbito, é o cenário cúmplice da leitura.
P.S. das 18:36: Não reiniciei o O.M. Tenho de confessar, eu, um defensor dos dias cinzentos, que me fez falta a tarde soalheira: imuniza um pouco contra a absorção do pessimismo de Oliveira Martins. Sem sol, fiquei por aqui, numa versão de passeio triste cibernético.
quinta-feira, dezembro 02, 2004
A Bomba Inteligente quis ter a simpatia de destacar um post deste blog atribuindo-lhe a "Bomba de Ouro" um dos mais respeitados galardões no mundo blogosférico. O Impensável agrade, muito reconhecido e confundido.
O Impensavel, porém, sente-se no dever de esclarecer que, ao contrário do que possa parecer, a afirmação proferida não é uma boutade, mas fruto de longas reflexões sobre o país.
Ora vejamos: parece consensual que os portugueses querem que o país se aproxime do nível de vida dos demais países europeus da UE. Mas, pobre e atrasado, haverá um caminho a percorrer, decisões a tomar, etc. etc. O traçado desse caminho e essas decisões não têm de ser descobertas por nós: existem já. Com pequenas diferenças de método, é aquele caminho, são aquelas decisões que nos levam lá. E chegar lá, e o mais depressa possível parece ser o que todos queremos com determinação. E queremo-lo tanto que, quando desabam sobre nós diagnósticos frios sobre o longe que estamos do objectivo, o país estremece, diria que se apavora no medo de continuar como é, triste e atrasado. A última vez que tal sucedeu foi com a análise do Dr. Medina Carreira, publicada no Queijo Limiano.
E o que dizem, no fundo, todas essas análises lúcidas? Que estamos no caminho errado, que usamos métodos errados e ineficazes e que os usamos por medo dos side efects dos métodos correctos, que a maioria desses erros, dessas omissões, se deve ao medo da cura, de onde deriva a tibieza, à pusilânimidade, governamental - e à nossa, profissionais que somos na arte da auto-ilusão.
Por isso, a proposta do gerente suiço. Já estiveram num hotel suiço? Pois vão lá...
P.S. E é de um gerente que precisamos, não de um director de colégio interno, seja ele inglês, vocação que parece ser a do Presidente da República.
O Impensavel, porém, sente-se no dever de esclarecer que, ao contrário do que possa parecer, a afirmação proferida não é uma boutade, mas fruto de longas reflexões sobre o país.
Ora vejamos: parece consensual que os portugueses querem que o país se aproxime do nível de vida dos demais países europeus da UE. Mas, pobre e atrasado, haverá um caminho a percorrer, decisões a tomar, etc. etc. O traçado desse caminho e essas decisões não têm de ser descobertas por nós: existem já. Com pequenas diferenças de método, é aquele caminho, são aquelas decisões que nos levam lá. E chegar lá, e o mais depressa possível parece ser o que todos queremos com determinação. E queremo-lo tanto que, quando desabam sobre nós diagnósticos frios sobre o longe que estamos do objectivo, o país estremece, diria que se apavora no medo de continuar como é, triste e atrasado. A última vez que tal sucedeu foi com a análise do Dr. Medina Carreira, publicada no Queijo Limiano.
E o que dizem, no fundo, todas essas análises lúcidas? Que estamos no caminho errado, que usamos métodos errados e ineficazes e que os usamos por medo dos side efects dos métodos correctos, que a maioria desses erros, dessas omissões, se deve ao medo da cura, de onde deriva a tibieza, à pusilânimidade, governamental - e à nossa, profissionais que somos na arte da auto-ilusão.
Por isso, a proposta do gerente suiço. Já estiveram num hotel suiço? Pois vão lá...
P.S. E é de um gerente que precisamos, não de um director de colégio interno, seja ele inglês, vocação que parece ser a do Presidente da República.
terça-feira, novembro 30, 2004
Eu preocupado com divertimentos e o Dr. Sampaio a providenciá-los...
Estou convencido que este governo cai mal. Isto é, cai em vão. Decerto houve aselhices, inabilidades. E houve alguns pecadilhos. Nada que não tivesse acontecido antes.
