quinta-feira, janeiro 15, 2004

A mensagem que o Presidente da República dirigiu à Assembleia da República teve de esperar a sua vez na ordem dos trabalhos para ser lida. Não fica mal à assembleia esta defesa das suas prerrogativas: também os soberanos ingleses batem à porta dos Comuns e esperam que lha abram.
O que acontece é que, no caso, não se trata da defesa de quaisquer brios parlamentares, mas de mera falta de educação. Afinal, este parlamento é o mesmo que abriu, uma vez, às 8 da manhã por ser a hora que o Eng. Belmiro de Azevedo, depois de consultar a sua agenda, disse ter disponível para conceder aos representantes do povo português.
Durante anos as “cartas à redacção” foram para mim um completo mistério... quem era aquela gente que se dava ao trabalho de escrever para o jornal a propósito de “nadas-mortos”? Imaginava-os velhinhos reformados, ex-professores de liceu saudosos dos tempos de aulas e a quem um pequeno erro ainda confundia e mortificava (devo pertencer à última geração que associa precisão à escola...). Acreditava-os moradores de andares altos e sem elevador, habitantes de salinhas minúsculas com mesas grandes e tristes, onde, aberto, se encontrava o jornal a ler de fio a pavio e algumas revistas - a Historia francesa, ou alguma de filologia editada em Lausanne. A coroar esta arquitectura de conjunturas um erro, um erro inofensivo que, descoberto, seria corrigido por uma carta amável, escrita àquela mesa, mais tarde.
E, mesmo quando o conteúdo das missivas desmentia totalmente estas rêveries, eu tentava ainda assim fazer com que nelas coubessem com alguma verosimilhança os autores delas, procedendo por aproximação e através de abstracções sucessivas e pouco críveis ou ainda de ajustes na topologia e na decoração. Comecei por um septuagenário, reformado do Liceu Camões que vivia à Estefânia e acabei em Queluz, com um casal, também de professores reformados, num quinto andar letra "G" numa praceta com sol, mas ventosa. Tinham uma filha e um genro, os dois, embora novos, já reformados, mas devido a um regime especial, e que moravam perto. Ambos escreviam, também, cartas à redacção, as dela respeitando a anacronismos, ou imprecisões de datas.
Depois, durante anos, esqueci aquela gente toda e o problema em si: quem escreve e porquê cartas à redacção?
Até que, ainda no século passado, me liguei à net. E eis-me, sem dar por isso, a escrever sucedâneos de "cartas à redacção” Ainda me lembro da primeira: num site de uma escola secundária estava uma trabalho de pesquisa dos alunos. Era um bom trabalho, excedia em muito o que se espera de adolescentes. Pediam a opinião dos visitantes. Levado por um até aí desconhecido zelo bem intencionado, dei os meus parabéns. Foi a minha primeira carta, o meu primeiro mail “de incentivo”. Quando me apercebi do que fizera, já era tarde: senti-me mirrar de terror. O desconforto foi, desgraçadamente, de pouca dura. Daí a uns tempos, já opinava com desembaraço sobre tudo. Primeiro, ainda com um ar casual e de alguma indiferença, depois, mais honestamente e com verdadeiro desgosto, como passatempo, pior, como uma espécie de desporto: louvei, protestei, creio até que ameacei, pior ainda, que lisonjeei. Quando me estava, finalmente, a recompor, eis que desaba sobre a minha fresca cicatriz de moderação e desinteresse o fenómeno blog. Resisti meses. Um dia, dei comigo a discutir, sobre um cas célèbre da "blogosfera", percebi a profundidade do mal. Optei pela fuga "en avant": em Setembro, já blogava, a pretexto de que escrever é uma actividade razoável. Hoje, passados quatro meses, leio blogs, assino petições, escrevo mails, acompanho os movimentos da multidão. E, a providência, quando esgoto as petições e a solidariedade, bondosa põe, de vez em quando diante dos meus olhos cansados e ávidos, um erro! Um erro gordo e crasso, de ortografia, mas impossível de atribuir a uma gralha, ou de sintaxe, uma calinada a sério, escrita num “blog de referência” e por autor imputável. Rejubilo! Não com o erro em si... toda a gente erra...há distracções, cansaços... Rejubilo com ter com que ocupar o tempo, aquele tempo duro de roer do depois de jantar. E lá começo, cordato: "Exmo Senhor.... "Não pude deixar de notar" ou "Por lapso, certamente, escreveu..." E, sorrateiramente, surge em mim um pequeno grupo de reformados, mas de opiniões firmes em matéria de gramática, de história e em sabe-se lá o quê mais respigado das revistas, dos jornais, da longínqua universidade, que se diverte a corrigir esses pequenos erros.
Um martírio!


quarta-feira, janeiro 14, 2004

Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."

Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).

"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.

terça-feira, janeiro 13, 2004

Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Eu bem não queria voltar tão cedo ao caso pio mas li o que Clara Ferreira Alves escreve hoje(?) aqui, num acesso de catastrofismo. Destaco: "Não falo da Acusação nem das equipas de especialistas que têm acompanhado o caso. Falo do sistema legislativo, judicial e judiciário português. Falo da Constituição, do Direito Penal, do Processo Penal, da Procuradoria, do Ministério Público, da investigação, dos polícias e juízes, das prisões. O sistema cairia aparatosamente. Seria o caos, a desordem, e da parte de um homem injusticiado, a sede de justiça e, talvez, de vingança. Ao ilibar ou não Carlos Cruz não estamos apenas a ilibar Carlos Cruz, estamos a dar cabo da famosa Justiça em Portugal. A tal que toda a gente diz que funciona."
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?

domingo, janeiro 11, 2004


"(...) Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia.
(...)
Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida (...)".

