terça-feira, julho 06, 2004
Hoje, ouvi, num noticiário, o Prof. Jorge Miranda explicar, com minúcia, que o Presidente tinha aceitado a demissão que o Dr. Durão Barroso lhe apresentara ontem.
Logo antes, ou logo depois, referências à comoção futebolística do Sr. Presidente, que choramingara, de novo.
E, de repente, dei comigo a rir, a rir com gosto, como me riria, creio, se com antecipada bonomia assistisse a uma rábula ensaiada no salão paroquial de qualquer recôndita freguesia.
Passado o ataque de hilaridade, fico, porém, com a sensação que o preço do bilhete é exagerado, mesmo estando imbuído de espírito humanitário, desejando ajudar. Posso estar errado: afinal, ainda não sei para que fins reverte a receita da récita.
Logo antes, ou logo depois, referências à comoção futebolística do Sr. Presidente, que choramingara, de novo.
E, de repente, dei comigo a rir, a rir com gosto, como me riria, creio, se com antecipada bonomia assistisse a uma rábula ensaiada no salão paroquial de qualquer recôndita freguesia.
Passado o ataque de hilaridade, fico, porém, com a sensação que o preço do bilhete é exagerado, mesmo estando imbuído de espírito humanitário, desejando ajudar. Posso estar errado: afinal, ainda não sei para que fins reverte a receita da récita.
segunda-feira, julho 05, 2004
sábado, julho 03, 2004
Ontem, Sophia de Mello Breyner morreu.
"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."
sexta-feira, julho 02, 2004
quinta-feira, julho 01, 2004
Fontes bem informadas próximas de Belém afirmam que o Sr. Presidente, para decidir com cabal conhecimento de causa na actual "crise", tenciona ouvir, um por um, todos os portugueses. A notícia ainda não foi tornada pública por não se ter atinado com o método: serão ouvidos por ordem alfabética? Por nº de bilhete de identidade ou de contribuinte? E em ordem ascendente ou descendente? Há ainda quem alvitre que se siga a audição pelos códigos postais, o que permite facilitar a questão logística.
Todos os ouvidos pelo Sr. Presidente terão direito a prestarem declarações à televisão e imprensa escrita.
E se fosse mesmo uma crise?
Todos os ouvidos pelo Sr. Presidente terão direito a prestarem declarações à televisão e imprensa escrita.
E se fosse mesmo uma crise?
Em "Um escritor confessa-se" Aquilino relata uma sua tentativa de evasão da cadeia em que estava detido. Tinha conseguido desaparafusar a velha fechadura do calabouço, mas, já fora da cela, as suas hesitações permitiram que fosse apanhado ainda antes de sair do recinto da esquadra.
O que se segue é o relato de uma conversa do escritor com um dos guardas.
Para completa compreensão do leitor se dirá que os guardas estavam no convencimento de que tudo se devera a um esquecimento - o que, depreendendo-se embora do texto, nunca será de mais vincar.
"-Sempre me pregou uma partida! Olhe que vou ter uma sindicância às costas!
- Não me diga, que me arranca o coração!
- O amigo, quando viu que eu lhe deixei a porta aberta, devia avisar-me. Meteu-se em copas. Não foi bonito, não foi!
- Só dei conta mais tarde, quando o senhor tinha acabado o plantão.
- Mas para que saiu cá para fora? Ganhava alguma coisa com isso? Ainda se ganhasse -e dizendo isto arrastou um olhar circular pelas quatro paredes do pátio (...).
- Apeteceu-me ir tomar ar ao pátio!...
- Pois não devia.A sua obrigação era, mal deu acordo que a porta estava aberta, chamar; se não a mim, ao meu colega, e avisar do descuido. A gente vem habituada lá da terra a nunca fechar as portas. Mas numa cai quem quer cai. Suponha que não havia muros, a cerca do Posto de Desinfecção, e lhe dava o demo para fugir hem?! Era a minha desgraça e sabe-se lá de quantos mais.
- Desculpe, eu ignorava de todos as consequências do meu acto irreflectido. Para outra vez, podem deixar a porta aberta que eu não arredo pé.
Foi-se a abanar a pobre cachola de estúpido, e eu volvi ao passeio(...)."
O que o Aquilino não se parece dar conta é quão demonstrativa é esta conversa da natureza do estado português: a exigência, aos cidadãos, de imperativos categóricos e todas as pragmáticas atenuantes para o estado, entre as quais a nossa conhecida "falta de meios" e as considerações humanitárias perante as ineficiências dos burocratas ou dos titulares dos cargos.
A situação, que já não era nova ao tempo do relato, mantém-se.
O que se segue é o relato de uma conversa do escritor com um dos guardas.
Para completa compreensão do leitor se dirá que os guardas estavam no convencimento de que tudo se devera a um esquecimento - o que, depreendendo-se embora do texto, nunca será de mais vincar.
"-Sempre me pregou uma partida! Olhe que vou ter uma sindicância às costas!
- Não me diga, que me arranca o coração!
- O amigo, quando viu que eu lhe deixei a porta aberta, devia avisar-me. Meteu-se em copas. Não foi bonito, não foi!
- Só dei conta mais tarde, quando o senhor tinha acabado o plantão.
- Mas para que saiu cá para fora? Ganhava alguma coisa com isso? Ainda se ganhasse -e dizendo isto arrastou um olhar circular pelas quatro paredes do pátio (...).
- Apeteceu-me ir tomar ar ao pátio!...
- Pois não devia.A sua obrigação era, mal deu acordo que a porta estava aberta, chamar; se não a mim, ao meu colega, e avisar do descuido. A gente vem habituada lá da terra a nunca fechar as portas. Mas numa cai quem quer cai. Suponha que não havia muros, a cerca do Posto de Desinfecção, e lhe dava o demo para fugir hem?! Era a minha desgraça e sabe-se lá de quantos mais.
- Desculpe, eu ignorava de todos as consequências do meu acto irreflectido. Para outra vez, podem deixar a porta aberta que eu não arredo pé.
Foi-se a abanar a pobre cachola de estúpido, e eu volvi ao passeio(...)."
O que o Aquilino não se parece dar conta é quão demonstrativa é esta conversa da natureza do estado português: a exigência, aos cidadãos, de imperativos categóricos e todas as pragmáticas atenuantes para o estado, entre as quais a nossa conhecida "falta de meios" e as considerações humanitárias perante as ineficiências dos burocratas ou dos titulares dos cargos.
A situação, que já não era nova ao tempo do relato, mantém-se.
quarta-feira, junho 30, 2004
Mais dois lamentos de JPP. Comecemos pelo segundo: JPP teme que nos encontremos na cozinha. Creio tratar-se de uma doce ilusão. A cozinha é um lugar de criação, lugar benfazejo, morada dos Lares. Há muito que aí não estamos. Expulsos da cozinha como Adão o foi do paraíso (embora por motivos opostos) vivemos as tristezas da copa, esse terrível "no land".
No primeiro lamento, acusa o populismo que se alimenta do igualitarismo da sociedade portuguesa. Não é assunto novo. O igualitarismo português tem, no entanto, particularidades interessantes. Uma delas é coexistir, melhor, quase supor o respeitinho pelas classes elevadas (se não é que perversamente se alimenta dele);
outra, muito peculiar, o ser usado de "cima", "populistamente", em promessas de ascensão do "povo" aos benefícios da respeitabilidade (é o caso do português novo de Cavaco, do português - ou do Portugal - respeitado lá fora no qual "todos" participaríamos, o que não é menos incitação igualitária e populista que qualquer outra); por outro lado, ainda, o respeitinho luso percorre a sociedade transversalmente, encontrado-se onde menos se espera, e em cada um de nós, tomando algumas formas de notável sofisticação. Um exemplo? Os apelos às cumplicidades contemplativas perante supostas iconoclastias.
