Os fogos e as vinganças de aldeia, as cartas abertas, as cabalas de polichinelo, o "diz-se diz-se", o claustrofóbico apavorante provincianismo, que indigência, que tragicomédia, que sordidez lorpa!
Até as burlas, até as burlas se praticam a horas certas e com marcação, entre cáries e pivots e conselhos de higiene oral, onde não estará ausente, talvez, a genuína intenção virtuosa, em nome do progresso, do português novo, do sorriso branco e perfeito da Europa.
Que miséria, que miséria...
P.S. Desta gordurosa salada de horrores devo retirar, mesmo para que este blog não seja acusado de pessimista, o casal suspeito de, por vingança, deitar o fogo às fazendas alheias.
Numa altura em que o diálogo no seio das famílias está tão ameaçado, eis um exemplo, mesmo que desastroso, de que a concórdia é possível.
sábado, julho 31, 2004
sexta-feira, julho 30, 2004
Não conheci a Figueira da Foz da imagem - nasci alguns decénios depois - mas a Figueira de que me lembro era a velhice suave dessa que ali vemos. Alguns posteriores arrroubos de modernidade ( o Grande Hotel e a piscina) não lhe tinham desfigurado o carácter de praia de "belle époque", de fim do século XIX.
Nos anos setenta começou o lento homicídio. Resta o cadáver embalsamado, por entre folhos e arrebiques de cimento, de uma tremenda falta de gosto.
Dos bons tempos, ficaram, na esplanada, alguns edifícios e a Casa Havanêsa.
Passar férias na Figueira da Foz tornou-se um árduo e triste exercício de abstracção.
Nos anos setenta começou o lento homicídio. Resta o cadáver embalsamado, por entre folhos e arrebiques de cimento, de uma tremenda falta de gosto.
Dos bons tempos, ficaram, na esplanada, alguns edifícios e a Casa Havanêsa.
Passar férias na Figueira da Foz tornou-se um árduo e triste exercício de abstracção.
quinta-feira, julho 29, 2004
Ninguém fez nada.
Refiro-me aos incêndios.
A incapacidade de lidar com a realidade, de resolver problemas, é total, ou quase.
Há muitos anos que somos vítimas deste populismo por omissão que consiste em não resolver seja o que for que incomode quem quer que seja e se traduza num preço eleitoral a pagar. Que digo? Que se traduza num mero e leve desconforto decisório.
A realidade retribui e, também ela, não muda.
Refiro-me aos incêndios.
A incapacidade de lidar com a realidade, de resolver problemas, é total, ou quase.
Há muitos anos que somos vítimas deste populismo por omissão que consiste em não resolver seja o que for que incomode quem quer que seja e se traduza num preço eleitoral a pagar. Que digo? Que se traduza num mero e leve desconforto decisório.
A realidade retribui e, também ela, não muda.
terça-feira, julho 27, 2004
sábado, julho 24, 2004
Continua o calor (não corre uma aragem) mas enfim... resignemo-nos.
Faz hoje 171 anos que entrou em Lisboa o exército liberal e, com ele, o respectivo regime.
Os resultados não foram, porém, os melhores, como com facilidade se verifica, apesar de governos muito probos, com gente muito grave e sabedora.
N.B. Isto não é uma sureptícia apologia do Governo do Senhor D. Miguel I (que também tinha homens muito probos, severos e sabedores (o Visconde de Santarém, o 2º, uma luminária, un philosophe).
Faz hoje 171 anos que entrou em Lisboa o exército liberal e, com ele, o respectivo regime.
Os resultados não foram, porém, os melhores, como com facilidade se verifica, apesar de governos muito probos, com gente muito grave e sabedora.
N.B. Isto não é uma sureptícia apologia do Governo do Senhor D. Miguel I (que também tinha homens muito probos, severos e sabedores (o Visconde de Santarém, o 2º, uma luminária, un philosophe).
sexta-feira, julho 23, 2004
Muitas vezes começo a escrever e, a meio, percebo que “tenho de ir primeiro por ali e ainda acolá” o que me leva tempo e castigará as minhas pobres falanges e “corto caminho”. Resulta dessa preguiça o ficar o que escrevo uma outra coisa, muito longe do que pretendia dizer aquando acometido da fúria blogante.
