Os fogos e as vinganças de aldeia, as cartas abertas, as cabalas de polichinelo, o "diz-se diz-se", o claustrofóbico apavorante provincianismo, que indigência, que tragicomédia, que sordidez lorpa!
Até as burlas, até as burlas se praticam a horas certas e com marcação, entre cáries e pivots e conselhos de higiene oral, onde não estará ausente, talvez, a genuína intenção virtuosa, em nome do progresso, do português novo, do sorriso branco e perfeito da Europa.
Que miséria, que miséria...
P.S. Desta gordurosa salada de horrores devo retirar, mesmo para que este blog não seja acusado de pessimista, o casal suspeito de, por vingança, deitar o fogo às fazendas alheias.
Numa altura em que o diálogo no seio das famílias está tão ameaçado, eis um exemplo, mesmo que desastroso, de que a concórdia é possível.
sábado, julho 31, 2004
sexta-feira, julho 30, 2004
Não conheci a Figueira da Foz da imagem - nasci alguns decénios depois - mas a Figueira de que me lembro era a velhice suave dessa que ali vemos. Alguns posteriores arrroubos de modernidade ( o Grande Hotel e a piscina) não lhe tinham desfigurado o carácter de praia de "belle époque", de fim do século XIX.
Nos anos setenta começou o lento homicídio. Resta o cadáver embalsamado, por entre folhos e arrebiques de cimento, de uma tremenda falta de gosto.
Dos bons tempos, ficaram, na esplanada, alguns edifícios e a Casa Havanêsa.
Passar férias na Figueira da Foz tornou-se um árduo e triste exercício de abstracção.
Nos anos setenta começou o lento homicídio. Resta o cadáver embalsamado, por entre folhos e arrebiques de cimento, de uma tremenda falta de gosto.
Dos bons tempos, ficaram, na esplanada, alguns edifícios e a Casa Havanêsa.
Passar férias na Figueira da Foz tornou-se um árduo e triste exercício de abstracção.
quinta-feira, julho 29, 2004
Ninguém fez nada.
Refiro-me aos incêndios.
A incapacidade de lidar com a realidade, de resolver problemas, é total, ou quase.
Há muitos anos que somos vítimas deste populismo por omissão que consiste em não resolver seja o que for que incomode quem quer que seja e se traduza num preço eleitoral a pagar. Que digo? Que se traduza num mero e leve desconforto decisório.
A realidade retribui e, também ela, não muda.
Refiro-me aos incêndios.
A incapacidade de lidar com a realidade, de resolver problemas, é total, ou quase.
Há muitos anos que somos vítimas deste populismo por omissão que consiste em não resolver seja o que for que incomode quem quer que seja e se traduza num preço eleitoral a pagar. Que digo? Que se traduza num mero e leve desconforto decisório.
A realidade retribui e, também ela, não muda.
terça-feira, julho 27, 2004
sábado, julho 24, 2004
Continua o calor (não corre uma aragem) mas enfim... resignemo-nos.
Faz hoje 171 anos que entrou em Lisboa o exército liberal e, com ele, o respectivo regime.
Os resultados não foram, porém, os melhores, como com facilidade se verifica, apesar de governos muito probos, com gente muito grave e sabedora.
N.B. Isto não é uma sureptícia apologia do Governo do Senhor D. Miguel I (que também tinha homens muito probos, severos e sabedores (o Visconde de Santarém, o 2º, uma luminária, un philosophe).
Faz hoje 171 anos que entrou em Lisboa o exército liberal e, com ele, o respectivo regime.
Os resultados não foram, porém, os melhores, como com facilidade se verifica, apesar de governos muito probos, com gente muito grave e sabedora.
N.B. Isto não é uma sureptícia apologia do Governo do Senhor D. Miguel I (que também tinha homens muito probos, severos e sabedores (o Visconde de Santarém, o 2º, uma luminária, un philosophe).
sexta-feira, julho 23, 2004
Muitas vezes começo a escrever e, a meio, percebo que “tenho de ir primeiro por ali e ainda acolá” o que me leva tempo e castigará as minhas pobres falanges e “corto caminho”. Resulta dessa preguiça o ficar o que escrevo uma outra coisa, muito longe do que pretendia dizer aquando acometido da fúria blogante.
Hoje, por exemplo, quereria expressar a minha admiração pelo tom catastrófico, ou a para lá caminhar, usado por comentadores quando de referem ao actual governo e sei que a tarefa demoria. Fico pelo essencial: concedo a legitimidade de alguma inquietação. De resto, porém, parece-me que o governo não será muito pior do que o habitual; e o habitual é mau, ou muito fraquinho, o que condiz, afinal, connosco.
Que uma parte da classe média antiga (grande parte a viver nas cidades maiores do litoral) se esqueça, de vez em quando, do que somos (um pobre país que foi até há bem pouco tempo um pobríssimo país, com índices de terceiro mundo) e se imagine e à paisagem, a viver na média europeia, é coisa de que não tenho culpa alguma.
Nem este governo.
O que nele incomoda mais é, parece-me, o tornar essa doce ilusão do “Portugal moderno e europeu” mais difícil, já que não vem “legitimado” e afiançado para descanso do indígena, nem pela gravitas universitária, nem pelo carácter distante e sombrio do mandarim (necessidade que, em si, atesta o nosso subdesenvolvimento democrático e mental). Pondo as coisas “carrément”: “são gajos como nós” e alguns deles serão piores que nós (outros, melhores, lembraremos menos) gente que conhecemos, que sabemos onde mora, com quem já jantámos, que não nos surpreende que se tenha envolvido em conflitos pela posse de gabinetes, ou qualquer outra infantilidade, aliás simpática. Somos nós, são iguais a nós.
E “nós” somos isto. E por “isto”, pela realidade, tanta gente assustada....
Não se aflijam: há cem anos era pior.
Hoje, por exemplo, quereria expressar a minha admiração pelo tom catastrófico, ou a para lá caminhar, usado por comentadores quando de referem ao actual governo e sei que a tarefa demoria. Fico pelo essencial: concedo a legitimidade de alguma inquietação. De resto, porém, parece-me que o governo não será muito pior do que o habitual; e o habitual é mau, ou muito fraquinho, o que condiz, afinal, connosco.
Que uma parte da classe média antiga (grande parte a viver nas cidades maiores do litoral) se esqueça, de vez em quando, do que somos (um pobre país que foi até há bem pouco tempo um pobríssimo país, com índices de terceiro mundo) e se imagine e à paisagem, a viver na média europeia, é coisa de que não tenho culpa alguma.
Nem este governo.
O que nele incomoda mais é, parece-me, o tornar essa doce ilusão do “Portugal moderno e europeu” mais difícil, já que não vem “legitimado” e afiançado para descanso do indígena, nem pela gravitas universitária, nem pelo carácter distante e sombrio do mandarim (necessidade que, em si, atesta o nosso subdesenvolvimento democrático e mental). Pondo as coisas “carrément”: “são gajos como nós” e alguns deles serão piores que nós (outros, melhores, lembraremos menos) gente que conhecemos, que sabemos onde mora, com quem já jantámos, que não nos surpreende que se tenha envolvido em conflitos pela posse de gabinetes, ou qualquer outra infantilidade, aliás simpática. Somos nós, são iguais a nós.
E “nós” somos isto. E por “isto”, pela realidade, tanta gente assustada....
Não se aflijam: há cem anos era pior.
quinta-feira, julho 22, 2004
Creio que era Vasco Pulido Valente quem se interrogava, outro dia, sobre que Grécia será esta Europa da nova Roma.
À esquerda e à direita os primeiros indícios, as primeiras respostas começam a surgir e não são animadoras. Será que tentaremos ainda ser uma Grécia, ou, como tudo parece apontar, escolhemos o modelo egípcio?
À esquerda e à direita os primeiros indícios, as primeiras respostas começam a surgir e não são animadoras. Será que tentaremos ainda ser uma Grécia, ou, como tudo parece apontar, escolhemos o modelo egípcio?
A situação é esta: estou aborrecido, pior, in a fit of spleen. Spleen de província, pacato.
Por enquanto, há a aragem de noroeste mas, vivendo no medo que ela acabe, não a consigo apreciar. Sou tão português quanto isto: recolho a ansiedade que escorre do futuro e dela faço o alimento do dia de hoje.
Ao menos que o vento continue, pela tarde.
Por enquanto, há a aragem de noroeste mas, vivendo no medo que ela acabe, não a consigo apreciar. Sou tão português quanto isto: recolho a ansiedade que escorre do futuro e dela faço o alimento do dia de hoje.
