segunda-feira, janeiro 31, 2005

Ontem vi as imagens das eleições no Iraque e, embora partilhe algumas das reservas do Doutor Pulido Valente sobre a exportação da democracia, pareceu-me um enorme êxito. O silêncio das esquerdas reforçou a minha ideia. As esquerdas parecem alimentarem-se da desilusão e do desastre. Ontem, o repasto foi pobre.
Numa destas noites frias de Janeiro andava eu pela net quando encontrei o anúncio de pequeno livro, uma recolha de perto de 100 cartas escritas durante e depois da II Guerra Mundial por uma senhora de Hastings, Inglaterra, a umas suas distantes parentes canadianas. Encomendei, chegou passados dois dias. A história que rodeia a publicação do livro é, em si mesma, "nética": a possuidora das cartas quis saber se havia parentes próximos da autora, em Inglaterra, e recorreu a um "site" da cidade de onde tinham sido expedidas. Uma interessada em "coisas da II Guerra" solicitou acesso às cartas e acabou por obter licença para as publicar. As cartas estão publicadas "a seco": não há qualquer estudo biográfico de quem as escreve. Consistem elas em agradecimentos calorosos e com algum humor dos pacotes de géneros enviados do Canadá para a autora e duas amigas com quem partilhava a casa. A correspondência prolonga-se por mais de 10 anos e ficamos a saber, muito sucintamente, de doenças e da morte dessas suas companheiras e da fragilidade física e mental, cada vez maior, da agradecida autora. A última carta não faz já qualquer sentido e somos informados, numa nota, que morreu pouco depois de a ter escrito.
Li o livrinho numa tarde, quando o recebi, um pouco desatentamente e creio que já o tinha esquecido. Ontem, porém, enquanto acompanhava um chá forte com algumas generosas fatias de pão de uvas, três meticulosos fantasmas de senhoras de idade pareciam lastimar, em volutas concisas de chá fumegante, os excessos do lanche.

Seria injustiça não mencionar que naquelas cartas há um imenso bom senso, traduzido na compreensão e aceitação serena das dificuldades trazidas pela guerra: não há lamentos e, de igual modo, o humor não esmorece. Há, no entanto, queixas sobre o tempo e algumas sobre as de de ir a Londres para ver uma peça de Shakespeare. Isto é, aquele pequeno livrinho é intraduzível em português.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Parece que já esquecemos tudo e que a fina película que nos separa da mais atroz barbárie foi calcada bem fundo pelas boas intenções e pelo "progresso da civilização". Não foi. Está à flor da pele, da nossa pele, pequena ruga disfarçada por uma ténue membrana cosmética.
Isto, a propósito de Auschwitz.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

A noite desce

A noite desce, o calor soçobra um pouco,
Estou lúcido como se nunca tivesse pensado
E tivesse raiz, ligação direta com a terra
Não esta espécie de ligação de sentido secundário observado à noite.
À noite quando me separo das cousas,
E m'aproximo das estrelas ou constelações distantes —
Erro: porque o distante não é o próximo,
E aproximá-lo é enganar-me.

Alberto Caeiro.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

A gente vive a perfeita serenidade de um dia como o de hoje, límpido, azul, bom, contempla os tépidos suaves vagares da tarde à soleira da porta e vem-nos à memória o poema do ilustre estadista:

Deus existe! Tudo o prova,
Tanto tu, altivo sol,
Como tu, raminho humilde
Onde canta o rouxinol!

terça-feira, janeiro 25, 2005

Lembro-me de ler história do séc. XIX e dos inícios do séc. XX e interrogar-me (era novo e ingénuo) como era possível tamanha barafunda, tão completa balbúrdia. Acreditava que tudo - o atraso, em suma - se devia à pobreza, à falta de cultura (assim mesmo), ao afastamento dos grandes centros europeus, ao isolamento.
De algum modo, pensava, esse estado infantil da nossa vida política, dos nossos assuntos de estado, tinha passado e a ditadura, com a sua encenação de gravitas estatal teria servido de armário (camisa de forças seria mais apropriado) para a adolescência da nossa vida pública moderna. Com o fim dela e a instauração da democracia, e após alguma loucura desculpável, acreditava eu, teeen optimista, entraríamos na fase adulta, e seríamos como "lá fora".
Quando a AD ganhou as eleições regozijei-me com o rumo das coisas e com o acerto das minhas análises. Estava, claro, redondamente enganado.
E desde há bastante tempo, ferido no meu amor próprio de analista e castigado enquanto indígena, vivo como se aqui estivesse exilado: não sigo as notícias, ignoro os casos da vida pública e apenas quando o burburinho se torna mais ensurdecedor viro a cabeça para ver o que se passa. Nunca valeu a pena o esforço.

Acordei estremunhado, uma bochecha vincada pela lombada agreste de um péssimo romance histórico que comprei num acesso de idiotia e sobre o qual adormeci, vencido pela acção atulhada de pitoresco didáctico, e apercebi-me de que, além do mais, estava com calor. Vim até aqui, para consultar as informações locais de metereologia, e verifico estão 5ºC, temperatura normal para esta época. Creio que esta tão publicitada vaga de frio vai ser um enorme fiasco, dez graus negativos (prometia ontem um apresentador aparvalhado)... Todo esse frio está, simplemente, creio, acima das nossas posses.
Entusiasta do frio, melhor, dos confortos de que nos rodeamos para dele nos protegermos, aqui estou de braseira acesa, fogão da sala cheio de lenha, aquecedores vários, bolo de noz e chá fumegante, esperando.
E, devo confessar, estou cheio de calor, insuportavelmente cheio de calor.
Tudo isto é pueril, bem sei, bem sei, mas entre estas tarefas domésticas e os "assuntos nacionais"... prefiro o frio.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Cumprido o dever cívido de hoje - leitura de VPC, MFM (que, mais uma vez fala da Fontes Pereira de Melo... sigo esta paixão já serôdia mas ainda escandalosa, há anos) e JBC inicio o fim-de-semana ao sol.
Linkaram este "blog" o Ávido e o Cegos, Mudos e Surdos.
O Impensavel agrade, muito obrigado.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
Que lindeza de dia! Que azul tão vasto e leve, que paz e serenidade, que bonomia divina.
Que pachorrenta divindade preside a estas horas?

