sexta-feira, fevereiro 27, 2004
É como escrevia há pouco: vento áspero e muito frio. Cá em casa sempre se temeram os Fevereiros e responsabilizavam-se alguns deles pelas longas estadias de parentes em longínquas montanhas. De um deles, condenado a seis ou sete anos de Davos, li quase toda a correspondência, num fim-de-semana que passei em casa de uma irmã sua. Esperanças na cura rápida, primeiras desilusões e contratempos, o habituar-se a um outro tempo, uma paixão exótica por uma filha de um ministro (ou presidente?) de um país da America Latina (Perú? Uruguai? Já não me lembro) e, finalmente os prenúncios - diria, as primeiras suspeitas - de cura. A última carta que li dele, um postal de Veneza, na Praça de S. Marcos, mostrava-o coberto de pombos, sorrindo, no começo dos anos trinta. A viagem de regresso, longa e ziguezaguante desmentia as saudades de casa e de todos os seus que protestava nos finais das suas cartas. Veio a morrer num verão, trinta e cinco anos depois, de congestão, que logo foi atribuída à demasia do sol de Julho. Imolado aos elementos, este Castorp lusitano.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Manhã inteira sem electricidade - e dadas as modernidades (bombas de elevação que funcionam a energia eléctrica, etc.) - sem água.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
Isto quanto à situação externa.
Quanto a internidades, a sinusite transformou a minha cabeça em algo fluído viscoso por onde escorrem gemidos e imprecações, uma ou outra lúgubre ideia. Refugiei-me, acocorado, como um papagaio de mim mesmo, sobre o ombro esquerdo, de onde contemplo toda esta lastimável situação com indizível repulsa e nojo.
Péssimo humor.
Vou amuar.
domingo, fevereiro 22, 2004
quinta-feira, fevereiro 19, 2004
Passei rapidamente, o sono urgia.
Mas parece-me que é um blog e seguir com atenção
Amanhã - logo - vou ver melhor o Fogo Grego.
Mas parece-me que é um blog e seguir com atenção
Amanhã - logo - vou ver melhor o Fogo Grego.
terça-feira, fevereiro 17, 2004
À tarde descobri que não tinha selos e fui comprá-los a um daqueles postos de correio automáticos. Este fica logo ali, depois do jardim. Quando virei a esquina, vi o painel dos selos aberto e embrenhado nas parcas entranhas deixadas a descoberto, uma criatura de ar apavorado e infeliz. Perguntei, amável, se iria demorar muito. Ele, que na mão esquerda empunhava uma folhinha A4 com meia dúzia de linhas de instruções, respondeu-me que sim. "Uhm", murmurei eu, com um ar contrariado, "mas é difícil"? Que sim, novamente. Resolvi esperar, sem pressa que estava. Durante cinco minutos olhou aquele papel, que eu fui lendo em olhadelas furtivas. Pareceram-me as instruções pristinas. Eu julgara antes, por um ar que julguei de enfado, que o homenzinho seria um céptico das modernices que, obrigado a conviver, a tratar com elas, exibia o mesmo ar que um marceneiro ateu convicto poria se lhe destinassem como tarefa a amorosa restauração da estátua dos Três Pastorinhos.
Não se tratava disso, porém. O que estava à vista era o que não via há muito, em grau tão elevado de pureza: a velha e simpática burrice, de cara lavada, sem disfarces nem arrebiques, apenas levemente tímida e tristonha.
Comovi-me, desejei bom trabalho, murmurei mesmo algumas coisas sobre "estas coisas que estão sempre avariadas" e pus-me a caminho do correio, imerso na memória das pessoas burras da minha infância, de uma burrice simples e bondosa,um pouco acanhada, e de quem tanto gostei: criadas velhas, um ou outro colega de escola, aquela velha parenta que nunca ouvia bem.
Os selos lá aumentaram outra vez. Não sei onde iremos parar...
Não se tratava disso, porém. O que estava à vista era o que não via há muito, em grau tão elevado de pureza: a velha e simpática burrice, de cara lavada, sem disfarces nem arrebiques, apenas levemente tímida e tristonha.
Comovi-me, desejei bom trabalho, murmurei mesmo algumas coisas sobre "estas coisas que estão sempre avariadas" e pus-me a caminho do correio, imerso na memória das pessoas burras da minha infância, de uma burrice simples e bondosa,um pouco acanhada, e de quem tanto gostei: criadas velhas, um ou outro colega de escola, aquela velha parenta que nunca ouvia bem.
Os selos lá aumentaram outra vez. Não sei onde iremos parar...
segunda-feira, fevereiro 16, 2004
Na sexta-feira passada fiz viagem de Lisboa para aqui. Santa Apolónia deserta, o combóio quase. Li o jornal e, do corredor, espreitei a lezíria.
Depois, nessa noite, já chegado e livre do eu viajante, vi nos mails o convite da Amazon.fr para comprar o último livro do Comte-Sponville "sur le capitalisme". Comprarei, em princípio. Idem, quanto ao "Reading after theory" da Valentine Cunningham. Compras pouco sensatas: ao jantar - pelo menos onde janto - não se fala da moralidade do capitalismo ou de teoria da literatura. Por isso, tenho de comprar umas memórias, ou alguma coisa sobre viagens para os jantares da primavera e do verão. Vi, no outro dia, um livro sobre as do Rei D. Pedro V. Na próxima ida a Lisboa irei investigar se tem algum préstimo para os tempos mortos a meio da entrada, quando o elogio da salada soa a falso e já se disse tudo sobre o sorvete de espinafres.
