quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Leio no Público, no "Dicionário de Campanha" de JPP o verbete Educação e formação profissional que, segundo o autor, primam pela ausência. Tem razão. O mais triste é que podem estar ausentes sem que, aparentemente, a gente estranhe ou se incomode. Eu não estranho: para mim, é já uma certeza que Portugal falhou, no essencial, a aproximação à Europa. A aversão ao risco é uma evidência e o sistema de ensino forma gente acomodada e que, acima de tudo, dependa "disto" assim como está. Que tudo tenha um ar mais "europeu e modernaço" é um facto. Mas é uma espuma ténue, à superfície. Portugal continua arcaico, pesado, dominado por inércias rurais: idolatra-se o estado, dele se espera, afinal, tudo - e neste tudo, o emprego (ou o subsídio, para os mais "arrojados"). E nisto, neste esperar pela benesse, pela arrumação nalgum "lugar que vai abrir agora" há, pelo menos, alguma sinceridade. Mas dispensa a "formação profissional".
Releio o post anterior e suspeito-me de amolecimento cerebral. Preciso ir arejar. Mas onde??? Viajar tornou-se um tique quase insuportável, não há ninguém que não tenha acabado de chegar não sei de onde e pronto a contar-nos as suas "impressões", quer queiramos quer não. É uma praga que, espero bem, a crise económica atenue.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Recebi, com uma antecedência enorme, o meu novo cartão de crédito 2005/2007.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Breves reflexões, a propósito, sobre a brevidade das coisas, "maxime" para os colarinhos das camisas e se será mero bom senso ou moderna agressividade comercial a nova política do camiseiro quanto aos colarinhos substitutos. Divagação adicional sobre se é teimosia ou mera preguiça não ter ainda ido a Lisboa este ano de 2005. Anoto a compra da nova biografia de Kierkergaard. Contemplo a mistura de preocupações, fico a admirar o "efeito" no blog e, tolamente, acho isto muito "moderno". Decido deixar ficar o "tolamente", lembrado de máxima de La Rochefoucould: "nous n'avouons jamais nos defauts que par vanité". Mas a modernidade, ou antes, o moderninho, é vaidoso.
Fevereiro, Março e Abril, a minha "Lord Emsworth's season" - se é possível destacar algo que se pareça com uma season do meu insípido e monótono quotidiano.
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
"Quem é Lord Emsworth?" - perguntar-se-ão os mais esquecidos. Relembro: uma personagem do P.G. Wodehouse:
"Other people worried about all sorts of things - strikes, wars, suffragettes, diminishing birth-rates, the growing materialism of the age, and a score of similar subjects. Worrying, indeed, seemed to be the twentieth century's specialty. Lord Emsworth never worried."
terça-feira, fevereiro 01, 2005
De tempos a tempos, faço uma visita ao Barnabé e hoje, nem de propósito: encontrei um post assinado por joaomacdonald em que se interroga por que o motivo a "direita" (aspas minhas) "não se reclama também herdeira das lutas que libertaram o país (...) da monarquia".
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
Refere-se à monarquia parlamentar, constitucional, que, com altos e baixos, foi a portuguesa desde 1834 até 1910.
Ora, acontece que derrubar um regime parlamentar não deve constituir no meu modesto entender, motivo de orgulho.
Quanto à monarquia, parece concebê-la como uma antiguidade histórica a ser substituída por uma república que, ao que consigo deslindar do que li, lhe parece mais "moderna".
Não sei de onde possa ter surgido tal ideia, mas teria alguma graça comparar a legislação portuguesa saída da actual república com a da monarquia inglesa, por exemplo. Proponho que comece pelo processo penal, sempre um bom instrumento para aquilatar dos direitos efectivos das pessoas em relação à autoridade (e abuso dela). Saberá quanto tempo pode um desgraçado súbdito britânico estar preso sem acusação? E um orgulhoso cidadão português? Ah!, aconselho uma investigação. Aconselho vivamente.
segunda-feira, janeiro 31, 2005
Ontem vi as imagens das eleições no Iraque e, embora partilhe algumas das reservas do Doutor Pulido Valente sobre a exportação da democracia, pareceu-me um enorme êxito. O silêncio das esquerdas reforçou a minha ideia. As esquerdas parecem alimentarem-se da desilusão e do desastre. Ontem, o repasto foi pobre.
Numa destas noites frias de Janeiro andava eu pela net quando encontrei o anúncio de pequeno livro, uma recolha de perto de 100 cartas escritas durante e depois da II Guerra Mundial por uma senhora de Hastings, Inglaterra, a umas suas distantes parentes canadianas. Encomendei, chegou passados dois dias. A história que rodeia a publicação do livro é, em si mesma, "nética": a possuidora das cartas quis saber se havia parentes próximos da autora, em Inglaterra, e recorreu a um "site" da cidade de onde tinham sido expedidas. Uma interessada em "coisas da II Guerra" solicitou acesso às cartas e acabou por obter licença para as publicar. As cartas estão publicadas "a seco": não há qualquer estudo biográfico de quem as escreve. Consistem elas em agradecimentos calorosos e com algum humor dos pacotes de géneros enviados do Canadá para a autora e duas amigas com quem partilhava a casa. A correspondência prolonga-se por mais de 10 anos e ficamos a saber, muito sucintamente, de doenças e da morte dessas suas companheiras e da fragilidade física e mental, cada vez maior, da agradecida autora. A última carta não faz já qualquer sentido e somos informados, numa nota, que morreu pouco depois de a ter escrito.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.
Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Parece que já esquecemos tudo e que a fina película que nos separa da mais atroz barbárie foi calcada bem fundo pelas boas intenções e pelo "progresso da civilização". Não foi. Está à flor da pele, da nossa pele, pequena ruga disfarçada por uma ténue membrana cosmética.
Isto, a propósito de Auschwitz.
Isto, a propósito de Auschwitz.
quinta-feira, janeiro 27, 2005
A noite desce
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.
Alberto Caeiro.
quarta-feira, janeiro 26, 2005
terça-feira, janeiro 25, 2005
Lembro-me de ler história do séc. XIX e dos inícios do séc. XX e interrogar-me (era novo e ingénuo) como era possível tamanha barafunda, tão completa balbúrdia. Acreditava que tudo - o atraso, em suma - se devia à pobreza, à falta de cultura (assim mesmo), ao afastamento dos grandes centros europeus, ao isolamento.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.
Acordei estremunhado, uma bochecha vincada pela lombada agreste de um péssimo romance histórico que comprei num acesso de idiotia e sobre o qual adormeci, vencido pela acção atulhada de pitoresco didáctico, e apercebi-me de que, além do mais, estava com calor. Vim até aqui, para consultar as informações locais de metereologia, e verifico estão 5ºC, temperatura normal para esta época. Creio que esta tão publicitada vaga de frio vai ser um enorme fiasco, dez graus negativos (prometia ontem um apresentador aparvalhado)... Todo esse frio está, simplemente, creio, acima das nossas posses.
Entusiasta do frio, melhor, dos confortos de que nos rodeamos para dele nos protegermos, aqui estou de braseira acesa, fogão da sala cheio de lenha, aquecedores vários, bolo de noz e chá fumegante, esperando.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
quinta-feira, janeiro 20, 2005
"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
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