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Há por essas prosas de agora, creio, mormente nas portuguesas, um tom de neutro lamento que devemos levar, como da leitura delas depois se infere, à conta de sábia e distante sapiência das coisas do mundo.Essa sensatez recolhida e mansa irrita-me, não acredito nela e preciso de pensar que é apenas mais uma moda, a da escrita de agora para vencer uma crescente irritação (pior é quando encontro esse tique - e canhestramente - no que escrevo). Hoje vou ler Maîstre. Ávido de sangue e raiva, eis como me puseram as boas intenções (mesmo que puramente convencionais) do alfandegário literato "nada a declarar".

A palavra do dia: curmudgeon.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Do programa da televisão de que vi um pouco (prós e contras?) se retira, através do dito por Soares, Freitas do Amaral, Adriano Moreira e, creio, Balsemão, que não é a altura oportuna para mudar a lei eleitoral. Certamente que agora, com a AR dissolvida não é, e creio que ninguém queria significar por "agora" "nesta precisa ocasião" mas em Portugal está-se sempre de acordo em que "agora" não é a altura oportuna. Foi assim com o escandaloso código de processo penal, foi assim com a (não) revisão do regime do arrendamento e assim será com tudo o que incomode e doa. Portugal foi o país europeu em que o PNB menos cresceu entre 1850 e 1913, época que, em grande parte, decorreu sob regimes parlamentares. Todos os outros países, nessa mesma época, duplicaram (alguns quase triplicaram) o rendimento per capita, mantendo-se o nosso quase na mesma (apenas + 45 dolares!). Não se pense, porém, que esse período foi mau. Pelo contrário, foi o do fontismo: construção dos caminhos de ferro, infra-estruras, etc, etc. O que aconteceu, é que, para além das obras públicas, teriam sido necessárias outras medidas e nunca foi o momento oportuno. Até hoje, como se vê...

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Utilidade de ter este blog mais de um ano: ir ver o que escrevi há um ano atrás...
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.

domingo, janeiro 16, 2005


Joe Dunne

Uma tarde bonita. O vento fez-me perceber que passou já aquele tempo de recolhimento da natureza (Rilke) que podemos percebemos de finais de Novembro a princípios de Janeiro.
Ainda não é a ante-primavera, também rilkeana, que aparece por vezes em Fevereiro, agreste, com rajadas de sueste e aguaceiros, mas o perfeito silêncio já lá vai.



Erramos sobre a nossa simplicidade ou sobre a nossa complicação e depois de o admitirmos um dia, depois da admissão desse erro inocente e grosseiro cometido há muito tempo - por inexperiência, imperícia, falta de destreza - mentimo-nos piedosamente um caminho de volta.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Um brouhaha intenso, irredutível a qualquer sentido, melhor, a qualquer local - se a etimologia hebraica é a verdadeira, seria, ao menos, o ruído da esperança de uma diferença, (hoje uma esperança esquecida em nome do gosto mesmo do "estar aqui" atopicamente) - e espera-se que colaboremos tanto nele que o silêncio é visto como uma jactância, uma omissão premeditada, uma coreografia de reserva mental. Neste blog, além da mera preguiça, do puro desleixo, do deixa andar, não se renunciará ao silêncio. Grandiloquências de quarta-feira à tarde, antigos tempos de actividades circum-escolares, sei, mas fica dito.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...

Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.

domingo, janeiro 09, 2005

Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.

quinta-feira, janeiro 06, 2005

O "Os músculos de um mar que já foi gente" linkou o Impensavel que agradece, muito obrigado.
A volta aos jornais: continuam as palermices francesas. É difícil para a França perceber que não passa de uma potência regional e sovina.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.

Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Leio uns artigos sobre o acordo ortográfico e penso no que deu a arrogância e novo riquismo de meia dúzia de "sábios" positivistas republicanos no início do século passado: uma língua com duas ortografias, como não sucede com nenhuma outra no mundo e, quase um século depois, dois países com altos índices de analfabetismo. Condiz com tudo o resto, sei, mas é triste.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Robert Frost, The road not taken


segunda-feira, janeiro 03, 2005

A falta de confiança que os portugueses têm neles mesmos tem um estranho, perverso reverso: a confiança no estado e uma crença quase infantil no poder da lei para moldar a realidade ou, pelo menos, para a escamotear, para ir adiando a débacle e ir compondo o que já não tem arranjo.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.

domingo, janeiro 02, 2005

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Na minha abrigada varanda, voltada a sul, nestes dias tépidos e soalheiros falta quem lá se sente a aquecer-se ao sol. Uma criada velha que lá remendasse uma pano quase sem préstimo e se lavantasse depois, lá pelas quatro e meia, por se irem aproximando as horas do lanche.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Com algum espanto noto assomos de indignação quanto às falhas do estado português na assistência aos portugueses no Sudoeste asiático.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Linkaram este blog o Olhos Azuis , o Monodia , o Vacalhum e o Batata Quente .
O Impensavel agradece, muito obrigado.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Post em que vociferava apagado.
Não quero atulhar - macular - de ruídos inúteis este dia ermo.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Esta semana, entre Natal e Ano Bom, no côncavo do tempo, uso-a em nadas: abrir livros, folhear outros, andar aqui por casa de um lado para o outro, em conversas-paisagem com amigos que esmoem o festim e o tempo, à lareira ou à roda da braseira. (E é tudo o que faço). Depois, em Janeiro, já não é assim, a curvatura dos dias perde a perfeita serenidade, pressente-se o esgar escrupuloso e duro do início.

quinta-feira, dezembro 23, 2004



Christmas Gifts: Daylight and Dawn, Eric Gill, c. 1913,
Tate Gallery

Um Santo e Feliz Natal!


terça-feira, dezembro 21, 2004

O Inverno começou hoje.





Estava a começar a escrever um post para contar o que se passou comigo enquanto lia, ontem, já na cama, o "Vinte horas de liteira" - o que se passou foi ter-me esquecido do copo da água, o que me obrigou a percorrer um gélido corredor, uma entrada cavernosa e outro corredor onde o frio mais inclemente reinava, isto com algumas peripécias insignificantes pelo meio mas que tencionava contar - quando me apercebo da tão agradável menção que o Contra a Corrente quis fazer a este blog.
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
"A distinguish bishop, a priest and a peasant are in a great cathedral. In turn the priest and bishop approach the altar rail, beat their chests and declare, «I'm nothing, I'm nothing». The humble peasant, moved to imitate, shuffles to the altar and says the same thing. The bishop turns furiously and hisses the priest's ear, «Who the hell does he think he is?»"

