A pretexto dos malefícios do tabaco vem aí mais legislação limitadora dos direitos dos que fumam, em nome da saúde dos que não fumam.
Parece-me que o melhor caminho seria o de criar condições para que os que fumam o possam fazer sem incomodar os que não fumam. Mas tal legislação sai cara, já que a sua aplicação implicaria gastos para o estado (criação de salas de fumo em condições, etc., etc...) e se o estado gosta de se fingir preocupado connosco, gosta de o fazer grátis. Daí o pendor para a proibição, para a punição, em detrimento de medidas mais eficazes (criação de consultas para abandono do tabaco, por exemplo).
Aliás, o estado português tem-se mostrado totalmente incapaz de resolver qualquer problema novo (ou menos novo) que exija mais do que uma atitude punitiva ou qualqer réstea de coragem: dizem-no, com pristina clareza os números realtivos à sida, à toxicodependência, ao alcoolismo ou à sinistralidade rodoviária.
Ficam os decretos, que são baratos.
segunda-feira, maio 31, 2004
sábado, maio 29, 2004
Descobri, nos últimos anos, meia dúzia de coisas definitivas: a ária "Eternal source of light divine" do Händel, o Ice Tea Green da Lipton, as colónias inglesas do .... (informação não divulgável), Sir Isaiah Berlin (opera omnia) e esqueci uma quantidade de outras coisas definitivas que tinha descoberto em idades mais verdes, o que não deixou de ser, a seu modo, uma descoberta interessante, um troço palpável de matéria assente. Se tivesse coragem de tirar desta última todas as ilações que dela tranquilamente decorrem, descobriria que se pode viver com muito pouco e seria um candidato plausível à disciplina da aurea mediania. Infelizmente, porém, prevalece em mim o culto pela bugiganga.
sexta-feira, maio 28, 2004
quinta-feira, maio 27, 2004
Carminum 2,10
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
Rectius vives, Licini, neque altum
semper urgendo neque, dum procellas
cautus horrescis, nimium premendo
litus iniquum.
auream quisquis mediocritatem
diligit, tutus caret obsoleti
sordibus tecti, caret invidenda
sobrius aula.
saepius ventis agitatur ingens
pinus et celsae graviore casu
decidunt turres feriuntque summos
fulgura montis.
sperat infestis, metuit secundis
alteram sortem bene praeparatum
pectus: informis hiemes reducit
Iuppiter, idem
submovet; non, si male nunc, et olim
sic erit: quondam cithara tacentem
suscitat Musam neque semper arcum
tendit Apollo.
rebus angustis animosus atque
fortis adpare, sapienter idem
contrahes vento nimium secundo
turgida vela.
Horatius
quarta-feira, maio 26, 2004
"Linkaram" o Impensável o Blog de Alex, o Life is just another game o Do Portugal Profundo e o Cinema Xunga 2.
O Impensável agradece.
O Impensável agradece.
terça-feira, maio 25, 2004
Por Europa e por crismas (perdõe-se-me se ofender o espírito laico) de tratados em "constituições", vem-me à memória o que ouvi, no outro dia, com delícia, o Dr. Mário Soares dizer sobre o futuro da Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
Dizia o ilustre ancião, laico e republicano, que as questiúnculas sobre quanto vai receber cada estado são questões de mercearia que não podem prevalecer sobre os grandes ideiais (Europa unida, "La Grande Europe" etc., etc.).
Seria divertido ouvir isto se não fosse perigoso: foram as comezinhas questões de "mercearia" ("no tax without representation") que contribuíram para o fortalecimento do parlamentarismo e da democracia; foram as "grandes e elevadas ideias" que levaram a grande parte das carnificinas que ensanguentaram a Europa.
O governo socialista espanhol não concorda com a referência ao cristianismo, enquanto uma das raízes da cultura europeia, no novo tratado europeu, por pôr em causa a laicidade...
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
A verdade pôr em causa a laicidade, é difícil a gente perceber... mas concordo com a omissão: o tratado, abusiva mas não inocentemente apodado de "constituição", é coerente ao não respeitar a história e, a omissão de um facto indiscutível e pacífico, por indesmentível, condiz com a sua falta de verdade politítica, com o desprezo pela vontade dos europeus, com a autoritária soberba franco-alemã. Deixemo-lo ser inteiramente coerente.
Que faria, de facto, em tal documento, uma referência ao cristianismo?
Ao invés, não me parece que pecasse por atentado ao laicismo a referência à barbárie alemã de há 60 anos ou ao genocídio perpetado pelos revolucionários iluministas franceses aquando da sua revolução. Também esses horrores são raízes da cultura europeia.
Fico à espera.
Há 1269 anos, em 25 de Maio de 735, morria em Jarrow, Inglaterra, S. Beda, o Venerável, um dos grandes Santos da Igreja e da minha particular devoção.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
Pode-se ler aqui notícia da sua vida.
E também aqui se pode saber mais do grande Santo.
Jorge de Sena, num extraordinário conto, intitulado "Mar de Pedras", um dos meus preferidos, homenageia S. Beda.
segunda-feira, maio 24, 2004
Escreve, a propósito de D. Duarte, Oliveira Martins n'"Os filhos de D. João I": "A literatura tem este defeito inerente; toma a nuvem por
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
Juno, confundindo as obras com as palavras. E o literato medíocre apresenta esta agravante: dar valor de ensino às banalidades que lhe passam pelo cérebro, como passam pela ideia de qualquer outro que, todavia, não pratica o vício de as comunicar ao próximo"
Senti-me ligeiramente ofendido, primeiro, mas a crítica, que li, repetida, em Maria Filomena Mónica a propósito dos blogs, parece-me ultrapassada tanto pela abominação romântica da banalidade, quanto por radicar numa visão ultrapassada: a de que "pôr em escrito" ou "pôr por escrito" é uma actividade nobre a que não devem aceder todas as ideias, todos os assuntos, todos os autores.
Ora, parece-me, a moderna abundância e facilidade editorial, perdida a conversa de soleira de porta, de café, de club, de serão velho de província que o século XX se encarregou de liquidar, limita-se a restituiu-nos à nossa condição de autores. Que seja de banalidades e por escrito, quanto, noutros tempos todos o eram oralmente, não me parece constituir um mal.
Mera questão de suporte.
domingo, maio 23, 2004
Entro aqui e deparo com o post anterior e não deixo de me espantar um pouco.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
Convirá explicar que não fui tomado de assalto pela imprensa do coração, que não sou iberista ou bourbónico e que não segui senão longínqua e distraidamente todo o "caso" Astúrias. A explicação para o post é simples: escrevi-o debaixo da irritação produzida pelos ditos e tom dos comentadores que, com as habituais calinadas na língua pátria debitam, em tom condescendente, inanidades sob os regimes monárquicos.
Ah!, mas desejo felicidades aos Príncipes. Muitas.
quinta-feira, maio 20, 2004
Tente-se mandar fazer alguma coisa: arranjar um vidro partido, uma janela, qualquer coisa da casa de banho e pasme-se, meditabunde-se, sobre a fonte de humilhações, aflições e canseiras que essa ambições comedida é: primeiro, surgem os orçamentos 60 mm, som stereo, tecnhicolor, que exigem de nós o trabalho imenso - e é um trabalho imenso - de explicar que não se pretende reeditar Cleopatra, ou pelo menos, parte do cenário, que estavamos mais a pensar num 16 mm, P&B, intimista. Desaparece, nesta altura, grande parte dos pretendentes. Descobriremos, mais tarde, que não eram os piores, que os que ficaram são os verdadeiros killers, dotados de um infalível instinto assassino, mas acobertado sob uma capa de bom senso e de compreensão.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
Libertemo-nos ainda destes últimos (admitindo que isso é possivel): que fiquem, da multidão inicial, quatro ou cinco em quem depositaremos todas as nossas esperanças. O problema é que, como logo descobriremos, eles não tencionam fazer seja o que for: somos, para eles, um passatempo, e os nossos apelos lancinantes são motivo para elaborados exercícios de pensée sauvage. Creio, aliás, que estão combinados entre eles e que, no fim de semana, com os telemovéis desligados, comentarão, entre si, as nossas manobras mais inteligentes para obter uma torneira que não pingue ou, simplesmente, apostar sobre o momento que em que se desvanecerão quaisquer résteas da nossa dignidade.
