O Chiado já não é a "ladeira vaidosa" (Ramalho) de que eu, em criança, conheci os últimos resquícios, mas já não é, também, a velha senhora que já ninguém visita e vegeta desolada e de todos esquecida do início dos anos 90.Ontem, sábado à tarde, estive lá e se é certo que não encontrei ninguém meu conhecido, não deixava de haver gente e movimento. Comprei uma gravata, abasteci-me de café e, na Fnac, comprei os "packs" de Woody Allen e Ingmar Bergman. Quase contente, descia pela Rua do Carmo, o que, tal como a Garrett, fiz pelo lado errado, quando os petits-four da desaparecida Martins & Costa de boa memória, pela ausência, me restituíram ao desgosto do tempo perdido, por um mecanismo inverso, mas semelhante ao das madelaines.
domingo, outubro 10, 2004
sexta-feira, outubro 08, 2004
«Cada vez se percebe mais que o "PPD-PSD" não é o PSD, mas um pequeno grupo que se comporta como tal», escreve JPP citado no Blasfémias. Duas leituras: ou o pequeno grupo se comporta como o PSD e, nesse caso, é de a gente se perguntar como é que se percebe que não é o PSD, ou comporta-se como um pequeno grupo que finge - mal - ser o PSD, o que levanta o problema de saber o que é o "verdadeiro" PSD e se há possibilidades de começar a fingir mais eficazmente, (embora o problema resida em saber o que fingir, exactamente). Em ambas as hipóteses, parece que estamos, "mutatis mutandis", em face de uma tese idêntica à que assevera que o regime que vigorou na ex-URSS não era o "verdadeiro" socialismo e que, no fundo, demonstra as dificuldades da desilusão.
Mas aqui, no nosso caso, há, no entanto, um modo de saber se o pequeno grupo é, ou não é, o "verdadeiro" PSD: os ilustre deputados daquele partido, actualmente em funções, não foram escolhidos pelo "pequeno grupo", pelo que terão possibilidades de pertencerem ao "verdadeiro" PSD. Dado que é de crer que o verdadeiro PSD é constituído por homens de firmes convicções e princípios, não deixarão de demonstrar a sua têmpera, através de iniciativas parlamentares adequadas. E existem os congressos, onde estarão ainda outros homens de firmes de convicções e princípios que serão o "verdadeiro" PSD e mal será que não tomem as atitudes que os seus princípios exigirão.Parece que há votos por inerência. Sabia do problema. Espanta-me apenas que o "verdadeiro" PSD não tenha já corrigido esse mal, que tenha coexistido com ele ao longo de tanto tempo. É da gente pasmar, convenha-se.
Fico à espera do que se passará.
E esta ventania? Aqui, o vento começa a rodar para Sudoeste, depois de fortes rajadas de Sul
Mas aqui, no nosso caso, há, no entanto, um modo de saber se o pequeno grupo é, ou não é, o "verdadeiro" PSD: os ilustre deputados daquele partido, actualmente em funções, não foram escolhidos pelo "pequeno grupo", pelo que terão possibilidades de pertencerem ao "verdadeiro" PSD. Dado que é de crer que o verdadeiro PSD é constituído por homens de firmes convicções e princípios, não deixarão de demonstrar a sua têmpera, através de iniciativas parlamentares adequadas. E existem os congressos, onde estarão ainda outros homens de firmes de convicções e princípios que serão o "verdadeiro" PSD e mal será que não tomem as atitudes que os seus princípios exigirão.Parece que há votos por inerência. Sabia do problema. Espanta-me apenas que o "verdadeiro" PSD não tenha já corrigido esse mal, que tenha coexistido com ele ao longo de tanto tempo. É da gente pasmar, convenha-se.
Fico à espera do que se passará.
