Ao contrário do que se diz, não acho que os portugueses trabalhem pouco:trabalharão mal, de um modo desorganizado e, por isso, trabalharão muitas vezes atabalhoada e desnecessariamente, mas trabalham.
Nas cidades maiores, vivem quotidianos de puro horror, condenados a viagens longas para irem pôr os filhos a creches, jardins-escolas ou escolas, depois para o trabalho, geralmente, em ambientes soturnos.
De há muito que, exceptuadas algumas migalhas de classe média, perderam o hábito de, depois do "emprego", cavaquear um pouco num bar ou num café, de ir ao cinema, ou apenas de passear para "ver montras".
Aqueles que queiram reproduzir quotidianos mais agradáveis que conhecem pela televisão, não têm condições para tal: ganham geralmente mal, as empresas são mal dirigidas - quem se lembra daquele relatório sobre os gestores portugueses? - previlegia-se o "ficar até tarde", o ar atarefado que esteve em moda há alguns anos, na América do Norte. Sucumbe a maioria.
E os mais afoitos que suspiram por um dia-a-dia mais ameno, depressa caem nas malhas da mafia dos "tempos de lazer", que inclui programas culturais, alguns com "motivações" e "animação" para criancinhas (!!!), a "escapadela exótica", com várias horas de avião em classe turística ou, mais domesticamente, "descobertas" de "sabores", de "outros viveres" de "outros tempos": De um modo ou de outro, todas implicam movimentações, balbúrdias, levantares cedo e, na maioria dos casos, maus enchidos ou "souvenirs" etnologicamente correctos, impingidos a preços idiotamente absurdos.
Falo com completo desconhecimento do assunto, senão por vagos relatos que, aqui e ali, e sem qualquer escrúpulo, oiço.
O Impensavel não dá, por isso, quaisquer sugestões para este fim-de-semana prolongado.
P.S. O Impensavel tinha-se prometido, meses atrás, aproveitar os feriados de Dezembro para arrumar umas estantes, mas tratou-se de um dispensável e infantil embuste. Lembrá-lo, eis uma "ocupação" para um fim-de-semana prolongado.
sábado, novembro 29, 2003
sexta-feira, novembro 28, 2003
O caso Moderna
O Impensavel lembra que no início... No início havia tráficos de armas, maçonarias, tenebrosas conspirações para a tomada do poder, associação criminosa, tráficos de influências, subversão da democracia...
Bem... acabou tudo numas condenações por gestão danosa e alguns crimes de ladroeira comum.
Convirá, ainda, não esquecer, que parte das verbas desviadas foram empregues na compra de carros chamados topo de gama - mas que nem sequer isso são senão para a classe média - e para roupa, não no Poole - onde Eça mandou fazer uns fatinhos, mas nos alfaiates nacionais, que não têm acesso aos melhores tecidos.
No meu tempo, liam-se livros de aventuras, desde Dumas à colecção dos rapazes - de que editora? Esqueço-me e tenho preguiça de ir ver. Quero crer que a geração, ou a meia-geração, abaixo da minha, esta que tanto se entusiasma a descobrir conspirações tenebrosas e ignomínias a cada esquina, leu menos aventuras e que, das séries televisivas, não foram sequer espectadores atentos do Sítio do Picapau Amarelo.
Depois, presas da monotonia, sem defesas, perante a chateza quaotidiana, é o que se vê... surgem cabalas, conspirações, tremendas coisas imaginosas.
O Impensavel lembra que no início... No início havia tráficos de armas, maçonarias, tenebrosas conspirações para a tomada do poder, associação criminosa, tráficos de influências, subversão da democracia...
Bem... acabou tudo numas condenações por gestão danosa e alguns crimes de ladroeira comum.
Convirá, ainda, não esquecer, que parte das verbas desviadas foram empregues na compra de carros chamados topo de gama - mas que nem sequer isso são senão para a classe média - e para roupa, não no Poole - onde Eça mandou fazer uns fatinhos, mas nos alfaiates nacionais, que não têm acesso aos melhores tecidos.
No meu tempo, liam-se livros de aventuras, desde Dumas à colecção dos rapazes - de que editora? Esqueço-me e tenho preguiça de ir ver. Quero crer que a geração, ou a meia-geração, abaixo da minha, esta que tanto se entusiasma a descobrir conspirações tenebrosas e ignomínias a cada esquina, leu menos aventuras e que, das séries televisivas, não foram sequer espectadores atentos do Sítio do Picapau Amarelo.
Depois, presas da monotonia, sem defesas, perante a chateza quaotidiana, é o que se vê... surgem cabalas, conspirações, tremendas coisas imaginosas.
quinta-feira, novembro 27, 2003
Ontem dei uma volta pelos blogs, a partir das indicações do Dicionário do diabo - link aqui ao lado.
Visitei o Estrangeirados e encontro, num post intitulado Elogio: "Estou tão contente pela mini-avalanche de visitas nestes últimos dias".
Um português que afirma estar contente, "tão contente" pelas visitas e agradece ainda outras alusões ao seu blog é "avis rara" e merece que se lhe sigam as peripécias em terras estrangeiras.
Já agora e quanto ao rugby: no outro dia lia no Mar Salgado, salvo erro - link ao lado - que o futebol era um jogo de gentlemen jogado por labregos e o rugby um jogo de labregos jogado por gentlemen...
Outro blog que visitei foi o Socioblogue. Esqueçam-se alguns aspectos mais irritantes do vocabulário, os "apelativos" o presentação, sinónimo perfeito de apresentação, e por isso, muito evitável, o mais indesculpável "mostração" ( os neologismos são quase sempre atribuíveis a preguiça e desconhecimento da língua, coisas curáveis) e atente-se, sobretudo, numa genuína boa vontade e esforço do autor.
Revisitei o Flor de Obsessão: durante meses, sempre que tentava aceder ao blog, aparecia-me um post de 30 de Junho, salvo erro, sobre cinema. Lia, por vezes, referências ao Obsessão, ia ver: lá continuava o post do dia 30. Recarregava a página: ainda o mesmo post. Pensei numa mudança de morada, acedia através de "links" de outros blogs, o mesmo post. Desisti. Ontem, sem que nada fizesse, surgiu o blog actualizado (dia 25 de Novembro).
Já agora: também eu tremo com juizes que no CEJ não estudavam - já estudam? - direito constitucional. A necessidade de mudar o modo de recrutamento dos magistrados portugueses parece-me evidente.
Visitei o Estrangeirados e encontro, num post intitulado Elogio: "Estou tão contente pela mini-avalanche de visitas nestes últimos dias".
Um português que afirma estar contente, "tão contente" pelas visitas e agradece ainda outras alusões ao seu blog é "avis rara" e merece que se lhe sigam as peripécias em terras estrangeiras.
Já agora e quanto ao rugby: no outro dia lia no Mar Salgado, salvo erro - link ao lado - que o futebol era um jogo de gentlemen jogado por labregos e o rugby um jogo de labregos jogado por gentlemen...
Outro blog que visitei foi o Socioblogue. Esqueçam-se alguns aspectos mais irritantes do vocabulário, os "apelativos" o presentação, sinónimo perfeito de apresentação, e por isso, muito evitável, o mais indesculpável "mostração" ( os neologismos são quase sempre atribuíveis a preguiça e desconhecimento da língua, coisas curáveis) e atente-se, sobretudo, numa genuína boa vontade e esforço do autor.
Revisitei o Flor de Obsessão: durante meses, sempre que tentava aceder ao blog, aparecia-me um post de 30 de Junho, salvo erro, sobre cinema. Lia, por vezes, referências ao Obsessão, ia ver: lá continuava o post do dia 30. Recarregava a página: ainda o mesmo post. Pensei numa mudança de morada, acedia através de "links" de outros blogs, o mesmo post. Desisti. Ontem, sem que nada fizesse, surgiu o blog actualizado (dia 25 de Novembro).
Já agora: também eu tremo com juizes que no CEJ não estudavam - já estudam? - direito constitucional. A necessidade de mudar o modo de recrutamento dos magistrados portugueses parece-me evidente.
No post anterior falo da "noite antiquíssima, rainha destronada"
Mesmo truncada, a citação deveria, por notória, dispensar mais indicações.
É uma imagem de uma extraordinária beleza, uma das mais belas da poesia portuguesa.
Leia-se ou releia-se um pouco mais:
"..............................................................
Vem, Noite antiquíssima e idêntica
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de infinito
..... "
Álvaro de Campos
Mesmo truncada, a citação deveria, por notória, dispensar mais indicações.
É uma imagem de uma extraordinária beleza, uma das mais belas da poesia portuguesa.
Leia-se ou releia-se um pouco mais:
"..............................................................
Vem, Noite antiquíssima e idêntica
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de infinito
..... "
Álvaro de Campos
Ontem a luz da rua colapsou, um breu, como me lembrava era à noite.
E hoje, "parcialmente restabelecida" ainda há o escuro bastante para fulminar todas as metáforas digitais, todos os construídos espantos binários.
Hoje, como ontem, é a "noite antiquíssima, a rainha nascida destronada": morte, silêncio, intactos.
Amanhã, reparada a avaria, volto a ler-vos a aritmética (sépia pálido ou overcoloured).
Sans rancune.
E hoje, "parcialmente restabelecida" ainda há o escuro bastante para fulminar todas as metáforas digitais, todos os construídos espantos binários.
Hoje, como ontem, é a "noite antiquíssima, a rainha nascida destronada": morte, silêncio, intactos.
Amanhã, reparada a avaria, volto a ler-vos a aritmética (sépia pálido ou overcoloured).
Sans rancune.
quarta-feira, novembro 26, 2003
Eu já estava convencido, desde há uma semana, que o America's Cup fugira de águas lusas. Acredito mesmo que a fuga de informação terá tido o seu quê de piedosa, conhecida que já deve ser lá fora a nossa propensão para encarar eventos de excepção ( a Expo98, o Euro 2004) como oráculos, prenúncios onde pensamos vislumbrar sinais da terra de leite e mel em que nos havemos de tornar e que, por pecados nossos, oculta, não reconhecemos - cegos! - nas ânsias do dia-a-dia.
É o messsianismo habitual, nada de novo - embora se fale pouco dele.
Conhecida oficialmente a decisão, por sites, blogs e televisões, se dissertou sobre as vantagens da Tramontana e do Levante valencianos sobre a nossa Nortada, vantagem tão clara e proficientemente reconhecida que faria da candidatura portuguesa, no entanto louvada, uma pura leviandade, desde o início condenada ao fracasso. Descontado, porém, esse senão da argumentação, o intento, manifesto ou inconsciente do discurso é hábil: tratar de mostrar que a escolha não se deveu a falhas nossas, mormente de organização, senão às forças incontroláveis - e injustas - da natureza.
Porém, o jornal francês "Le matin" que publicou a triste notícia, não falou das vantagens dos ventos valencianos, sobre a nossa leal Nortada, mas dos protestos dos pescadores de Lisboa que o governo desalojou.
E que hoje, conhecida a decisão, comemoraram jubilosamente, entre gritos de "é bem feita".
Eu, que desde há uma semana perdera a esperança de ver a Cup em Lisboa, acabei por me rir, com gosto.
É o messsianismo habitual, nada de novo - embora se fale pouco dele.
Conhecida oficialmente a decisão, por sites, blogs e televisões, se dissertou sobre as vantagens da Tramontana e do Levante valencianos sobre a nossa Nortada, vantagem tão clara e proficientemente reconhecida que faria da candidatura portuguesa, no entanto louvada, uma pura leviandade, desde o início condenada ao fracasso. Descontado, porém, esse senão da argumentação, o intento, manifesto ou inconsciente do discurso é hábil: tratar de mostrar que a escolha não se deveu a falhas nossas, mormente de organização, senão às forças incontroláveis - e injustas - da natureza.
Porém, o jornal francês "Le matin" que publicou a triste notícia, não falou das vantagens dos ventos valencianos, sobre a nossa leal Nortada, mas dos protestos dos pescadores de Lisboa que o governo desalojou.
E que hoje, conhecida a decisão, comemoraram jubilosamente, entre gritos de "é bem feita".
Eu, que desde há uma semana perdera a esperança de ver a Cup em Lisboa, acabei por me rir, com gosto.
O Almocreve, já se sabe, não se esqueceu do aniversário de Eça.
Mas, assim como no dia anterior tinha usado o Ramalho para maltratar a Figueira, usou ontem o Eça para.... para... menoscabo do Eça.
É que tudo, menos inocência, há na escolha do texto, uma soberba desanda no Camilo - que a merecia (e no merecê-la, a esta e outras, está ainda muito da sua grandeza irritante).
O Eça não publicou, porém, aquela carta em vida. Foi encontrada entre os seus papéis. Refere-se-lhe, no entanto, numa carta a Luís de Magalhães, de Bristol, datada de 2 Julho de 1887. Transcrevo: "Não sei se Vossê leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com phrases muito janotas e arrebicadas, todas pelo figurino de Filinto Elysio, em que elle se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe n’uma epistola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilheria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silencio" (in Correspondência, carta XXXV)
Com isto, construiu-se sobre Eça um tremendo processo de intenções (como o meu, ao Almocreve...): que ele, José Maria, ao referir-se à carta-resposta dava a conhecer, por um lado, que Camilo não ficara sem uma - e uma resposta que ele, Eça, atenta a sua modéstia ja proverbial, não deixava de considerar com pilheria - e, por outro, não a enviando impossibilitava a fúria camiliana que não deixaria de se abater sobre ele; ainda que, deste modo, lhe ficaria a pertencer, para sempre, como ficou, a última palavra nas difíceis relações que com Camilo manteve. Acrescente-se a tudo isto, a alguma injustiça de que Eça é acusado - com alguma razão - de ter tratado Camilo e obtém-se o quadro sombrio: aquela resposta não enviada a Camilo seria a feia acção de Eça.
É, de facto, difícil atribuir a mera falta de paciência o não ter passado a carta a limpo... sobretudo para os que pacientemente tentam construir um Eça farisaico, dúplice, que não existiu.
Mas, também, não é difícil crer que tenha sido isso mesmo, falta de paciência.
Parece-me ferocidade bastante.
Para conhecer alguma coisa do episódio, aqui está.
O texto póstumo a que se alude não será esta carta, mas outra em que é feito o convite a Camilo para colaborar na Revista de Portugal, enviada já de Paris, em Novembro de 1888 e que, tanto quanto sei, o autor da Corja recebeu.
Mas, assim como no dia anterior tinha usado o Ramalho para maltratar a Figueira, usou ontem o Eça para.... para... menoscabo do Eça.
É que tudo, menos inocência, há na escolha do texto, uma soberba desanda no Camilo - que a merecia (e no merecê-la, a esta e outras, está ainda muito da sua grandeza irritante).
O Eça não publicou, porém, aquela carta em vida. Foi encontrada entre os seus papéis. Refere-se-lhe, no entanto, numa carta a Luís de Magalhães, de Bristol, datada de 2 Julho de 1887. Transcrevo: "Não sei se Vossê leu nas Novidades uma prosa de Camilo, com phrases muito janotas e arrebicadas, todas pelo figurino de Filinto Elysio, em que elle se queixava ferozmente de mim. Eu respondi-lhe n’uma epistola, destinada às Novidades, que (para ser modesto) não deixava de ter alguma pilheria. Mas era muito longa, toda a lápis, tinha de ser copiada... e não tive paciência de a pôr em tinta limpa: de modo que guardei um discreto silencio" (in Correspondência, carta XXXV)
Com isto, construiu-se sobre Eça um tremendo processo de intenções (como o meu, ao Almocreve...): que ele, José Maria, ao referir-se à carta-resposta dava a conhecer, por um lado, que Camilo não ficara sem uma - e uma resposta que ele, Eça, atenta a sua modéstia ja proverbial, não deixava de considerar com pilheria - e, por outro, não a enviando impossibilitava a fúria camiliana que não deixaria de se abater sobre ele; ainda que, deste modo, lhe ficaria a pertencer, para sempre, como ficou, a última palavra nas difíceis relações que com Camilo manteve. Acrescente-se a tudo isto, a alguma injustiça de que Eça é acusado - com alguma razão - de ter tratado Camilo e obtém-se o quadro sombrio: aquela resposta não enviada a Camilo seria a feia acção de Eça.
É, de facto, difícil atribuir a mera falta de paciência o não ter passado a carta a limpo... sobretudo para os que pacientemente tentam construir um Eça farisaico, dúplice, que não existiu.
Mas, também, não é difícil crer que tenha sido isso mesmo, falta de paciência.
Parece-me ferocidade bastante.
Para conhecer alguma coisa do episódio, aqui está.
O texto póstumo a que se alude não será esta carta, mas outra em que é feito o convite a Camilo para colaborar na Revista de Portugal, enviada já de Paris, em Novembro de 1888 e que, tanto quanto sei, o autor da Corja recebeu.
terça-feira, novembro 25, 2003
José Maria
A dez minutos do fim do dia, ainda tenho tempo de lembrar Eça de Queiroz, que nasceu há 158 anos, no bendito dia 25 de Novembro de 1845.
25 de Novembro
Lembro-me muito bem do 25 de Novembro de 1975.