Mas o que fez cair este governo foi o ser ele formado, melhor, ter a cara de pessoas próximas daqueles que se sentem perto do poder, que estão dentro do círculo comutativo do poder, ou tuteiam quem dele faz parte: ora, de vez em quando, metade dos habitantes desse território parco finge que é nova, que é "diferente", que tem um "projecto", põe umas carantonhas de papelão onde estão pintalgadas as insígnias da gravitas e com um ar de distância, com um ar grave, "governa". Estes, os que agora caem, por demais conhecidos nas redacções dos jornais, na "noite" lisboeta, entre as festas dos empregados mais bem pagos dos interesses, não "calhavam", a "suspension of disbelief" funcionava mal. E, sem fantasia, este - esse - país não vive: começa a matutar que assim não pode ser e reclama carantonhas severas: por isso Cavaco, que quer agora as reformas que não fez, ou Guterres, a versão séc XXI da retórica tão balofa quanto grave do oitocentismo que Eça fustigou. Ou Sócrates, que foi a correr pôr uma caraça lúgubre de estadista.
Substancialmente, não fazem nada de diferente do que estes fizeram. Nem vão fazer. É inútil, pior, é estulto esperar que façam, tratando-se da mesma massa. E a massa é má.
Eu, para que ninguém sofra mais, porque estas coisas sempre custam, e fazem despesa, e alvoraçam (atrasei hoje páginas de leitura) alvitro que se contrate para a governação um bom gerente de hotel suiço. Ficávamos todos melhor servidos.
Se poder vir também algum pessoal...
Estou convencido que este governo cai mal. Isto é, cai em vão. Decerto houve aselhices, inabilidades. E houve alguns pecadilhos. Nada que não tivesse acontecido antes.
Mas o que fez cair este governo foi o ser ele formado, melhor, ter a cara de pessoas próximas daqueles que se sentem perto do poder, que estão dentro do círculo comutativo do poder, ou tuteiam quem dele faz parte: ora, de vez em quando, metade dos habitantes desse território parco finge que é nova, que é "diferente", que tem um "projecto", põe umas carantonhas de papelão onde estão pintalgadas as insígnias da gravitas e com um ar de distância, com um ar grave, "governa". Estes, os que agora caem, por demais conhecidos nas redacções dos jornais, na "noite" lisboeta, entre as festas dos empregados mais bem pagos dos interesses, não "calhavam", a "suspension of disbelief" funcionava mal. E, sem fantasia, este - esse - país não vive: começa a matutar que assim não pode ser e reclama carantonhas severas: por isso Cavaco, que quer agora as reformas que não fez, ou Guterres, a versão séc XXI da retórica tão balofa quanto grave do oitocentismo que Eça fustigou. Ou Sócrates, que foi a correr pôr uma caraça lúgubre de estadista.
Substancialmente, não fazem nada de diferente do que estes fizeram. Nem vão fazer. É inútil, pior, é estulto esperar que façam, tratando-se da mesma massa. E a massa é má.
Eu, para que ninguém sofra mais, porque estas coisas sempre custam, e fazem despesa, e alvoraçam (atrasei hoje páginas de leitura) alvitro que se contrate para a governação um bom gerente de hotel suiço. Ficávamos todos melhor servidos.
Se poder vir também algum pessoal...
No outro dia - sempre no outro dia - fui a Lisboa e conversei demoradamente com o meu alfaiate. Acabei por me decidir pelas palas nos bolsos. Depois, resolvido esse e outros assuntos, saído da alfaiataria, respirei o ar frio do Chiado e comprei, numa livraria, o "Ritos de iniciação e sociedades secretas" do Eliade. Quase à porta da livraria conspirava Pacheco Pereira, uma bela nota de "Chiado ancién" que estimei observar. Eduardo Prado Coelho, na Bénard, fez-me perder o ânimo que buscava nuns scones e chá. Desalentado, desci o Chiado.
Estive a pensar em relacionar tudo isto, cosmicamente, como passatempo para a season.
Estive a pensar em relacionar tudo isto, cosmicamente, como passatempo para a season.
A apresentadora solicitava aos participantes que não se perdessem em "tecnicismos". Ora vamos lá ver em que pode consistir um "tecnicismo", uma questão de datas, por exemplo: nos países do 1º mundo - e em parte dos do 3º - o prazo máximo de prisão sem acusação não vai além de alguns dias ou mesmo de horas. Aqui, pode ir até um ano. E, até muito recentemente, a pessoa podia estar presa sem saber sequer porquê, sendo essa, aliás, a prática corrente. A coisas destas chama a apresentadora "tecnicismos". É interessante.
