terça-feira, julho 13, 2004

O meu comentário ao texto de Maîstre não se coaduna com a gravidade do assunto. Mantive-o por uma questão de respeito às pessoas que, de vez em quando, lêem este blog e porque o tédio é uma força poderosa, afinal.
No entanto convém esclarecer que Maîstre não é um escritor "pitoresco" e "divertido" pelas suas "enormdidades" (tudo entre aspas, sim). O fundamental da tese de Berlin, explanada em "Joseph de Maîstre and the origins of fascism", é a de que Maîstre não é o último homem da ordem velha, mas o primeiro de uma nova era - a nossa - e que o seu pensamento contém em germe a teorização do totalitarismo tal como veio existir no sec. XX - e que nada nos garante não virá a existir de novo.
Esclarecimento feito
De Maîstre li pouco: "Les considerations sur la France". Quando resolvi comprar "Les soirées de Saint-Pétersbourg" recuei perante o tamanho da obra - e preço (encontrei uma parte substancial publicada "on line" mas detesto ler no "écran"). Sobre Maîstre li, essencialmente, o que escreveu Berlin.
Ontem encontrei, transcrito por Sir Isaiah, um dos mais sombrios, ferozes e belos textos de Maîstre:
"...Cependant quel être [dans le carnage permanent] exterminera celui qui les extermine tous? Lui. C'est l'homme qui est chargé d'égorger l'homme... Ainsi s'accomplit... la grande loi de la destruction violente des êtres vivants. La terre entière, continuellement imbibée de sang, n'est qu'un autel immense où tout ce qui vit doit être immolé sans fin, sans mesure, sans relâche, jusqu'a consommation des chôses, jusqu'à l'extinction du mal, jusqu'à la mort de la mort"

Um grande texto contra o tédio que, infelizmente, parece ser um desagradável efeito secundário das boas intenções bem sucedidas. Aliás, a única fraqueza do texto é essa: é, também ele, bem intencionado. Sobrevive a essa mácula, contudo, e o terror do homem entregue ao seu tenebroso destino não deixa de estar magnificamente descrito, de provocar, mesmo hoje, algum medo. Diria, um sadio medo.
Link
O Último Urinol "linkou" o impensavel, que agradece.

segunda-feira, julho 12, 2004

Encontro no "Freedom and its Betrayal" de Berlin, a pergunta fundamental da filosofia politica: "Why should anyone obey anyone else?".
Creio que pouca gente pensou, em Portugal, nesta questão: os programas escolares do ensino secundário não a levantam, como apurei num breve inquérito: das respostas de alguns alunos mais aplicados pude perceber que consideravam a questão histórica, resolvida, colocam-na num passado nebuloso. A resposta não dita à pergunta, mas por mim pressentida era a de "por que sim" a par com algumas considerações também elas históricas...
Creio, por isso, que muita gente chegará a cargos importantes (governo, magistratura) sem, verdadeiramente, ter pensado nesta questão central.
E daí progridem, por defeito, de omissão em omissão pensadora.

domingo, julho 11, 2004

Na pilha de livros para arrumar, as "Cenas da Vida portuguesa" de Maria Filomena Mónica. Ao pegar no livro, lembro-me de uma afirmação sobre a política salazarista. Vou à procura e encontro-a sem dificuldades, logo no capítulo I, os "Trinta anos que mudaram Portugal". Transcrevo: "Durante as primeiras décadas do seu consulado, Salazar fechou o País ao exterior, tentando moldá-lo de acordo com os seus ideais. A intervenção do Estado na sociedade aumentou de tal forma que alguns estudiosos do período têm dificuldades em aceitar o regime como pertencendo à família capitalista(itálico impensável)."
Conviria não esquecer este forte intervencionismo estatal. Entre este, patriarcal e paternalista, e o preconizado pelos socialismos (que tem como corolário a demonização do "liberalismo", tido como "selvagem" - seria interessante dissecar o uso deste termo), o istmo de liberdade é, ainda hoje, uma estreita língua de terra pouco firme e ameaçada: é que desde Salazar até hoje há fios condutores que permaneceram. Um deles, é um profunda desconfiança pelo povo, que não é, nunca, de fiar. Veja-se, v.g., a lei dos partidos políticos e a tão ilustrativa história do instituto do referendo: dir-se-ia que a emergência política da classe média, operada com o 25 de Abril, apenas democratizou, em Portugal, o profundo cepticismo do ditador.
Talvez, agora, com a "Europa", a influência de modelos de comportamento estrangeiros, veículada pelos "mass media" uma segunda geração comece a sentir curiosidade por algo que em Portugal nunca existiu: um estado pequeno, esquecido das suas glórias imperiais, "moderno" e funcional, sem preocupações escatológicas.
Desde que essa geração prescinda, é claro, de querer que ele, o estado, empregue aquele primo que, coitado, é bom rapaz e precisa mais do que os outros de um emprego, ou que renuncie ao subsídio estatal para pôr em práica aquela ideia que se, tão útil e que, já sabe, neste país, ninguém apoia.