Nesse ano, tinha aulas só à tarde. Começavam às três.
Acordei não antes do meio-dia, almocei, presumivelmente, num pequeno café-snack da Duque de Loulé, e fui para a Faculdade, no 38.
Chegado lá, avisaram-me que, dada a situação política, havia uma RGA. Devo ter agradecido o feriado à situação política - que desconhecia, ainda, qual fosse - e resolvi entrar no anfiteatro, para fazer tempo para o lanche na Ferrari - batido com creme, sim - onde ia depois das livrarias e de uma espreitadela à Sabóia e à Picadilly.
Percebi, no entanto, mal entrei, que fora um "faux pas": os meus colegas tencionavam barricar-se para se defender da "investida do capital" e das "forças fascistas", tudo isto anunciado com a alegria de quem se tencionava divertir o mais que pudesse. Temi pelo meu batido de morangos com creme e pelos "Les Rois Maudits", do Druon, de que tencionava ir comprar à Bertrand, na edição da "Livres de Poche", o primeiro volume.
Tendo sempre cultivado na faculdade, o mais rigoroso anonimato, saí sem problemas, durante a apresentação de uma moção de caracter ainda mais bélico do que as anteriores.
Lembro-me que fui a pé, aproveitando a tarde agradável, até as livrarias da João Soares e que espreitei a 111.
Não sei já como, apercebi-me - na livraria? - que se passava realmente qualquer coisa, e apanhei o 38 de volta a casa, deixando a Bertrand para outro dia.
Dir-me-à indignada a minha meia dúzia de leitores que tanta indiferença pela coisa pública à saída dos anos teen - à altura, nem sequer existiam, os anos "teen" - prognosticava um cínico, um indiferente. Talvez, já que foi nessa altura que li, com muito espanto e sincera admiração, os meus primeiros Ciorans; todavia, e em nome da verdade histórica, devo confessar que não posso atribuir aos "Précis de décomposition" a falta de entusiasmo pelo que me rodeava. Se calmamente desci - ou subi, segundo alguns autores - o Campo Grande, devo-o a uma leitura de Engels - se bem que já não me lembre qual - a alguns alvitres de parentas velhas que se resumiam, sabiamente, a contar com o cansaço do povo de Lisboa e com o bom-senso do do resto do país e principalmente, à indignação do sr. Gustavo (nome fictício) que um dia, numa conversa de rua, e a pretexto de se interessar sobre "os estudos" me tentou arrancar uma "consulta": o sr. Gustavo tinha arrendado uma loja de um seu prédio ao sr. Lopes (nome igualmente fictício) que abrira uma firma de electrodomésticos. A coisa sempre tinha corrido bem, o Lopes, respeitador, mas, nos últimos tempos - e foi esta conversa antes do verão temível - tinha junto ao prédio uma autêntica lixeira, caixotes de papelão, embalagens de plástico, que tudo dava um péssimo aspecto à propriedade. Tinha já chamado a atenção do inquilino, mas este desculpara-se com o movimento. Umas semanas depois, encontrei, novamente, o sr. Gustavo e perguntei-lhe pelo lixo. Que tinha desaparecido: a venda de fogões, de máquinas de lavar roupa e loiça era tanta, que já não os desembalavam senão em casa dos clientes.
Munido da certeza - que ao tempo, para mim era uma certa certeza - de que não havia "condições subjectivas" para a "revolução do proletariado", acima de tudo ocupado em apetrechar-se para, confortavelmente, poder ver a "Gabriela" sem estar a pensar na loiça suja e na roupa por lavar, passei o resto da revolução sossegado.
E epílogo? Dos colegas da faculdade e adjacências, alguns tornaram-se crónicos frequentadores de S. Bento, das empresas públicas, ou de capital público, do governo. Os amigos mais pessimistas e que me censuravam o optimismo, nas empresas privadas e no governo, juntamente com os "inimigos" de outrora. As parentas foram morrendo, geralmante conciliadas com o país; o sr. Gustavo também morreu, num cruzeiro, durante umas férias. O sr. Lopes é hoje, um potentado, e sensato, "éminence grise" de vários executivos municipais.
Eu continuo com o meu Cioran.
Tenho os números dos telemóveis de alguns dos sobreviventes, para uma aflição.
Lembro-me muito bem do 25 de Novembro de 1975.
Nesse ano, tinha aulas só à tarde. Começavam às três.
Acordei não antes do meio-dia, almocei, presumivelmente, num pequeno café-snack da Duque de Loulé, e fui para a Faculdade, no 38.
Chegado lá, avisaram-me que, dada a situação política, havia uma RGA. Devo ter agradecido o feriado à situação política - que desconhecia, ainda, qual fosse - e resolvi entrar no anfiteatro, para fazer tempo para o lanche na Ferrari - batido com creme, sim - onde ia depois das livrarias e de uma espreitadela à Sabóia e à Picadilly.
Percebi, no entanto, mal entrei, que fora um "faux pas": os meus colegas tencionavam barricar-se para se defender da "investida do capital" e das "forças fascistas", tudo isto anunciado com a alegria de quem se tencionava divertir o mais que pudesse. Temi pelo meu batido de morangos com creme e pelos "Les Rois Maudits", do Druon, de que tencionava ir comprar à Bertrand, na edição da "Livres de Poche", o primeiro volume.
Tendo sempre cultivado na faculdade, o mais rigoroso anonimato, saí sem problemas, durante a apresentação de uma moção de caracter ainda mais bélico do que as anteriores.
Lembro-me que fui a pé, aproveitando a tarde agradável, até as livrarias da João Soares e que espreitei a 111.
Não sei já como, apercebi-me - na livraria? - que se passava realmente qualquer coisa, e apanhei o 38 de volta a casa, deixando a Bertrand para outro dia.
Dir-me-à indignada a minha meia dúzia de leitores que tanta indiferença pela coisa pública à saída dos anos teen - à altura, nem sequer existiam, os anos "teen" - prognosticava um cínico, um indiferente. Talvez, já que foi nessa altura que li, com muito espanto e sincera admiração, os meus primeiros Ciorans; todavia, e em nome da verdade histórica, devo confessar que não posso atribuir aos "Précis de décomposition" a falta de entusiasmo pelo que me rodeava. Se calmamente desci - ou subi, segundo alguns autores - o Campo Grande, devo-o a uma leitura de Engels - se bem que já não me lembre qual - a alguns alvitres de parentas velhas que se resumiam, sabiamente, a contar com o cansaço do povo de Lisboa e com o bom-senso do do resto do país e principalmente, à indignação do sr. Gustavo (nome fictício) que um dia, numa conversa de rua, e a pretexto de se interessar sobre "os estudos" me tentou arrancar uma "consulta": o sr. Gustavo tinha arrendado uma loja de um seu prédio ao sr. Lopes (nome igualmente fictício) que abrira uma firma de electrodomésticos. A coisa sempre tinha corrido bem, o Lopes, respeitador, mas, nos últimos tempos - e foi esta conversa antes do verão temível - tinha junto ao prédio uma autêntica lixeira, caixotes de papelão, embalagens de plástico, que tudo dava um péssimo aspecto à propriedade. Tinha já chamado a atenção do inquilino, mas este desculpara-se com o movimento. Umas semanas depois, encontrei, novamente, o sr. Gustavo e perguntei-lhe pelo lixo. Que tinha desaparecido: a venda de fogões, de máquinas de lavar roupa e loiça era tanta, que já não os desembalavam senão em casa dos clientes.
Munido da certeza - que ao tempo, para mim era uma certa certeza - de que não havia "condições subjectivas" para a "revolução do proletariado", acima de tudo ocupado em apetrechar-se para, confortavelmente, poder ver a "Gabriela" sem estar a pensar na loiça suja e na roupa por lavar, passei o resto da revolução sossegado.
E epílogo? Dos colegas da faculdade e adjacências, alguns tornaram-se crónicos frequentadores de S. Bento, das empresas públicas, ou de capital público, do governo. Os amigos mais pessimistas e que me censuravam o optimismo, nas empresas privadas e no governo, juntamente com os "inimigos" de outrora. As parentas foram morrendo, geralmante conciliadas com o país; o sr. Gustavo também morreu, num cruzeiro, durante umas férias. O sr. Lopes é hoje, um potentado, e sensato, "éminence grise" de vários executivos municipais.
Eu continuo com o meu Cioran.
Tenho os números dos telemóveis de alguns dos sobreviventes, para uma aflição.
segunda-feira, novembro 24, 2003
A gente acorda aqui, à beira do mundo "à séria" (o que começa aqui ao lado, em Espanha), numa segunda-feira de manhã, reúne uns esgares de "ora aqui vamos nós", alguma coisa gastos, o sorriso engelhado, mas é o que há, e dispõe-se a encarar uma nova semana de trapalhadas.
Em vão se prepara - e é isto que Portugal tem de bom: é sempre um pouco pior do que aquilo que possamos conceber.
Eu, por exemplo, acabo de ler que o M.P. pede, no caso Casa Pia, exames físicos aos arguidos. Fica-se logo a pensar que raio de investigação é aquela, parece uma coisa conduziada sem método, sem um rumo, aos solavancos...
Eis um exemplo desse pior que nos surpreende.
Contudo, por vezes, raras vezes, assustamo-nos com boas notícias: as perícias médico-legais aos arguidos, efectuadas oito meses depois de alguns deles se encontrarem presos, destinar-se-ão, segundo algumas fontes, a averiguar dos efeitos fisiológicos causados pela reclusão sem culpa formada na saúde dos prisioneiros.
Os resultados serão publicados num importante jornal médico internacional. Do estudo, participam, entre outros países, a Coreia do Norte e Cuba.
Em vão se prepara - e é isto que Portugal tem de bom: é sempre um pouco pior do que aquilo que possamos conceber.
Eu, por exemplo, acabo de ler que o M.P. pede, no caso Casa Pia, exames físicos aos arguidos. Fica-se logo a pensar que raio de investigação é aquela, parece uma coisa conduziada sem método, sem um rumo, aos solavancos...
Eis um exemplo desse pior que nos surpreende.
Contudo, por vezes, raras vezes, assustamo-nos com boas notícias: as perícias médico-legais aos arguidos, efectuadas oito meses depois de alguns deles se encontrarem presos, destinar-se-ão, segundo algumas fontes, a averiguar dos efeitos fisiológicos causados pela reclusão sem culpa formada na saúde dos prisioneiros.
Os resultados serão publicados num importante jornal médico internacional. Do estudo, participam, entre outros países, a Coreia do Norte e Cuba.
quarta-feira, novembro 19, 2003
Eh bien, mais do que o marialvismo, que é, na sua faceta mais agradável, um protesto não tanto contra o "lá de fora" quanto contra o "novo" importado a trouxe-mouxe, irrita-me a quietação, austera, impediedosa e lisa, circunspecta e receosa, quase supersticiosa que, disfarçada de obesa sensatez perdura ainda (1) entre nós em graus que atingem a omissão criminosa.
Isto a propósito da recusa das "salas de chuto" - ou shut ou shoot - nas prisões, ou de um mero programa de troca de seringas.
Há droga nas cadeias, a par de falta de higiene. Por isso, morre gente. Em face da situação, lamenta-se, lamenta-se com convicção e optimismo - uma forma recente de lamúria nacional - e nada se faz.
E contra isto... contra este mau marialvismo, nada a fazer. Ou tudo, em nome da mera decência.
(1) - por vezes sou acometido por optimismos iluministas.
Isto a propósito da recusa das "salas de chuto" - ou shut ou shoot - nas prisões, ou de um mero programa de troca de seringas.
Há droga nas cadeias, a par de falta de higiene. Por isso, morre gente. Em face da situação, lamenta-se, lamenta-se com convicção e optimismo - uma forma recente de lamúria nacional - e nada se faz.
E contra isto... contra este mau marialvismo, nada a fazer. Ou tudo, em nome da mera decência.
(1) - por vezes sou acometido por optimismos iluministas.
terça-feira, novembro 18, 2003
Há dias li a notícia da morte do recentemente desaparecido Marquês de Marialva e desde aí que tenho pensado sobre o marialvismo enquanto "tradição inventada". Também há tempo, não há muito, tinha relido a "Cartilha do Marialva", do José Cardoso Pires, que não achei tão certeira como da primeira vez que a li, e isto por que, salvo erro, são referidos como "marialvas" comportamentos que não são exclusivos do "marialvismo" português: o desdém pela "cultura livresca" é um deles; outro, a adopção de modos de estar e vestir populares, que encontramos, também, na aristocracia inglesa ou na alemã.
Divertido é o facto do Marquês de Marialva, o 4º, que deu origem ao termo, nada ter de "marialva": era um aristocrata de corte, estribeiro-mór de D. José I, e grande equitador quanto estudioso de mérito da arte equestre, o autor da "Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavalaria". Como seu Pai, mas da Rainha D. Maria I foi o 5º Marquês estribeiro-mor; anfitrião, protector e amigo de William Beckford que dele fala com simpatia no seu "Diário", projectava o casamento de sua filha, a futura Duquesa de Lafões, com o milionário inglês. Um seu irmão, pelo casamento, Conde dos Arcos, foi o que morreu em Samora Correia, numa corrida de toiros, episódio que Rebelo da Silva aproveitou para a "Ultima corrida em Salvaterra" e seu filho, último marquês em sua Casa, criança ao tempo da estada de Beckford em Portugal, morreu novo e sem descendência em Paris, onde era Embaixador na Corte de Luis XVIII. Foi por uma sua irmã que o título entrou na Casa de Lafões, onde hoje se conserva. Mas, o 2º Duque de Lafões, marido daquela senhora e cunhado e genro dos anteriores, neto de D. Pedro II, o primeiro membro da Casa Real que estudou na Universidade do Coimbra, militar e um dos fundadores da Academia das Ciências, foi patrono das artes e conhecido por essa Europa fora como modelo de aristocrata iluminista. Beckford, que lhe foi apresentado, deixou dele uma descrição saborosa e refere-se ao francês requintadíssimo que falava. Sem resquícios de marialvismo, estes marqueses de Marialva...
Dir-se-ia ser um caso, tão comum, de uma denominação originada muito arbitrariamente, ou nos meros feitos equestres dos 4º e 5º Marqueses, não fosse a gente perceber que, com tal escolha de nome, se pretendeu filiar na aristocracia portuguesa - isto é, tornar exemplares - atitudes, em grande parte posteriores, e que lhes eram - e no séc. XVIII, à grande parte da alta aristocracia portuguesa - estranhas: uma, o desdém pelo que vem de fora; a outra, mais positiva, a rebeldia à imposição de hábitos novos.
Subsistiu esse abuso: o legitimíssimo asco a Pombal, oculto protagonista na cena entre o 4º de Marialva e Sebastião José, no episódio literário de Salvaterra, não tem por causa o ódio ao novo - que, era, aliás, consumido com alguma avidez, mas o asco pelas prepotências da política pombalina.
A esmagadora maioria dos resistentes à ditadura de Sebastião José foram pais e avós de liberais, mais do que de apostólicos miguelistas.
Divertido é o facto do Marquês de Marialva, o 4º, que deu origem ao termo, nada ter de "marialva": era um aristocrata de corte, estribeiro-mór de D. José I, e grande equitador quanto estudioso de mérito da arte equestre, o autor da "Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavalaria". Como seu Pai, mas da Rainha D. Maria I foi o 5º Marquês estribeiro-mor; anfitrião, protector e amigo de William Beckford que dele fala com simpatia no seu "Diário", projectava o casamento de sua filha, a futura Duquesa de Lafões, com o milionário inglês. Um seu irmão, pelo casamento, Conde dos Arcos, foi o que morreu em Samora Correia, numa corrida de toiros, episódio que Rebelo da Silva aproveitou para a "Ultima corrida em Salvaterra" e seu filho, último marquês em sua Casa, criança ao tempo da estada de Beckford em Portugal, morreu novo e sem descendência em Paris, onde era Embaixador na Corte de Luis XVIII. Foi por uma sua irmã que o título entrou na Casa de Lafões, onde hoje se conserva. Mas, o 2º Duque de Lafões, marido daquela senhora e cunhado e genro dos anteriores, neto de D. Pedro II, o primeiro membro da Casa Real que estudou na Universidade do Coimbra, militar e um dos fundadores da Academia das Ciências, foi patrono das artes e conhecido por essa Europa fora como modelo de aristocrata iluminista. Beckford, que lhe foi apresentado, deixou dele uma descrição saborosa e refere-se ao francês requintadíssimo que falava. Sem resquícios de marialvismo, estes marqueses de Marialva...
Dir-se-ia ser um caso, tão comum, de uma denominação originada muito arbitrariamente, ou nos meros feitos equestres dos 4º e 5º Marqueses, não fosse a gente perceber que, com tal escolha de nome, se pretendeu filiar na aristocracia portuguesa - isto é, tornar exemplares - atitudes, em grande parte posteriores, e que lhes eram - e no séc. XVIII, à grande parte da alta aristocracia portuguesa - estranhas: uma, o desdém pelo que vem de fora; a outra, mais positiva, a rebeldia à imposição de hábitos novos.
