Cumprido o dever cívido de hoje - leitura de VPC, MFM (que, mais uma vez fala da Fontes Pereira de Melo... sigo esta paixão já serôdia mas ainda escandalosa, há anos) e JBC inicio o fim-de-semana ao sol.
quinta-feira, janeiro 20, 2005
"...e a acabar pelos "interesses" da pobreza, do remedeio, da baixa qualificação, do mundo protegido da competição, da preguiça, da apatia, típico das sociedades excessivamente dependentes do Estado e do subsídio - se sobrevivo assim, mais ou menos, porquê arriscar um mundo que me pode ser mais hostil?"
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
A questão, parece-me, é que não são apenas os que "sobrevivem assim" a pensar desse modo. São os que vivem assim, e os que vivem muito razoavelmente assim, ou seja, grande parte da classe média, e que detêm o voto do centro, como o Dr. JPP sabe. E contra isso...
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Há por essas prosas de agora, creio, mormente nas portuguesas, um tom de neutro lamento que devemos levar, como da leitura delas depois se infere, à conta de sábia e distante sapiência das coisas do mundo.Essa sensatez recolhida e mansa irrita-me, não acredito nela e preciso de pensar que é apenas mais uma moda, a da escrita de agora para vencer uma crescente irritação (pior é quando encontro esse tique - e canhestramente - no que escrevo). Hoje vou ler Maîstre. Ávido de sangue e raiva, eis como me puseram as boas intenções (mesmo que puramente convencionais) do alfandegário literato "nada a declarar".
A palavra do dia: curmudgeon.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
O que é? - "An ill-tempered person full of resentment and stubborn notions"
Creio que uma das coisas que fez a grandeza de Inglaterra foi a existência de pessoas com péssimo feitio e vontade de o proclamar a quem as quisesse (ou não) ouvir. Em Portugal, por razões que ainda não pude apurar, a esmagadora maioria das pessoas ou não tem opiniões e fica condenada a uma teimosia a seco - e silenciosa - ou, se as tem, quer compartilhá-las e persuadir-nos da bondade delas, usando para isso, a simpatia, a lisonja e outras semelhantes baixezas.
As pessoas verdadeiramente desagradáveis, ill-tempered e que nada querem de nós senão que desapareçamos e não lhes interrompamos a leitura por mais tempo são, hoje, aqui, uma espécie em vias de extinção.
terça-feira, janeiro 18, 2005
Do programa da televisão de que vi um pouco (prós e contras?) se retira, através do dito por Soares, Freitas do Amaral, Adriano Moreira e, creio, Balsemão, que não é a altura oportuna para mudar a lei eleitoral. Certamente que agora, com a AR dissolvida não é, e creio que ninguém queria significar por "agora" "nesta precisa ocasião" mas em Portugal está-se sempre de acordo em que "agora" não é a altura oportuna. Foi assim com o escandaloso código de processo penal, foi assim com a (não) revisão do regime do arrendamento e assim será com tudo o que incomode e doa. Portugal foi o país europeu em que o PNB menos cresceu entre 1850 e 1913, época que, em grande parte, decorreu sob regimes parlamentares. Todos os outros países, nessa mesma época, duplicaram (alguns quase triplicaram) o rendimento per capita, mantendo-se o nosso quase na mesma (apenas + 45 dolares!). Não se pense, porém, que esse período foi mau. Pelo contrário, foi o do fontismo: construção dos caminhos de ferro, infra-estruras, etc, etc. O que aconteceu, é que, para além das obras públicas, teriam sido necessárias outras medidas e nunca foi o momento oportuno. Até hoje, como se vê...
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Utilidade de ter este blog mais de um ano: ir ver o que escrevi há um ano atrás...
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
Ontem, coloquei aqui uma pintura de Dunne - Primavera - e o ano passado, na mesma data, um jardim, melhor, a lembrança de um jardim do Klee. A escolha do ano passado foi mais acertada: gosto muito de relembrar e pouco de esperar.
domingo, janeiro 16, 2005
Joe Dunne
Uma tarde bonita. O vento fez-me perceber que passou já aquele tempo de recolhimento da natureza (Rilke) que podemos percebemos de finais de Novembro a princípios de Janeiro.
Ainda não é a ante-primavera, também rilkeana, que aparece por vezes em Fevereiro, agreste, com rajadas de sueste e aguaceiros, mas o perfeito silêncio já lá vai.
Erramos sobre a nossa simplicidade ou sobre a nossa complicação e depois de o admitirmos um dia, depois da admissão desse erro inocente e grosseiro cometido há muito tempo - por inexperiência, imperícia, falta de destreza - mentimo-nos piedosamente um caminho de volta.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
Feito tal, gastamo-nos na minúcia e no escrúpulo da rota torna-viagem.
É uma ilusão grosseira e é preferível ficar sossegado, aqui mesmo.
quarta-feira, janeiro 12, 2005
Um brouhaha intenso, irredutível a qualquer sentido, melhor, a qualquer local - se a etimologia hebraica é a verdadeira, seria, ao menos, o ruído da esperança de uma diferença, (hoje uma esperança esquecida em nome do gosto mesmo do "estar aqui" atopicamente) - e espera-se que colaboremos tanto nele que o silêncio é visto como uma jactância, uma omissão premeditada, uma coreografia de reserva mental. Neste blog, além da mera preguiça, do puro desleixo, do deixa andar, não se renunciará ao silêncio. Grandiloquências de quarta-feira à tarde, antigos tempos de actividades circum-escolares, sei, mas fica dito.
terça-feira, janeiro 11, 2005
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
segunda-feira, janeiro 10, 2005
Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
domingo, janeiro 09, 2005
Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
A volta aos jornais: continuam as palermices francesas. É difícil para a França perceber que não passa de uma potência regional e sovina.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Leio uns artigos sobre o acordo ortográfico e penso no que deu a arrogância e novo riquismo de meia dúzia de "sábios" positivistas republicanos no início do século passado: uma língua com duas ortografias, como não sucede com nenhuma outra no mundo e, quase um século depois, dois países com altos índices de analfabetismo. Condiz com tudo o resto, sei, mas é triste.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
terça-feira, janeiro 04, 2005
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
segunda-feira, janeiro 03, 2005
A falta de confiança que os portugueses têm neles mesmos tem um estranho, perverso reverso: a confiança no estado e uma crença quase infantil no poder da lei para moldar a realidade ou, pelo menos, para a escamotear, para ir adiando a débacle e ir compondo o que já não tem arranjo.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
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