Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
Desse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, Redenção (II)
(por recomendação de Don Miguel de Unamuno que lia há pouco)
terça-feira, janeiro 11, 2005
segunda-feira, janeiro 10, 2005
Li este artigo de António Barreto e não posso deixar de dizer: "Volta, parlamentarismo monárquico de 1900, estás perdoado!"
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
Nessa altura, pensavam os republicanos, tudo seria composto pelo derrube da monarquia parlamentar e a instauração da república. E agora? Não há acontecimento futuro onde pôr as nossas crenças redentoras. É agora ( sempre foi "agora", aliás) que é preciso mudar. Complicado, não é? Estou a pensar que se pode começar a pensar na reforma da lei eleitoral - e do que ela acarreta - lá para depois dos Jogos Olímpicos de Lisboa, em 2000 e não sei quanto. É essa a altura apropriada. Antes não, seria precipitação e estas coisas devem ser discutidas com calma e serenidade.
domingo, janeiro 09, 2005
Este tempo, muito frio, nítido e dourado, desperta em mim o estranho e resoluto desejo de ser convencionalmente paisagístico, uma ambição pictórica de habitar fundos e longes de retratos, o que mal se vê e se opõe - ou completa, é-me indiferente - às arquitecturas do primeiro plano, colunas, volutas, panejamentos, o varandim que suporta o gesto do retratado.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
É um mero desejo de pousio, quase vegetal, viver entre o vinhedo sem folhas da tela, a ilustrar o campo recolhido e a desocupação dos homens.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
A volta aos jornais: continuam as palermices francesas. É difícil para a França perceber que não passa de uma potência regional e sovina.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
Por cá, o episódio Pôncio, e o do Conselho Superior de Magistratura, abrem novas perspectivas na plebeização da vida pública portuguesa. É impossivel conceber que é desta gente, de uma espantosa falta de educação, que se esperem reformas... Para já, é aconselhável que se impeça que as criancinhas vejam os telejornais.
Hoje é Dia de Reis, pelo calendário antigo (a Igreja portuguesa, provando que o gosto saloio pela novidade atinge a sociedade portuguesa transversalmente, como se diz agora, abriu mão da data, sendo certo que podia não o ter feito. - Este gosto lambareiro pelas novidades e "progressos" grátis faz-me lembrar o acordo ortográfico...).
Mas enfim, a todos desejo um Santo Dia de Reis.
quarta-feira, janeiro 05, 2005
Leio uns artigos sobre o acordo ortográfico e penso no que deu a arrogância e novo riquismo de meia dúzia de "sábios" positivistas republicanos no início do século passado: uma língua com duas ortografias, como não sucede com nenhuma outra no mundo e, quase um século depois, dois países com altos índices de analfabetismo. Condiz com tudo o resto, sei, mas é triste.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
Entretanto, convirá que a assinatura do Acordo não seja apresentada, de repente, como um facto consumado. Preparem-se os sensatos protestos.
terça-feira, janeiro 04, 2005
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost, The road not taken
segunda-feira, janeiro 03, 2005
A falta de confiança que os portugueses têm neles mesmos tem um estranho, perverso reverso: a confiança no estado e uma crença quase infantil no poder da lei para moldar a realidade ou, pelo menos, para a escamotear, para ir adiando a débacle e ir compondo o que já não tem arranjo.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
Por isso, estranho quando se fala agora em políticos incompetentes. Eles têm sido extremamente competentes no tornar possível o "status quo" desejado. Não falam de medidas concretas nem, senão platonicamnte, de reformas? É isso que toda a gente quer, já que, gostando embora da ilusão, a fazem coexistir com um agudo sentido da realidade. Somos assim. E os nossos políticos, percebem bem isso. Grande parte da classe média sabe, pelo que vai lendo nos jornais e ouvindo aqui e ali, o sentido das reformas: menos estado, mais realidade (e mais incerteza). E isso significa perigos na "arrumação" dos filhos, principalmente dos mais incapazes e deles mesmos...
Por isso, falar da incompetência dos políticos é uma falsa questão... Certo que existem leaders, pessoas que conseguem congregar em torno de uma ideia, e sem omitir as suas consequências mais desagradáveis,formar uma "base de apoio" e em torno dela fazer avançar o barco. Foi o caso de Margaret Thatcher que, em 11 anos, modificou a Grã-Bretanha. Em Portugal, não conheço ninguém que se aproxime... É que o nosso problema não é apenas a falta de qualidade dos "maus" políticos. O problema é a falta de qualidade daqueles que, quase unanimemente, são aplaudidos como bons políticos.
Entretanto, esperemos que saia algum decreto salvador.
