quarta-feira, dezembro 17, 2003

terça-feira, dezembro 16, 2003

O Natal...
Creio que, mesmo antes de ser uma festa cristã, já poderia ser perturbador: instalado no "recolhimento do Inverno" de que falava Rilke, pode ter havido sempre quem achasse o festim prematuro, uma janela aberta de repente que ofusca a escuridão calma, este tempo do passado que o Outono inaugurou.
Feito natal de Cristo, ocasião de júbilo, a ambiguidade acentuou-se, nunca perdida a sua natureza dúplice, fúnebre e de exorcístico desejo de vida. Tradições embutidas no dia-a-dia e hoje perdidas, ajudavam a suportar a luz súbita. Hoje, à falta delas, sobressai a grosseria, o regabofe, na proximidade do insuportável - ou edificado sobre ele.
Por isso, aqueles que suspiram, anseiam, bradam por calma, por paz e não têm medo dos mortos - que, também esses, cada vez mais os há menos - e a quem o destino libertou dalgumas das tiranias do presente, passam o Natal em casa, descansados, abençoadamente sós, ou o mais possível longe da tribu, na paz do Menino Jesus que dorme e sossega do cansaço de ter nascido.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Adormeci ontem cedo, acordei há uma hora, com calor, mas sem sono.
Resolvi madrugar.
O que me levou a Sá de Miranda, não sei.
Fica aqui, presente destas horas, este soneto lindíssimo:


«O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d'amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu, fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!»

domingo, dezembro 14, 2003

Dizia Proust, grande escritor judaico-gaulês, que o que mais o incomodava, ou surpreendia, nos ateus era o serem muito beatos.
E beatos me parecem os dislates de puro autoritarismo com que o estado francês quer proibir qualquer sinal religioso em locais públicos ou, como já me pareceu ouvir, visíveis de sítios públicos.
Neste laicismo republicano não vejo, porém, o mero desejo, ridículo fosse ele, de assegurar uma estrita neutralidade do estado perante as confissões religiosas. O que vejo é a fundação, ou melhor, a refundação de uma nova religião de estado, o "laicismo francês", coroado pelas suas mariannes de gesso.
Sem graça e chatinha e, por isso, muito francesa, terá um futuro promissor por aquelas bandas: os milhares de mortos abandonados este verão nas morgues para não interromper as férias, parecem-me condizer com ela e garantir-lhe o futuro.
Inicio a minha volta pelos blogs e, com os meus lamentos ainda em mente, leio isto: "Mal levantei os olhos, o céu foi riscado por um meteorito."
Os condenados a não ouvirem senão as suas interrogações e aqueles a quem os céus falam com grandiloquência...
Ao longo de dois dias o que fiz foi ver o sol claro do fim do Outono e ler dispersamente Vieira, depois, por ele, Job, " "et carnibus meis saturamini" mas sei, sei que sou eu, algures onde desconheço, quem me come vivo, a divindade triste, hostil, apática que se se farta na minha carne. Não dramatizo, mas não evito o suspiro sapiciencial e de auto-comiseração: contido e creio que quase inaudível, não é defeito que muito me censure e vai com os hábitos pátrios.
Retomarei Job quando me for deitar, lá pelas três e meia.

sábado, dezembro 13, 2003

E entretanto vós, peixes, longe dos homens, e fora dessas cortesianas, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água. De casa e das portas adentro tendes o exemplo de toda a esta verdade; o qual vos quero lembrar, porque há filósofos que dizem que não tendes memória.

Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Relia um post que escrevi há dias e, de repente, reconheço numa frase que escrevi alguma coisa de familiar, não ao quem em mim escreve, mas ao quem em mim lê...
Era a frase "que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos." - "post" de 9 de Dezembro.
Veio o calafrio e depois a luz: parafraseia versos do divino Borges, no soneto que dedica aos seus antepassados portugueses.
É dele.
Involuntário embora o roubo - hesito no termo, já que roubar a Borges, está muito acima das minhas capacidades, mesmo que, num extremo de ambição e loucura, o quisera - apresento as minhas desculpas aos meus leitores.
Mejor así.

Eis o soneto de Jorge Luís Borges

Los Borges

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.



quarta-feira, dezembro 10, 2003

Links repostos.
Mas vi-me em palpos de aranha para pôr tudo mais ou menos como estava...
A internet é um lugar de eleição para ilustrar a tese que sustenta poder o apocalipse acontecer por pequeninos e desajeitados erros.
Links

Um pequena catástrofe apagou os links que constavam deste blog. Serão repostos o mais cedo possível.