Os estrangeiros que aqui vivem e que passam por estas situações aproveitam para escreverem livros bem-humorados sobre a coisa (ideia que ainda ontem me ocorreu, quando a torneira da casa de banho iniciava o seu sound workshop nocturno). Acontece, porém, que a consciência de sermos cúmplices da situação nos tira a distanciação irónica ou a bonomia para escrever about com algum wit vendável.
É preciso sofrer, sofrer lusitanamente, entre assaltos de descrença e erupções de confiança e fé; no intervalo, rezar e praguejar.
Vou-me munir da novena de S. Judas Tadeu, o santo das causas perdidas.
quarta-feira, maio 19, 2004
No Abrupto encontrei um poema de Anne de Noialles e esta tarde que ia plácida e sem rumo por entre o calor (que, helàs! não é um puro calor de Maio, mais súbtil e brando que este que faz), zarpou (pega-se numa metáfora inicial e vá de a esgotar até à náusea, procurando "efeitos": assim se escreve mal), retire-se o zarpou, e enfim, o que queria dizer é que me pus a pensar no triste destino da culture française, isto é, parisiense e que, tirando o côté jacobino, é aristocrática, elitista e, por razões de geografia, cosmopolita. Hoje, que Paris não é o já o centro do mundo, le lieu à rendez-vous (honis soyt...)da inteligência, as Viscondessas de Noialles desprovidas de Bunuels e as Condessas de Grefulhes/Guermantes sem Prousts a quem expliquem as relações necessárias do amor a propósito da polinização de uma solitária planta no seu jardim são impossibilidades civilizacionais, luxos incomportáveis.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
Não apenas elas, em si, mas o mundo que as produziu e que era o mesmo em que viveu ainda Valéry, os Goncourts de quem Proust troça nos seus pastiches, Rostand ou Cocteau e que se vai tornando uma realidade incomensurável.
Em Portugal não existiu tal mundo, por motivos que poderiam elencar os dados a exercícios de humilhação - actividade de todo desaprovável numa tarde de Maio - mas existia um outro que admirava aquele e sofria com as intransponíveis diferenças. Mas também esse é, já hoje, para a maioria de nós, um mundo perdido e inexplicável.
A tudo isso sucedeu este, em que vivemos, povoado por crenças tecno-populares de aldeões citadinos (seja lá o que isso possa ser).
Cada vez menos as manhãs são a "fraîche renaissance", senão o retomar do cansaço, sans panache.
terça-feira, maio 18, 2004
sexta-feira, maio 14, 2004
Comecei a ler a notícia, naquele apressado e desatento ler matinal, e julguei que se tratava de um excêntrico francês (espécie rara, a excentricidade francesa deve ser previamente licenciadada e homologada por uma qualquer autoridade, seja ela um comité anarca-libertário, ou uma senhora da moda). Mas a notícia em si, ou melhor o seu começo, levava-me a crer ser obra de um excêntrico: tratava-se de uma acção (civil? penal?)contra o exército britânico. Pensei, de imediato, que se tratava de alguma queixa mirabolante e divertida relacionada com estragos provocados por aquele exército quando desembarcou em França, a 6 de Junho de 1944, nas praias da Normandia, e que o queixoso fosse um esteta do arame farpado, um saudosista da colaboração ou do anti-semitismo. Preparava-me para gozar a situação quando o corpo da notícia me desiludiu: a queixa do francês dizia respeito ao Iraque e aos alegados maus tratos infligidos pelo exército britânico aos iraquianos.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
Manhã estragada: eu, que gosto de uma boa partida e mesmo de alguma desfaçatez quando cometida com panache, desanimei perante tanta falta de vergonha na cara, da antiga e mais rude, sem sprit ou sombra de panache, por esta boutade de capitulacionista em que parece abundar a nova França.
quarta-feira, maio 12, 2004
O Doi-me, um blog hipocondríaco, linkou o Impensavel, que agradece.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Pelo que pude ver, a hipocondria é um tanto incipiente, aquilo a que chamo "hipocondria não esclarecida, frustre ou ingénua" mas o blog é simpático, e se ele diz que lhe dói, quem sou eu para o desanimar...
Seja bem vindo.
Já tinha ouvido falar dela e em 1974 li, em viagem, uma biografia. "Ela" é Lou Andreas Salomé e creio que foi a última das minhas paixões "literárias" adolescentes. Ao folhear, ontem, uma outra edição, encontro um excerto do diário:
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
"Um diário é um instrumento que não se destina a fixar a recordação de determinados dias, mas sim de factos dissociados do tempo, duradouros. Tão depressa registamos acontecimentos como pensamentos, quando na verdade não visamos nada disso, mas antes um qualquer elemento que a vida faz crescer no seu intervalo"
Uma boa definição também para os blogs, pensei, e mesmo um programa para os blogs portugueses que têm uma desagradável propensão para o artigo de fundo.
Mas, e a terminar, escrevia Andreas-Salomé: "Às vezes é um jardim em flor que ninguém consegue adivinhar por detrás das palavras, a não ser aquele que as escreveu para si mesmo e que, ao vê-las, se recorda como murcha à vista de uma florzinha"
Numa primeira leitura, achei a última frase um péssimo fim e desisti de publicar no meu blog frases "à vista de uma florzinha". Achei a frase possidónia, para não dizer imprópria para uma citação num blog masculino. Depois, já hoje, pensei que Lou era a mulher de quem alguém disse que, quando um homem se apaixonava por ela, dava à luz um livro nove meses depois, a mulher que fez Nietszche fazer inumeráveis tristes figuras e resolvi transcrever tudo.
Que todos nós tenhamos o direito de desfalecer à vista de florzinhas..
E com isto, com a reivindicação do direito a ser ridículo, perdi o fio do post que era bem outro e metia Proust e Camilo e mais alguns daqueles que escrevem obras que crescem no intervalo das nossas vidas.
segunda-feira, maio 10, 2004
domingo, maio 09, 2004
O Mar Salgado faz um ano.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
O Impensável dá, com muito gosto, os parabéns à ilustre tripulação e, em especial, a Nuno Mota Pinto que linkou o Impensavel pouco depois deste surgir.
Ontem, dia 8, foi o aniversário do fim da II Guerra Mundial na Europa, com a vitória dos exércitos aliados sobre os da Alemanha.
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
Os exércitos aliados eram, convirá não esquecer, os da Grã-Bretanha e Império Britânico, USA e os da então União Soviética.
Todos eles ocuparam parte da Europa, mas o destino dos territórios ganhos aos alemães foram diversos: os países vencidos pelos alemães e libertados pelos exércitos britânicos e norte-americanos transformaram-se em democracias mais ou menos bem sucedidas (França, Alemanha Ocidental, Itália) e os países ocupados pelo exército vermelho foram sujeitos a ditaduras que só acabaram com o fim da União Soviética.
É desses exércitos, britânico e norte-americano, que ainda hoje esperaria a libertação, caso uma nova ameaça totalitária se abatesse sobre a Europa. Foram esses exércitos, aliás, que resolveram, mais recentemente, a questão dos Balcãs, perante a manifesta incapacidade dos vencidos da II Guerra Mundial, maxime da Alemanha e da França em parar as hostilidades e a carnificina na Bósnia,
Fiquei, por isso, estupefacto e preocupado com as recentes notícias de torturas infligidas pelos exércitos que salvaram a Europa dos horrores da guerra e ver a solidez do funcionamento das instituições parlamentares para que a situação seja esclarecida e punidos os culpados é fraca consolação.
As fotografias da soldado norte-americana (que nunca tinha lido a Convenção de Geneve...) com o seu ar "leve" e divertido e "clean", anti-tabágica, recendendo inocência, reclamando-se da inocência do obedecimento às ordens dadas, fez-me pensar na banalidade do mal de Arendt, ou, mais precisamente, no seu quase reinante "inverso": na "banalidade do bem" que o "politicamente correcto" formula e promove, com a terrível consequência de esquecermos que a humanidade, tida aqui pelo que de melhor há em nós, não é adquirida, ou segura; que, certamente, nunca é banal, mas incerta, por vezes escusa, que é preciso duvidar sempre, temer e tremer perante certezas.
À young woman soldado (terá ela o seu blog?) deixo o conselho: "just say no".
quarta-feira, maio 05, 2004
Abril águas mil e não choveu quase, mas é motivo para estes dias plúmbeos em Maio, ademais sem trovoadas, cinza e chuva "tout court"? Não é.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
Por mim, que já tinha encerrado a contabilidade dos chapéus de chuva perdidos esta estação, com resultados que me lisonjeiam (chapéu e meio, já que tenho um palpite sólido sobre onde possa estar o último que comprei), decidi não sair se ameaçar chover. E, esta tarde, desde que acabei de almoçar, tenho estado a calcular as probabilidades de apanhar uma molha se me aventurar rua fora, já que não voltarei a pegar no chapéu de chuva antes de finais de Setembro.