Hoje, por exemplo, quereria expressar a minha admiração pelo tom catastrófico, ou a para lá caminhar, usado por comentadores quando de referem ao actual governo e sei que a tarefa demoria. Fico pelo essencial: concedo a legitimidade de alguma inquietação. De resto, porém, parece-me que o governo não será muito pior do que o habitual; e o habitual é mau, ou muito fraquinho, o que condiz, afinal, connosco.
Que uma parte da classe média antiga (grande parte a viver nas cidades maiores do litoral) se esqueça, de vez em quando, do que somos (um pobre país que foi até há bem pouco tempo um pobríssimo país, com índices de terceiro mundo) e se imagine e à paisagem, a viver na média europeia, é coisa de que não tenho culpa alguma.
Nem este governo.
O que nele incomoda mais é, parece-me, o tornar essa doce ilusão do “Portugal moderno e europeu” mais difícil, já que não vem “legitimado” e afiançado para descanso do indígena, nem pela gravitas universitária, nem pelo carácter distante e sombrio do mandarim (necessidade que, em si, atesta o nosso subdesenvolvimento democrático e mental). Pondo as coisas “carrément”: “são gajos como nós” e alguns deles serão piores que nós (outros, melhores, lembraremos menos) gente que conhecemos, que sabemos onde mora, com quem já jantámos, que não nos surpreende que se tenha envolvido em conflitos pela posse de gabinetes, ou qualquer outra infantilidade, aliás simpática. Somos nós, são iguais a nós.
E “nós” somos isto. E por “isto”, pela realidade, tanta gente assustada....
Não se aflijam: há cem anos era pior.
Hoje, por exemplo, quereria expressar a minha admiração pelo tom catastrófico, ou a para lá caminhar, usado por comentadores quando de referem ao actual governo e sei que a tarefa demoria. Fico pelo essencial: concedo a legitimidade de alguma inquietação. De resto, porém, parece-me que o governo não será muito pior do que o habitual; e o habitual é mau, ou muito fraquinho, o que condiz, afinal, connosco.
Que uma parte da classe média antiga (grande parte a viver nas cidades maiores do litoral) se esqueça, de vez em quando, do que somos (um pobre país que foi até há bem pouco tempo um pobríssimo país, com índices de terceiro mundo) e se imagine e à paisagem, a viver na média europeia, é coisa de que não tenho culpa alguma.
Nem este governo.
O que nele incomoda mais é, parece-me, o tornar essa doce ilusão do “Portugal moderno e europeu” mais difícil, já que não vem “legitimado” e afiançado para descanso do indígena, nem pela gravitas universitária, nem pelo carácter distante e sombrio do mandarim (necessidade que, em si, atesta o nosso subdesenvolvimento democrático e mental). Pondo as coisas “carrément”: “são gajos como nós” e alguns deles serão piores que nós (outros, melhores, lembraremos menos) gente que conhecemos, que sabemos onde mora, com quem já jantámos, que não nos surpreende que se tenha envolvido em conflitos pela posse de gabinetes, ou qualquer outra infantilidade, aliás simpática. Somos nós, são iguais a nós.
E “nós” somos isto. E por “isto”, pela realidade, tanta gente assustada....
Não se aflijam: há cem anos era pior.
quinta-feira, julho 22, 2004
Creio que era Vasco Pulido Valente quem se interrogava, outro dia, sobre que Grécia será esta Europa da nova Roma.
À esquerda e à direita os primeiros indícios, as primeiras respostas começam a surgir e não são animadoras. Será que tentaremos ainda ser uma Grécia, ou, como tudo parece apontar, escolhemos o modelo egípcio?
À esquerda e à direita os primeiros indícios, as primeiras respostas começam a surgir e não são animadoras. Será que tentaremos ainda ser uma Grécia, ou, como tudo parece apontar, escolhemos o modelo egípcio?
