A edição d'Os pobres de que tirei o excerto do post de há pouco tem na contracapa umas palavras de Vergílio Ferreira que vou transcrever: "... A situação particular de Raul Brandão e que o diminui e engrandece, é que toda a sua obra abre para um mundo novo. É o mundo que nos coube, e em que estamos vivendo e de que ele transpôs apenas, em deslumbramento e terror, o incerto limiar.
Creio estar - e um pouco a minha geração, embora só possa falar por mim - também aterrorizado e deslumbrado à saída desses mundos que Brandão vislumbrou.
(Mas o que gosto mais em Brandão, mais do que o tom de iluminura impressionista d'os Pescadores, mais do que o cumprimento da convenção - e da convicção que, por vezes, é a da complacência com ele mesmo - é o descobrir esboços daquele "vôo para baixo" que Vieira dizia Santo António tão bem ter sabido voar)
sexta-feira, dezembro 19, 2003
"Vem o inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abafa e penetra. As coisas di-las-íeis recolhidas e cismáticas.
É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara, põe raízes à mostra, arrasta na aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água para um destino ignoto."
Raul Brandão, Os pobres
É um rolo misterioso e profundo que vem dum mar desconhecido. E a chuva começa, o ruído doce da chuva que faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra embebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara, põe raízes à mostra, arrasta na aluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detritos desagregados das rochas, que rola juntos, dispersa e reúne, atira, entre a baba da água para um destino ignoto."
Raul Brandão, Os pobres
quinta-feira, dezembro 18, 2003
Cena familiar
Rendido às alegrias do "upload", e de "template" natalício, procurei pintura portuguesa. Não é a mais bem sucedida das pesquisas, mas há aqui, por exemplo, num dos "sites" mais antigos da net portuguesa, nomes suficientes para nos animar.
A informação, dispersa embora, ultrapassou a escassez irritante de há 3 ou 4 anos, há novidades, mas em muitos casos parece-me que a preocupação em fazer "design web" ou "artweb" torna as páginas pesadas, muito lentas a carregar e a espera - com banda larga... - revela-se ainda pouco compensadora. Os "sites" dos museus nacionais, se não constituem já a desilusão que eram pouco tempo atrás, são ainda pouco atractivos.
De que andava eu à procura? De uma cena rural e invernosa, portuguesa, como as pintou o nosso naturalismo. Não encontrei. Algumas paisagens, mas todas com bom tempo. No Inverno, estariam os pintores mais no Leão de Ouro do que no campo, o que é muito compreensível. Mas eu queria, por força, aquele campestre em que o olhar tardo e ingénuo do gosto nacional via um Portugal naturalmente feliz. No passeio, encontrei a doméstica "Cena Familiar" da Aurélia de Sousa, um estudo em ocres quase vermelhos, arruivados: da parede côncava - um fogão? - ao cabelo da mãe - concentrada no que faz ou ausente - prolongam-se na filha através do tecido, num tom mais escuro, que aquela segura sobre a coberta esverdeada da mesa. Encarnada escura, a blusa dela e encarnados os sapatos. Perto dos tons encarniçados, ainda, por corada, a outra criança, a loira, e de blusa branca, comunga de um segundo circulo, este claro, que também as une: o pano que a mãe borda - ou passaja - e se destaca sobre o avental escuro, a boneca da criança que nos vira a cara - e que é quem nos expulsa daquela intimidade - enquanto parece falar à irmã (mas dirá alguma coisa? Ou virou-se naquele momento, por outro motivo qualquer?) - que, a ouvi-la, está entre o contrafeito e o aborrecido.
São os jogos de cores, entre os encarnados, vermelhos e ocres e os brancos que no quadro unem aqueles seres, não as expressões, os olhares.
Lá fora, porém, é Inverno, só pode ser Inverno - mesmo que estejam pouco agasalhadas para os frios.
quarta-feira, dezembro 17, 2003
Durante dias, procurei aflito um papel - um pequeno impresso. Revirei gavetas e estantes, sacudi, selvaticamente, livros pelas lombadas, abri outras gavetas, ameacei outros livros, pastas, "dossiers". De puro acabrunhamento, quase soçobrava, envolto em papéis velhos.
Enfim, revoltei-me contra a agitação amargurada, a abundância de falsas memórias - "foi ali que o pus!", - a pletora de hipoteses - "e se o tiver posto ali?" - e resolvi optar por outra estratégia. Hoje, de manhã, três telefonemas calmos resolveram o problema.
A busca era, desde o início, inútil...
terça-feira, dezembro 16, 2003
O Natal...
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.
segunda-feira, dezembro 15, 2003
Adormeci ontem cedo, acordei há uma hora, com calor, mas sem sono.
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:
«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:
«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.
Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.
Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.
Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»
domingo, dezembro 14, 2003
Dizia Proust, grande escritor judaico-gaulês, que o que mais o incomodava, ou surpreendia, nos ateus era o serem muito beatos.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
Inicio a minha volta pelos blogs e, com os meus lamentos ainda em mente, leio isto: "Mal levantei os olhos, o céu foi riscado por um meteorito."
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Ao longo de dois dias o que fiz foi ver o sol claro do fim do Outono e ler dispersamente Vieira, depois, por ele, Job, " "et carnibus meis saturamini" mas sei, sei que sou eu, algures onde desconheço, quem me come vivo, a divindade triste, hostil, apática que se se farta na minha carne. Não dramatizo, mas não evito o suspiro sapiciencial e de auto-comiseração: contido e creio que quase inaudível, não é defeito que muito me censure e vai com os hábitos pátrios.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.
sábado, dezembro 13, 2003
E entretanto vós, peixes, longe dos homens, e fora dessas cortesianas, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda a esta verdade; o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.
Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"
Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"
quinta-feira, dezembro 11, 2003
Relia um post que escrevi há dias e, de repente, reconheço numa frase que escrevi alguma coisa de familiar, não ao quem em mim escreve, mas ao quem em mim lê...
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.
Eis o soneto de Jorge Luís Borges
Los Borges
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.
Eis o soneto de Jorge Luís Borges
Los Borges
Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Pearl Harbour
Há anos encontrei numa estante mais esquecida um livro sobre o ataque japonês a Pearl Harbour.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."
Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.
Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.
Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."
Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.
Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.
Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.
terça-feira, dezembro 09, 2003
Creio que é Yourcenar que nos alerta para a importância da genealogia dos actos: o abater da árvore, o esculpir da madeira, os gestos do trabalho do marceneiro de que nasceram esta cadeira, esta mesa, aquele armário. Em Portugal, onde se tem saudades até do que nunca se conheceu ou aconteceu, creio que esse exercício é comum, embora se torne, as mais das vezes, e ao contrário do que a escritora pretendia, num exercício de meras e fúteis conjecturas.
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)
segunda-feira, dezembro 08, 2003
Dia de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal.
E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.
E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.
domingo, dezembro 07, 2003
sábado, dezembro 06, 2003
Há pouco escrevi um post a propósito de uma reportagem na Sic sobre crimes sexuais nos Açores.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difícil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/vítimas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indícios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falível prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princípios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sítios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difícil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/vítimas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indícios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falível prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princípios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sítios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.
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