sábado, janeiro 24, 2004

Encontrei um livro de poemas de Pessanha que já nem sabia que tinha.

Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, por que não vos fixais?
Que passais como água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Por que ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são o meus olhos abertos?
- o espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão causal dos meus dedos incertos
- Estranha sombra em movimentos vãos

Camilo Pessanha

quarta-feira, janeiro 21, 2004

A propósito da National Gallery assisti, num documentário, a uma conversa interessante e elucidativa entre o seu director de então, Neil Macgregor - hoje director do British Museum - e Bernard Pivot do "Apostrophes" e do "Bouillon de Culture".
Desde logo, o percurso de MacGregor, pouco usual na Europa continental e menos ainda na românica: advogado de renome na Grã-Bretanha, MacGregor descobriu que a advocacia não lhe interessava o bastante, ou interessava-lhe menos que as artes. Deixou toda a sua vida profissional passada e resolveu dedicar-se apenas à arte, seguindo o hábito inglês tão incompreendido, de fazer o que gostava, de trabalhar no seu hobby. Passado pouco tempo era o director da National Gallery e foi lá e nessa qualidade que Pivot o entrevistou.
A National Gallery tem, como muitos museus britânicos, entrada libre. MacGregor explicou a razão: o pagamento afastaria muitos frequentadores que dispõem de pouco tempo para visitar museus: quem, num intervalo de almoço, tivesse 20 minutos disponíveis, não pagaria um bilhete por tão pouco tempo. Sendo grátis, as pessoas podem entrar - e entram - nem que seja por 10 minutos ou para verem uma única obra. O preço do bilhete constituia um barreira que impedia muita gente de entrar dessa forma casual no Museu e foi esse entrave que foi removido. Aliás, acrescentou MacGregor, as obras de arte são pertença do povo britânico, e é, por isso, muito natural que não tenham de pagar para as ver.
Pivot, que parecia um pouco perdido tão longe da pátria, já tinha estranhado o francês impecável de Macgregor, mais estranhou que isso acontecesse numa monárquia e que não fosse assim na republique française... Não sei o que pensou MacGregor daquele disparate tremendo, mas o seu silêncio amável e polido, por muito que quisesse disfarçar, foi eloquente...
Muito educadamente, não explicou que tal respeito pelo público não derivaria tanto da forma da chefia do estado, mas da democracia. E que, em questão de democracia a republique française em nada se podia comparar com a democracia da monarquia inglesa. Penso que Pivot também percebeu que deveria ter ficado calado...


Tinha prometido para ontem. Revelo hoje o nome do pintor, uma valiosa redescoberta da pintura: Thomas Jones.
Este quadro, de 1782, foi para mim uma surpresa magnífica, está em exibição na National Gallery Aconselho a visita para uma devida apreciação: a cor de fundo do blog atenua as os jogos de cores e de texturas. Aquele rectângulo/céu deve ser visto sobre branco.
Aqui poderá ver mais da obra deste pintor.

terça-feira, janeiro 20, 2004

Encontrei! É o começo d'"O Comendador" das Novelas do Minho. A manhã frigidíssima é a do Dia de Reis do ano de 1832
Transcrevo - com gosto - parte do diálogo entre abade e criada:

"- Salte daí para fora, seu calaceiro! E deu-lhe uma sonora palmada na nádega esquerda. - Um rapaz de vinte e sete anos está aí inteiriçado como um velho! Upa! (...)
"Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!...
(...)
- Então dissesse-o - tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação. -Salte daí! vá baptizar o enjeitado; que, se ele morre sem baptismo, verá que ingrazéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem...!
Tentava encontrar uma alba de D. Dinis - que é uma cantiga de amigo com temas dedicados ao nascer do dia ou passadas na alvorada - e lembrei-me de um livro do Camilo em que, em prosa, há uma genial alba, mas de escánio e maldizer: um abade, chamado de manhãzinha num gélido dia de Janeiro para ir baptizar uma criança e renitente no cumprimento dos seus deveres pastorais é posto fora da cama, à força de imprecações, pela sua criada e companhia de leito, uma boa e crente rapariga que se indigna com a calaceirice do eclesiástico.
Todas estas manhãs frias deste Janeiro me tenho lembrado dessa genial cena.
Mas em que livro está? Aceitam-se e agradecem-se contribuições que devolvam ao bloguista a alegria de voltar a ler aquelas linhas.

Lá vai o tempo em que detestava entrevistas. Tinha a impressão que os entrevistados diziam sempre a mesma coisa, paráfrases do que haviam já dito noutras entrevistas e perante perguntas igualmente desinteressantes ou inóquas.
Isso foi no tempo em que, má que fosse, a televisão portuguesa não era, ainda, uma central de telenovelas para preencher o tempo que sobra da exautiva cobertura dos acontecimentos (e não-acontecimentos) futebolísticos.
Talvez pela dieta forçada, espanto-me com o interesse, a quase avidez com que sigo, agora, as entrevistas. Ontem, e já a desoras, ouvi João Salgueiro e Paulo Azevedo responderem a perguntas da Maria João Avillez sobre a situação do país.
Ambos desiludidos, como eu estou, com o governo, ambos a dizer que estamos longe do que seria necessário fazer para podermos ombrear com o resto da Europa, ambos pouco crentes em que sejam feitas as reformas necessárias para isso.
Também eu estou pouco pessimista ao ver que sob os ataques à necessidade de reformas mais do que ideias ou concepções do mundo encontramos, afinal, o imobilismo da ruralidade, ou o fomentado e querido pelas burocracias de um estado desmesurado e patriarcal.
Tenho acreditado, embora com reservas, que o impulso necessário para a mudança virá das franjas "estrangeiradas" da classe média já que essas franjas não deixam de participar dos benefícios da burocracia... Creio, no entanto, que há indícios de que a necessidade de "isto ir para a frente" começa ser sentida por mais gente e não, unicamente, por quererem participar das migalhas da mesa estatal: os modelos de sociedade e quotidianos que lhes entram em casa - mesmo via telenovelas ou de tv-filmes - parecem-lhes mais atraentes e mais propícios. De um certo modo vivem já nesses tempos futuros. Foi pelo que viram nestes últimos que muita gente se questionou, com verdadeira supresa, sobre algumas particularidades do nosso código de processo penal: "então aqui pode-se estar preso este tempo todo antes do jlugamento?" ou "mas não deviam ter logo perguntado às pessoas onde estavam naquelas datas?" foram interrogações que ouvi, feitas nos cafés da esquinas. Em questões de direitos liberdades e garantias já estão muito à frente dos nossos legisladores...
E é bem possível que em outros campos insuspeitados também o estejam.
Falta os legisladores, e os governos - estes ou outros - compreenderem isso.
Ou, para já, aos programadores de televisão. Talvez que "ver pensar" não seja um tão mau produto quanto supõem. Talvez venda.

segunda-feira, janeiro 19, 2004

Com o sol-pôr volto para casa.
Fecho as janela, ligo os aquecedores, arrumo o livro que deixei aberto e que hoje já não vou ler. O frio dissipa-se em veios lentos e finos e neles se dissolvem, também, ténues, os restos da minha ausência, as horas que passaram e foram aqui a tarde que não estive em casa.
O dia foi discreto, bom, calmo. Lembrei-me sempre do quadro que, logo de manhã, pus aqui. Amanhã quero pôr outro e dizer quem é o autor, galês e do Séc. XVIII. À volta dele e dos britânicos e das viagens em Itália passei hoje o tempo. Por ele me lembrei de Beckford - que preferiu o pitoresco português; da Nossa Senhora Rosa, de Rafael que vi na National Gallery, comprada por um duque inglês em Itália - ou por um marchand a soldo.
Até Ary dos Santos ( o Almocreve não se esqueceu) foi mais o descendente das avós italianas setecentistas que teve e o avô dele diplomata lá, do que o poeta que hoje faz anos que morreu.

Vejo no Abrupto e no Bomba Inteligente a "polémica" sobre a tradução do poema de Cavafy. Recorro à minha tradução de Yourcenar e Dimaras (Gallimard) em que pela primeira vez o li, no Verão de 1982.
Deixo-a aqui. Tem, sobre a tradução de Joaquim Manuel Magalhães a vantagem de guardar a limpidez do matinal e do fortuito a par de uma concisão de sentido que esta, sendo-lhe embora próxima, parece não desejar (e.g. "e não aqui também os meus devaneios" que em Yourcenar é um mais claro e unívoco "et non pas seulement mes illusions")
Ah, mas o que me afasta da tradução de J.M.M. é isto: "modelos da volúpia". Lembra-me uma carta comercial: "Junto remetemos 25 modelos de volúpia".
A tradução de R. M. Sulis é áspera e angulosa.


Mer au matin

Que je m'arrête ici!... Et qu'à mon tour je contemple un peu la nature... Belles couleurs bleues de la mer matinale et du ciel sans nuages... Sables jaunes... Tout cela, éclairé avec grandeur et magnificence... Oui, m'arrêter ici, et me figurer que je vois ce paysage (á la verité, j'ai aperçu en arrivant, et l'espace d'une seconde), et non pas seulement mes illusions, mes souvenirs, mes voluptueux fantasmes...

Constatin Cavafy.

[Releio e quase "reconheço", em parte, o lamento e a censura de Rilke: "Ó velha maldição dos poetas, /que se lamentam quando deviam dizer/ (...)/ Eles usam a língua para descreverem onde é que lhes dói/Em vez de se transmudarem em palavras(...)]