No primeiro lamento, acusa o populismo que se alimenta do igualitarismo da sociedade portuguesa. Não é assunto novo. O igualitarismo português tem, no entanto, particularidades interessantes. Uma delas é coexistir, melhor, quase supor o respeitinho pelas classes elevadas (se não é que perversamente se alimenta dele);
outra, muito peculiar, o ser usado de "cima", "populistamente", em promessas de ascensão do "povo" aos benefícios da respeitabilidade (é o caso do português novo de Cavaco, do português - ou do Portugal - respeitado lá fora no qual "todos" participaríamos, o que não é menos incitação igualitária e populista que qualquer outra); por outro lado, ainda, o respeitinho luso percorre a sociedade transversalmente, encontrado-se onde menos se espera, e em cada um de nós, tomando algumas formas de notável sofisticação. Um exemplo? Os apelos às cumplicidades contemplativas perante supostas iconoclastias.
terça-feira, junho 29, 2004
Eça dizia, a propósito do DN da época, e cito de memória, que era um jornal de uma mediocridade (ou imbecilidade) meticulosa e grave.
É de crer que o jornal condissesse com o país, já que ainda hoje temos a paixão do sisudo, do sorumbático, do macambúzio que confundimos com "gravidade" ou "profundidade".
E, também, ainda hoje, prestamos culto ao agir meticuloso, em que se expressa um receio atávico, rural, pela mudança substancial (ao invés, das adjectivas e acessórias gostamos e com tal ferocidade que desde organismo estatal ao mais recôndito beco, tudo vai mudando - de nome). Mas mudar mesmo, não queremos, pelo medo saloio de que as coisas se "desarranjem": somos um país "não mexas aí que se pode partir"
O resultado de tais desvelos, não é, porém, animador: de homem de estado grave e ponderado em homem de estado grave e ponderado, de grandes competências em grandes competências, de solução sensata e consensual em solução sensata e consensual chegámos a uma notável estabilidade na cauda da Europa.
E, parece, aqui queremos ficar, com afinco e determinação.
Seria, por isso, a altura de mudarmos de método.
Isto não quer dizer, claro está (claro está, ou não fosse eu português) que não haja pessoas totalmente inconvenientes para este ou aquele cargo (é, aliás isso, pessoas inconvenientes, que a julgar pelos resultados, temos tido habitualmente). O que quero vincar é o medo que se eleva até à grita perante a possibilidade de estar a mesmice em perigo. Mesmo que apenas ao de leve, muito ao de leve.
É de crer que o jornal condissesse com o país, já que ainda hoje temos a paixão do sisudo, do sorumbático, do macambúzio que confundimos com "gravidade" ou "profundidade".
E, também, ainda hoje, prestamos culto ao agir meticuloso, em que se expressa um receio atávico, rural, pela mudança substancial (ao invés, das adjectivas e acessórias gostamos e com tal ferocidade que desde organismo estatal ao mais recôndito beco, tudo vai mudando - de nome). Mas mudar mesmo, não queremos, pelo medo saloio de que as coisas se "desarranjem": somos um país "não mexas aí que se pode partir"
O resultado de tais desvelos, não é, porém, animador: de homem de estado grave e ponderado em homem de estado grave e ponderado, de grandes competências em grandes competências, de solução sensata e consensual em solução sensata e consensual chegámos a uma notável estabilidade na cauda da Europa.
E, parece, aqui queremos ficar, com afinco e determinação.
Seria, por isso, a altura de mudarmos de método.
Isto não quer dizer, claro está (claro está, ou não fosse eu português) que não haja pessoas totalmente inconvenientes para este ou aquele cargo (é, aliás isso, pessoas inconvenientes, que a julgar pelos resultados, temos tido habitualmente). O que quero vincar é o medo que se eleva até à grita perante a possibilidade de estar a mesmice em perigo. Mesmo que apenas ao de leve, muito ao de leve.
Ontem, segunda-feira, dia de TLS.
Leio no artigo de Robert Skidelsky sobre o "Decline of the public" de Marquand: "One of Marquand’s favourite paradoxes –and he does tend to multiply his paradoxes – is that the project of privatizing economic life demanded an increase in central control, since, apart from the need to regulate the privatized utilities, a considerable re-engineering of social attitudes was required to adapt the population to the needs of a competitive market economy"
Paradoxo aparente? Peço ajuda ao pensador liberal do Blasfémias.
Leio no artigo de Robert Skidelsky sobre o "Decline of the public" de Marquand: "One of Marquand’s favourite paradoxes –and he does tend to multiply his paradoxes – is that the project of privatizing economic life demanded an increase in central control, since, apart from the need to regulate the privatized utilities, a considerable re-engineering of social attitudes was required to adapt the population to the needs of a competitive market economy"
Paradoxo aparente? Peço ajuda ao pensador liberal do Blasfémias.
Vi os telejornais. Sensação de"déjà vu" hipotético: o "Yes, Prime Minister" mas em adaptação venezuelo-mexicano-colombiana. Seria assim, isto que estamos a viver.
segunda-feira, junho 28, 2004
Aos senhores leitores que vêm do Bomba Inteligente:
V. Exias. vêm enganados, não é aqui. O destaque da Bomba Inteligente é para o impensavel e impensado mas termos abstractos, problemas filosóficos.
Este blog chama-se impensável por ter sido criado sem pensar e dizer nele coisas o seu autor que não diria se pensar fosse um hábito seu.
O impensavel indicado pelo Bomba é mais além.
Muito obrigado.
V. Exias. vêm enganados, não é aqui. O destaque da Bomba Inteligente é para o impensavel e impensado mas termos abstractos, problemas filosóficos.
Este blog chama-se impensável por ter sido criado sem pensar e dizer nele coisas o seu autor que não diria se pensar fosse um hábito seu.
O impensavel indicado pelo Bomba é mais além.
Muito obrigado.
domingo, junho 27, 2004
Pobre país
Que não exista no PSD, partido já com 30 anos - muitos deles passados no poder - um comité, ou comissão, formal ou informal, que de uma forma expedita se pronuncie, discreta, rápida, eficazmente, sobre a sucessão do primeiro-ministro, sabendo-se que por motivos felizes ou infelizes, pode ser sempre necessário, de um momento para o outro, fazê-lo; que parte do país - e do PSD, diz-se - esteja suspensa dos "comentários" do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a proferir no seu programa televisivo, ou que Pacheco Pereira, um indigitado embaixador de Portugal, use o seu blog para queixumes e recados sobre o assunto primo-ministerial, como um qualquer adolescente amuado com questões escolares, eis o que é de estarrecer.
Estão a ver isto em países de gente crescida, em França, na Alemanha, para não falar já da Grá-Bretanha?
Que não exista no PSD, partido já com 30 anos - muitos deles passados no poder - um comité, ou comissão, formal ou informal, que de uma forma expedita se pronuncie, discreta, rápida, eficazmente, sobre a sucessão do primeiro-ministro, sabendo-se que por motivos felizes ou infelizes, pode ser sempre necessário, de um momento para o outro, fazê-lo; que parte do país - e do PSD, diz-se - esteja suspensa dos "comentários" do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, a proferir no seu programa televisivo, ou que Pacheco Pereira, um indigitado embaixador de Portugal, use o seu blog para queixumes e recados sobre o assunto primo-ministerial, como um qualquer adolescente amuado com questões escolares, eis o que é de estarrecer.
Estão a ver isto em países de gente crescida, em França, na Alemanha, para não falar já da Grá-Bretanha?
sábado, junho 26, 2004
Novos links
Linkaram o Impensável, que agrade, o Olympic Champ, o Covarde, o Um dia na vida de e o Xicuembo.
Linkaram o Impensável, que agrade, o Olympic Champ, o Covarde, o Um dia na vida de e o Xicuembo.
De resto... enquanto as classes médias portuguesas virem no estado - que as ajudou a criar, é verdade, e, em grande parte, as sustenta - a solução dos seus problemas (e um dos problemas mais temidos é a modernização, o modelo lá de fora, da UE que se ama e mais se receia) não creio que nomes influenciem muito. Não vale a pena, por isso, tantos medos com o Dr. Santana Lopes. A possibilidade de ele começar uma lenta revolução é diminuta. Vai tudo continuar como dantes, num funcionamento "nominal" que satisfaz os orgulhos pátrios mas com a insuficiência necessária para não incomodar demasiado.
O Doutor Vasco Pulido Valente - já on line, a crónica de hoje, sábado - insinua que o Dr. Durão Barroso demonstrará, a aceitar o lugar europeu, pouca consideração pelos portugueses e, em última instância, por si mesmo, já que não honra compromissos.