Pearl Harbour

Há anos encontrei numa estante mais esquecida um livro sobre o ataque japonês a Pearl Harbour.
O autor, que vivia na Puhahou Street, em Honululu, resolveu contar o que viu nesse dia de Dezembro, fez, há três dias, cinquenta e dois anos.
O tom é este:
"O sr. e a sra. Frear, com quem vivo na rua de Punahou, já estavam sentados à mesa quando regressei [do quiosque onde tinha ido comprar o jornal naquele domingo de manhã]. Dei o jornal ao sr. Frear, que nos leu os últimos escandalozinhos, enquanto comíamos os nossos pastéis folhados e o presunto. Os divórcios eram muito numerosos em Honolulu, agora, ia ele lendo... Leu, depois, que nós devíamos enviar lâminas de barba para os soldados britânicos, porque havia falta de aço, e nada satisfazia mais os Tommies do que uma barbeadela a preceito. O estrondear, lá fora, continuava.
Yamato entrou a correr:
-Muitos aviões lá fora! - exclamou êle.
- Venham ver!
Guiados pelo pequeno japonês, fomos até à porta de entrada. Vimos uma esquadrilha de aviões, lá muito em cima. Sôbre Pearl Harbour via-se o céu salpicado das pequenas nuvens de fumo dos canhões anti-aéreos.
- Assim é que é - disse o sr. Frear.- Temos de estar preparados para o que der e vier.
Miss Claire, a nossa vizinha, que em tempos fora professora da Escola de Punahou, onde ensinou a ler os avós, pais e filhos da cidade, entrou a correr em nossa casa.
- Estamos a ser atacados! Os japoneses estão a bombardear Oahu! - disse ela, olhando comprometida para Yamato e para Hatsu a pequena espôsa dêste.
- Não! São apenas exercícios. Não se assuste, Claire - disse o sr. Frear e todos nós concordámos, convencidos.
A pobre miss Claire retirou-se, certa de que fôra vítima dum boato.
Poucos minutos depois, os factos vieram dar-lhe razão. Quando estávamos a acabar de almoçar, vimo-la novamente a correr através do jardim.
- Se não acreditam, abram a telefonia exclamou ela. quando entrou.
Dei a volta ao interruptor do aparelho.
«Conservem a calma. Oahu está a ser atacada. Não se trata de nenhuma brincadeira»..."

Confesso que a frase sobre a pobre Miss Claire que se retira por se julgar vítima de boato, me conquistou de imediato, a ponto de por muito tempo a usar, com leves adaptações que não a tornavam mais perceptível nem menos disparatada nos contextos em que a utilizava, totalmente a despropósito. Mais do que um "private joke", ou um "inner joke", tornou-se quase num mantra com que pretendia, julgo, aceder aos gozos da boa fé.

Não consegui ainda, mas as releituras, ao longo de anos, contribuíram para que adicionasse o ataque a Pearl Harbour ao rol dos meus agravos pessoais.
Ontem, porém, lia, mais uma vez, o "Pearl Harbour" - que reencontrei durante uma busca que tinha por objectivo o "Diário" de Stendhal - e apercebi-me que o livro, publicado ainda durante a guerra, é eficaz, uma bem escrita obra de propaganda: é difícil lê-lo a gente sem se indignar com um acto que, para além das muitas razões que há para o repudiarmos, é aqui apresentado como perturbador do nosso direito à placidez do dia-a-dia de pessoas de bem. É dirigido ao que há em nós de mais adverso à heroicidade, ao poderoso e intricado nó de preguiça frouxa que preside ao quotidiano. E ameaçando aí, no cerne mesmo da letargia, transforma-nos em candidatos a soldados audazes e implacáveis.

