Escreve JPP a propósito de declarações de Delors: "(...) E cada vez mais emergia esse traço do currículo dos politicos franceses, a alta administração pública, o pensamento de um burocrata sofisticado, efectivamente indiferente ao valor da legitimação democrática do que está a fazer. Ele está convencido de que está a fazer bem e conhece todos os mil e um mecanismos para fazer as coisas "andar". Mas também é ele que sabe qual é a direcção para onde devem "andar" e não lhe passa pela cabeça perguntar a ninguém."
Pois emergia.
Retire-se a "alta administração", a sofisticação e o conhecimento dos "mil e um mecanismos para fazer as coisas «andar»" e teremos, mais ou menos, o retrato da maioria dos políticos portugueses.
Além do cálculo saloio do "isto agradará?" ou do "isto dar-me-à votos?", seja em que grau de sofisticação for, duvido da existência de preocupações sérias sobre a real conformidade das medidas tomadas com a vontade, o querer do povo. Geralmente, a justificação para as algumas decisões - quando contêm alguma impopularidade impossivel de tornear - é o "estado das coisas", a vocação do inequívoco, por vezes, no cerne mesmo do que, por excelência, é político.
Processo de intenções? Uhm... Veja-se, a título de exemplo, o que é feito na AR às petições dos eleitores, ou de como é encarado o referendo em Portugal, ou seja, a reacção perante o que pode estorvar o caminho por onde as coisas devem andar...
quarta-feira, janeiro 14, 2004
C. é doente mental, esquizofrénico com comportamentos compulsivos de exibicionismo sexual.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
Por tal foi uma vez condenado, cumpriu parte da pena.
Saiu em liberdade provisória.
A sua mãe, ao ver que o filho continuava a ter os mesmos comportamentos exibicionistas, pediu ao tribunal o internamento deste, com urgência, numa instituição psiquiátrica.
O tribunal demorou a decidir e acabou por negar o internamento.
Entretanto, C. comete outro acto de exibicionismo o que tem como consequência a revogação da liberdade provisória e o cumprimento do resto da pena a que fora condenado, numa prisão normal, para pessoas que não são doentes mentais.
Dentro da prisão, mais actos de exibicionismo levam a que três outros reclusos o violem e agridam, talvez para o "corrigir" ou "curar".
C., em virtude da agressão, vai parar ao hospital.
A sua mãe soube do que se passou por informações prestadas por guardas, quando ia visitar o filho (os serviços prisionais nada lhe comunicaram).
"Isto", esta mistura de brutalidade, incompetência, desleixo, sordidez, falência completa e criminosa das instituições, é um bom retrato do que somos.
O grave é julgarmos não sermos já assim. Mas somos. Todos os dias.
terça-feira, janeiro 13, 2004
Continuo a ler Churchill.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
Ontem reli o discurso célebre em que ele promete aos seus eleitores "sangue, suor e lágrimas" e aqueloutro em que declara que a Inglaterra nunca se renderá, que lutará sempre, nas praias, mas montanhas, nas aldeias, nas cidades, em cada rua e lembrei-me do ar trocista e de desdém que é de bom uso pôr quando se fala do Churchill prémio Nobel da literatura.
Aqueles discursos, situados no primordial, quase num mundo de sagas, que falam aos outros homens sobre o seu futuro e os convocam e incitam pela força encantatória da palavra a serem destino, são literatura.
Boa literatura.
segunda-feira, janeiro 12, 2004
Eu bem não queria voltar tão cedo ao caso pio mas li o que Clara Ferreira Alves escreve hoje(?) aqui, num acesso de catastrofismo. Destaco: "Não falo da Acusação nem das equipas de especialistas que têm acompanhado o caso. Falo do sistema legislativo, judicial e judiciário português. Falo da Constituição, do Direito Penal, do Processo Penal, da Procuradoria, do Ministério Público, da investigação, dos polícias e juízes, das prisões. O sistema cairia aparatosamente. Seria o caos, a desordem, e da parte de um homem injusticiado, a sede de justiça e, talvez, de vingança. Ao ilibar ou não Carlos Cruz não estamos apenas a ilibar Carlos Cruz, estamos a dar cabo da famosa Justiça em Portugal. A tal que toda a gente diz que funciona."