Não posso deixar de referir que se todos partilhassem a minha firme determinação nestes assuntos a vida seria mais fácil. Pactuar com caprichos, eis um erro que não tenciono cometer.
segunda-feira, maio 03, 2004
Mea culpa
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Acabo de ver, aqui, a transcrição da entrevista de que falei no post anterior.
Modifica, substancialmente, a impressão com que fiquei.
Ontem, Domingo, vi, por acaso, parte de uma entrevista dada pelo Dr. João Salgueiro a duas senhoras mal humoradas. O problema, contudo, não é o mau humor das senhoras, mas a inépcia e mediocridade reveladas.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
O Dr. João Salgueiro bem tentava falar de problemas graves: a questão do déficit - o estado gasta mais 5% do que arrecada - a questão da falta de estratégia de desenvolvimento económico do país a médio e a longo prazo (e igual falta de estratégia europeia), o problema de um país que tem tantos empregados quanto imigrantes, a necessidade de gerir a Justiça, de reformar a administração pública. Isto é, o Dr. João Salgueiro tentava falar dos problemas nacionais. E eu bem o queria ouvir discorrer sobre eles... As senhoras, contudo, estavam mais interessadas em saber do discurso do Presidente da República e se ele era uma advertência ao governo, ou se, em si, continha contradições.
Talvez em consequência do que lhe estava a acontecer, do total desinteresse das senhoras pelas questões que tentava expor, o Dr. João Salgueiro levantou a questão da responsabilidade do nosso jornalismo pela falta de debate de tais problemas no país. O tempo escoou-se, as senhoras deram por terminada a entrevista.
Eu, por mim, no remanso do sofá, pensava que ficariam ambas muito bem no desemprego.
Infelizmente, porém, atendendo às preocupações de ambas por questões tão tormentosas e facilidade de discernir o essencial do acessório, auguro-lhes um futuro brilhante entre os seus pares.
O TLS tem chegado às segundas-feiras. É muito agradável ler artigos com mais substantivos do que adjectivos, escritos por quem domina o assunto sobre que escreve e não meramente se "desenrasca" sobre ele, por haver lido meia dúzia de artigos.
A propósito, tenho dado por mim a pensar que, com duas ou três assinaturas, cabo, abstenção da imprensa e televisão indígenas - e da grande maioria dos assuntos locais, em geral - e internet, a amazon (fr e uk) e as poupanças bem empregues em fundos internacionais, já disponíveis para qualquer aforrador, não é totalmente doloroso viver aqui. Poderá haver alguma coisa de paternalismo fradiquista nesta minha opinião mas, para quem a natureza não dotou generosamente com o dom do entusiasmo, esta condição de "neo-estrangeirado" é uma solução muito praticável.
sábado, maio 01, 2004
O alargamento da UE põe fim à separação europeia que a barbárie nazi e comunista provocou no terrível século vinte e foi com uma emoção que não me suspeitava que vi imagens das populações a celebrar a entrada dos seus países nesta Europa que, para a maioria é, e eles sabem-no, a entrada num mundo difícil, num trabalhoso futuro em branco que se pode ganhar ou perder. Mas não é essa a melhor das apostas? a da Topia?
Com a entrada dos novos países, não sei se Portugal deixará o último lugar nos índices europeus. Se deixar, não nos preocupemos: em breve nos será devolvido, a bem de sonhos com futuros magníficos.
Com a entrada dos novos países, não sei se Portugal deixará o último lugar nos índices europeus. Se deixar, não nos preocupemos: em breve nos será devolvido, a bem de sonhos com futuros magníficos.
terça-feira, abril 27, 2004
O advogado cubano Juan Carlos Gonzalez Leyva foi condenado a 4 anos de prisão - está preso, preventivamente, já há dois - por ultraje ao presidente cubano, o ditador Castro, por resistência à polícia e perturbação da ordem pública.
Espero que o ilustre advogado tenha mesmo ultrajado o ditador, é uma honra que poucos podem almejar; espero, de igual modo, que tenha conseguido perturbar a ordem pública que, na barbárie totalitarista é tarefa a um tempo fácil e quase impossível. Duvido, no entanto, que tenha conseguido resistir à polícia, já que é cego.
Note-se a linguagem "ordeira", própria dos regimes totalitários de destino único. Sob ela se esconde a violência, nela vive a barbárie das certezas.
Espero que o ilustre advogado tenha mesmo ultrajado o ditador, é uma honra que poucos podem almejar; espero, de igual modo, que tenha conseguido perturbar a ordem pública que, na barbárie totalitarista é tarefa a um tempo fácil e quase impossível. Duvido, no entanto, que tenha conseguido resistir à polícia, já que é cego.
Note-se a linguagem "ordeira", própria dos regimes totalitários de destino único. Sob ela se esconde a violência, nela vive a barbárie das certezas.
segunda-feira, abril 26, 2004
domingo, abril 25, 2004
terça-feira, abril 20, 2004
"Fuja-se ao agreste, etc.": é difícil não "verdurinar" de quando em vez. O uso deste "imperativo" - que é um conjuntivo... - de cumplicidade muito paternalista é irritante, subjaz-lhe o convite dificilmente declinável e levemente histérico a todos aqueles - e espera-se que "todos" sejam os poucos - que não podem ser muitos - que comungam da nossa sensibilidade, ou estética, portadores de idiossincrasias ou sinestesias assemelhadas - a que atribuimos, por aquelas falazes razões, um mesmo desconforto.
Destesto essa pastorícia da solidariedade, ou da "eleição" mas o certo é que caí nela.
Nota: Fez muito bem em ler as notas de Yourcenar. Não me lembro já do texto, nem o vou reler para confirmar impressões. Mas que má disposição contra Marguerite Yourcenar! Eu entendo, com mais ou menos erupções ou eructações, o que ela quer dizer, como julgo perceber o que Sena quer dizer quando afirma que o melhor confessionalismo da poesia portuguesa é requintadamente intelectual.
Parti pris, é o que é...
Destesto essa pastorícia da solidariedade, ou da "eleição" mas o certo é que caí nela.
Nota: Fez muito bem em ler as notas de Yourcenar. Não me lembro já do texto, nem o vou reler para confirmar impressões. Mas que má disposição contra Marguerite Yourcenar! Eu entendo, com mais ou menos erupções ou eructações, o que ela quer dizer, como julgo perceber o que Sena quer dizer quando afirma que o melhor confessionalismo da poesia portuguesa é requintadamente intelectual.
Parti pris, é o que é...
segunda-feira, abril 19, 2004
quinta-feira, abril 15, 2004
Aqui há dias deixei cruelmente subentendido o mau receber reinante nas lojas de Lisboa por comparação às de Coimbra. Ontem à tarde, cumpridas as obrigações que me levaram à capital, fui fazer compras. E dado o modo como tudo correu, tenho de deixar aqui a declaração honesta de que há lojas em Lisboa onde ainda é um gosto ir. Numa delas, uma camisaria, fui recebido como um filho pródigo, dada a minha longa ausência. Conversa simpática, divertida, desarrumação imensa do balcão, encomenda (modesta) feita. Encorajado pelo sucedido, visitei outras. Comprasse ou não comprasse, sempre um ar solícíto e atento. Entre as visitas às lojas, os táxis. Embora com greve, não esperei mais de três minutos por um táxi! A explicação para o fenómeno, que ouvi atentamente, relevava das férias escolares e da crise. A crise é cruel, sei-o, mas faz maravilhas no que respeita ao atendimento e ao passear à tarde em Lisboa.