No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Consegui tratar de tudo em Lisboa entre o meio-dia e as quatro da tarde. Espero que não ser obrigado a sair daqui senão depois do Ano Novo. Para estes dias ambiciono o sossego silencioso das conchas em volta.
Egoísmo pacato, mas egoísmo quand même bem sei.

sábado, dezembro 18, 2004

Gostaria de dizer que corei como um sentimental general inglês ao saber que esta Senhora gosta tanto deste blog e que com toda a simpatia e despacho o diz, que ficara eu com isso très ému - presque -, que...
Mas fiquei assim, assim é que foi que fiquei:



quinta-feira, dezembro 16, 2004

Valha-nos o azul imenso, quase abençoadamente demasiado
que, por baixo dele, aqui, tudo é de menos.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Outro dia magnífico.
Acredito em Parménides:
"[...]
Não foi um mau destino que te enviou a viajar" E "aprender [...] o coração inabalável da realidade fidedigna" um convite que relembra em mim diligências antigas.
É do sol, do azul e da nitidez da aragem branda.

(O poema fui buscá-lo ao "Antes de Sócrates" de Trindade Santos)

terça-feira, dezembro 14, 2004

Onde se finca o ponto fixo ao redor do qual giramos, edificamos, recuamos, avançamos, cedemos, damos, recebemos, tememos e ameaçamos?
Cioran - que, creio, estou a a parafrasear nesta tarde de Outono perfeito - crê na necessidade de renunciarmos ao apoio sobre qual construimos tudo, que abandonemos essa terra firma e vagueemos.
O mais que consigo nos melhores momentos - em dias como este - é sentir a dureza dessa terra, esse calo do que se é, e preferir a essa exiguidade da terra calcada a deriva para norte. Mas isso não é a ainda indiferença nem a renúncia, é um erro de método e que redunda em mero turismo ontológico.

Akseli Gallen-Kallela, 1905 Lake Keitel
National Gallery


segunda-feira, dezembro 13, 2004

Aproveito este breve surto de vontade para agradecer aos blogs que recentemente "linkaram" o Impensável:
O Boticário de província e o Nota bene.
Muito obrigado.
E a influenza, a má influência que nos põe de cama e nos desorganiza metafísicas e universos - como bem sabia Pessoa -, quando os micróbios, netos dos miasmas, se lançam sobre nós.
E no fogão o fogo crepita. O fogo crepita no fogão é um desgraçado lugar comum muito abundante em descrições dos prazeres de Inverno ou dos do espírito, se meditarmos, lermos em frente ao, ou dessas actividades formos distraídos pelo mesmo.
O que me parece injusto para tão comum lugar liteterário é a trabalheira necessária para que o fogo crepite. Encomenda da lenha, implorar para que não esteja molhada, vigiar para que fique arrumada e, depois, o pior, ir à arrecadação buscar a lenha e trazê-la escada acima. O fogo crepita? Ora vejamos: um fogo laborioso crepita. Se os meus escrúpulos em pedir à empregada que traga para cima sacas generosas de lenha persistirem, vejo-me privado da contemplação do lugar comum e, no cair frio da tarde de Inverno, resta-me, de uso ameno e caseiro, o fumegante chá. A loira torrada, a torrada dourada, também já se foi, há muito. Há alguma coisa sobre lombadas pousadas de livros, livros esquecidos sobre uma mesa ou um sofá, mas sempre os achei pouco entusiasmantes.
O que não posso decentemente é pedir à empregada, a quem dou instruções para ter cuidado com os pesos, etc, etc, que traga as preciosas sacadas de lenha, para que esta crepite no começo do texto...
Impedido da contemplação e desfrute de lugares comuns que caros me eram, e brandos - o fogo crepita brando, interessante, este - eis um side effect estranho do paternalismo nas relações laborais.


sexta-feira, dezembro 10, 2004

O "blog" não está esquecido. É o frio (isto não é um protesto). Com este frio e alguns aquecedores avariados, sair à noite da sala é uma temeridade. E por lá fico, entre a contemplação das chamas no fogão e o livro que escolho para a noite.
O tempo, contudo, vai mudar. Ventos do Sul, algumas chuvas, os aquecedores foram já substituídos, o gabinete pequeno de onde escrevo tornar-se-à habitável e convidativa para a bavardage.


terça-feira, dezembro 07, 2004

Fico ciente, mas já esperava isto, condiz com todo o resto. Mas, em compensação, são tãooo expressivos, tãoooo imaginativos, tãoooo de fazer qualquer pedagogo adejar de comoção. E, depois, Espanha, onde começa o mundo a sério, fica tão perto, podemos ir lá quando precisarmos de alguma coisa mais maçadoramente precisa.

P.S. Convirá notar que fora qualquer coisa que se traduza em botar cimento - e actividades conexas - este país é absolutamente incapaz de resolver qualquer problema, seja dos velhos, seja dos que vão aparecendo com os tempos novos de lá de fora (que aqui, como dizia Pessoa, o presente é antiquíssimo). O que se faz, verdadeiramente, e bem, é acostumarmo-nos a que seja assim, à habitualidade do desaire (paráfrase desagradável, esta).

segunda-feira, dezembro 06, 2004

ALL the words that I utter,
And all the words that I write,
Must spread out their wings untiring,
And never rest in their flight,
Till they come where your sad, sad heart is,
And sing to you in the night,
Beyond where the waters are moving,
Storm-darken'd or starry bright.

Yeats

sábado, dezembro 04, 2004

Releio o "Portugal Contemporâneo" do Oliveira Martins.
A tarde, de um cinza súbito, é o cenário cúmplice da leitura.

P.S. das 18:36: Não reiniciei o O.M. Tenho de confessar, eu, um defensor dos dias cinzentos, que me fez falta a tarde soalheira: imuniza um pouco contra a absorção do pessimismo de Oliveira Martins. Sem sol, fiquei por aqui, numa versão de passeio triste cibernético.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

A Bomba Inteligente quis ter a simpatia de destacar um post deste blog atribuindo-lhe a "Bomba de Ouro" um dos mais respeitados galardões no mundo blogosférico. O Impensável agrade, muito reconhecido e confundido.