Eu não ponho as coisas nesses cumes morais. Mais chãmente, direi que o Dr. Barroso e restante governo me aborreciam já bastante e, por mim julgando, ao resto da população, pelo que acho natural que o Dr. Barroso estivesse, também ele, já enfadado, tanto com o governo como connosco e que o aborrecimento, o tédio insalubre, o enfado justificam que ambos, Dr. Barrroso e povo português se despeçam mutuamente, fingindo apenas, por razões de conveniência e civilidade, algumas saudades à despedida. Talvez, até, num excesso de delicadeza, algum ressentimento.
Eu não ponho as coisas nesses cumes morais. Mais chãmente, direi que o Dr. Barroso e restante governo me aborreciam já bastante e, por mim julgando, ao resto da população, pelo que acho natural que o Dr. Barroso estivesse, também ele, já enfadado, tanto com o governo como connosco e que o aborrecimento, o tédio insalubre, o enfado justificam que ambos, Dr. Barrroso e povo português se despeçam mutuamente, fingindo apenas, por razões de conveniência e civilidade, algumas saudades à despedida. Talvez, até, num excesso de delicadeza, algum ressentimento.
Este blog apoia o Dr. Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro de Portugal por duas razões: é a primeira a esperança de uma política mais liberal, isto é, menos ferozmente estatista; a segunda o pensar que, em geral, a vida nacional será mais divertida, menos dormente.
P.S. Andam já para aí, nos canais de televisão, nos jornais, até mesmo em blogs respeitáveis e sérios a clamar por eleições. Calar-me-ia, se as eleiçoes de agora ainda fossem divertidas. Não o sendo, posso dizer o que me vai na alma: que, em situação idêntica, em Inglaterra, não se convocariam eleições, já que o governo terá apoio no parlamento. Se acham que aqui é necessário, em nome da democracia, que haja eleições, pensam, por isso, mal. E não venham com distinções - inexistentes - entre direito constitucional e legitimidade: a legitimidade não é outra, numa democracia, senão a que emana da constituição.
P.S. Andam já para aí, nos canais de televisão, nos jornais, até mesmo em blogs respeitáveis e sérios a clamar por eleições. Calar-me-ia, se as eleiçoes de agora ainda fossem divertidas. Não o sendo, posso dizer o que me vai na alma: que, em situação idêntica, em Inglaterra, não se convocariam eleições, já que o governo terá apoio no parlamento. Se acham que aqui é necessário, em nome da democracia, que haja eleições, pensam, por isso, mal. E não venham com distinções - inexistentes - entre direito constitucional e legitimidade: a legitimidade não é outra, numa democracia, senão a que emana da constituição.
sexta-feira, junho 25, 2004
Não gosto de futebol, já disse, creio ser portador de um qualquer defeito no gene do gregarismo e padecer de déficit no neurotransmissor que se encarrega das identificações e dos símbolos, mas ontem, Senhores, por via do suspense, reencontrei essas alegrias que vulgarmente me estão vedadas. Creio mesmo que deve ter ocorrido um desregulamento grave já que me lembro de uns murmúrios tímidos, mas convictos, dirigidos a S. António.
Seria injusto não saudar o fair play dos ingleses.
Para eles, estas "frozzen italian flowers" de Quinn, "scanned" no Tate.
Seria injusto não saudar o fair play dos ingleses.
Para eles, estas "frozzen italian flowers" de Quinn, "scanned" no Tate.
quarta-feira, junho 23, 2004
Vantagens da incultura, poder partilhar do optimismo de Vargas Llosa ao invés de soçobrar perante o pessimismo de Steiner expresso na entrevista que o Almocreve transcreve e provocou as reflexões tristes de um marinheiro no exílio. E, julgo eu, injustificadas, tais como as de Steiner, onde descubro mais depressa o francês desgostoso com o colapso do poderoso "star system" da indústria cultural gaulesa do que o cosmopolita (é interessante, aliás, que a propósito do orçamento da Universidade de Harvard, de que há pouco tempo li ser superior ao do conjunto das universidades francesas Steiner - erroneamente, ao que tudo leva a supor - refira o "conjunto das universidades europeias"...)
Eu não sei o que se publica em Vilnius ou em Nápoles mas não tenho motivo para pensar que seja menos bom do que soía e o que Steiner informa sobre Cambridge é deveras animador para qualquer continente de tamanho médio.
Que um francês se sinta triste não me parece totalmente descabido. Que um marxista ou filo-marxista ou adepto dos micro-filo-marxismos-post-qualquer-coisa franceses se sinta triste, idem (afinal, como diz Steiner: "Después de todo, ¡qué hermoso sueño representaba el marxismo!" E prossegue:"Cuando hoy me dicen que ese sueño conducía necesariamente al gulag, respondo que semejante interpretación es demasiado simple, vulgar..." - Pois sim, digo eu, viva a vulgaridade!).
Desatulhe-se a Europa da decadência da França e do marxismo e do "néantismo" franceses e (eu, pelo menos, aqui desta província, assim o sinto) o panorama não é desanimador: uma Europa livre de tiranias e de ditaduras, onde, pela primeira vez em muitos anos, se vive em liberdade. Decadência?
(Ora então em Cambridge estuda-se a teoria do todo... Não sabia... Mesmo sem cafés? Onde é que aquela gente pensa?)
Eu não sei o que se publica em Vilnius ou em Nápoles mas não tenho motivo para pensar que seja menos bom do que soía e o que Steiner informa sobre Cambridge é deveras animador para qualquer continente de tamanho médio.
Que um francês se sinta triste não me parece totalmente descabido. Que um marxista ou filo-marxista ou adepto dos micro-filo-marxismos-post-qualquer-coisa franceses se sinta triste, idem (afinal, como diz Steiner: "Después de todo, ¡qué hermoso sueño representaba el marxismo!" E prossegue:"Cuando hoy me dicen que ese sueño conducía necesariamente al gulag, respondo que semejante interpretación es demasiado simple, vulgar..." - Pois sim, digo eu, viva a vulgaridade!).
Desatulhe-se a Europa da decadência da França e do marxismo e do "néantismo" franceses e (eu, pelo menos, aqui desta província, assim o sinto) o panorama não é desanimador: uma Europa livre de tiranias e de ditaduras, onde, pela primeira vez em muitos anos, se vive em liberdade. Decadência?
(Ora então em Cambridge estuda-se a teoria do todo... Não sabia... Mesmo sem cafés? Onde é que aquela gente pensa?)
segunda-feira, junho 21, 2004
domingo, junho 20, 2004
sábado, junho 19, 2004
"A menos que se tenha muito dinheiro não vale a pena ser uma pessoa encantadora" avisa Oscar Wilde, mas daqui não se segue que, pobres, estejamos condenados à antipatia militante. Wilde apenas convida os mais pobres a serem "práticos e prosaicos". Não era uma maldição ontem e, hoje, a vitória das classes médias tornou aquelas qualidades quase conciliáveis: pode-se ser prático, prosaico e encantador, já que o "charme" - ou alguns elementos dele - se tornou um produto da classe média. Mas, tal como aqueles produtos mais acessíveis dos grandes joalheiros, o que se usa por aí não é "the real thing".
quinta-feira, junho 17, 2004
"Refletir"
Não sei se é pela leitura do português d'outre mer. O certo é que dou, hoje em dia, erros de palmatória que, há algum tempo, consideraria impensáveis. Preocupado, confidenciei o medo de uma Alzheimer a pessoa proba, douta e de rigorosa ortografia. Fiquei siderado com a resposta: "também a mim, também a mim acontece" e atribuiu a proprensão para o dislate às telenovelas, à legendagem, aos jornais, todos eles de tal modo repletos de calinadas que é difícil evitar a má influência.
Seja. Mas não deixa de ser humilhante, para qualquer pessoa que concluiu a antiga qurta classe na escola primária, aluno de zero erros a ditado, esta conspurcação ortográfica. Lembro-me de uma vez ter escrito "gaz" por gás. Quando vi marcado o erro, protestei, mantive que se escrevia com "z". Era com "s". Mas a origem do erro era nobilíssima: era a grafia que tinha visto nas velhas edições de Eça. Explicado o erro, não deixei de ser admoestado e aconselharam-me cuidado com as grafias antigas.
E, agora, escrevo "refletido" e só dou conta da asneira um dia depois...