Notículas: a) recebi um mail recomendando-me muito o filme do Gibson, que "era lindo". O autor do mail era um bom católico - ao contrário de mim que sou um mau católico, preguiçoso e desleixado, ou seja, tradicional - mas "lindo" parece-me um adjectivo muito impróprio e de mau gosto. Não vou nada ver o filme.
b) Num programa na Antena 2 - não sei se para a "juventude" - falam de música com "giríssimos!" e outros adjectivos exclamativos semelhantes. Os adjectivos, mesmo mais habituais abundam. Os substantivos, não sendo mal usados, rareiam.
c) Chegou a minha encomenda de Curzon Street e, de cá, os livros que tinha encomendado. Ambas com algum atraso. Eu, que sou impaciente, tenho usado estes atrasos habituais como disciplinas, e insisto em encomendas por telefone, correio, e "on line". Estou, todavia, longe de conseguir resultados: se não as esqueço, às encomendas, mirro-me com a espera, devo confessar
Notículas: a) recebi um mail recomendando-me muito o filme do Gibson, que "era lindo". O autor do mail era um bom católico - ao contrário de mim que sou um mau católico, preguiçoso e desleixado, ou seja, tradicional - mas "lindo" parece-me um adjectivo muito impróprio e de mau gosto. Não vou nada ver o filme.
b) Num programa na Antena 2 - não sei se para a "juventude" - falam de música com "giríssimos!" e outros adjectivos exclamativos semelhantes. Os adjectivos, mesmo mais habituais abundam. Os substantivos, não sendo mal usados, rareiam.
c) Chegou a minha encomenda de Curzon Street e, de cá, os livros que tinha encomendado. Ambas com algum atraso. Eu, que sou impaciente, tenho usado estes atrasos habituais como disciplinas, e insisto em encomendas por telefone, correio, e "on line". Estou, todavia, longe de conseguir resultados: se não as esqueço, às encomendas, mirro-me com a espera, devo confessar
quinta-feira, abril 08, 2004
"E então, as feriazinhas? Para onde? Lá para baixo? Estrangeiro?" - isto dito com um ar afirmativo - o tom interrogativo é de mera retórica, antes convidativo a um assentimento cúmplice - deixa-me desarmado. Difícil explicar que fico em casa a arrumar papelada, pôr umas leituras em dia, preguiçar e gozar a ausência dos amigos, queridos amigos sejam eles - e que, este ano, diasporaram com um assombroso zelo. Uns na Índia, outros a caminho do círculo polar ártico après investigação ao Hermitage, outros, menos imaginativos, para o sol da Bahia.
Eu vou, daqui a pouco, ao supermercado, sem deixar de considerar que não é dia para se ir passear por entre as áleas dos produtos de limpeza, e onde felizmente, não espero encontrar ninguém.
E amanhã e depois, e talvez no Domingo, não tenciono sair de casa, espero, senão para as cerimónias da Semana Santa.
Daqui a pouco, à tardinha, relerei a sequência de Páscoa da Marguerite Yourcenar - tenho dúvidas se é este o título correcto - um roteiro para o essencial destes dias.
Eu vou, daqui a pouco, ao supermercado, sem deixar de considerar que não é dia para se ir passear por entre as áleas dos produtos de limpeza, e onde felizmente, não espero encontrar ninguém.
E amanhã e depois, e talvez no Domingo, não tenciono sair de casa, espero, senão para as cerimónias da Semana Santa.
Daqui a pouco, à tardinha, relerei a sequência de Páscoa da Marguerite Yourcenar - tenho dúvidas se é este o título correcto - um roteiro para o essencial destes dias.
quarta-feira, abril 07, 2004
No portal Sapo noticia-se que o Santo Padre convidou os fiéis a meditarem sobre "o mal".
Noto as aspas e pergunto-me em nome de que negro optimismo - ou de que mera negligente ingenuidade - o jornalista de serviço "tentou resolver o assunto" tão pouco consentâneo com alegres preparativos de idas para algarves, brasis, caraíbas ou balis.
Noto as aspas e pergunto-me em nome de que negro optimismo - ou de que mera negligente ingenuidade - o jornalista de serviço "tentou resolver o assunto" tão pouco consentâneo com alegres preparativos de idas para algarves, brasis, caraíbas ou balis.
terça-feira, abril 06, 2004
Ontem, dia passado em Coimbra. Compras. Feitas elas, as programadas, rumo à Baixa, pedir por mim e pelo País em Santa Cruz. Depois, tomando como base o Nicola, incursões pelas ruas vizinhas. Visita de devoção à Almedina e fúria compradora que me provocou problemas logísticos: as compras tiveram de ser levadas por um funcionário até ao Montanha que serviu de interface - gostei desta do interface Montanha - onde esperei que outra pessoa transportasse a livralhada toda até ao carro. Todas estas dificuldades se tornam mais compreensíveis se disser que entre os livros que comprei estava o Houaiss. Mais tarde, em casa, regozijei-me com a compra do dicionário, embora pense ter encontrado um erro na palavra "entrevista" que é dada como aparecida na língua em 1908 tendo eu quase a certeza que Eça a usou.
Em Coimbra ainda: que beleza de dia, que cor magnífica! De menos agradável, apenas o branco da pedra que usaram nos pavimentos das ruas e que, nalguns casos, pela intensidade luminosa, prejudica a riqueza cromática (também gostei desta).
E as pessoas? As pessoas das lojas (livrarias, lojas de roupa, de som e ourivesarias são amáveis, simpáticas, sabedoras e prestáveis, como tenho a vaga lembrança de terem sido as de Lisboa, anos atrás, muitos anos atrás. Numa dessas lojas entrei a fumar e, tendo-me apercebido disso, dispunha-me a apagar o cigarro quando me trouxeram, com ar simpático e solícito, um cinzeiro: podia-se fumar! Em sinal de gratidão, comprei uma caixa de dvds que, nos meus planos de compras, estava reservada para o depois de verão e, ainda uns Wagners e Mahlers dirigidos pelo Boulez.
Voltarei, assim possa.
Em Coimbra ainda: que beleza de dia, que cor magnífica! De menos agradável, apenas o branco da pedra que usaram nos pavimentos das ruas e que, nalguns casos, pela intensidade luminosa, prejudica a riqueza cromática (também gostei desta).
E as pessoas? As pessoas das lojas (livrarias, lojas de roupa, de som e ourivesarias são amáveis, simpáticas, sabedoras e prestáveis, como tenho a vaga lembrança de terem sido as de Lisboa, anos atrás, muitos anos atrás. Numa dessas lojas entrei a fumar e, tendo-me apercebido disso, dispunha-me a apagar o cigarro quando me trouxeram, com ar simpático e solícito, um cinzeiro: podia-se fumar! Em sinal de gratidão, comprei uma caixa de dvds que, nos meus planos de compras, estava reservada para o depois de verão e, ainda uns Wagners e Mahlers dirigidos pelo Boulez.
Voltarei, assim possa.
sábado, abril 03, 2004
quinta-feira, abril 01, 2004
Mais facilmente do que supunha, estou a conseguir refazer os links dos blogs. Não sei se estão todos os que blogs que estavam antes da "petite catastrophe". Tentarei repor.
À tarde, cansado, desalentado, recolhi ao sofá e peguei no primeiro da rima que está ao lado e muito irrita a empregada. Era "A Velhice" - De Senectude - de Cícero (em tradução francesa). A última frase que li: "Si, comme le pensent certains philosophes, il n'y a rien après la mort, alors je n'ai pas a craindre les railleries des philosophes disparus".
À tarde, cansado, desalentado, recolhi ao sofá e peguei no primeiro da rima que está ao lado e muito irrita a empregada. Era "A Velhice" - De Senectude - de Cícero (em tradução francesa). A última frase que li: "Si, comme le pensent certains philosophes, il n'y a rien après la mort, alors je n'ai pas a craindre les railleries des philosophes disparus".
quarta-feira, março 31, 2004
Estava farto do "template", quis experimentar outros e o estafermo do site ou o que isto é, que às vezes é um castigo para fazer qualquer coisa, obedeceu logo à ordem, a errada, aselha ordem.
Fiquei sem os meus "links" (hoje, que os tinha actualizado...) e terei de andar em busca dos contadores e de passwords que nunca anoto, etc...)
Fiquei com esta medonhez gráfica (o outro era feio, mas mais discreto) que terei de ir aperfeiçoando até estar legível...
Fiquei sem os meus "links" (hoje, que os tinha actualizado...) e terei de andar em busca dos contadores e de passwords que nunca anoto, etc...)
Fiquei com esta medonhez gráfica (o outro era feio, mas mais discreto) que terei de ir aperfeiçoando até estar legível...
Tempo desagradável, este, de vendavais e cinzentos gastos. Leio e oiço música na happy hour. Ainda antes de jantar andei à procura de qualquer coisa alegre para "postar" aqui, é uma incompetência, este blog, semi abandoando e tristonho, mas perdeu-se o Matisse que tinha escolhido e voltar a repetir tudo, superou o meu enfraquecido querer. Não sei porque, mas anseio por Junho, por um Junho normal, sem canículas, época em que gosto de reler a Ilustre Casa e meditar sobre o forte fado e a acção que nos pode libertar dele.