O Impensavel, porém, sente-se no dever de esclarecer que, ao contrário do que possa parecer, a afirmação proferida não é uma boutade, mas fruto de longas reflexões sobre o país.
Ora vejamos: parece consensual que os portugueses querem que o país se aproxime do nível de vida dos demais países europeus da UE. Mas, pobre e atrasado, haverá um caminho a percorrer, decisões a tomar, etc. etc. O traçado desse caminho e essas decisões não têm de ser descobertas por nós: existem já. Com pequenas diferenças de método, é aquele caminho, são aquelas decisões que nos levam . E chegar , e o mais depressa possível parece ser o que todos queremos com determinação. E queremo-lo tanto que, quando desabam sobre nós diagnósticos frios sobre o longe que estamos do objectivo, o país estremece, diria que se apavora no medo de continuar como é, triste e atrasado. A última vez que tal sucedeu foi com a análise do Dr. Medina Carreira, publicada no Queijo Limiano.
E o que dizem, no fundo, todas essas análises lúcidas? Que estamos no caminho errado, que usamos métodos errados e ineficazes e que os usamos por medo dos side efects dos métodos correctos, que a maioria desses erros, dessas omissões, se deve ao medo da cura, de onde deriva a tibieza, à pusilânimidade, governamental - e à nossa, profissionais que somos na arte da auto-ilusão.
Por isso, a proposta do gerente suiço. Já estiveram num hotel suiço? Pois vão lá...

P.S. E é de um gerente que precisamos, não de um director de colégio interno, seja ele inglês, vocação que parece ser a do Presidente da República.

terça-feira, novembro 30, 2004

Eu preocupado com divertimentos e o Dr. Sampaio a providenciá-los...
Estou convencido que este governo cai mal. Isto é, cai em vão. Decerto houve aselhices, inabilidades. E houve alguns pecadilhos. Nada que não tivesse acontecido antes.
Mas o que fez cair este governo foi o ser ele formado, melhor, ter a cara de pessoas próximas daqueles que se sentem perto do poder, que estão dentro do círculo comutativo do poder, ou tuteiam quem dele faz parte: ora, de vez em quando, metade dos habitantes desse território parco finge que é nova, que é "diferente", que tem um "projecto", põe umas carantonhas de papelão onde estão pintalgadas as insígnias da gravitas e com um ar de distância, com um ar grave, "governa". Estes, os que agora caem, por demais conhecidos nas redacções dos jornais, na "noite" lisboeta, entre as festas dos empregados mais bem pagos dos interesses, não "calhavam", a "suspension of disbelief" funcionava mal. E, sem fantasia, este - esse - país não vive: começa a matutar que assim não pode ser e reclama carantonhas severas: por isso Cavaco, que quer agora as reformas que não fez, ou Guterres, a versão séc XXI da retórica tão balofa quanto grave do oitocentismo que Eça fustigou. Ou Sócrates, que foi a correr pôr uma caraça lúgubre de estadista.
Substancialmente, não fazem nada de diferente do que estes fizeram. Nem vão fazer. É inútil, pior, é estulto esperar que façam, tratando-se da mesma massa. E a massa é má.
Eu, para que ninguém sofra mais, porque estas coisas sempre custam, e fazem despesa, e alvoraçam (atrasei hoje páginas de leitura) alvitro que se contrate para a governação um bom gerente de hotel suiço. Ficávamos todos melhor servidos.
Se poder vir também algum pessoal...

No outro dia - sempre no outro dia - fui a Lisboa e conversei demoradamente com o meu alfaiate. Acabei por me decidir pelas palas nos bolsos. Depois, resolvido esse e outros assuntos, saído da alfaiataria, respirei o ar frio do Chiado e comprei, numa livraria, o "Ritos de iniciação e sociedades secretas" do Eliade. Quase à porta da livraria conspirava Pacheco Pereira, uma bela nota de "Chiado ancién" que estimei observar. Eduardo Prado Coelho, na Bénard, fez-me perder o ânimo que buscava nuns scones e chá. Desalentado, desci o Chiado.
Estive a pensar em relacionar tudo isto, cosmicamente, como passatempo para a season.

A apresentadora solicitava aos participantes que não se perdessem em "tecnicismos". Ora vamos lá ver em que pode consistir um "tecnicismo", uma questão de datas, por exemplo: nos países do 1º mundo - e em parte dos do 3º - o prazo máximo de prisão sem acusação não vai além de alguns dias ou mesmo de horas. Aqui, pode ir até um ano. E, até muito recentemente, a pessoa podia estar presa sem saber sequer porquê, sendo essa, aliás, a prática corrente. A coisas destas chama a apresentadora "tecnicismos". É interessante.
Tudo o que aqui é dito agora, já o disse antes. Nunca será demais, porém, relembrar o que somos, a persistência da brutalidade, da crueldade, da desumanidade a par com a má fé daqueles que têm o atrevimento de proclamarem na praça pública o "avanço" e a bondade dos nossos códigos.
As questões penais ( e de processo penal) são um bom instrumento para aferir da conta em que nos temos, do que achamos que merecemos, do que somos. E, aqui somos culpados, provisórios inocentes, culpados a ser.

sábado, novembro 27, 2004

O silêncio é, aqui - e "aqui" é o mundo dos blogs - quase impossível: confunde-se com desleixo e abandono, abastardado pela persistência do último post, pela sua "antiguidade" convexa. E gestos tais como posts vazios, grandiloquências de adolescente devoto, excesso de veemência, de afinco, também são pouco recomendáveis.
Fica assim, por isso, como está, um post velho à cabeça, por me apetecer estar calado.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Tons ouro, amarelo, crèmes foncés e esmaecidos, verdes gastos da velha Gobelins (a data, c.1750, constava em baixo numa placa pequena), o programa de uma tarde, a visita à ilha do lago. Um cortesão ajudava as senhoras a subirem para o barco. Alguma melancolia. Pensei, por um tempo, tratar-se de um divertimento há muito aborrecido por todos, mas havia sorrisos de algum entusiasmo. O concerto da ilha, onde já se encontram convivas. Escapam-me os pormenores, há muito que não vejo a tapeçaria e penso agora que estão a acabar os tempos em que a poderei rever sem demasiadas explicações, sem manchas de pretexto, aparecer para o lanche basta, eis todo o necessário - e, se por desejo de mudança que não é de esperar da idade da minha anfitriã, estivesse agora noutro lugar, numa sala menos acessível, ainda assim seria bem acolhido e pareceria natural o meu pedido para a rever. Relembrei-me hoje, depois do almoço, daquele pequeno bosque e da ilha ao ouvir as "Pièces froids" de Satie que foram, pelo labor da luz e da memória, mais do que peças musicais, a sala, a peça de passagem, sempre fria, onde, em tardes de sol, a pequena orquestra esperava os retardatários entre os dois contadores sombrios.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Da sala, fogão aceso, livro novo, alguma neura, contemplo o blog e os caminhos que a ele levam, como sítios longínquos e desabrigados.