Ao menos que o vento continue, pela tarde.
quarta-feira, julho 21, 2004
Ou, fugido do calor, vir para aqui,
preparar as leituras de Inverno, meditar num hotel confortável sobre destinos surpreendentes de misses inglesas e, por £ 0,99, comprar um "Leather bookmark printed with the Parsonage,Church and Top Withens. Assorted colours with gold lettering" ou, a £ 5,99 uma "Wooden dipping pen with a gilt nib. Assorted choice of woods" e, seguramente, "a set of four calligraphy nibs to go with the wooden or quill pens" por £ 3,50
De seguida, e enquanto a canícula não abandonasse a península, congeminar três seres que se sentissem felizes com estes recuerdos as christmas gifts. Tarefa difícil: todas elas - são elas - teriam de habitar as redondezas espirituais das "revêries" de velhíssimas professoras de inglês, sítios inóspitos, se não inverosímeis, nos dias que correm.
preparar as leituras de Inverno, meditar num hotel confortável sobre destinos surpreendentes de misses inglesas e, por £ 0,99, comprar um "Leather bookmark printed with the Parsonage,Church and Top Withens. Assorted colours with gold lettering" ou, a £ 5,99 uma "Wooden dipping pen with a gilt nib. Assorted choice of woods" e, seguramente, "a set of four calligraphy nibs to go with the wooden or quill pens" por £ 3,50
De seguida, e enquanto a canícula não abandonasse a península, congeminar três seres que se sentissem felizes com estes recuerdos as christmas gifts. Tarefa difícil: todas elas - são elas - teriam de habitar as redondezas espirituais das "revêries" de velhíssimas professoras de inglês, sítios inóspitos, se não inverosímeis, nos dias que correm.
segunda-feira, julho 19, 2004
Por vezes, tudo se modifica e a bonança, que parecia ameaçada, instala-se. Outras, porém, o caminho até à catastrófe é rectilineo, estupidamente certo e previsível.
Se se confirmarem os saharicos 40º C, sairei daqui.
Estou a pensar em Espinho, bem servida de combóios, mas estou aberto a qualquer fria sugestão.
Se se confirmarem os saharicos 40º C, sairei daqui.
Estou a pensar em Espinho, bem servida de combóios, mas estou aberto a qualquer fria sugestão.
sábado, julho 17, 2004
Escrevia ontem o meu maître à penser, Dr. VPV: "Hoje há um ar de irrealidade no advento de Santana Lopes. Ninguém acredita que está a suceder o que está a suceder. É um sentimento comum em véspera de catástrofe."
Não sinto tal ar de irrealidade, aqui, neste canto da província. E creio que não haverá catástrofe alguma para além daquelas, mesquinhas e mudas, que nos assinalam a passagem do tempo.
O Dr. Santana Lopes chegou ao mandarinato. Mas não era isso previsível e natural? Era. Os trinta anos da democracia portuguesa encarregaram-se de tornar quase uma quase impossibilidade primeiros-ministros que não sejam políticos profissionais. É o que sucede nas outras democracias, mais velhas, e à luz do que nelas é habitual, invulgar e atípica foi a carreira do Prof. Cavaco Silva, não a do actual primeiro-ministro ou do Dr. Sócrates.
É mau que assim seja?
Isso é outro assunto.
Não sinto tal ar de irrealidade, aqui, neste canto da província. E creio que não haverá catástrofe alguma para além daquelas, mesquinhas e mudas, que nos assinalam a passagem do tempo.
O Dr. Santana Lopes chegou ao mandarinato. Mas não era isso previsível e natural? Era. Os trinta anos da democracia portuguesa encarregaram-se de tornar quase uma quase impossibilidade primeiros-ministros que não sejam políticos profissionais. É o que sucede nas outras democracias, mais velhas, e à luz do que nelas é habitual, invulgar e atípica foi a carreira do Prof. Cavaco Silva, não a do actual primeiro-ministro ou do Dr. Sócrates.
É mau que assim seja?
Isso é outro assunto.
sexta-feira, julho 16, 2004
Ouvi há pouco a notícia de que o Dr. Pacheco Pereira não pretendia já ocupar o cargo de embaixador junto da Unesco para que fora nomeado.
Assistia ao ilustre bloguista o direito de o exercer mesmo que não apoiando o novo governo: os embaixadores representam estados, não governos, e é de supor que existam políticas de estado a prosseguir e interesses nacionais a defender.
No entanto, não pode ser embaixador quem se exprime sobre o seu país como o Dr. Pacheco Pereira o fez no Abrupto: decentemente, ninguém pode esperar que alguém que publicamente lamenta o pobre destino do seu país possa representá-lo perante outro estado ou numa organização do cariz da Unesco.
O Dr. Pacheco Pereira, resolveu, por isso, optar por manter-se em Portugal e fazer oposição ao governo do seu partido com o qual não concorda.
Ainda bem, faz cá falta. Que, leal e com franqueza, diga o que acha que deve dizer sobre o seu país. É altura de Portugal começar a compreender, a respeitar o "dissender".
E, embora do acima dito retire eu que a opção não podia, de facto, ser outra, ainda assim está de parabéns por ter tirado as consequências que se impunham, quando há quem faça da inconsequência um modo de estar.
Assistia ao ilustre bloguista o direito de o exercer mesmo que não apoiando o novo governo: os embaixadores representam estados, não governos, e é de supor que existam políticas de estado a prosseguir e interesses nacionais a defender.
No entanto, não pode ser embaixador quem se exprime sobre o seu país como o Dr. Pacheco Pereira o fez no Abrupto: decentemente, ninguém pode esperar que alguém que publicamente lamenta o pobre destino do seu país possa representá-lo perante outro estado ou numa organização do cariz da Unesco.
O Dr. Pacheco Pereira, resolveu, por isso, optar por manter-se em Portugal e fazer oposição ao governo do seu partido com o qual não concorda.
Ainda bem, faz cá falta. Que, leal e com franqueza, diga o que acha que deve dizer sobre o seu país. É altura de Portugal começar a compreender, a respeitar o "dissender".
E, embora do acima dito retire eu que a opção não podia, de facto, ser outra, ainda assim está de parabéns por ter tirado as consequências que se impunham, quando há quem faça da inconsequência um modo de estar.
quinta-feira, julho 15, 2004
"Oh, what has become of my past and where is it? I used to be young, happy, clever, I used to be able to think and frame clever ideas, the present and the future seemed to me full of hope. Why do we almost before we have begun to live, become dull, gray, uninteresting, lazy, apathetic, useless, unhappy? (. . .)"
"The three sisters", Tchekov
"The three sisters", Tchekov
Há 100 anos, morria em Badenweiler, Alemanha,
Anton Tchekov.
Leo Rabeneck, um estudante russo que se hospedara no mesmo hotel, relata os últimos momentos do escritor.
"The doctor began giving him the oxygen. After a few minutes he whispered to me to go downstaires to the hall porter and fetche a bottle of champagne and a glass. Once more I desappeared and returned some time later with the champagne. The doctor filled the glass almost to the brim and offered it to Anton Pavlovich. The later accepted it with pleasure, smiled his attractive smile, said «Its a long time since I last drank champagne» and gallantly drained the glass in one go."
terça-feira, julho 13, 2004
Estes não dispensam a cartola (mas dispensariam o coelho) É isto que se passa no governo do poder judicial. Mesmo descontado o exagero jornalístico, é grave.
É um assunto tão nosso quanto o da composição do governo, ou da assembleia da república.
É um assunto tão nosso quanto o da composição do governo, ou da assembleia da república.
O Almocreve incomoda-se com os coelhos saídos da cartola. Creio que o ilustre bloguista foi vítima de uma ilusão de óptica: eu, pelo menos, não vi cartola nenhuma. Vi os coelhos. Mas não saíram da cartola. Actualmente basta mostrar os coelhos em si. O mistério é, agora, o da transparência absoluta: pertence hoje à transparência o que em séculos passados coube às trevas.
O meu comentário ao texto de Maîstre não se coaduna com a gravidade do assunto. Mantive-o por uma questão de respeito às pessoas que, de vez em quando, lêem este blog e porque o tédio é uma força poderosa, afinal.
No entanto convém esclarecer que Maîstre não é um escritor "pitoresco" e "divertido" pelas suas "enormdidades" (tudo entre aspas, sim). O fundamental da tese de Berlin, explanada em "Joseph de Maîstre and the origins of fascism", é a de que Maîstre não é o último homem da ordem velha, mas o primeiro de uma nova era - a nossa - e que o seu pensamento contém em germe a teorização do totalitarismo tal como veio existir no sec. XX - e que nada nos garante não virá a existir de novo.