E esta ventania? Aqui, o vento começa a rodar para Sudoeste, depois de fortes rajadas de Sul
quinta-feira, outubro 07, 2004
Fui ver o que dizia conspirava JPP sobre o caso do dia. Encontrei o "rigorosos e especiosos"
É evidente que as palavras do ministro são, por si, uma pressão, e entendidas como tal num país onde ainda é possível o uso de argumentos tão imberbes e palermas como o do contraditório sem que se erga uma imensa gargalhada, onde existem orgãos com nomes saídos de uma opera burlesca (a Alta Autoridade), e todos os dias cria no seu seio novas atitudes inanes (a especiosidade de que fala JPP, tão típica num país de legistas), com tão mais entusiasmo quanto a sua observação conduziria à inacção legítima.
Mas isto tudo não quer dizer que o governo, para além do que em público fez - o que seria grave, se houvesse coisas graves em Portugal - tivesse feito mais em privado. Não creio que o tenha feito, já por medo, já por mera inépcia - e este pôr de lado as "hipóteses virtuosas" é já um mau modo de ser português, de que me penitencio.
É evidente que as palavras do ministro são, por si, uma pressão, e entendidas como tal num país onde ainda é possível o uso de argumentos tão imberbes e palermas como o do contraditório sem que se erga uma imensa gargalhada, onde existem orgãos com nomes saídos de uma opera burlesca (a Alta Autoridade), e todos os dias cria no seu seio novas atitudes inanes (a especiosidade de que fala JPP, tão típica num país de legistas), com tão mais entusiasmo quanto a sua observação conduziria à inacção legítima.
Mas isto tudo não quer dizer que o governo, para além do que em público fez - o que seria grave, se houvesse coisas graves em Portugal - tivesse feito mais em privado. Não creio que o tenha feito, já por medo, já por mera inépcia - e este pôr de lado as "hipóteses virtuosas" é já um mau modo de ser português, de que me penitencio.
Eu não creio que o governo tenha feito pressões sobre a TVI, descontadas as declarações e queixumes do ministro. E não creio, porque, quem pode ameaçar e ameaçar eficazmente, não se lamenta. Ora, ameaçar o Eng. Paes do Amaral, que além de engenheiro, é conde, rico, um membro do verdadeiro stablishement nacional não é coisa que caiba nas competências do actual governo, onde há ministros novos, com filhos, se não eles mesmos, ainda a precisarem de emprego - e com o futuro e a família não se brinca. Não! O que me parece é que, com a inépcia do ministro Silva, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que já andaria a pensar sair da TVI, encontrou maneira de o fazer do melhor modo possível, criando a suspeita de ter sido silenciado, de ser uma vítima do actual governo... Poucos o saberiam fazer tão bem e provocando tanto dano.
Também se pode ter dado, é claro, o caso de uma real pressão, mas desconfio... atendendo ao exposto.
A não ser, claro está, que se tivesse tratado de pura inconsciência.
Contudo, este "tudo é possível" circular, beneficia o Prof. Sente-se o golpe de mestre.
Uhm...
Se foi, de facto, um golpe dele...
Também se pode ter dado, é claro, o caso de uma real pressão, mas desconfio... atendendo ao exposto.
A não ser, claro está, que se tivesse tratado de pura inconsciência.
Contudo, este "tudo é possível" circular, beneficia o Prof. Sente-se o golpe de mestre.
Uhm...
Se foi, de facto, um golpe dele...
segunda-feira, outubro 04, 2004
Dia de S. Francisco de Assis
Cântico das Criaturas
I
Altíssimo, omnipotente,
Bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória,
A honra e toda a bênção.
II
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
III
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor
Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
IV
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.
V
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
VI
Louvado sejas, meu Senhor.
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas
Dás sustento.
VII
Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
VIII
Louvado sejas, me Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo.
E vigoroso e forte.
IX
Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
X
Louvado sejas, meu Senhor
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e
Tribulações.
XI
Bem-aventurados os que as
Sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo,
Serão coroados.
XII
Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã
A Morte corporal,
Da qual homem algum
Pode escapar.
XIII
Ai dos que morrerem em
Pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conforme à tua
Santíssima vontade
Porque a morte segunda
Não lhes fará mal!
XIV
Louvai e bendizei a
Meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande
Humildade.
Cântico das Criaturas
I
Altíssimo, omnipotente,
Bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória,
A honra e toda a bênção.
II
Só a ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
III
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor
Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
IV
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.
V
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
VI
Louvado sejas, meu Senhor.