Mas estamos longe de Junho... as bétulas em frente ainda estão sem folhas, invernais e tristonhas.
Mas estamos longe de Junho... as bétulas em frente ainda estão sem folhas, invernais e tristonhas.
segunda-feira, março 29, 2004
Após um fim-de-semana agradável (em casa) vem, com a Segunda-Feira, a primeira notícia desagradável: na Irlanda uma nova lei proíbe que se fume em locais públicos. Presumo que, também, nos Pubs... Desalentei, de início, confesso, mas depois, reflecti e, das duas uma: ou a lei foi forjada durante um "irish awake" ou é fruto da proverbial ironia irlandesa.
Marquei já, mentalmente, uma verificação "in loco" sobre o cumprimento da legislação. Se não se limitar a dar azo a boas gargalhadas irlandesas entre nuvens de fumo e inspiração poética, perco um pouco mais da minha fé na humanidade.
Marquei já, mentalmente, uma verificação "in loco" sobre o cumprimento da legislação. Se não se limitar a dar azo a boas gargalhadas irlandesas entre nuvens de fumo e inspiração poética, perco um pouco mais da minha fé na humanidade.
sexta-feira, março 26, 2004
quinta-feira, março 25, 2004
Leio isto e desta colecção de sensatas evidências retenho o "Mesmo em Eça". A que vem este "mesmo"? Eça não apenas escreveu o magnífico texto a que Pacheco Pereira se refere - e que, salvo erro, se chama "No mesmo Hotel" - como outros dedicados ao terrorismo anarquista. "Mesmo" porquê?
Links
"Linkaram" o Impensavel, o "Extractos do Estrago da Nação", o "Reportagens Ambientais", os dois primeiros de Pedro de Almeida Vieira, o "Galo Verde" e o "XX-XY"
O Impensável a todos agradece.
"Linkaram" o Impensavel, o "Extractos do Estrago da Nação", o "Reportagens Ambientais", os dois primeiros de Pedro de Almeida Vieira, o "Galo Verde" e o "XX-XY"
O Impensável a todos agradece.
quarta-feira, março 24, 2004
Nos dois últimos post aconselhava - num deles com veemência - a leitura de livros. É uma forma de jactância, a actividade aconselhatória, seja ela embora branda e, por isso, a evitar. Enquanto espero os livros da Gallimard, leio agora - profíqua, esta Primavera - "Isabel, Condessa de Rio Maior", apresentação, biografia e notas de Maria Filomena Mónica. Como não há duas sem três, aconselho, também.
Ontem à noite, levado pelos furores primaveris de desatulhar de papel velho estantes, cadeiras e gavetas, preparava-me para deitar fora uma edição especial do BOA nº 29 - que é o Boletim da Ordem dos Advogados - julgando tratar-se de publicidade (uma publicidade tenebrosa, "topo de gama"), quando descobri a transcrição de uma comunicação do Prof. Fernando Gil sobre o Mal. Também recomendaria, se não fossem recomendações a mais.
Ontem à noite, levado pelos furores primaveris de desatulhar de papel velho estantes, cadeiras e gavetas, preparava-me para deitar fora uma edição especial do BOA nº 29 - que é o Boletim da Ordem dos Advogados - julgando tratar-se de publicidade (uma publicidade tenebrosa, "topo de gama"), quando descobri a transcrição de uma comunicação do Prof. Fernando Gil sobre o Mal. Também recomendaria, se não fossem recomendações a mais.
domingo, março 21, 2004
quinta-feira, março 18, 2004
Tinha, por um mero acaso, visto a entrevista que o Prof. Fernando Gil concedeu a Maria João Avillez acerca do “Impasses”, livro de que é co-autor.
Via-a, no entanto, sem lhe poder prestar atenção e as condições da emissão eram péssimas. Tomei nota mental para comprar a obra.
Entrevistadora e entrevistado estranharam o silêncio de que a saída do livro foi rodeada. Mais tarde, Pacheco Pereira recomendava a leitura do livro e estranhava, também ele, a falta de reacções.
Hoje, lido o “Impasses”, percebo que o espanto é retórico.
Quem lhe poderia responder? E o quê?
Leiam – aconselho veementemente - e digam se não tenho razão.
Via-a, no entanto, sem lhe poder prestar atenção e as condições da emissão eram péssimas. Tomei nota mental para comprar a obra.
Entrevistadora e entrevistado estranharam o silêncio de que a saída do livro foi rodeada. Mais tarde, Pacheco Pereira recomendava a leitura do livro e estranhava, também ele, a falta de reacções.
Hoje, lido o “Impasses”, percebo que o espanto é retórico.
Quem lhe poderia responder? E o quê?
Leiam – aconselho veementemente - e digam se não tenho razão.
quarta-feira, março 17, 2004
Ontem, e depois de quase um mês acoitado no puro pânico de viver este fim de inverno, voltei a Lisboa.
Os comboios para Lisboa, outrora definidores de tempos e modos (a propos, preciso comprar a antologia) mesmo de destinos, postmodernizaram-se e a gente vê-se em palpos de aranha para sacudir a impressão de um viajar sem sentido num mundo que se "suburbizou", que se viaja entre arrebaldes de um impossível destino em carruagens que imitam as de um metro de inexistentes metrópoles. Felizmente, a lezíria está lá fora - existe, por isso, o "lá fora" - e recupera-se o pé.
E as conversas, as conversas destes combóios uniclassistas, também se busque nelas algum alívio: ontem, era sobre a obra social de um activo pároco que discorriam os meus vizinhos de lugar. O tom das observações tinha de algum Júlio Dinis e da retórica oficial que, presumo, seja de praxe em inaugurações dos fontanários ou das "acessibilidades" de agora, rotundas, maioritariamente.
Chegado à Repartição - ia para uma repartição, e em trabalho - um calor imenso, atribuía um significado novo à expressão inferno burocrático. Lá de mais à frente na fila expectante, vem ter comigo a irmã de uma velha amiga e a espera - no meu caso, uma espera vã: era no andar de cima, onde não havia espera, o meu "guichet" - a espera, escrevia, passou-se entre o falar-se de amigos comuns a alguns aspectos mais herméticos das exigências e ingratidões dos caseiros do Douro. Detectado o erro - que acabei por não lamentar - despedimo-nos até à praia, ambos sem a certeza de irmos lá, este ano.
Não consegui tratar de nada: o novo diploma legal é recente, os funcionários não tiveram qualquer formação, obtive a promessa de que amanhã, estudado hoje, por ambos, o problema, se faria nova tentativa.
E com isto, ao meio dia já nada tinha que fazer senão esperar até à hora do combóio.
Levado, talvez, pela noção de que a questão administrativa não seria de difícil resolução - ou pelo calor - resolvi ver de almoço. Não estando em Lisboa a única pessoa com quem me gostaria de almoçar, decidi-me por um "snack" breve e resolvi dedicar-me a uma apreciação de como estava de "coisas de verão". Estava mal, feito de memória o inventário. Parti para as lojas e, devo confessar, as horas seguintes foram de prodigalidade.
Voltei no combóio da tarde, não "o da tarde" habitual, mas num outro, que me fascina por supor sempre que não existe, por julgar que, a viagem da tarde é o sonho breve, ainda a caminho de Lisboa, com o regresso a casa, num combóio de horario inverosímil que é aquele.
Em casa, verifico a bondade das compras, penalizo-me perante os absurdos, folheio os livros que comprei, releio mais uma vez as etiquetas, as instruções de lavagem, suspiro de desgosto, conforto e tédio e às dez da noite, ansioso por um sono lustral, deito-me e adormeço.
Os comboios para Lisboa, outrora definidores de tempos e modos (a propos, preciso comprar a antologia) mesmo de destinos, postmodernizaram-se e a gente vê-se em palpos de aranha para sacudir a impressão de um viajar sem sentido num mundo que se "suburbizou", que se viaja entre arrebaldes de um impossível destino em carruagens que imitam as de um metro de inexistentes metrópoles. Felizmente, a lezíria está lá fora - existe, por isso, o "lá fora" - e recupera-se o pé.
E as conversas, as conversas destes combóios uniclassistas, também se busque nelas algum alívio: ontem, era sobre a obra social de um activo pároco que discorriam os meus vizinhos de lugar. O tom das observações tinha de algum Júlio Dinis e da retórica oficial que, presumo, seja de praxe em inaugurações dos fontanários ou das "acessibilidades" de agora, rotundas, maioritariamente.