Subsistiu esse abuso: o legitimíssimo asco a Pombal, oculto protagonista na cena entre o 4º de Marialva e Sebastião José, no episódio literário de Salvaterra, não tem por causa o ódio ao novo - que, era, aliás, consumido com alguma avidez, mas o asco pelas prepotências da política pombalina.
A esmagadora maioria dos resistentes à ditadura de Sebastião José foram pais e avós de liberais, mais do que de apostólicos miguelistas.
segunda-feira, novembro 17, 2003
Televisão, bom-senso, etc.
O Dr. Pacheco Pereira repeliu, a golpes de senso-comum e sensato bom-senso, as especulações da apresentadora da SIC, sobre o episódio da jornalista referido no post anterior.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, também em nome do bom-senso, fustigou as propostas de alteração dos mandatos dos deputados.
O siso que qualquer parenta mais velha possuía nos meus tempos de criança é hoje apanágio de muito poucos...
Num outro telejornal, enquanto informavam sobre as interessantes novidades de um cantinho mais escuso do nosso Portugal, em rodapé referia-se uma compilação de "cantigas damigo" (sic).
Pensei primeiro - e indignei-me - tratar-se de um pretensiosismo irmão daqueloutro, ortográfico-hollywoodesco, que na busca do "pitoresco e de "ambientes de outras eras" leva a que se escreva "estórias" por "histórias" e outras semelhantes patetices
Depois, serenei: afinal, a coisa pode ser atribuída, felizmente, à lídima ignorância.
Porque ser pessimista?
O Dr. Pacheco Pereira repeliu, a golpes de senso-comum e sensato bom-senso, as especulações da apresentadora da SIC, sobre o episódio da jornalista referido no post anterior.
O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, também em nome do bom-senso, fustigou as propostas de alteração dos mandatos dos deputados.
O siso que qualquer parenta mais velha possuía nos meus tempos de criança é hoje apanágio de muito poucos...
Num outro telejornal, enquanto informavam sobre as interessantes novidades de um cantinho mais escuso do nosso Portugal, em rodapé referia-se uma compilação de "cantigas damigo" (sic).
Pensei primeiro - e indignei-me - tratar-se de um pretensiosismo irmão daqueloutro, ortográfico-hollywoodesco, que na busca do "pitoresco e de "ambientes de outras eras" leva a que se escreva "estórias" por "histórias" e outras semelhantes patetices
Depois, serenei: afinal, a coisa pode ser atribuída, felizmente, à lídima ignorância.
Porque ser pessimista?
Uma gloriosa manhã, branda e suave e más notícias: Valência terá ganho a American's Cup. Lisboa, preterida por greves de cacilheiros e outros estorvos do subdesenvolvimento. Diria que tudo condiz, mas é uma desilusão: esperava ser um mirone competente do acontecimento. Resta-me a manhã, o azul pálido e oiro.
Aproveito a desilusão para me dedicar ao bota-abaixismo.
Vi, na televisão, um documentário sobre os médicos do Leste europeu que emigraram para Portugal. Alguns ainda não podem exercer medicina, devido a obstáculos burocráticos - um exame da Ordem do Médicos é um deles. Eu não sei se os nossos médicos são monstros de sabedoria. O que sei - embora de ouvir dizer, devo confessar - é que os cuidados médicos disponíveis em Portugal, não obstante o dinheiro que nos custam, são mauzinhos e, em parte, por falta de médicos.
Lembro-me de ler, já há anos, num artigo de jornal, que Einstein não poderia ser, à luz da legislação em vigor, professor catedrático em Portugal... O autor pretendia demonstrar o absurdo da lei. Idêntico absurdo é este da necessidade de exames na Ordem para licenciados por universidades europeias - ou asiáticas que integravam a antiga URSS.
Por médicos, um apontamento de puro terror que não foi devidamente notado: a jornalista atingida a tiro no Iraque foi, parece que com seu consentimento, trazida do hospital inglês para o Curry Cabral.
Um gesto de heroísmo ou a mesma candura que a levou às estradas do Iraque sem protecção?
Como se diz agora, aguardo os "desenvolvimentos".
Aproveito a desilusão para me dedicar ao bota-abaixismo.
Vi, na televisão, um documentário sobre os médicos do Leste europeu que emigraram para Portugal. Alguns ainda não podem exercer medicina, devido a obstáculos burocráticos - um exame da Ordem do Médicos é um deles. Eu não sei se os nossos médicos são monstros de sabedoria. O que sei - embora de ouvir dizer, devo confessar - é que os cuidados médicos disponíveis em Portugal, não obstante o dinheiro que nos custam, são mauzinhos e, em parte, por falta de médicos.
Lembro-me de ler, já há anos, num artigo de jornal, que Einstein não poderia ser, à luz da legislação em vigor, professor catedrático em Portugal... O autor pretendia demonstrar o absurdo da lei. Idêntico absurdo é este da necessidade de exames na Ordem para licenciados por universidades europeias - ou asiáticas que integravam a antiga URSS.
Por médicos, um apontamento de puro terror que não foi devidamente notado: a jornalista atingida a tiro no Iraque foi, parece que com seu consentimento, trazida do hospital inglês para o Curry Cabral.
Um gesto de heroísmo ou a mesma candura que a levou às estradas do Iraque sem protecção?
Como se diz agora, aguardo os "desenvolvimentos".
quinta-feira, novembro 13, 2003
e Tarde do dia 13
Oiro, azul e cinza, a nitidez difusa do que é efémero.
Leio o Livro da Sabedoria, uma das leituras da missa de hoje: "Ela [sapiência] é um sopro do poder de Deus, uma irradiação pura da glória do Omnipotente, pelo que nada de impuro entra nela." - todo o saber, mesmo o mais laico, as posições mais cépticas são tributárias desta concepção: o vocabulário "post moderno", rico em metáforas retiradas à patologia, "contaminado" pela exaltação dessacralizadora, é-lhe, ainda, tributário e, assim, todo o discurso sobre o "pecado" da civilização ocidental.
Oiro, azul e cinza, a nitidez difusa do que é efémero.
Leio o Livro da Sabedoria, uma das leituras da missa de hoje: "Ela [sapiência] é um sopro do poder de Deus, uma irradiação pura da glória do Omnipotente, pelo que nada de impuro entra nela." - todo o saber, mesmo o mais laico, as posições mais cépticas são tributárias desta concepção: o vocabulário "post moderno", rico em metáforas retiradas à patologia, "contaminado" pela exaltação dessacralizadora, é-lhe, ainda, tributário e, assim, todo o discurso sobre o "pecado" da civilização ocidental.
quarta-feira, novembro 12, 2003
segunda-feira, novembro 10, 2003
O refrigério de Cioran: "L'envie de devenir source de événements agit sur chacun comme un desórdre mental ou comme une malédiction voulue. La société - un enfer de sauveurs! Ce qu'y cherchait Diógene avec sa lanterne, c'est um indifférant... in "Précis de Décomposition"
Depois, quando fechava o livro, para ir jantar: "La découverte de la Vie anéanti la vie", intróito perfeito ao "Monte dos Vendavais" que tenciono começar a reler, ainda uma vez, hoje à noite.
(Cioran era um leitor entusiasta de Emily Brönte - confirmação, mais de que de uma conjectura, de um pressentimento).
Depois, quando fechava o livro, para ir jantar: "La découverte de la Vie anéanti la vie", intróito perfeito ao "Monte dos Vendavais" que tenciono começar a reler, ainda uma vez, hoje à noite.
(Cioran era um leitor entusiasta de Emily Brönte - confirmação, mais de que de uma conjectura, de um pressentimento).
sábado, novembro 08, 2003
Encontrei aqui excertos do Diário de António Ribeiro Saraiva - este senhor. Do que escreveu conhecia um ou dois fragmentos de texto; do homem, menos: do seu longo exílio e da muita idade com que em Inglaterra morreu. Quando hoje à tarde - que foi uma suave tarde de Novembro - lia as suas memórias - organizadas em entradas numeradas e alíneas - encontrei um romântico - não no incapaz sentido em que se usa a palavra corriqueiramente, mas no de alguém que aderiu ao ideário do romantismo: leiam-se as "anotações inglesas" do Diário e, nelas, atente-se ao seu quotidiano londrino, a alguns assuntos sentimentais, tudo inventariado com uma espantosa modernidade romântica - que o Garrett, de que ele desdenha, por seu turno não desdenharia.
Miguelista e romântico, eis uma "avis rara".
As suas anotações portuguesas fazem dele, "malgré lui", um estrangeirado peculiar, um estrangeirado "inglês" que não quer, ao contrário dos propriamente ditos, "educar-nos" mas corrigir a administração caótica...
E, na entrada 23 a) encontro, implícito na comparação que faz do morgado mau administrador com o "homem lavrador, ou doutra profissão das médias da sociedade" - e não com um qualquer morgado bom administrador... - o explícito programa d' Os Fidalgos da Casa Mourisca - um "inconsciente" gosto pelo "fomento" - perdõe-se-me tanta aspa.
Talvez sem dar por isso, pequeno aristocrata de província, filho de desembargador, intérprete do mal-estar classe média citadina e rural, esmagada entre o povo e a aristocracia de corte que domina na administração e nos cargos palatinos, é, a um tempo, um homem dos grandes ressentimentos futuros quanto do passado que quis preservar.
Estado Novo avant la lettre?
Miguelista e romântico, eis uma "avis rara".
As suas anotações portuguesas fazem dele, "malgré lui", um estrangeirado peculiar, um estrangeirado "inglês" que não quer, ao contrário dos propriamente ditos, "educar-nos" mas corrigir a administração caótica...
E, na entrada 23 a) encontro, implícito na comparação que faz do morgado mau administrador com o "homem lavrador, ou doutra profissão das médias da sociedade" - e não com um qualquer morgado bom administrador... - o explícito programa d' Os Fidalgos da Casa Mourisca - um "inconsciente" gosto pelo "fomento" - perdõe-se-me tanta aspa.
Talvez sem dar por isso, pequeno aristocrata de província, filho de desembargador, intérprete do mal-estar classe média citadina e rural, esmagada entre o povo e a aristocracia de corte que domina na administração e nos cargos palatinos, é, a um tempo, um homem dos grandes ressentimentos futuros quanto do passado que quis preservar.
Estado Novo avant la lettre?
sexta-feira, novembro 07, 2003
O Embaixador de Espanha mandou-nos trabalhar mais e reclamar menos - referia-se aos homens de negócio portugueses, mas adivinha-se a intenção generalizadora.
Na substância tem muita razão - mas não toda - na forma, comete uma grosseria, pior ainda, uma falta de caridade: a realidade e Portugal, dão-se mal, há muito tempo.
Ou dão-se bem - como suspeito - que isto é gente reformada do Império, como dizia o outro, do Império que fomos demasiadamente, por falta de que ser.
Não nos podem, por isso, obrigar a muito.
Paguem-nos a tença - com regularidade - e prometemos subsistir ordeiramente - por mofa e escárnio e desprezo.
Mas apenas isso.
Entretanto, por desfastio desta eternidade regrada e chata, expulse-se o Sr. Embaixador e invada-se Espanha.
Na substância tem muita razão - mas não toda - na forma, comete uma grosseria, pior ainda, uma falta de caridade: a realidade e Portugal, dão-se mal, há muito tempo.
Ou dão-se bem - como suspeito - que isto é gente reformada do Império, como dizia o outro, do Império que fomos demasiadamente, por falta de que ser.
Não nos podem, por isso, obrigar a muito.
Paguem-nos a tença - com regularidade - e prometemos subsistir ordeiramente - por mofa e escárnio e desprezo.
Mas apenas isso.
Entretanto, por desfastio desta eternidade regrada e chata, expulse-se o Sr. Embaixador e invada-se Espanha.
O Impensavel agradece
O Descrédito! indica o Impensavel na sua lista de blogs dados à reflexão - processo de intenções não isento de alguns perigos.
Fica o agradecimento, sincero.
O Descrédito! indica o Impensavel na sua lista de blogs dados à reflexão - processo de intenções não isento de alguns perigos.
Fica o agradecimento, sincero.
Um dia explicarei - explicar-me-ei - o motivo de conhecer mal a obra de Sophia de Mello Breyner.
Mas hoje, destino inteiro do dia dos seus anos, este poema.
Este é o tempo
Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)
Aqui.
Mas hoje, destino inteiro do dia dos seus anos, este poema.
Este é o tempo
Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Sophia de Mello Breyner
in Mar Novo (1958)
Aqui.
quinta-feira, novembro 06, 2003
No Mar Salgado, FNV fala sobre a desgraça que é a sinistralidade rodoviária em Portugal.
Defendo, sem hesitações, o agravamento imediato e substancial das punições, até às várias dezenas de milhares de euros, consoante os rendimentos de quem prevarica. Creio que a notícia de uma multa de 20 ou 30, 50 mil euros paga pelo Sr. X evitaria de imediato muitos acidentes. Assim fez a Finlândia - e os países nórdicos em geral - com notável sucesso. Lembro-me ainda de ler no jornal que um dos administradores da Nokia pagou 15 000 contos - sic - de multa por uma infracção cometida de bicicleta...
A Finlândia não tem analfabetos nem ileteracia.
Aqui, com analfabetos e gente que chega às faculdades incapaz de compreender o que lê, tenta-se a educação. Tente-se, também. Mas puna-se.
O resto é gastar cera com ruins defuntos.
Defendo, sem hesitações, o agravamento imediato e substancial das punições, até às várias dezenas de milhares de euros, consoante os rendimentos de quem prevarica. Creio que a notícia de uma multa de 20 ou 30, 50 mil euros paga pelo Sr. X evitaria de imediato muitos acidentes. Assim fez a Finlândia - e os países nórdicos em geral - com notável sucesso. Lembro-me ainda de ler no jornal que um dos administradores da Nokia pagou 15 000 contos - sic - de multa por uma infracção cometida de bicicleta...
A Finlândia não tem analfabetos nem ileteracia.
Aqui, com analfabetos e gente que chega às faculdades incapaz de compreender o que lê, tenta-se a educação. Tente-se, também. Mas puna-se.
O resto é gastar cera com ruins defuntos.
O Almocreve das Petas, umas das minhas mais diárias leituras, lembra que fez ontem anos que morreu Raul Brandão, uma das minhas descobertas tardias. Lembro-me de, em férias, comprar o Gomes Freire. Matilde de Melo, que, separada de seu marido, acompanha o General ao serviço do exército francês (?, mas tenho preguiça de ir tentar escobrir o livro...), pareceu-me digna de mais notícia.
Noutro registo, o episódio do coleccionador que teme pelos jarrões quando seu caixão descer as escadas e recomenda cuidado tem-me servido para aferir das verdadeiras vocações.
Um dia, contava este e outros episódios das "Memórias" e recomendaram-me muito cuidado no Raúl Brandão historiador. Já sabia: refere factos de que tive, quando em pequeno me contavam coisas velhas, versões muito diferentes e outros que, vistos à luz de um conhecimento mais pormenorizado ganham outros contornos - não averigua a idade do Marquês de Fronteira, o das memórias, que menciona como um dos subscritores da "manifestação" feita a Napoleão para pedir novo rei - e tinha 7 anos à data.
E Matilde de Melo?
Noutro registo, o episódio do coleccionador que teme pelos jarrões quando seu caixão descer as escadas e recomenda cuidado tem-me servido para aferir das verdadeiras vocações.
Um dia, contava este e outros episódios das "Memórias" e recomendaram-me muito cuidado no Raúl Brandão historiador. Já sabia: refere factos de que tive, quando em pequeno me contavam coisas velhas, versões muito diferentes e outros que, vistos à luz de um conhecimento mais pormenorizado ganham outros contornos - não averigua a idade do Marquês de Fronteira, o das memórias, que menciona como um dos subscritores da "manifestação" feita a Napoleão para pedir novo rei - e tinha 7 anos à data.
E Matilde de Melo?
quarta-feira, novembro 05, 2003
Ó LACRIMOSA
I
Ó lacrimosa, que, céu reprimido,
pesas sobre a paisagem da dor.
E quando choras, queda mansa de chuva oblíqua te sopra no areal do coração.
Ó carregada de lágrimas. Balança de todo o pranto! Que te não sentiste céu porque eras clara,
e tens de ser céu por amor das nuvens.
Quão nítido e quão próximo o teu país de dor se faz sob a severa unidade do céu! Como uma face devagar desperta no seu jazer,
que pensa horizontal ante a cósmica fundura
II
Nada mais que um hausto é o vácuo, e aquela verde plenitude das belas
árvores: um hausto!
Nós, que o hálito inda toca,
que ainda hoje toca, contamos
este vagaroso respirar da Terra
de que somos a pressa
III
Mas os invernos! Oh este secreto
recolhimento da Terra. Quando em volta dos mortos na pura recaída se reúne
a ousadia das seivas,
ousadia de futuras primaveras.
Quando a invenção acontece
sob a rigidez; quando o verde gasto
dos grandes verões
de novo se faz ideia nova
e espelho de pressentimento;
quando a cor das flores
esquece aquele demorar dos nossos olhos.