Esclarecimento feito
No entanto convém esclarecer que Maîstre não é um escritor "pitoresco" e "divertido" pelas suas "enormdidades" (tudo entre aspas, sim). O fundamental da tese de Berlin, explanada em "Joseph de Maîstre and the origins of fascism", é a de que Maîstre não é o último homem da ordem velha, mas o primeiro de uma nova era - a nossa - e que o seu pensamento contém em germe a teorização do totalitarismo tal como veio existir no sec. XX - e que nada nos garante não virá a existir de novo.
Esclarecimento feito
De Maîstre li pouco: "Les considerations sur la France". Quando resolvi comprar "Les soirées de Saint-Pétersbourg" recuei perante o tamanho da obra - e preço (encontrei uma parte substancial publicada "on line" mas detesto ler no "écran"). Sobre Maîstre li, essencialmente, o que escreveu Berlin.
Ontem encontrei, transcrito por Sir Isaiah, um dos mais sombrios, ferozes e belos textos de Maîstre:
"...Cependant quel être [dans le carnage permanent] exterminera celui qui les extermine tous? Lui. C'est l'homme qui est chargé d'égorger l'homme... Ainsi s'accomplit... la grande loi de la destruction violente des êtres vivants. La terre entière, continuellement imbibée de sang, n'est qu'un autel immense où tout ce qui vit doit être immolé sans fin, sans mesure, sans relâche, jusqu'a consommation des chôses, jusqu'à l'extinction du mal, jusqu'à la mort de la mort"
Um grande texto contra o tédio que, infelizmente, parece ser um desagradável efeito secundário das boas intenções bem sucedidas. Aliás, a única fraqueza do texto é essa: é, também ele, bem intencionado. Sobrevive a essa mácula, contudo, e o terror do homem entregue ao seu tenebroso destino não deixa de estar magnificamente descrito, de provocar, mesmo hoje, algum medo. Diria, um sadio medo.
Ontem encontrei, transcrito por Sir Isaiah, um dos mais sombrios, ferozes e belos textos de Maîstre:
"...Cependant quel être [dans le carnage permanent] exterminera celui qui les extermine tous? Lui. C'est l'homme qui est chargé d'égorger l'homme... Ainsi s'accomplit... la grande loi de la destruction violente des êtres vivants. La terre entière, continuellement imbibée de sang, n'est qu'un autel immense où tout ce qui vit doit être immolé sans fin, sans mesure, sans relâche, jusqu'a consommation des chôses, jusqu'à l'extinction du mal, jusqu'à la mort de la mort"
Um grande texto contra o tédio que, infelizmente, parece ser um desagradável efeito secundário das boas intenções bem sucedidas. Aliás, a única fraqueza do texto é essa: é, também ele, bem intencionado. Sobrevive a essa mácula, contudo, e o terror do homem entregue ao seu tenebroso destino não deixa de estar magnificamente descrito, de provocar, mesmo hoje, algum medo. Diria, um sadio medo.
segunda-feira, julho 12, 2004
Encontro no "Freedom and its Betrayal" de Berlin, a pergunta fundamental da filosofia politica: "Why should anyone obey anyone else?".
Creio que pouca gente pensou, em Portugal, nesta questão: os programas escolares do ensino secundário não a levantam, como apurei num breve inquérito: das respostas de alguns alunos mais aplicados pude perceber que consideravam a questão histórica, resolvida, colocam-na num passado nebuloso. A resposta não dita à pergunta, mas por mim pressentida era a de "por que sim" a par com algumas considerações também elas históricas...
Creio, por isso, que muita gente chegará a cargos importantes (governo, magistratura) sem, verdadeiramente, ter pensado nesta questão central.
E daí progridem, por defeito, de omissão em omissão pensadora.
Creio que pouca gente pensou, em Portugal, nesta questão: os programas escolares do ensino secundário não a levantam, como apurei num breve inquérito: das respostas de alguns alunos mais aplicados pude perceber que consideravam a questão histórica, resolvida, colocam-na num passado nebuloso. A resposta não dita à pergunta, mas por mim pressentida era a de "por que sim" a par com algumas considerações também elas históricas...
Creio, por isso, que muita gente chegará a cargos importantes (governo, magistratura) sem, verdadeiramente, ter pensado nesta questão central.
E daí progridem, por defeito, de omissão em omissão pensadora.
domingo, julho 11, 2004
Na pilha de livros para arrumar, as "Cenas da Vida portuguesa" de Maria Filomena Mónica. Ao pegar no livro, lembro-me de uma afirmação sobre a política salazarista. Vou à procura e encontro-a sem dificuldades, logo no capítulo I, os "Trinta anos que mudaram Portugal". Transcrevo: "Durante as primeiras décadas do seu consulado, Salazar fechou o País ao exterior, tentando moldá-lo de acordo com os seus ideais. A intervenção do Estado na sociedade aumentou de tal forma que alguns estudiosos do período têm dificuldades em aceitar o regime como pertencendo à família capitalista(itálico impensável)."
Conviria não esquecer este forte intervencionismo estatal. Entre este, patriarcal e paternalista, e o preconizado pelos socialismos (que tem como corolário a demonização do "liberalismo", tido como "selvagem" - seria interessante dissecar o uso deste termo), o istmo de liberdade é, ainda hoje, uma estreita língua de terra pouco firme e ameaçada: é que desde Salazar até hoje há fios condutores que permaneceram. Um deles, é um profunda desconfiança pelo povo, que não é, nunca, de fiar. Veja-se, v.g., a lei dos partidos políticos e a tão ilustrativa história do instituto do referendo: dir-se-ia que a emergência política da classe média, operada com o 25 de Abril, apenas democratizou, em Portugal, o profundo cepticismo do ditador.
Talvez, agora, com a "Europa", a influência de modelos de comportamento estrangeiros, veículada pelos "mass media" uma segunda geração comece a sentir curiosidade por algo que em Portugal nunca existiu: um estado pequeno, esquecido das suas glórias imperiais, "moderno" e funcional, sem preocupações escatológicas.
Desde que essa geração prescinda, é claro, de querer que ele, o estado, empregue aquele primo que, coitado, é bom rapaz e precisa mais do que os outros de um emprego, ou que renuncie ao subsídio estatal para pôr em práica aquela ideia que se, tão útil e que, já sabe, neste país, ninguém apoia.
Conviria não esquecer este forte intervencionismo estatal. Entre este, patriarcal e paternalista, e o preconizado pelos socialismos (que tem como corolário a demonização do "liberalismo", tido como "selvagem" - seria interessante dissecar o uso deste termo), o istmo de liberdade é, ainda hoje, uma estreita língua de terra pouco firme e ameaçada: é que desde Salazar até hoje há fios condutores que permaneceram. Um deles, é um profunda desconfiança pelo povo, que não é, nunca, de fiar. Veja-se, v.g., a lei dos partidos políticos e a tão ilustrativa história do instituto do referendo: dir-se-ia que a emergência política da classe média, operada com o 25 de Abril, apenas democratizou, em Portugal, o profundo cepticismo do ditador.
Talvez, agora, com a "Europa", a influência de modelos de comportamento estrangeiros, veículada pelos "mass media" uma segunda geração comece a sentir curiosidade por algo que em Portugal nunca existiu: um estado pequeno, esquecido das suas glórias imperiais, "moderno" e funcional, sem preocupações escatológicas.
Desde que essa geração prescinda, é claro, de querer que ele, o estado, empregue aquele primo que, coitado, é bom rapaz e precisa mais do que os outros de um emprego, ou que renuncie ao subsídio estatal para pôr em práica aquela ideia que se, tão útil e que, já sabe, neste país, ninguém apoia.
sexta-feira, julho 09, 2004
Correio. Os livros encomendados na amazom.co.uk., um deles já lido, os outros que tinha anotado há uns tempos e de que depois me esquecera de encomendar. O já lido é o "Freedom and its betrayal", de Sir Isaiah Berlin. Releio, com alguma gula, o começo do ensaio sobre Hegel: "Off all the ideas that originated during the period which I am discussing, the Hegelian system has perhaps had the greatest influence on contemporary thought. It is a vast mythology wich, like many other mythologies, has great powers of illumination as well as great powers of obscuring whatever it touches".
Dos esquecidos , o "The view from nowhere" de Thomas Nagel. A clareza é quase humilhante para qualquer leitor continental e português em particular:"This book is about a single problem: how to combine the perspective of a particular person inside the world with an objective view of the same world, the person and his viewpoint included".
O "How Proust can change your life" do Alain de Botton, assim mesmo, traduzido em inglês - não é snobismo ou anti francesismo doentio: foi mera distracção - deixa-me esperançado: o capítulo 4 intitula-se: "how to suffer sucessfully"
Dos esquecidos , o "The view from nowhere" de Thomas Nagel. A clareza é quase humilhante para qualquer leitor continental e português em particular:"This book is about a single problem: how to combine the perspective of a particular person inside the world with an objective view of the same world, the person and his viewpoint included".