Depois, nessa noite, já chegado e livre do eu viajante, vi nos mails o convite da Amazon.fr para comprar o último livro do Comte-Sponville "sur le capitalisme". Comprarei, em princípio. Idem, quanto ao "Reading after theory" da Valentine Cunningham. Compras pouco sensatas: ao jantar - pelo menos onde janto - não se fala da moralidade do capitalismo ou de teoria da literatura. Por isso, tenho de comprar umas memórias, ou alguma coisa sobre viagens para os jantares da primavera e do verão. Vi, no outro dia, um livro sobre as do Rei D. Pedro V. Na próxima ida a Lisboa irei investigar se tem algum préstimo para os tempos mortos a meio da entrada, quando o elogio da salada soa a falso e já se disse tudo sobre o sorvete de espinafres.
sábado, fevereiro 14, 2004
O Miniscente, que também já há muito pertence ao rol dos visitados, passou a indicar este "blog" na sua lista.
O Impensavel agradece, obrigado, e promete em breve* reparar a injustiça da omissão do Miniscente na sua lista.
* é que, "acrescentar a lista" pode revelar-se uma tarefa desmoralizante para o autor deste blog. Entenda-se o "em breve" à luz destes factos.
O Impensavel agradece, obrigado, e promete em breve* reparar a injustiça da omissão do Miniscente na sua lista.
* é que, "acrescentar a lista" pode revelar-se uma tarefa desmoralizante para o autor deste blog. Entenda-se o "em breve" à luz destes factos.
quarta-feira, fevereiro 11, 2004
Envelhecer talvez seja, também, isto: perceber que fazemos parte deste soluto de sol e azul - ou do vago cinza dos dias chuvosos - aceitar com gosto que somos uma partícula em suspensão; e libertarmo-nos da natureza saturada e indissolúvel da juventude, da solidez do precipitado.
É um estoicismo de segunda mão, bem o sei, mas o dia está bonito, quero estar ao sol.
É um estoicismo de segunda mão, bem o sei, mas o dia está bonito, quero estar ao sol.
sábado, fevereiro 07, 2004
Hoje, quando abri o computador, fui recebido por uma mensagem de erro grave. O windows superou a situação mas o "informático" a quem telefonei a bradar por auxílio pôs um ar grave e circunspecto.
Além de, na semana que vem, ter de estar longe do pc por um ou dois dias, há esta novidade.
Por isso, se o Impensado for muito intermitente nos próximos dias, peço à minha meia dúzia de leitores que compreenda que não é minha a culpa pelo tremeluzir do blog.
Além de, na semana que vem, ter de estar longe do pc por um ou dois dias, há esta novidade.
Por isso, se o Impensado for muito intermitente nos próximos dias, peço à minha meia dúzia de leitores que compreenda que não é minha a culpa pelo tremeluzir do blog.
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
"Aproveitar o bom tempo" escrevi há pouco. É mais complicado do que parece, exige disposição, tempo, esforço. Um passeata pelo jardim a horas de expediente transforma-me em criado grave da culpa, num seu mero acompanhante: "devia era estar a trabalhar" ou "não fiquei de enviar um fax ao outro?". É nisto que consiste - para quem não é uma alma superior - aproveitar o bom tempo: sentir-se culpado, acabrunhar-se a gente por estar de grenha à brisa cálida. Quem acaba por gozar o passeio e o bom tempo é a culpa, "herself", não a gente. Eu acabo prostrado, no sofá, à noite, aflito pelo que não fiz. E tudo isto por causa de um céu Alma Tadema, quase kitsch, de três magras florinhas no relvado mal aparado e de um ar morno e mole, dolente.
O bom tempo, aquele de que eu sempre gostei é o do Inverno, estático e cinzento azulado, ou azul mas muito frio. A gente espreita do gabinete, ouve rugir o vento nordeste, aumenta o aquecimento e continua a trabalhar. E se não fazemos nada, não temos culpa, é do frio, a electricidade está fraca, o aquecimento uma miséria, "tenho a impressão que estou com febre, vou mas é beber um chá quente". Totalmente indolor.
Este entusiamo deste ano por esta proto-primavera, pfff... estou é com um acesso grave de mau gosto, alguma forma rara de de febre-dos-fenos.
O bom tempo, aquele de que eu sempre gostei é o do Inverno, estático e cinzento azulado, ou azul mas muito frio. A gente espreita do gabinete, ouve rugir o vento nordeste, aumenta o aquecimento e continua a trabalhar. E se não fazemos nada, não temos culpa, é do frio, a electricidade está fraca, o aquecimento uma miséria, "tenho a impressão que estou com febre, vou mas é beber um chá quente". Totalmente indolor.
Este entusiamo deste ano por esta proto-primavera, pfff... estou é com um acesso grave de mau gosto, alguma forma rara de de febre-dos-fenos.
quinta-feira, fevereiro 05, 2004
O Rua da Judiaria "linkou" o Impensavel, que agradece.
Tenho perguntas a pôr, curiosidades a satisfazer, mas que pedem outro estado de espírito que não esta espécie de vacuidade, de amolecimento cerebral a que me reduz o tempo ameno.
Tenho perguntas a pôr, curiosidades a satisfazer, mas que pedem outro estado de espírito que não esta espécie de vacuidade, de amolecimento cerebral a que me reduz o tempo ameno.
terça-feira, fevereiro 03, 2004
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Ontem, 1º de Fevereiro, passaram 96 anos sobre o assassínio do Rei D. Carlos I e de seu Filho, o Príncipe D. Luís Filipe.
O assassinato não foi um acto isolado de um louco. Havia quem, por entre a "élite" intelectual republicana pensasse tratar-se de um acto necesssário e o homicídio do Monarca era pedido e instigado de forma quase aberta na imprensa.
O assassínio do Rei e do Príncipe Herdeiro abriu as portas à república, dois anos depois, e que deu o que de todos está à vista.
O Sobreiro, pastel sobre cartão, 1905, El-Rei D. Carlos I
O assassinato não foi um acto isolado de um louco. Havia quem, por entre a "élite" intelectual republicana pensasse tratar-se de um acto necesssário e o homicídio do Monarca era pedido e instigado de forma quase aberta na imprensa.
O assassínio do Rei e do Príncipe Herdeiro abriu as portas à república, dois anos depois, e que deu o que de todos está à vista.