A situação é esta: estou aborrecido, pior, in a fit of spleen. Spleen de província, pacato.
Por enquanto, há a aragem de noroeste mas, vivendo no medo que ela acabe, não a consigo apreciar. Sou tão português quanto isto: recolho a ansiedade que escorre do futuro e dela faço o alimento do dia de hoje.
Ao menos que o vento continue, pela tarde.
Por enquanto, há a aragem de noroeste mas, vivendo no medo que ela acabe, não a consigo apreciar. Sou tão português quanto isto: recolho a ansiedade que escorre do futuro e dela faço o alimento do dia de hoje.
Ao menos que o vento continue, pela tarde.
quarta-feira, julho 21, 2004
Ou, fugido do calor, vir para aqui,
preparar as leituras de Inverno, meditar num hotel confortável sobre destinos surpreendentes de misses inglesas e, por £ 0,99, comprar um "Leather bookmark printed with the Parsonage,Church and Top Withens. Assorted colours with gold lettering" ou, a £ 5,99 uma "Wooden dipping pen with a gilt nib. Assorted choice of woods" e, seguramente, "a set of four calligraphy nibs to go with the wooden or quill pens" por £ 3,50
De seguida, e enquanto a canícula não abandonasse a península, congeminar três seres que se sentissem felizes com estes recuerdos as christmas gifts. Tarefa difícil: todas elas - são elas - teriam de habitar as redondezas espirituais das "revêries" de velhíssimas professoras de inglês, sítios inóspitos, se não inverosímeis, nos dias que correm.
preparar as leituras de Inverno, meditar num hotel confortável sobre destinos surpreendentes de misses inglesas e, por £ 0,99, comprar um "Leather bookmark printed with the Parsonage,Church and Top Withens. Assorted colours with gold lettering" ou, a £ 5,99 uma "Wooden dipping pen with a gilt nib. Assorted choice of woods" e, seguramente, "a set of four calligraphy nibs to go with the wooden or quill pens" por £ 3,50
De seguida, e enquanto a canícula não abandonasse a península, congeminar três seres que se sentissem felizes com estes recuerdos as christmas gifts. Tarefa difícil: todas elas - são elas - teriam de habitar as redondezas espirituais das "revêries" de velhíssimas professoras de inglês, sítios inóspitos, se não inverosímeis, nos dias que correm.
segunda-feira, julho 19, 2004
Por vezes, tudo se modifica e a bonança, que parecia ameaçada, instala-se. Outras, porém, o caminho até à catastrófe é rectilineo, estupidamente certo e previsível.
Se se confirmarem os saharicos 40º C, sairei daqui.
Estou a pensar em Espinho, bem servida de combóios, mas estou aberto a qualquer fria sugestão.
Se se confirmarem os saharicos 40º C, sairei daqui.
Estou a pensar em Espinho, bem servida de combóios, mas estou aberto a qualquer fria sugestão.
sábado, julho 17, 2004
Escrevia ontem o meu maître à penser, Dr. VPV: "Hoje há um ar de irrealidade no advento de Santana Lopes. Ninguém acredita que está a suceder o que está a suceder. É um sentimento comum em véspera de catástrofe."
Não sinto tal ar de irrealidade, aqui, neste canto da província. E creio que não haverá catástrofe alguma para além daquelas, mesquinhas e mudas, que nos assinalam a passagem do tempo.
O Dr. Santana Lopes chegou ao mandarinato. Mas não era isso previsível e natural? Era. Os trinta anos da democracia portuguesa encarregaram-se de tornar quase uma quase impossibilidade primeiros-ministros que não sejam políticos profissionais. É o que sucede nas outras democracias, mais velhas, e à luz do que nelas é habitual, invulgar e atípica foi a carreira do Prof. Cavaco Silva, não a do actual primeiro-ministro ou do Dr. Sócrates.
É mau que assim seja?
Isso é outro assunto.