O "How Proust can change your life" do Alain de Botton, assim mesmo, traduzido em inglês - não é snobismo ou anti francesismo doentio: foi mera distracção - deixa-me esperançado: o capítulo 4 intitula-se: "how to suffer sucessfully"
Que manhã perfeita foi a de hoje! Amena e límpida, passou risonhamente, muito azul e calma.
Quando leio ou oiço falar do "regresso à vidinha", como se da execução de uma pena se tratasse, não deixo de me admirar com o efeito oclusivo das concepções heróicas da vida. Não vêem estas manhãs perfeitas? É a vidinha...
Quando leio ou oiço falar do "regresso à vidinha", como se da execução de uma pena se tratasse, não deixo de me admirar com o efeito oclusivo das concepções heróicas da vida. Não vêem estas manhãs perfeitas? É a vidinha...
quinta-feira, julho 08, 2004
E ele, o iniciado nos mistérios da Pina Colada não gosta apenas do "professor". Lê, no emprego, também, o "blog do doutor".
Habitual volta de depois de almoço pelos blogs. No Abrupto, o elogio do centro - o que é, afinal, sobre que geometria repousa? - alguns processos de intenção em relação ao possível governo liderado por Santana Lopes, o alerta para a ingenuidade de quem espera políticas liberais. Não é o meu caso, que me limito a esperar, muito ao de leve, menos ferocidade estatista (e não para já...).
O que não compreendo é o apego pelo "centro" - ou pela governação ao dito. Não lhe conheço outra virtude senão a perpetuação, em sossego, - e para sossego de quem governa - da incapacidade de "modernização", de resolver problemas. A obra do "centro" tem consistido em tornar suportável, atráves de uma difusão pardacenta de culpas e responsabilidades, a tensão entre imaginários de primeiro mundo e um quotidiano degradante de país atrasado que JPP se compraz em mostrar - numa reedição de uma calçada de carriche narcotizada por passagens desniveladas e "acessibilidades".
"Eles que resolvam lá o assunto entre eles", diz a sua Luísa outra banda: e resolvem. Ao centro, no centro da impunidade. Direi mesmo que o medo principal "deles" é que mais alguém queira resolver, começando por pedir contas, perguntar "então como é que é?"
Eu, por exemplo, que votei no ilustre bloguista, não faço a mais pequena ideia do que fez no Parlamento europeu. De que comissões fez parte? Por que soluções propugnou nesta e naquela questão? Limitou-se a lamentar a "pobre Europa, esta"?
Quando deu contas aos seus eleitores do que lá fez? Talvez que, se der - e de um modo visível, que o eleitorado, já se sabe, é calaceiro - eu pense noutra coisa antes de ir para férias. Entre as releitura dos contos de Tchekov - faz no dia 15 cem anos que morreu - vagos projectos de visitar a casa de Churchill e quinze dias numa praia ventosa e fria prometo arranjar tempo para examinar o trabalho do meu insigne representante na UE. Não lhe prometo é suor.
O que não compreendo é o apego pelo "centro" - ou pela governação ao dito. Não lhe conheço outra virtude senão a perpetuação, em sossego, - e para sossego de quem governa - da incapacidade de "modernização", de resolver problemas. A obra do "centro" tem consistido em tornar suportável, atráves de uma difusão pardacenta de culpas e responsabilidades, a tensão entre imaginários de primeiro mundo e um quotidiano degradante de país atrasado que JPP se compraz em mostrar - numa reedição de uma calçada de carriche narcotizada por passagens desniveladas e "acessibilidades".
"Eles que resolvam lá o assunto entre eles", diz a sua Luísa outra banda: e resolvem. Ao centro, no centro da impunidade. Direi mesmo que o medo principal "deles" é que mais alguém queira resolver, começando por pedir contas, perguntar "então como é que é?"
Eu, por exemplo, que votei no ilustre bloguista, não faço a mais pequena ideia do que fez no Parlamento europeu. De que comissões fez parte? Por que soluções propugnou nesta e naquela questão? Limitou-se a lamentar a "pobre Europa, esta"?
Quando deu contas aos seus eleitores do que lá fez? Talvez que, se der - e de um modo visível, que o eleitorado, já se sabe, é calaceiro - eu pense noutra coisa antes de ir para férias. Entre as releitura dos contos de Tchekov - faz no dia 15 cem anos que morreu - vagos projectos de visitar a casa de Churchill e quinze dias numa praia ventosa e fria prometo arranjar tempo para examinar o trabalho do meu insigne representante na UE. Não lhe prometo é suor.
quarta-feira, julho 07, 2004
A lentidão: agora é o conselho de estado.
Aconselho que se siga tudo saboreando. É a nossa demoracia a funcionar. E não há motivos para que seja mais expedita do que uma qualquer repartição estatal, daquelas onde vivemos as alegrias da nossa modernização.
Leve-se tudo isto com um sorriso: o tempo está fresco e para quem não goste da nortada pela tarde, sempre é um entretém.
Aconselho que se siga tudo saboreando. É a nossa demoracia a funcionar. E não há motivos para que seja mais expedita do que uma qualquer repartição estatal, daquelas onde vivemos as alegrias da nossa modernização.
Leve-se tudo isto com um sorriso: o tempo está fresco e para quem não goste da nortada pela tarde, sempre é um entretém.
terça-feira, julho 06, 2004
Hoje, ouvi, num noticiário, o Prof. Jorge Miranda explicar, com minúcia, que o Presidente tinha aceitado a demissão que o Dr. Durão Barroso lhe apresentara ontem.
Logo antes, ou logo depois, referências à comoção futebolística do Sr. Presidente, que choramingara, de novo.
E, de repente, dei comigo a rir, a rir com gosto, como me riria, creio, se com antecipada bonomia assistisse a uma rábula ensaiada no salão paroquial de qualquer recôndita freguesia.
Passado o ataque de hilaridade, fico, porém, com a sensação que o preço do bilhete é exagerado, mesmo estando imbuído de espírito humanitário, desejando ajudar. Posso estar errado: afinal, ainda não sei para que fins reverte a receita da récita.
Logo antes, ou logo depois, referências à comoção futebolística do Sr. Presidente, que choramingara, de novo.
E, de repente, dei comigo a rir, a rir com gosto, como me riria, creio, se com antecipada bonomia assistisse a uma rábula ensaiada no salão paroquial de qualquer recôndita freguesia.
Passado o ataque de hilaridade, fico, porém, com a sensação que o preço do bilhete é exagerado, mesmo estando imbuído de espírito humanitário, desejando ajudar. Posso estar errado: afinal, ainda não sei para que fins reverte a receita da récita.
segunda-feira, julho 05, 2004
sábado, julho 03, 2004
Ontem, Sophia de Mello Breyner morreu.
"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
sexta-feira, julho 02, 2004
quinta-feira, julho 01, 2004
Fontes bem informadas próximas de Belém afirmam que o Sr. Presidente, para decidir com cabal conhecimento de causa na actual "crise", tenciona ouvir, um por um, todos os portugueses. A notícia ainda não foi tornada pública por não se ter atinado com o método: serão ouvidos por ordem alfabética? Por nº de bilhete de identidade ou de contribuinte? E em ordem ascendente ou descendente? Há ainda quem alvitre que se siga a audição pelos códigos postais, o que permite facilitar a questão logística.
Todos os ouvidos pelo Sr. Presidente terão direito a prestarem declarações à televisão e imprensa escrita.
E se fosse mesmo uma crise?
Todos os ouvidos pelo Sr. Presidente terão direito a prestarem declarações à televisão e imprensa escrita.
E se fosse mesmo uma crise?
Em "Um escritor confessa-se" Aquilino relata uma sua tentativa de evasão da cadeia em que estava detido. Tinha conseguido desaparafusar a velha fechadura do calabouço, mas, já fora da cela, as suas hesitações permitiram que fosse apanhado ainda antes de sair do recinto da esquadra.
O que se segue é o relato de uma conversa do escritor com um dos guardas.
Para completa compreensão do leitor se dirá que os guardas estavam no convencimento de que tudo se devera a um esquecimento - o que, depreendendo-se embora do texto, nunca será de mais vincar.
"-Sempre me pregou uma partida! Olhe que vou ter uma sindicância às costas!
- Não me diga, que me arranca o coração!
- O amigo, quando viu que eu lhe deixei a porta aberta, devia avisar-me. Meteu-se em copas. Não foi bonito, não foi!