O Sobreiro, pastel sobre cartão, 1905, El-Rei D. Carlos I
Sexta-Feira, desci até ao Rato, daí ao Príncipe Real e continuei pela D. Pedro V até ao Chiado. Espreitei antiquários e alfarrabistas, uma loja que noutros tempos se chamaria de "utilidades", ignorei as livrarias, mesmo a Sá da Costa e lanchei numa esplanada nas adjacências do Rossio. Depois, de táxi até Santa Apolónia. Comprei o bilhete e apanhei um combóio, mas acabei por sair na "Gare do Oriente" (que gostaria se chamasse antes Estação Oriental ou Estação do Oriente, se é essa rebuscada construção ocidental que com tal nome se quis homenagear). Na Bertrand do "Vasco da Gama" vi os livros. Comprei um policial que comecei a ler na viagem e ainda não acabei. E não acabarei esta noite: tenho sono e à terceira ou quarta página adormecerei.
P.S. Os alfarrabistas estavam desertos. E as livrarias. Na Vista Alegre mais gente, alguns estrangeiros.
P.S. Os alfarrabistas estavam desertos. E as livrarias. Na Vista Alegre mais gente, alguns estrangeiros.
sábado, janeiro 31, 2004
quinta-feira, janeiro 29, 2004
O Bomba Inteligente linkou o Impensavel nos seus blogs.
O Impensavel, velho frequentador do Bomba Inteligente, agradece, honrado, a "linkagem" que o faz sentir-se mais "em casa".
O Impensavel, velho frequentador do Bomba Inteligente, agradece, honrado, a "linkagem" que o faz sentir-se mais "em casa".
sábado, janeiro 24, 2004
A endorreia não é uma doença venérea.
A endorreia é um abuso, não de prazeres, mas de gerúndios - se bem que o prazer, mesmo o mais momentâneo, seja, em si, uma espécie de gerúndio, uma perífrase bem sucedida (que se não veja aqui uma adesão ao ideário barroco, ou ao "rocaille minimal" tão em voga).
Voltemos ao abuso do gerúndio. Refiro-me a frases destas, transcritas do magnífico "Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa" de Magnus Bergstrom e Neves Reis - "«os jornalistas vêm-se ocupando, ultimamente, de assuntos económicos» ou «os cientistas vêm meditando problemas transcendentes»". Acrescentam os autores: "Estas locuções absolutamente condenáveis - a minha edição é já antiga - ofendem a índole da nossa língua. Para as tornar correctas, basta escrevê-las: - Os jornalistas têm-se ocupado (...) de assuntos económico - Os cientistas modernos estão meditanto problemas transcendentes."
À atenção dos senhores bloguistas e público em geral.
Aproveita-se o ensejo para anunciar que na próxima semana este blog sofrerá intermitências por motivo de deslocação à capital do seu autor.
A endorreia é um abuso, não de prazeres, mas de gerúndios - se bem que o prazer, mesmo o mais momentâneo, seja, em si, uma espécie de gerúndio, uma perífrase bem sucedida (que se não veja aqui uma adesão ao ideário barroco, ou ao "rocaille minimal" tão em voga).
Voltemos ao abuso do gerúndio. Refiro-me a frases destas, transcritas do magnífico "Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa" de Magnus Bergstrom e Neves Reis - "«os jornalistas vêm-se ocupando, ultimamente, de assuntos económicos» ou «os cientistas vêm meditando problemas transcendentes»". Acrescentam os autores: "Estas locuções absolutamente condenáveis - a minha edição é já antiga - ofendem a índole da nossa língua. Para as tornar correctas, basta escrevê-las: - Os jornalistas têm-se ocupado (...) de assuntos económico - Os cientistas modernos estão meditanto problemas transcendentes."
À atenção dos senhores bloguistas e público em geral.
Aproveita-se o ensejo para anunciar que na próxima semana este blog sofrerá intermitências por motivo de deslocação à capital do seu autor.
Do furor adjectivo, das impressões fugazes, do mais descabelado achismo cansados e fartos busque-se consolação em "posts" como o do Almocreve das Petas sobre os Painéis, de ontem, 23 de Janeiro. Alerta e corrrige de forma bem-educada, que acaba por constituir um desafio amável e de incentivo à leitura, e educativa - explana fundamentadamente e, no fim, oferece a bibliografiazinha... - completa, ou se não o está, muito perto de o estar.
Mais do que isto, só disponibilizar-se a emprestar os livros e mandar levá-los lá a casa...
Desecessário Post-scriptum mas, em Portugal, necessário, pelo usual que é o elogio conter uma zona de penumbra onde, por mal e bem entendidos, se aproveita para cortar nas casacas de terceiros: o post do Rua da Judiaria reúne os elementos necessários para ser excluído dos achismos e impressionimos que lastimava.
Mais do que isto, só disponibilizar-se a emprestar os livros e mandar levá-los lá a casa...
Desecessário Post-scriptum mas, em Portugal, necessário, pelo usual que é o elogio conter uma zona de penumbra onde, por mal e bem entendidos, se aproveita para cortar nas casacas de terceiros: o post do Rua da Judiaria reúne os elementos necessários para ser excluído dos achismos e impressionimos que lastimava.
Encontrei um livro de poemas de Pessanha que já nem sabia que tinha.
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos
Camilo Pessanha
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...
Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?
Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos
Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos
Camilo Pessanha
quarta-feira, janeiro 21, 2004
A propósito da National Gallery assisti, num documentário, a uma conversa interessante e elucidativa entre o seu director de então, Neil Macgregor - hoje director do British Museum - e Bernard Pivot do "Apostrophes" e do "Bouillon de Culture".
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...
Tinha prometido para ontem. Revelo hoje o nome do pintor, uma valiosa redescoberta da pintura: Thomas Jones.
Este quadro, de 1782, foi para mim uma surpresa magnífica, está em exibição na National Gallery Aconselho a visita para uma devida apreciação: a cor de fundo do blog atenua as os jogos de cores e de texturas. Aquele rectângulo/céu deve ser visto sobre branco.