quarta-feira, novembro 17, 2004

À minha lista do "também já não era o que foi" veio juntar-se a The Economist: um estudo daquela revista coloca Portugal no 19º lugar (a contar de cima!!!) na lista dos países onde é bom viver. Portugal estaria, segundo o estudo, acima de países como a Grã-Bretanha e a França (sic).
Já há tempos a Economist se tinha declarado republicana tendo, por isso, entrado para a minha lista de "só me faltava esta, não tarda nada estás no cesto dos papéis" .
Está provado agora que ensandeceu de vez.
Menos papelada para ler.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Por vezes chega, velha visita, o sentimento do precário de tudo isto - e "isto" somos nós e tudo o que nos rodeia.
Encontro algum paradoxal alívio num sentir geológico, numa microscopia de lentidão quase incomensurável, absurda.
Uma outra velha amiga, emerge do frio, sorri, admoesta-me sobre as minhas preocupações com as malaises em voga e lembra-me que preciso de ir comprar tinteiros para a impressora.
"Sempre passeia e apanha sol" - diz ela.
Evito a capitulação total: "compro os tinteiros amanhã, em Lisboa. São mais baratos".

sexta-feira, novembro 12, 2004

...................................
Through all their former Places, we
Like Individuals go
Who something lost, the seeking for
Is all that's left them, now

Emily Dickinson

segunda-feira, novembro 08, 2004

Tarde azul, amena e a eternidade do que já foi. Traços de nuvens rosa, sobre o cinza ténue do fim de tarde.
Schubert, op. 100, breves reflexões sobre a contingência e elogio da peripécia. Vidas aventurosas de antanho e sua glorificação.
Preguiça e vagares.

sábado, novembro 06, 2004

Assisti (ontem?) à libertação da hospedeira do avião envolvido no tráfico de droga.
A justiça venezuelana parecer ser o que a nossa não é: célere.
Nalguns telejornais, contudo, a situação é tratada com o espírito "até que enfim, são inocentes, ora esta, o atrevimento!"
Quando se trata da "nossa" "justiça, ao invés, é preciso ser sereno, respeitar os trâmites, os prazos ( no caso da prisão preventiva sem acusação, 18 - dezoito - vezes superior, em Portugal), aguardar, não discutir o que está em segredo de justiça e aceita-se placidamente que inocentes possam estar presos sem saberem porquê.
Somos assim.

Tarde magnífica. Vou passear.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Estou convencido, pelo que fui lendo nos jornais, que há pessoas inocentes detidas no caso da Venezulea, como já disse num post anterior e, por isso, espero que sejam libertadas o mais depressa possível.Dito isto, averiguemos de legitimidades para mostrar indignação perante o sucedido com a tripulação do avião envolvido no tráfico de droga: o Código de Processo Penal da Venezuela, produto de um governo anterior ao de Chavez, é, incomparavelmente, mais avançado, por mais humano, por mais respeitador dos direitos de defesa que o nosso. Ao pé daquele diploma o nosso código é um amontoado de horrores. Calem-se, por isso, todos aqueles que, aqui, defendem que é preciso "deixar trabalhar a justiça", quando isso significa, por exemplo, poder ter pessoas presas sem acusação durante um ano de e outras enormidades de igual jaez permitidas em Portugal com geral aplauso.O estado das prisões da Venezuela é que já se pode assacar a Chavez e, por isso, não me surpreende que seja o que se diz que é. Convirá, porém, lembrarmo-nos que, pertencendo nós, nominalmente, ao 1º Mundo, o estado das nossas prisões, observado por um norueguês ou um sueco, não será muito menos horrivel do que o dos cárceres venezuelanos, o que não deixa margem para grandes indignações. Atento tudo isto, era melhor que estivéssemos calados.
Com conhecimento ao marujo FNV que já denunciou alguns double standards.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Sempre estive convencido da vitória do Presidente Bush e as primeiras projecções confirmaram a minha previsão. Esperei ainda um tempo para ver se haveria algum suspense, mas logo percebi que não. Que fazer para animar a noite? A resposta surgiu rápida: assistir a tudo através de um canal francês. Assim fiz! E, de facto, muito me ri com a TV5. Os franceses, que ainda há pouco tempo tiveram de optar entre dois homens de estado de uma estatura gigantesca, Le Pen e Chirac e olhavam, por isso, a coisa de muito alto, não deixavam de alinhar pelo smart casual de Kerry e da sua femme-potage, a afro-americana (assim ela se apresenta) Teresa Ferreira. Sem a menor preocupação de rigor ou isenção, falaram, falaram durante horas (o que aquela gente adora ouvir-se e fingir que ouve os outros ouvirem-se...) sobre a má escolha dos norte-americanos.
Enquanto falavam para deplorarem o resultado, devem ter arranjado ocasião para darem as suas ordens de compra, já que, quando acordei, hoje de manhã, a bolsa de Paris estava em alta (franca).
Uma noite divertida com uma conclusão moral e matinal adequada.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Declara-se, solenemente, que o signatário não tem quaisquer interesses económicos ou de outro jaez nas empresas envolvidas.
Dito isto:
Que o café é muito bom, é. E o design da máquina idem.
Começo o dia com um Livanto e...
Vejam...
O Rua da Judiaria fez um ano. Em nome da reciprocidade deveria abster-me raivosamente de mencionar a efeméride. Não posso, porém: o Rua da Judiaria tem-me fornecido informação interessante, fruto de trabalho onde se adivinha comprometimento, seriedade e interesse. O Impensavel, por seu turno, é um blog de impressões dilettantes. Perante situações tão diferentes, invocar a reciprocidade? Não! Parabéns!