Rainer Maria Rilke
[Paris, Maio ou Junho de 1925.]
Trad. Prof. Paulo Quintela
I
Ó lacrimosa, que, céu reprimido,
pesas sobre a paisagem da dor.
E quando choras, queda mansa de chuva oblíqua te sopra no areal do coração.
Ó carregada de lágrimas. Balança de todo o pranto! Que te não sentiste céu porque eras clara,
e tens de ser céu por amor das nuvens.
Quão nítido e quão próximo o teu país de dor se faz sob a severa unidade do céu! Como uma face devagar desperta no seu jazer,
que pensa horizontal ante a cósmica fundura
II
Nada mais que um hausto é o vácuo, e aquela verde plenitude das belas
árvores: um hausto!
Nós, que o hálito inda toca,
que ainda hoje toca, contamos
este vagaroso respirar da Terra
de que somos a pressa
III
Mas os invernos! Oh este secreto
recolhimento da Terra. Quando em volta dos mortos na pura recaída se reúne
a ousadia das seivas,
ousadia de futuras primaveras.
Quando a invenção acontece
sob a rigidez; quando o verde gasto
dos grandes verões
de novo se faz ideia nova
e espelho de pressentimento;
quando a cor das flores
esquece aquele demorar dos nossos olhos.
Rainer Maria Rilke
[Paris, Maio ou Junho de 1925.]
Trad. Prof. Paulo Quintela
segunda-feira, novembro 03, 2003
Sacré-Coeur
Atente-se no capítulo V: Jacinto vexado, por alguns "desastres humilhadores" decide vencer as "resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos", uma terapêutica homeopática condenada ao fracasso
Os esforços jacintianos provocam em Zé Fernandes o pesadelo que culmina com a visão do Ancião da Eternidade que sobre todo o conhecimento lê Voltaire, o céptico, e sorria, talvez, da nova crença racionalista, apolínea e da ausência de um cepticismo.
E após o pesadelo, a paixão por essa estranha Mme. Colombe, com os seus cabelos imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, tal como, na Grécia, as bacantes cobertas de peles de animais, conhecida a afinidade de Dyonisos pelos animais selvagens - tigres em particular ( Mme. Colombe: ironia no nome ou uma ligação que me escapa. Há vários episódios que ligam Dyonisos a serpentes e pombas, bichos de afinidades eróticas conhecidas. Ou simplesmente, a duplicidade do citadino, do domado).
Passada a "sublime sordidez", Zé Fernandes purifica-se através de um episódio de embriaguez em que, muito visceralmente vomita Madame Colombe e se cura do acesso maníaco.
A tempo de salvar Jacinto, que morre dos tédios apolíneos: "Anulado, bocejava com descorçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso que este supremo homem do séc. XIX, no meio de todos os aparelhos reforçados dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos – estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver."
Zé Fernandes propõe, então, uma visita ao Sacré-Coeur.
Visita que quer fazer no interesse da sua (dele, Zé Fernandes) alma. O que é estranho, já que, lá chegado, não gosta da basílica, que não o interessa.
Só recentemente soube que o culto do sacré-coeur é um culto com origem no culto dionisíaco do coração, do coração que palpita (Marcel Détienne, “Dyonisos à ciel ouvert”). O bem da sua alma será restituir Jacinto à dele. E não é o Sacré-Coeur que salva, mas o caminho até lá.
Acompanhemo-los.
“E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas , galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canos - o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza das coisas. (....) E Jacinto murmurou, com agrado - É curioso.
Exclamação nova em Jacinto.
O que de facto, Zé Fernandes parece ter oferecido a Jacinto naquele caminho é uma nova "categoria epistemológica". Não é o campo que Jacinto encontra, o campo detestado e já conhecido enquanto categoria do conhecimento citadino ("P’ra o campo? O quê? P’ra o campo?!"), mas algo de novo, um "tertius genus" que une e integra o citadino e o "campestre". É esse "novo" que suscita a curiosidade jacíntica, o primeiro elemento a obrigar o príncipe da Grã- Ventura a marcar uma distância em relação ao que o cerca, em recriar a distância crítica em que Warburg veria anos mais tarde o acto civilizacional fundador.
E preparado Jacinto por este primeiro estremeção, criada essa distância Zé Fernandes pode fazer o seu excurso sobre a cidade, do alto do Sacré-Coeur um eloquente convite à liberdade e que, aliás, desmente soberanamente as singelezas de pobre homem das serras. Mas para quê disfarçar agora?
É no regresso do Sacré-Coeur que Jacinto desde há muito sente sede e que, encontrado um velho amigo, lhe apresenta Zé Fernandes com o seu sobrenome francês e "citadino": Fernandes Lorena.
Depois dessa jornada Jacinto é, pela segunda vez, um póstumo.
Atente-se no capítulo V: Jacinto vexado, por alguns "desastres humilhadores" decide vencer as "resistências finais da Matéria e da Força por novas e mais poderosas acumulações de Mecanismos", uma terapêutica homeopática condenada ao fracasso
Os esforços jacintianos provocam em Zé Fernandes o pesadelo que culmina com a visão do Ancião da Eternidade que sobre todo o conhecimento lê Voltaire, o céptico, e sorria, talvez, da nova crença racionalista, apolínea e da ausência de um cepticismo.
E após o pesadelo, a paixão por essa estranha Mme. Colombe, com os seus cabelos imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, tal como, na Grécia, as bacantes cobertas de peles de animais, conhecida a afinidade de Dyonisos pelos animais selvagens - tigres em particular ( Mme. Colombe: ironia no nome ou uma ligação que me escapa. Há vários episódios que ligam Dyonisos a serpentes e pombas, bichos de afinidades eróticas conhecidas. Ou simplesmente, a duplicidade do citadino, do domado).
Passada a "sublime sordidez", Zé Fernandes purifica-se através de um episódio de embriaguez em que, muito visceralmente vomita Madame Colombe e se cura do acesso maníaco.
A tempo de salvar Jacinto, que morre dos tédios apolíneos: "Anulado, bocejava com descorçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso que este supremo homem do séc. XIX, no meio de todos os aparelhos reforçados dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos – estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver."
Zé Fernandes propõe, então, uma visita ao Sacré-Coeur.
Visita que quer fazer no interesse da sua (dele, Zé Fernandes) alma. O que é estranho, já que, lá chegado, não gosta da basílica, que não o interessa.
Só recentemente soube que o culto do sacré-coeur é um culto com origem no culto dionisíaco do coração, do coração que palpita (Marcel Détienne, “Dyonisos à ciel ouvert”). O bem da sua alma será restituir Jacinto à dele. E não é o Sacré-Coeur que salva, mas o caminho até lá.
Acompanhemo-los.
“E por fim logo que começámos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e íngremes, de uma quietação de província, com muros velhos fechando quintalejos rústicos, mulheres despenteadas cosendo à soleira das portas, carriolas desatreladas descansando diante das tascas , galinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados secando em canos - o meu fastidioso camarada sorriu àquela liberdade e singeleza das coisas. (....) E Jacinto murmurou, com agrado - É curioso.
Exclamação nova em Jacinto.
O que de facto, Zé Fernandes parece ter oferecido a Jacinto naquele caminho é uma nova "categoria epistemológica". Não é o campo que Jacinto encontra, o campo detestado e já conhecido enquanto categoria do conhecimento citadino ("P’ra o campo? O quê? P’ra o campo?!"), mas algo de novo, um "tertius genus" que une e integra o citadino e o "campestre". É esse "novo" que suscita a curiosidade jacíntica, o primeiro elemento a obrigar o príncipe da Grã- Ventura a marcar uma distância em relação ao que o cerca, em recriar a distância crítica em que Warburg veria anos mais tarde o acto civilizacional fundador.
E preparado Jacinto por este primeiro estremeção, criada essa distância Zé Fernandes pode fazer o seu excurso sobre a cidade, do alto do Sacré-Coeur um eloquente convite à liberdade e que, aliás, desmente soberanamente as singelezas de pobre homem das serras. Mas para quê disfarçar agora?
É no regresso do Sacré-Coeur que Jacinto desde há muito sente sede e que, encontrado um velho amigo, lhe apresenta Zé Fernandes com o seu sobrenome francês e "citadino": Fernandes Lorena.
Depois dessa jornada Jacinto é, pela segunda vez, um póstumo.
domingo, novembro 02, 2003
O "who is who" na Cidade e as Serras.
Jacinto mais do que filho póstumo de portugueses emigrados, é o filho da boa ventura, que o fez nascer nos Campos Elíseos, em Paris, no coração da cidade e da civilização - onde se move, príncipe, limpo dos males da hereditariedade, e isento dos males e pequenas dores que afligem os humanos "desde o berço, onde avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a Sorte-Ruim, Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica d’um pinheiro das dunas. Não teve sarampo, não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim, entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. (...) Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade (...)
Mais: "Sem coração bastante forte para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só experimentou o mel". E "era servido pelas coisas com docilidade e carinho; - e não me recordo que jamais lhe estalásse um botão da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse a seus olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta pérfida emperrasse.
Isto é, mais do que bafejado pela boa sorte, Jacinto é, enquanto personagem (quase?) inverosímil, a corporização de um programa civilizacional apolíneo.
Ao invés, Zé Fernandes, é o homem que vem das serras - e este plural é... plural e tão mais significativo quanto na chegada a Tormes, no cântico panteísta que entoa, Fernandes não refere "serras" mas serra: "Aqui vimos, aqui vimos serra bendita".
Mas homem das serras, e tão das serras quanto se quer fazer crer?
Quando se apresenta, afirma ser sobrinho de Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande. Mas, depois, sempre omite o nome Lorena. Por uma única vez, mas num momento particularmente significativo, quando descem do Sacré-Coeur, Jacinto apresenta-o como "Zé Lorena".
Quem são estes Lorenas, os Lorenas que Zé Fernandes era?
Nada mais do que os príncipes de Lorraine, senhores soberanos, por vários séculos, de uma dessas pequenas nacionalidades medievais que o fim do feudalismo liquidou em benefício dos nascentes estados modernos. Reformados da soberania, os Lorena eram, no entanto, reinantes na Áustria (Habsburg-Lorraine) e em França senhores de várias grandes Casa do ancién régime, a que pertencia, entre outras, a dos Duques de Guise - que tinha dado à Escócia e depois, à França uma rainha, Maria Stuart e, mais tarde, ainda outra: Maria Antonieta.
Ou seja, Zé Fernandes, em Paris era um peculiar "serrano", parente da alta aristocracia francesa (parente, entre outras, da Condessa de Grefullhe que contribuiria para a Duquesa de Guermantes de Proust)
E Eça sabia bem isso: a sua Mulher era, ela própria uma Lorena, desses de que falo... Os Lorenas portugueses nascem de uma aliança de uma filha de Luís de Lorraine, príncipe de Lambesc com o 3º Duque de Cadaval. Descendente desse casamento, um bisavô de Dona Emília de Castro conservava o nome.
Isto tudo para dizer que se Zé Fernandes não mente, oculta. E que, mais do que o portuguesíssimo Jacinto, está em casa, em Paris, na cidade-civilização. Zé Fernandes viaja incógnito, "disfarçado" de português das serras. E, no 202 é o oculto anfitrião do seu anfitrião.
Ora, perito em disfarces e embustes, ocultar-se é um dos atributos de Dionísio.
Que a uma das oposições sobre a qual se constrói a Cidade e as Serras seja a apolínea-dionísiaca é algo que não escapa a Frank de Sousa e não escapou a outros. Talvez tenha passado despercebido, por desconhecimento das geneologias - que Eça conhecia - esse sobrenome da mais alta aristocracia francesa entre os do narrador que, impressionado, murmura "Caramba!" ante os requintes do filho de Cintinho e Teresa, o serrano Jacinto de coração fraco, não era obra do acaso.
Jacinto mais do que filho póstumo de portugueses emigrados, é o filho da boa ventura, que o fez nascer nos Campos Elíseos, em Paris, no coração da cidade e da civilização - onde se move, príncipe, limpo dos males da hereditariedade, e isento dos males e pequenas dores que afligem os humanos "desde o berço, onde avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a Sorte-Ruim, Jacinto medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica d’um pinheiro das dunas. Não teve sarampo, não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim, entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça. (...) Na idade em que se lê Balzac e Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade (...)
Mais: "Sem coração bastante forte para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o libertava, do amor só experimentou o mel". E "era servido pelas coisas com docilidade e carinho; - e não me recordo que jamais lhe estalásse um botão da camisa, ou que um papel maliciosamente se escondesse a seus olhos, ou que ante a sua vivacidade e pressa uma gaveta pérfida emperrasse.
Isto é, mais do que bafejado pela boa sorte, Jacinto é, enquanto personagem (quase?) inverosímil, a corporização de um programa civilizacional apolíneo.
Ao invés, Zé Fernandes, é o homem que vem das serras - e este plural é... plural e tão mais significativo quanto na chegada a Tormes, no cântico panteísta que entoa, Fernandes não refere "serras" mas serra: "Aqui vimos, aqui vimos serra bendita".
Mas homem das serras, e tão das serras quanto se quer fazer crer?
Quando se apresenta, afirma ser sobrinho de Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande. Mas, depois, sempre omite o nome Lorena. Por uma única vez, mas num momento particularmente significativo, quando descem do Sacré-Coeur, Jacinto apresenta-o como "Zé Lorena".
Quem são estes Lorenas, os Lorenas que Zé Fernandes era?
Nada mais do que os príncipes de Lorraine, senhores soberanos, por vários séculos, de uma dessas pequenas nacionalidades medievais que o fim do feudalismo liquidou em benefício dos nascentes estados modernos. Reformados da soberania, os Lorena eram, no entanto, reinantes na Áustria (Habsburg-Lorraine) e em França senhores de várias grandes Casa do ancién régime, a que pertencia, entre outras, a dos Duques de Guise - que tinha dado à Escócia e depois, à França uma rainha, Maria Stuart e, mais tarde, ainda outra: Maria Antonieta.
Ou seja, Zé Fernandes, em Paris era um peculiar "serrano", parente da alta aristocracia francesa (parente, entre outras, da Condessa de Grefullhe que contribuiria para a Duquesa de Guermantes de Proust)
E Eça sabia bem isso: a sua Mulher era, ela própria uma Lorena, desses de que falo... Os Lorenas portugueses nascem de uma aliança de uma filha de Luís de Lorraine, príncipe de Lambesc com o 3º Duque de Cadaval. Descendente desse casamento, um bisavô de Dona Emília de Castro conservava o nome.
Isto tudo para dizer que se Zé Fernandes não mente, oculta. E que, mais do que o portuguesíssimo Jacinto, está em casa, em Paris, na cidade-civilização. Zé Fernandes viaja incógnito, "disfarçado" de português das serras. E, no 202 é o oculto anfitrião do seu anfitrião.
Ora, perito em disfarces e embustes, ocultar-se é um dos atributos de Dionísio.
Que a uma das oposições sobre a qual se constrói a Cidade e as Serras seja a apolínea-dionísiaca é algo que não escapa a Frank de Sousa e não escapou a outros. Talvez tenha passado despercebido, por desconhecimento das geneologias - que Eça conhecia - esse sobrenome da mais alta aristocracia francesa entre os do narrador que, impressionado, murmura "Caramba!" ante os requintes do filho de Cintinho e Teresa, o serrano Jacinto de coração fraco, não era obra do acaso.
Li agora no Causidicus que o IPPAR não se retracta no episódio Harry Potter.
O Impensavel tinha-se perguntado, no passado Domingo, dia 26, se seria alguém demitido. De facto, a pergunta era mera retórica: para que alguém fosse demitido - ou por qualquer modo responsabilizado - seria necessário que o que se passou fosse percebido como indigno e afrontoso, mesmo que tardiamente, por quem tem a responsabilidade do Panteão Nacional ou neles manda.
O que, cá por coisas, me pareceu tarefa difícil.
E hoje, para os católicos, dia de Fiéis Defuntos - e foram católicos quase todos os que lá estão - naquele cemitério haverá, talvez, os habituais espectáculos de fantoches para a garotada.
Está aqui.
O Impensavel tinha-se perguntado, no passado Domingo, dia 26, se seria alguém demitido. De facto, a pergunta era mera retórica: para que alguém fosse demitido - ou por qualquer modo responsabilizado - seria necessário que o que se passou fosse percebido como indigno e afrontoso, mesmo que tardiamente, por quem tem a responsabilidade do Panteão Nacional ou neles manda.
O que, cá por coisas, me pareceu tarefa difícil.
E hoje, para os católicos, dia de Fiéis Defuntos - e foram católicos quase todos os que lá estão - naquele cemitério haverá, talvez, os habituais espectáculos de fantoches para a garotada.
Está aqui.
sexta-feira, outubro 31, 2003
Ilustre-se o dito no blog anterior.
O narrador, Zé Fernandes, começa por falar no avô de Jacinto, mas em meia dúzia de parágrafos, aliás, quatro, "resolve" toda uma geração (mantenho a ortografia, a da edição que existia e de que gosto mais do que a actual):
" E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sêdas se enconchou, descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma lampreia d' escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma.
- Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta a boa agua d' Alcolena . .. O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O 'Cinthinho crescêra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202 ; e os criados na copa sempre lhe chamavam a Sombra. N'essa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno; depois, mais tarde, com a melada flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava; dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tepidas areias d' Arcachon.
'Cinthinho, porém, no seu afêrro de sombra, não se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Tres meses e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.”
A morte do pai de Jachinto e antes os seus amores, o seu casamento e a apresentação da mãe de Jacintho - de notar a estranha vocação - são apresentadas quase como meras justificações da permanência da família no 202, fecha a introdução e ainda no mesmo parágrafo apresenta-nos o tema: um "meu Jachinto" desambaraçado de progenitores, de que o narrador se irá ocupar.
O narrador, Zé Fernandes, começa por falar no avô de Jacinto, mas em meia dúzia de parágrafos, aliás, quatro, "resolve" toda uma geração (mantenho a ortografia, a da edição que existia e de que gosto mais do que a actual):
" E sob o pesado ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sêdas se enconchou, descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa, com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma lampreia d' escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os amigos pensavam que a snr.a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe comprehendiam os escrupulos e a asthma.
- Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta a boa agua d' Alcolena . .. O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O 'Cinthinho crescêra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202 ; e os criados na copa sempre lhe chamavam a Sombra. N'essa sua mudez e indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo de tornear madeiras ao torno; depois, mais tarde, com a melada flôr dos seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo, pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rola, educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava; dourava, concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851, quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o 'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o golfo Juan ou para as tepidas areias d' Arcachon.
'Cinthinho, porém, no seu afêrro de sombra, não se quiz arredar da Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardonha sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Tres meses e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.”
A morte do pai de Jachinto e antes os seus amores, o seu casamento e a apresentação da mãe de Jacintho - de notar a estranha vocação - são apresentadas quase como meras justificações da permanência da família no 202, fecha a introdução e ainda no mesmo parágrafo apresenta-nos o tema: um "meu Jachinto" desambaraçado de progenitores, de que o narrador se irá ocupar.
A semana atarefada e a Cidade e as Serras em segundo plano...
Lamento-me - ocupação em que gasto algumas horas que, de outro modo, seriam de puro aborrecimento.
Mas o Jacinto... Melhor, a mãe dele: creio que Eça, pura e simplesmente se esqueceu dela...
O pai, o Cintinho, morre meses antes de ele nascer. Da mãe, fora o necessário para a situar na comunidade miguelista emigrada em Paris, nem uma palavra. Nem sequer morre, o termo mais indicado para descrever a sua sorte parece-me ser o utilizado na pintura novecentista para os longes do céu e do tempo: azula.
É a avó D. Angelina, não a mãe de Jacinto, a figura tutelar do 202. É a ela que cabe a decisão, motivada pelos achaques da idade, de não voltar a Portugal. Talvez aqui resida um motivo para Teresinha azular, mas no lo creo.
Seja como for e por que motivo for, Jacinto é o mais póstumo dos heróis ecianos.
(Está um temporal desfeito, capaz de fazer esvoaçar telhas... Vou para a cama. Uhm.. parece-me que Pinho Leal refere, por diversas vezes, grandes temporais em Outubro. Outras vezes, porém, é um mês calmo e pacífico. Vá-se lá saber...)
Lamento-me - ocupação em que gasto algumas horas que, de outro modo, seriam de puro aborrecimento.
Mas o Jacinto... Melhor, a mãe dele: creio que Eça, pura e simplesmente se esqueceu dela...
O pai, o Cintinho, morre meses antes de ele nascer. Da mãe, fora o necessário para a situar na comunidade miguelista emigrada em Paris, nem uma palavra. Nem sequer morre, o termo mais indicado para descrever a sua sorte parece-me ser o utilizado na pintura novecentista para os longes do céu e do tempo: azula.
É a avó D. Angelina, não a mãe de Jacinto, a figura tutelar do 202. É a ela que cabe a decisão, motivada pelos achaques da idade, de não voltar a Portugal. Talvez aqui resida um motivo para Teresinha azular, mas no lo creo.
Seja como for e por que motivo for, Jacinto é o mais póstumo dos heróis ecianos.
(Está um temporal desfeito, capaz de fazer esvoaçar telhas... Vou para a cama. Uhm.. parece-me que Pinho Leal refere, por diversas vezes, grandes temporais em Outubro. Outras vezes, porém, é um mês calmo e pacífico. Vá-se lá saber...)
quarta-feira, outubro 29, 2003
O Anarcoconservador, um novo blog amável, dos meus lados, linkou o Impensavel. Agradece-se, cumprimenta-se, retribui-se.
Ou assim como assim, escrevia no post anterior. O certo é que a emersão até à profundidade pode ser pode ser plácida, serena. De onde o "escalar", a persistência no esforço, na dolorosidade? Pfff....
Criei uma relação de necessidade que não é verdadeira: o último parágrafo é falso.
Que Camilo gritou sempre onde lhe doía parece-me uma verdade. Mas pode ser uma verdade de método.
Criei uma relação de necessidade que não é verdadeira: o último parágrafo é falso.
Que Camilo gritou sempre onde lhe doía parece-me uma verdade. Mas pode ser uma verdade de método.
O caminho mesmo do dizer não é ermo, a ruína não pode ser fruída sem o incómodo de muitas respirações.
E mesmo assim sucumbe-se, e ao relato, insiste-se.
Caberia antes calar, a escrita não nos cura de estarmos aqui dentro, le plus profond c’est la peau - Valéry - e acabar-se de vez com essa desajeitada tentativa de nos palpar por fora...
Ou, assim como assim, antes dizermos onde nos dói e sem escrúpulos e sem contenção, sem tentativas de avessos, escalar os capilares.
A desoras e a propósito de Camilo.
E mesmo assim sucumbe-se, e ao relato, insiste-se.
Caberia antes calar, a escrita não nos cura de estarmos aqui dentro, le plus profond c’est la peau - Valéry - e acabar-se de vez com essa desajeitada tentativa de nos palpar por fora...
Ou, assim como assim, antes dizermos onde nos dói e sem escrúpulos e sem contenção, sem tentativas de avessos, escalar os capilares.
A desoras e a propósito de Camilo.
terça-feira, outubro 28, 2003
O Almocreve das Petas, com Cesariny em epígrafe, dedicou-se à collage, Sexta-feira passada.
Um dos fragmentos usados foi uma frase do Impensavel, que agradece.
Um dos fragmentos usados foi uma frase do Impensavel, que agradece.
domingo, outubro 26, 2003
sábado, outubro 25, 2003
Há tempos lia umas memórias - poderiam chamar-se de uma menina bem comportada de província, tão placidamente relatam quotiadanos que, para o leitor de hoje, são pura arqueologia.
Nelas descreve o serviço de jantar de "todos os dias" da sua infância, com a representação do episódio de D. Fuas Roupinho.
Também, na minha casa da praia, havia esse "serviço de todos os dias" "cavalinho" da Fábrica de Sacavém, como agora sei que se chama e, igualmente, julguei que o cavaleiro era o miraculado da Nazaré. Um dia perguntei, riram-se - amavelmente, embora - e explicaram-me que não, que reparasse, era uma estátua equestre, entre ruínas num jardim, como havia nos jardins e parques antigos.
Eu, que tantas vezes pedira ao cavaleiro, que também, julgava um santo - por ter sido salvo do demónio - fizesse desaparecer o restos de fígado, de peixe, da clara do ovo estrelado, tive um dos meus primeiros e mais acerbos desgostos de fé, os que ferem a absoluta capacidade, não de crer, mas de crer que Tudo em todas as coisas está, benfajezamente.
Sarei essa ferida, mas o tecido cicatricial, delicado e transparente, a pele nova e rósea, foi o da desilusão.
Esclareci, um dia, a Autora das memórias que não era, não era D. Fuas, mas um motivo de inspiração quase seguramente inglesa.
Ça va sans dire: herético.
Nelas descreve o serviço de jantar de "todos os dias" da sua infância, com a representação do episódio de D. Fuas Roupinho.
Também, na minha casa da praia, havia esse "serviço de todos os dias" "cavalinho" da Fábrica de Sacavém, como agora sei que se chama e, igualmente, julguei que o cavaleiro era o miraculado da Nazaré. Um dia perguntei, riram-se - amavelmente, embora - e explicaram-me que não, que reparasse, era uma estátua equestre, entre ruínas num jardim, como havia nos jardins e parques antigos.
Eu, que tantas vezes pedira ao cavaleiro, que também, julgava um santo - por ter sido salvo do demónio - fizesse desaparecer o restos de fígado, de peixe, da clara do ovo estrelado, tive um dos meus primeiros e mais acerbos desgostos de fé, os que ferem a absoluta capacidade, não de crer, mas de crer que Tudo em todas as coisas está, benfajezamente.
Sarei essa ferida, mas o tecido cicatricial, delicado e transparente, a pele nova e rósea, foi o da desilusão.
Esclareci, um dia, a Autora das memórias que não era, não era D. Fuas, mas um motivo de inspiração quase seguramente inglesa.
Ça va sans dire: herético.
quarta-feira, outubro 22, 2003
A Leitura Partilhada agendou a leitura partilhada d'A Cidade e as Serras,
Com a menção ao livro de Frank de Sousa, como ante-leitura.
Sei que há eciólogos recentes que se têm ocupado deste romance, porém, não conheço os trabalhos.
Uma pequena bibliografia passiva aqui.
Uma das obras mais fundamentais é "Língua e Estilo de Eça de Queirós" estude-se Guerra da Cal, na edição da Almedina, um dos livros mais fundamentais. Há, disponível, aqui
O autor que me fez descobrir um Eça muito para além do que conhecia através das sebentas de liceu - mesmo das boas - e principalmente o último Eça, foi João Medina, com o seu "Eça político".
Para ter uma noção "actualizada" de Eça, aconselho a biografia do Escritor por Maria Filomena Mónica - escrita já depois da publicação da correspondência trocada entre Eça e sua Mulher, Dona Emília de Castro com o que muito ganha a devolução de um Eça desentulhado, como escreveu alguém ( a própria MFM? estou com preguiça ir ver...) das visões marcadamente ideológicas dos dois últimos séculos ou mesmo de antipatias e simpatias pessoais.
Tudo isto se lê, numa primeira leitura, em três tardes e "depois de jantares".
Com a menção ao livro de Frank de Sousa, como ante-leitura.
Sei que há eciólogos recentes que se têm ocupado deste romance, porém, não conheço os trabalhos.
Uma pequena bibliografia passiva aqui.
Uma das obras mais fundamentais é "Língua e Estilo de Eça de Queirós" estude-se Guerra da Cal, na edição da Almedina, um dos livros mais fundamentais. Há, disponível, aqui
O autor que me fez descobrir um Eça muito para além do que conhecia através das sebentas de liceu - mesmo das boas - e principalmente o último Eça, foi João Medina, com o seu "Eça político".
Para ter uma noção "actualizada" de Eça, aconselho a biografia do Escritor por Maria Filomena Mónica - escrita já depois da publicação da correspondência trocada entre Eça e sua Mulher, Dona Emília de Castro com o que muito ganha a devolução de um Eça desentulhado, como escreveu alguém ( a própria MFM? estou com preguiça ir ver...) das visões marcadamente ideológicas dos dois últimos séculos ou mesmo de antipatias e simpatias pessoais.
Tudo isto se lê, numa primeira leitura, em três tardes e "depois de jantares".
No Gloucestershire, vi na televisão, grupos de pessoas com coletes de sinalização verde-alface vêem a cores do Outono, na floresta. Surpreendi tiques de vernissage: ares compenetrados, buscas de distância de leitura - o que tomei por isso - pequenos ajuntamentos de connaisseurs.
Ao longe, gente entre as árvores, uma instalação.
Aqui, sem cores de floresta, ventania e chuvadas e bonanças dormentes que padeço quietamente.
Ao longe, gente entre as árvores, uma instalação.
Aqui, sem cores de floresta, ventania e chuvadas e bonanças dormentes que padeço quietamente.
sábado, outubro 18, 2003
sexta-feira, outubro 17, 2003
Esta coisa de quererem que Portugal tenha a hora do meridiano de Berlim, questão que o governo quis inventar (certamente por lhe faltarem outras em que ocupe o seu génio resolvedor) é profundamente ofensiva, é uma imperdoável falta de respeito, sem qualquer justificação.
Metam-se cunhas uns aos outros, demitam-se todos ou, ficando, decretem as suspeitas coisas habituais, mas deixem-nos em paz, não macem, não aborreçam.
O meu voto já lá vai, airoso, para os nulos/brancos. Não, não são vocemecês. São os propriamente ditos, os do desleixo, inépcia, analfabetismo e asco. Muito asco.
Passem bem.
Metam-se cunhas uns aos outros, demitam-se todos ou, ficando, decretem as suspeitas coisas habituais, mas deixem-nos em paz, não macem, não aborreçam.
O meu voto já lá vai, airoso, para os nulos/brancos. Não, não são vocemecês. São os propriamente ditos, os do desleixo, inépcia, analfabetismo e asco. Muito asco.
Passem bem.
Ontem, aludi a um post do Textos de Contracapa e disso avisei o Autor do blog, por mail.
Hoje, ao ver o correio, encontrei um mail sucinto e cortês, agradecendo.
Assim me ensinaram, também, que se fazia, que todas as cartas tinham resposta.
Infelizmente, este mail foi um caso único - ou quase.
É o subdesenvolvimento da polidez... tão grave, entre nós, quanto qualquer outro.
(Mas não desesperemos).
Hoje, ao ver o correio, encontrei um mail sucinto e cortês, agradecendo.
Assim me ensinaram, também, que se fazia, que todas as cartas tinham resposta.
Infelizmente, este mail foi um caso único - ou quase.
É o subdesenvolvimento da polidez... tão grave, entre nós, quanto qualquer outro.
(Mas não desesperemos).
quinta-feira, outubro 16, 2003
Leio a interrogação no Textos de Contracapa: "Afinal que país real conhecem a eles, que ideia têm a nosso respeito (...)?"
A resposta parece-me evidente e é cruel: eles são o país real... e, quando e quanto por eles nos pensam, não erram muito: o que lhes escapa, aquém e além, é pouco.
Os protestos que agora ouvimos e em que comungamos são a expressão de uma inevitável - e desprezivel - margem de erro, um desvio estatístico, uma imprecisão, meia dúzia de inquietações.
Que aí se inscreva, desde o séc. XIX, a malaise do ser português, que é, no seu melhor, o sentimento de uma derrota, eis a questão triste.
Por mim, perdõe-se-me o egoísmo e a ambição, finjo que estou cá de férias e dou-me por feliz quando encontro comensais para jantar agradavelmente. E como sigo a medida de Lucullus - não menos que as Graças, não mais que as Musas, não me queixo em demasia.
A resposta parece-me evidente e é cruel: eles são o país real... e, quando e quanto por eles nos pensam, não erram muito: o que lhes escapa, aquém e além, é pouco.
Os protestos que agora ouvimos e em que comungamos são a expressão de uma inevitável - e desprezivel - margem de erro, um desvio estatístico, uma imprecisão, meia dúzia de inquietações.
Que aí se inscreva, desde o séc. XIX, a malaise do ser português, que é, no seu melhor, o sentimento de uma derrota, eis a questão triste.
Por mim, perdõe-se-me o egoísmo e a ambição, finjo que estou cá de férias e dou-me por feliz quando encontro comensais para jantar agradavelmente. E como sigo a medida de Lucullus - não menos que as Graças, não mais que as Musas, não me queixo em demasia.
Cito de memória: "Os portugueses têm o sentido do luxo e da pompa, mas não o da dignidade"
A frase é da Rainha Dona Estefânia, numa carta a sua Mãe, e creio que a li nas "Cartas de D. Pedro V ao Conde do Lavradio", que Ruben A. coligiu e apresentou.
Perdidas as pompas - as pompas, aliás magras, da monarquia constitucional, perdido o luxo - o genuíno, o das atitudes - o que nos resta?
José Hermano Saraiva classificava, há tempos, na televisão, a actual 3ª república como a da pequena burguesia. Na altura, achei a classificação pessimista, inadequada por acanhada. Hoje vou-a tomando como um elogio e já imerecido, por excessivo.
A frase é da Rainha Dona Estefânia, numa carta a sua Mãe, e creio que a li nas "Cartas de D. Pedro V ao Conde do Lavradio", que Ruben A. coligiu e apresentou.
Perdidas as pompas - as pompas, aliás magras, da monarquia constitucional, perdido o luxo - o genuíno, o das atitudes - o que nos resta?
José Hermano Saraiva classificava, há tempos, na televisão, a actual 3ª república como a da pequena burguesia. Na altura, achei a classificação pessimista, inadequada por acanhada. Hoje vou-a tomando como um elogio e já imerecido, por excessivo.
quarta-feira, outubro 15, 2003
Bragança, a Time e o Governo
Se Bragança tem as meninas - como era, de há muito, público e notório - se a Time não mentiu, o Governo ofende-se com o quê?
Com o habitual... com a realidade, ou melhor, com a realidade em "letra de forma", com a publicitação, com a divulgação.