Não sei se é pela leitura do português d'outre mer. O certo é que dou, hoje em dia, erros de palmatória que, há algum tempo, consideraria impensáveis. Preocupado, confidenciei o medo de uma Alzheimer a pessoa proba, douta e de rigorosa ortografia. Fiquei siderado com a resposta: "também a mim, também a mim acontece" e atribuiu a proprensão para o dislate às telenovelas, à legendagem, aos jornais, todos eles de tal modo repletos de calinadas que é difícil evitar a má influência.
Seja. Mas não deixa de ser humilhante, para qualquer pessoa que concluiu a antiga qurta classe na escola primária, aluno de zero erros a ditado, esta conspurcação ortográfica. Lembro-me de uma vez ter escrito "gaz" por gás. Quando vi marcado o erro, protestei, mantive que se escrevia com "z". Era com "s". Mas a origem do erro era nobilíssima: era a grafia que tinha visto nas velhas edições de Eça. Explicado o erro, não deixei de ser admoestado e aconselharam-me cuidado com as grafias antigas.
E, agora, escrevo "refletido" e só dou conta da asneira um dia depois...
quarta-feira, junho 16, 2004
O deputado Paulo Pedroso afirmou: «Apenas peço uma coisa ao sistema de justiça, que este sofrimento tenha algum sentido e se reflicta numa melhoria para o futuro de modo a que outras pessoas não passem pelo mesmo»
Conviria que o senhor deputado também reflectisse e propusesse, como pode e deve, a reforma urgente do código de processo penal.
Conviria que o senhor deputado também reflectisse e propusesse, como pode e deve, a reforma urgente do código de processo penal.
Num hospital de província o adolescente aborrecido contempla os 4 ou 5 dias que ainda tem de lá permanecer. Alguém sugere que veja televisão. Há uma televisão no serviço, doada aos doentes pela Liga de Amigos do Hospital. A televisão, porém, está no gabinete das enfermeiras, que objectam à sua utilização por um doente, que precisam dela, dizem. Acabam por contemporizar, se for por pouco tempo.
O fundo do poço.
O fundo do poço.
Referia-me um expatriado, apanhado em pleno pecado de visita ao torrão pátrio, que não se lembrava já da enorme quantidade de palavrões audível aqui em qualquer local público.
"Mesmo em NY?" - perguntei eu. Que nem mesmo em NY, ou Los Angeles.
Foi isto no Domingo à tarde, zumbia o calor e o tédio. Deu-me para pasmar mas nem o pasmo me aliviou das inclemências da estiagem e de ter de as sofrer aqui, no fundo do poço da civilidade mundial. Rai's partam a caloraça.
"Mesmo em NY?" - perguntei eu. Que nem mesmo em NY, ou Los Angeles.
Foi isto no Domingo à tarde, zumbia o calor e o tédio. Deu-me para pasmar mas nem o pasmo me aliviou das inclemências da estiagem e de ter de as sofrer aqui, no fundo do poço da civilidade mundial. Rai's partam a caloraça.
domingo, junho 13, 2004
Declaração de princípio, meio e fim
Não gosto de futebol, nunca gostei, creio que nunca virei a gostar e muito menos fingirei que gosto.
Não gosto.
Julgo o actual campeonato em Portugal, nos moldes em que foi organizado, uma aberração de uma prodigiosa ( e pródiga) insensatez.
Que a equipe da federação portuguesa de futebol perca ou ganhe é-me indiferente, ou quase indiferente: quando perde há menos barulho, menos ululância sebastianista, e eu gosto de sossego. Acabo por preferir, por esse motivo, que não ganhe.
Tempos houve, de maior ingenuidade minha, em que, fiado no poder da humilhação, teria esperança que as derrotas levassem a um arrepiar de caminho, à recuperação de juízo.
Agora, apenas quero paz e sossego.
Não gosto de futebol, nunca gostei, creio que nunca virei a gostar e muito menos fingirei que gosto.
Não gosto.
Julgo o actual campeonato em Portugal, nos moldes em que foi organizado, uma aberração de uma prodigiosa ( e pródiga) insensatez.
Que a equipe da federação portuguesa de futebol perca ou ganhe é-me indiferente, ou quase indiferente: quando perde há menos barulho, menos ululância sebastianista, e eu gosto de sossego. Acabo por preferir, por esse motivo, que não ganhe.
Tempos houve, de maior ingenuidade minha, em que, fiado no poder da humilhação, teria esperança que as derrotas levassem a um arrepiar de caminho, à recuperação de juízo.
Agora, apenas quero paz e sossego.
Dia de Santo António de Lisboa
Santo e Doutor da Igreja
Responso
Se milagres desejais
Recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais
Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido
Todos os males humanos
Se moderam, se retiram
Digam-no aqueles que o viram
E digam-no os paduanos
Recupera-se o perdido...
Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são
Recupera-se o perdido...
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo
Recupera-se o perdido...
Rogai por nós, Santo António
Podíamos pedir a Santo António que nos encontrasse o juízo, mas creio que até para o Taumaturgo seria tarefa difícil.
Santo e Doutor da Igreja
Responso
Se milagres desejais
Recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais
Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido
Todos os males humanos
Se moderam, se retiram
Digam-no aqueles que o viram
E digam-no os paduanos
Recupera-se o perdido...
Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são
Recupera-se o perdido...
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo
Recupera-se o perdido...
Rogai por nós, Santo António
Podíamos pedir a Santo António que nos encontrasse o juízo, mas creio que até para o Taumaturgo seria tarefa difícil.
sexta-feira, junho 11, 2004
quinta-feira, junho 10, 2004
Camões dirige-se aos seus contemporâneos
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
domingo, junho 06, 2004
O presidente de França declarou-a, nas cerimónias do Dia D, "éternelle et combatante"
Fica-se a saber que o laicismo republicano crê na vida eterna. Crendices laicas...
Quanto ao "combatante", não deixei de me deliciar: se a republique française não tivesse capitulado, sem combate e sem honra, perante as tropas alemãs, talvez o "dia D" nunca tivesse sido necessário.
Fica-se a saber que o laicismo republicano crê na vida eterna. Crendices laicas...
Quanto ao "combatante", não deixei de me deliciar: se a republique française não tivesse capitulado, sem combate e sem honra, perante as tropas alemãs, talvez o "dia D" nunca tivesse sido necessário.
sábado, junho 05, 2004
Durante semanas acumulei em cima de uma cadeira livros, muita correspondência e papelada anónima que fui prometendo a mim mesmo arrumar. Ontem, tudo desabou. Há agora, no chão, um monte de papelada (em parte oculta por um sofá). Tempos atrás seria este o sinal para começar, de imediato, a metódica arrumação de tudo. Desta vez, porém, o pequeno montículo eriçado de caos impresso lá continua. Devo ter ultrapassado uma qualquer barreira moral, perdido que foi, sem me aperceber, um último escrúpulo. Que abismo invoco?
terça-feira, junho 01, 2004
segunda-feira, maio 31, 2004
A pretexto dos malefícios do tabaco vem aí mais legislação limitadora dos direitos dos que fumam, em nome da saúde dos que não fumam.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.
sábado, maio 29, 2004
Descobri, nos últimos anos, meia dúzia de coisas definitivas: a ária "Eternal source of light divine" do Händel, o Ice Tea Green da Lipton, as colónias inglesas do .... (informação não divulgável), Sir Isaiah Berlin (opera omnia) e esqueci uma quantidade de outras coisas definitivas que tinha descoberto em idades mais verdes, o que não deixou de ser, a seu modo, uma descoberta interessante, um troço palpável de matéria assente. Se tivesse coragem de tirar desta última todas as ilações que dela tranquilamente decorrem, descobriria que se pode viver com muito pouco e seria um candidato plausível à disciplina da aurea mediania. Infelizmente, porém, prevalece em mim o culto pela bugiganga.
sexta-feira, maio 28, 2004
quinta-feira, maio 27, 2004
Carminum 2,10
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
quarta-feira, maio 26, 2004
"Linkaram" o Impensável o Blog de Alex, o Life is just another game o Do Portugal Profundo e o Cinema Xunga 2.
O Impensável agradece.