Tudo o que aqui é dito agora, já o disse antes. Nunca será demais, porém, relembrar o que somos, a persistência da brutalidade, da crueldade, da desumanidade a par com a má fé daqueles que têm o atrevimento de proclamarem na praça pública o "avanço" e a bondade dos nossos códigos.
As questões penais ( e de processo penal) são um bom instrumento para aferir da conta em que nos temos, do que achamos que merecemos, do que somos. E, aqui somos culpados, provisórios inocentes, culpados a ser.
Tudo o que aqui é dito agora, já o disse antes. Nunca será demais, porém, relembrar o que somos, a persistência da brutalidade, da crueldade, da desumanidade a par com a má fé daqueles que têm o atrevimento de proclamarem na praça pública o "avanço" e a bondade dos nossos códigos.
As questões penais ( e de processo penal) são um bom instrumento para aferir da conta em que nos temos, do que achamos que merecemos, do que somos. E, aqui somos culpados, provisórios inocentes, culpados a ser.
sábado, novembro 27, 2004
O silêncio é, aqui - e "aqui" é o mundo dos blogs - quase impossível: confunde-se com desleixo e abandono, abastardado pela persistência do último post, pela sua "antiguidade" convexa. E gestos tais como posts vazios, grandiloquências de adolescente devoto, excesso de veemência, de afinco, também são pouco recomendáveis.
Fica assim, por isso, como está, um post velho à cabeça, por me apetecer estar calado.
Fica assim, por isso, como está, um post velho à cabeça, por me apetecer estar calado.
segunda-feira, novembro 22, 2004
Tons ouro, amarelo, crèmes foncés e esmaecidos, verdes gastos da velha Gobelins (a data, c.1750, constava em baixo numa placa pequena), o programa de uma tarde, a visita à ilha do lago. Um cortesão ajudava as senhoras a subirem para o barco. Alguma melancolia. Pensei, por um tempo, tratar-se de um divertimento há muito aborrecido por todos, mas havia sorrisos de algum entusiasmo. O concerto da ilha, onde já se encontram convivas. Escapam-me os pormenores, há muito que não vejo a tapeçaria e penso agora que estão a acabar os tempos em que a poderei rever sem demasiadas explicações, sem manchas de pretexto, aparecer para o lanche basta, eis todo o necessário - e, se por desejo de mudança que não é de esperar da idade da minha anfitriã, estivesse agora noutro lugar, numa sala menos acessível, ainda assim seria bem acolhido e pareceria natural o meu pedido para a rever. Relembrei-me hoje, depois do almoço, daquele pequeno bosque e da ilha ao ouvir as "Pièces froids" de Satie que foram, pelo labor da luz e da memória, mais do que peças musicais, a sala, a peça de passagem, sempre fria, onde, em tardes de sol, a pequena orquestra esperava os retardatários entre os dois contadores sombrios.
sexta-feira, novembro 19, 2004
quarta-feira, novembro 17, 2004
À minha lista do "também já não era o que foi" veio juntar-se a The Economist: um estudo daquela revista coloca Portugal no 19º lugar (a contar de cima!!!) na lista dos países onde é bom viver. Portugal estaria, segundo o estudo, acima de países como a Grã-Bretanha e a França (sic).
Já há tempos a Economist se tinha declarado republicana tendo, por isso, entrado para a minha lista de "só me faltava esta, não tarda nada estás no cesto dos papéis" .
Está provado agora que ensandeceu de vez.
Menos papelada para ler.
Já há tempos a Economist se tinha declarado republicana tendo, por isso, entrado para a minha lista de "só me faltava esta, não tarda nada estás no cesto dos papéis" .
Está provado agora que ensandeceu de vez.
Menos papelada para ler.
segunda-feira, novembro 15, 2004
Por vezes chega, velha visita, o sentimento do precário de tudo isto - e "isto" somos nós e tudo o que nos rodeia.
Encontro algum paradoxal alívio num sentir geológico, numa microscopia de lentidão quase incomensurável, absurda.
Uma outra velha amiga, emerge do frio, sorri, admoesta-me sobre as minhas preocupações com as malaises em voga e lembra-me que preciso de ir comprar tinteiros para a impressora.
"Sempre passeia e apanha sol" - diz ela.
Evito a capitulação total: "compro os tinteiros amanhã, em Lisboa. São mais baratos".
Encontro algum paradoxal alívio num sentir geológico, numa microscopia de lentidão quase incomensurável, absurda.