Fernão Mendes Pinto

Não sei quem lê hoje a "Peregrinação". Temo que pouca gente. Não é obra que satisfaça provincianismos de contenção: comove, diverte, põe-nos à prova, que não apenas pelo uso das vero e inverosimilhanças a que o narrador, um pobre homem, deita mão - até à pungência - para sempre nos ter com ele, a seu lado, mas por uma inteireza humana que não cabe no pouco ser que hoje soe usar-se na vida quanto na sintaxe ou no vocabulário.

sábado, janeiro 10, 2004

Monotonia...
Sempre a imagem das coisas que nos pesa...
As mesmas tintas da Alegria,
O mesmo claro escuro da Tristeza...
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Teixeira de Pascoaes
O meu hobby principal é esquecer. Tenho outros, uns menores - não gostar de alguma França, considerar que a mãe de Hemingway escrevia melhor do que o filho - outros maiores: detestar tutelas, ser monárquico, amar Eça de Queirós.
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.

Para quem não o conhece:

Navio

Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!

Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.

Vitorino Nemésio

quinta-feira, janeiro 08, 2004



Blogar tornou-se um pretexto para arrumar livros.
Explico: visito um blog e vejo uma imagem, ou leio uma citação, ou alguém escreve sobre um assunto e lembro-me que "eu tinha para aí qualquer coisa sobre isso" ou que "o não sei quantos fala disso naquele livro". Hoje fui ao Crítico Musical e encontrei umas escadas. Lembrei-me do "Sea of Steps" do Evans e do local onde vira a fotografia: num "Colóquio Artes". Parti para o armário das revistas e quando lá cheguei descobri a edição do "Totem e Tabu", Payot, 1925, 2eme Edition, que erradamente ali pusera.
Já está no sítio certo, ao pé dos outros.
Por este andar, acabo por descobrir o Dicionario de Mitologia, Lisboa, Rua dos Algibebes, mil oitocentos e quarentas, que deixei de ver vai para um bom par de anos, apesar de alvíssaras prometidas.
Fica o sea of steps - mas não me parece a fotografia que queria. Naquela de que me lembro, é uma onda rasa que, num mar chão e calcário recolhe os primeiros e últimos passos. Esse Colóquio, porém, não o encontrei.
(Neste mar noto a dupla coluna - ou colunelo - que divide o plano da parede e onde parece inscrever-se uma marca de maré).

Foi há 23 anos, por uma chuvosa tarde de Janeiro - não sei se era chuvosa, verdadeiramente: chuvosa hoje, há dias teria sido soalheira, que seja esta em que escrevo: finjo que é o tempo, a chuva desta tarde, que me lembra essa outra, longe, em que saí­ de casa e fui ao cinema - ou apenas lanchar - e vi o primeiro volume do "Em busca do tempo perdido" e o resolvi comprar e ler. Tenho-me lembrado, desde que Janeiro começou, e o post com a tela de Whistler, o pintor com que Proust compôs o nome de Elstir e parte da pintura de Elstir assinala esse começo de leitura.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

As meninas são as Vivian Girls de Henry Darger, o autor do "The Realm of Unreal" e o título "They fool enemy officers into seeing Evans while two notice approach of severe thunder storm".
De Boétie, que com 16 - ou 18 - anos escreveu o seu "Discurso sobre a servidão voluntária", a estas crianças que enganam os guardas e não se submetem, o caminho não é longo. Todavia, tudo se deveu a um acaso. Procurava um surrealista norte-americano e reencontrei um autor de que apenas uma vez ou outra ouvira falar e de que já quase me esquecera.
"La liberté, les hommes la dédaignent uniquement, semble-t-il, parce que s'ils la désiraient, ils l'auraient; comme s'ils refusaient de faire cette précieuse acquisition parce qu'elle est trop aisée."
Discours de la servitude volontaire

Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.

terça-feira, janeiro 06, 2004

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Num intervalo: lia, ontem, nas "Memórias" os capítulos dedicados à agonia da França, à situação solitária em que ficou a Grã-Bretanha com a débacle gaulesa em 1940 e, sem querer, pensei em tempos mais recentes.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
"Divertiu-me ver um pelotão da Guarda de Granadeiros a montar um posto de metrelhadora com sacos de areia num dos quiosques do cais, parecido com os da minha infância. O tempo estava adorável. Tive uma óptima conversa com o general e apreciei imensamente o passeio."
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra

O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.


domingo, janeiro 04, 2004

Pelo jardim fora, vivalma. Esta gente vive em casas soturnas, pequenas e feias, e sai delas, numa carreira, para se ir meter em cafés - ou centros comerciais - ainda mais soturnos e feios; ou para as soturnas "segundas residências" pintalgadas de amarelo ou branco e verde com que em Portugal se inaugurou o kitsch campestre. Seja para onde for, escapa-lhes a lentidão do dia e, nestes dias soalheiros, o azul e a deriva das sombras.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.

sábado, janeiro 03, 2004

Nestes dias de sol descem devagar horas que já não lembro senão que era o vento nelas de nordeste e mais frias por entre os vidros.