O Impensável agradece.
terça-feira, maio 25, 2004
Por Europa e por crismas (perdõe-se-me se ofender o espírito laico) de tratados em "constituições", vem-me à memória o que ouvi, no outro dia, com delícia, o Dr. Mário Soares dizer sobre o futuro da Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
O governo socialista espanhol não concorda com a referência ao cristianismo, enquanto uma das raízes da cultura europeia, no novo tratado europeu, por pôr em causa a laicidade...
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
Há 1269 anos, em 25 de Maio de 735, morria em Jarrow, Inglaterra, S. Beda, o Venerável, um dos grandes Santos da Igreja e da minha particular devoção.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
segunda-feira, maio 24, 2004
Escreve, a propósito de D. Duarte, Oliveira Martins n'"Os filhos de D. João I": "A literatura tem este defeito inerente; toma a nuvem por
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
domingo, maio 23, 2004
Entro aqui e deparo com o post anterior e não deixo de me espantar um pouco.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
quinta-feira, maio 20, 2004
Tente-se mandar fazer alguma coisa: arranjar um vidro partido, uma janela, qualquer coisa da casa de banho e pasme-se, meditabunde-se, sobre a fonte de humilhações, aflições e canseiras que essa ambições comedida é: primeiro, surgem os orçamentos 60 mm, som stereo, tecnhicolor, que exigem de nós o trabalho imenso - e é um trabalho imenso - de explicar que não se pretende reeditar Cleopatra, ou pelo menos, parte do cenário, que estavamos mais a pensar num 16 mm, P&B, intimista. Desaparece, nesta altura, grande parte dos pretendentes. Descobriremos, mais tarde, que não eram os piores, que os que ficaram são os verdadeiros killers, dotados de um infalível instinto assassino, mas acobertado sob uma capa de bom senso e de compreensão.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
quarta-feira, maio 19, 2004
No Abrupto encontrei um poema de Anne de Noialles e esta tarde que ia plácida e sem rumo por entre o calor (que, helàs! não é um puro calor de Maio, mais súbtil e brando que este que faz), zarpou (pega-se numa metáfora inicial e vá de a esgotar até à náusea, procurando "efeitos": assim se escreve mal), retire-se o zarpou, e enfim, o que queria dizer é que me pus a pensar no triste destino da culture française, isto é, parisiense e que, tirando o côté jacobino, é aristocrática, elitista e, por razões de geografia, cosmopolita. Hoje, que Paris não é o já o centro do mundo, le lieu à rendez-vous (honis soyt...)da inteligência, as Viscondessas de Noialles desprovidas de Bunuels e as Condessas de Grefulhes/Guermantes sem Prousts a quem expliquem as relações necessárias do amor a propósito da polinização de uma solitária planta no seu jardim são impossibilidades civilizacionais, luxos incomportáveis.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
terça-feira, maio 18, 2004
sexta-feira, maio 14, 2004
Comecei a ler a notícia, naquele apressado e desatento ler matinal, e julguei que se tratava de um excêntrico francês (espécie rara, a excentricidade francesa deve ser previamente licenciadada e homologada por uma qualquer autoridade, seja ela um comité anarca-libertário, ou uma senhora da moda). Mas a notícia em si, ou melhor o seu começo, levava-me a crer ser obra de um excêntrico: tratava-se de uma acção (civil? penal?)contra o exército britânico. Pensei, de imediato, que se tratava de alguma queixa mirabolante e divertida relacionada com estragos provocados por aquele exército quando desembarcou em França, a 6 de Junho de 1944, nas praias da Normandia, e que o queixoso fosse um esteta do arame farpado, um saudosista da colaboração ou do anti-semitismo. Preparava-me para gozar a situação quando o corpo da notícia me desiludiu: a queixa do francês dizia respeito ao Iraque e aos alegados maus tratos infligidos pelo exército britânico aos iraquianos.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
quarta-feira, maio 12, 2004
O Doi-me, um blog hipocondríaco, linkou o Impensavel, que agradece.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Já tinha ouvido falar dela e em 1974 li, em viagem, uma biografia. "Ela" é Lou Andreas Salomé e creio que foi a última das minhas paixões "literárias" adolescentes. Ao folhear, ontem, uma outra edição, encontro um excerto do diário:
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
segunda-feira, maio 10, 2004
domingo, maio 09, 2004
O Mar Salgado faz um ano.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
Ontem, dia 8, foi o aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa, com a vitória dos exércitos aliados sobre os da Alemanha.
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
quarta-feira, maio 05, 2004
Abril águas mil e não choveu quase, mas é motivo para estes dias plúmbeos em Maio, ademais sem trovoadas, cinza e chuva "tout court"? Não é.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
segunda-feira, maio 03, 2004
Mea culpa
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Ontem, Domingo, vi, por acaso, parte de uma entrevista dada pelo Dr. João Salgueiro a duas senhoras mal humoradas. O problema, contudo, não é o mau humor das senhoras, mas a inépcia e mediocridade reveladas.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
sábado, maio 01, 2004
O alargamento da UE põe fim à separação europeia que a barbárie nazi e comunista provocou no terrível século vinte e foi com uma emoção que não me suspeitava que vi imagens das populações a celebrar a entrada dos seus países nesta Europa que, para a maioria é, e eles sabem-no, a entrada num mundo difícil, num trabalhoso futuro em branco que se pode ganhar ou perder. Mas não é essa a melhor das apostas? a da Topia?
Com a entrada dos novos países, não sei se Portugal deixará o último lugar nos índices europeus. Se deixar, não nos preocupemos: em breve nos será devolvido, a bem de sonhos com futuros magníficos.
Com a entrada dos novos países, não sei se Portugal deixará o último lugar nos índices europeus. Se deixar, não nos preocupemos: em breve nos será devolvido, a bem de sonhos com futuros magníficos.
terça-feira, abril 27, 2004
O advogado cubano Juan Carlos Gonzalez Leyva foi condenado a 4 anos de prisão - está preso, preventivamente, já há dois - por ultraje ao presidente cubano, o ditador Castro, por resistência à polícia e perturbação da ordem pública.
Espero que o ilustre advogado tenha mesmo ultrajado o ditador, é uma honra que poucos podem almejar; espero, de igual modo, que tenha conseguido perturbar a ordem pública que, na barbárie totalitarista é tarefa a um tempo fácil e quase impossível. Duvido, no entanto, que tenha conseguido resistir à polícia, já que é cego.
Note-se a linguagem "ordeira", própria dos regimes totalitários de destino único. Sob ela se esconde a violência, nela vive a barbárie das certezas.
Espero que o ilustre advogado tenha mesmo ultrajado o ditador, é uma honra que poucos podem almejar; espero, de igual modo, que tenha conseguido perturbar a ordem pública que, na barbárie totalitarista é tarefa a um tempo fácil e quase impossível. Duvido, no entanto, que tenha conseguido resistir à polícia, já que é cego.
Note-se a linguagem "ordeira", própria dos regimes totalitários de destino único. Sob ela se esconde a violência, nela vive a barbárie das certezas.
segunda-feira, abril 26, 2004
domingo, abril 25, 2004
terça-feira, abril 20, 2004
"Fuja-se ao agreste, etc.": é difícil não "verdurinar" de quando em vez. O uso deste "imperativo" - que é um conjuntivo... - de cumplicidade muito paternalista é irritante, subjaz-lhe o convite dificilmente declinável e levemente histérico a todos aqueles - e espera-se que "todos" sejam os poucos - que não podem ser muitos - que comungam da nossa sensibilidade, ou estética, portadores de idiossincrasias ou sinestesias assemelhadas - a que atribuimos, por aquelas falazes razões, um mesmo desconforto.
Destesto essa pastorícia da solidariedade, ou da "eleição" mas o certo é que caí nela.
Nota: Fez muito bem em ler as notas de Yourcenar. Não me lembro já do texto, nem o vou reler para confirmar impressões. Mas que má disposição contra Marguerite Yourcenar! Eu entendo, com mais ou menos erupções ou eructações, o que ela quer dizer, como julgo perceber o que Sena quer dizer quando afirma que o melhor confessionalismo da poesia portuguesa é requintadamente intelectual.
Parti pris, é o que é...
Destesto essa pastorícia da solidariedade, ou da "eleição" mas o certo é que caí nela.
Nota: Fez muito bem em ler as notas de Yourcenar. Não me lembro já do texto, nem o vou reler para confirmar impressões. Mas que má disposição contra Marguerite Yourcenar! Eu entendo, com mais ou menos erupções ou eructações, o que ela quer dizer, como julgo perceber o que Sena quer dizer quando afirma que o melhor confessionalismo da poesia portuguesa é requintadamente intelectual.
