quarta-feira, junho 16, 2004

O deputado Paulo Pedroso afirmou: «Apenas peço uma coisa ao sistema de justiça, que este sofrimento tenha algum sentido e se reflicta numa melhoria para o futuro de modo a que outras pessoas não passem pelo mesmo»

Conviria que o senhor deputado também reflectisse e propusesse, como pode e deve, a reforma urgente do código de processo penal.
Num hospital de província o adolescente aborrecido contempla os 4 ou 5 dias que ainda tem de lá permanecer. Alguém sugere que veja televisão. Há uma televisão no serviço, doada aos doentes pela Liga de Amigos do Hospital. A televisão, porém, está no gabinete das enfermeiras, que objectam à sua utilização por um doente, que precisam dela, dizem. Acabam por contemporizar, se for por pouco tempo.

O fundo do poço.


Referia-me um expatriado, apanhado em pleno pecado de visita ao torrão pátrio, que não se lembrava já da enorme quantidade de palavrões audível aqui em qualquer local público.
"Mesmo em NY?" - perguntei eu. Que nem mesmo em NY, ou Los Angeles.
Foi isto no Domingo à tarde, zumbia o calor e o tédio. Deu-me para pasmar mas nem o pasmo me aliviou das inclemências da estiagem e de ter de as sofrer aqui, no fundo do poço da civilidade mundial. Rai's partam a caloraça.


domingo, junho 13, 2004

Declaração de princípio, meio e fim

Não gosto de futebol, nunca gostei, creio que nunca virei a gostar e muito menos fingirei que gosto.
Não gosto.
Julgo o actual campeonato em Portugal, nos moldes em que foi organizado, uma aberração de uma prodigiosa ( e pródiga) insensatez.
Que a equipe da federação portuguesa de futebol perca ou ganhe é-me indiferente, ou quase indiferente: quando perde há menos barulho, menos ululância sebastianista, e eu gosto de sossego. Acabo por preferir, por esse motivo, que não ganhe.
Tempos houve, de maior ingenuidade minha, em que, fiado no poder da humilhação, teria esperança que as derrotas levassem a um arrepiar de caminho, à recuperação de juízo.
Agora, apenas quero paz e sossego.
Dia de Santo António de Lisboa
Santo e Doutor da Igreja

Responso

Se milagres desejais
Recorrei a Santo António
Vereis fugir o demónio
E as tentações infernais

Recupera-se o perdido
Rompe-se a dura prisão
E no auge do furacão
Cede o mar embravecido

Todos os males humanos
Se moderam, se retiram
Digam-no aqueles que o viram
E digam-no os paduanos

Recupera-se o perdido...

Pela sua intercessão
Foge a peste, o erro, a morte
O fraco torna-se forte
E torna-se o enfermo são

Recupera-se o perdido...

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo

Recupera-se o perdido...

Rogai por nós, Santo António

Podíamos pedir a Santo António que nos encontrasse o juízo, mas creio que até para o Taumaturgo seria tarefa difícil.

sexta-feira, junho 11, 2004

In memoriam

Dia 11, começo das férias grandes de antanho que, plácidas e vagarosas, acabavam em Outubro.

quinta-feira, junho 10, 2004

Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena




domingo, junho 06, 2004

O presidente de França declarou-a, nas cerimónias do Dia D, "éternelle et combatante"
Fica-se a saber que o laicismo republicano crê na vida eterna. Crendices laicas...

Quanto ao "combatante", não deixei de me deliciar: se a republique française não tivesse capitulado, sem combate e sem honra, perante as tropas alemãs, talvez o "dia D" nunca tivesse sido necessário.
D DAY

Há sessenta anos as tropas aliadas (USA, GRÃ-BRETANHA e Domínios da Coroa Inglesa) desembarcaram nas praias da Normandia, iniciando a libertação da Europa continental.

sábado, junho 05, 2004

Durante semanas acumulei em cima de uma cadeira livros, muita correspondência e papelada anónima que fui prometendo a mim mesmo arrumar. Ontem, tudo desabou. Há agora, no chão, um monte de papelada (em parte oculta por um sofá). Tempos atrás seria este o sinal para começar, de imediato, a metódica arrumação de tudo. Desta vez, porém, o pequeno montículo eriçado de caos impresso lá continua. Devo ter ultrapassado uma qualquer barreira moral, perdido que foi, sem me aperceber, um último escrúpulo. Que abismo invoco?

terça-feira, junho 01, 2004

segunda-feira, maio 31, 2004

A pretexto dos malefícios do tabaco vem aí mais legislação limitadora dos direitos dos que fumam, em nome da saúde dos que não fumam.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.





sábado, maio 29, 2004

Descobri, nos últimos anos, meia dúzia de coisas definitivas: a ária "Eternal source of light divine" do Händel, o Ice Tea Green da Lipton, as colónias inglesas do .... (informação não divulgável), Sir Isaiah Berlin (opera omnia) e esqueci uma quantidade de outras coisas definitivas que tinha descoberto em idades mais verdes, o que não deixou de ser, a seu modo, uma descoberta interessante, um troço palpável de matéria assente. Se tivesse coragem de tirar desta última todas as ilações que dela tranquilamente decorrem, descobriria que se pode viver com muito pouco e seria um candidato plausível à disciplina da aurea mediania. Infelizmente, porém, prevalece em mim o culto pela bugiganga.

sexta-feira, maio 28, 2004

A aurea mediocritas, neste poema de Horácio, bom antídoto para os post-romantismos hodiernos.

quinta-feira, maio 27, 2004

Carminum 2,10

Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.

auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.

saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.

sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem

submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.

rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.

Horatius

Não consegui encontrar na net o desenho de Alexandre Rey Colaço "Pobretes Mas Alegretes"
Fica o dia sem ilustração.

terça-feira, maio 25, 2004

Por Europa e por crismas (perdõe-se-me se ofender o espírito laico) de tratados em "constituições", vem-me à memória o que ouvi, no outro dia, com delícia, o Dr. Mário Soares dizer sobre o futuro da Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.


O governo socialista espanhol não concorda com a referência ao cristianismo, enquanto uma das raízes da cultura europeia, no novo tratado europeu, por pôr em causa a laicidade...

A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.

Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
Há 1269 anos, em 25 de Maio de 735, morria em Jarrow, Inglaterra, S. Beda, o Venerável, um dos grandes Santos da Igreja e da minha particular devoção.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.



Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.