- Só dei conta mais tarde, quando o senhor tinha acabado o plantão.
- Mas para que saiu cá para fora? Ganhava alguma coisa com isso? Ainda se ganhasse -e dizendo isto arrastou um olhar circular pelas quatro paredes do pátio (...).
- Apeteceu-me ir tomar ar ao pátio!...
- Pois não devia.A sua obrigação era, mal deu acordo que a porta estava aberta, chamar; se não a mim, ao meu colega, e avisar do descuido. A gente vem habituada lá da terra a nunca fechar as portas. Mas numa cai quem quer cai. Suponha que não havia muros, a cerca do Posto de Desinfecção, e lhe dava o demo para fugir hem?! Era a minha desgraça e sabe-se lá de quantos mais.
- Desculpe, eu ignorava de todos as consequências do meu acto irreflectido. Para outra vez, podem deixar a porta aberta que eu não arredo pé.
Foi-se a abanar a pobre cachola de estúpido, e eu volvi ao passeio(...)."
O que o Aquilino não se parece dar conta é quão demonstrativa é esta conversa da natureza do estado português: a exigência, aos cidadãos, de imperativos categóricos e todas as pragmáticas atenuantes para o estado, entre as quais a nossa conhecida "falta de meios" e as considerações humanitárias perante as ineficiências dos burocratas ou dos titulares dos cargos.
A situação, que já não era nova ao tempo do relato, mantém-se.
O que se segue é o relato de uma conversa do escritor com um dos guardas.
Para completa compreensão do leitor se dirá que os guardas estavam no convencimento de que tudo se devera a um esquecimento - o que, depreendendo-se embora do texto, nunca será de mais vincar.
"-Sempre me pregou uma partida! Olhe que vou ter uma sindicância às costas!
- Não me diga, que me arranca o coração!
- O amigo, quando viu que eu lhe deixei a porta aberta, devia avisar-me. Meteu-se em copas. Não foi bonito, não foi!
- Só dei conta mais tarde, quando o senhor tinha acabado o plantão.
- Mas para que saiu cá para fora? Ganhava alguma coisa com isso? Ainda se ganhasse -e dizendo isto arrastou um olhar circular pelas quatro paredes do pátio (...).
- Apeteceu-me ir tomar ar ao pátio!...
- Pois não devia.A sua obrigação era, mal deu acordo que a porta estava aberta, chamar; se não a mim, ao meu colega, e avisar do descuido. A gente vem habituada lá da terra a nunca fechar as portas. Mas numa cai quem quer cai. Suponha que não havia muros, a cerca do Posto de Desinfecção, e lhe dava o demo para fugir hem?! Era a minha desgraça e sabe-se lá de quantos mais.
- Desculpe, eu ignorava de todos as consequências do meu acto irreflectido. Para outra vez, podem deixar a porta aberta que eu não arredo pé.
Foi-se a abanar a pobre cachola de estúpido, e eu volvi ao passeio(...)."
O que o Aquilino não se parece dar conta é quão demonstrativa é esta conversa da natureza do estado português: a exigência, aos cidadãos, de imperativos categóricos e todas as pragmáticas atenuantes para o estado, entre as quais a nossa conhecida "falta de meios" e as considerações humanitárias perante as ineficiências dos burocratas ou dos titulares dos cargos.
A situação, que já não era nova ao tempo do relato, mantém-se.
quarta-feira, junho 30, 2004
Mais dois lamentos de JPP. Comecemos pelo segundo: JPP teme que nos encontremos na cozinha. Creio tratar-se de uma doce ilusão. A cozinha é um lugar de criação, lugar benfazejo, morada dos Lares. Há muito que aí não estamos. Expulsos da cozinha como Adão o foi do paraíso (embora por motivos opostos) vivemos as tristezas da copa, esse terrível "no land".
No primeiro lamento, acusa o populismo que se alimenta do igualitarismo da sociedade portuguesa. Não é assunto novo. O igualitarismo português tem, no entanto, particularidades interessantes. Uma delas é coexistir, melhor, quase supor o respeitinho pelas classes elevadas (se não é que perversamente se alimenta dele);
outra, muito peculiar, o ser usado de "cima", "populistamente", em promessas de ascensão do "povo" aos benefícios da respeitabilidade (é o caso do português novo de Cavaco, do português - ou do Portugal - respeitado lá fora no qual "todos" participaríamos, o que não é menos incitação igualitária e populista que qualquer outra); por outro lado, ainda, o respeitinho luso percorre a sociedade transversalmente, encontrado-se onde menos se espera, e em cada um de nós, tomando algumas formas de notável sofisticação. Um exemplo? Os apelos às cumplicidades contemplativas perante supostas iconoclastias.
No primeiro lamento, acusa o populismo que se alimenta do igualitarismo da sociedade portuguesa. Não é assunto novo. O igualitarismo português tem, no entanto, particularidades interessantes. Uma delas é coexistir, melhor, quase supor o respeitinho pelas classes elevadas (se não é que perversamente se alimenta dele);
outra, muito peculiar, o ser usado de "cima", "populistamente", em promessas de ascensão do "povo" aos benefícios da respeitabilidade (é o caso do português novo de Cavaco, do português - ou do Portugal - respeitado lá fora no qual "todos" participaríamos, o que não é menos incitação igualitária e populista que qualquer outra); por outro lado, ainda, o respeitinho luso percorre a sociedade transversalmente, encontrado-se onde menos se espera, e em cada um de nós, tomando algumas formas de notável sofisticação. Um exemplo? Os apelos às cumplicidades contemplativas perante supostas iconoclastias.
terça-feira, junho 29, 2004
Eça dizia, a propósito do DN da época, e cito de memória, que era um jornal de uma mediocridade (ou imbecilidade) meticulosa e grave.
É de crer que o jornal condissesse com o país, já que ainda hoje temos a paixão do sisudo, do sorumbático, do macambúzio que confundimos com "gravidade" ou "profundidade".
E, também, ainda hoje, prestamos culto ao agir meticuloso, em que se expressa um receio atávico, rural, pela mudança substancial (ao invés, das adjectivas e acessórias gostamos e com tal ferocidade que desde organismo estatal ao mais recôndito beco, tudo vai mudando - de nome). Mas mudar mesmo, não queremos, pelo medo saloio de que as coisas se "desarranjem": somos um país "não mexas aí que se pode partir"
O resultado de tais desvelos, não é, porém, animador: de homem de estado grave e ponderado em homem de estado grave e ponderado, de grandes competências em grandes competências, de solução sensata e consensual em solução sensata e consensual chegámos a uma notável estabilidade na cauda da Europa.
E, parece, aqui queremos ficar, com afinco e determinação.
Seria, por isso, a altura de mudarmos de método.
Isto não quer dizer, claro está (claro está, ou não fosse eu português) que não haja pessoas totalmente inconvenientes para este ou aquele cargo (é, aliás isso, pessoas inconvenientes, que a julgar pelos resultados, temos tido habitualmente). O que quero vincar é o medo que se eleva até à grita perante a possibilidade de estar a mesmice em perigo. Mesmo que apenas ao de leve, muito ao de leve.
É de crer que o jornal condissesse com o país, já que ainda hoje temos a paixão do sisudo, do sorumbático, do macambúzio que confundimos com "gravidade" ou "profundidade".
E, também, ainda hoje, prestamos culto ao agir meticuloso, em que se expressa um receio atávico, rural, pela mudança substancial (ao invés, das adjectivas e acessórias gostamos e com tal ferocidade que desde organismo estatal ao mais recôndito beco, tudo vai mudando - de nome). Mas mudar mesmo, não queremos, pelo medo saloio de que as coisas se "desarranjem": somos um país "não mexas aí que se pode partir"
O resultado de tais desvelos, não é, porém, animador: de homem de estado grave e ponderado em homem de estado grave e ponderado, de grandes competências em grandes competências, de solução sensata e consensual em solução sensata e consensual chegámos a uma notável estabilidade na cauda da Europa.
E, parece, aqui queremos ficar, com afinco e determinação.
Seria, por isso, a altura de mudarmos de método.
Isto não quer dizer, claro está (claro está, ou não fosse eu português) que não haja pessoas totalmente inconvenientes para este ou aquele cargo (é, aliás isso, pessoas inconvenientes, que a julgar pelos resultados, temos tido habitualmente). O que quero vincar é o medo que se eleva até à grita perante a possibilidade de estar a mesmice em perigo. Mesmo que apenas ao de leve, muito ao de leve.
Ontem, segunda-feira, dia de TLS.