Parti pris, é o que é...
segunda-feira, abril 19, 2004
quinta-feira, abril 15, 2004
Aqui há dias deixei cruelmente subentendido o mau receber reinante nas lojas de Lisboa por comparação às de Coimbra. Ontem à tarde, cumpridas as obrigações que me levaram à capital, fui fazer compras. E dado o modo como tudo correu, tenho de deixar aqui a declaração honesta de que há lojas em Lisboa onde ainda é um gosto ir. Numa delas, uma camisaria, fui recebido como um filho pródigo, dada a minha longa ausência. Conversa simpática, divertida, desarrumação imensa do balcão, encomenda (modesta) feita. Encorajado pelo sucedido, visitei outras. Comprasse ou não comprasse, sempre um ar solícíto e atento. Entre as visitas às lojas, os táxis. Embora com greve, não esperei mais de três minutos por um táxi! A explicação para o fenómeno, que ouvi atentamente, relevava das férias escolares e da crise. A crise é cruel, sei-o, mas faz maravilhas no que respeita ao atendimento e ao passear à tarde em Lisboa.
Notículas: a) recebi um mail recomendando-me muito o filme do Gibson, que "era lindo". O autor do mail era um bom católico - ao contrário de mim que sou um mau católico, preguiçoso e desleixado, ou seja, tradicional - mas "lindo" parece-me um adjectivo muito impróprio e de mau gosto. Não vou nada ver o filme.
b) Num programa na Antena 2 - não sei se para a "juventude" - falam de música com "giríssimos!" e outros adjectivos exclamativos semelhantes. Os adjectivos, mesmo mais habituais abundam. Os substantivos, não sendo mal usados, rareiam.
c) Chegou a minha encomenda de Curzon Street e, de cá, os livros que tinha encomendado. Ambas com algum atraso. Eu, que sou impaciente, tenho usado estes atrasos habituais como disciplinas, e insisto em encomendas por telefone, correio, e "on line". Estou, todavia, longe de conseguir resultados: se não as esqueço, às encomendas, mirro-me com a espera, devo confessar
Notículas: a) recebi um mail recomendando-me muito o filme do Gibson, que "era lindo". O autor do mail era um bom católico - ao contrário de mim que sou um mau católico, preguiçoso e desleixado, ou seja, tradicional - mas "lindo" parece-me um adjectivo muito impróprio e de mau gosto. Não vou nada ver o filme.
b) Num programa na Antena 2 - não sei se para a "juventude" - falam de música com "giríssimos!" e outros adjectivos exclamativos semelhantes. Os adjectivos, mesmo mais habituais abundam. Os substantivos, não sendo mal usados, rareiam.
c) Chegou a minha encomenda de Curzon Street e, de cá, os livros que tinha encomendado. Ambas com algum atraso. Eu, que sou impaciente, tenho usado estes atrasos habituais como disciplinas, e insisto em encomendas por telefone, correio, e "on line". Estou, todavia, longe de conseguir resultados: se não as esqueço, às encomendas, mirro-me com a espera, devo confessar
quinta-feira, abril 08, 2004
"E então, as feriazinhas? Para onde? Lá para baixo? Estrangeiro?" - isto dito com um ar afirmativo - o tom interrogativo é de mera retórica, antes convidativo a um assentimento cúmplice - deixa-me desarmado. Difícil explicar que fico em casa a arrumar papelada, pôr umas leituras em dia, preguiçar e gozar a ausência dos amigos, queridos amigos sejam eles - e que, este ano, diasporaram com um assombroso zelo. Uns na Índia, outros a caminho do círculo polar ártico après investigação ao Hermitage, outros, menos imaginativos, para o sol da Bahia.
Eu vou, daqui a pouco, ao supermercado, sem deixar de considerar que não é dia para se ir passear por entre as áleas dos produtos de limpeza, e onde felizmente, não espero encontrar ninguém.
E amanhã e depois, e talvez no Domingo, não tenciono sair de casa, espero, senão para as cerimónias da Semana Santa.
Daqui a pouco, à tardinha, relerei a sequência de Páscoa da Marguerite Yourcenar - tenho dúvidas se é este o título correcto - um roteiro para o essencial destes dias.
Eu vou, daqui a pouco, ao supermercado, sem deixar de considerar que não é dia para se ir passear por entre as áleas dos produtos de limpeza, e onde felizmente, não espero encontrar ninguém.
E amanhã e depois, e talvez no Domingo, não tenciono sair de casa, espero, senão para as cerimónias da Semana Santa.
Daqui a pouco, à tardinha, relerei a sequência de Páscoa da Marguerite Yourcenar - tenho dúvidas se é este o título correcto - um roteiro para o essencial destes dias.
quarta-feira, abril 07, 2004
No portal Sapo noticia-se que o Santo Padre convidou os fiéis a meditarem sobre "o mal".
Noto as aspas e pergunto-me em nome de que negro optimismo - ou de que mera negligente ingenuidade - o jornalista de serviço "tentou resolver o assunto" tão pouco consentâneo com alegres preparativos de idas para algarves, brasis, caraíbas ou balis.
Noto as aspas e pergunto-me em nome de que negro optimismo - ou de que mera negligente ingenuidade - o jornalista de serviço "tentou resolver o assunto" tão pouco consentâneo com alegres preparativos de idas para algarves, brasis, caraíbas ou balis.
terça-feira, abril 06, 2004
Ontem, dia passado em Coimbra. Compras. Feitas elas, as programadas, rumo à Baixa, pedir por mim e pelo País em Santa Cruz. Depois, tomando como base o Nicola, incursões pelas ruas vizinhas. Visita de devoção à Almedina e fúria compradora que me provocou problemas logísticos: as compras tiveram de ser levadas por um funcionário até ao Montanha que serviu de interface - gostei desta do interface Montanha - onde esperei que outra pessoa transportasse a livralhada toda até ao carro. Todas estas dificuldades se tornam mais compreensíveis se disser que entre os livros que comprei estava o Houaiss. Mais tarde, em casa, regozijei-me com a compra do dicionário, embora pense ter encontrado um erro na palavra "entrevista" que é dada como aparecida na língua em 1908 tendo eu quase a certeza que Eça a usou.
Em Coimbra ainda: que beleza de dia, que cor magnífica! De menos agradável, apenas o branco da pedra que usaram nos pavimentos das ruas e que, nalguns casos, pela intensidade luminosa, prejudica a riqueza cromática (também gostei desta).
E as pessoas? As pessoas das lojas (livrarias, lojas de roupa, de som e ourivesarias são amáveis, simpáticas, sabedoras e prestáveis, como tenho a vaga lembrança de terem sido as de Lisboa, anos atrás, muitos anos atrás. Numa dessas lojas entrei a fumar e, tendo-me apercebido disso, dispunha-me a apagar o cigarro quando me trouxeram, com ar simpático e solícito, um cinzeiro: podia-se fumar! Em sinal de gratidão, comprei uma caixa de dvds que, nos meus planos de compras, estava reservada para o depois de verão e, ainda uns Wagners e Mahlers dirigidos pelo Boulez.
Voltarei, assim possa.
Em Coimbra ainda: que beleza de dia, que cor magnífica! De menos agradável, apenas o branco da pedra que usaram nos pavimentos das ruas e que, nalguns casos, pela intensidade luminosa, prejudica a riqueza cromática (também gostei desta).
E as pessoas? As pessoas das lojas (livrarias, lojas de roupa, de som e ourivesarias são amáveis, simpáticas, sabedoras e prestáveis, como tenho a vaga lembrança de terem sido as de Lisboa, anos atrás, muitos anos atrás. Numa dessas lojas entrei a fumar e, tendo-me apercebido disso, dispunha-me a apagar o cigarro quando me trouxeram, com ar simpático e solícito, um cinzeiro: podia-se fumar! Em sinal de gratidão, comprei uma caixa de dvds que, nos meus planos de compras, estava reservada para o depois de verão e, ainda uns Wagners e Mahlers dirigidos pelo Boulez.