Depois, nasceu este dia pela seguinte ordem: S. João da Cruz e esta caverna, perto de Roma.
O frio maduro e quieto da noite e aquele de há pouco, da madrugada, atravessado por uma inquieta brevidade de nascituro.

domingo, janeiro 18, 2004


Podia ter sido escrita em qualquer Domingo dos séculos XV ou XVI - se monótonos e melancólicos eram os domingos dessa altura, o que é duvidoso - esta

Esparça de Bernardim Ribeiro

Chegou a tanto meu mal
que nam sey estar sem ele,
e fugo d'ond'á y al
como se fugisse dele
Mas vêdo-me em tal estado,
que me vou craro matar,
nam quero mays que cuidar,
por ver s'emfado hum cuydado
que me nam pode enfadar.

sábado, janeiro 17, 2004

Hoje de madrugada, antes de dormir, lembrei-me desta alba de Torneol que Rodrigues Lapa considera uma das prodigiosas coisas do nosso antigo lirismo.
Quem a pode ler hoje? Todos nós.
Alba
de Nuno Fernandes Torneol

Leuad' amigo, que dormides as manhanas frias:
todalas aues do mundo d'amor dizian,
leda mh and'eu

Leuad' amigo, que dormides as frias manhanas:
todales aues do mundo d'amor cãtaua,
leda mh and'eu

Todas aues do mundo d'amor diziã
do meu amor e do uosso en ment' auyã,
leda mh and'eu

Todalas aues do mundo d'amor cãtauã;
do meu amor e do uosso y enmentauã
leda mh and'eu

Do meu amor e do uosso em met'auyã;
uos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
leda mh and'eu

Do meu amor e do uosso y enmentauã;
uos lhi tolhestes os ramso en que pousauã,
leda mh and'eu

Vos lhi tolhestes os ramos en que sijam,
e lhis secastes as fontes en que beuiã,
leda mh and'eu

Vos lhi tolhestes os ramos en que pousauã
e lhis secastes as fõtes hu sse banhauã
leda mh and'eu

* leuad - levar-se, erguer
* enmentava - aludiam, relembravam
* sijam - de "seer", estavam

in "Textos Portugues Medievais" de Corrêa de Oliveira
e Saavedra Machado

sexta-feira, janeiro 16, 2004

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Outra tarde madraça... é do tempo. Gosto do cinzento, dos dias chuvosos mas hoje, de repente, senti-me demasiado lagunar, aquático, e tomou-me um spleen anfíbio, uma aspiração irritante a terra fime e seca. E cá estou, na margem deste Janeiro, coberto de chuva e melancolia, e de péssimo humor.

Cretinamente, sinto-me na necessidade de desmentir o meu post de ontem, que me divertiu escrever. Fica o desmentido, para mim (?): não escrevo "mails" à redacção, ou escrevi um ou dois. É verdadeiro, no entanto, o meu espanto por aquelas "cartas à redacção", algumas delas eruditas, sobre pequeníssimos pormenores. Intriga-me aquela microscopia de escrúpulos e boas intenções e os quotidianos a que pertencem.


Dos blogs

Acrescento à minha lista de blogs o Catalaxia - que não constava dela apenas por pensar que ia acabar, o Causa nossa para ir observando, o Desejocasar onde aprendo uma Lisboa e um tempo que não são os meus. Ah! E o SexinLisbon que, nos meus tweenties também não era assim.

O Contra a Corrente também deveria estar há muito na lista. Mas, com uma frase de Sir Isaiah Berlin, um dos meus maîtres à penser, em epígrafe, as expectativas são altas e alguns dos posts - de há uns meses atrás -desiludiram-me um pouco. É, no entanto, mais que justo que figure na lista dos blogs que visito.
O Picuinhices, também, onde já tinha seguido algumas discussões e hoje li sobre uma ida ao ballett com honestas e honrosas confissões.
E o Rua da Judiaria que tem muito que dizer e me tem deixado perplexo com alguns dados sobre os judeus portugueses. Mas deixo para depois algumas perguntas.
A mensagem que o Presidente da República dirigiu à Assembleia da República teve de esperar a sua vez na ordem dos trabalhos para ser lida. Não fica mal à assembleia esta defesa das suas prerrogativas: também os soberanos ingleses batem à porta dos Comuns e esperam que lha abram.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
Durante anos as “cartas à redacção” foram para mim um completo mistério... quem era aquela gente que se dava ao trabalho de escrever para o jornal a propósito de “nadas-mortos”? Imaginava-os velhinhos reformados, ex-professores de liceu saudosos dos tempos de aulas e a quem um pequeno erro ainda confundia e mortificava (devo pertencer à última geração que associa precisão à escola...). Acreditava-os moradores de andares altos e sem elevador, habitantes de salinhas minúsculas com mesas grandes e tristes, onde, aberto, se encontrava o jornal a ler de fio a pavio e algumas revistas - a Historia francesa, ou alguma de filologia editada em Lausanne. A coroar esta arquitectura de conjunturas um erro, um erro inofensivo que, descoberto, seria corrigido por uma carta amável, escrita àquela mesa, mais tarde.
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!


quarta-feira, janeiro 14, 2004

Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."

Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).

"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.

terça-feira, janeiro 13, 2004

Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Eu bem não queria voltar tão cedo ao caso pio mas li o que Clara Ferreira Alves escreve hoje(?) aqui, num acesso de catastrofismo. Destaco: "Não falo da Acusação nem das equipas de especialistas que têm acompanhado o caso. Falo do sistema legislativo, judicial e judiciário português. Falo da Constituição, do Direito Penal, do Processo Penal, da Procuradoria, do Ministério Público, da investigação, dos polícias e juízes, das prisões. O sistema cairia aparatosamente. Seria o caos, a desordem, e da parte de um homem injusticiado, a sede de justiça e, talvez, de vingança. Ao ilibar ou não Carlos Cruz não estamos apenas a ilibar Carlos Cruz, estamos a dar cabo da famosa Justiça em Portugal. A tal que toda a gente diz que funciona."
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?

domingo, janeiro 11, 2004


"(...) Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia.
(...)
Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida (...)".

Fernão Mendes Pinto

Não sei quem lê hoje a "Peregrinação". Temo que pouca gente. Não é obra que satisfaça provincianismos de contenção: comove, diverte, põe-nos à prova, que não apenas pelo uso das vero e inverosimilhanças a que o narrador, um pobre homem, deita mão - até à pungência - para sempre nos ter com ele, a seu lado, mas por uma inteireza humana que não cabe no pouco ser que hoje soe usar-se na vida quanto na sintaxe ou no vocabulário.

sábado, janeiro 10, 2004

Monotonia...
Sempre a imagem das coisas que nos pesa...
As mesmas tintas da Alegria,
O mesmo claro escuro da Tristeza...
...................................................

Teixeira de Pascoaes
O meu hobby principal é esquecer. Tenho outros, uns menores - não gostar de alguma França, considerar que a mãe de Hemingway escrevia melhor do que o filho - outros maiores: detestar tutelas, ser monárquico, amar Eça de Queirós.
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.

Para quem não o conhece:

Navio

Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!

Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, janeiro 08, 2004



Blogar tornou-se um pretexto para arrumar livros.
Explico: visito um blog e vejo uma imagem, ou leio uma citação, ou alguém escreve sobre um assunto e lembro-me que "eu tinha para aí qualquer coisa sobre isso" ou que "o não sei quantos fala disso naquele livro". Hoje fui ao Crítico Musical e encontrei umas escadas. Lembrei-me do "Sea of Steps" do Evans e do local onde vira a fotografia: num "Colóquio Artes". Parti para o armário das revistas e quando lá cheguei descobri a edição do "Totem e Tabu", Payot, 1925, 2eme Edition, que erradamente ali pusera.
Já está no sítio certo, ao pé dos outros.
Por este andar, acabo por descobrir o Dicionario de Mitologia, Lisboa, Rua dos Algibebes, mil oitocentos e quarentas, que deixei de ver vai para um bom par de anos, apesar de alvíssaras prometidas.
Fica o sea of steps - mas não me parece a fotografia que queria. Naquela de que me lembro, é uma onda rasa que, num mar chão e calcário recolhe os primeiros e últimos passos. Esse Colóquio, porém, não o encontrei.
(Neste mar noto a dupla coluna - ou colunelo - que divide o plano da parede e onde parece inscrever-se uma marca de maré).