Chegado à Repartição - ia para uma repartição, e em trabalho - um calor imenso, atribuía um significado novo à expressão inferno burocrático. Lá de mais à frente na fila expectante, vem ter comigo a irmã de uma velha amiga e a espera - no meu caso, uma espera vã: era no andar de cima, onde não havia espera, o meu "guichet" - a espera, escrevia, passou-se entre o falar-se de amigos comuns a alguns aspectos mais herméticos das exigências e ingratidões dos caseiros do Douro. Detectado o erro - que acabei por não lamentar - despedimo-nos até à praia, ambos sem a certeza de irmos lá, este ano.
Não consegui tratar de nada: o novo diploma legal é recente, os funcionários não tiveram qualquer formação, obtive a promessa de que amanhã, estudado hoje, por ambos, o problema, se faria nova tentativa.
E com isto, ao meio dia já nada tinha que fazer senão esperar até à hora do combóio.
Levado, talvez, pela noção de que a questão administrativa não seria de difícil resolução - ou pelo calor - resolvi ver de almoço. Não estando em Lisboa a única pessoa com quem me gostaria de almoçar, decidi-me por um "snack" breve e resolvi dedicar-me a uma apreciação de como estava de "coisas de verão". Estava mal, feito de memória o inventário. Parti para as lojas e, devo confessar, as horas seguintes foram de prodigalidade.
Voltei no combóio da tarde, não "o da tarde" habitual, mas num outro, que me fascina por supor sempre que não existe, por julgar que, a viagem da tarde é o sonho breve, ainda a caminho de Lisboa, com o regresso a casa, num combóio de horario inverosímil que é aquele.
Em casa, verifico a bondade das compras, penalizo-me perante os absurdos, folheio os livros que comprei, releio mais uma vez as etiquetas, as instruções de lavagem, suspiro de desgosto, conforto e tédio e às dez da noite, ansioso por um sono lustral, deito-me e adormeço.
segunda-feira, março 08, 2004
Há dois ou três anos que, por estas alturas, finjo pensar a sério ir nas férias grandes para uma daquelas praias bretãs ou normandas que Eça escolhia para as férias da sua Família. Este ano, tomado de ambição, finjo que poderia, além disso, visitar algumas ilhas do Canal, ou mesmo a costa sul inglesa.
Porém, a solução mais sensata e que a inércia - deusa poderosa e salvífica a quem dedico um culto estreme - dita é ficar aqui, na cidadezinha semi-desértica, cultivando o passeio higiénico do depois do jantar das noites de verão, povoado de vozes ao longe de casais de reformados que relatam as peripécias serenas da primeira quinzena ou dos entusiasmos dos adolescentes que estiveram "lá em baixo" - presumo que no Algarve - e ainda vão sair outra vez (vão sempre sair outra vez). Mentem eles um pouco - mais para não desiludir os circunstantes do que por vã glória - e minto eu no fingir ouvi-los desatento às geografias recônditas que contam, no não ser um resignado cartógrafo delas.
Porém, a solução mais sensata e que a inércia - deusa poderosa e salvífica a quem dedico um culto estreme - dita é ficar aqui, na cidadezinha semi-desértica, cultivando o passeio higiénico do depois do jantar das noites de verão, povoado de vozes ao longe de casais de reformados que relatam as peripécias serenas da primeira quinzena ou dos entusiasmos dos adolescentes que estiveram "lá em baixo" - presumo que no Algarve - e ainda vão sair outra vez (vão sempre sair outra vez). Mentem eles um pouco - mais para não desiludir os circunstantes do que por vã glória - e minto eu no fingir ouvi-los desatento às geografias recônditas que contam, no não ser um resignado cartógrafo delas.
quinta-feira, março 04, 2004
terça-feira, março 02, 2004
Noite passada dedicada a leituras. Comecei pelo TLS onde li o artigo de Georges Steiner sobre o livro de Pierre Bouretz "Témoins du Futur - Philosophie et messianisme" - que aconselho. Deixo um link-recado para o Rua da Judiaria. Depois de ter lido o artigo, passei os olhos pelo último livro do Comte-Sponville "Le capitalisme est-il moral?" - cedo demais para fazer um juízo, mas fez-me reler partes do Esplendor da Verdade.
Acabei, já tarde, a ler Mme. de Sévigné na única edição que possuo - uma velhinha "Sá da Costa" traduzida por Vitorino Nemésio.
Tenho de mudar de lote de café "aprês dîner"...
Acabei, já tarde, a ler Mme. de Sévigné na única edição que possuo - uma velhinha "Sá da Costa" traduzida por Vitorino Nemésio.
Tenho de mudar de lote de café "aprês dîner"...
segunda-feira, março 01, 2004
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
É como escrevia há pouco: vento áspero e muito frio. Cá em casa sempre se temeram os Fevereiros e responsabilizavam-se alguns deles pelas longas estadias de parentes em longínquas montanhas. De um deles, condenado a seis ou sete anos de Davos, li quase toda a correspondência, num fim-de-semana que passei em casa de uma irmã sua. Esperanças na cura rápida, primeiras desilusões e contratempos, o habituar-se a um outro tempo, uma paixão exótica por uma filha de um ministro (ou presidente?) de um país da America Latina (Perú? Uruguai? Já não me lembro) e, finalmente os prenúncios - diria, as primeiras suspeitas - de cura. A última carta que li dele, um postal de Veneza, na Praça de S. Marcos, mostrava-o coberto de pombos, sorrindo, no começo dos anos trinta. A viagem de regresso, longa e ziguezaguante desmentia as saudades de casa e de todos os seus que protestava nos finais das suas cartas. Veio a morrer num verão, trinta e cinco anos depois, de congestão, que logo foi atribuída à demasia do sol de Julho. Imolado aos elementos, este Castorp lusitano.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Manhã inteira sem electricidade - e dadas as modernidades (bombas de elevação que funcionam a energia eléctrica, etc.) - sem água.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
domingo, fevereiro 22, 2004
quinta-feira, fevereiro 19, 2004
Passei rapidamente, o sono urgia.
Mas parece-me que é um blog e seguir com atenção
Amanhã - logo - vou ver melhor o Fogo Grego.
Mas parece-me que é um blog e seguir com atenção
Amanhã - logo - vou ver melhor o Fogo Grego.
terça-feira, fevereiro 17, 2004
À tarde descobri que não tinha selos e fui comprá-los a um daqueles postos de correio automáticos. Este fica logo ali, depois do jardim. Quando virei a esquina, vi o painel dos selos aberto e embrenhado nas parcas entranhas deixadas a descoberto, uma criatura de ar apavorado e infeliz. Perguntei, amável, se iria demorar muito. Ele, que na mão esquerda empunhava uma folhinha A4 com meia dúzia de linhas de instruções, respondeu-me que sim. "Uhm", murmurei eu, com um ar contrariado, "mas é difícil"? Que sim, novamente. Resolvi esperar, sem pressa que estava. Durante cinco minutos olhou aquele papel, que eu fui lendo em olhadelas furtivas. Pareceram-me as instruções pristinas. Eu julgara antes, por um ar que julguei de enfado, que o homenzinho seria um céptico das modernices que, obrigado a conviver, a tratar com elas, exibia o mesmo ar que um marceneiro ateu convicto poria se lhe destinassem como tarefa a amorosa restauração da estátua dos Três Pastorinhos.
Não se tratava disso, porém. O que estava à vista era o que não via há muito, em grau tão elevado de pureza: a velha e simpática burrice, de cara lavada, sem disfarces nem arrebiques, apenas levemente tímida e tristonha.
Comovi-me, desejei bom trabalho, murmurei mesmo algumas coisas sobre "estas coisas que estão sempre avariadas" e pus-me a caminho do correio, imerso na memória das pessoas burras da minha infância, de uma burrice simples e bondosa,um pouco acanhada, e de quem tanto gostei: criadas velhas, um ou outro colega de escola, aquela velha parenta que nunca ouvia bem.
Os selos lá aumentaram outra vez. Não sei onde iremos parar...
Não se tratava disso, porém. O que estava à vista era o que não via há muito, em grau tão elevado de pureza: a velha e simpática burrice, de cara lavada, sem disfarces nem arrebiques, apenas levemente tímida e tristonha.
Comovi-me, desejei bom trabalho, murmurei mesmo algumas coisas sobre "estas coisas que estão sempre avariadas" e pus-me a caminho do correio, imerso na memória das pessoas burras da minha infância, de uma burrice simples e bondosa,um pouco acanhada, e de quem tanto gostei: criadas velhas, um ou outro colega de escola, aquela velha parenta que nunca ouvia bem.