Aqui poderá ver mais da obra deste pintor.
terça-feira, janeiro 20, 2004
Encontrei! É o começo d'"O Comendador" das Novelas do Minho. A manhã frigidíssima é a do Dia de Reis do ano de 1832
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:
"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:
"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Tentava encontrar uma alba de D. Dinis - que é uma cantiga de amigo com temas dedicados ao nascer do dia ou passadas na alvorada - e lembrei-me de um livro do Camilo em que, em prosa, há uma genial alba, mas de escánio e maldizer: um abade, chamado de manhãzinha num gélido dia de Janeiro para ir baptizar uma criança e renitente no cumprimento dos seus deveres pastorais é posto fora da cama, à força de imprecações, pela sua criada e companhia de leito, uma boa e crente rapariga que se indigna com a calaceirice do eclesiástico.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.
Lá vai o tempo em que detestava entrevistas. Tinha a impressão que os entrevistados diziam sempre a mesma coisa, paráfrases do que haviam já dito noutras entrevistas e perante perguntas igualmente desinteressantes ou inóquas.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.
segunda-feira, janeiro 19, 2004
Com o sol-pôr volto para casa.
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.
Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.
Mer au matin
Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...
Constatin Cavafy.
[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.
Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.
Mer au matin
Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...
Constatin Cavafy.
[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]
domingo, janeiro 18, 2004
Podia ter sido escrita em qualquer Domingo dos séculos XV ou XVI - se monótonos e melancólicos eram os domingos dessa altura, o que é duvidoso - esta
Esparça de Bernardim Ribeiro
Chegou a tanto meu mal
que nam sey estar sem ele,
e fugo d'ond'á y al
como se fugisse dele
Mas vêdo-me em tal estado,
que me vou craro matar,
nam quero mays que cuidar,
por ver s'emfado hum cuydado
que me nam pode enfadar.
sábado, janeiro 17, 2004
Alba
de Nuno Fernandes Torneol
Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu
Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu
Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu
Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu
* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam
in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado
de Nuno Fernandes Torneol
Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu
Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu
Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu
Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu
Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu
Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu
* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam
in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado
sexta-feira, janeiro 16, 2004
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Outra tarde madraça... é do tempo. Gosto do cinzento, dos dias chuvosos mas hoje, de repente, senti-me demasiado lagunar, aquático, e tomou-me um spleen anfíbio, uma aspiração irritante a terra fime e seca. E cá estou, na margem deste Janeiro, coberto de chuva e melancolia, e de péssimo humor.
Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.
Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.
Dos blogs
Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.
O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.
O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
A mensagem que o Presidente da República dirigiu à Assembleia da República teve de esperar a sua vez na ordem dos trabalhos para ser lida. Não fica mal à assembleia esta defesa das suas prerrogativas: também os soberanos ingleses batem à porta dos Comuns e esperam que lha abram.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
Durante anos as “cartas à redacção” foram para mim um completo mistério... quem era aquela gente que se dava ao trabalho de escrever para o jornal a propósito de “nadas-mortos”? Imaginava-os velhinhos reformados, ex-professores de liceu saudosos dos tempos de aulas e a quem um pequeno erro ainda confundia e mortificava (devo pertencer à última geração que associa precisão à escola...). Acreditava-os moradores de andares altos e sem elevador, habitantes de salinhas minúsculas com mesas grandes e tristes, onde, aberto, se encontrava o jornal a ler de fio a pavio e algumas revistas - a Historia francesa, ou alguma de filologia editada em Lausanne. A coroar esta arquitectura de conjunturas um erro, um erro inofensivo que, descoberto, seria corrigido por uma carta amável, escrita àquela mesa, mais tarde.
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!
quarta-feira, janeiro 14, 2004
Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."
Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
terça-feira, janeiro 13, 2004
Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Eu bem não queria voltar tão cedo ao caso pio mas li o que Clara Ferreira Alves escreve hoje(?) aqui, num acesso de catastrofismo. Destaco: "Não falo da Acusação nem das equipas de especialistas que têm acompanhado o caso. Falo do sistema legislativo, judicial e judiciário português. Falo da Constituição, do Direito Penal, do Processo Penal, da Procuradoria, do Ministério Público, da investigação, dos polícias e juízes, das prisões. O sistema cairia aparatosamente. Seria o caos, a desordem, e da parte de um homem injusticiado, a sede de justiça e, talvez, de vingança. Ao ilibar ou não Carlos Cruz não estamos apenas a ilibar Carlos Cruz, estamos a dar cabo da famosa Justiça em Portugal. A tal que toda a gente diz que funciona."
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?
domingo, janeiro 11, 2004
"(...) Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia.
(...)
Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida (...)".
Fernão Mendes Pinto
Não sei quem lê hoje a "Peregrinação". Temo que pouca gente. Não é obra que satisfaça provincianismos de contenção: comove, diverte, põe-nos à prova, que não apenas pelo uso das vero e inverosimilhanças a que o narrador, um pobre homem, deita mão - até à pungência - para sempre nos ter com ele, a seu lado, mas por uma inteireza humana que não cabe no pouco ser que hoje soe usar-se na vida quanto na sintaxe ou no vocabulário.
sábado, janeiro 10, 2004
O meu hobby principal é esquecer. Tenho outros, uns menores - não gostar de alguma França, considerar que a mãe de Hemingway escrevia melhor do que o filho - outros maiores: detestar tutelas, ser monárquico, amar Eça de Queirós.
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.
Para quem não o conhece:
Navio
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.
Vitorino Nemésio
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.
Para quem não o conhece:
Navio
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.
Vitorino Nemésio
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Blogar tornou-se um pretexto para arrumar livros.
Explico: visito um blog e vejo uma imagem, ou leio uma citação, ou alguém escreve sobre um assunto e lembro-me que "eu tinha para aí qualquer coisa sobre isso" ou que "o não sei quantos fala disso naquele livro". Hoje fui ao Crítico Musical e encontrei umas escadas. Lembrei-me do "Sea of Steps" do Evans e do local onde vira a fotografia: num "Colóquio Artes". Parti para o armário das revistas e quando lá cheguei descobri a edição do "Totem e Tabu", Payot, 1925, 2eme Edition, que erradamente ali pusera.