Uma outra velha amiga, emerge do frio, sorri, admoesta-me sobre as minhas preocupações com as malaises em voga e lembra-me que preciso de ir comprar tinteiros para a impressora.
"Sempre passeia e apanha sol" - diz ela.
Evito a capitulação total: "compro os tinteiros amanhã, em Lisboa. São mais baratos".
sexta-feira, novembro 12, 2004
terça-feira, novembro 09, 2004
Linkaram este blog o Blog do Patronato e o Sedentário.
O Impensavel agradece a ambos, muito obrigado.
O Impensavel agradece a ambos, muito obrigado.
segunda-feira, novembro 08, 2004
sábado, novembro 06, 2004
Assisti (ontem?) à libertação da hospedeira do avião envolvido no tráfico de droga.
A justiça venezuelana parecer ser o que a nossa não é: célere.
Nalguns telejornais, contudo, a situação é tratada com o espírito "até que enfim, são inocentes, ora esta, o atrevimento!"
Quando se trata da "nossa" "justiça, ao invés, é preciso ser sereno, respeitar os trâmites, os prazos ( no caso da prisão preventiva sem acusação, 18 - dezoito - vezes superior, em Portugal), aguardar, não discutir o que está em segredo de justiça e aceita-se placidamente que inocentes possam estar presos sem saberem porquê.
Somos assim.
Tarde magnífica. Vou passear.
A justiça venezuelana parecer ser o que a nossa não é: célere.
Nalguns telejornais, contudo, a situação é tratada com o espírito "até que enfim, são inocentes, ora esta, o atrevimento!"
Quando se trata da "nossa" "justiça, ao invés, é preciso ser sereno, respeitar os trâmites, os prazos ( no caso da prisão preventiva sem acusação, 18 - dezoito - vezes superior, em Portugal), aguardar, não discutir o que está em segredo de justiça e aceita-se placidamente que inocentes possam estar presos sem saberem porquê.
Somos assim.
Tarde magnífica. Vou passear.
quinta-feira, novembro 04, 2004
Estou convencido, pelo que fui lendo nos jornais, que há pessoas inocentes detidas no caso da Venezulea, como já disse num post anterior e, por isso, espero que sejam libertadas o mais depressa possível.Dito isto, averiguemos de legitimidades para mostrar indignação perante o sucedido com a tripulação do avião envolvido no tráfico de droga: o Código de Processo Penal da Venezuela, produto de um governo anterior ao de Chavez, é, incomparavelmente, mais avançado, por mais humano, por mais respeitador dos direitos de defesa que o nosso. Ao pé daquele diploma o nosso código é um amontoado de horrores. Calem-se, por isso, todos aqueles que, aqui, defendem que é preciso "deixar trabalhar a justiça", quando isso significa, por exemplo, poder ter pessoas presas sem acusação durante um ano de e outras enormidades de igual jaez permitidas em Portugal com geral aplauso.O estado das prisões da Venezuela é que já se pode assacar a Chavez e, por isso, não me surpreende que seja o que se diz que é. Convirá, porém, lembrarmo-nos que, pertencendo nós, nominalmente, ao 1º Mundo, o estado das nossas prisões, observado por um norueguês ou um sueco, não será muito menos horrivel do que o dos cárceres venezuelanos, o que não deixa margem para grandes indignações. Atento tudo isto, era melhor que estivéssemos calados.
Com conhecimento ao marujo FNV que já denunciou alguns double standards.
Com conhecimento ao marujo FNV que já denunciou alguns double standards.
quarta-feira, novembro 03, 2004
Sempre estive convencido da vitória do Presidente Bush e as primeiras projecções confirmaram a minha previsão. Esperei ainda um tempo para ver se haveria algum suspense, mas logo percebi que não. Que fazer para animar a noite? A resposta surgiu rápida: assistir a tudo através de um canal francês. Assim fiz! E, de facto, muito me ri com a TV5. Os franceses, que ainda há pouco tempo tiveram de optar entre dois homens de estado de uma estatura gigantesca, Le Pen e Chirac e olhavam, por isso, a coisa de muito alto, não deixavam de alinhar pelo smart casual de Kerry e da sua femme-potage, a afro-americana (assim ela se apresenta) Teresa Ferreira. Sem a menor preocupação de rigor ou isenção, falaram, falaram durante horas (o que aquela gente adora ouvir-se e fingir que ouve os outros ouvirem-se...) sobre a má escolha dos norte-americanos.