O Impensavel ainda não descobriu onde está a informação das datas de fundação dos blogs. Cumprimentador por natureza, vê-se, por isso, afastado das comemorações. Agradece-se, sem alvíssaras, a quem elucide.

quarta-feira, outubro 27, 2004

Tenho seguido, desatentamente, as notícias da prisão de vários portugueses na Venezuela.
Não sei se estão inocentes ou culpados ,mas todos eles, inocentes e culpados, se os houver, tiveram sorte, muita sorte em serem presos na Venezuela, país do 3º mundo, e não no ridente Portugal de "brandos costumes"
Na Venezuela os interrogatórios apenas podem ser efectuados das sete da manhã às sete da noite - e não, como em Portugal madrugada fora, sem limite de tempo - os arguidos têm acesso a todo o processo e, desde que estejam presos preventivamente, a acusação tem de ser deduzida em 20 dias (1). Se não o for, serão libertados.
Ou seja, nada de semelhante à barbárie portuguesa.
Interessante é relembrar as vozes que, aqui, ainda recentemente, se levantaram para defender o nosso código de processo penal. Diz tanto sobre nós, este sereno convívio com a brutalidade e a desumanidade...

(1) Prazo em Portugal, normal 6 (seis) meses, mas pode chegar a 1 ano (um ano). E já agora, emendo "sereno". Leia-se entusiasta.

terça-feira, outubro 26, 2004

A noite passada tive frio, daquele frio agradável de se ter, por ser o remédio dele uma peripécia pequena e fácil. Antes, lá fora, tinha observado o nevoeiro. O silêncio é feito daquele mesmo granulado de penumbra e espera.

Desfaço-me do branco e adopto este azul para o que vem, o cair raso e macio, de passos lentos.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Uma senhora deputada do PS que, penso, já foi secretária de estado de assuntos referentes ao arrendamento, quer introduzir modificações ao novo regime de forma a evitar "despejos por raiva". Acho que sim. E que, sendo a raiva uma nefasta emoção, deve a deputada apresentar projectos de legislação anti-raiva em todas as actividades económicas. Diria mesmo, a vacina anti-rábica deveria ser condição para se exercer qualquer actividade económica.
E empresa criada, negociação, novo produto lançado no mercado, tudo deveria sofrer o escrutínio de uma comissão - com algumas centenas de membros seráficos, de nomeação parlamentar, que certificasse as boas intenções das partes.
Linkou o Impensavel que muito obrigado, agradece, o Binoculista.

sábado, outubro 23, 2004

A previsão era de ventania, de temporal desfeito. Esteve um dia glorioso, uma tarde magnífica como só as têm Outubro e o Outono e a noite está muito calma, muito serena. Não tenho é ninguém com quem a partilhar, nem que seja para uma simples passeata. A culpa é minha, todavia. Confiado nas previsões do Intituto Nacional de Meteoreologia, bastante mais sombrias do que se podia prever pela observação destas, resolvi ficar por aqui, enquanto os incautos se derrramavam por concertos, jantares e passeios. O meu programa para este fim-de-semana era, em suma, a recolha sumarenta, amanhã, dos relatos das desditas dos desgraçados, a quem eu iria consolando, não sem lhes relembrar que bem lhes tinha dito, velho sábio avisado, que não estava tempo para sair.
Ao invés, ficarei a remoer, aborrecido e amuado, os relatos que não me diexarão de fazer em retaliação.
Que tire daqui uma lição: entre as previsões europeias e as norte-americanas, não hesitar, doravante, em seguir as últimas.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Where I am, I don't know, I'll never know, in the silence you don't know, you must go on, I can't go on, I'll go on.

Samuel Beckett, The Unnamable



quarta-feira, outubro 20, 2004

"Vou descansar no cinza húmido destes dias" Isto não é uma frase, é um lugar comum, trivial, um sintoma dessas sensibilidades que andam por aí nas promoções da metáfora pronto-a-vestir e que há trinta anos faziam "efeito". Estão gastas, felizmente, mas são baratas e não se resiste à pechincha.
Não descansei nada, estive irritado e preocupado, farto da ventania. Outro dia medíocre, folheei o TLS que chegou e mais nada. E agora reparo nesta outra pechincha, mais dvdosa(1) e modernaça mas que vai dar no mesmo, é o ar confessional hodierno, a gente finge confessar nadas em má prosa e que sim, que é assim mesmo, muito spleen, busca-se aquiescências e, vá lá, já adivinharam, cumplicidades, ainda se diz, sem tremolos. Que desonestidade, que falta de vergonha na cara, este fingir que se disse tudo, que se desabafou, oh o culto da fragilidade, do "eu sou isto" ou o mais sofisticado naif e oculto, o compungido: "se eu fosse apenas isto", outra impostura bondosa quando se é pouco mais, segundo tudo leva a crer, que esse lamento fingido e verdadeiro. Enfim, o que me tem animado é o Gilgamesh. Não fora o Gilgamesh, em boa hora comprado, e estaria a contas com um Outubro muito desagrádavel. Sério.

1 - é da interioridade, o dvd ainda é uma novidade. Há muito que não se pergunta, "Já há em dvd?" que há sempre, se não da zona 2, da zona 1, - a famigerada zona 1... -mas eu fiquei com esta no ouvido. E há, de facto: "Comprei o pack do Dreyer". Tem de se convir: é dvdoso. Eu acho.

terça-feira, outubro 19, 2004



Goya, Caprichos

Estou de mau humor, noto ao ler alguns "posts" recentes. Talvez o Verão prolongado, talvez outra coisa qualquer. "Ninguém se conhece".
Vou descansar no cinza húmido destes dias.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Gosto de ouvir Paula Rego "contar" as suas obras. No outro dia, na televisão, contava alguns das telas que estão em Serralves. Duas delas são inspiradas na vinda para o Estoril de algumas famílias reais europeias e acompanhantes, durante a II Guerra Mundial. Numa delas, contava, um rapaz, português, está de braguilha aberta, pronto a ser abusado por um estrangeiro, presumivelmente um aristocrata, pois então. Que asssim era, como, aliás se dizia e sabia, asseverava Paula Rego. É coisa que sabemos bem que assim era... se optarmos, como Paula Rego optou, talvez malgrè elle, pelo mito do Portugal rural, vivendo uma perene idade de ouro como o entendia o salazarismo: aqui imperaria o bucolismo virtuoso de todo um povo laborioso e feliz e, lá de fora, da Topia, vinham as ameaças, as perversões que contaminariam o bom povo português. Isto é xenofobia, preto no branco demagógico, mitificação primária. É que não era assim aqui, terra da branda violência, terra sem estatisticas - que são obra do diabo -, mas fica mal dizer, ou saber que situações de abuso infantil ocorriam naquela alegre casa aldeã, ou naqueloutra do operário neo-realista, talvez membro do partido.
Ah, falta dizer que os aristocratas estrangeiros abusadores da mocidade pátria, não fazem parte do círculo de grandes pensadores, intelectuais e artistas de esquerda a quem tudo é, foi, evidentemente, permitido. Que o irmão do Conde Balthus produzisse pornografia para consumo de Gide et coetera é assunto que apenas gente de somenos pode não perceber.
Ver Paula Rego, sempre. Ouvi-la? Tsc, tsc.