Impressionado, resolvi saber quem era Blake Clark, o autor. Fiz uma pesquisa no google. Depois de muito trabalho - o primeiro nome dele era, afinal, Thomas - descobri que foi professor de literatura inglesa na Universidade do Hawai, o cargo que detinha na altura do ataque, tendo pertencido depois ao OSS; de 1944 a 1970 foi um dos editores da Reader’s Digest . Ao contrário do eu que supunha, a ascensão aos Elíseos, que eu colocava no decénio de 70, deu-se este ano, em Fevereiro, aos 95 anos.
Não deixei de me assustar por ter vivido tanto o homem que, com 90 páginas de prosa perfidamente cândida e alguns truques velhos, me levaria a arrastar-me para as traiçoeiras praias do Pacífico, em defesa da pacatez que encarna em folhados de presunto e almoços sem horas.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Creio que é Yourcenar que nos alerta para a importância da genealogia dos actos: o abater da árvore, o esculpir da madeira, os gestos do trabalho do marceneiro de que nasceram esta cadeira, esta mesa, aquele armário. Em Portugal, onde se tem saudades até do que nunca se conheceu ou aconteceu, creio que esse exercício é comum, embora se torne, as mais das vezes, e ao contrário do que a escritora pretendia, num exercício de meras e fúteis conjecturas.
Ora, hoje acordei cedo, de madrugada e deu-me para investigar gavetas. Numa, e inesperadamente, vi o fac-símile do assento de baptismo de um antepassado meu, datado dos finais do séc. XVIII. Dei por mim a interrogar-me sobre qual seria o estado de espírito dos intervenientes que o assinavam. Não era difícil atribuir uma alegre boa disposição ao padrinho, que assina depois do pároco, numa caligrafia cuidada, o documento do baptismo do seu primeiro neto. Quanto aos restantes, é difícil atribuir-lhes mais de que a alegria amável própria da ocasião.
Abandonei, por isso, esse caminho perigoso e perguntei-me antes que horas seriam, como estaria o tempo, quais as palavras do dia a dia que se infiltrariam naquela ocasião solene: com que palavras se queixariam de um frio matinal, se frio estava naquele dia do início de Maio de 1796, ou que o que diriam à mesa, em voz baixa, ao comensal do lado e, de algum modo, percebi que é ao desconhecimento dessas palavras, hoje talvez estranhas, por desusadas, que devo o poder traçar, suportavelmente, o traço ténue até àqueles convivas distantes que, de uma forma surda e clandestina, perduram em mim os seus gestos, talvez os seus gostos e os seus espantos.
(vd. post de 11 de Dezembro)

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Dia de Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal.

E antigo Dia da Mãe: lembro-me de, no jardim-escola, fazer umas dobragens que, depois de coladas em papel de lustro, seriam o presente para aquele dia.
As dobragens que fazíamos acabavam por não ser as utilizadas. Eram outras, idênticas, feitas pela educadora, para ficarem bem perfeitinhas, que acediam às honras do papel de lustro.
O naïf ainda não entrara na moda.

domingo, dezembro 07, 2003

Corrigi duas vezes o "post" anterior: uma gralha e um fecho de parêntesis que faltava.
Atenção excessiva para meia dúzia de leitores.
Se fosse apenas um, um único leitor, estariam justificadas as minúcias.

sábado, dezembro 06, 2003

Há pouco escrevi um post a propósito de uma reportagem na Sic sobre crimes sexuais nos Açores.
Apaguei-o depois, por ter prometido a mim mesmo que não me deixaria influenciar pelos "shares".
Opto por falar daquilo que a entrevista não fala, mas deixa supor:
que havia, quase à  vista de todo a gente, prostituição homossexual juvenil nos Açores; que havendo prostituição juvenil há actos sexuais de relevo com menores, o que é crime, pelo menos, desde 1998; que é difí­­cil supor-se não haver chegado dela nenhum rumor, nenhuma notícia, mesmo por uma conversa de café - isto em terras pequenas - a nenhum polícia, a nenhum membro do ministério público, a nenhum magistrado que, todos eles estão obrigados, por lei, a agir, tratando-se como se trata, de um crime público.
Causa estranheza.
Isto, por um lado.
Por outro lado, e para reflexão:
O teor das entrevistas das alegadas testemunhas/ví­timas é de molde a que os eventuais infractores nelas se reconheçam e se saibam denunciados. Ninguém parece importar-se que, de sobreaviso, tenham tempo de destruir todos os indí­cios e provas que os incriminem de forma mais efectiva do que a sempre falí­vel prova testemunhal (nesta fase se imporia o segredo de investigação - e não mais tarde, e contra arguidos que, além de presumíveis inocentes, o podem realmente ser, o "segredo de justiça", sobretudo quando entendido, como o tem sido pelos juízes portugueses, em termos que, além de ilegais, por inconstitucionais, atentam contra princí­pios elementares de decência).
Parece que também ninguém se preocupa quanto ao facto de que o contado nas entrevistas, mesmo se verdadeiro, possa, involuntariamente, que seja, lançar suspeições sobre pessoas que nada tenham a ver com o assunto, mas que, por qualquer motivo - sí­tios onde morem, modelos de carros, etc - se possam enquadrar nas descrições.