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas
Dás sustento.
VII
Louvado sejas, meu Senhor
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
VIII
Louvado sejas, me Senhor,
Pelo irmão Fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo.
E vigoroso e forte.
IX
Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
X
Louvado sejas, meu Senhor
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e
Tribulações.
XI
Bem-aventurados os que as
Sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo,
Serão coroados.
XII
Louvado sejas, meu Senhor
Por nossa irmã
A Morte corporal,
Da qual homem algum
Pode escapar.
XIII
Ai dos que morrerem em
Pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conforme à tua
Santíssima vontade
Porque a morte segunda
Não lhes fará mal!
XIV
Louvai e bendizei a
Meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande
Humildade.
domingo, outubro 03, 2004
Fui comprar cigarros, a uma "grande superfície", pensando poder passear, solitário, pela bucólica álea dos detergentes - já aqui disse e reitero: uma das mais interessantes - e encontro uma multidão, melhor, pequenos cardumes a disputarem iscos variados (software, dvds, mostra de vinhos e enchidos).
Voltei para casa.
Voltei para casa.
sexta-feira, outubro 01, 2004
Hoje o vento que sopra vem do mar e do verão que já foi. Aqui, no vidro da janela, depõe as imagens do caminho longo: a voluta transparente de ar fresco, o flectir da ramagem, o gesto que se protege da poalha fresca, a lembrança daquele sítio, passadas as casas,lá sobre o mar, de que nos fala Emily Dickinson:
Contentamento é a ida
De uma alma do interior para o mar
Passadas as casas - passados os promontórios -
Até à profunda Eternidade
Criado como nós, entre montanhas,
Pode o marinheiro entender
A intoxicação divina
Da primeira légua longe da terra?
Contentamento é a ida
De uma alma do interior para o mar
Passadas as casas - passados os promontórios -
Até à profunda Eternidade
Criado como nós, entre montanhas,
Pode o marinheiro entender
A intoxicação divina
Da primeira légua longe da terra?
quinta-feira, setembro 30, 2004
"La libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres"
Cervantes, Don Quijote, citado por Vargas Llosa.
Cervantes, Don Quijote, citado por Vargas Llosa.
terça-feira, setembro 28, 2004
Noite dedicada a La Rochefoucauld.
O pessimismo lúcido (porquanto também há o pessimismo ingénuo), parece-me o melhor ponto de observação para encontrar e estabelecer algumas dúvidas menos firmes, e nesse terreno alagadiço e moldável, erigir possibilidades, acreditar, apesar de tudo, em redenções - na sagrada, única, ou nas profanas.
O pessimismo lúcido (porquanto também há o pessimismo ingénuo), parece-me o melhor ponto de observação para encontrar e estabelecer algumas dúvidas menos firmes, e nesse terreno alagadiço e moldável, erigir possibilidades, acreditar, apesar de tudo, em redenções - na sagrada, única, ou nas profanas.
sábado, setembro 25, 2004
Novos Links
Linkaram o o Impensavel o Hardblog, o Portas de Santana, o Garfiar, o Classe Média, Babugem e o Contra a Corrente.
O Impensavel agradece, grato, e pede desculpa pela demora com que o faz.
Ao Contra a Corrente agradece ainda a simpatia com que se referiu ao Impensavel.
Linkaram o o Impensavel o Hardblog, o Portas de Santana, o Garfiar, o Classe Média, Babugem e o Contra a Corrente.
O Impensavel agradece, grato, e pede desculpa pela demora com que o faz.
Ao Contra a Corrente agradece ainda a simpatia com que se referiu ao Impensavel.
sexta-feira, setembro 24, 2004
quinta-feira, setembro 23, 2004
O Anarca, a quem agradeço reconhecidamente os parabéns, está em maré grega ( honny soit, etc etc...) e polvilha o seu blog com imagens que muito devem agradar à Bomba, Mme. de Jouarre cibernética. Ambos parecem comungar do mesmo gosto pelas modernices supérfluas, sendo certo que depois de Gilgamesh nada de relevante aconteceu em literatura. Epopeia por epopeia, caro Anarca, é esta que deve ler, não a Odisseia que fontes bem informadas me confidenciaram, com desgosto, ocupar os seus magros tempos de leitura.