Voltarei, assim possa.
sábado, abril 03, 2004
quinta-feira, abril 01, 2004
Mais facilmente do que supunha, estou a conseguir refazer os links dos blogs. Não sei se estão todos os que blogs que estavam antes da "petite catastrophe". Tentarei repor.
À tarde, cansado, desalentado, recolhi ao sofá e peguei no primeiro da rima que está ao lado e muito irrita a empregada. Era "A Velhice" - De Senectude - de Cícero (em tradução francesa). A última frase que li: "Si, comme le pensent certains philosophes, il n'y a rien après la mort, alors je n'ai pas a craindre les railleries des philosophes disparus".
À tarde, cansado, desalentado, recolhi ao sofá e peguei no primeiro da rima que está ao lado e muito irrita a empregada. Era "A Velhice" - De Senectude - de Cícero (em tradução francesa). A última frase que li: "Si, comme le pensent certains philosophes, il n'y a rien après la mort, alors je n'ai pas a craindre les railleries des philosophes disparus".
quarta-feira, março 31, 2004
Estava farto do "template", quis experimentar outros e o estafermo do site ou o que isto é, que às vezes é um castigo para fazer qualquer coisa, obedeceu logo à ordem, a errada, aselha ordem.
Fiquei sem os meus "links" (hoje, que os tinha actualizado...) e terei de andar em busca dos contadores e de passwords que nunca anoto, etc...)
Fiquei com esta medonhez gráfica (o outro era feio, mas mais discreto) que terei de ir aperfeiçoando até estar legível...
Fiquei sem os meus "links" (hoje, que os tinha actualizado...) e terei de andar em busca dos contadores e de passwords que nunca anoto, etc...)
Fiquei com esta medonhez gráfica (o outro era feio, mas mais discreto) que terei de ir aperfeiçoando até estar legível...
Tempo desagradável, este, de vendavais e cinzentos gastos. Leio e oiço música na happy hour. Ainda antes de jantar andei à procura de qualquer coisa alegre para "postar" aqui, é uma incompetência, este blog, semi abandoando e tristonho, mas perdeu-se o Matisse que tinha escolhido e voltar a repetir tudo, superou o meu enfraquecido querer. Não sei porque, mas anseio por Junho, por um Junho normal, sem canículas, época em que gosto de reler a Ilustre Casa e meditar sobre o forte fado e a acção que nos pode libertar dele.
Mas estamos longe de Junho... as bétulas em frente ainda estão sem folhas, invernais e tristonhas.
Mas estamos longe de Junho... as bétulas em frente ainda estão sem folhas, invernais e tristonhas.
segunda-feira, março 29, 2004
Após um fim-de-semana agradável (em casa) vem, com a Segunda-Feira, a primeira notícia desagradável: na Irlanda uma nova lei proíbe que se fume em locais públicos. Presumo que, também, nos Pubs... Desalentei, de início, confesso, mas depois, reflecti e, das duas uma: ou a lei foi forjada durante um "irish awake" ou é fruto da proverbial ironia irlandesa.
Marquei já, mentalmente, uma verificação "in loco" sobre o cumprimento da legislação. Se não se limitar a dar azo a boas gargalhadas irlandesas entre nuvens de fumo e inspiração poética, perco um pouco mais da minha fé na humanidade.
Marquei já, mentalmente, uma verificação "in loco" sobre o cumprimento da legislação. Se não se limitar a dar azo a boas gargalhadas irlandesas entre nuvens de fumo e inspiração poética, perco um pouco mais da minha fé na humanidade.
sexta-feira, março 26, 2004
quinta-feira, março 25, 2004
Leio isto e desta colecção de sensatas evidências retenho o "Mesmo em Eça". A que vem este "mesmo"? Eça não apenas escreveu o magnífico texto a que Pacheco Pereira se refere - e que, salvo erro, se chama "No mesmo Hotel" - como outros dedicados ao terrorismo anarquista. "Mesmo" porquê?
Links
"Linkaram" o Impensavel, o "Extractos do Estrago da Nação", o "Reportagens Ambientais", os dois primeiros de Pedro de Almeida Vieira, o "Galo Verde" e o "XX-XY"
O Impensável a todos agradece.
"Linkaram" o Impensavel, o "Extractos do Estrago da Nação", o "Reportagens Ambientais", os dois primeiros de Pedro de Almeida Vieira, o "Galo Verde" e o "XX-XY"
O Impensável a todos agradece.
quarta-feira, março 24, 2004
Nos dois últimos post aconselhava - num deles com veemência - a leitura de livros. É uma forma de jactância, a actividade aconselhatória, seja ela embora branda e, por isso, a evitar. Enquanto espero os livros da Gallimard, leio agora - profíqua, esta Primavera - "Isabel, Condessa de Rio Maior", apresentação, biografia e notas de Maria Filomena Mónica. Como não há duas sem três, aconselho, também.
Ontem à noite, levado pelos furores primaveris de desatulhar de papel velho estantes, cadeiras e gavetas, preparava-me para deitar fora uma edição especial do BOA nº 29 - que é o Boletim da Ordem dos Advogados - julgando tratar-se de publicidade (uma publicidade tenebrosa, "topo de gama"), quando descobri a transcrição de uma comunicação do Prof. Fernando Gil sobre o Mal. Também recomendaria, se não fossem recomendações a mais.
Ontem à noite, levado pelos furores primaveris de desatulhar de papel velho estantes, cadeiras e gavetas, preparava-me para deitar fora uma edição especial do BOA nº 29 - que é o Boletim da Ordem dos Advogados - julgando tratar-se de publicidade (uma publicidade tenebrosa, "topo de gama"), quando descobri a transcrição de uma comunicação do Prof. Fernando Gil sobre o Mal. Também recomendaria, se não fossem recomendações a mais.
domingo, março 21, 2004
quinta-feira, março 18, 2004
Tinha, por um mero acaso, visto a entrevista que o Prof. Fernando Gil concedeu a Maria João Avillez acerca do “Impasses”, livro de que é co-autor.
Via-a, no entanto, sem lhe poder prestar atenção e as condições da emissão eram péssimas. Tomei nota mental para comprar a obra.
Entrevistadora e entrevistado estranharam o silêncio de que a saída do livro foi rodeada. Mais tarde, Pacheco Pereira recomendava a leitura do livro e estranhava, também ele, a falta de reacções.
Hoje, lido o “Impasses”, percebo que o espanto é retórico.
Quem lhe poderia responder? E o quê?
Leiam – aconselho veementemente - e digam se não tenho razão.
Via-a, no entanto, sem lhe poder prestar atenção e as condições da emissão eram péssimas. Tomei nota mental para comprar a obra.
Entrevistadora e entrevistado estranharam o silêncio de que a saída do livro foi rodeada. Mais tarde, Pacheco Pereira recomendava a leitura do livro e estranhava, também ele, a falta de reacções.
Hoje, lido o “Impasses”, percebo que o espanto é retórico.
Quem lhe poderia responder? E o quê?
Leiam – aconselho veementemente - e digam se não tenho razão.
quarta-feira, março 17, 2004
Ontem, e depois de quase um mês acoitado no puro pânico de viver este fim de inverno, voltei a Lisboa.
Os comboios para Lisboa, outrora definidores de tempos e modos (a propos, preciso comprar a antologia) mesmo de destinos, postmodernizaram-se e a gente vê-se em palpos de aranha para sacudir a impressão de um viajar sem sentido num mundo que se "suburbizou", que se viaja entre arrebaldes de um impossível destino em carruagens que imitam as de um metro de inexistentes metrópoles. Felizmente, a lezíria está lá fora - existe, por isso, o "lá fora" - e recupera-se o pé.
E as conversas, as conversas destes combóios uniclassistas, também se busque nelas algum alívio: ontem, era sobre a obra social de um activo pároco que discorriam os meus vizinhos de lugar. O tom das observações tinha de algum Júlio Dinis e da retórica oficial que, presumo, seja de praxe em inaugurações dos fontanários ou das "acessibilidades" de agora, rotundas, maioritariamente.
Chegado à Repartição - ia para uma repartição, e em trabalho - um calor imenso, atribuía um significado novo à expressão inferno burocrático. Lá de mais à frente na fila expectante, vem ter comigo a irmã de uma velha amiga e a espera - no meu caso, uma espera vã: era no andar de cima, onde não havia espera, o meu "guichet" - a espera, escrevia, passou-se entre o falar-se de amigos comuns a alguns aspectos mais herméticos das exigências e ingratidões dos caseiros do Douro. Detectado o erro - que acabei por não lamentar - despedimo-nos até à praia, ambos sem a certeza de irmos lá, este ano.