quinta-feira, outubro 14, 2004

A mudança de colónia mostrou-se desastrosa: estive todo o dia à espera que servissem o chá e sandwiches de pepino a lamentar-me por ser pouco original e honesto - se bem que, devo dizer, a minha desonestidade consista, maioritariamente, num atabalhoamento de propósitos - e ao lanche comi quantidades desusadas de pão com manteiga.
Verei, hoje à noite, "The importance of being Earnest". Aconselho esta versão, que frequento há bastante tempo.
Para aguçar curiosidades a quem possa não ter ainda lido ou visto, esta extradordinária fala de Lady Bracknell:

"LADY BRACKNELL: Well, I must say, Algernon, that I think it is high time that Mr. Bunbury made up his mind whether he was going to live or die. This shilly-shallying with the question is absurd. Nor do I in any way approve of the modern sympathy with invalids. I consider it morbid. Illness of any kind is hardly a thing to be encouraged in others. Health is the primary duty of life. I am always telling that to your poor uncle, but he never seems to take much notice . . . as far as any improvement in his ailment goes. Well, Algernon, of course if you are obliged to be beside the bedside of Mr. Bunbury, I have nothing more to say. But I would be much obliged if you would ask Mr. Bunbury, from me, to be kind enough not to have a relapse on Saturday, for I rely on you to arrange my music for me. It is my last reception, and one wants something that will encourage conversation, particularly at the end of the season when every one has practically said whatever they had to say, which, in most cases, was probably not much."


Linkaram o Impensavel, que agradece muito obrigado, o Sedentário, o Brain Damages, o Stand Up Comedy e o Blog do Marcelo.

quarta-feira, outubro 13, 2004

O Houaïss, que comprei contra vontade, não refere o vocábulo "sinecismo".
No Google a resposta foi imediata.

Justificava-se a minha relutância.

Ontem à noite, no "Dossier Bergman" revejo o acordar da irmã moribunda de "Lágrimas e suspiros". Os gestos matutinos, neutros, "físicos", e depois o pavor, o despertar para a morte que é o despertar para a nossa humanidade, o locus de onde concretizamos a nossa singularidade.

Depois disto, deitei-me, li umas páginas do Diccionario do Pinho Leal, e acordei para este dia sem sequelas, envolto na suave e agradável luz da rotina. Apesar de tudo, e por precaução, mudei de água de colónia. A de ontem - uma das preferidas por Churchill, the bully, criada em 1902, tornou-me estranhamente buliçoso e o Bergman às 3 da manhã não é para repetir. Optei, por isso, por uma outra que me parece propiciar um après dîner mais calmo.
Bom tempo, apesar do vento. Vou passear.

terça-feira, outubro 12, 2004

O Impensavel desfaz equívocos

Não, Caro Mia Pouco, este impensável não é o blog do diligente Jorge Reis com hífen Sá, dinâmico editor e admirador de não-sei-quem Tavares Rodrigues que foi entrevistado há dias por Ana Sousa Dias.
O autor deste blog nunca foi dinâmico ou promissor e embora não se congratule com essa falta de qualidades, não deixa de se orgulhar com o facto de que, daqui, nada há a esperar senão a velha portuguesa preguiça e a conservadora desconfiança pelas novidades, sejam elas instituições, ideias, ou pessoas.
Vou passear que o dia está muito bonito.

segunda-feira, outubro 11, 2004

Finalmente, uma temperatura decente. Tenho de aproveitar para pôr as leituras em dia e desbate dos montículos de papelada espalhados por aqui e acolá.

Logo, ouvirei a comunicação do primeiro-ministro. E já agora, esclareço a minha opinião sobre o governo actual, antes que se formem, sobre o assunto, incontroláveis correntes hermenêuticas: não é grande coisa, este governo. Mas os outros que o antecederam - e refiro-me a muitos outros - não eram muito melhores, ou sequer melhores: não me parece abusivo dizer que todos os governos da 3ª república se têm pautado pela cobardia, evitando reformas que, reconhecidas embora como fundamentais, não foram feitas pelo simples motivo de que não seriam populares. Infelizmente, não vi ninguém dedicar-se a denunciar esse populismo conformista e imobilista que nos foi empurrando para a cauda da Europa.
Por isso, estranho agora o afã, como se a pátria estivesse, hoje, mais em perigo do que esteve (e está) sempre que uma reforma foi e é adiada.

Subitamente senti-me mais desperto, exclamei: "mas eu tenho muita coisa atrasada para ler!" Revolvi livros, estabeleci prioridades, pu-los por ordem. Nem era preciso confirmar. Mas fui verificar. Era verdade: uns retemperadores 12º C, esta noite, agora! Passou o pesadelo das temperaturas saharicas, sinto os neurónios a mexer, oiço-lhes o ranger.
O Outono chegou, completo.

domingo, outubro 10, 2004

O Chiado já não é a "ladeira vaidosa" (Ramalho) de que eu, em criança, conheci os últimos resquícios, mas já não é, também, a velha senhora que já ninguém visita e vegeta desolada e de todos esquecida do início dos anos 90.Ontem, sábado à tarde, estive lá e se é certo que não encontrei ninguém meu conhecido, não deixava de haver gente e movimento. Comprei uma gravata, abasteci-me de café e, na Fnac, comprei os "packs" de Woody Allen e Ingmar Bergman. Quase contente, descia pela Rua do Carmo, o que, tal como a Garrett, fiz pelo lado errado, quando os petits-four da desaparecida Martins & Costa de boa memória, pela ausência, me restituíram ao desgosto do tempo perdido, por um mecanismo inverso, mas semelhante ao das madelaines.