Foi há 23 anos, por uma chuvosa tarde de Janeiro - não sei se era chuvosa, verdadeiramente: chuvosa hoje, há dias teria sido soalheira, que seja esta em que escrevo: finjo que é o tempo, a chuva desta tarde, que me lembra essa outra, longe, em que saí­ de casa e fui ao cinema - ou apenas lanchar - e vi o primeiro volume do "Em busca do tempo perdido" e o resolvi comprar e ler. Tenho-me lembrado, desde que Janeiro começou, e o post com a tela de Whistler, o pintor com que Proust compôs o nome de Elstir e parte da pintura de Elstir assinala esse começo de leitura.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

As meninas são as Vivian Girls de Henry Darger, o autor do "The Realm of Unreal" e o título "They fool enemy officers into seeing Evans while two notice approach of severe thunder storm".
De Boétie, que com 16 - ou 18 - anos escreveu o seu "Discurso sobre a servidão voluntária", a estas crianças que enganam os guardas e não se submetem, o caminho não é longo. Todavia, tudo se deveu a um acaso. Procurava um surrealista norte-americano e reencontrei um autor de que apenas uma vez ou outra ouvira falar e de que já quase me esquecera.
"La liberté, les hommes la dédaignent uniquement, semble-t-il, parce que s'ils la désiraient, ils l'auraient; comme s'ils refusaient de faire cette précieuse acquisition parce qu'elle est trop aisée."
Discours de la servitude volontaire

Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.

terça-feira, janeiro 06, 2004

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Num intervalo: lia, ontem, nas "Memórias" os capítulos dedicados à agonia da França, à situação solitária em que ficou a Grã-Bretanha com a débacle gaulesa em 1940 e, sem querer, pensei em tempos mais recentes.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
"Divertiu-me ver um pelotão da Guarda de Granadeiros a montar um posto de metrelhadora com sacos de areia num dos quiosques do cais, parecido com os da minha infância. O tempo estava adorável. Tive uma óptima conversa com o general e apreciei imensamente o passeio."
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra

O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.


domingo, janeiro 04, 2004

Pelo jardim fora, vivalma. Esta gente vive em casas soturnas, pequenas e feias, e sai delas, numa carreira, para se ir meter em cafés - ou centros comerciais - ainda mais soturnos e feios; ou para as soturnas "segundas residências" pintalgadas de amarelo ou branco e verde com que em Portugal se inaugurou o kitsch campestre. Seja para onde for, escapa-lhes a lentidão do dia e, nestes dias soalheiros, o azul e a deriva das sombras.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.

sábado, janeiro 03, 2004

Nestes dias de sol descem devagar horas que já não lembro senão que era o vento nelas de nordeste e mais frias por entre os vidros.
Ao Churchill de Gilbert, sucederam nas tardes e nas madrugada de ontem e de hoje, as "Memórias da II Guerra Mundial".
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.

quinta-feira, janeiro 01, 2004



A ilustrar o Dia de Ano Bom, o céu de Janeiro das Horas do Duque de Berry.

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Tenciono passar de ano em casa, sossegado.
O "kit" de passagem de ano é composto de 1 ou 2 livros, 1 garrafa de champagne decente, 12 passas de uva, uma pêndula que já marcou a passagem de dois séculos, 1 telemóvel desligado e 1 pequeno banco de onde pularei, com o pé direito, para 2004 (há tempos atrás, numa época de maior indolência, substituí o salto do banco pelo levantar do pé esquerdo à  meia-noite, mantendo o direito em terra. É eficaz, mas abandonei tal hábito, por pouco "sportif"). Costumo temperar esta actividade física (salto, uvas, libações) com três ou quatro resoluções "ano novo, vida nova" algumas tocantemente pueris e que esqueço, de imediato, sem o menor escrúpulo.
Passado o ano, isto é, à  meia-noite e cinco, poderei, auspiciosamente, retomar a leitura do Churchill, do Gilbert, ou de Mme. de Sévigné que tenho estado a ler, ou dar uma volta pelos blogs, adormecer, ver o Big Brother, ou mudar de ideias e sair - ou fingir que vou, afinal, sair. Em suma: fazer o que rigorosamente mais me apetecer.
Bom Ano!

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Tinha-me prometido não falar dos "grandes assuntos" e dou por mim a dedicar algum do meu tempo e espaço do blog ao caso Casa Pia. É que nele e por ele veio ao de cima alguma coisa do pior que em nós, portugueses, existe e persiste: primeiro, o desleixo e o deixa andar, as meias-medidas, a indiferença; depois, a reacção das boas almas - algumas delas dificilmente isentas da culpa da omissão - a ostentação de delicadeza de sentimentos - recente; ainda, a falta de rigor, o amadorismo da investigação privilegiando o testemunho, a falta de meios adivinhada, a efabulação infantil que sonha horrores e perversões além das imediatas e visíveis - uma espécie primária de esconjuro - os rigorismos, os exageros justicialistas, anversos e reversos do mesmo subdesenvolvimento.
Convenha-se que não é fácil ficar indiferente.
Prometo calar-me, agora.
É convicção minha de que, a final, haverá absolvições de inocentes. Se este blog ainda existir na altura da sentença voltarei para o "eu bem dizia".

Foi, enfim, deduzida a acusação no processo Casa Pia.
Lembro-me de ler que num acórdão da Relação de Lisboa se fazia referência a dezenas de conhecidas personalidades do mundo do desporto e do espectáculo que teriam sido igualmente nomeadas pelas testemunhas. Será interessante saber o critério que foi seguido para não valorizar os depoimentos relativamente a tais pessoas.
Por outro lado, sabendo-se que as práticas pedófilas na Casa Pia vinham de há decénios, não deixa de parecer muito baixo o número de arguidos, mesmo tendo em conta o prazo prescricional. Sendo minha convicção pessoal que alguns deles estão inocentes, fica-se com a impressão que falta gente...

Foi pedida pelo Ministério Público a prisão do Dr. Paulo Pedroso e do dr. Hugo Marçal, o primeiro mandado libertar pela Relação de Lisboa, o segundo pelo Juiz Dr. Rui Teixeira. Toda a gente sabe que se quisessem fugir já o tinham feito - e com facilidade. Prisão para quê?
Ainda ontem, passei pelo De direita. Deseja que a defesa seja isenta. Quem deve ser isento são os juizes, não a defesa. E as "tropelias" desta já motivaram decisões do Tribunal Constitucional que poderão mitigar a sorte de muito desgraçado alheio ao processo Casa Pia, metido, sem saber porquê e sem que de nada tenha sido acusado, nas enxovias que são ainda as nossas prisões.
Fico estupefacto como passa despercebida a monstruosidade que é o actual código de processo penal, produto genuíno da esquerda e que consagra muitos dos seus mitos.
Pasmo por, aparentemente, não nos sentirmos humilhados com um código que, em termos de liberdade e garantias dos cidadãos, nos coloca atrás de muitos países do 3º Mundo.
O Crítico e o Sex in Lisbon adicionaram o Impensavel à sua lista de blogs.
O Impensável agradece.

domingo, dezembro 28, 2003

Uma pequena volta pelos blogs, neste fim de tarde de domingo.
Ri com as análises certeiras do Mata-Mouros. Por diversas ordens de razões - algumas bastante fúteis, confesso - prefiro Marcelo a todos os outros candidatos. Tem a noção do lúdico, o que me parece muito recomendável num país que, apesar dos dois últimos decénios, continua embiocado em desconfianças labregas, pardo e tristonho. Por outro lado, o problema português parece-me prender-se mais com o que os governos não fazem, por inabilidade, falta de imaginação ou mera cobardia do que com o que possa fazer um presidente irrequieto, mas que não deixa de ser um representante da parte da classe média mais arejada e reivindicativa de modernizações necessárias - junte cada leitor aspas a gosto.

sábado, dezembro 27, 2003

Escrevo sobre o cinzento sereno. Por entre as árvores, ali em frente no jardim, traços breves e fuscos de pequenos vôos. Depois, as casas pequenas. A meio caminho do horizonte, de vez em quando, o ladrar de um cão. Se alguém passasse, o ruí­do dos passos, a janela com luz onde escrevo. Este dia é estas coisas poucas mas é alto o muro que constroem.

sexta-feira, dezembro 26, 2003

Hoje, na taberninha, e deste diminuitivo participa o afecto quanto o rigor descritivo, na taberninha onde todos os dias tomo café e compro pão bem feito - reinava um silêncio quase taciturno e lustral - assim talvez fosse depois dos grandes festins solisticiais e dos episódios de mania dionisí­aca.
Ou a mera mudez embaraçada perante uma pressentida ausência.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

A noite cai.
Bom Natal.
Que dia tão bonito, calmo e tão azul.
Na taberninha onde fui comprar cigarros e tomar café - hoje fecha cedo, daqui a pouco - estão à porta a ver este começo de tarde.


terça-feira, dezembro 23, 2003

De regresso.
Receio e expectativas infundadas: todos muito calmos e serenos, com um ar de reflexão - mas não de desânimo - a ver preços.
Distante das visões de há anos atrás, ou da selvajaria tristonha do ano passado.
A verdade fundamental - a crer que há uma - refugia-se num jazer mais fundo e mais dormente, talvez só acessível pela alucinação castorpiana.


O descanso absoluto não existe, tomem-se as precauções que se tomarem. Vejo-me obrigado a sair para ir fazer compras, compras de Natal, ao hipermercado de prov­íncia que frequento. Confesso que a experiência acaba por não ser penosa. A ferocidade com que aquela gente afogueada e ávida enche os carrinhos tem um fulgor de rapina, de repartição de despojos que remete para o sangrento prazer do saque.
E eu, que vou comprar meia dúzia comedida de estilizadas vitualhas acabo por me deixar contagiar, e permito-me o exercício de nostalgias cruas que, se me assustam, não deixam de me alentar.