Leio no artigo de Robert Skidelsky sobre o "Decline of the public" de Marquand: "One of Marquand’s favourite paradoxes –and he does tend to multiply his paradoxes – is that the project of privatizing economic life demanded an increase in central control, since, apart from the need to regulate the privatized utilities, a considerable re-engineering of social attitudes was required to adapt the population to the needs of a competitive market economy"
Paradoxo aparente? Peço ajuda ao pensador liberal do Blasfémias.
Leio no artigo de Robert Skidelsky sobre o "Decline of the public" de Marquand: "One of Marquand’s favourite paradoxes –and he does tend to multiply his paradoxes – is that the project of privatizing economic life demanded an increase in central control, since, apart from the need to regulate the privatized utilities, a considerable re-engineering of social attitudes was required to adapt the population to the needs of a competitive market economy"
Paradoxo aparente? Peço ajuda ao pensador liberal do Blasfémias.
Vi os telejornais. Sensação de"déjà vu" hipotético: o "Yes, Prime Minister" mas em adaptação venezuelo-mexicano-colombiana. Seria assim, isto que estamos a viver.
segunda-feira, junho 28, 2004
Aos senhores leitores que vêm do Bomba Inteligente:
V. Exias. vêm enganados, não é aqui. O destaque da Bomba Inteligente é para o impensavel e impensado mas termos abstractos, problemas filosóficos.
Este blog chama-se impensável por ter sido criado sem pensar e dizer nele coisas o seu autor que não diria se pensar fosse um hábito seu.
O impensavel indicado pelo Bomba é mais além.
Muito obrigado.
V. Exias. vêm enganados, não é aqui. O destaque da Bomba Inteligente é para o impensavel e impensado mas termos abstractos, problemas filosóficos.
Este blog chama-se impensável por ter sido criado sem pensar e dizer nele coisas o seu autor que não diria se pensar fosse um hábito seu.
O impensavel indicado pelo Bomba é mais além.
Muito obrigado.
domingo, junho 27, 2004
Pobre país
Que não exista no PSD, partido já com 30 anos - muitos deles passados no poder - um comité, ou comissão, formal ou informal, que de uma forma expedita se pronuncie, discreta, rápida, eficazmente, sobre a sucessão do primeiro-ministro, sabendo-se que por motivos felizes ou infelizes, pode ser sempre necessário, de um momento para o outro, fazê-lo; que parte do país - e do PSD, diz-se - esteja suspensa dos "comentários" do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a proferir no seu programa televisivo, ou que Pacheco Pereira, um indigitado embaixador de Portugal, use o seu blog para queixumes e recados sobre o assunto primo-ministerial, como um qualquer adolescente amuado com questões escolares, eis o que é de estarrecer.
Estão a ver isto em países de gente crescida, em França, na Alemanha, para não falar já da Grá-Bretanha?
Que não exista no PSD, partido já com 30 anos - muitos deles passados no poder - um comité, ou comissão, formal ou informal, que de uma forma expedita se pronuncie, discreta, rápida, eficazmente, sobre a sucessão do primeiro-ministro, sabendo-se que por motivos felizes ou infelizes, pode ser sempre necessário, de um momento para o outro, fazê-lo; que parte do país - e do PSD, diz-se - esteja suspensa dos "comentários" do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a proferir no seu programa televisivo, ou que Pacheco Pereira, um indigitado embaixador de Portugal, use o seu blog para queixumes e recados sobre o assunto primo-ministerial, como um qualquer adolescente amuado com questões escolares, eis o que é de estarrecer.
Estão a ver isto em países de gente crescida, em França, na Alemanha, para não falar já da Grá-Bretanha?
sábado, junho 26, 2004
Novos links
Linkaram o Impensável, que agrade, o Olympic Champ, o Covarde, o Um dia na vida de e o Xicuembo.
Linkaram o Impensável, que agrade, o Olympic Champ, o Covarde, o Um dia na vida de e o Xicuembo.
De resto... enquanto as classes médias portuguesas virem no estado - que as ajudou a criar, é verdade, e, em grande parte, as sustenta - a solução dos seus problemas (e um dos problemas mais temidos é a modernização, o modelo lá de fora, da UE que se ama e mais se receia) não creio que nomes influenciem muito. Não vale a pena, por isso, tantos medos com o Dr. Santana Lopes. A possibilidade de ele começar uma lenta revolução é diminuta. Vai tudo continuar como dantes, num funcionamento "nominal" que satisfaz os orgulhos pátrios mas com a insuficiência necessária para não incomodar demasiado.
O Doutor Vasco Pulido Valente - já on line, a crónica de hoje, sábado - insinua que o Dr. Durão Barroso demonstrará, a aceitar o lugar europeu, pouca consideração pelos portugueses e, em última instância, por si mesmo, já que não honra compromissos.
Eu não ponho as coisas nesses cumes morais. Mais chãmente, direi que o Dr. Barroso e restante governo me aborreciam já bastante e, por mim julgando, ao resto da população, pelo que acho natural que o Dr. Barroso estivesse, também ele, já enfadado, tanto com o governo como connosco e que o aborrecimento, o tédio insalubre, o enfado justificam que ambos, Dr. Barrroso e povo português se despeçam mutuamente, fingindo apenas, por razões de conveniência e civilidade, algumas saudades à despedida. Talvez, até, num excesso de delicadeza, algum ressentimento.
Eu não ponho as coisas nesses cumes morais. Mais chãmente, direi que o Dr. Barroso e restante governo me aborreciam já bastante e, por mim julgando, ao resto da população, pelo que acho natural que o Dr. Barroso estivesse, também ele, já enfadado, tanto com o governo como connosco e que o aborrecimento, o tédio insalubre, o enfado justificam que ambos, Dr. Barrroso e povo português se despeçam mutuamente, fingindo apenas, por razões de conveniência e civilidade, algumas saudades à despedida. Talvez, até, num excesso de delicadeza, algum ressentimento.
Este blog apoia o Dr. Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro de Portugal por duas razões: é a primeira a esperança de uma política mais liberal, isto é, menos ferozmente estatista; a segunda o pensar que, em geral, a vida nacional será mais divertida, menos dormente.
P.S. Andam já para aí, nos canais de televisão, nos jornais, até mesmo em blogs respeitáveis e sérios a clamar por eleições. Calar-me-ia, se as eleiçoes de agora ainda fossem divertidas. Não o sendo, posso dizer o que me vai na alma: que, em situação idêntica, em Inglaterra, não se convocariam eleições, já que o governo terá apoio no parlamento. Se acham que aqui é necessário, em nome da democracia, que haja eleições, pensam, por isso, mal. E não venham com distinções - inexistentes - entre direito constitucional e legitimidade: a legitimidade não é outra, numa democracia, senão a que emana da constituição.
P.S. Andam já para aí, nos canais de televisão, nos jornais, até mesmo em blogs respeitáveis e sérios a clamar por eleições. Calar-me-ia, se as eleiçoes de agora ainda fossem divertidas. Não o sendo, posso dizer o que me vai na alma: que, em situação idêntica, em Inglaterra, não se convocariam eleições, já que o governo terá apoio no parlamento. Se acham que aqui é necessário, em nome da democracia, que haja eleições, pensam, por isso, mal. E não venham com distinções - inexistentes - entre direito constitucional e legitimidade: a legitimidade não é outra, numa democracia, senão a que emana da constituição.
sexta-feira, junho 25, 2004
Não gosto de futebol, já disse, creio ser portador de um qualquer defeito no gene do gregarismo e padecer de déficit no neurotransmissor que se encarrega das identificações e dos símbolos, mas ontem, Senhores, por via do suspense, reencontrei essas alegrias que vulgarmente me estão vedadas. Creio mesmo que deve ter ocorrido um desregulamento grave já que me lembro de uns murmúrios tímidos, mas convictos, dirigidos a S. António.
Seria injusto não saudar o fair play dos ingleses.
Para eles, estas "frozzen italian flowers" de Quinn, "scanned" no Tate.
Seria injusto não saudar o fair play dos ingleses.
Para eles, estas "frozzen italian flowers" de Quinn, "scanned" no Tate.
quarta-feira, junho 23, 2004
Vantagens da incultura, poder partilhar do optimismo de Vargas Llosa ao invés de soçobrar perante o pessimismo de Steiner expresso na entrevista que o Almocreve transcreve e provocou as reflexões tristes de um marinheiro no exílio. E, julgo eu, injustificadas, tais como as de Steiner, onde descubro mais depressa o francês desgostoso com o colapso do poderoso "star system" da indústria cultural gaulesa do que o cosmopolita (é interessante, aliás, que a propósito do orçamento da Universidade de Harvard, de que há pouco tempo li ser superior ao do conjunto das universidades francesas Steiner - erroneamente, ao que tudo leva a supor - refira o "conjunto das universidades europeias"...)