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?
Creio que CFA está a ser demasiado optimista no pressupor relações de causa e efeito que, francamente, acho serem inexistentes ou muito vagas ou laças, entre nós. Mas se houver consequências, como espero que haja - e desde já se diga que não vejo porque motivo teriam de cair o direito penal ou a constituição ou parte do nosso sistema judiciário - que caia o que deve cair, por estar mal.
Caos e desordem? O caos e a desordem não são produto das boas leis - são-no das más. Por isso, evita-se legislando com mais cuidado e bom senso, menos triunfalismo e provincialismo, modificando o que precisa ser modificado - mesmo que o a mudar seja muito.
Caos e desordem seria querer manter o mau, viver nos destroços.
Mudar para melhor, qual o drama?
domingo, janeiro 11, 2004
"(...) Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia.
(...)
Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida (...)".
Fernão Mendes Pinto
Não sei quem lê hoje a "Peregrinação". Temo que pouca gente. Não é obra que satisfaça provincianismos de contenção: comove, diverte, põe-nos à prova, que não apenas pelo uso das vero e inverosimilhanças a que o narrador, um pobre homem, deita mão - até à pungência - para sempre nos ter com ele, a seu lado, mas por uma inteireza humana que não cabe no pouco ser que hoje soe usar-se na vida quanto na sintaxe ou no vocabulário.
sábado, janeiro 10, 2004
O meu hobby principal é esquecer. Tenho outros, uns menores - não gostar de alguma França, considerar que a mãe de Hemingway escrevia melhor do que o filho - outros maiores: detestar tutelas, ser monárquico, amar Eça de Queirós.
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.
Para quem não o conhece:
Navio
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.
Vitorino Nemésio
Mas, esquecer, esquecer-me convictamente, é o principal, o mais duradoiro, e tendo-lhe achado a única desvantagem de um espantar fácil mas não por demais vexatório, acomodei-me ao desdouro, e ao pasmo já lhe chamo remédio e amparo de monotonia.
Isto tudo para dizer que, durante muito tempo, esqueci Vitorino Nemésio e que há meses me relembrei dele e de espantos antigos que tivera ao ler a poesia dele e que desde Outubro pasmo a lembrar nela uma sensualidade e erotismo que, em fim de vida e assim escrita, só conhecia de Garrett.
Por isso, na ronda nocturna dos blogues, foi com alegria que encontrei aqui um entusiasta de Nemésio.
Para quem não o conhece:
Navio
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei de onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves;
Partindo, tão gordas vão!
Como eu gosto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar:
- Olha-me um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave,em resumo,
Aqui, na minha janela.
Vitorino Nemésio
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Blogar tornou-se um pretexto para arrumar livros.
Explico: visito um blog e vejo uma imagem, ou leio uma citação, ou alguém escreve sobre um assunto e lembro-me que "eu tinha para aí qualquer coisa sobre isso" ou que "o não sei quantos fala disso naquele livro". Hoje fui ao Crítico Musical e encontrei umas escadas. Lembrei-me do "Sea of Steps" do Evans e do local onde vira a fotografia: num "Colóquio Artes". Parti para o armário das revistas e quando lá cheguei descobri a edição do "Totem e Tabu", Payot, 1925, 2eme Edition, que erradamente ali pusera.
Já está no sítio certo, ao pé dos outros.
Por este andar, acabo por descobrir o Dicionario de Mitologia, Lisboa, Rua dos Algibebes, mil oitocentos e quarentas, que deixei de ver vai para um bom par de anos, apesar de alvíssaras prometidas.
Fica o sea of steps - mas não me parece a fotografia que queria. Naquela de que me lembro, é uma onda rasa que, num mar chão e calcário recolhe os primeiros e últimos passos. Esse Colóquio, porém, não o encontrei.