Adenda ao post anterior: relacionar a degradação dos imóveis com a lei do arrendamento para habitação não é um erro, mas é incompleto: o arrendamento comercial encontra-se nas mesmas condições de iniquidade.
Aos sociológos: seria interessante ver quantos daqueles que interferiram na legislação do arrendamento comercial eram por eles, ou por interposta pessoa - pais, por exemplo - parte interessada na desactualização das rendas...
A história é conhecida: durante decénios - a “coisa” começou com a 1ª república - o estado dedicou-se a brincar com os imóveis dos outros com o resultado que está à vista: as cidades estão cheias de prédios a cair, alguns caem mesmo e, pior ainda, em sítios por onde passam membros do governo, colegas deles de governos estrangeiros e turistas(os nacionais não contam). Em suma: a coisa dá um terrível mau aspecto, é capaz de já ter provocado graçolas em Bruxelas, e o governo, brioso, parece ter resolvido atamancar a situação, para pôr “isto” mais moderno e com um ar de 1º Mundo.
Pensariam os mais ingénuos que, copiando o que se passa lá fora onde costuma ir pedir perdões, mendigar e receber ordens, o governo tentasse, talvez, criar as primeiras condições para a existência do mercado de arrendamento.
Puro engano! Querendo-se talvez vingar das humilhações e vexames que sofre com a gente crescida, em casa gosta de mandar com a prepotência que lhe sobrou dos tempos do Senhor D. José I e de Sebastião. E prepara-se para confiscar os prédios que os seus proprietários, vis mentirosos, dizendo-se totalmente descapitalizados por décadas de rendas de alguns mil réis, juram não conseguir recuperar. Para dizer isso mesmo aos infames, estava há pouco na televisão já não sei quem, a atirar para o género "executiva americana anos 70-80", que explicava como ia ser. Melhor, tentava explicar por que tinha de ser... e tinha de ser por que os proprietários dos prédios, segundo ela, e por motivos desconhecidos - capricho, maldade, adesão a estéticas expressionistas, ou pelo gosto pitoresco da ruína, os não reparam...
Primeiro, rude saloio, pensei que a explicação era desonesta intelectualmente. Depois, reflecti, pensei melhor, que o governo, que é pai, é quem sabe e eu nada sou nem sei. Assim, tomo por boas as explicaçõe governamentais.
Creio, contudo, embora pouco saiba, que posso pedir ao meu governo coerência ( sim, sim, eu sei, estou só a pôr uma hipótese) e pensamento largo: tratando-se de evitar a degradação, porque parar nos imóveis? Comece o governo, que tem prática em desmoronamentos, por se confiscar e vender-se a si e à sua produção legislativa em hasta pública. Eu, que gosto de bric-à-brac, talvez me tente a comprar um despacho, um decreto-lei. Talvez este que se prepara e que é ilustrado com uma desusada e raríssima falta de princípios, de boa fé e bom-senso.


segunda-feira, dezembro 22, 2003

Os portugueses gastam três vezes mais dinheiro com telecomunicações do que com a educação.
Se o tempo gasto ao telefone for utilizado para dar vazão à ignorância pode-se dizer que são notavelmente sucintos.

Pensadamente, desejo a todos um Santo Natal e Ano Novo Feliz.

A imagem fazia parte dos cartões que se usavam para pôr os nomes nos presentes, nos inícios dos anos sessenta (62-63), e que alguém tinha trazido de Londres. Restam alguns que guardei juntamente com outros artefactos natalícios da mesma origem.
À direita da imagem , o "From e o To" que cortei foram as primeiras palavras que soube em inglês.

domingo, dezembro 21, 2003

Foi do modo como a notí­cia foi dada, ou vem do treino em processo penal que adquirimos nestes últimos meses, não passou despercebida a contradição contida no despacho que manda prender um presumido inocente para que este não continue a actividade criminosa. Convirá lembrar, além do mais, que se trata de presumir a actividade criminosa de quem não foi, até hoje, acusado de qualquer crime.
No outro dia, na televisão, alguém que passou ano e meio preso preventivamente antes de ser absolvido - graças a provas que se encontravam no processo e, por tal, acessíveis desde logo a quem o mandou prender - tentava transmitir-nos a leviandade com que se priva alguém da liberdade e se arruinam vidas, às vezes para sempre.
Estranhamente, não vejo muita gente preocupada com o poder-lhe acontecer algo idêntico. O culto do estado paternal - a que continuamos fiéis - privilegia a identificação com o punidor que "protege" os bons e que castiga os criminosos. Em termos mais ou menos disfarçados e sofisticados, todos acabamos por pensar que, se está preso, alguma coisa fez. Vi gente inteligente pôr de lado a hipótese de engano, a mesma gente que sabe e relata casos assombrosos de ineficiência e trapalhice estatais.
E apanhados na teia frouxa de meia dúzia de truques de mau jornalismo eis-nos ao lado do pai prontos a aplicar a sanção. O "respeitinho", o temor reverencial pela autoridade limitou-se, nestes quase trinta anos de democracia a refugiar-se nos tribunais (para quem o parlamento e o governo quiseram, demitindo-se dos seus deveres, passar a devoção).
É interessante, aliás, verificar que, ao contrário do que se passa lá fora - continua a ser "lá fora" - não haja, em Portugal, reflexão teórica sobre o poder judicial, o seu controlo polí­tico - isto é, pelo povo em nome do qual se administra a justiça.
É vocação nossa?
Sem sono, passei a noite de livro em livro. Aqui passei também o meu tempo e reparo que devo ter estado mais de uma hora à  procura da fotografia de um fogão a lenha na net; desdobrei-me em esforços: do Brasil a Inglaterra, passando pelos "forneau à  bois" franceses. Não encontrei, tentei cá em casa e, surpreendemente, passados dez minutos tinha o que queria, o fogão na cimalha do post. Antes de desligar o computador já é dia. Vou dormir agora, a estas horas, e logo será o acordar, já a meio da tarde, ou se tiver sorte, com a noite a cair. De vez em quando, resvalo pela noite, alheio a qualquer preocupação de horas. Das primeiras vezes, a partir das seis impunha-me uma, "mesmo sendo amanhã domingo", no bom-senso cordato e indignado que perpassa a passos miúdos até no que aqui escrevo. Quando acordava, domingo à tarde, mentia-me uma mentira tristonha, vagamente moralizante, como acabam por ser todas: ah! estou engripado, fiz bem em estar na cama, frases destas, apercebendo-me, ainda mais vexado, que a collage com os textos da banalidade, o desejo balsâmico dela, me tornava num ser mais estranho que um mero noctívago que passou a noite em claro a ler...
Agora, resolvida a questão, bocejo de liberdade e o sono vem, pesado e bom. E há que dormir bem.

Por teimosia "gourmet" e "gourmande" de meu Pai manteve-se até tarde o fogão a lenha. Por concessão à  modernidade e creio que ao pessoal, somou-se a esse fogão "a sério", um outro, eléctrico, marca Leão, com um design optimista e sorridente que passou anos de quase inteiro ócio. Quando me desfiz dele, há dois anos, levado pelas exigências das novas receitas, tive pena. A ele devo algumas boas lembranças. A grande alegria que me deu, porém, foi há muitos anos: um choque espectacular e formidável que quase finava uma cozinheira velha com quem eu antipatizava. Lembro-me do alarido e de, passado o perigo, ir espreitá-la à  copa, onde recolhera. Já convalescente, mas ainda combalida, embrulhada num cobertor de papa que exigira lhe trouxessem por julgar a lã bom remédio para os choques eléctricos, bebia chá, assistida pelas "de fora" que a acalentavam assegurando-lhe que tivera sorte em não ter ido desta para melhor.
Mas era no outro, no fogão a lenha, preto, com muitos amarelos que no dia de Natal, logo de manhazinha, estavam os presentes que o Menino Jesus, ajudado pelo Pai Natal lá pusera. Os meus e os das empregadas(os presentes das outras pessoas tinham vindo, por uma deferência do Pai Natal, pela chaminé do fogão da sala). Tudo isto se passava muito cedo, já que o fogão precisava de horas para aquecer. Nunca me deu um prazer comparável ao choque da cozinheira mas, discreto e com uma maldade vagarosa de outras eras, foi ao longo de anos responsável por pequenas queimadelas e aflições que arrancavam sussuradas pragas e aiaiais vivazes. O fogão a lenha, o fogão, por justa antonomásia, não chegou aos meus dez anos. Hoje, se o afã da modernidade o não levara, podia dedicar-me à "cuisine lente".

sábado, dezembro 20, 2003

De pernas para o ar

Disse o Primeiro-Ministro sobre o segredo de justiça:
"É importante termos, nesta matéria, uma lei que seja realmente exequível e cumprida. Uma lei que defenda os direitos do cidadão arguido. Mas uma lei que não coloque nunca em causa e tenha por limite a eficácia e o sucesso da investigação criminal"

O limite da lei deveria ser o dos princípios da decência ou dos direitos liberdades e garantias dos cidadãos numa democracia, o que vem a dar no mesmo, não o da "eficácia" da investigação.
Quanto ao famigerado segredo de justiça, repete-se que não existe nada de semelhante em Inglaterra, ou nos Estados Unidos ou na maioria dos países da Europa com democracias sólidas. Existe segredo ou discrição na investigação, que é coisa muito diferente e que toda a gente percebe que tenha de existir.
No que respeita aos direitos do cidadão arguido, que neles se inclua o de não poder ser preso sem acusação senão por um brevíssimo espaço de tempo - 3 dias, na Suécia. Que fossem, aqui, 15 dias, cinco vezes mais, em nome do atraso. Ah, e que acabe de vez o escândalo da prisão preventiva.
Não tive uma crise de ingenuidade: sei que pouco, muito pouco irá mudar.
Enfim...

sexta-feira, dezembro 19, 2003

A edição d'Os pobres de que tirei o excerto do post de há pouco tem na contracapa umas palavras de Vergílio Ferreira que vou transcrever: "... A situação particular de Raul Brandão e que o diminui e engrandece, é que toda a sua obra abre para um mundo novo. É o mundo que nos coube, e em que estamos vivendo e de que ele transpôs apenas, em deslumbramento e terror, o incerto limiar.