Caso partilhe do lamentável quase geral desconhecimento do acadiano, leia esta tradução que a livraria muito bem classifica como roman contemporain.
Caso partilhe do lamentável quase geral desconhecimento do acadiano, leia esta tradução que a livraria muito bem classifica como roman contemporain.
Perdi um longo post em que longa, respeitosa e afectuosamente agradecia a Charlotte os parabéns pelo dia de anos do Impensavel e o seu gosto pelo blog.
Dedicava-me, depois, a consideração desagradáveis sobre o tempo, a morte do antigo calendário de vilegiatura e acabava a gabarolar-me da minha decisão de em férias me considerar e nada fazer enquanto o calor não desaparecesse.
Ia iniciar algumas considerações (breves) sobre o Outono, quando decidi interromper e publicar o que estava. Sobreveio, então, a catástrofe e vi-me sem nada do que havia escrito.
Perturbado ainda, passo à parte pictórica da minha homenagem a este Outono de quente começo.
"Les bagneuses" de Fragonnard
Dedicava-me, depois, a consideração desagradáveis sobre o tempo, a morte do antigo calendário de vilegiatura e acabava a gabarolar-me da minha decisão de em férias me considerar e nada fazer enquanto o calor não desaparecesse.
Ia iniciar algumas considerações (breves) sobre o Outono, quando decidi interromper e publicar o que estava. Sobreveio, então, a catástrofe e vi-me sem nada do que havia escrito.
Perturbado ainda, passo à parte pictórica da minha homenagem a este Outono de quente começo.
"Les bagneuses" de Fragonnard
quarta-feira, setembro 22, 2004
Pensei, primeiro, que era a 29, mas ontem fui ver e é hoje que faz um ano que iniciei o blog.
E cá está, como começou: sem um objectivo, um desígnio, uma intenção. Passados que são já os entusiamos do início - que passam rapidamente - e tendo pouco a festejar e nada a lamentar, seduz-me a ideia mesma de duração, que em Portugal - e em mim - se corporiza numa jactância leve: "por cá estamos, menos mal, mais um ano, sim senhor", o anúncio público de que, apesar de tudo - e esse "tudo" é um universo largo e presumidamente hostil, prenhe de coisas desagradáveis que podiam muito bem ter acontecido só para nos prejudicar e aborrecer- de que, apesar disso, dessa "má vontade" difusa, nos achamos não desprezíveis seres, por muito que o nosso maior empenho não seja outro senão o de irmos estando.
E por isso cá estou, cá vou estando.
E cá está, como começou: sem um objectivo, um desígnio, uma intenção. Passados que são já os entusiamos do início - que passam rapidamente - e tendo pouco a festejar e nada a lamentar, seduz-me a ideia mesma de duração, que em Portugal - e em mim - se corporiza numa jactância leve: "por cá estamos, menos mal, mais um ano, sim senhor", o anúncio público de que, apesar de tudo - e esse "tudo" é um universo largo e presumidamente hostil, prenhe de coisas desagradáveis que podiam muito bem ter acontecido só para nos prejudicar e aborrecer- de que, apesar disso, dessa "má vontade" difusa, nos achamos não desprezíveis seres, por muito que o nosso maior empenho não seja outro senão o de irmos estando.
E por isso cá estou, cá vou estando.
terça-feira, setembro 21, 2004
"E nós os sete Portugueses que a este tempo, como ja disse, estauamos na praça para nos venderem em leylão, tomamos por remedio mais certo da nossa saluação tornamonos a meter na mazmorra, sem que ministro algum da justiça ou outra pessoa nos leuasse, ou fosse com nosco, ouuemos que em o Mocadão carcereyro della nos meter das porta a dentro, não nos fazia pequena mercê."
Fernão Mendes Pinto, Peregrinação
A estratégia surtiu efeito. Continua a ser aplicada.
Fernão Mendes Pinto, Peregrinação
A estratégia surtiu efeito. Continua a ser aplicada.
Subscrever:
Mensagens (Atom)