quinta-feira, dezembro 04, 2003

4 de Dezembro de 1980

Faz hoje anos que morreram Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.
Tinha uma grande admiração e simpatia por ambos e estou convencido de que Portugal seria melhor hoje, se ambos estivessem ainda vivos.
E que mais dizer?
O "depois de jantar", outrora um agradável tempo de reverente reflexão, propício à conciliação entre as várias correntes de opinião que se haviam manifestado ao jantar, acabou. Acabou, por ter desaparecido a ceia - pelo menos enquanto instituição quotidiana. E sem ceia (e não se confunda ceia, mesmo a mais modesta, de chá e torradinhas, com o "ir comer alguma coisa", que a mera necessidade de "ir" impossibilita desde logo qualquer comparação) sem ceia, dizia, as digestões hodiernas do jantar não possuem já aquela absoluta serenidade que nascia da junção, num mesmo bem-estar ecléctico, da antecipação com a plenitude.
Embora não tenha vivido, fruto da pouca idade, na época esplendorosa da ceia, conservo memórias que o meu desgosto inventou; e do que verdadeiramente vivi, há o suficiente para lidimamente me lastimar deste ingrato e assimétrico hiato que é hoje o "à noite".
Assim, quando não me apetece ler e não é noite de Big Brother, dou uma olhadela aos blogs.
E o que tinha perdido: desconhecia, de todo em todo, o "affaire" Odette. Para além do algum gosto que me dá ver uma militante comunista vestida de "dama antiga"- o que em si, não é uma contradição, mas uma mera comprovação - acho agradável uma atitude que contraria a mesmice.
Do 1º de Dezembro, pouco há. Mas, numa lista dos 40 conjurados (eram perto de duzentos) que encontrei, um nome geralmente menos citado, em lugar de relevo, levou-me a suspeitar. Fui confirmar: tratava-se, de facto, de um caso de favorecimento pessoal: o citado é um antepassado do bloguista.
Aqui e ali, a questão esquerda/direita, uns salpicos de teoria dos fins das penas, onde velhissimas posições são tratadas como novidades, algum consequencialismo em moral; e leves provocações pessoais que, no desconhecimento em que estou de quem são os intervenientes, me escapam.
Meia-noite.
Talvez uma torradinha. Não há é doce de morango...

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Quem tem a minha idade poderia subscrever, com poucas adaptações, o que Eça escreve no seu ensaio famoso (1) sobre o Francesismo.
De inglês - ou anglo-saxónico - na minha infância, apenas me lembro dos padrões dos calções, de algumas camisolas, de um ou outro presente comprado em Londres, de alguns enfeites de Natal e do Peter Pan em discos da View Master. Liam-se, contudo, livros infantis ingleses, de Enid Blyton que, segundo uma Irmã Doroteia, continham alguns perigos para a formação das crianças (sic) e qualquer coisa de Dickens (Oliver Twist?).
Tudo o mais, posso dizê-lo, era francês. Em tenra idade fui iniciado em Dumas, Verne, livrinhos sobre a história de França - alguns ilustrando os horrores da Revolução Francesa. Eram franceses ainda os livros de divulgação científica - durante anos folheei "L'aventure de la terre" - e francesas eram as revistas que os adultos assinavam e parte dos livros nas estantes.
Da Inglaterra falava-se do "civismo" que o nosso povo - então mera paisagem - infelizmente não tinha, elogiava-se a educação, os jardins, a "excentricidade".
Foi, porém, com Eça, com o afrancesado Eça que, nos finais da adolescência, iniciei a minha deriva para o outro lado do canal e descobri a cultura e as instituições britânicas.
Hoje, um dos meus hobbies é não gostar da França, embirrar com a França, de Mallarmé a Voltaire - que digo? - a Froissart, uma atitude de rebeldia infantil que não deixo de estimar, menos pelo anti-francesismo em si do que pela pura inconsequência.
Isto tudo para dizer que continuo a visitar sites franceses... e que neste se passam bons momentos.
(1) O Almocreve, num exercício de ingenuidade tocante considera do conhecimento geral a polémica Eça-Camilo. Eu considero que a notíca mesma da existência de Eça e Camilo o não é...
Aproveito para agradecer a evocação da I.S. que me levou a folhear algumas páginas da "Arte de viver" do Raoul Vaneigem