Eu não sei o que se publica em Vilnius ou em Nápoles mas não tenho motivo para pensar que seja menos bom do que soía e o que Steiner informa sobre Cambridge é deveras animador para qualquer continente de tamanho médio.
Que um francês se sinta triste não me parece totalmente descabido. Que um marxista ou filo-marxista ou adepto dos micro-filo-marxismos-post-qualquer-coisa franceses se sinta triste, idem (afinal, como diz Steiner: "Después de todo, ¡qué hermoso sueño representaba el marxismo!" E prossegue:"Cuando hoy me dicen que ese sueño conducía necesariamente al gulag, respondo que semejante interpretación es demasiado simple, vulgar..." - Pois sim, digo eu, viva a vulgaridade!).
Desatulhe-se a Europa da decadência da França e do marxismo e do "néantismo" franceses e (eu, pelo menos, aqui desta província, assim o sinto) o panorama não é desanimador: uma Europa livre de tiranias e de ditaduras, onde, pela primeira vez em muitos anos, se vive em liberdade. Decadência?
(Ora então em Cambridge estuda-se a teoria do todo... Não sabia... Mesmo sem cafés? Onde é que aquela gente pensa?)
Eu não sei o que se publica em Vilnius ou em Nápoles mas não tenho motivo para pensar que seja menos bom do que soía e o que Steiner informa sobre Cambridge é deveras animador para qualquer continente de tamanho médio.
Que um francês se sinta triste não me parece totalmente descabido. Que um marxista ou filo-marxista ou adepto dos micro-filo-marxismos-post-qualquer-coisa franceses se sinta triste, idem (afinal, como diz Steiner: "Después de todo, ¡qué hermoso sueño representaba el marxismo!" E prossegue:"Cuando hoy me dicen que ese sueño conducía necesariamente al gulag, respondo que semejante interpretación es demasiado simple, vulgar..." - Pois sim, digo eu, viva a vulgaridade!).
Desatulhe-se a Europa da decadência da França e do marxismo e do "néantismo" franceses e (eu, pelo menos, aqui desta província, assim o sinto) o panorama não é desanimador: uma Europa livre de tiranias e de ditaduras, onde, pela primeira vez em muitos anos, se vive em liberdade. Decadência?
(Ora então em Cambridge estuda-se a teoria do todo... Não sabia... Mesmo sem cafés? Onde é que aquela gente pensa?)
segunda-feira, junho 21, 2004
domingo, junho 20, 2004
sábado, junho 19, 2004
"A menos que se tenha muito dinheiro não vale a pena ser uma pessoa encantadora" avisa Oscar Wilde, mas daqui não se segue que, pobres, estejamos condenados à antipatia militante. Wilde apenas convida os mais pobres a serem "práticos e prosaicos". Não era uma maldição ontem e, hoje, a vitória das classes médias tornou aquelas qualidades quase conciliáveis: pode-se ser prático, prosaico e encantador, já que o "charme" - ou alguns elementos dele - se tornou um produto da classe média. Mas, tal como aqueles produtos mais acessíveis dos grandes joalheiros, o que se usa por aí não é "the real thing".
quinta-feira, junho 17, 2004
"Refletir"
Não sei se é pela leitura do português d'outre mer. O certo é que dou, hoje em dia, erros de palmatória que, há algum tempo, consideraria impensáveis. Preocupado, confidenciei o medo de uma Alzheimer a pessoa proba, douta e de rigorosa ortografia. Fiquei siderado com a resposta: "também a mim, também a mim acontece" e atribuiu a proprensão para o dislate às telenovelas, à legendagem, aos jornais, todos eles de tal modo repletos de calinadas que é difícil evitar a má influência.
Seja. Mas não deixa de ser humilhante, para qualquer pessoa que concluiu a antiga qurta classe na escola primária, aluno de zero erros a ditado, esta conspurcação ortográfica. Lembro-me de uma vez ter escrito "gaz" por gás. Quando vi marcado o erro, protestei, mantive que se escrevia com "z". Era com "s". Mas a origem do erro era nobilíssima: era a grafia que tinha visto nas velhas edições de Eça. Explicado o erro, não deixei de ser admoestado e aconselharam-me cuidado com as grafias antigas.
E, agora, escrevo "refletido" e só dou conta da asneira um dia depois...
Não sei se é pela leitura do português d'outre mer. O certo é que dou, hoje em dia, erros de palmatória que, há algum tempo, consideraria impensáveis. Preocupado, confidenciei o medo de uma Alzheimer a pessoa proba, douta e de rigorosa ortografia. Fiquei siderado com a resposta: "também a mim, também a mim acontece" e atribuiu a proprensão para o dislate às telenovelas, à legendagem, aos jornais, todos eles de tal modo repletos de calinadas que é difícil evitar a má influência.
Seja. Mas não deixa de ser humilhante, para qualquer pessoa que concluiu a antiga qurta classe na escola primária, aluno de zero erros a ditado, esta conspurcação ortográfica. Lembro-me de uma vez ter escrito "gaz" por gás. Quando vi marcado o erro, protestei, mantive que se escrevia com "z". Era com "s". Mas a origem do erro era nobilíssima: era a grafia que tinha visto nas velhas edições de Eça. Explicado o erro, não deixei de ser admoestado e aconselharam-me cuidado com as grafias antigas.
E, agora, escrevo "refletido" e só dou conta da asneira um dia depois...
quarta-feira, junho 16, 2004
O deputado Paulo Pedroso afirmou: «Apenas peço uma coisa ao sistema de justiça, que este sofrimento tenha algum sentido e se reflicta numa melhoria para o futuro de modo a que outras pessoas não passem pelo mesmo»
Conviria que o senhor deputado também reflectisse e propusesse, como pode e deve, a reforma urgente do código de processo penal.
Conviria que o senhor deputado também reflectisse e propusesse, como pode e deve, a reforma urgente do código de processo penal.
Num hospital de província o adolescente aborrecido contempla os 4 ou 5 dias que ainda tem de lá permanecer. Alguém sugere que veja televisão. Há uma televisão no serviço, doada aos doentes pela Liga de Amigos do Hospital. A televisão, porém, está no gabinete das enfermeiras, que objectam à sua utilização por um doente, que precisam dela, dizem. Acabam por contemporizar, se for por pouco tempo.
O fundo do poço.
O fundo do poço.
Referia-me um expatriado, apanhado em pleno pecado de visita ao torrão pátrio, que não se lembrava já da enorme quantidade de palavrões audível aqui em qualquer local público.
"Mesmo em NY?" - perguntei eu. Que nem mesmo em NY, ou Los Angeles.
Foi isto no Domingo à tarde, zumbia o calor e o tédio. Deu-me para pasmar mas nem o pasmo me aliviou das inclemências da estiagem e de ter de as sofrer aqui, no fundo do poço da civilidade mundial. Rai's partam a caloraça.
"Mesmo em NY?" - perguntei eu. Que nem mesmo em NY, ou Los Angeles.
Foi isto no Domingo à tarde, zumbia o calor e o tédio. Deu-me para pasmar mas nem o pasmo me aliviou das inclemências da estiagem e de ter de as sofrer aqui, no fundo do poço da civilidade mundial. Rai's partam a caloraça.
domingo, junho 13, 2004
Declaração de princípio, meio e fim
Não gosto de futebol, nunca gostei, creio que nunca virei a gostar e muito menos fingirei que gosto.
Não gosto.
Julgo o actual campeonato em Portugal, nos moldes em que foi organizado, uma aberração de uma prodigiosa ( e pródiga) insensatez.
Que a equipe da federação portuguesa de futebol perca ou ganhe é-me indiferente, ou quase indiferente: quando perde há menos barulho, menos ululância sebastianista, e eu gosto de sossego. Acabo por preferir, por esse motivo, que não ganhe.
Tempos houve, de maior ingenuidade minha, em que, fiado no poder da humilhação, teria esperança que as derrotas levassem a um arrepiar de caminho, à recuperação de juízo.
Agora, apenas quero paz e sossego.
Não gosto de futebol, nunca gostei, creio que nunca virei a gostar e muito menos fingirei que gosto.
Não gosto.
Julgo o actual campeonato em Portugal, nos moldes em que foi organizado, uma aberração de uma prodigiosa ( e pródiga) insensatez.
Que a equipe da federação portuguesa de futebol perca ou ganhe é-me indiferente, ou quase indiferente: quando perde há menos barulho, menos ululância sebastianista, e eu gosto de sossego. Acabo por preferir, por esse motivo, que não ganhe.
Tempos houve, de maior ingenuidade minha, em que, fiado no poder da humilhação, teria esperança que as derrotas levassem a um arrepiar de caminho, à recuperação de juízo.