Ou uma portaria.
domingo, janeiro 02, 2005
quinta-feira, dezembro 30, 2004
Na minha abrigada varanda, voltada a sul, nestes dias tépidos e soalheiros falta quem lá se sente a aquecer-se ao sol. Uma criada velha que lá remendasse uma pano quase sem préstimo e se lavantasse depois, lá pelas quatro e meia, por se irem aproximando as horas do lanche.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.
Assim como está, devoluta de quem a use mais do que para olhar além dela os montes ao longe, é uma tristonha coisa.
quarta-feira, dezembro 29, 2004
Com algum espanto noto assomos de indignação quanto às falhas do estado português na assistência aos portugueses no Sudoeste asiático.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Convém esclarecer que o estado, em Portugal, tem como objectivo imediato e primordial o servir-se e enaltercer-se a si mesmo: os cidadãos são apenas uma preocupação mediata e secundária. Havia portugueses recolhidos na embaixada de Espanha? Parece que sim. O telefone da embaixada portuguesa em Banguekok atendia com uma gravação? Parece que sim, igualmente - eu ouvi. Mas, ao contrário de alguns, não me admirei que assim fosse.
É que é assim, aqui, que é, e não de outro modo.
O Estado português, que já foi imperial, não cura de minudências. Tem as altas questões que lhe dizem respeito com que se preocupar e representa um Portugal eterno que não pode ser atrapalhado pelas aflições pontuais de alguns poucos dos seus cidadãos. Por isso, o Ministro dos Negócios Estrangeiros se irritou - uma irritação branda e bem educada - quando lhe colocaram algumas questões de pormenor. E tinha razão! Apenas em pequenos países sem o peso do nosso destino e do nosso passado o estado serve para cuidar dos seus cidadãos, apenas em estados menores e desprestigiados é que embaixadores ausentes e que não regressassem imediatamente ao seu posto seriam sumariamente demitidos, apenas pequenos estados como a Suécia enviam os seus ministros dos negócios estrangeiros. Aqui, em Portugal, os ministros servem altos desígnios e cumprem altos destinos.
É assim.
Linkaram este blog o Olhos Azuis , o Monodia , o Vacalhum e o Batata Quente .
O Impensavel agradece, muito obrigado.
O Impensavel agradece, muito obrigado.
terça-feira, dezembro 28, 2004
segunda-feira, dezembro 27, 2004
Esta semana, entre Natal e Ano Bom, no côncavo do tempo, uso-a em nadas: abrir livros, folhear outros, andar aqui por casa de um lado para o outro, em conversas-paisagem com amigos que esmoem o festim e o tempo, à lareira ou à roda da braseira. (E é tudo o que faço). Depois, em Janeiro, já não é assim, a curvatura dos dias perde a perfeita serenidade, pressente-se o esgar escrupuloso e duro do início.
quinta-feira, dezembro 23, 2004
terça-feira, dezembro 21, 2004
Estava a começar a escrever um post para contar o que se passou comigo enquanto lia, ontem, já na cama, o "Vinte horas de liteira" - o que se passou foi ter-me esquecido do copo da água, o que me obrigou a percorrer um gélido corredor, uma entrada cavernosa e outro corredor onde o frio mais inclemente reinava, isto com algumas peripécias insignificantes pelo meio mas que tencionava contar - quando me apercebo da tão agradável menção que o Contra a Corrente quis fazer a este blog.
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
Agradeço, muito grato e saíria de cardo, um cardo escocês, na botoeira da lapela, comemorando, se, como descobri ontem, durante aquele passeio nocturno e enregelado, o meu alfaiate se não tivesse esquecido da dita, dando-me hoje a estaparfúdia desculpa de não ser hábito os tweeds terem tal...
"A distinguish bishop, a priest and a peasant are in a great cathedral. In turn the priest and bishop approach the altar rail, beat their chests and declare, «I'm nothing, I'm nothing». The humble peasant, moved to imitate, shuffles to the altar and says the same thing. The bishop turns furiously and hisses the priest's ear, «Who the hell does he think he is?»"
No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.
No TLS de ontem. Lembrei-me hoje, quando fui tomar café na taberninha em frente. A dona, boa pessoa, mas uma incrível snob, lamentava a perda do espírito dos natais de outrora face ao avassalador materialismo de hoje. A snobice dela, muito requintada, é como a de alguns amigos meus, uma snobice-anti snob. Sei, por isso, quanto eram pobres os natais da sua infância e quanto os relatos dos materialistas natais de agora, em casa da filha, lhe são queridos, a história de uma façanha, de uma ascensão social bem sucedida. Lembrado disso, ia contestar risonha e brevemente aquele seu ódio às demasias hodiernas quando me lembrei da anedota.
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