Ou seja, moral de bordel... Regista-se a coerência...
Se Bragança tem as meninas - como era, de há muito, público e notório - se a Time não mentiu, o Governo ofende-se com o quê?
Com o habitual... com a realidade, ou melhor, com a realidade em "letra de forma", com a publicitação, com a divulgação.
Ou seja, moral de bordel... Regista-se a coerência...
terça-feira, outubro 14, 2003
Caducidade
Areia movediça das horas. Silente e contínuo escoar-se
mesmo do edifício felizmente sagrado.
A vida sopra sempre. Já sem ligação ressaltam
as colunas ociosas, sem carga
Mas o decair: é ele mais triste que o regresso
da fonte ao espelho que ela de brilho empoa?
Mantenhamo-nos entre os dentes do mutável,
que de todo nos tome na fronte contemplativa
Rainer Maria Rilke, Muzot, fins de Fevereiro de 1924
Trad. de Prof. Paulo Quintela
Ed. Asa
Areia movediça das horas. Silente e contínuo escoar-se
mesmo do edifício felizmente sagrado.
A vida sopra sempre. Já sem ligação ressaltam
as colunas ociosas, sem carga
Mas o decair: é ele mais triste que o regresso
da fonte ao espelho que ela de brilho empoa?
Mantenhamo-nos entre os dentes do mutável,
que de todo nos tome na fronte contemplativa
Rainer Maria Rilke, Muzot, fins de Fevereiro de 1924
Trad. de Prof. Paulo Quintela
Ed. Asa
segunda-feira, outubro 13, 2003
Reli, este fim-de-semana, algumas cartas da correspondência entre Eça e sua Mulher, Dona Emília de Castro.
Numa das últimas que escreve, da Suíça, dias antes de morrer, treze dias antes de morrer, pergunta-se com inquietação, como pode ter sossego e, por isso saúde, com as constantes inquietações de dinheiro.
Poderia ter acrescentado, mesquinhas preocupações, de uma vida de classe média pacata que era a sua.
E Eça de Queiróz era o maior escritor português vivo - continua a sê-lo, aliás - um colaborador assíduo em jornais portugueses e brasileiros, um diplomata de carreira com um cargo de responsabilidade e prestígio.
Hoje, a gente abre o jornal, lê uma coluna assinada por um anónimo e lá vem aquela prosa ressumando elegâncias caras de habitué das grandezas do mundo, em que se fala de Paris, de Roma, de Londres ou de Nova York com o à-vontade com que eu falo das minhas idas às cinco freguesias circunvizinhas.
Mas o que me aborrece mais, confesso, é a ausência de espanto, ou de desilusão, um e outra sintomas certeiros do principiante. Eu bem procuro, mas em vão: aquela prosa dir-se-ia que veio ao mundo rabiscada nos papéis de carta do Waldorf-Astoria, do Ritz, do Savoy, senhora de si, quase indiferente, blaisée.
Amuo. Amuo duplamente: por verificar quão tão longe estou desses usos de mundo e por cair no ressentimento castiço contra o estrangeirado, tradição ressentida em que me não reconhecia.
Apodá-los de provincianos nesses avessos de provincianismo como Pessoa fez a Eça? Seria fácil - e errado.
Dediquei-me a ler algumas coisas que publicavam. E aí... pelos contos, romancinhos, poemas, logo se descobre, às vezes melhor, outras pior escondido, um contentamento inteiro e imenso onde tudo submerge.
Eu não creio na infelicidade ou na miséria, mesmo as de mera convenção, como ponto de origem privilegiado da criação artística, mas narradores, autores implícitos e respectivos familiares - que os há - toda aquela gente se celebra em demasia. Não são provincianos, são parvenus e da alegria, da surpresa da chegada a um lugar ao sol bem pago se fazem, com poucas excepções, as letras actuais.
Prefiro o côté "história trágico-marítima".
Numa das últimas que escreve, da Suíça, dias antes de morrer, treze dias antes de morrer, pergunta-se com inquietação, como pode ter sossego e, por isso saúde, com as constantes inquietações de dinheiro.
Poderia ter acrescentado, mesquinhas preocupações, de uma vida de classe média pacata que era a sua.
E Eça de Queiróz era o maior escritor português vivo - continua a sê-lo, aliás - um colaborador assíduo em jornais portugueses e brasileiros, um diplomata de carreira com um cargo de responsabilidade e prestígio.
Hoje, a gente abre o jornal, lê uma coluna assinada por um anónimo e lá vem aquela prosa ressumando elegâncias caras de habitué das grandezas do mundo, em que se fala de Paris, de Roma, de Londres ou de Nova York com o à-vontade com que eu falo das minhas idas às cinco freguesias circunvizinhas.
Mas o que me aborrece mais, confesso, é a ausência de espanto, ou de desilusão, um e outra sintomas certeiros do principiante. Eu bem procuro, mas em vão: aquela prosa dir-se-ia que veio ao mundo rabiscada nos papéis de carta do Waldorf-Astoria, do Ritz, do Savoy, senhora de si, quase indiferente, blaisée.
Amuo. Amuo duplamente: por verificar quão tão longe estou desses usos de mundo e por cair no ressentimento castiço contra o estrangeirado, tradição ressentida em que me não reconhecia.
Apodá-los de provincianos nesses avessos de provincianismo como Pessoa fez a Eça? Seria fácil - e errado.
Dediquei-me a ler algumas coisas que publicavam. E aí... pelos contos, romancinhos, poemas, logo se descobre, às vezes melhor, outras pior escondido, um contentamento inteiro e imenso onde tudo submerge.
Eu não creio na infelicidade ou na miséria, mesmo as de mera convenção, como ponto de origem privilegiado da criação artística, mas narradores, autores implícitos e respectivos familiares - que os há - toda aquela gente se celebra em demasia. Não são provincianos, são parvenus e da alegria, da surpresa da chegada a um lugar ao sol bem pago se fazem, com poucas excepções, as letras actuais.
Prefiro o côté "história trágico-marítima".
domingo, outubro 12, 2003
Outono
Ó árvore alta do olhar, a desfolhar:
agora é estar à altura do furor
de excesso de céu que os ramos lhe atravessa.
Cheia de verão, parecia funda e espessa,
fronte quase a nos pensar, familiar.
Do céu agora estrada o interior
se lhe faz. E o céu talvez não nos conheça
Ousado extremo: que nós em voo de ave
nos lancemos no novo aberto espaço
que se nos nega e ao nosso ardente anelo,
pois só lida com mundos. Do nosso ourelo
as ondas-sentimentos relação suave
buscam, e consolam-se no abraço
do ar, como bandeiras, no aberto em flor -
..............................................................
Mas pra a árvore copada vai saudade e amor
Rainer Maria Rilke, Muzot, fins de Outubro de 1924
trad. Paulo Quintela
Ó árvore alta do olhar, a desfolhar:
agora é estar à altura do furor
de excesso de céu que os ramos lhe atravessa.
Cheia de verão, parecia funda e espessa,
fronte quase a nos pensar, familiar.
Do céu agora estrada o interior
se lhe faz. E o céu talvez não nos conheça
Ousado extremo: que nós em voo de ave
nos lancemos no novo aberto espaço
que se nos nega e ao nosso ardente anelo,
pois só lida com mundos. Do nosso ourelo
as ondas-sentimentos relação suave
buscam, e consolam-se no abraço
do ar, como bandeiras, no aberto em flor -
..............................................................
Mas pra a árvore copada vai saudade e amor
Rainer Maria Rilke, Muzot, fins de Outubro de 1924
trad. Paulo Quintela
sábado, outubro 11, 2003
Relembro a inquietação - lida ou ouvida já há uns anos atrás - de um intelectual francês em relação à web: qualquer pessoa poderia publicar qualquer coisa, sem o policiamento, a intervenção de um conselho redactorial.
O problema é, aliás, menos perverso do que à primeira vista parece e hoje relembro a advertência apenas pelo pitoresco do injustificado, como lembramos os medos suscitados pelo caminho de ferro, ou pelo telefone quando foram inventados.
O problema é, aliás, menos perverso do que à primeira vista parece e hoje relembro a advertência apenas pelo pitoresco do injustificado, como lembramos os medos suscitados pelo caminho de ferro, ou pelo telefone quando foram inventados.
Soube, pelo Aviz, do projecto do Leitura partilhada.
Um dos próximos livros, depois de Ulysses, é a RTP.
Pobre Eça esquecido, de quem Bloom, o divulgador incómodo, diz estar próximo, nos seus últimos escritos, da escrita proustiana. Está? Não está? Não querem falar sobre isso?
É uma mera sugestão.
Um dos próximos livros, depois de Ulysses, é a RTP.
Pobre Eça esquecido, de quem Bloom, o divulgador incómodo, diz estar próximo, nos seus últimos escritos, da escrita proustiana. Está? Não está? Não querem falar sobre isso?
É uma mera sugestão.
Referendo
O medo que toda a gente tem do referendo...
Dos bem aos mal-intencionados, teme-se que o povo não "compreenda", que vote "mal". E depois, perguntam-se como seria, se o "não" ganhasse, "ficar à margem da "Europa", e mais profundas questões.
Do referendo podem advir consequências graves para Portugal? Poderão (e, em qualquer dos casos, ganhe o "sim" ou o "não"....)!
Mas escolher o povo o seu destino, optar entre várias caminhos, não é isso a democracia?
Ou o futuro está quase pré-traçado, e é uma questão "técnica" chegar lá?
Se é assim, agradece-se a exposição do método que permite discernir esse futuro, para que não se atrapalhe parusias, com o nosso dessaber.
Por enquanto, não iniciado nos mistérios, lobrigo apenas, a arrogância de um nacionalismo francês de má "cuvée", e algumas ameaças torpes feitas a nações europeias.
O medo que toda a gente tem do referendo...
Dos bem aos mal-intencionados, teme-se que o povo não "compreenda", que vote "mal". E depois, perguntam-se como seria, se o "não" ganhasse, "ficar à margem da "Europa", e mais profundas questões.
Do referendo podem advir consequências graves para Portugal? Poderão (e, em qualquer dos casos, ganhe o "sim" ou o "não"....)!
Mas escolher o povo o seu destino, optar entre várias caminhos, não é isso a democracia?
Ou o futuro está quase pré-traçado, e é uma questão "técnica" chegar lá?
Se é assim, agradece-se a exposição do método que permite discernir esse futuro, para que não se atrapalhe parusias, com o nosso dessaber.
Por enquanto, não iniciado nos mistérios, lobrigo apenas, a arrogância de um nacionalismo francês de má "cuvée", e algumas ameaças torpes feitas a nações europeias.
sexta-feira, outubro 10, 2003
Linguas mortas
Das Mémoires do Cardinal de Bernis, a conversa entre o jovem Bernis e o Cardinal de Fleury:
"
Je vis vers la fin de ma harangue que le front du Cardinal s'obscurcissait; il m'interrompit avec humeur, et me dit avec dureté: «Oh monsieur, tant que je vivrai, vous n'aurez point de bénefices. - Eh bien, Monseigneur, j'attendrai», répondis-je, en lui faisant une profonde réverance.
J'apercus, en me retirant, que le Cardinal avait trouvé le mot bon: ce fut lui qui le divulga. Et toute la bonne compagnie de la cour et de la ville l'accueillit avec applaudissement. On trouva ce mot simple, noble, courageaux et décent. Il blessait un veillard et le désarmait en même temps. Ce mot fit la plus grand fortune. Tout le monde en voulut connaître l'auteur; on était curieux de voir un jeune homme qui avait osé donner un coup de patte à un ministre absolu. Ce mot, qui est resté célèbre, m'a paru cadrer si bien avec les événements de ma vie, que je l'ai pris pour divise, et je dis aujourd'hui comme em 1742: J´attendrai.
Au reste, le Cardinal ne me fit pas attendre longtemps: il mourut en 1743."
Das Mémoires do Cardinal de Bernis, a conversa entre o jovem Bernis e o Cardinal de Fleury:
"
Je vis vers la fin de ma harangue que le front du Cardinal s'obscurcissait; il m'interrompit avec humeur, et me dit avec dureté: «Oh monsieur, tant que je vivrai, vous n'aurez point de bénefices. - Eh bien, Monseigneur, j'attendrai», répondis-je, en lui faisant une profonde réverance.
J'apercus, en me retirant, que le Cardinal avait trouvé le mot bon: ce fut lui qui le divulga. Et toute la bonne compagnie de la cour et de la ville l'accueillit avec applaudissement. On trouva ce mot simple, noble, courageaux et décent. Il blessait un veillard et le désarmait en même temps. Ce mot fit la plus grand fortune. Tout le monde en voulut connaître l'auteur; on était curieux de voir un jeune homme qui avait osé donner un coup de patte à un ministre absolu. Ce mot, qui est resté célèbre, m'a paru cadrer si bien avec les événements de ma vie, que je l'ai pris pour divise, et je dis aujourd'hui comme em 1742: J´attendrai.
Au reste, le Cardinal ne me fit pas attendre longtemps: il mourut en 1743."
quinta-feira, outubro 09, 2003
Algazarra tremenda de "estudantes" e agora que acabou estou eu sem sono, irritado, a digerir a minha fúria quase homicida. Logo, às nove horas, tenho de estar fresco - não vou estar - tenho de dar o meu melhor - on verra - que o café me ajude.
Aproveitei e acabei de ler o "Dyonisos à ciel ouvert" do Marcel Detienne, sete páginas que ontem o sono - ontem tinha sono... - não me deixara acabar de ler.
Ante de voltar a por na estante o Emily Dickinson, reli o "Oh Shadow on the Grass!/Are thou a Step or not?"
Os Lares Viales protegem os passos dos viandantes, mas a sombra indecisa do que será quem a protege?
O sono chega - melhor, regressa - enfim.
Aproveitei e acabei de ler o "Dyonisos à ciel ouvert" do Marcel Detienne, sete páginas que ontem o sono - ontem tinha sono... - não me deixara acabar de ler.
Ante de voltar a por na estante o Emily Dickinson, reli o "Oh Shadow on the Grass!/Are thou a Step or not?"
Os Lares Viales protegem os passos dos viandantes, mas a sombra indecisa do que será quem a protege?
O sono chega - melhor, regressa - enfim.
quarta-feira, outubro 08, 2003
Começo a delinear os livros deste Outono.
Para Novembro, "O monte dos Vendavais", relembrar o narrador que sabe, porque doente (depois da caminhada forçada pela hostilidade, melhor, pela indiferença de Heathcliff), escuta a velha criada que vem costurar junto dele, "fazer-lhe companhia", por vezes por pouco tempo, tem que fazer, promete voltar logo, recomeça a contar.
Para Novembro, "O monte dos Vendavais", relembrar o narrador que sabe, porque doente (depois da caminhada forçada pela hostilidade, melhor, pela indiferença de Heathcliff), escuta a velha criada que vem costurar junto dele, "fazer-lhe companhia", por vezes por pouco tempo, tem que fazer, promete voltar logo, recomeça a contar.
Aqui e aqui fala-se dos tempos passados.
Na imprecisão (desejada?) das descrições reencontro, malgré tout, a praia da minha infância.
Mas não era imensa, ainda. Era grande, com barracas ao pé das escadas e os chapéus - os guarda-sóis - com e sem saia, perto do mar; entre, o caminho, num equilíbrio difícil de segurar baldes com forminhas, ancinhos e pás, bóias e dar a mão à criada, de cinzento claro e branco, como as manhãs a essas horas.
E falta: o homem dos barquilhos, as mulheres dos vários bolos, dos de Ançã e das queijadas de Pereira, as mulheres dos camarões e, deixando os comestíveis, os teatros de robertos, o Catitinha, as tardes no jardim e no Tennis, na piscina - onde se quase gelava em aulas de natação com o Prof Barrué, as matinées infantis no Casino - e as garraiadas - o Pátio das Galinhas, a Caravela, o Bazar 111, a Havaneza, os sorvetes na esplanada - os antigos, antes de deitaram abaixo as casas.
De tudo isto sobrevive incólume apenas a Havaneza.
E não colhe desculparem-se com o dizer que tratavam apenas de ofícios em extinção. Eu trato do ofício do ser criança com competência, espantadas incessantemente mesmo perante o igual e o comezinho, e com medos - de algumas conchinhas, de pulgas da areia, transparentes e minúsculas, do Catitinha, de deixar cair o sorvete na areia.
Na imprecisão (desejada?) das descrições reencontro, malgré tout, a praia da minha infância.
Mas não era imensa, ainda. Era grande, com barracas ao pé das escadas e os chapéus - os guarda-sóis - com e sem saia, perto do mar; entre, o caminho, num equilíbrio difícil de segurar baldes com forminhas, ancinhos e pás, bóias e dar a mão à criada, de cinzento claro e branco, como as manhãs a essas horas.
E falta: o homem dos barquilhos, as mulheres dos vários bolos, dos de Ançã e das queijadas de Pereira, as mulheres dos camarões e, deixando os comestíveis, os teatros de robertos, o Catitinha, as tardes no jardim e no Tennis, na piscina - onde se quase gelava em aulas de natação com o Prof Barrué, as matinées infantis no Casino - e as garraiadas - o Pátio das Galinhas, a Caravela, o Bazar 111, a Havaneza, os sorvetes na esplanada - os antigos, antes de deitaram abaixo as casas.