Já está no sítio certo, ao pé dos outros.
Por este andar, acabo por descobrir o Dicionario de Mitologia, Lisboa, Rua dos Algibebes, mil oitocentos e quarentas, que deixei de ver vai para um bom par de anos, apesar de alvíssaras prometidas.
Fica o sea of steps - mas não me parece a fotografia que queria. Naquela de que me lembro, é uma onda rasa que, num mar chão e calcário recolhe os primeiros e últimos passos. Esse Colóquio, porém, não o encontrei.
(Neste mar noto a dupla coluna - ou colunelo - que divide o plano da parede e onde parece inscrever-se uma marca de maré).
Foi há 23 anos, por uma chuvosa tarde de Janeiro - não sei se era chuvosa, verdadeiramente: chuvosa hoje, há dias teria sido soalheira, que seja esta em que escrevo: finjo que é o tempo, a chuva desta tarde, que me lembra essa outra, longe, em que saí de casa e fui ao cinema - ou apenas lanchar - e vi o primeiro volume do "Em busca do tempo perdido" e o resolvi comprar e ler. Tenho-me lembrado, desde que Janeiro começou, e o post com a tela de Whistler, o pintor com que Proust compôs o nome de Elstir e parte da pintura de Elstir assinala esse começo de leitura.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
De Boétie, que com 16 - ou 18 - anos escreveu o seu "Discurso sobre a servidão voluntária", a estas crianças que enganam os guardas e não se submetem, o caminho não é longo. Todavia, tudo se deveu a um acaso. Procurava um surrealista norte-americano e reencontrei um autor de que apenas uma vez ou outra ouvira falar e de que já quase me esquecera.
"La liberté, les hommes la dédaignent uniquement, semble-t-il, parce que s'ils la désiraient, ils l'auraient; comme s'ils refusaient de faire cette précieuse acquisition parce qu'elle est trop aisée."
Discours de la servitude volontaire
Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.
Discours de la servitude volontaire
Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.
terça-feira, janeiro 06, 2004
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Num intervalo: lia, ontem, nas "Memórias" os capítulos dedicados à agonia da França, à situação solitária em que ficou a Grã-Bretanha com a débacle gaulesa em 1940 e, sem querer, pensei em tempos mais recentes.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
"Divertiu-me ver um pelotão da Guarda de Granadeiros a montar um posto de metrelhadora com sacos de areia num dos quiosques do cais, parecido com os da minha infância. O tempo estava adorável. Tive uma óptima conversa com o general e apreciei imensamente o passeio."
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra
O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra
O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.
domingo, janeiro 04, 2004
Pelo jardim fora, vivalma. Esta gente vive em casas soturnas, pequenas e feias, e sai delas, numa carreira, para se ir meter em cafés - ou centros comerciais - ainda mais soturnos e feios; ou para as soturnas "segundas residências" pintalgadas de amarelo ou branco e verde com que em Portugal se inaugurou o kitsch campestre. Seja para onde for, escapa-lhes a lentidão do dia e, nestes dias soalheiros, o azul e a deriva das sombras.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.
sábado, janeiro 03, 2004
Ao Churchill de Gilbert, sucederam nas tardes e nas madrugada de ontem e de hoje, as "Memórias da II Guerra Mundial".
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.
quinta-feira, janeiro 01, 2004
quarta-feira, dezembro 31, 2003
Tenciono passar de ano em casa, sossegado.
O "kit" de passagem de ano é composto de 1 ou 2 livros, 1 garrafa de champagne decente, 12 passas de uva, uma pêndula que já marcou a passagem de dois séculos, 1 telemóvel desligado e 1 pequeno banco de onde pularei, com o pé direito, para 2004 (há tempos atrás, numa época de maior indolência, substituí o salto do banco pelo levantar do pé esquerdo à meia-noite, mantendo o direito em terra. É eficaz, mas abandonei tal hábito, por pouco "sportif"). Costumo temperar esta actividade física (salto, uvas, libações) com três ou quatro resoluções "ano novo, vida nova" algumas tocantemente pueris e que esqueço, de imediato, sem o menor escrúpulo.
Passado o ano, isto é, à meia-noite e cinco, poderei, auspiciosamente, retomar a leitura do Churchill, do Gilbert, ou de Mme. de Sévigné que tenho estado a ler, ou dar uma volta pelos blogs, adormecer, ver o Big Brother, ou mudar de ideias e sair - ou fingir que vou, afinal, sair. Em suma: fazer o que rigorosamente mais me apetecer.
Bom Ano!
O "kit" de passagem de ano é composto de 1 ou 2 livros, 1 garrafa de champagne decente, 12 passas de uva, uma pêndula que já marcou a passagem de dois séculos, 1 telemóvel desligado e 1 pequeno banco de onde pularei, com o pé direito, para 2004 (há tempos atrás, numa época de maior indolência, substituí o salto do banco pelo levantar do pé esquerdo à meia-noite, mantendo o direito em terra. É eficaz, mas abandonei tal hábito, por pouco "sportif"). Costumo temperar esta actividade física (salto, uvas, libações) com três ou quatro resoluções "ano novo, vida nova" algumas tocantemente pueris e que esqueço, de imediato, sem o menor escrúpulo.
Passado o ano, isto é, à meia-noite e cinco, poderei, auspiciosamente, retomar a leitura do Churchill, do Gilbert, ou de Mme. de Sévigné que tenho estado a ler, ou dar uma volta pelos blogs, adormecer, ver o Big Brother, ou mudar de ideias e sair - ou fingir que vou, afinal, sair. Em suma: fazer o que rigorosamente mais me apetecer.
Bom Ano!