Creio estar - e um pouco a minha geração, embora só possa falar por mim - também aterrorizado e deslumbrado à  saí­da desses mundos que Brandão vislumbrou.

(Mas o que gosto mais em Brandão, mais do que o tom de iluminura impressionista d'os Pescadores, mais do que o cumprimento da convenção - e da convicção que, por vezes, é a da complacência com ele mesmo - é o descobrir esboços daquele "vôo para baixo" que Vieira dizia Santo António tão bem ter sabido voar)
"Vem o inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra. As coisas di-las-íeis recolhidas e cismáticas.
É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara, põe raízes à mostra, arrasta na aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água para um destino ignoto."

Raul Brandão, Os pobres

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Cena familiar


Rendido às alegrias do "upload", e de "template" natalí­cio, procurei pintura portuguesa. Não é a mais bem sucedida das pesquisas, mas há aqui, por exemplo, num dos "sites" mais antigos da net portuguesa, nomes suficientes para nos animar.
A informação, dispersa embora, ultrapassou a escassez irritante de há 3 ou 4 anos, há novidades, mas em muitos casos parece-me que a preocupação em fazer "design web" ou "artweb" torna as páginas pesadas, muito lentas a carregar e a espera - com banda larga... - revela-se ainda pouco compensadora. Os "sites" dos museus nacionais, se não constituem já a desilusão que eram pouco tempo atrás, são ainda pouco atractivos.
De que andava eu à  procura? De uma cena rural e invernosa, portuguesa, como as pintou o nosso naturalismo. Não encontrei. Algumas paisagens, mas todas com bom tempo. No Inverno, estariam os pintores mais no Leão de Ouro do que no campo, o que é muito compreensí­vel. Mas eu queria, por força, aquele campestre em que o olhar tardo e ingénuo do gosto nacional via um Portugal naturalmente feliz. No passeio, encontrei a doméstica "Cena Familiar" da Aurélia de Sousa, um estudo em ocres quase vermelhos, arruivados: da parede côncava - um fogão? - ao cabelo da mãe - concentrada no que faz ou ausente - prolongam-se na filha através do tecido, num tom mais escuro, que aquela segura sobre a coberta esverdeada da mesa. Encarnada escura, a blusa dela e encarnados os sapatos. Perto dos tons encarniçados, ainda, por corada, a outra criança, a loira, e de blusa branca, comunga de um segundo circulo, este claro, que também as une: o pano que a mãe borda - ou passaja - e se destaca sobre o avental escuro, a boneca da criança que nos vira a cara - e que é quem nos expulsa daquela intimidade - enquanto parece falar à irmã (mas dirá alguma coisa? Ou virou-se naquele momento, por outro motivo qualquer?) - que, a ouvi-la, está entre o contrafeito e o aborrecido.
São os jogos de cores, entre os encarnados, vermelhos e ocres e os brancos que no quadro unem aqueles seres, não as expressões, os olhares.
Lá fora, porém, é Inverno, só pode ser Inverno - mesmo que estejam pouco agasalhadas para os frios.

quarta-feira, dezembro 17, 2003



Durante dias, procurei aflito um papel - um pequeno impresso. Revirei gavetas e estantes, sacudi, selvaticamente, livros pelas lombadas, abri outras gavetas, ameacei outros livros, pastas, "dossiers". De puro acabrunhamento, quase soçobrava, envolto em papéis velhos.
Enfim, revoltei-me contra a agitação amargurada, a abundância de falsas memórias - "foi ali que o pus!", - a pletora de hipoteses - "e se o tiver posto ali?" - e resolvi optar por outra estratégia. Hoje, de manhã, três telefonemas calmos resolveram o problema.
A busca era, desde o início, inútil...

Isto não é um novo "template": são as minhas decorações de Natal.

terça-feira, dezembro 16, 2003

O Natal...
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Adormeci ontem cedo, acordei há uma hora, com calor, mas sem sono.
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:


«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»

domingo, dezembro 14, 2003

Dizia Proust, grande escritor judaico-gaulês, que o que mais o incomodava, ou surpreendia, nos ateus era o serem muito beatos.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
Inicio a minha volta pelos blogs e, com os meus lamentos ainda em mente, leio isto: "Mal levantei os olhos, o céu foi riscado por um meteorito."
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Ao longo de dois dias o que fiz foi ver o sol claro do fim do Outono e ler dispersamente Vieira, depois, por ele, Job, " "et carnibus meis saturamini" mas sei, sei que sou eu, algures onde desconheço, quem me come vivo, a divindade triste, hostil, apática que se se farta na minha carne. Não dramatizo, mas não evito o suspiro sapiciencial e de auto-comiseração: contido e creio que quase inaudível, não é defeito que muito me censure e vai com os hábitos pátrios.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.

sábado, dezembro 13, 2003

E entretanto vós, peixes, longe dos homens, e fora dessas cortesianas, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda a esta verdade; o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.

Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Relia um post que escrevi há dias e, de repente, reconheço numa frase que escrevi alguma coisa de familiar, não ao quem em mim escreve, mas ao quem em mim lê...
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.

Eis o soneto de Jorge Luís Borges

Los Borges

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.



quarta-feira, dezembro 10, 2003

Links repostos.
Mas vi-me em palpos de aranha para pôr tudo mais ou menos como estava...
A internet é um lugar de eleição para ilustrar a tese que sustenta poder o apocalipse acontecer por pequeninos e desajeitados erros.
Links

Um pequena catástrofe apagou os links que constavam deste blog. Serão repostos o mais cedo possível.

Pearl Harbour

Há anos encontrei numa estante mais esquecida um livro sobre o ataque japonês a Pearl Harbour.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."

Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.

Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.

Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Creio que é Yourcenar que nos alerta para a importância da genealogia dos actos: o abater da árvore, o esculpir da madeira, os gestos do trabalho do marceneiro de que nasceram esta cadeira, esta mesa, aquele armário. Em Portugal, onde se tem saudades até do que nunca se conheceu ou aconteceu, creio que esse exercício é comum, embora se torne, as mais das vezes, e ao contrário do que a escritora pretendia, num exercício de meras e fúteis conjecturas.
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Dia de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal.

E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.

domingo, dezembro 07, 2003

Corrigi duas vezes o "post" anterior: uma gralha e um fecho de parêntesis que faltava.
Atenção excessiva para meia dúzia de leitores.
Se fosse apenas um, um único leitor, estariam justificadas as minúcias.

sábado, dezembro 06, 2003

Há pouco escrevi um post a propósito de uma reportagem na Sic sobre crimes sexuais nos Açores.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à  vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difí­­cil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/ví­timas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indí­cios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falí­vel prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princí­pios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sí­tios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.


quinta-feira, dezembro 04, 2003

4 de Dezembro de 1980

Faz hoje anos que morreram Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.
Tinha uma grande admiração e simpatia por ambos e estou convencido de que Portugal seria melhor hoje, se ambos estivessem ainda vivos.
E que mais dizer?
O "depois de jantar", outrora um agradável tempo de reverente reflexão, propício à conciliação entre as várias correntes de opinião que se haviam manifestado ao jantar, acabou. Acabou, por ter desaparecido a ceia - pelo menos enquanto instituição quotidiana. E sem ceia (e não se confunda ceia, mesmo a mais modesta, de chá e torradinhas, com o "ir comer alguma coisa", que a mera necessidade de "ir" impossibilita desde logo qualquer comparação) sem ceia, dizia, as digestões hodiernas do jantar não possuem já aquela absoluta serenidade que nascia da junção, num mesmo bem-estar ecléctico, da antecipação com a plenitude.
Embora não tenha vivido, fruto da pouca idade, na época esplendorosa da ceia, conservo memórias que o meu desgosto inventou; e do que verdadeiramente vivi, há o suficiente para lidimamente me lastimar deste ingrato e assimétrico hiato que é hoje o "à noite".
Assim, quando não me apetece ler e não é noite de Big Brother, dou uma olhadela aos blogs.
E o que tinha perdido: desconhecia, de todo em todo, o "affaire" Odette. Para além do algum gosto que me dá ver uma militante comunista vestida de "dama antiga"- o que em si, não é uma contradição, mas uma mera comprovação - acho agradável uma atitude que contraria a mesmice.
Do 1º de Dezembro, pouco há. Mas, numa lista dos 40 conjurados (eram perto de duzentos) que encontrei, um nome geralmente menos citado, em lugar de relevo, levou-me a suspeitar. Fui confirmar: tratava-se, de facto, de um caso de favorecimento pessoal: o citado é um antepassado do bloguista.
Aqui e ali, a questão esquerda/direita, uns salpicos de teoria dos fins das penas, onde velhissimas posições são tratadas como novidades, algum consequencialismo em moral; e leves provocações pessoais que, no desconhecimento em que estou de quem são os intervenientes, me escapam.
Meia-noite.
Talvez uma torradinha. Não há é doce de morango...