terça-feira, dezembro 02, 2003

MIL MILHÕES DE EUROS

Em escudos, 200 milhões de contos.
É o montante do crédito malparado referente aos empréstimos para habitação, segundo se lê numa notícia do Público.
Resta rezar para que haja alguma retoma interna antes que, por qualquer motivo, o banco central europeu decida subir as taxas de juros.
Seria um interessante encontro com a realidade.
A culpa - há culpa - é dos sucessivos governos que, por omissão medrosa, ou intencionalmente, resolveram liquidar o mercado de arrendamento que, no resto da Europa e do mundo, continua florescente.
A política que conduziu a este estado de coisas apoiou-se em dois princípios - ou melhor, na falta de princípios: o desprezo mais absoluto pela propriedade privada, e no paternalismo intervencionista do estado - à custa alheia.
O estado português parece apostado em entregar os portugueses, desde a mais tenra idade, primeiro na mão dos empreiteiros, depois na dos bancos, a quem ficam endividados por 20,30 ou 40 anos. Cimento e dinheiro fácil para o sector financeiro, com garantias reais (a hipoteca), eis o retrato de parte do "desenvolvimento" português.
A política do arrendendamento originou outras consequências catastróficas: os centros antigos das cidades não foram renovados e encontram-se em estado de ruína e despovoados: perderam-se memórias e modos de viver e um precioso património - já que não há dinheiro para a restauração dos imóveis.
Conseguiu-se, ainda, empobrecer parte da classe média, que se viu obrigada a vender, barato, imóveis que davam prejuízo, favorecendo as grandes empresas que os compram e os mantém como "activos". Quando os restauram, não os colocam no mercado de arrendamento, usam-nos para instalarem serviços, com a cumplicidade das câmaras municipais.
A "nova" "lei do arrendamento" não vai modificar este estado de coisas.
Pormenor interessante, o arrendamento comercial não é alterado, contribuindo para que o comércio viva numa situação de "dumping", o que permite a sobrevivência de empresas mal geridas. Pouca gente sabe que há lojas famosas em Lisboa - e noutras cidades, país fora, a pagar rendas inferiores ao valor que um casal da classe média tem de dispender na prestação mensal de um apartamente de 4 assoalhadas a 30 km de Lisboa... que há bancos que pagam pela renda das suas agências na província 20 e 30 contos. Pouca gente sabe que o governo não tenciona modificar esse estado de coisas, talvez por lhe parecer que tudo está bem, ou meramente para não ter aborrecimentos.
Estas legislações não se traduzem apenas num despudorado e verdadeiro confisco para os proprietários - o que, por si, nos deveria fazer interrogar sobre a democraticidade dos nosso estado e da nossa sociedade - elas moldam as nossas cidades e os nossos quotidianos.
Parece, contudo, que não são um assunto discutido ou a discutir. Talvez por mera ignorância, talvez por não serem "fashionable", nunca encontrei, nos blogs que leio, por exemplo, a menor alusão ao assunto. Os bites são gastos, por vezes, em materias secundaríssimas e momentâneas, irrelevantes na sua maior parte, com a profundidade de uma pequena e citadina poça de água.
E no entanto... pouco há de mais elucitadivo sobre o modo como o papel do estado foi e é encarado em Portugal, sobre as concepções económicas veramente vigentes, sobre a diferença entre declarações de "aggionarmento" e a prática, onde o atraso sobrevive, se perpetua.
E sobre nós, todos perto ainda do bocadinho de terra, e de medos ancestrais de misérias rurais, da falta de uma telha - e que resolvemos do pior modo.
Talvez por isso, subsista, para espantar medos e memórias, esta falta de cosmopolitismo que consiste na preferência e no entusiasmo pelo longínquo, em detrimento do que nos rodeia e directamente nos afecta e nos diz respeito.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

1º de Dezembro

A manhã soalheira e fresca de Lisboa, os ânimos intimoratos, a surpresa, a cortesia impertinente para com uma senhora, o traidor defenestrado, o emissário que parte para Vila Viçosa a avisar o Rei novo
Assim, como me foi contado, ao longo de anos, a façanha ágil talhada no gume exacto do destino.