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Tinha-me prometido não falar dos "grandes assuntos" e dou por mim a dedicar algum do meu tempo e espaço do blog ao caso Casa Pia. É que nele e por ele veio ao de cima alguma coisa do pior que em nós, portugueses, existe e persiste: primeiro, o desleixo e o deixa andar, as meias-medidas, a indiferença; depois, a reacção das boas almas - algumas delas dificilmente isentas da culpa da omissão - a ostentação de delicadeza de sentimentos - recente; ainda, a falta de rigor, o amadorismo da investigação privilegiando o testemunho, a falta de meios adivinhada, a efabulação infantil que sonha horrores e perversões além das imediatas e visíveis - uma espécie primária de esconjuro - os rigorismos, os exageros justicialistas, anversos e reversos do mesmo subdesenvolvimento.
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".
Foi, enfim, deduzida a acusação no processo Casa Pia.
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...
Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...
Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Ainda ontem, passei pelo De direita. Deseja que a defesa seja isenta. Quem deve ser isento são os juizes, não a defesa. E as "tropelias" desta já motivaram decisões do Tribunal Constitucional que poderão mitigar a sorte de muito desgraçado alheio ao processo Casa Pia, metido, sem saber porquê e sem que de nada tenha sido acusado, nas enxovias que são ainda as nossas prisões.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
domingo, dezembro 28, 2003
Uma pequena volta pelos blogs, neste fim de tarde de domingo.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.
sábado, dezembro 27, 2003
Escrevo sobre o cinzento sereno. Por entre as árvores, ali em frente no jardim, traços breves e fuscos de pequenos vôos. Depois, as casas pequenas. A meio caminho do horizonte, de vez em quando, o ladrar de um cão. Se alguém passasse, o ruído dos passos, a janela com luz onde escrevo. Este dia é estas coisas poucas mas é alto o muro que constroem.
sexta-feira, dezembro 26, 2003
Hoje, na taberninha, e deste diminuitivo participa o afecto quanto o rigor descritivo, na taberninha onde todos os dias tomo café e compro pão bem feito - reinava um silêncio quase taciturno e lustral - assim talvez fosse depois dos grandes festins solisticiais e dos episódios de mania dionisíaca.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.
quarta-feira, dezembro 24, 2003
terça-feira, dezembro 23, 2003
De regresso.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.
O descanso absoluto não existe, tomem-se as precauções que se tomarem. Vejo-me obrigado a sair para ir fazer compras, compras de Natal, ao hipermercado de província que frequento. Confesso que a experiência acaba por não ser penosa. A ferocidade com que aquela gente afogueada e ávida enche os carrinhos tem um fulgor de rapina, de repartição de despojos que remete para o sangrento prazer do saque.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.
Adenda ao post anterior: relacionar a degradação dos imóveis com a lei do arrendamento para habitação não é um erro, mas é incompleto: o arrendamento comercial encontra-se nas mesmas condições de iniquidade.
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
A história é conhecida: durante decénios - a “coisa” começou com a 1ª república - o estado dedicou-se a brincar com os imóveis dos outros com o resultado que está à vista: as cidades estão cheias de prédios a cair, alguns caem mesmo e, pior ainda, em sítios por onde passam membros do governo, colegas deles de governos estrangeiros e turistas(os nacionais não contam). Em suma: a coisa dá um terrível mau aspecto, é capaz de já ter provocado graçolas em Bruxelas, e o governo, brioso, parece ter resolvido atamancar a situação, para pôr “isto” mais moderno e com um ar de 1º Mundo.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.
segunda-feira, dezembro 22, 2003
Pensadamente, desejo a todos um Santo Natal e Ano Novo Feliz.
A imagem fazia parte dos cartões que se usavam para pôr os nomes nos presentes, nos inícios dos anos sessenta (62-63), e que alguém tinha trazido de Londres. Restam alguns que guardei juntamente com outros artefactos natalícios da mesma origem.
À direita da imagem , o "From e o To" que cortei foram as primeiras palavras que soube em inglês.
domingo, dezembro 21, 2003
Foi do modo como a notícia foi dada, ou vem do treino em processo penal que adquirimos nestes últimos meses, não passou despercebida a contradição contida no despacho que manda prender um presumido inocente para que este não continue a actividade criminosa. Convirá lembrar, além do mais, que se trata de presumir a actividade criminosa de quem não foi, até hoje, acusado de qualquer crime.
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo político - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo político - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
Sem sono, passei a noite de livro em livro. Aqui passei também o meu tempo e reparo que devo ter estado mais de uma hora à procura da fotografia de um fogão a lenha na net; desdobrei-me em esforços: do Brasil a Inglaterra, passando pelos "forneau à bois" franceses. Não encontrei, tentei cá em casa e, surpreendemente, passados dez minutos tinha o que queria, o fogão na cimalha do post. Antes de desligar o computador já é dia. Vou dormir agora, a estas horas, e logo será o acordar, já a meio da tarde, ou se tiver sorte, com a noite a cair. De vez em quando, resvalo pela noite, alheio a qualquer preocupação de horas. Das primeiras vezes, a partir das seis impunha-me uma, "mesmo sendo amanhã domingo", no bom-senso cordato e indignado que perpassa a passos miúdos até no que aqui escrevo. Quando acordava, domingo à tarde, mentia-me uma mentira tristonha, vagamente moralizante, como acabam por ser todas: ah! estou engripado, fiz bem em estar na cama, frases destas, apercebendo-me, ainda mais vexado, que a collage com os textos da banalidade, o desejo balsâmico dela, me tornava num ser mais estranho que um mero noctívago que passou a noite em claro a ler...
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.
Por teimosia "gourmet" e "gourmande" de meu Pai manteve-se até tarde o fogão a lenha. Por concessão à modernidade e creio que ao pessoal, somou-se a esse fogão "a sério", um outro, eléctrico, marca Leão, com um design optimista e sorridente que passou anos de quase inteiro ócio. Quando me desfiz dele, há dois anos, levado pelas exigências das novas receitas, tive pena. A ele devo algumas boas lembranças. A grande alegria que me deu, porém, foi há muitos anos: um choque espectacular e formidável que quase finava uma cozinheira velha com quem eu antipatizava. Lembro-me do alarido e de, passado o perigo, ir espreitá-la à copa, onde recolhera. Já convalescente, mas ainda combalida, embrulhada num cobertor de papa que exigira lhe trouxessem por julgar a lã bom remédio para os choques eléctricos, bebia chá, assistida pelas "de fora" que a acalentavam assegurando-lhe que tivera sorte em não ter ido desta para melhor.