Não sinto tal ar de irrealidade, aqui, neste canto da província. E creio que não haverá catástrofe alguma para além daquelas, mesquinhas e mudas, que nos assinalam a passagem do tempo.
O Dr. Santana Lopes chegou ao mandarinato. Mas não era isso previsível e natural? Era. Os trinta anos da democracia portuguesa encarregaram-se de tornar quase uma quase impossibilidade primeiros-ministros que não sejam políticos profissionais. É o que sucede nas outras democracias, mais velhas, e à luz do que nelas é habitual, invulgar e atípica foi a carreira do Prof. Cavaco Silva, não a do actual primeiro-ministro ou do Dr. Sócrates.
É mau que assim seja?
Isso é outro assunto.
sexta-feira, julho 16, 2004
Ouvi há pouco a notícia de que o Dr. Pacheco Pereira não pretendia já ocupar o cargo de embaixador junto da Unesco para que fora nomeado.
Assistia ao ilustre bloguista o direito de o exercer mesmo que não apoiando o novo governo: os embaixadores representam estados, não governos, e é de supor que existam políticas de estado a prosseguir e interesses nacionais a defender.
No entanto, não pode ser embaixador quem se exprime sobre o seu país como o Dr. Pacheco Pereira o fez no Abrupto: decentemente, ninguém pode esperar que alguém que publicamente lamenta o pobre destino do seu país possa representá-lo perante outro estado ou numa organização do cariz da Unesco.
O Dr. Pacheco Pereira, resolveu, por isso, optar por manter-se em Portugal e fazer oposição ao governo do seu partido com o qual não concorda.
Ainda bem, faz cá falta. Que, leal e com franqueza, diga o que acha que deve dizer sobre o seu país. É altura de Portugal começar a compreender, a respeitar o "dissender".
E, embora do acima dito retire eu que a opção não podia, de facto, ser outra, ainda assim está de parabéns por ter tirado as consequências que se impunham, quando há quem faça da inconsequência um modo de estar.
Assistia ao ilustre bloguista o direito de o exercer mesmo que não apoiando o novo governo: os embaixadores representam estados, não governos, e é de supor que existam políticas de estado a prosseguir e interesses nacionais a defender.
No entanto, não pode ser embaixador quem se exprime sobre o seu país como o Dr. Pacheco Pereira o fez no Abrupto: decentemente, ninguém pode esperar que alguém que publicamente lamenta o pobre destino do seu país possa representá-lo perante outro estado ou numa organização do cariz da Unesco.
O Dr. Pacheco Pereira, resolveu, por isso, optar por manter-se em Portugal e fazer oposição ao governo do seu partido com o qual não concorda.
Ainda bem, faz cá falta. Que, leal e com franqueza, diga o que acha que deve dizer sobre o seu país. É altura de Portugal começar a compreender, a respeitar o "dissender".
E, embora do acima dito retire eu que a opção não podia, de facto, ser outra, ainda assim está de parabéns por ter tirado as consequências que se impunham, quando há quem faça da inconsequência um modo de estar.
quinta-feira, julho 15, 2004
"Oh, what has become of my past and where is it? I used to be young, happy, clever, I used to be able to think and frame clever ideas, the present and the future seemed to me full of hope. Why do we almost before we have begun to live, become dull, gray, uninteresting, lazy, apathetic, useless, unhappy? (. . .)"
"The three sisters", Tchekov
"The three sisters", Tchekov
Há 100 anos, morria em Badenweiler, Alemanha,
Anton Tchekov.
Leo Rabeneck, um estudante russo que se hospedara no mesmo hotel, relata os últimos momentos do escritor.
"The doctor began giving him the oxygen. After a few minutes he whispered to me to go downstaires to the hall porter and fetche a bottle of champagne and a glass. Once more I desappeared and returned some time later with the champagne. The doctor filled the glass almost to the brim and offered it to Anton Pavlovich. The later accepted it with pleasure, smiled his attractive smile, said «Its a long time since I last drank champagne» and gallantly drained the glass in one go."
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