sexta-feira, outubro 08, 2004

«Cada vez se percebe mais que o "PPD-PSD" não é o PSD, mas um pequeno grupo que se comporta como tal», escreve JPP citado no Blasfémias. Duas leituras: ou o pequeno grupo se comporta como o PSD e, nesse caso, é de a gente se perguntar como é que se percebe que não é o PSD, ou comporta-se como um pequeno grupo que finge - mal - ser o PSD, o que levanta o problema de saber o que é o "verdadeiro" PSD e se há possibilidades de começar a fingir mais eficazmente, (embora o problema resida em saber o que fingir, exactamente). Em ambas as hipóteses, parece que estamos, "mutatis mutandis", em face de uma tese idêntica à que assevera que o regime que vigorou na ex-URSS não era o "verdadeiro" socialismo e que, no fundo, demonstra as dificuldades da desilusão.
Mas aqui, no nosso caso, há, no entanto, um modo de saber se o pequeno grupo é, ou não é, o "verdadeiro" PSD: os ilustre deputados daquele partido, actualmente em funções, não foram escolhidos pelo "pequeno grupo", pelo que terão possibilidades de pertencerem ao "verdadeiro" PSD. Dado que é de crer que o verdadeiro PSD é constituído por homens de firmes convicções e princípios, não deixarão de demonstrar a sua têmpera, através de iniciativas parlamentares adequadas. E existem os congressos, onde estarão ainda outros homens de firmes de convicções e princípios que serão o "verdadeiro" PSD e mal será que não tomem as atitudes que os seus princípios exigirão.Parece que há votos por inerência. Sabia do problema. Espanta-me apenas que o "verdadeiro" PSD não tenha já corrigido esse mal, que tenha coexistido com ele ao longo de tanto tempo. É da gente pasmar, convenha-se.
Fico à espera do que se passará.

E esta ventania? Aqui, o vento começa a rodar para Sudoeste, depois de fortes rajadas de Sul


"Apolo's temple"
Roy Lichtenstein

quinta-feira, outubro 07, 2004

Acesso difícil ao blog, foi um post ao ar. Sem importancia: lamentava-me do calor e desditas da tarde e acabava por declarar que desejaria emigrar para um país mais frio. 21º agora, às onze e um quarto. Dentro de casa, um ar abafado e calor, inútil tentar ler ou fazer qualquer coisa.
Fui ver o que dizia conspirava JPP sobre o caso do dia. Encontrei o "rigorosos e especiosos"
É evidente que as palavras do ministro são, por si, uma pressão, e entendidas como tal num país onde ainda é possível o uso de argumentos tão imberbes e palermas como o do contraditório sem que se erga uma imensa gargalhada, onde existem orgãos com nomes saídos de uma opera burlesca (a Alta Autoridade), e todos os dias cria no seu seio novas atitudes inanes (a especiosidade de que fala JPP, tão típica num país de legistas), com tão mais entusiasmo quanto a sua observação conduziria à inacção legítima.
Mas isto tudo não quer dizer que o governo, para além do que em público fez - o que seria grave, se houvesse coisas graves em Portugal - tivesse feito mais em privado. Não creio que o tenha feito, já por medo, já por mera inépcia - e este pôr de lado as "hipóteses virtuosas" é já um mau modo de ser português, de que me penitencio.

Eu não creio que o governo tenha feito pressões sobre a TVI, descontadas as declarações e queixumes do ministro. E não creio, porque, quem pode ameaçar e ameaçar eficazmente, não se lamenta. Ora, ameaçar o Eng. Paes do Amaral, que além de engenheiro, é conde, rico, um membro do verdadeiro stablishement nacional não é coisa que caiba nas competências do actual governo, onde há ministros novos, com filhos, se não eles mesmos, ainda a precisarem de emprego - e com o futuro e a família não se brinca. Não! O que me parece é que, com a inépcia do ministro Silva, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que já andaria a pensar sair da TVI, encontrou maneira de o fazer do melhor modo possível, criando a suspeita de ter sido silenciado, de ser uma vítima do actual governo... Poucos o saberiam fazer tão bem e provocando tanto dano.
Também se pode ter dado, é claro, o caso de uma real pressão, mas desconfio... atendendo ao exposto.
A não ser, claro está, que se tivesse tratado de pura inconsciência.
Contudo, este "tudo é possível" circular, beneficia o Prof. Sente-se o golpe de mestre.
Uhm...
Se foi, de facto, um golpe dele...
Desse dia 7 de há muitos anos, primeiro de escola, nada lembro senão a recomendação ao professor: "Pulso forte, pulso forte", erupção da rudeza nacional numa educação que se pretendia "como lá fora", mas que não tolerava "rebeldias". Não precisava de pulso forte coisa alguma.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Dia de S. Francisco de Assis

Cântico das Criaturas

I

Altíssimo, omnipotente,
Bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória,
A honra e toda a bênção.

II

Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.

III

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor
Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.

IV

E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.

V

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.

VI

Louvado sejas, meu Senhor.
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas
Dás sustento.

VII

Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

VIII

Louvado sejas, me Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo.
E vigoroso e forte.

IX

Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.

X

Louvado sejas, meu Senhor
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e
Tribulações.

XI

Bem-aventurados os que as
Sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo,
Serão coroados.

XII

Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã
A Morte corporal,
Da qual homem algum
Pode escapar.

XIII

Ai dos que morrerem em
Pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conforme à tua
Santíssima vontade
Porque a morte segunda
Não lhes fará mal!

XIV

Louvai e bendizei a
Meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande
Humildade.

domingo, outubro 03, 2004

Fui comprar cigarros, a uma "grande superfície", pensando poder passear, solitário, pela bucólica álea dos detergentes - já aqui disse e reitero: uma das mais interessantes - e encontro uma multidão, melhor, pequenos cardumes a disputarem iscos variados (software, dvds, mostra de vinhos e enchidos).
Voltei para casa.



sexta-feira, outubro 01, 2004

Hoje o vento que sopra vem do mar e do verão que já foi. Aqui, no vidro da janela, depõe as imagens do caminho longo: a voluta transparente de ar fresco, o flectir da ramagem, o gesto que se protege da poalha fresca, a lembrança daquele sítio, passadas as casas,lá sobre o mar, de que nos fala Emily Dickinson:

Contentamento é a ida
De uma alma do interior para o mar
Passadas as casas - passados os promontórios -
Até à profunda Eternidade

Criado como nós, entre montanhas,
Pode o marinheiro entender
A intoxicação divina
Da primeira légua longe da terra?