Enquanto falavam para deplorarem o resultado, devem ter arranjado ocasião para darem as suas ordens de compra, já que, quando acordei, hoje de manhã, a bolsa de Paris estava em alta (franca).
Uma noite divertida com uma conclusão moral e matinal adequada.
Enquanto falavam para deplorarem o resultado, devem ter arranjado ocasião para darem as suas ordens de compra, já que, quando acordei, hoje de manhã, a bolsa de Paris estava em alta (franca).
Uma noite divertida com uma conclusão moral e matinal adequada.
quinta-feira, outubro 28, 2004
Declara-se, solenemente, que o signatário não tem quaisquer interesses económicos ou de outro jaez nas empresas envolvidas.
Dito isto:
Que o café é muito bom, é. E o design da máquina idem.
Começo o dia com um Livanto e...
Vejam...
Dito isto:
Que o café é muito bom, é. E o design da máquina idem.
Começo o dia com um Livanto e...
Vejam...
O Rua da Judiaria fez um ano. Em nome da reciprocidade deveria abster-me raivosamente de mencionar a efeméride. Não posso, porém: o Rua da Judiaria tem-me fornecido informação interessante, fruto de trabalho onde se adivinha comprometimento, seriedade e interesse. O Impensavel, por seu turno, é um blog de impressões dilettantes. Perante situações tão diferentes, invocar a reciprocidade? Não! Parabéns!
O Impensavel ainda não descobriu onde está a informação das datas de fundação dos blogs. Cumprimentador por natureza, vê-se, por isso, afastado das comemorações. Agradece-se, sem alvíssaras, a quem elucide.
O Impensavel ainda não descobriu onde está a informação das datas de fundação dos blogs. Cumprimentador por natureza, vê-se, por isso, afastado das comemorações. Agradece-se, sem alvíssaras, a quem elucide.
quarta-feira, outubro 27, 2004
Tenho seguido, desatentamente, as notícias da prisão de vários portugueses na Venezuela.
Não sei se estão inocentes ou culpados ,mas todos eles, inocentes e culpados, se os houver, tiveram sorte, muita sorte em serem presos na Venezuela, país do 3º mundo, e não no ridente Portugal de "brandos costumes"
Na Venezuela os interrogatórios apenas podem ser efectuados das sete da manhã às sete da noite - e não, como em Portugal madrugada fora, sem limite de tempo - os arguidos têm acesso a todo o processo e, desde que estejam presos preventivamente, a acusação tem de ser deduzida em 20 dias (1). Se não o for, serão libertados.
Ou seja, nada de semelhante à barbárie portuguesa.
Interessante é relembrar as vozes que, aqui, ainda recentemente, se levantaram para defender o nosso código de processo penal. Diz tanto sobre nós, este sereno convívio com a brutalidade e a desumanidade...
(1) Prazo em Portugal, normal 6 (seis) meses, mas pode chegar a 1 ano (um ano). E já agora, emendo "sereno". Leia-se entusiasta.
Não sei se estão inocentes ou culpados ,mas todos eles, inocentes e culpados, se os houver, tiveram sorte, muita sorte em serem presos na Venezuela, país do 3º mundo, e não no ridente Portugal de "brandos costumes"
Na Venezuela os interrogatórios apenas podem ser efectuados das sete da manhã às sete da noite - e não, como em Portugal madrugada fora, sem limite de tempo - os arguidos têm acesso a todo o processo e, desde que estejam presos preventivamente, a acusação tem de ser deduzida em 20 dias (1). Se não o for, serão libertados.
Ou seja, nada de semelhante à barbárie portuguesa.
Interessante é relembrar as vozes que, aqui, ainda recentemente, se levantaram para defender o nosso código de processo penal. Diz tanto sobre nós, este sereno convívio com a brutalidade e a desumanidade...
(1) Prazo em Portugal, normal 6 (seis) meses, mas pode chegar a 1 ano (um ano). E já agora, emendo "sereno". Leia-se entusiasta.
terça-feira, outubro 26, 2004
A noite passada tive frio, daquele frio agradável de se ter, por ser o remédio dele uma peripécia pequena e fácil. Antes, lá fora, tinha observado o nevoeiro. O silêncio é feito daquele mesmo granulado de penumbra e espera.
Desfaço-me do branco e adopto este azul para o que vem, o cair raso e macio, de passos lentos.
Desfaço-me do branco e adopto este azul para o que vem, o cair raso e macio, de passos lentos.
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