Mas era no outro, no fogão a lenha, preto, com muitos amarelos que no dia de Natal, logo de manhazinha, estavam os presentes que o Menino Jesus, ajudado pelo Pai Natal lá pusera. Os meus e os das empregadas(os presentes das outras pessoas tinham vindo, por uma deferência do Pai Natal, pela chaminé do fogão da sala). Tudo isto se passava muito cedo, já que o fogão precisava de horas para aquecer. Nunca me deu um prazer comparável ao choque da cozinheira mas, discreto e com uma maldade vagarosa de outras eras, foi ao longo de anos responsável por pequenas queimadelas e aflições que arrancavam sussuradas pragas e aiaiais vivazes. O fogão a lenha, o fogão, por justa antonomásia, não chegou aos meus dez anos. Hoje, se o afã da modernidade o não levara, podia dedicar-me à "cuisine lente".
sábado, dezembro 20, 2003
De pernas para o ar
Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"
O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...
Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"
O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...
sexta-feira, dezembro 19, 2003
A edição d'Os pobres de que tirei o excerto do post de há pouco tem na contracapa umas palavras de Vergílio Ferreira que vou transcrever: "... A situação particular de Raul Brandão e que o diminui e engrandece, é que toda a sua obra abre para um mundo novo. É o mundo que nos coube, e em que estamos vivendo e de que ele transpôs apenas, em deslumbramento e terror, o incerto limiar.
Creio estar - e um pouco a minha geração, embora só possa falar por mim - também aterrorizado e deslumbrado à saída desses mundos que Brandão vislumbrou.
(Mas o que gosto mais em Brandão, mais do que o tom de iluminura impressionista d'os Pescadores, mais do que o cumprimento da convenção - e da convicção que, por vezes, é a da complacência com ele mesmo - é o descobrir esboços daquele "vôo para baixo" que Vieira dizia Santo António tão bem ter sabido voar)
Creio estar - e um pouco a minha geração, embora só possa falar por mim - também aterrorizado e deslumbrado à saída desses mundos que Brandão vislumbrou.
(Mas o que gosto mais em Brandão, mais do que o tom de iluminura impressionista d'os Pescadores, mais do que o cumprimento da convenção - e da convicção que, por vezes, é a da complacência com ele mesmo - é o descobrir esboços daquele "vôo para baixo" que Vieira dizia Santo António tão bem ter sabido voar)
"Vem o inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra. As coisas di-las-íeis recolhidas e cismáticas.
É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara, põe raízes à mostra, arrasta na aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água para um destino ignoto."
Raul Brandão, Os pobres
É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara, põe raízes à mostra, arrasta na aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água para um destino ignoto."
Raul Brandão, Os pobres
quinta-feira, dezembro 18, 2003
Cena familiar
Rendido às alegrias do "upload", e de "template" natalício, procurei pintura portuguesa. Não é a mais bem sucedida das pesquisas, mas há aqui, por exemplo, num dos "sites" mais antigos da net portuguesa, nomes suficientes para nos animar.
A informação, dispersa embora, ultrapassou a escassez irritante de há 3 ou 4 anos, há novidades, mas em muitos casos parece-me que a preocupação em fazer "design web" ou "artweb" torna as páginas pesadas, muito lentas a carregar e a espera - com banda larga... - revela-se ainda pouco compensadora. Os "sites" dos museus nacionais, se não constituem já a desilusão que eram pouco tempo atrás, são ainda pouco atractivos.
De que andava eu à procura? De uma cena rural e invernosa, portuguesa, como as pintou o nosso naturalismo. Não encontrei. Algumas paisagens, mas todas com bom tempo. No Inverno, estariam os pintores mais no Leão de Ouro do que no campo, o que é muito compreensível. Mas eu queria, por força, aquele campestre em que o olhar tardo e ingénuo do gosto nacional via um Portugal naturalmente feliz. No passeio, encontrei a doméstica "Cena Familiar" da Aurélia de Sousa, um estudo em ocres quase vermelhos, arruivados: da parede côncava - um fogão? - ao cabelo da mãe - concentrada no que faz ou ausente - prolongam-se na filha através do tecido, num tom mais escuro, que aquela segura sobre a coberta esverdeada da mesa. Encarnada escura, a blusa dela e encarnados os sapatos. Perto dos tons encarniçados, ainda, por corada, a outra criança, a loira, e de blusa branca, comunga de um segundo circulo, este claro, que também as une: o pano que a mãe borda - ou passaja - e se destaca sobre o avental escuro, a boneca da criança que nos vira a cara - e que é quem nos expulsa daquela intimidade - enquanto parece falar à irmã (mas dirá alguma coisa? Ou virou-se naquele momento, por outro motivo qualquer?) - que, a ouvi-la, está entre o contrafeito e o aborrecido.
São os jogos de cores, entre os encarnados, vermelhos e ocres e os brancos que no quadro unem aqueles seres, não as expressões, os olhares.
Lá fora, porém, é Inverno, só pode ser Inverno - mesmo que estejam pouco agasalhadas para os frios.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
Durante dias, procurei aflito um papel - um pequeno impresso. Revirei gavetas e estantes, sacudi, selvaticamente, livros pelas lombadas, abri outras gavetas, ameacei outros livros, pastas, "dossiers". De puro acabrunhamento, quase soçobrava, envolto em papéis velhos.
Enfim, revoltei-me contra a agitação amargurada, a abundância de falsas memórias - "foi ali que o pus!", - a pletora de hipoteses - "e se o tiver posto ali?" - e resolvi optar por outra estratégia. Hoje, de manhã, três telefonemas calmos resolveram o problema.
A busca era, desde o início, inútil...
terça-feira, dezembro 16, 2003
O Natal...