Não consegui tratar de nada: o novo diploma legal é recente, os funcionários não tiveram qualquer formação, obtive a promessa de que amanhã, estudado hoje, por ambos, o problema, se faria nova tentativa.
E com isto, ao meio dia já nada tinha que fazer senão esperar até à hora do combóio.
Levado, talvez, pela noção de que a questão administrativa não seria de difícil resolução - ou pelo calor - resolvi ver de almoço. Não estando em Lisboa a única pessoa com quem me gostaria de almoçar, decidi-me por um "snack" breve e resolvi dedicar-me a uma apreciação de como estava de "coisas de verão". Estava mal, feito de memória o inventário. Parti para as lojas e, devo confessar, as horas seguintes foram de prodigalidade.
Voltei no combóio da tarde, não "o da tarde" habitual, mas num outro, que me fascina por supor sempre que não existe, por julgar que, a viagem da tarde é o sonho breve, ainda a caminho de Lisboa, com o regresso a casa, num combóio de horario inverosímil que é aquele.
Em casa, verifico a bondade das compras, penalizo-me perante os absurdos, folheio os livros que comprei, releio mais uma vez as etiquetas, as instruções de lavagem, suspiro de desgosto, conforto e tédio e às dez da noite, ansioso por um sono lustral, deito-me e adormeço.
Os comboios para Lisboa, outrora definidores de tempos e modos (a propos, preciso comprar a antologia) mesmo de destinos, postmodernizaram-se e a gente vê-se em palpos de aranha para sacudir a impressão de um viajar sem sentido num mundo que se "suburbizou", que se viaja entre arrebaldes de um impossível destino em carruagens que imitam as de um metro de inexistentes metrópoles. Felizmente, a lezíria está lá fora - existe, por isso, o "lá fora" - e recupera-se o pé.
E as conversas, as conversas destes combóios uniclassistas, também se busque nelas algum alívio: ontem, era sobre a obra social de um activo pároco que discorriam os meus vizinhos de lugar. O tom das observações tinha de algum Júlio Dinis e da retórica oficial que, presumo, seja de praxe em inaugurações dos fontanários ou das "acessibilidades" de agora, rotundas, maioritariamente.
Chegado à Repartição - ia para uma repartição, e em trabalho - um calor imenso, atribuía um significado novo à expressão inferno burocrático. Lá de mais à frente na fila expectante, vem ter comigo a irmã de uma velha amiga e a espera - no meu caso, uma espera vã: era no andar de cima, onde não havia espera, o meu "guichet" - a espera, escrevia, passou-se entre o falar-se de amigos comuns a alguns aspectos mais herméticos das exigências e ingratidões dos caseiros do Douro. Detectado o erro - que acabei por não lamentar - despedimo-nos até à praia, ambos sem a certeza de irmos lá, este ano.
Não consegui tratar de nada: o novo diploma legal é recente, os funcionários não tiveram qualquer formação, obtive a promessa de que amanhã, estudado hoje, por ambos, o problema, se faria nova tentativa.
E com isto, ao meio dia já nada tinha que fazer senão esperar até à hora do combóio.
Levado, talvez, pela noção de que a questão administrativa não seria de difícil resolução - ou pelo calor - resolvi ver de almoço. Não estando em Lisboa a única pessoa com quem me gostaria de almoçar, decidi-me por um "snack" breve e resolvi dedicar-me a uma apreciação de como estava de "coisas de verão". Estava mal, feito de memória o inventário. Parti para as lojas e, devo confessar, as horas seguintes foram de prodigalidade.
Voltei no combóio da tarde, não "o da tarde" habitual, mas num outro, que me fascina por supor sempre que não existe, por julgar que, a viagem da tarde é o sonho breve, ainda a caminho de Lisboa, com o regresso a casa, num combóio de horario inverosímil que é aquele.
Em casa, verifico a bondade das compras, penalizo-me perante os absurdos, folheio os livros que comprei, releio mais uma vez as etiquetas, as instruções de lavagem, suspiro de desgosto, conforto e tédio e às dez da noite, ansioso por um sono lustral, deito-me e adormeço.
segunda-feira, março 08, 2004
Há dois ou três anos que, por estas alturas, finjo pensar a sério ir nas férias grandes para uma daquelas praias bretãs ou normandas que Eça escolhia para as férias da sua Família. Este ano, tomado de ambição, finjo que poderia, além disso, visitar algumas ilhas do Canal, ou mesmo a costa sul inglesa.
Porém, a solução mais sensata e que a inércia - deusa poderosa e salvífica a quem dedico um culto estreme - dita é ficar aqui, na cidadezinha semi-desértica, cultivando o passeio higiénico do depois do jantar das noites de verão, povoado de vozes ao longe de casais de reformados que relatam as peripécias serenas da primeira quinzena ou dos entusiasmos dos adolescentes que estiveram "lá em baixo" - presumo que no Algarve - e ainda vão sair outra vez (vão sempre sair outra vez). Mentem eles um pouco - mais para não desiludir os circunstantes do que por vã glória - e minto eu no fingir ouvi-los desatento às geografias recônditas que contam, no não ser um resignado cartógrafo delas.
Porém, a solução mais sensata e que a inércia - deusa poderosa e salvífica a quem dedico um culto estreme - dita é ficar aqui, na cidadezinha semi-desértica, cultivando o passeio higiénico do depois do jantar das noites de verão, povoado de vozes ao longe de casais de reformados que relatam as peripécias serenas da primeira quinzena ou dos entusiasmos dos adolescentes que estiveram "lá em baixo" - presumo que no Algarve - e ainda vão sair outra vez (vão sempre sair outra vez). Mentem eles um pouco - mais para não desiludir os circunstantes do que por vã glória - e minto eu no fingir ouvi-los desatento às geografias recônditas que contam, no não ser um resignado cartógrafo delas.
quinta-feira, março 04, 2004
terça-feira, março 02, 2004
Noite passada dedicada a leituras. Comecei pelo TLS onde li o artigo de Georges Steiner sobre o livro de Pierre Bouretz "Témoins du Futur - Philosophie et messianisme" - que aconselho. Deixo um link-recado para o Rua da Judiaria. Depois de ter lido o artigo, passei os olhos pelo último livro do Comte-Sponville "Le capitalisme est-il moral?" - cedo demais para fazer um juízo, mas fez-me reler partes do Esplendor da Verdade.
Acabei, já tarde, a ler Mme. de Sévigné na única edição que possuo - uma velhinha "Sá da Costa" traduzida por Vitorino Nemésio.
Tenho de mudar de lote de café "aprês dîner"...
Acabei, já tarde, a ler Mme. de Sévigné na única edição que possuo - uma velhinha "Sá da Costa" traduzida por Vitorino Nemésio.
Tenho de mudar de lote de café "aprês dîner"...
segunda-feira, março 01, 2004
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
É como escrevia há pouco: vento áspero e muito frio. Cá em casa sempre se temeram os Fevereiros e responsabilizavam-se alguns deles pelas longas estadias de parentes em longínquas montanhas. De um deles, condenado a seis ou sete anos de Davos, li quase toda a correspondência, num fim-de-semana que passei em casa de uma irmã sua. Esperanças na cura rápida, primeiras desilusões e contratempos, o habituar-se a um outro tempo, uma paixão exótica por uma filha de um ministro (ou presidente?) de um país da America Latina (Perú? Uruguai? Já não me lembro) e, finalmente os prenúncios - diria, as primeiras suspeitas - de cura. A última carta que li dele, um postal de Veneza, na Praça de S. Marcos, mostrava-o coberto de pombos, sorrindo, no começo dos anos trinta. A viagem de regresso, longa e ziguezaguante desmentia as saudades de casa e de todos os seus que protestava nos finais das suas cartas. Veio a morrer num verão, trinta e cinco anos depois, de congestão, que logo foi atribuída à demasia do sol de Julho. Imolado aos elementos, este Castorp lusitano.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Manhã inteira sem electricidade - e dadas as modernidades (bombas de elevação que funcionam a energia eléctrica, etc.) - sem água.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
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