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Quem tem a minha idade poderia subscrever, com poucas adaptações, o que Eça escreve no seu ensaio famoso (1) sobre o Francesismo.
De inglês - ou anglo-saxónico - na minha infância, apenas me lembro dos padrões dos calções, de algumas camisolas, de um ou outro presente comprado em Londres, de alguns enfeites de Natal e do Peter Pan em discos da View Master. Liam-se, contudo, livros infantis ingleses, de Enid Blyton que, segundo uma Irmã Doroteia, continham alguns perigos para a formação das crianças (sic) e qualquer coisa de Dickens (Oliver Twist?).
Tudo o mais, posso dizê-lo, era francês. Em tenra idade fui iniciado em Dumas, Verne, livrinhos sobre a história de França - alguns ilustrando os horrores da Revolução Francesa. Eram franceses ainda os livros de divulgação científica - durante anos folheei "L'aventure de la terre" - e francesas eram as revistas que os adultos assinavam e parte dos livros nas estantes.
Da Inglaterra falava-se do "civismo" que o nosso povo - então mera paisagem - infelizmente não tinha, elogiava-se a educação, os jardins, a "excentricidade".
Foi, porém, com Eça, com o afrancesado Eça que, nos finais da adolescência, iniciei a minha deriva para o outro lado do canal e descobri a cultura e as instituições britânicas.
Hoje, um dos meus hobbies é não gostar da França, embirrar com a França, de Mallarmé a Voltaire - que digo? - a Froissart, uma atitude de rebeldia infantil que não deixo de estimar, menos pelo anti-francesismo em si do que pela pura inconsequência.
Isto tudo para dizer que continuo a visitar sites franceses... e que neste se passam bons momentos.
(1) O Almocreve, num exercício de ingenuidade tocante considera do conhecimento geral a polémica Eça-Camilo. Eu considero que a notíca mesma da existência de Eça e Camilo o não é...
Aproveito para agradecer a evocação da I.S. que me levou a folhear algumas páginas da "Arte de viver" do Raoul Vaneigem

terça-feira, dezembro 02, 2003

MIL MILHÕES DE EUROS

Em escudos, 200 milhões de contos.
É o montante do crédito malparado referente aos empréstimos para habitação, segundo se lê numa notícia do Público.
Resta rezar para que haja alguma retoma interna antes que, por qualquer motivo, o banco central europeu decida subir as taxas de juros.
Seria um interessante encontro com a realidade.
A culpa - há culpa - é dos sucessivos governos que, por omissão medrosa, ou intencionalmente, resolveram liquidar o mercado de arrendamento que, no resto da Europa e do mundo, continua florescente.
A política que conduziu a este estado de coisas apoiou-se em dois princípios - ou melhor, na falta de princípios: o desprezo mais absoluto pela propriedade privada, e no paternalismo intervencionista do estado - à custa alheia.
O estado português parece apostado em entregar os portugueses, desde a mais tenra idade, primeiro na mão dos empreiteiros, depois na dos bancos, a quem ficam endividados por 20,30 ou 40 anos. Cimento e dinheiro fácil para o sector financeiro, com garantias reais (a hipoteca), eis o retrato de parte do "desenvolvimento" português.
A política do arrendendamento originou outras consequências catastróficas: os centros antigos das cidades não foram renovados e encontram-se em estado de ruína e despovoados: perderam-se memórias e modos de viver e um precioso património - já que não há dinheiro para a restauração dos imóveis.
Conseguiu-se, ainda, empobrecer parte da classe média, que se viu obrigada a vender, barato, imóveis que davam prejuízo, favorecendo as grandes empresas que os compram e os mantém como "activos". Quando os restauram, não os colocam no mercado de arrendamento, usam-nos para instalarem serviços, com a cumplicidade das câmaras municipais.
A "nova" "lei do arrendamento" não vai modificar este estado de coisas.
Pormenor interessante, o arrendamento comercial não é alterado, contribuindo para que o comércio viva numa situação de "dumping", o que permite a sobrevivência de empresas mal geridas. Pouca gente sabe que há lojas famosas em Lisboa - e noutras cidades, país fora, a pagar rendas inferiores ao valor que um casal da classe média tem de dispender na prestação mensal de um apartamente de 4 assoalhadas a 30 km de Lisboa... que há bancos que pagam pela renda das suas agências na província 20 e 30 contos. Pouca gente sabe que o governo não tenciona modificar esse estado de coisas, talvez por lhe parecer que tudo está bem, ou meramente para não ter aborrecimentos.
Estas legislações não se traduzem apenas num despudorado e verdadeiro confisco para os proprietários - o que, por si, nos deveria fazer interrogar sobre a democraticidade dos nosso estado e da nossa sociedade - elas moldam as nossas cidades e os nossos quotidianos.
Parece, contudo, que não são um assunto discutido ou a discutir. Talvez por mera ignorância, talvez por não serem "fashionable", nunca encontrei, nos blogs que leio, por exemplo, a menor alusão ao assunto. Os bites são gastos, por vezes, em materias secundaríssimas e momentâneas, irrelevantes na sua maior parte, com a profundidade de uma pequena e citadina poça de água.
E no entanto... pouco há de mais elucitadivo sobre o modo como o papel do estado foi e é encarado em Portugal, sobre as concepções económicas veramente vigentes, sobre a diferença entre declarações de "aggionarmento" e a prática, onde o atraso sobrevive, se perpetua.
E sobre nós, todos perto ainda do bocadinho de terra, e de medos ancestrais de misérias rurais, da falta de uma telha - e que resolvemos do pior modo.
Talvez por isso, subsista, para espantar medos e memórias, esta falta de cosmopolitismo que consiste na preferência e no entusiasmo pelo longínquo, em detrimento do que nos rodeia e directamente nos afecta e nos diz respeito.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

1º de Dezembro

A manhã soalheira e fresca de Lisboa, os ânimos intimoratos, a surpresa, a cortesia impertinente para com uma senhora, o traidor defenestrado, o emissário que parte para Vila Viçosa a avisar o Rei novo
Assim, como me foi contado, ao longo de anos, a façanha ágil talhada no gume exacto do destino.

sábado, novembro 29, 2003

Ao contrário do que se diz, não acho que os portugueses trabalhem pouco:trabalharão mal, de um modo desorganizado e, por isso, trabalharão muitas vezes atabalhoada e desnecessariamente, mas trabalham.
Nas cidades maiores, vivem quotidianos de puro horror, condenados a viagens longas para irem pôr os filhos a creches, jardins-escolas ou escolas, depois para o trabalho, geralmente, em ambientes soturnos.
De há muito que, exceptuadas algumas migalhas de classe média, perderam o hábito de, depois do "emprego", cavaquear um pouco num bar ou num café, de ir ao cinema, ou apenas de passear para "ver montras".
Aqueles que queiram reproduzir quotidianos mais agradáveis que conhecem pela televisão, não têm condições para tal: ganham geralmente mal, as empresas são mal dirigidas - quem se lembra daquele relatório sobre os gestores portugueses? - previlegia-se o "ficar até tarde", o ar atarefado que esteve em moda há alguns anos, na América do Norte. Sucumbe a maioria.
E os mais afoitos que suspiram por um dia-a-dia mais ameno, depressa caem nas malhas da mafia dos "tempos de lazer", que inclui programas culturais, alguns com "motivações" e "animação" para criancinhas (!!!), a "escapadela exótica", com várias horas de avião em classe turística ou, mais domesticamente, "descobertas" de "sabores", de "outros viveres" de "outros tempos": De um modo ou de outro, todas implicam movimentações, balbúrdias, levantares cedo e, na maioria dos casos, maus enchidos ou "souvenirs" etnologicamente correctos, impingidos a preços idiotamente absurdos.
Falo com completo desconhecimento do assunto, senão por vagos relatos que, aqui e ali, e sem qualquer escrúpulo, oiço.

O Impensavel não dá, por isso, quaisquer sugestões para este fim-de-semana prolongado.

P.S. O Impensavel tinha-se prometido, meses atrás, aproveitar os feriados de Dezembro para arrumar umas estantes, mas tratou-se de um dispensável e infantil embuste. Lembrá-lo, eis uma "ocupação" para um fim-de-semana prolongado.

sexta-feira, novembro 28, 2003

O caso Moderna

O Impensavel lembra que no início... No início havia tráficos de armas, maçonarias, tenebrosas conspirações para a tomada do poder, associação criminosa, tráficos de influências, subversão da democracia...
Bem... acabou tudo numas condenações por gestão danosa e alguns crimes de ladroeira comum.
Convirá, ainda, não esquecer, que parte das verbas desviadas foram empregues na compra de carros chamados topo de gama - mas que nem sequer isso são senão para a classe média - e para roupa, não no Poole - onde Eça mandou fazer uns fatinhos, mas nos alfaiates nacionais, que não têm acesso aos melhores tecidos.

No meu tempo, liam-se livros de aventuras, desde Dumas à colecção dos rapazes - de que editora? Esqueço-me e tenho preguiça de ir ver. Quero crer que a geração, ou a meia-geração, abaixo da minha, esta que tanto se entusiasma a descobrir conspirações tenebrosas e ignomínias a cada esquina, leu menos aventuras e que, das séries televisivas, não foram sequer espectadores atentos do Sítio do Picapau Amarelo.
Depois, presas da monotonia, sem defesas, perante a chateza quaotidiana, é o que se vê... surgem cabalas, conspirações, tremendas coisas imaginosas.

quinta-feira, novembro 27, 2003

Ontem dei uma volta pelos blogs, a partir das indicações do Dicionário do diabo - link aqui ao lado.
Visitei o Estrangeirados e encontro, num post intitulado Elogio: "Estou tão contente pela mini-avalanche de visitas nestes últimos dias".
Um português que afirma estar contente, "tão contente" pelas visitas e agradece ainda outras alusões ao seu blog é "avis rara" e merece que se lhe sigam as peripécias em terras estrangeiras.
Já agora e quanto ao rugby: no outro dia lia no Mar Salgado, salvo erro - link ao lado - que o futebol era um jogo de gentlemen jogado por labregos e o rugby um jogo de labregos jogado por gentlemen...