(Neste mar noto a dupla coluna - ou colunelo - que divide o plano da parede e onde parece inscrever-se uma marca de maré).
Foi há 23 anos, por uma chuvosa tarde de Janeiro - não sei se era chuvosa, verdadeiramente: chuvosa hoje, há dias teria sido soalheira, que seja esta em que escrevo: finjo que é o tempo, a chuva desta tarde, que me lembra essa outra, longe, em que saí de casa e fui ao cinema - ou apenas lanchar - e vi o primeiro volume do "Em busca do tempo perdido" e o resolvi comprar e ler. Tenho-me lembrado, desde que Janeiro começou, e o post com a tela de Whistler, o pintor com que Proust compôs o nome de Elstir e parte da pintura de Elstir assinala esse começo de leitura.
quarta-feira, janeiro 07, 2004
De Boétie, que com 16 - ou 18 - anos escreveu o seu "Discurso sobre a servidão voluntária", a estas crianças que enganam os guardas e não se submetem, o caminho não é longo. Todavia, tudo se deveu a um acaso. Procurava um surrealista norte-americano e reencontrei um autor de que apenas uma vez ou outra ouvira falar e de que já quase me esquecera.
"La liberté, les hommes la dédaignent uniquement, semble-t-il, parce que s'ils la désiraient, ils l'auraient; comme s'ils refusaient de faire cette précieuse acquisition parce qu'elle est trop aisée."
Discours de la servitude volontaire
Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.
Discours de la servitude volontaire
Por vezes passam-se meses - anos? - sem que me lembre de Étienne de la Boétie - o que não abona a meu favor.
terça-feira, janeiro 06, 2004
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Num intervalo: lia, ontem, nas "Memórias" os capítulos dedicados à agonia da França, à situação solitária em que ficou a Grã-Bretanha com a débacle gaulesa em 1940 e, sem querer, pensei em tempos mais recentes.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
Não tenho a mais pequena dúvida de onde viria o auxílio - e a salvação - se uma guerra se abatesse, de novo, sobre o continente europeu e os valores da democracia fossem, ainda uma vez, postos em causa.
"Divertiu-me ver um pelotão da Guarda de Granadeiros a montar um posto de metrelhadora com sacos de areia num dos quiosques do cais, parecido com os da minha infância. O tempo estava adorável. Tive uma óptima conversa com o general e apreciei imensamente o passeio."
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra
O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.
Sir Winston Churchill, nas Memórias da II Guerra
O passeio era uma inspecção à costa sul de Inglaterra, na iminência da invasão alemã, um dos momentos mais angustiantes da história inglesa - e da vida de Churchill.
domingo, janeiro 04, 2004
Pelo jardim fora, vivalma. Esta gente vive em casas soturnas, pequenas e feias, e sai delas, numa carreira, para se ir meter em cafés - ou centros comerciais - ainda mais soturnos e feios; ou para as soturnas "segundas residências" pintalgadas de amarelo ou branco e verde com que em Portugal se inaugurou o kitsch campestre. Seja para onde for, escapa-lhes a lentidão do dia e, nestes dias soalheiros, o azul e a deriva das sombras.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.
Eu contra mim falo, que tenho o meu quê de misantropo. Mas penso que a ausência de tudo isso faz mal à alma, provoca padecimentos, e depois fazem a vida aos outros - onde me incluo - num inferno pardo e mal humorado.
sábado, janeiro 03, 2004
Ao Churchill de Gilbert, sucederam nas tardes e nas madrugada de ontem e de hoje, as "Memórias da II Guerra Mundial".
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.
Revejo através da prosa - adulterada embora pela "condensação" - o eduardiano magnificente que Berlin afirma ter ele sempre sido. Mas o que me fascina em Churchill é a exacta vocação de sempre se "tornar no que já era" como se fora esse o seu único, inevitável destino.
Entre Sir Winston e Kierkegaard gastei a 2ª noite de 2004.
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