Agora, apenas quero paz e sossego.
Dia de Santo António de Lisboa
Santo e Doutor da Igreja
Responso
Se milagres desejais
Recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais
Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido
Todos os males humanos
Se moderam, se retiram
Digam-no aqueles que o viram
E digam-no os paduanos
Recupera-se o perdido...
Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são
Recupera-se o perdido...
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo
Recupera-se o perdido...
Rogai por nós, Santo António
Podíamos pedir a Santo António que nos encontrasse o juízo, mas creio que até para o Taumaturgo seria tarefa difícil.
Santo e Doutor da Igreja
Responso
Se milagres desejais
Recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais
Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido
Todos os males humanos
Se moderam, se retiram
Digam-no aqueles que o viram
E digam-no os paduanos
Recupera-se o perdido...
Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são
Recupera-se o perdido...
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo
Recupera-se o perdido...
Rogai por nós, Santo António
Podíamos pedir a Santo António que nos encontrasse o juízo, mas creio que até para o Taumaturgo seria tarefa difícil.
sexta-feira, junho 11, 2004
quinta-feira, junho 10, 2004
Camões dirige-se aos seus contemporâneos
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
domingo, junho 06, 2004
O presidente de França declarou-a, nas cerimónias do Dia D, "éternelle et combatante"
Fica-se a saber que o laicismo republicano crê na vida eterna. Crendices laicas...
Quanto ao "combatante", não deixei de me deliciar: se a republique française não tivesse capitulado, sem combate e sem honra, perante as tropas alemãs, talvez o "dia D" nunca tivesse sido necessário.
Fica-se a saber que o laicismo republicano crê na vida eterna. Crendices laicas...
Quanto ao "combatante", não deixei de me deliciar: se a republique française não tivesse capitulado, sem combate e sem honra, perante as tropas alemãs, talvez o "dia D" nunca tivesse sido necessário.
sábado, junho 05, 2004
Durante semanas acumulei em cima de uma cadeira livros, muita correspondência e papelada anónima que fui prometendo a mim mesmo arrumar. Ontem, tudo desabou. Há agora, no chão, um monte de papelada (em parte oculta por um sofá). Tempos atrás seria este o sinal para começar, de imediato, a metódica arrumação de tudo. Desta vez, porém, o pequeno montículo eriçado de caos impresso lá continua. Devo ter ultrapassado uma qualquer barreira moral, perdido que foi, sem me aperceber, um último escrúpulo. Que abismo invoco?
terça-feira, junho 01, 2004
segunda-feira, maio 31, 2004
A pretexto dos malefícios do tabaco vem aí mais legislação limitadora dos direitos dos que fumam, em nome da saúde dos que não fumam.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.
sábado, maio 29, 2004
Descobri, nos últimos anos, meia dúzia de coisas definitivas: a ária "Eternal source of light divine" do Händel, o Ice Tea Green da Lipton, as colónias inglesas do .... (informação não divulgável), Sir Isaiah Berlin (opera omnia) e esqueci uma quantidade de outras coisas definitivas que tinha descoberto em idades mais verdes, o que não deixou de ser, a seu modo, uma descoberta interessante, um troço palpável de matéria assente. Se tivesse coragem de tirar desta última todas as ilações que dela tranquilamente decorrem, descobriria que se pode viver com muito pouco e seria um candidato plausível à disciplina da aurea mediania. Infelizmente, porém, prevalece em mim o culto pela bugiganga.
sexta-feira, maio 28, 2004
quinta-feira, maio 27, 2004
Carminum 2,10
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
quarta-feira, maio 26, 2004
"Linkaram" o Impensável o Blog de Alex, o Life is just another game o Do Portugal Profundo e o Cinema Xunga 2.
O Impensável agradece.
O Impensável agradece.
terça-feira, maio 25, 2004
Por Europa e por crismas (perdõe-se-me se ofender o espírito laico) de tratados em "constituições", vem-me à memória o que ouvi, no outro dia, com delícia, o Dr. Mário Soares dizer sobre o futuro da Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
O governo socialista espanhol não concorda com a referência ao cristianismo, enquanto uma das raízes da cultura europeia, no novo tratado europeu, por pôr em causa a laicidade...
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
Há 1269 anos, em 25 de Maio de 735, morria em Jarrow, Inglaterra, S. Beda, o Venerável, um dos grandes Santos da Igreja e da minha particular devoção.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
segunda-feira, maio 24, 2004
Escreve, a propósito de D. Duarte, Oliveira Martins n'"Os filhos de D. João I": "A literatura tem este defeito inerente; toma a nuvem por
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
domingo, maio 23, 2004
Entro aqui e deparo com o post anterior e não deixo de me espantar um pouco.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
quinta-feira, maio 20, 2004
Tente-se mandar fazer alguma coisa: arranjar um vidro partido, uma janela, qualquer coisa da casa de banho e pasme-se, meditabunde-se, sobre a fonte de humilhações, aflições e canseiras que essa ambições comedida é: primeiro, surgem os orçamentos 60 mm, som stereo, tecnhicolor, que exigem de nós o trabalho imenso - e é um trabalho imenso - de explicar que não se pretende reeditar Cleopatra, ou pelo menos, parte do cenário, que estavamos mais a pensar num 16 mm, P&B, intimista. Desaparece, nesta altura, grande parte dos pretendentes. Descobriremos, mais tarde, que não eram os piores, que os que ficaram são os verdadeiros killers, dotados de um infalível instinto assassino, mas acobertado sob uma capa de bom senso e de compreensão.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
quarta-feira, maio 19, 2004
No Abrupto encontrei um poema de Anne de Noialles e esta tarde que ia plácida e sem rumo por entre o calor (que, helàs! não é um puro calor de Maio, mais súbtil e brando que este que faz), zarpou (pega-se numa metáfora inicial e vá de a esgotar até à náusea, procurando "efeitos": assim se escreve mal), retire-se o zarpou, e enfim, o que queria dizer é que me pus a pensar no triste destino da culture française, isto é, parisiense e que, tirando o côté jacobino, é aristocrática, elitista e, por razões de geografia, cosmopolita. Hoje, que Paris não é o já o centro do mundo, le lieu à rendez-vous (honis soyt...)da inteligência, as Viscondessas de Noialles desprovidas de Bunuels e as Condessas de Grefulhes/Guermantes sem Prousts a quem expliquem as relações necessárias do amor a propósito da polinização de uma solitária planta no seu jardim são impossibilidades civilizacionais, luxos incomportáveis.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
terça-feira, maio 18, 2004
sexta-feira, maio 14, 2004
Comecei a ler a notícia, naquele apressado e desatento ler matinal, e julguei que se tratava de um excêntrico francês (espécie rara, a excentricidade francesa deve ser previamente licenciadada e homologada por uma qualquer autoridade, seja ela um comité anarca-libertário, ou uma senhora da moda). Mas a notícia em si, ou melhor o seu começo, levava-me a crer ser obra de um excêntrico: tratava-se de uma acção (civil? penal?)contra o exército britânico. Pensei, de imediato, que se tratava de alguma queixa mirabolante e divertida relacionada com estragos provocados por aquele exército quando desembarcou em França, a 6 de Junho de 1944, nas praias da Normandia, e que o queixoso fosse um esteta do arame farpado, um saudosista da colaboração ou do anti-semitismo. Preparava-me para gozar a situação quando o corpo da notícia me desiludiu: a queixa do francês dizia respeito ao Iraque e aos alegados maus tratos infligidos pelo exército britânico aos iraquianos.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
quarta-feira, maio 12, 2004
O Doi-me, um blog hipocondríaco, linkou o Impensavel, que agradece.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Já tinha ouvido falar dela e em 1974 li, em viagem, uma biografia. "Ela" é Lou Andreas Salomé e creio que foi a última das minhas paixões "literárias" adolescentes. Ao folhear, ontem, uma outra edição, encontro um excerto do diário:
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
segunda-feira, maio 10, 2004
domingo, maio 09, 2004
O Mar Salgado faz um ano.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
Ontem, dia 8, foi o aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa, com a vitória dos exércitos aliados sobre os da Alemanha.
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
quarta-feira, maio 05, 2004
Abril águas mil e não choveu quase, mas é motivo para estes dias plúmbeos em Maio, ademais sem trovoadas, cinza e chuva "tout court"? Não é.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
segunda-feira, maio 03, 2004
Mea culpa
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Ontem, Domingo, vi, por acaso, parte de uma entrevista dada pelo Dr. João Salgueiro a duas senhoras mal humoradas. O problema, contudo, não é o mau humor das senhoras, mas a inépcia e mediocridade reveladas.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
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