Outro blog que visitei foi o Socioblogue. Esqueçam-se alguns aspectos mais irritantes do vocabulário, os "apelativos" o presentação, sinónimo perfeito de apresentação, e por isso, muito evitável, o mais indesculpável "mostração" ( os neologismos são quase sempre atribuíveis a preguiça e desconhecimento da língua, coisas curáveis) e atente-se, sobretudo, numa genuína boa vontade e esforço do autor.

Revisitei o Flor de Obsessão: durante meses, sempre que tentava aceder ao blog, aparecia-me um post de 30 de Junho, salvo erro, sobre cinema. Lia, por vezes, referências ao Obsessão, ia ver: lá continuava o post do dia 30. Recarregava a página: ainda o mesmo post. Pensei numa mudança de morada, acedia através de "links" de outros blogs, o mesmo post. Desisti. Ontem, sem que nada fizesse, surgiu o blog actualizado (dia 25 de Novembro).
Já agora: também eu tremo com juizes que no CEJ não estudavam - já estudam? - direito constitucional. A necessidade de mudar o modo de recrutamento dos magistrados portugueses parece-me evidente.


No post anterior falo da "noite antiquíssima, rainha destronada"
Mesmo truncada, a citação deveria, por notória, dispensar mais indicações.
É uma imagem de uma extraordinária beleza, uma das mais belas da poesia portuguesa.
Leia-se ou releia-se um pouco mais:

"..............................................................
Vem, Noite antiquíssima e idêntica
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de infinito
..... "
Álvaro de Campos
Ontem a luz da rua colapsou, um breu, como me lembrava era à noite.
E hoje, "parcialmente restabelecida" ainda há o escuro bastante para fulminar todas as metáforas digitais, todos os construídos espantos binários.

Hoje, como ontem, é a "noite antiquíssima, a rainha nascida destronada": morte, silêncio, intactos.

Amanhã, reparada a avaria, volto a ler-vos a aritmética (sépia pálido ou overcoloured).
Sans rancune.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Eu já estava convencido, desde há uma semana, que o America's Cup fugira de águas lusas. Acredito mesmo que a fuga de informação terá tido o seu quê de piedosa, conhecida que já deve ser lá fora a nossa propensão para encarar eventos de excepção ( a Expo98, o Euro 2004) como oráculos, prenúncios onde pensamos vislumbrar sinais da terra de leite e mel em que nos havemos de tornar e que, por pecados nossos, oculta, não reconhecemos - cegos! - nas ânsias do dia-a-dia.
É o messsianismo habitual, nada de novo - embora se fale pouco dele.

Conhecida oficialmente a decisão, por sites, blogs e televisões, se dissertou sobre as vantagens da Tramontana e do Levante valencianos sobre a nossa Nortada, vantagem tão clara e proficientemente reconhecida que faria da candidatura portuguesa, no entanto louvada, uma pura leviandade, desde o início condenada ao fracasso. Descontado, porém, esse senão da argumentação, o intento, manifesto ou inconsciente do discurso é hábil: tratar de mostrar que a escolha não se deveu a falhas nossas, mormente de organização, senão às forças incontroláveis - e injustas - da natureza.
Porém, o jornal francês "Le matin" que publicou a triste notícia, não falou das vantagens dos ventos valencianos, sobre a nossa leal Nortada, mas dos protestos dos pescadores de Lisboa que o governo desalojou.
E que hoje, conhecida a decisão, comemoraram jubilosamente, entre gritos de "é bem feita".
Eu, que desde há uma semana perdera a esperança de ver a Cup em Lisboa, acabei por me rir, com gosto.
O Almocreve, já se sabe, não se esqueceu do aniversário de Eça.
Mas, assim como no dia anterior tinha usado o Ramalho para maltratar a Figueira, usou ontem o Eça para.... para... menoscabo do Eça.
É que tudo, menos inocência, há na escolha do texto, uma soberba desanda no Camilo - que a merecia (e no merecê-la, a esta e outras, está ainda muito da sua grandeza irritante).
O Eça não publicou, porém, aquela carta em vida. Foi encontrada entre os seus papéis. Refere-se-lhe, no entanto, numa carta a Luís de Magalhães, de Bristol, datada de 2 Julho de 1887. Transcrevo: "Não sei se Vossê leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com phrases muito janotas e arrebicadas, todas pelo figurino de Filinto Elysio, em que elle se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe n’uma epistola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilheria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silencio" (in Correspondência, carta XXXV)
Com isto, construiu-se sobre Eça um tremendo processo de intenções (como o meu, ao Almocreve...): que ele, José Maria, ao referir-se à carta-resposta dava a conhecer, por um lado, que Camilo não ficara sem uma - e uma resposta que ele, Eça, atenta a sua modéstia ja proverbial, não deixava de considerar com pilheria - e, por outro, não a enviando impossibilitava a fúria camiliana que não deixaria de se abater sobre ele; ainda que, deste modo, lhe ficaria a pertencer, para sempre, como ficou, a última palavra nas difíceis relações que com Camilo manteve. Acrescente-se a tudo isto, a alguma injustiça de que Eça é acusado - com alguma razão - de ter tratado Camilo e obtém-se o quadro sombrio: aquela resposta não enviada a Camilo seria a feia acção de Eça.
É, de facto, difícil atribuir a mera falta de paciência o não ter passado a carta a limpo... sobretudo para os que pacientemente tentam construir um Eça farisaico, dúplice, que não existiu.
Mas, também, não é difícil crer que tenha sido isso mesmo, falta de paciência.
Parece-me ferocidade bastante.

Para conhecer alguma coisa do episódio, aqui está.
O texto póstumo a que se alude não será esta carta, mas outra em que é feito o convite a Camilo para colaborar na Revista de Portugal, enviada já de Paris, em Novembro de 1888 e que, tanto quanto sei, o autor da Corja recebeu.





terça-feira, novembro 25, 2003

José Maria

A dez minutos do fim do dia, ainda tenho tempo de lembrar Eça de Queiroz, que nasceu há 158 anos, no bendito dia 25 de Novembro de 1845.


25 de Novembro

Lembro-me muito bem do 25 de Novembro de 1975.
Nesse ano, tinha aulas só à tarde. Começavam às três.
Acordei não antes do meio-dia, almocei, presumivelmente, num pequeno café-snack da Duque de Loulé, e fui para a Faculdade, no 38.
Chegado lá, avisaram-me que, dada a situação política, havia uma RGA. Devo ter agradecido o feriado à situação política - que desconhecia, ainda, qual fosse - e resolvi entrar no anfiteatro, para fazer tempo para o lanche na Ferrari - batido com creme, sim - onde ia depois das livrarias e de uma espreitadela à Sabóia e à Picadilly.
Percebi, no entanto, mal entrei, que fora um "faux pas": os meus colegas tencionavam barricar-se para se defender da "investida do capital" e das "forças fascistas", tudo isto anunciado com a alegria de quem se tencionava divertir o mais que pudesse. Temi pelo meu batido de morangos com creme e pelos "Les Rois Maudits", do Druon, de que tencionava ir comprar à Bertrand, na edição da "Livres de Poche", o primeiro volume.
Tendo sempre cultivado na faculdade, o mais rigoroso anonimato, saí sem problemas, durante a apresentação de uma moção de caracter ainda mais bélico do que as anteriores.
Lembro-me que fui a pé, aproveitando a tarde agradável, até as livrarias da João Soares e que espreitei a 111.
Não sei já como, apercebi-me - na livraria? - que se passava realmente qualquer coisa, e apanhei o 38 de volta a casa, deixando a Bertrand para outro dia.
Dir-me-à indignada a minha meia dúzia de leitores que tanta indiferença pela coisa pública à saída dos anos teen - à altura, nem sequer existiam, os anos "teen" - prognosticava um cínico, um indiferente. Talvez, já que foi nessa altura que li, com muito espanto e sincera admiração, os meus primeiros Ciorans; todavia, e em nome da verdade histórica, devo confessar que não posso atribuir aos "Précis de décomposition" a falta de entusiasmo pelo que me rodeava. Se calmamente desci - ou subi, segundo alguns autores - o Campo Grande, devo-o a uma leitura de Engels - se bem que já não me lembre qual - a alguns alvitres de parentas velhas que se resumiam, sabiamente, a contar com o cansaço do povo de Lisboa e com o bom-senso do do resto do país e principalmente, à indignação do sr. Gustavo (nome fictício) que um dia, numa conversa de rua, e a pretexto de se interessar sobre "os estudos" me tentou arrancar uma "consulta": o sr. Gustavo tinha arrendado uma loja de um seu prédio ao sr. Lopes (nome igualmente fictício) que abrira uma firma de electrodomésticos. A coisa sempre tinha corrido bem, o Lopes, respeitador, mas, nos últimos tempos - e foi esta conversa antes do verão temível - tinha junto ao prédio uma autêntica lixeira, caixotes de papelão, embalagens de plástico, que tudo dava um péssimo aspecto à propriedade. Tinha já chamado a atenção do inquilino, mas este desculpara-se com o movimento. Umas semanas depois, encontrei, novamente, o sr. Gustavo e perguntei-lhe pelo lixo. Que tinha desaparecido: a venda de fogões, de máquinas de lavar roupa e loiça era tanta, que já não os desembalavam senão em casa dos clientes.
Munido da certeza - que ao tempo, para mim era uma certa certeza - de que não havia "condições subjectivas" para a "revolução do proletariado", acima de tudo ocupado em apetrechar-se para, confortavelmente, poder ver a "Gabriela" sem estar a pensar na loiça suja e na roupa por lavar, passei o resto da revolução sossegado.