Os selos lá aumentaram outra vez. Não sei onde iremos parar...
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
Na sexta-feira passada fiz viagem de Lisboa para aqui. Santa Apolónia deserta, o combóio quase. Li o jornal e, do corredor, espreitei a lezíria.
Depois, nessa noite, já chegado e livre do eu viajante, vi nos mails o convite da Amazon.fr para comprar o último livro do Comte-Sponville "sur le capitalisme". Comprarei, em princípio. Idem, quanto ao "Reading after theory" da Valentine Cunningham. Compras pouco sensatas: ao jantar - pelo menos onde janto - não se fala da moralidade do capitalismo ou de teoria da literatura. Por isso, tenho de comprar umas memórias, ou alguma coisa sobre viagens para os jantares da primavera e do verão. Vi, no outro dia, um livro sobre as do Rei D. Pedro V. Na próxima ida a Lisboa irei investigar se tem algum préstimo para os tempos mortos a meio da entrada, quando o elogio da salada soa a falso e já se disse tudo sobre o sorvete de espinafres.
Depois, nessa noite, já chegado e livre do eu viajante, vi nos mails o convite da Amazon.fr para comprar o último livro do Comte-Sponville "sur le capitalisme". Comprarei, em princípio. Idem, quanto ao "Reading after theory" da Valentine Cunningham. Compras pouco sensatas: ao jantar - pelo menos onde janto - não se fala da moralidade do capitalismo ou de teoria da literatura. Por isso, tenho de comprar umas memórias, ou alguma coisa sobre viagens para os jantares da primavera e do verão. Vi, no outro dia, um livro sobre as do Rei D. Pedro V. Na próxima ida a Lisboa irei investigar se tem algum préstimo para os tempos mortos a meio da entrada, quando o elogio da salada soa a falso e já se disse tudo sobre o sorvete de espinafres.
sábado, fevereiro 14, 2004
O Miniscente, que também já há muito pertence ao rol dos visitados, passou a indicar este "blog" na sua lista.
O Impensavel agradece, obrigado, e promete em breve* reparar a injustiça da omissão do Miniscente na sua lista.
* é que, "acrescentar a lista" pode revelar-se uma tarefa desmoralizante para o autor deste blog. Entenda-se o "em breve" à luz destes factos.
O Impensavel agradece, obrigado, e promete em breve* reparar a injustiça da omissão do Miniscente na sua lista.
* é que, "acrescentar a lista" pode revelar-se uma tarefa desmoralizante para o autor deste blog. Entenda-se o "em breve" à luz destes factos.
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Envelhecer talvez seja, também, isto: perceber que fazemos parte deste soluto de sol e azul - ou do vago cinza dos dias chuvosos - aceitar com gosto que somos uma partícula em suspensão; e libertarmo-nos da natureza saturada e indissolúvel da juventude, da solidez do precipitado.
É um estoicismo de segunda mão, bem o sei, mas o dia está bonito, quero estar ao sol.
É um estoicismo de segunda mão, bem o sei, mas o dia está bonito, quero estar ao sol.
sábado, fevereiro 07, 2004
Hoje, quando abri o computador, fui recebido por uma mensagem de erro grave. O windows superou a situação mas o "informático" a quem telefonei a bradar por auxílio pôs um ar grave e circunspecto.
Além de, na semana que vem, ter de estar longe do pc por um ou dois dias, há esta novidade.
Por isso, se o Impensado for muito intermitente nos próximos dias, peço à minha meia dúzia de leitores que compreenda que não é minha a culpa pelo tremeluzir do blog.
Além de, na semana que vem, ter de estar longe do pc por um ou dois dias, há esta novidade.
Por isso, se o Impensado for muito intermitente nos próximos dias, peço à minha meia dúzia de leitores que compreenda que não é minha a culpa pelo tremeluzir do blog.
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
"Aproveitar o bom tempo" escrevi há pouco. É mais complicado do que parece, exige disposição, tempo, esforço. Um passeata pelo jardim a horas de expediente transforma-me em criado grave da culpa, num seu mero acompanhante: "devia era estar a trabalhar" ou "não fiquei de enviar um fax ao outro?". É nisto que consiste - para quem não é uma alma superior - aproveitar o bom tempo: sentir-se culpado, acabrunhar-se a gente por estar de grenha à brisa cálida. Quem acaba por gozar o passeio e o bom tempo é a culpa, "herself", não a gente. Eu acabo prostrado, no sofá, à noite, aflito pelo que não fiz. E tudo isto por causa de um céu Alma Tadema, quase kitsch, de três magras florinhas no relvado mal aparado e de um ar morno e mole, dolente.
O bom tempo, aquele de que eu sempre gostei é o do Inverno, estático e cinzento azulado, ou azul mas muito frio. A gente espreita do gabinete, ouve rugir o vento nordeste, aumenta o aquecimento e continua a trabalhar. E se não fazemos nada, não temos culpa, é do frio, a electricidade está fraca, o aquecimento uma miséria, "tenho a impressão que estou com febre, vou mas é beber um chá quente". Totalmente indolor.
Este entusiamo deste ano por esta proto-primavera, pfff... estou é com um acesso grave de mau gosto, alguma forma rara de de febre-dos-fenos.
O bom tempo, aquele de que eu sempre gostei é o do Inverno, estático e cinzento azulado, ou azul mas muito frio. A gente espreita do gabinete, ouve rugir o vento nordeste, aumenta o aquecimento e continua a trabalhar. E se não fazemos nada, não temos culpa, é do frio, a electricidade está fraca, o aquecimento uma miséria, "tenho a impressão que estou com febre, vou mas é beber um chá quente". Totalmente indolor.
Este entusiamo deste ano por esta proto-primavera, pfff... estou é com um acesso grave de mau gosto, alguma forma rara de de febre-dos-fenos.
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
O Rua da Judiaria "linkou" o Impensavel, que agradece.
Tenho perguntas a pôr, curiosidades a satisfazer, mas que pedem outro estado de espírito que não esta espécie de vacuidade, de amolecimento cerebral a que me reduz o tempo ameno.
Tenho perguntas a pôr, curiosidades a satisfazer, mas que pedem outro estado de espírito que não esta espécie de vacuidade, de amolecimento cerebral a que me reduz o tempo ameno.
terça-feira, fevereiro 03, 2004
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Ontem, 1º de Fevereiro, passaram 96 anos sobre o assassínio do Rei D. Carlos I e de seu Filho, o Príncipe D. Luís Filipe.
O assassinato não foi um acto isolado de um louco. Havia quem, por entre a "élite" intelectual republicana pensasse tratar-se de um acto necesssário e o homicídio do Monarca era pedido e instigado de forma quase aberta na imprensa.
O assassínio do Rei e do Príncipe Herdeiro abriu as portas à república, dois anos depois, e que deu o que de todos está à vista.
O Sobreiro, pastel sobre cartão, 1905, El-Rei D. Carlos I
O assassinato não foi um acto isolado de um louco. Havia quem, por entre a "élite" intelectual republicana pensasse tratar-se de um acto necesssário e o homicídio do Monarca era pedido e instigado de forma quase aberta na imprensa.
O assassínio do Rei e do Príncipe Herdeiro abriu as portas à república, dois anos depois, e que deu o que de todos está à vista.
O Sobreiro, pastel sobre cartão, 1905, El-Rei D. Carlos I
Sexta-Feira, desci até ao Rato, daí ao Príncipe Real e continuei pela D. Pedro V até ao Chiado. Espreitei antiquários e alfarrabistas, uma loja que noutros tempos se chamaria de "utilidades", ignorei as livrarias, mesmo a Sá da Costa e lanchei numa esplanada nas adjacências do Rossio. Depois, de táxi até Santa Apolónia. Comprei o bilhete e apanhei um combóio, mas acabei por sair na "Gare do Oriente" (que gostaria se chamasse antes Estação Oriental ou Estação do Oriente, se é essa rebuscada construção ocidental que com tal nome se quis homenagear). Na Bertrand do "Vasco da Gama" vi os livros. Comprei um policial que comecei a ler na viagem e ainda não acabei. E não acabarei esta noite: tenho sono e à terceira ou quarta página adormecerei.
P.S. Os alfarrabistas estavam desertos. E as livrarias. Na Vista Alegre mais gente, alguns estrangeiros.