sexta-feira, julho 09, 2004

Correio. Os livros encomendados na amazom.co.uk., um deles já lido, os outros que tinha anotado há uns tempos e de que depois me esquecera de encomendar. O já lido é o "Freedom and its betrayal", de Sir Isaiah Berlin. Releio, com alguma gula, o começo do ensaio sobre Hegel: "Off all the ideas that originated during the period which I am discussing, the Hegelian system has perhaps had the greatest influence on contemporary thought. It is a vast mythology wich, like many other mythologies, has great powers of illumination as well as great powers of obscuring whatever it touches".
Dos esquecidos , o "The view from nowhere" de Thomas Nagel. A clareza é quase humilhante para qualquer leitor continental e português em particular:"This book is about a single problem: how to combine the perspective of a particular person inside the world with an objective view of the same world, the person and his viewpoint included".
O "How Proust can change your life" do Alain de Botton, assim mesmo, traduzido em inglês - não é snobismo ou anti francesismo doentio: foi mera distracção - deixa-me esperançado: o capítulo 4 intitula-se: "how to suffer sucessfully"

Que manhã perfeita foi a de hoje! Amena e límpida, passou risonhamente, muito azul e calma.
Quando leio ou oiço falar do "regresso à vidinha", como se da execução de uma pena se tratasse, não deixo de me admirar com o efeito oclusivo das concepções heróicas da vida. Não vêem estas manhãs perfeitas? É a vidinha...

quinta-feira, julho 08, 2004

E ele, o iniciado nos mistérios da Pina Colada não gosta apenas do "professor". Lê, no emprego, também, o "blog do doutor".
Habitual volta de depois de almoço pelos blogs. No Abrupto, o elogio do centro - o que é, afinal, sobre que geometria repousa? - alguns processos de intenção em relação ao possível governo liderado por Santana Lopes, o alerta para a ingenuidade de quem espera políticas liberais. Não é o meu caso, que me limito a esperar, muito ao de leve, menos ferocidade estatista (e não para já...).
O que não compreendo é o apego pelo "centro" - ou pela governação ao dito. Não lhe conheço outra virtude senão a perpetuação, em sossego, - e para sossego de quem governa - da incapacidade de "modernização", de resolver problemas. A obra do "centro" tem consistido em tornar suportável, atráves de uma difusão pardacenta de culpas e responsabilidades, a tensão entre imaginários de primeiro mundo e um quotidiano degradante de país atrasado que JPP se compraz em mostrar - numa reedição de uma calçada de carriche narcotizada por passagens desniveladas e "acessibilidades".
"Eles que resolvam lá o assunto entre eles", diz a sua Luísa outra banda: e resolvem. Ao centro, no centro da impunidade. Direi mesmo que o medo principal "deles" é que mais alguém queira resolver, começando por pedir contas, perguntar "então como é que é?"
Eu, por exemplo, que votei no ilustre bloguista, não faço a mais pequena ideia do que fez no Parlamento europeu. De que comissões fez parte? Por que soluções propugnou nesta e naquela questão? Limitou-se a lamentar a "pobre Europa, esta"?
Quando deu contas aos seus eleitores do que lá fez? Talvez que, se der - e de um modo visível, que o eleitorado, já se sabe, é calaceiro - eu pense noutra coisa antes de ir para férias. Entre as releitura dos contos de Tchekov - faz no dia 15 cem anos que morreu - vagos projectos de visitar a casa de Churchill e quinze dias numa praia ventosa e fria prometo arranjar tempo para examinar o trabalho do meu insigne representante na UE. Não lhe prometo é suor.

quarta-feira, julho 07, 2004

Links
O "Nortadas" e o "Zé Aquilino Santos, o passageiro" linkaram o Impensavel, que agradece.
A lentidão: agora é o conselho de estado.
Aconselho que se siga tudo saboreando. É a nossa demoracia a funcionar. E não há motivos para que seja mais expedita do que uma qualquer repartição estatal, daquelas onde vivemos as alegrias da nossa modernização.
Leve-se tudo isto com um sorriso: o tempo está fresco e para quem não goste da nortada pela tarde, sempre é um entretém.
Assisto, divertido, ao espectáculo da lentidão. Mais do que "consensos", "atitudes reflectidas" "prudência" e outras loas prestamos culto à lentidão.
Nada de precipitações!