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.
segunda-feira, dezembro 15, 2003
Adormeci ontem cedo, acordei há uma hora, com calor, mas sem sono.
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:
«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:
«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»
domingo, dezembro 14, 2003
Dizia Proust, grande escritor judaico-gaulês, que o que mais o incomodava, ou surpreendia, nos ateus era o serem muito beatos.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
Inicio a minha volta pelos blogs e, com os meus lamentos ainda em mente, leio isto: "Mal levantei os olhos, o céu foi riscado por um meteorito."
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Ao longo de dois dias o que fiz foi ver o sol claro do fim do Outono e ler dispersamente Vieira, depois, por ele, Job, " "et carnibus meis saturamini" mas sei, sei que sou eu, algures onde desconheço, quem me come vivo, a divindade triste, hostil, apática que se se farta na minha carne. Não dramatizo, mas não evito o suspiro sapiciencial e de auto-comiseração: contido e creio que quase inaudível, não é defeito que muito me censure e vai com os hábitos pátrios.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.
sábado, dezembro 13, 2003
E entretanto vós, peixes, longe dos homens, e fora dessas cortesianas, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda a esta verdade; o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.
Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"
Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"
quinta-feira, dezembro 11, 2003
Relia um post que escrevi há dias e, de repente, reconheço numa frase que escrevi alguma coisa de familiar, não ao quem em mim escreve, mas ao quem em mim lê...
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.
Eis o soneto de Jorge Luís Borges
Los Borges
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.
Eis o soneto de Jorge Luís Borges
Los Borges
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Pearl Harbour
Há anos encontrei numa estante mais esquecida um livro sobre o ataque japonês a Pearl Harbour.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."
Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.
Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.
Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."
Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.
Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.
Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.
terça-feira, dezembro 09, 2003
Creio que é Yourcenar que nos alerta para a importância da genealogia dos actos: o abater da árvore, o esculpir da madeira, os gestos do trabalho do marceneiro de que nasceram esta cadeira, esta mesa, aquele armário. Em Portugal, onde se tem saudades até do que nunca se conheceu ou aconteceu, creio que esse exercício é comum, embora se torne, as mais das vezes, e ao contrário do que a escritora pretendia, num exercício de meras e fúteis conjecturas.
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)
segunda-feira, dezembro 08, 2003
Dia de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal.
E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.
E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.
domingo, dezembro 07, 2003
sábado, dezembro 06, 2003
Há pouco escrevi um post a propósito de uma reportagem na Sic sobre crimes sexuais nos Açores.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difícil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/vítimas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indícios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falível prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princípios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sítios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difícil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/vítimas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indícios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falível prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princípios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sítios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.
quinta-feira, dezembro 04, 2003
O "depois de jantar", outrora um agradável tempo de reverente reflexão, propício à conciliação entre as várias correntes de opinião que se haviam manifestado ao jantar, acabou. Acabou, por ter desaparecido a ceia - pelo menos enquanto instituição quotidiana. E sem ceia (e não se confunda ceia, mesmo a mais modesta, de chá e torradinhas, com o "ir comer alguma coisa", que a mera necessidade de "ir" impossibilita desde logo qualquer comparação) sem ceia, dizia, as digestões hodiernas do jantar não possuem já aquela absoluta serenidade que nascia da junção, num mesmo bem-estar ecléctico, da antecipação com a plenitude.
Embora não tenha vivido, fruto da pouca idade, na época esplendorosa da ceia, conservo memórias que o meu desgosto inventou; e do que verdadeiramente vivi, há o suficiente para lidimamente me lastimar deste ingrato e assimétrico hiato que é hoje o "à noite".
Assim, quando não me apetece ler e não é noite de Big Brother, dou uma olhadela aos blogs.
E o que tinha perdido: desconhecia, de todo em todo, o "affaire" Odette. Para além do algum gosto que me dá ver uma militante comunista vestida de "dama antiga"- o que em si, não é uma contradição, mas uma mera comprovação - acho agradável uma atitude que contraria a mesmice.
Do 1º de Dezembro, pouco há. Mas, numa lista dos 40 conjurados (eram perto de duzentos) que encontrei, um nome geralmente menos citado, em lugar de relevo, levou-me a suspeitar. Fui confirmar: tratava-se, de facto, de um caso de favorecimento pessoal: o citado é um antepassado do bloguista.
Aqui e ali, a questão esquerda/direita, uns salpicos de teoria dos fins das penas, onde velhissimas posições são tratadas como novidades, algum consequencialismo em moral; e leves provocações pessoais que, no desconhecimento em que estou de quem são os intervenientes, me escapam.
Meia-noite.
Talvez uma torradinha. Não há é doce de morango...
Embora não tenha vivido, fruto da pouca idade, na época esplendorosa da ceia, conservo memórias que o meu desgosto inventou; e do que verdadeiramente vivi, há o suficiente para lidimamente me lastimar deste ingrato e assimétrico hiato que é hoje o "à noite".
Assim, quando não me apetece ler e não é noite de Big Brother, dou uma olhadela aos blogs.
E o que tinha perdido: desconhecia, de todo em todo, o "affaire" Odette. Para além do algum gosto que me dá ver uma militante comunista vestida de "dama antiga"- o que em si, não é uma contradição, mas uma mera comprovação - acho agradável uma atitude que contraria a mesmice.
Do 1º de Dezembro, pouco há. Mas, numa lista dos 40 conjurados (eram perto de duzentos) que encontrei, um nome geralmente menos citado, em lugar de relevo, levou-me a suspeitar. Fui confirmar: tratava-se, de facto, de um caso de favorecimento pessoal: o citado é um antepassado do bloguista.
Aqui e ali, a questão esquerda/direita, uns salpicos de teoria dos fins das penas, onde velhissimas posições são tratadas como novidades, algum consequencialismo em moral; e leves provocações pessoais que, no desconhecimento em que estou de quem são os intervenientes, me escapam.
Meia-noite.
Talvez uma torradinha. Não há é doce de morango...
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