P.S. Os alfarrabistas estavam desertos. E as livrarias. Na Vista Alegre mais gente, alguns estrangeiros.
sábado, janeiro 31, 2004
quinta-feira, janeiro 29, 2004
O Bomba Inteligente linkou o Impensavel nos seus blogs.
O Impensavel, velho frequentador do Bomba Inteligente, agradece, honrado, a "linkagem" que o faz sentir-se mais "em casa".
O Impensavel, velho frequentador do Bomba Inteligente, agradece, honrado, a "linkagem" que o faz sentir-se mais "em casa".
sábado, janeiro 24, 2004
A endorreia não é uma doença venérea.
A endorreia é um abuso, não de prazeres, mas de gerúndios - se bem que o prazer, mesmo o mais momentâneo, seja, em si, uma espécie de gerúndio, uma perífrase bem sucedida (que se não veja aqui uma adesão ao ideário barroco, ou ao "rocaille minimal" tão em voga).
Voltemos ao abuso do gerúndio. Refiro-me a frases destas, transcritas do magnífico "Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa" de Magnus Bergstrom e Neves Reis - "«os jornalistas vêm-se ocupando, ultimamente, de assuntos económicos» ou «os cientistas vêm meditando problemas transcendentes»". Acrescentam os autores: "Estas locuções absolutamente condenáveis - a minha edição é já antiga - ofendem a índole da nossa língua. Para as tornar correctas, basta escrevê-las: - Os jornalistas têm-se ocupado (...) de assuntos económico - Os cientistas modernos estão meditanto problemas transcendentes."
À atenção dos senhores bloguistas e público em geral.
Aproveita-se o ensejo para anunciar que na próxima semana este blog sofrerá intermitências por motivo de deslocação à capital do seu autor.
A endorreia é um abuso, não de prazeres, mas de gerúndios - se bem que o prazer, mesmo o mais momentâneo, seja, em si, uma espécie de gerúndio, uma perífrase bem sucedida (que se não veja aqui uma adesão ao ideário barroco, ou ao "rocaille minimal" tão em voga).
Voltemos ao abuso do gerúndio. Refiro-me a frases destas, transcritas do magnífico "Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa" de Magnus Bergstrom e Neves Reis - "«os jornalistas vêm-se ocupando, ultimamente, de assuntos económicos» ou «os cientistas vêm meditando problemas transcendentes»". Acrescentam os autores: "Estas locuções absolutamente condenáveis - a minha edição é já antiga - ofendem a índole da nossa língua. Para as tornar correctas, basta escrevê-las: - Os jornalistas têm-se ocupado (...) de assuntos económico - Os cientistas modernos estão meditanto problemas transcendentes."
À atenção dos senhores bloguistas e público em geral.
Aproveita-se o ensejo para anunciar que na próxima semana este blog sofrerá intermitências por motivo de deslocação à capital do seu autor.
Do furor adjectivo, das impressões fugazes, do mais descabelado achismo cansados e fartos busque-se consolação em "posts" como o do Almocreve das Petas sobre os Painéis, de ontem, 23 de Janeiro. Alerta e corrrige de forma bem-educada, que acaba por constituir um desafio amável e de incentivo à leitura, e educativa - explana fundamentadamente e, no fim, oferece a bibliografiazinha... - completa, ou se não o está, muito perto de o estar.
Mais do que isto, só disponibilizar-se a emprestar os livros e mandar levá-los lá a casa...
Desecessário Post-scriptum mas, em Portugal, necessário, pelo usual que é o elogio conter uma zona de penumbra onde, por mal e bem entendidos, se aproveita para cortar nas casacas de terceiros: o post do Rua da Judiaria reúne os elementos necessários para ser excluído dos achismos e impressionimos que lastimava.
Mais do que isto, só disponibilizar-se a emprestar os livros e mandar levá-los lá a casa...
Desecessário Post-scriptum mas, em Portugal, necessário, pelo usual que é o elogio conter uma zona de penumbra onde, por mal e bem entendidos, se aproveita para cortar nas casacas de terceiros: o post do Rua da Judiaria reúne os elementos necessários para ser excluído dos achismos e impressionimos que lastimava.
Encontrei um livro de poemas de Pessanha que já nem sabia que tinha.
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos
Camilo Pessanha
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos
Camilo Pessanha
quarta-feira, janeiro 21, 2004
A propósito da National Gallery assisti, num documentário, a uma conversa interessante e elucidativa entre o seu director de então, Neil Macgregor - hoje director do British Museum - e Bernard Pivot do "Apostrophes" e do "Bouillon de Culture".
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...
Tinha prometido para ontem. Revelo hoje o nome do pintor, uma valiosa redescoberta da pintura: Thomas Jones.
Este quadro, de 1782, foi para mim uma surpresa magnífica, está em exibição na National Gallery Aconselho a visita para uma devida apreciação: a cor de fundo do blog atenua as os jogos de cores e de texturas. Aquele rectângulo/céu deve ser visto sobre branco.
Aqui poderá ver mais da obra deste pintor.
terça-feira, janeiro 20, 2004
Encontrei! É o começo d'"O Comendador" das Novelas do Minho. A manhã frigidíssima é a do Dia de Reis do ano de 1832
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:
"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:
"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Tentava encontrar uma alba de D. Dinis - que é uma cantiga de amigo com temas dedicados ao nascer do dia ou passadas na alvorada - e lembrei-me de um livro do Camilo em que, em prosa, há uma genial alba, mas de escánio e maldizer: um abade, chamado de manhãzinha num gélido dia de Janeiro para ir baptizar uma criança e renitente no cumprimento dos seus deveres pastorais é posto fora da cama, à força de imprecações, pela sua criada e companhia de leito, uma boa e crente rapariga que se indigna com a calaceirice do eclesiástico.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.
Lá vai o tempo em que detestava entrevistas. Tinha a impressão que os entrevistados diziam sempre a mesma coisa, paráfrases do que haviam já dito noutras entrevistas e perante perguntas igualmente desinteressantes ou inóquas.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Com o sol-pôr volto para casa.
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.
Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.
Mer au matin
Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...
Constatin Cavafy.
[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.
Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.
Mer au matin
Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...
Constatin Cavafy.
[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]
domingo, janeiro 18, 2004
Podia ter sido escrita em qualquer Domingo dos séculos XV ou XVI - se monótonos e melancólicos eram os domingos dessa altura, o que é duvidoso - esta
Esparça de Bernardim Ribeiro
Chegou a tanto meu mal
que nam sey estar sem ele,
e fugo d'ond'á y al
como se fugisse dele
Mas vêdo-me em tal estado,
que me vou craro matar,
nam quero mays que cuidar,
por ver s'emfado hum cuydado
que me nam pode enfadar.
sábado, janeiro 17, 2004
Alba
de Nuno Fernandes Torneol
Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu
Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu
Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu
Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu
* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam
in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado
de Nuno Fernandes Torneol
Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu
Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu
Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu
Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu
* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam
in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado
sexta-feira, janeiro 16, 2004
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Outra tarde madraça... é do tempo. Gosto do cinzento, dos dias chuvosos mas hoje, de repente, senti-me demasiado lagunar, aquático, e tomou-me um spleen anfíbio, uma aspiração irritante a terra fime e seca. E cá estou, na margem deste Janeiro, coberto de chuva e melancolia, e de péssimo humor.
Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.
Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.
Dos blogs
Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.
O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.
O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
A mensagem que o Presidente da República dirigiu à Assembleia da República teve de esperar a sua vez na ordem dos trabalhos para ser lida. Não fica mal à assembleia esta defesa das suas prerrogativas: também os soberanos ingleses batem à porta dos Comuns e esperam que lha abram.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
Durante anos as “cartas à redacção” foram para mim um completo mistério... quem era aquela gente que se dava ao trabalho de escrever para o jornal a propósito de “nadas-mortos”? Imaginava-os velhinhos reformados, ex-professores de liceu saudosos dos tempos de aulas e a quem um pequeno erro ainda confundia e mortificava (devo pertencer à última geração que associa precisão à escola...). Acreditava-os moradores de andares altos e sem elevador, habitantes de salinhas minúsculas com mesas grandes e tristes, onde, aberto, se encontrava o jornal a ler de fio a pavio e algumas revistas - a Historia francesa, ou alguma de filologia editada em Lausanne. A coroar esta arquitectura de conjunturas um erro, um erro inofensivo que, descoberto, seria corrigido por uma carta amável, escrita àquela mesa, mais tarde.
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."
Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
terça-feira, janeiro 13, 2004
Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
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