De tudo isto sobrevive incólume apenas a Havaneza.
E não colhe desculparem-se com o dizer que tratavam apenas de ofícios em extinção. Eu trato do ofício do ser criança com competência, espantadas incessantemente mesmo perante o igual e o comezinho, e com medos - de algumas conchinhas, de pulgas da areia, transparentes e minúsculas, do Catitinha, de deixar cair o sorvete na areia.
Dr. Paulo Pedroso
Creio que não simpatizo muito com o Dr. Paulo Pedroso que, desatento que sou à realidade política nacional, quase não conhecia.
Também não sou socialista.
Mas sempre pensei que a prisão preventiva decretada era uma gritante ilegalidade e, pior do que isso, injusta, por ter a convicção pessoal de que se encontra totalmente inocente dos factos por que é indiciado.
Dito isto: se é certo que todos os dias decisões dos tribunais de 1ª Instância são revogadas pelos tribunais superiores não deixam essas revogações de terem carizes diferentes consoante a sua substância.
No caso: as medidas de coacção obedecem, desde logo, a um princípio de proporcionalidade (artº 193º do Código do Processo Penal) devendo ser "adequadas às exigências cautelares que o caso requer e proporcionais à gravidade do crime e às sanções que previsivelmente venham a ser aplicadas". É o critério que a lei enuncia.
Veja-se, agora, em grau crescente de gravidade, quais são elas: termo de identidade e residência; caução, obrigação de apresentação períodica; suspensão de funções, de profissão e de direitos; proibição de permanência, de ausência e de contactos, obrigação de permanência na habitação - a chamada prisão domicilária; e, por último, a prisão preventiva.
Os Senhores Desembargadores decidiram-se pelo termo de identidade e residência...
Não tendo havido alterações significativas, como já se apressou a dizer o advogado daquele deputado, isto quer dizer que o termo de identidade e residência teria sido a medida adequada a aplicar quando o deputado foi ouvido pelo juiz de instrução, em Maio... nos antípodas do que foi então decidido
Ou seja, a prisão preventiva foi ilegal, termo que, tanto o deputado como o seu advogado já usaram para classificar a medida de coacção decretada pelo juiz de instrução.
O que, entre outras coisas, tem o efeito de constituir o Dr. Paulo Pedroso no direito a uma indemnização, conforma se pode ler no artº 225º do mesmo código: "Quem tiver sofrido detenção ou prisão preventiva manifestamente ilegal pode requerer, perante o tribunal competente, indemnização dos danos sofridos com a privação da liberdade". O acórdão, ao julgar como suficiente o termo de identidade e residência, abre caminho para que, seja qual for o desfecho do caso, haja lugar a indemnização.
Quem paga? Somos nós.
Conviria, no entanto, que o Dr. Paulo Pedroso se lembrasse, quando pedir a indemnização choruda a que tem direito, que tem o dever de contribuir para alterar o inacreditável código do processo penal, em parte produto da demissão cívica do P.S....
Creio que não simpatizo muito com o Dr. Paulo Pedroso que, desatento que sou à realidade política nacional, quase não conhecia.
Também não sou socialista.
Mas sempre pensei que a prisão preventiva decretada era uma gritante ilegalidade e, pior do que isso, injusta, por ter a convicção pessoal de que se encontra totalmente inocente dos factos por que é indiciado.
Dito isto: se é certo que todos os dias decisões dos tribunais de 1ª Instância são revogadas pelos tribunais superiores não deixam essas revogações de terem carizes diferentes consoante a sua substância.
No caso: as medidas de coacção obedecem, desde logo, a um princípio de proporcionalidade (artº 193º do Código do Processo Penal) devendo ser "adequadas às exigências cautelares que o caso requer e proporcionais à gravidade do crime e às sanções que previsivelmente venham a ser aplicadas". É o critério que a lei enuncia.
Veja-se, agora, em grau crescente de gravidade, quais são elas: termo de identidade e residência; caução, obrigação de apresentação períodica; suspensão de funções, de profissão e de direitos; proibição de permanência, de ausência e de contactos, obrigação de permanência na habitação - a chamada prisão domicilária; e, por último, a prisão preventiva.
Os Senhores Desembargadores decidiram-se pelo termo de identidade e residência...
Não tendo havido alterações significativas, como já se apressou a dizer o advogado daquele deputado, isto quer dizer que o termo de identidade e residência teria sido a medida adequada a aplicar quando o deputado foi ouvido pelo juiz de instrução, em Maio... nos antípodas do que foi então decidido
Ou seja, a prisão preventiva foi ilegal, termo que, tanto o deputado como o seu advogado já usaram para classificar a medida de coacção decretada pelo juiz de instrução.
O que, entre outras coisas, tem o efeito de constituir o Dr. Paulo Pedroso no direito a uma indemnização, conforma se pode ler no artº 225º do mesmo código: "Quem tiver sofrido detenção ou prisão preventiva manifestamente ilegal pode requerer, perante o tribunal competente, indemnização dos danos sofridos com a privação da liberdade". O acórdão, ao julgar como suficiente o termo de identidade e residência, abre caminho para que, seja qual for o desfecho do caso, haja lugar a indemnização.
Quem paga? Somos nós.
Conviria, no entanto, que o Dr. Paulo Pedroso se lembrasse, quando pedir a indemnização choruda a que tem direito, que tem o dever de contribuir para alterar o inacreditável código do processo penal, em parte produto da demissão cívica do P.S....
terça-feira, outubro 07, 2003
O caminho entre a casa e a escola - mais tarde o liceu, que ficava para os mesmos lados - pela parte antiga da cidadezinha era agradável. De manhã, no Inverno, havia no passeios estreitos braseiras de latão a atear, cobertas de papel de prata. À hora do almoço havia quem, no Verão, assasse sardinhas na rua. No regresso, à tardinha, de novo algumas braseiras a espevitar, os preparativos para o jantar. E idas e vindas da mercearia, do lugar da fruta, conversas de vizinhas.
Hoje, esse caminho é um desolado deserto.
O ermamento não é a consequência inevitável do "passar do tempo", do "progresso". Tem causas precisas: a lei do arrendamento e o seu corolário, o recurso ao empréstimo bancário - mais facilmente concedido para "habitação nova" do que para restauro, o novo riquismo das concepções urbanísticas de preservação de cenários mais do que de estilos de vida, de modos de estar.
Hoje, esse caminho é um desolado deserto.
O ermamento não é a consequência inevitável do "passar do tempo", do "progresso". Tem causas precisas: a lei do arrendamento e o seu corolário, o recurso ao empréstimo bancário - mais facilmente concedido para "habitação nova" do que para restauro, o novo riquismo das concepções urbanísticas de preservação de cenários mais do que de estilos de vida, de modos de estar.
segunda-feira, outubro 06, 2003
Amanhã era o dia em que, quando andava na escola e nos primeiros anos de liceu, as aulas começavam.
Lembro-me do meu primeiro dia de escola a sério, sem plasticinas nem guaches, sem o "Livro da Capa Verde" que havia sucedido à "Cartilha Maternal".
Ontem, via o documentário sobre Brel na "arte" , as datas das entrevistas embaraçavam-se nessas outras desses começos, impensada banda sonora dos sentimentais tempos silenciosos que lembravam.
Lembro-me do meu primeiro dia de escola a sério, sem plasticinas nem guaches, sem o "Livro da Capa Verde" que havia sucedido à "Cartilha Maternal".
Ontem, via o documentário sobre Brel na "arte" , as datas das entrevistas embaraçavam-se nessas outras desses começos, impensada banda sonora dos sentimentais tempos silenciosos que lembravam.
Impensavel agradece
O Almocreve das Petas adicionou o impensavel à sua lista de blogues.
Aproveita-se para recomendar o post sobre o artigo de António Guerreiro.
e toda a solidariedade com as desventuras no pequeno slam.
O Almocreve das Petas adicionou o impensavel à sua lista de blogues.
Aproveita-se para recomendar o post sobre o artigo de António Guerreiro.
e toda a solidariedade com as desventuras no pequeno slam.
domingo, outubro 05, 2003
"O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo alastrara em Portugal - até na velhota, na devota Oliveira...
- Quando eu andava em preparatórios existiam simplesmente dois republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Retórica, e eu. Agora há partido, há comité, há dois jornais. E há mesmo o Barão das Marges com a Voz Pública na mão, debaixo da Arcada..."
André Cavaleiro acrescentava que "Portugal, nas suas massas profundas permanecia monárquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas escolas flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja que se limpava facilmente com um sabre..."
A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz
Veio a república, e veio o sabre. Republicano.
- Quando eu andava em preparatórios existiam simplesmente dois republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Retórica, e eu. Agora há partido, há comité, há dois jornais. E há mesmo o Barão das Marges com a Voz Pública na mão, debaixo da Arcada..."
André Cavaleiro acrescentava que "Portugal, nas suas massas profundas permanecia monárquico, de raiz. Apenas ao de cima, na burguesia e nas escolas flutuava uma escuma ligeira, e bastante suja que se limpava facilmente com um sabre..."
A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queiroz
Veio a república, e veio o sabre. Republicano.
sábado, outubro 04, 2003
These tested Our Horizon -
Then disappeared
As Birds before achiving
A Latitude.
Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Antecipation
A Dice - a Doubt -
Puseram-nos à prova o Horizonte -
E depois desapareceram
Como pássaros antes de atingiram
A Latitude
O nosso Retrospecto
Deleite definido,
Mas posso Antecipar
Um Lance - Dúvida.
Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena,
este sábado.
Then disappeared
As Birds before achiving
A Latitude.
Our Retrospection of Them
A fixed Delight,
But our Antecipation
A Dice - a Doubt -
Puseram-nos à prova o Horizonte -
E depois desapareceram
Como pássaros antes de atingiram
A Latitude
O nosso Retrospecto
Deleite definido,
Mas posso Antecipar
Um Lance - Dúvida.
Emily Dickinson, tradução de Jorge de Sena,
este sábado.
sexta-feira, outubro 03, 2003
Este blog sobre filosofia, tranquilo e pensativo, que recusou com serenidade as regras do jogo bloguístico - sejam elas e ele os mais lícitos - é um bom sítio para se ir passear.
Chama-se - chamou-se? - (In)totalidades
Chama-se - chamou-se? - (In)totalidades
Breve jornada a Lorbrulgrud
Entrei num café de província. Por entre a cerração do sono divisei, num tabuleiro, entre outras formas disformes e monstras, uma descomunal rodela enviesada, coberta de creme amarelo: era o que, quando eu era pequeno, se chamava pata de veado, um bolo pequeno, que se comia na praia; duas monstruosas semiesferas unidas por um magma amarelo alaranjado e parcialmente fundido era o que eu conhecia sob o nome de bolas de Berlim; uma massa gigantesca, compromisso entre um crustáceo hostil e um folar, revelou-se um "croissant"; uns alguidares de tamanho regular com uma massa preta deduzi que fossem pastéis de nata. Na mesma prateleira, na mesma escala de grandeza e suponho que de metamorfose repousavam outros colossos de pastelaria.
Lembrei-me do perfume das rosas do Principe do Leopardo, transformado num violento odor de lupanar sob os efeitos do sol siciliano e meditei sobre o que teria produzido um efeito similar em relação aos bolos.
A meio das minhas divagações entrou uma cliente, de bata de laboratório, e disse que "ia querer um café e um bolinho".
Apercebi-me das dimensões swiftescas do meu paternalismo, despedi-me, paguei, saí.
Entrei num café de província. Por entre a cerração do sono divisei, num tabuleiro, entre outras formas disformes e monstras, uma descomunal rodela enviesada, coberta de creme amarelo: era o que, quando eu era pequeno, se chamava pata de veado, um bolo pequeno, que se comia na praia; duas monstruosas semiesferas unidas por um magma amarelo alaranjado e parcialmente fundido era o que eu conhecia sob o nome de bolas de Berlim; uma massa gigantesca, compromisso entre um crustáceo hostil e um folar, revelou-se um "croissant"; uns alguidares de tamanho regular com uma massa preta deduzi que fossem pastéis de nata. Na mesma prateleira, na mesma escala de grandeza e suponho que de metamorfose repousavam outros colossos de pastelaria.
Lembrei-me do perfume das rosas do Principe do Leopardo, transformado num violento odor de lupanar sob os efeitos do sol siciliano e meditei sobre o que teria produzido um efeito similar em relação aos bolos.
A meio das minhas divagações entrou uma cliente, de bata de laboratório, e disse que "ia querer um café e um bolinho".
Apercebi-me das dimensões swiftescas do meu paternalismo, despedi-me, paguei, saí.
Advogado, vice-presidente de uma grande companhia de advogados, especialista em investimentos bancários, escrevia assim:
We do not prove the existence of the poem.
It is something seen and known in lesser poems.
It is the huge, high harmony that sounds
A little and a little, suddenly,
By means of a separate sense. It is and it
Is not and, therefore, is. In the instant of speech,
The breadth of an accelerando moves,
Captives the being, widens - and was there.
Chamava-se Wallace Stevens
O poema completo aqui
We do not prove the existence of the poem.
It is something seen and known in lesser poems.
It is the huge, high harmony that sounds
A little and a little, suddenly,
By means of a separate sense. It is and it
Is not and, therefore, is. In the instant of speech,
The breadth of an accelerando moves,
Captives the being, widens - and was there.
Chamava-se Wallace Stevens
O poema completo aqui
quinta-feira, outubro 02, 2003
O Impensavel agradece
Ao Mata-Mouros a inclusão do Impensavel nos blogues "estimulantes".
Também o Quarta Vaga, ainda um projecto de blog, adicionou o Impensavel aos seus links.
Ao Mata-Mouros a inclusão do Impensavel nos blogues "estimulantes".
Também o Quarta Vaga, ainda um projecto de blog, adicionou o Impensavel aos seus links.
Referendo Europeu
Queria manter o Impensavel longe das coisas do dia a dia. Impossível, porém, ignorar a questão.
O que se passa seria um escândalo se não fora previsível.
A "classe política" portuguesa nutre pelas decisões do "povo" a maior das desconfianças. Ao pessimismo paternalista do anterior regime que, em parte, aliás, adoptou e faz parte do seu "hidden curriculae" mental, veio juntar-se o actual, filiado próxima ou remotamente no marxismo, que considerava o "povo" - ou parte dele - , incapaz de se libertar, por si, dos grilhões que o subjugavam (veja-se, sobre o assunto, Sir Isaiah Berlin, "Realism in Politics" ) e de, por isso, escolher o seu destino sem o auxílio mais ou menos organizado de luminárias benfazejas.
O desconhecimento do que "realmente está em jogo", as complexidades da política europeia ou o desinteresse do "povo" (ou seja, o medo de que o "povo" decida "mal") são as desculpas que os membros da "classe política" - os que não querem o referendo e os que fingem que o querem - dão para que o novo tratado europeu não seja submetido a votos (os melhores deles pensarão, talvez, que um eleitorado "bem informado" votaria "bem", mas que com "este" - connosco - é um risco).
Uns e outros comungam, ainda, sob a capa do "realismo político" na mesma crença, na inevitabilidade, no sentido único e, por isso, afligem-se com isto de poder a vontade popular vir atrapalhar a capitulação provinciana perante as potências, perante um inelutável "estado das coisas" que eles há muito decidiram.
Para consumo interno arranjam-se desculpas e pretextos que nos entretenham. Irrelevantes, mesmo os mais bem tecidos.
Os pecados do passado, dizia alguém, projectam longas sombras.
Queria manter o Impensavel longe das coisas do dia a dia. Impossível, porém, ignorar a questão.
O que se passa seria um escândalo se não fora previsível.
A "classe política" portuguesa nutre pelas decisões do "povo" a maior das desconfianças. Ao pessimismo paternalista do anterior regime que, em parte, aliás, adoptou e faz parte do seu "hidden curriculae" mental, veio juntar-se o actual, filiado próxima ou remotamente no marxismo, que considerava o "povo" - ou parte dele - , incapaz de se libertar, por si, dos grilhões que o subjugavam (veja-se, sobre o assunto, Sir Isaiah Berlin, "Realism in Politics" ) e de, por isso, escolher o seu destino sem o auxílio mais ou menos organizado de luminárias benfazejas.
O desconhecimento do que "realmente está em jogo", as complexidades da política europeia ou o desinteresse do "povo" (ou seja, o medo de que o "povo" decida "mal") são as desculpas que os membros da "classe política" - os que não querem o referendo e os que fingem que o querem - dão para que o novo tratado europeu não seja submetido a votos (os melhores deles pensarão, talvez, que um eleitorado "bem informado" votaria "bem", mas que com "este" - connosco - é um risco).
Uns e outros comungam, ainda, sob a capa do "realismo político" na mesma crença, na inevitabilidade, no sentido único e, por isso, afligem-se com isto de poder a vontade popular vir atrapalhar a capitulação provinciana perante as potências, perante um inelutável "estado das coisas" que eles há muito decidiram.