terça-feira, julho 06, 2004

De que ri? Não sei ao certo. Creio que do modo quase compulsivo como previlegiamos o acessório e o processual, de como criamos e alimentamos bizantinices e bizarrias. Constantinopla do ocidente, dicutimos tudo menos o essencial e o óbvio.
Hoje, ouvi, num noticiário, o Prof. Jorge Miranda explicar, com minúcia, que o Presidente tinha aceitado a demissão que o Dr. Durão Barroso lhe apresentara ontem.
Logo antes, ou logo depois, referências à comoção futebolística do Sr. Presidente, que choramingara, de novo.
E, de repente, dei comigo a rir, a rir com gosto, como me riria, creio, se com antecipada bonomia assistisse a uma rábula ensaiada no salão paroquial de qualquer recôndita freguesia.
Passado o ataque de hilaridade, fico, porém, com a sensação que o preço do bilhete é exagerado, mesmo estando imbuído de espírito humanitário, desejando ajudar. Posso estar errado: afinal, ainda não sei para que fins reverte a receita da récita.

segunda-feira, julho 05, 2004

Vento oes-noroeste, atlântico, lá de onde veio o nosso destino e, antes dele, já desesperavam donzelas por salvação.

"E cercarõ-mh as ondas do alto mar;
nõ ey barqueyro, nem sey remar!
eu atendend'o meu amigo!
eu atendend'o o meu amigo!"

sábado, julho 03, 2004

Ontem, Sophia de Mello Breyner morreu.

"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."

sexta-feira, julho 02, 2004

Prossegue a procissão para Belém e o Sr. Presidente a pensar, a pensar - sem pressas, como garantiu.
E neste bom-senso vagaroso, nesta demasia de sensatez, vislumbro apenas o "tempo lento" das liturgias demoradas de país rural, o selo do nosso atraso.
Sem querer ser desmancha-prazeres, algumas saudades dos verões anónimos, sem acontecimentos, a debandada das pessoas silenciosa, serena, não é depois de coisa alguma, vão sem efemérides, e as alegrias as da época.

quinta-feira, julho 01, 2004

Fontes bem informadas próximas de Belém afirmam que o Sr. Presidente, para decidir com cabal conhecimento de causa na actual "crise", tenciona ouvir, um por um, todos os portugueses. A notícia ainda não foi tornada pública por não se ter atinado com o método: serão ouvidos por ordem alfabética? Por nº de bilhete de identidade ou de contribuinte? E em ordem ascendente ou descendente? Há ainda quem alvitre que se siga a audição pelos códigos postais, o que permite facilitar a questão logística.
Todos os ouvidos pelo Sr. Presidente terão direito a prestarem declarações à televisão e imprensa escrita.

E se fosse mesmo uma crise?
Em "Um escritor confessa-se" Aquilino relata uma sua tentativa de evasão da cadeia em que estava detido. Tinha conseguido desaparafusar a velha fechadura do calabouço, mas, já fora da cela, as suas hesitações permitiram que fosse apanhado ainda antes de sair do recinto da esquadra.
O que se segue é o relato de uma conversa do escritor com um dos guardas.
Para completa compreensão do leitor se dirá que os guardas estavam no convencimento de que tudo se devera a um esquecimento - o que, depreendendo-se embora do texto, nunca será de mais vincar.
"-Sempre me pregou uma partida! Olhe que vou ter uma sindicância às costas!
- Não me diga, que me arranca o coração!
- O amigo, quando viu que eu lhe deixei a porta aberta, devia avisar-me. Meteu-se em copas. Não foi bonito, não foi!
- Só dei conta mais tarde, quando o senhor tinha acabado o plantão.
- Mas para que saiu cá para fora? Ganhava alguma coisa com isso? Ainda se ganhasse -e dizendo isto arrastou um olhar circular pelas quatro paredes do pátio (...).
- Apeteceu-me ir tomar ar ao pátio!...
- Pois não devia.A sua obrigação era, mal deu acordo que a porta estava aberta, chamar; se não a mim, ao meu colega, e avisar do descuido. A gente vem habituada lá da terra a nunca fechar as portas. Mas numa cai quem quer cai. Suponha que não havia muros, a cerca do Posto de Desinfecção, e lhe dava o demo para fugir hem?! Era a minha desgraça e sabe-se lá de quantos mais.
- Desculpe, eu ignorava de todos as consequências do meu acto irreflectido. Para outra vez, podem deixar a porta aberta que eu não arredo pé.
Foi-se a abanar a pobre cachola de estúpido, e eu volvi ao passeio(...)."

O que o Aquilino não se parece dar conta é quão demonstrativa é esta conversa da natureza do estado português: a exigência, aos cidadãos, de imperativos categóricos e todas as pragmáticas atenuantes para o estado, entre as quais a nossa conhecida "falta de meios" e as considerações humanitárias perante as ineficiências dos burocratas ou dos titulares dos cargos.
A situação, que já não era nova ao tempo do relato, mantém-se.