E epílogo? Dos colegas da faculdade e adjacências, alguns tornaram-se crónicos frequentadores de S. Bento, das empresas públicas, ou de capital público, do governo. Os amigos mais pessimistas e que me censuravam o optimismo, nas empresas privadas e no governo, juntamente com os "inimigos" de outrora. As parentas foram morrendo, geralmante conciliadas com o país; o sr. Gustavo também morreu, num cruzeiro, durante umas férias. O sr. Lopes é hoje, um potentado, e sensato, "éminence grise" de vários executivos municipais.
Eu continuo com o meu Cioran.
Tenho os números dos telemóveis de alguns dos sobreviventes, para uma aflição.

segunda-feira, novembro 24, 2003

A gente acorda aqui, à beira do mundo "à séria" (o que começa aqui ao lado, em Espanha), numa segunda-feira de manhã, reúne uns esgares de "ora aqui vamos nós", alguma coisa gastos, o sorriso engelhado, mas é o que há, e dispõe-se a encarar uma nova semana de trapalhadas.
Em vão se prepara - e é isto que Portugal tem de bom: é sempre um pouco pior do que aquilo que possamos conceber.
Eu, por exemplo, acabo de ler que o M.P. pede, no caso Casa Pia, exames físicos aos arguidos. Fica-se logo a pensar que raio de investigação é aquela, parece uma coisa conduziada sem método, sem um rumo, aos solavancos...
Eis um exemplo desse pior que nos surpreende.
Contudo, por vezes, raras vezes, assustamo-nos com boas notícias: as perícias médico-legais aos arguidos, efectuadas oito meses depois de alguns deles se encontrarem presos, destinar-se-ão, segundo algumas fontes, a averiguar dos efeitos fisiológicos causados pela reclusão sem culpa formada na saúde dos prisioneiros.
Os resultados serão publicados num importante jornal médico internacional. Do estudo, participam, entre outros países, a Coreia do Norte e Cuba.


quarta-feira, novembro 19, 2003

Eh bien, mais do que o marialvismo, que é, na sua faceta mais agradável, um protesto não tanto contra o "lá de fora" quanto contra o "novo" importado a trouxe-mouxe, irrita-me a quietação, austera, impediedosa e lisa, circunspecta e receosa, quase supersticiosa que, disfarçada de obesa sensatez perdura ainda (1) entre nós em graus que atingem a omissão criminosa.
Isto a propósito da recusa das "salas de chuto" - ou shut ou shoot - nas prisões, ou de um mero programa de troca de seringas.
Há droga nas cadeias, a par de falta de higiene. Por isso, morre gente. Em face da situação, lamenta-se, lamenta-se com convicção e optimismo - uma forma recente de lamúria nacional - e nada se faz.
E contra isto... contra este mau marialvismo, nada a fazer. Ou tudo, em nome da mera decência.

(1) - por vezes sou acometido por optimismos iluministas.

terça-feira, novembro 18, 2003

Há dias li a notícia da morte do recentemente desaparecido Marquês de Marialva e desde aí­ que tenho pensado sobre o marialvismo enquanto "tradição inventada". Também há tempo, não há muito, tinha relido a "Cartilha do Marialva", do José Cardoso Pires, que não achei tão certeira como da primeira vez que a li, e isto por que, salvo erro, são referidos como "marialvas" comportamentos que não são exclusivos do "marialvismo" português: o desdém pela "cultura livresca" é um deles; outro, a adopção de modos de estar e vestir populares, que encontramos, também, na aristocracia inglesa ou na alemã.
Divertido é o facto do Marquês de Marialva, o 4º, que deu origem ao termo, nada ter de "marialva": era um aristocrata de corte, estribeiro-mór de D. José I, e grande equitador quanto estudioso de mérito da arte equestre, o autor da "Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavalaria". Como seu Pai, mas da Rainha D. Maria I foi o 5º Marquês estribeiro-mor; anfitrião, protector e amigo de William Beckford que dele fala com simpatia no seu "Diário", projectava o casamento de sua filha, a futura Duquesa de Lafões, com o milionário inglês. Um seu irmão, pelo casamento, Conde dos Arcos, foi o que morreu em Samora Correia, numa corrida de toiros, episódio que Rebelo da Silva aproveitou para a "Ultima corrida em Salvaterra" e seu filho, último marquês em sua Casa, criança ao tempo da estada de Beckford em Portugal, morreu novo e sem descendência em Paris, onde era Embaixador na Corte de Luis XVIII. Foi por uma sua irmã que o tí­tulo entrou na Casa de Lafões, onde hoje se conserva. Mas, o 2º Duque de Lafões, marido daquela senhora e cunhado e genro dos anteriores, neto de D. Pedro II, o primeiro membro da Casa Real que estudou na Universidade do Coimbra, militar e um dos fundadores da Academia das Ciências, foi patrono das artes e conhecido por essa Europa fora como modelo de aristocrata iluminista. Beckford, que lhe foi apresentado, deixou dele uma descrição saborosa e refere-se ao francês requintadíssimo que falava. Sem resquícios de marialvismo, estes marqueses de Marialva...
Dir-se-ia ser um caso, tão comum, de uma denominação originada muito arbitrariamente, ou nos meros feitos equestres dos 4º e 5º Marqueses, não fosse a gente perceber que, com tal escolha de nome, se pretendeu filiar na aristocracia portuguesa - isto é, tornar exemplares - atitudes, em grande parte posteriores, e que lhes eram - e no séc. XVIII, à grande parte da alta aristocracia portuguesa - estranhas: uma, o desdém pelo que vem de fora; a outra, mais positiva, a rebeldia à  imposição de hábitos novos.
Subsistiu esse abuso: o legitimíssimo asco a Pombal, oculto protagonista na cena entre o 4º de Marialva e Sebastião José, no episódio literário de Salvaterra, não tem por causa o ódio ao novo - que, era, aliás, consumido com alguma avidez, mas o asco pelas prepotências da política pombalina.
A esmagadora maioria dos resistentes à  ditadura de Sebastião José foram pais e avós de liberais, mais do que de apostólicos miguelistas.

segunda-feira, novembro 17, 2003

Televisão, bom-senso, etc.

O Dr. Pacheco Pereira repeliu, a golpes de senso-comum e sensato bom-senso, as especulações da apresentadora da SIC, sobre o episódio da jornalista referido no post anterior.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, também em nome do bom-senso, fustigou as propostas de alteração dos mandatos dos deputados.
O siso que qualquer parenta mais velha possuía nos meus tempos de criança é hoje apanágio de muito poucos...

Num outro telejornal, enquanto informavam sobre as interessantes novidades de um cantinho mais escuso do nosso Portugal, em rodapé referia-se uma compilação de "cantigas damigo" (sic).
Pensei primeiro - e indignei-me - tratar-se de um pretensiosismo irmão daqueloutro, ortográfico-hollywoodesco, que na busca do "pitoresco e de "ambientes de outras eras" leva a que se escreva "estórias" por "histórias" e outras semelhantes patetices
Depois, serenei: afinal, a coisa pode ser atribuída, felizmente, à lídima ignorância.
Porque ser pessimista?

Uma gloriosa manhã, branda e suave e más notícias: Valência terá ganho a American's Cup. Lisboa, preterida por greves de cacilheiros e outros estorvos do subdesenvolvimento. Diria que tudo condiz, mas é uma desilusão: esperava ser um mirone competente do acontecimento. Resta-me a manhã, o azul pálido e oiro.

Aproveito a desilusão para me dedicar ao bota-abaixismo.
Vi, na televisão, um documentário sobre os médicos do Leste europeu que emigraram para Portugal. Alguns ainda não podem exercer medicina, devido a obstáculos burocráticos - um exame da Ordem do Médicos é um deles. Eu não sei se os nossos médicos são monstros de sabedoria. O que sei - embora de ouvir dizer, devo confessar - é que os cuidados médicos disponíveis em Portugal, não obstante o dinheiro que nos custam, são mauzinhos e, em parte, por falta de médicos.
Lembro-me de ler, já há anos, num artigo de jornal, que Einstein não poderia ser, à luz da legislação em vigor, professor catedrático em Portugal... O autor pretendia demonstrar o absurdo da lei. Idêntico absurdo é este da necessidade de exames na Ordem para licenciados por universidades europeias - ou asiáticas que integravam a antiga URSS.

Por médicos, um apontamento de puro terror que não foi devidamente notado: a jornalista atingida a tiro no Iraque foi, parece que com seu consentimento, trazida do hospital inglês para o Curry Cabral.
Um gesto de heroísmo ou a mesma candura que a levou às estradas do Iraque sem protecção?
Como se diz agora, aguardo os "desenvolvimentos".