Para consumo interno arranjam-se desculpas e pretextos que nos entretenham. Irrelevantes, mesmo os mais bem tecidos.
Os pecados do passado, dizia alguém, projectam longas sombras.
Eu queria viver no Maine, ou em Sussex, ou no Tennessee, numa casa sóbria e velha, escrever coisas límpidas, avesso a comparações, dotado na arte da elipse, olhar quieto paisagens planas lineares e pias - senão esparsos outeiros sinópticos, algum pasto - e nelas pouca gente, a metáfora de tudo isso ágil.
Mas nasci em Lisboa, pisco de olhos, moro sei lá onde e nas elipses tão amadas não sei fazer caber o que não digo.
Mas nasci em Lisboa, pisco de olhos, moro sei lá onde e nas elipses tão amadas não sei fazer caber o que não digo.
quarta-feira, outubro 01, 2003
Carta de Camilo Castelo Branco
"Il.mo e Ex.mo Sr.
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia, que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex. a Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex. a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex. a dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex. a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conheceu."
Li e reli esta carta, uma das últimas que escreveu.
A primeira impressão foi má: afinal, Camilo era uma glória nacional, os seus problemas de olhos há muito conhecidos e lastimados nos jornais, um bilhete cortês e simples teria bastado, sobejado, para que o médico acorresse a observar o Escritor.
Lastimei o desejo de efeito, o mau gosto, a pletora retórica, o exibicionismo da desgraça, lamentei o meu sorriso diante do que me pareceu uma falta de escrúpulos perante si mesmo e da própria dor, e eis que, aqui e de repente, reconheço onde estou, a mão que me trouxe para cá. Indigno-me, rio, comovo-me.
Os grandes escritores não têm correspondência particular
"Il.mo e Ex.mo Sr.
Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho.
Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego.
Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia, que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas.
Há poucas horas ouvi ler no Comércio do Porto o nome de V. Ex. a Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança.
Poderá V. Ex. a salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso.
Mas poderá V. Ex. a dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue?
Digne-se V. Ex. a perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conheceu."
Li e reli esta carta, uma das últimas que escreveu.
A primeira impressão foi má: afinal, Camilo era uma glória nacional, os seus problemas de olhos há muito conhecidos e lastimados nos jornais, um bilhete cortês e simples teria bastado, sobejado, para que o médico acorresse a observar o Escritor.
Lastimei o desejo de efeito, o mau gosto, a pletora retórica, o exibicionismo da desgraça, lamentei o meu sorriso diante do que me pareceu uma falta de escrúpulos perante si mesmo e da própria dor, e eis que, aqui e de repente, reconheço onde estou, a mão que me trouxe para cá. Indigno-me, rio, comovo-me.
Os grandes escritores não têm correspondência particular
O Mar Salgado fez ontem uma amável referência ao Impensável e incluiu-o nos blogues "boa onda".
Agradeço reconhecidamente.
Agradeço reconhecidamente.
segunda-feira, setembro 29, 2003
A menção que o Homem a dias fez ao Impensavel provocou um inesperado afluxo de visitas.
Sinto o embaraço do desleixado que, perdido o hábito de receber e visitado sem aviso por amigos que há muito não vê, fica sem gelo e água de picos à primeira rodada.
Sinto o embaraço do desleixado que, perdido o hábito de receber e visitado sem aviso por amigos que há muito não vê, fica sem gelo e água de picos à primeira rodada.
Suetonius Tranquillus, afirma o prefaciador da minha edição da Vida dos Doze Césares, é surpreendentemente moderno.
É uma advertência necessária, para que não nos deixemos cegar pela transparência do texto, feita, em parte, de uma coloquialidade ao gosto de hoje.
Esquecer que a limpidez dos seus textos é espessa far-nos-ia incorrer no risco de lermos Suétonio como um "pastiche" dele mesmo.
É uma advertência necessária, para que não nos deixemos cegar pela transparência do texto, feita, em parte, de uma coloquialidade ao gosto de hoje.
Esquecer que a limpidez dos seus textos é espessa far-nos-ia incorrer no risco de lermos Suétonio como um "pastiche" dele mesmo.
domingo, setembro 28, 2003
"Salomon a dit avoir tout vu sous le soleil. Je pourrais citer quelqu'un qui ne mentirait point, quand il dirait avoir vu quelque chose de plus: c'est à dire, ce qu'il y a au-dessus du soleil, et ce quelqu'un est bien loin de s'en glorifier"
"Salomão disse ter tudo visto sob o sol. Eu poderia citar quem não mentiria quando dissesse ter visto algo mais: ou seja, o que há acima do sol, e esse alguém está longe de por tal se enaltecer"
Louis Claude de Saint Martin
Citado por E. Cioran
in "Essai sur la pensée reactionnaire"
"Salomão disse ter tudo visto sob o sol. Eu poderia citar quem não mentiria quando dissesse ter visto algo mais: ou seja, o que há acima do sol, e esse alguém está longe de por tal se enaltecer"
Louis Claude de Saint Martin
Citado por E. Cioran
in "Essai sur la pensée reactionnaire"
sábado, setembro 27, 2003
Voltando a Eça
Exiguidadade, dizia. Duas e diferentes: a do leitor, obrigado desde logo à inverosimilhança, à implausibilidade jacíntica ( a sua fortuna pessoal, quase impossível no Portugal de então, os "gadjets" do 202, os seus paradoxos), de onde, no entanto, tem de partir, exiguidade aumentada pela abundância de referências, de "locais" de interpretação que, também, abundantemente, se anulam - O Zé Fernandes do excurso ao Sacré Coeur, e o que sobe as serras no burro de Sancho Pança, o Zé Fernandes intérprete dos nossos pasmos, na busca de razoabilidade e o Zé Fernandes das paixões infames...
E exiguidade de Jacinto, que é de outra natureza, uma exiguidade da distância consciente entre o eu e o mundo", de Denkraum, enquanto "acto fundador da civilização humana" (Aby Warburg e a História como memória (António Guerreiro, Revista História das Ideias, Vol. 23, 2002 pgs. 389 e sgs) e de que Jacinto inteiramente prescinde de refundar em si, com o seu utilitarismo (Suma potência x Suma ciência = Suma felicidade)
Essa distância fundadora é, de facto, inexistente ou exígua num Jacinto que se confunde, se dissolve na cidade: "E depois (acrescentava), só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um aconchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana murchando, cheia de lumes e de armas..." (itálicos do bloguista)
A solidariedade - e a fraternidade - jacintiana com seu semelhante citadino é forjada, porém, na solidariedade de produção de conhecimento, de significado: "Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de Armazens servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima de fios de telegrafos, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de de uma humanidade fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sobre a ilusão do gozo - o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver".
Em oposição, as serras - e a natureza - não serão tanto a "natureza" fisicamente falando, quanto um locus, ou um objecto não epistemológico, não diferenciado , que não podemos interrogar - "Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores" - e que, ao não nos questionar, nos priva de identidade, nos hostiliza: Jacinto "estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal"
E onde está Zé Fernandes?
Exiguidadade, dizia. Duas e diferentes: a do leitor, obrigado desde logo à inverosimilhança, à implausibilidade jacíntica ( a sua fortuna pessoal, quase impossível no Portugal de então, os "gadjets" do 202, os seus paradoxos), de onde, no entanto, tem de partir, exiguidade aumentada pela abundância de referências, de "locais" de interpretação que, também, abundantemente, se anulam - O Zé Fernandes do excurso ao Sacré Coeur, e o que sobe as serras no burro de Sancho Pança, o Zé Fernandes intérprete dos nossos pasmos, na busca de razoabilidade e o Zé Fernandes das paixões infames...
E exiguidade de Jacinto, que é de outra natureza, uma exiguidade da distância consciente entre o eu e o mundo", de Denkraum, enquanto "acto fundador da civilização humana" (Aby Warburg e a História como memória (António Guerreiro, Revista História das Ideias, Vol. 23, 2002 pgs. 389 e sgs) e de que Jacinto inteiramente prescinde de refundar em si, com o seu utilitarismo (Suma potência x Suma ciência = Suma felicidade)
Essa distância fundadora é, de facto, inexistente ou exígua num Jacinto que se confunde, se dissolve na cidade: "E depois (acrescentava), só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessária à vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris dois milhões de seres arquejando na obra da Civilização (para manter na natureza o domínio dos Jacintos!) sentia um sossego, um aconchego, só comparáveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no seu dromedário, e avista a longa fila da caravana murchando, cheia de lumes e de armas..." (itálicos do bloguista)
A solidariedade - e a fraternidade - jacintiana com seu semelhante citadino é forjada, porém, na solidariedade de produção de conhecimento, de significado: "Nem este meu super-civilizado amigo compreendia que longe de Armazens servidos por três mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de Fábricas fumegando com ânsia, inventando com ânsia; e de Bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo e por cima de fios de telegrafos, de canos de gases, de canos de fezes; e da fila atroante dos omnibus, tramways, carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois milhões de de uma humanidade fervilhando, a ofegar, através da Polícia, na busca dura do pão ou sobre a ilusão do gozo - o homem do século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver".
Em oposição, as serras - e a natureza - não serão tanto a "natureza" fisicamente falando, quanto um locus, ou um objecto não epistemológico, não diferenciado , que não podemos interrogar - "Depois, em meio da Natureza, ele assistia à súbita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades superiores" - e que, ao não nos questionar, nos priva de identidade, nos hostiliza: Jacinto "estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse fraternal"
E onde está Zé Fernandes?
sexta-feira, setembro 26, 2003
"A Cidade e as Serras": um narrador tão solícito e amável quanto pouco fiável. Em breve ficamos, como Jacinto, sem apoios, sem bagagem e referências, entregues a nós mesmos, pobres, exíguos, à mercê das serras, do exterior imenso. A ele - e a nós, leitores confundidos, mistificados - caberia então a (re)criação da distância a partir dessa exiguidade, refazer o exterior ou possibilidade de exterioridade "salvífica".
Uhm.... continuar a conversa (com Eça...)
Uhm.... continuar a conversa (com Eça...)
quinta-feira, setembro 25, 2003
As minhas experiências gastronómicas são acanhadamente auto-referentes: se é peixe que como e o peixe está bom, limito-me a sentir de forma palatal e impoluta o prazer de quem come bom peixe bem cozinhado. "Mutatis mutandis" para as más experiências. Nunca extraí de uma posta de peixe mais do que o sabor de uma posta de peixe: nem justificações de crenças, nem invocações de estados de alma.
Relembro, por vezes, um gosto passado, mas lembro apenas o gosto, o sabor, em estado puro, liberto de outras memórias.
Relembro, por vezes, um gosto passado, mas lembro apenas o gosto, o sabor, em estado puro, liberto de outras memórias.
Retirei um "post" de há horas atrás. O pretexto que me dei para o fazer foi o mau funcionamento do "link" de que dependia, em parte, a sua compreensão. O verdadeiro motivo, porém, foi outro: não deixar que o imediato impere, comande.
A insignificância do "post", o reduzido - eufemismo para a meia dúzia - número de leitores, a certeza de que ninguém o citou como fonte deixam-me quase tranquilo.
A insignificância do "post", o reduzido - eufemismo para a meia dúzia - número de leitores, a certeza de que ninguém o citou como fonte deixam-me quase tranquilo.
quarta-feira, setembro 24, 2003
Tarde de madraçaria à secretária. Leio um artigo sobre Warburg que entrecorto com consultas às livrarias "on line", mas não encontro o estudo sobre Dürer. Encontrei, no entanto, os Ensaios Florentinos que adicionei ao "panier".
Espreito, várias vezes, a freguesia do blog. Fraca.
Quando comecei o blog, no já longínquo anteontem, pensei-o como um diário, hesitei ainda - pouco, concedo - em torná-lo público. Opção tomada e eis-me transformado num merceeiro calculista, com vistas invejosas à "concorrência" que diminuem o gosto da leitura e me provocam sofrimento moral.
Vou jantar fora.
Espreito, várias vezes, a freguesia do blog. Fraca.
Quando comecei o blog, no já longínquo anteontem, pensei-o como um diário, hesitei ainda - pouco, concedo - em torná-lo público. Opção tomada e eis-me transformado num merceeiro calculista, com vistas invejosas à "concorrência" que diminuem o gosto da leitura e me provocam sofrimento moral.
Vou jantar fora.
Na Veneza de Casanova, ainda na do século XIX, impressionavam-se os visitantes (entre eles, o "nosso" 7º Marquês de Fronteira, D. José de Mascarenhas) com a ausência dos "ruídos da civilização": os dos rodado das carruagens, dos cascos dos cavalos.
Sobre esse silêncio enganador, jocoso, constrói Casanova a sua vida.
"Le genre humain est excessivement avide de récits" traduziu Montaigne do Natura Rerum de Lucrécio. Com Casanova, essa avidez mesma, libertária, converte-se em núcleo fundador do eu de que todos somos ainda herdeiros.
Sobre esse silêncio enganador, jocoso, constrói Casanova a sua vida.
"Le genre humain est excessivement avide de récits" traduziu Montaigne do Natura Rerum de Lucrécio. Com Casanova, essa avidez mesma, libertária, converte-se em núcleo fundador do eu de que todos somos ainda herdeiros.
terça-feira, setembro 23, 2003
O protegido do Cardeal de Bernis, Casanova, inspirou a receita.
Dedico às vítimas da tradição inventada que fez do Verão uma estação aprazível e destes dias uma antecâmara do negrume solisticial em que os sentidos sucumbem.
Cocktail Casanova
1 orange
1 cuillerée de bitter (campari)
1 cuillerée à café de gingembre
4 cuillerées de Cognac
2 cuillerées de vielle cure
1 pincée de poivre de cayenne
Il est des circonstances où la fatigue, le surménage, la sobrieté demandent un secours.
Voici donc une formule, longuement eprouvée, pour repondre à ce besoin.
De plus, ce melange coup de fouet ne se prend pas avec la grimace de dégoût dont s'accompagne souvent l'ingestion des remèdes.
Pressez l'orange.
Au fond d'un verre, mettez le poivre et le gingembre.
Versez dessus le bitter, le cognac et la vielle cure. Metiez au refrigerateur, dans le freezer même.
Au bout d'une demi-heure, sortez et ajoutez le.jus d'orange dans le verre glace.
Buvez et attendez le résultat.
Il est suffisement rapid...
in "Les dinêrs de Gala", Salvador Dali
Dedico às vítimas da tradição inventada que fez do Verão uma estação aprazível e destes dias uma antecâmara do negrume solisticial em que os sentidos sucumbem.
Cocktail Casanova
1 orange
1 cuillerée de bitter (campari)
1 cuillerée à café de gingembre
4 cuillerées de Cognac
2 cuillerées de vielle cure
1 pincée de poivre de cayenne
Il est des circonstances où la fatigue, le surménage, la sobrieté demandent un secours.
Voici donc une formule, longuement eprouvée, pour repondre à ce besoin.
De plus, ce melange coup de fouet ne se prend pas avec la grimace de dégoût dont s'accompagne souvent l'ingestion des remèdes.
Pressez l'orange.
Au fond d'un verre, mettez le poivre et le gingembre.
Versez dessus le bitter, le cognac et la vielle cure. Metiez au refrigerateur, dans le freezer même.
Au bout d'une demi-heure, sortez et ajoutez le.jus d'orange dans le verre glace.
Buvez et attendez le résultat.
Il est suffisement rapid...
in "Les dinêrs de Gala", Salvador Dali
Começo do Outono.
Depois do calor opressivo, da luz áspera, os dias suaves, a sombra que renasce e funde na incerteza os tons.
Sobre eles, a escarlata do Cardeal de Bernis, das suas Mémoires onde descubro um homem de bem consigo mesmo e quase melancólico, preocupado por se haver perdido a "art de raconter" que os súbditos de Luis XIV cultivavam.
Depois do calor opressivo, da luz áspera, os dias suaves, a sombra que renasce e funde na incerteza os tons.
Sobre eles, a escarlata do Cardeal de Bernis, das suas Mémoires onde descubro um homem de bem consigo mesmo e quase melancólico, preocupado por se haver perdido a "art de raconter" que os súbditos de Luis XIV cultivavam.
segunda-feira, setembro 22, 2003
Eça de Queiroz nas Cartas de Inglaterra descreve a Lecture-Season : "Os assuntos são tudo - desde a ideia de Deus até à melhor maneira de fabricar graxa. E os conferentes são todo o mundo - desde o Professor Huxley até um qualquer cavalheiro, o senhor Fulano de Tal, que sobe à plataforma a contar as suas impressões de viagem às ilhas Fidji, ou aptidões curiosas que observou no seu cão..."
Os blogs são a vitória do cão do senhor Fulano de
Tal e do seu dono, este último espécime quase mudo em Portugal no tempo em que Eça escrevia
Mas ei-lo aí, agora, conferenciando.
Os blogs são a vitória do cão do senhor Fulano de
Tal e do seu dono, este último espécime quase mudo em Portugal no tempo em que Eça escrevia
Mas ei-lo aí, agora, conferenciando.
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